Por Alessandra Scangarelli (Via Intertelas)

O cinema é um espaço bastante amplo e que contempla diversas abordagens e representações da realidade, inclusive de questões bastante delicadas como o conflito Israel-Palestina. Afinal, mesmo em uma das regiões mais problemáticas do planeta, a vida dos que ainda permanecem por lá continua. Parece difícil para muitos compreenderem como as maiores amenidades das relações sociais podem seguir em curso, ainda que uma guerra, um território ocupado e tantas outras formas de violência extrema estejam presentes no dia-a-dia dos habitantes que estão expostos a sucessivos ataques armados.

Mais, há quem não acredite, porém gêneros como a comédia podem ser a escolha perfeita para lançar um olhar mais complexo e bastante humano, com sutilezas provocantes, críticas que ficam nas entrelinhas, utilizando de ironia e sarcasmo para criar um quadro diferente e bastante interessante de um assunto que sempre é lembrado pelo drama da guerra. Estas características podem ser encontradas em “Tel Aviv em Chamas” (2018), distribuído no Brasil pela Pandora Filmes e um dos últimos trabalhos de Sameh Zoabi, nascido em Iksal, uma aldeia palestina, localizada próxima à cidade de Nazaré.

Nesta história, o personagem principal Salam (Kais Nashif), um assistente de produção palestino, conduz o espectador pelos bastidores da gravação de uma telenovela palestina que leva o mesmo nome do filme. Quem já teve alguma experiência com o cotidiano de uma produção audiovisual, sabe o quão caóticos e imersivos os dias de gravação podem ser para os envolvidos. E isso ocorre independentemente da nacionalidade e do país. É um traço comum deste ramo profissional. Ao levar isto em conta, duplique a tensão no contexto de uma novela que está sendo gravada na própria Palestina e cujo enredo central em si tem como tema o conflito local.

Crédito: Samsa Film – TS Productions – Lama F… Productions.

Assim, Salam para sair de sua casa e ir até o estúdio necessita cruzar o posto de controle entre as cidades de Jerusalém e Ramala, diariamente. São nestes momentos chaves que é possível ter uma noção do absurdo que tal situação impõe às pessoas, aos cidadãos palestinos em geral, como a limitação da liberdade de ir e vir, a desigualdade social, a desconfiança e a violência, às vezes passiva, mas não menos cruel, das autoridades e de uma elite israelense, que através de seu braço armado, despoja os palestinos da condição de cidadãos, ao desprovê-los de direitos básicos, na própria casa deles.

É no posto de controle que Salam conhece o oficial do exército israelense Assi (Yaniv Biton), que acompanha a novela “Tel Aviv em Chamas” com sua mulher, Tala (Lubna Azabal) e que ao saber do ofício de Salam começa a querer ter suas opiniões e sugestões para o desenrolar da trama levadas em conta. Ao contrário do que se espera, Salam encontra nestas conversas impostas por Assis uma oportunidade profissional.

Ele começa a se apropriar das ideias do militar e sugerí-las à equipe de produção, o que lhe proporciona aos poucos um lugar de destaque e confiança, tornando-o o roteirista principal. No entanto, o escritor novato vai precisar ter muita sabedoria para lidar com as perspectivas, com o ambiente conflituoso e dividido, mas, principalmente, com os anseios contrários dos investidores palestinos e do oficial israelense para o final da história. Será preciso muita sagacidade e criatividade para chegar a um resultado que satisfaça a todos.

Crédito: Samsa Film – TS Productions – Lama F… Productions.

“Tel Aviv em Chamas” torna-se uma produção especial ao conseguir transmitir através de sua trama e diálogos um ambiente de constante tensão, de opiniões inflamadas de ambos os lados, mas, acima de tudo, de ambições políticas e pessoais que estão presentes nas constantes falhas da personalidade humana que ao invés de auxiliar, só tornam os contextos mais difíceis para que a vida em comunidade seja possível. E tudo isso com um bom toque cômico. A cenografia e a fotografia da obra auxiliam a criar a atmosfera do humor oscilante dos personagens.

Na realidade, são elementos de extrema importância para induzir, ou transferir ao público as emoções daqueles personagens. Porém, certamente, de nada adiantaria sem a interpretação e a interação entre Kais Nashif e Yaniv Biton. Estes formam uma dupla única, capaz de transpassar diversas vezes a linha entre amizade e inimizade, entre colaboração e disputa, que acontece em um cenário repleto de manipulações que objetivam promover interesses particulares e também dos povos que os personagens ali representam. Pela sua extrema humanidade, no que há de melhor e pior, “Tel Aviv em Chamas” é uma abordagem diferenciada sobre o conflito e como opção cinematográfica promove entretenimento e reflexão.

Ficha Técnica:

País: Israel, França, Luxemburgo e Bélgica | Direção: Sameh Zoabi | Roteiro: Dan Kleinman e Sameh Zoabi | Elenco: Kais Nashif, Lubna Azabal, Yaniv Biton | Duração: 100 min. | Ano: 2018


Alessandra Scangarelli

Jornalista, escritora e tradutora. Especialista em Política Internacional (PUC/RS) e Mestre em Estudos Estratégicos Internacionais (UFRGS/RS). Trabalhou como assistente de produção e conteúdo em algumas empresas de cinema do Rio de Janeiro e vem contribuindo para diversos sites jornalísticos, acadêmicos e de conteúdo em geral.

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