Por Roberto Schmitt-Prym (Editora Bestiário)

Esta é a coleção completa dos haicais do monge budista Ryōkan Taigu, em edição bilíngue.

A produção poética de Ryôkan se encontra dispersa em diários, cartas, anotações, leques, biombos, trabalhos de caligrafia, desenhos e outras obras que ele produziu ao longo da vida e que foram preservadas pelas pessoas que conviveram com ele. Assim, os haicais desta antologia se apresentam numa ordem não cronológica, baseada na forma tradicional das coletâneas de poesia do Japão, que agrupa poemas em torno de temas sazonais.

Foto do livro. Créditos: Mateus Nascimento

Como figura humana, a posteridade se encarregou de disseminar anedotas, muitas das quais apócrifas, sobre o suposto caráter excêntrico de Ryôkan. Ele é visto como um mendigo, um velho louco, uma personagem um pouco patética — um eremita que vivia isolado do mundo dos homens, na mais abjeta miséria. Os poemas desta antologia ajudarão talvez a compreender a profunda visão humana que havia por trás dessa figura considerada por muitos como “digna de pena”. A sua vida ascética foi um poderoso instrumento espiritual, permitindo que ele visse as coisas e as pessoas com mais liberdade — e que as descrevesse com maior franqueza.

Estátua do poeta em Niigata. Crédito: Enciclopédia Britannica (https://www.britannica.com/biography/Ryokan)

Ryôkan Taigu (良寛大愚) (Izumozaki, na atual Fukushima, 1758-1831) foi um poeta, caligrafista e monge zen-budista que viveu grande parte de sua vida como um eremita. É lembrado como o grande poeta do zen-budismo e comparado a Francisco de Assis em seu significado como religioso para os budistas.

Os nomes religiosos com os quais se intitulou significam “Vasta Tolerância” (Ryōkan) e “Grande Louco” (Taigu), mas os relatos dos seus contemporâneos também falam do seu calor humano e compaixão. Aos dezoito anos, decidiu entrar em um mosteiro. Estudou com o famoso professor Kokusen Roshi da escola Sotō. Após a morte de seu mestre, Ryōkan passou os próximos vinte anos em um eremitério nas montanhas. Embora não tenha escrito em um único estilo, por possuir um espírito inovador, grande parte dos seus mais de 1.400 poemas foram compilados por pesquisadores (Ryokan somente distribuía poemas a amigos). O poeta praticou largamente o haicai.

Em 1826, Ryōkan ficou doente e não pôde continuar vivendo como eremita. Ele se mudou para a casa de um dos seus patronos, Kimura Motouemon, e foi cuidado por Teishin, pela qual se apaixona e, embora raramente estivessem juntos, nos próximos três anos escreveu o que, aparentemente, são alguns dos mais belos poemas de amor da literatura japonesa.

Ficha técnica:

Título: TODOS OS HAICAIS. Autor: Ryōkan Taigu. Tradução: Roberto Schmitt-Prym. Ensaio: Andrei Cunha. Publicação: Bestiário/Class, 2020.


Mateus Nascimento

Historiador. Mestre em História pela Universidade Federal Fluminense (PPGHS/UFF). Pesquisador do MidiÁsia (Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática Contemporânea) e do CEA (Centro de Estudos Asiáticos), ambos na UFF. Também é colunista e apresentador na Revista Intertelas.

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