Felizes para sempre: uma série para a sua maratona

Por Beco da Índia

No cardápio de séries de serviços de streamings que servem como alternativa para os que estão em isolamento necessário para evitar contaminações do Covid 19, há uma opção que funciona como uma espécie de janela. Por ela, você pode observar os conflitos do velho e do novo na tradicional sociedade em uma Índia do século 21. É Felizes para Sempre (Made in Heaven), série original da Amazon Prime Video, que estreou em março de 2019, com nove episódios até agora.

Se o dito popular afirma que os casamentos são feitos no céu, a série mostra que nem sempre é assim e ousa abrir algumas portas dos armários daquela sociedade, ao mesmo tempo em que exibe as cores exuberantes, o brilho, as músicas e as danças exuberantes desses eventos. É bom lembrar que todo o Sul da Ásia, e a Índia em especial, são líderes globais do mercado de casamento.

“A realidade é bem diferente”, avisa o trailer da série, escrito e dirigido por mulheres. “Made in Heaven” é o nome da empresa de organização de casamentos dos sócios Karan (papel desempenhado por Arjun Mathur) e Tara (Sobhita Dhulipala), em Délhi. Seus dramas pessoais se cruzam com as histórias de seus clientes no país dos casamentos arranjados: negociações de dotes; quebras de tabus, como uniões de viúvos; festas ondem o  que acontecem lá, ficam lá; escândalos bollywoodianos; conflitos familiares, crenças em superstições milenares, e por aí vai.

Karan e Tara são obrigados a cumprir algumas missões paticamente insalubres, como contratar detetives particulares para investigar histórico de noiva. Karan é gay em uma sociedade tradicional que, em boa parte, não aceita essa orientação. Tara organiza casamentos, mas ela mesma vive infeliz no seu. Moça de classe média baixa, Tara casou-se com um rapaz de família rica mas enfrenta problemas sérios com o marido.

A série, a quarta original da Amazon Prime para o mercado indiano,  fez grande sucesso no Sul da Ásia e em países de outras regiões logo no seu primeiro mês após o lançamento. As críticas e resenhas positivas ressaltaram a abordagem de tópicos culturais, como homofobia.

Diferentemente de outras séries de serviços de streamings, o Felizes para Sempre conta com atores que não foram trazidos de Bollywood: são rostos novos, na maioria. Há duas exceções a essa regra, no entanto: uma é Kalki Koechlin, um talento da indústria cinematográfica do país, que atuou, por exemplo, no filme Margarida com Canudinho. Outra é Vijay Raaz, que atuou no excelente Casamento à Indiana (Moonson Wedding), um grande sucesso da diretora Mira Nair.

Crítica - Made In Heaven (1ª Temporada) | Senta Aí
Crédito: Amazon Prime

Boa parte do lado glamouroso da série é de responsabilidade de Poornamrita Singh, fashion designer que decide o figurino das noivas e noivos e dos convidados das festas. Singh explicou que decidiu vestir as noivas de forma não convencional,  com cores como beje, verde, amarelo e dourado, quando o normal na Índia é o vermelho. Como uma chef delicada, Pornamrita Singh salpica no cenário as especiarias mais saborosas aos olhos do telespectador: a beleza e a estética dos casamentos indianos, com seus saris e lehengas (saias) de tecidos brocados e jóias no estilo tradicional, totalmente diferentes para quem nunca foi àquela parte do mundo.

Ficha Técnica:

País: Índia| Direção: Nitya Mehra, Zoya Akhtar , Prashant Nair e Alankrita Shrivastava | Roteiro: Zoya, Reema Kagti, Niranjan Iyengar e Alankrita| Elenco: Arjun Mathur, Sobhita Dhulipala, Kalki Koechlin| Distribuidora: Amazon Prime| Episódios: 9| Ano: 2020.

A contrução do universo ficcional de Crônicas de Arthdal

Por Krystal Urbano (Resenha completa em Revista Intertelas)

“Em uma época em que os seres humanos não haviam chegado ao topo da pirâmide natural e também não sonhavam, eles desceram das árvores, aprenderam a usar o fogo e a produzir armas afiadas, inventaram a roda e construíram trilhas e, por fim, aprenderam a plantar e se instalaram em um lugar. No entanto, não tinham uma nação, nem um rei… A terra gloriosa das antigas mães, Arth”. (Arthdal Chronicles, 2019, TvN-Netflix).

Ambientada no início do período da civilização, durante a Idade do Bronze que remonta a mais de 2.000 anos antes de Cristo, Crônicas de Arthdal (Arthdal ​​Chronicles) é uma série de TV sul-coreana produzida pelo Studio Dragon e exibida pela emissora de TV a cabo Total Variety Network (TvN) em 2019, com distribuição internacional via site de streaming da Netflix. A série, que é um k-drama épico de fantasia, é assinada pelos roteiristas Kim Young Hyun e Park Sang Yeon, nomes importantes na indústria dos dramas históricos, sendo também vagamente baseada na história de Dangun, o lendário rei que se proclamou o fundador do primeiro reino coreano de Gojoseon (2333 aC-108 aC).

De fato, os conflitos e relações entre as diferentes espécies e o suposto perigo do cruzamento entre elas – gerando os híbridos e temidos Igutus – está no cerne do referido k-drama, que se passa em um continente mítico chamado Arth, liderado por um líder de uma das diferentes tribos que formam a chamada União Arthdal. Basicamente, o enredo da série convida-nos a todo momento a aceitação da pluridiversidade, enquanto promove uma crítica ao exarcebamento da ambição e ideais de evolução da sociedade, quando descreve a batalha pelo poder dos chefes concorrentes pelo trono da primeira nação fundada no continente.

A lenda em torno da fundação de Arthdal conta que Aramun Haesulla, foi um saram enviado pela grande mãe espiritual, a Asa Sin, há uns duzentos anos atrás para unir as diferentes tribos vivendo em Arth em uma civilização. A lenda ainda conta que a reencarnação de Aramun Haesulla retornaria a Arth centenas de anos depois montado no Kanmoreu (o cavalo mais rápido, descendente direto da longa linhagem de primogênitos, o primeiro cavalo que já existiu, com memórias de correr na natureza gravadas no cérebro e, por isso, nenhum outro cavalo é capaz de ultrapassá-lo), seguido de um exército, tendo o machado do vento em uma mão e uma flor de lonicera na outra.

Crédito: IMDB

A União Arthdal não só se desenvolveu a partir de lendas e contos amplamentes difundidos entre os integrantes das diferentes tribos a respeito de seu fundador, como também foi gestada por seus líderes posteriores, visando a livre expansão territorial, em detrimento aos modos de vida primitivos dos demais povos – os chamados povos livres. Dentre essas tribos que disputam o poder de liderar a União, ganham destaque na narrativa a tribo Saenyeok, a tribo Hae e a tribo da Montanha Branca. Já como exemplo de tribos consideradas primitivas, ganha destaque elevado na história, a tribo Wahan, conforme veremos em seguida.

A construção do universo ficcional de Crônicas de Arthdal pode ser bem melhor compreendido, quando temos em vista os três tipos de raças que dão corpo e características aos personagens principais da trama. A primeira delas consiste nos Neanthals, seres que coexistem em harmonia com a natureza, não se prendem por laços, nem formam cidades. Uma das particularidades mais visíveis na raça dos Neathals consiste na força, muito superior a dos Sarams, além de possuirem o sangue azul e enxergarem perfeitamente no escuro. Já os Sarams, seres que representam a raça humana, possuem a astúcia e inteligência para desenvolverem armas e equipamentos, bem como estratégias ancoradas na ambição e desejo de conquista e subjulgação da outros povos. Porém, dispõe de pouca sensibilidade para lidarem com a natureza e a diferença. De fato, a primeira temporada da série ilustra de maneira bastante contundente como durante a Grande Guerra, devido a uma estratégia militar dos Sarams, mais especificamente do jovem carismático Tagon (Jang Dong Gun) da tribo Saenyeok, filho do então líder da União Arthdal, Sanung, eles obtiveram vitória quase absoluta sobre os Neanthals.

Contudo, uma vez que os líderes da União Arthdal não conseguiram exterminar toda a raça Neanthal, houve uma contribuição para acontecimentos não imaginados de antemão. Sobretudo, o nascimento de dois bebês gêmeos concebidos por Asa Hon (uma descendente da família Asa, da Tribo da Montanha Branca) que ingenuamente serviu como bode expiatório da União Arthdal, levando a morte aos Neanthals, com Ragaz (um Neanthal, um dos mais fortes e guerreiros), vai ser o ponto de partida para o desenrolar da história dos irmãos Igutus (mestiços de sangue roxo) de nome EunSeom e Saya (Song Joong Ki), respectivamente.

Crédito: https://aminoapps.com/
Crédito: aminoapps

EunSeom trilhou com a mãe, Asa Hon, para a longínqua terra de Iarc, uma terra distante, simples e pacífica que desconhecia as civilizações vizinhas, nem como montar em animais, cultivar a terra ou forjar armas, vivendo apenas da natureza e daquilo que ela naturalmente oferece. O fato é que Asa Hon sonhou que as crianças que ela gerou iriam trazer calamidade para o mundo, sendo orientada no sonho a não seguir o homem que cantarola. Ao descobrir que Ragaz foi assassinado e ver seu outro bebê, que estava com o pai no meio da mata, sendo levado por um homem cantarolando, Tagon, filho do líder da União, resolve partir para Iarc com o outro filho numa escalada no Grande Penhasco que dura dez anos, por acreditar que havia sido almadiçoada por Aramun Heasulla.

Contrariando todas as expectativas, Tagon, o jovem conquistador, cria o outro gêmeo de Asa Hon e Ragaz como seu filho as escondidas, tendo ajuda e suporte da sua amante e amada Taelha (Kim Ok Vin), filha do ambicioso líder da tribo Hae. Posteriormente, Saya irá tornar-se um grande aliado de Tagon, enquanto busca um sentido para a própria existência. Uma vez que viveu confinado ao longo de 20 anos, Saya procura seu lugar no mundo, ao ter conhecimento que é diferente dos demais Sarams, por possuir sangue roxo e estar confinado por ordem do suposto “pai”, Tagon. Naturalmente, Saya parece desconfiar de suas origens, enquanto EunSeom e Tanya cada vez mais aproximam-se dele ao longo da narrativa.

Com efeito, o ponto alto da história concede destaque a uma antiga profecia de Arthdal, que preconiza que aquele (ou aqueles) que destruiria(m) Arthdal, nasceria(m) sob a passagem do cometa Azul. Tal dia não só marca o nascimento dos gêmeos de Asa Hon e Ragaz, os igutus EunSeom e Saya, mas também de Tanya, herdeira da posição de matriarca e xamã da tribo Wahan, descendente direta da Loba Branca que fundou a tribo Wahan. O fato é que Tanya, EunSeom e o irmão gêmeo dele, Saya, são as crianças da grande profecia que representam os objetos celestiais que apareceram juntos há duas décadas no mundo.

A espada para matar a todos (EunSeom), o sino para ecoar pelo mundo (Tanya) e o espelho para iluminar o mundo (Saya). Essas três coisas, ao se juntarem, conforme diz a profecia, acabarão com o mundo e, o homem que matou o próprio pai lutará contra os objetos celestiais e impedirá o fim do mundo. Tal papel é concedido a Tagon, atual líder da União Arthdal, depois de assassinar seu pai em embate direto, na presença de EunSeom.

Por fim, parece-me que Crônicas de Arthdal estipula em sua primeira temporada os principais personagens e arcos narrativos que irão movimentar o drama até seu fim, mesmo com a incerteza de uma segunda temporada. Os três arcos mencionados, isto é, as três partes da primeira temporada disponibilizadas na Netflix, revezam o papel central dentro dos episódios dessa temporada. Tomada como um todo, a estrutura de Crônicas de Arthdal pode ser exaltada por sua complexidade, uma vez que a estrutura da produção revela uma sobreposição de três grandes arcos que, ao serem entrelaçados, exigem mais esforço por parte do roteiro e do espectador.

Desse modo, o drama sul-coreano consegue elaborar uma proposta muito atraente do ponto de vista da serialização, visto que brinca com as fronteiras dos arcos desenvolvidos dentro da trama. Assim, nota-se que desde o princípio a série trabalha com uma economia de informações, apresentando no decorrer dos episódios como os personagens lidam com elas, à medida que vão revelando-se.

Crédito: Twitter Haeri_Go_4815

Ficha técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Kim Won Seok | Roteiro: Kim Young Hyun e Park Sang Yeon | Elenco: Jang Dong Gun; Song Joong Ki; Kim Ji Won; Kim Ok Vin | Emissora: TvN | Episódios: 18 | Ano: 2019

Revista Intertelas entrevista Mayara Araujo, pesquisadora do MidiÁsia

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas)

Nesta entrevista concedida à Revista Intertelas, nossa pesquisadora Mayara Araujo, também doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (PPGCOM-UFF) e Mestre em Comunicação e Cultura pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro analisa a produção audiovisual japonesa e, em específico, o impacto e os problemas atuais dos chamados doramas para a promoção do país no exterior e no Brasil.

Como a cultura japonesa entrou na sua vida e o que ela transformou?

Eu tive meu primeiro contato com a cultura japonesa a partir de Pokémon, quando foi transmitido na TV em 1999. Desde então, passei a me interessar por outros animês e, eventualmente, esse meu interesse de infância foi se transformando e amadurecendo: acabei procurando um curso de japonês, culinária, turismo e, por fim, utilizar essa afinidade como objeto de estudo no mestrado. A meu ver, ter a possibilidade de pesquisar elementos da cultura japonesa academicamente foi a maior transformação que essa preferência me proporcionou, visto que eu consegui fazer disso um trabalho.

O dorama “Long vacation”. Crédito: https://dramaswithasideofkimchi.com

Como você avalia o mercado de doramas dentro e fora do Japão?

Fora do Japão e da Ásia, o mercado é praticamente inexistente. A maior forma de consumo é através da comunidade de fãs da cultura pop japonesa que legendam e distribuem esse conteúdo por conta própria. Há algumas iniciativas de parcerias entre as redes televisivas japonesas e plataformas de streaming, como é o caso da TV Fuji com a Netflix. Além de licenciar animês, agora também é possível assistir dramas de TV japoneses pela plataforma. Mas o mais interessante, a meu ver, são os doramas co-produzidos pelas duas companhias, que gerou conteúdo de sucesso como “Good Morning Call” e “Erased”. Talvez um dos motivos de certo “apagamento” dos doramas frente aos K-dramas (dramas de TV sul-coreanos) seja uma possível necessidade japonesa em dialogar somente entre seus pares.

Enquanto a estratégia da Coreia do Sul em relação a sua indústria midiática consistiu em buscar elementos em comum entre os países de seu entorno regional ou com o ocidente, o Japão insiste em produzir conteúdo visando especificamente o mercado doméstico. O próprio Ota Toru, produtor da Fuji TV e um dos criadores dos “trendy dramas” (o formato que consumimos atualmente e que foi emulado pela Coreia do Sul, por exemplo) chegou a afirmar que a estratégia consistia em atingir o mercado interno.

O dorama “Good Morning Call”. Crédito: Amino Apps.

Qual o impacto dos doramas japoneses no Brasil, levando em conta que é o país com maior comunidade de japoneses fora do Japão?

Eu diria que bastante incipiente. Apesar de termos a maior colônia japonesa do mundo, a circulação dos doramas no Brasil acabou sendo ofuscada pelos animês e tokusatsus (filmes ou séries live-action que fazem um uso forte de efeitos especiais) que vêm preenchendo horários de nossas grades televisivas desde a década de 1970, mais ou menos. Inicialmente, os doramas acabaram ficando restritos ao circuito dos fãs dos animês, que acabavam se interessando por outros conteúdos japoneses e legendavam e distribuíam na Internet.

No início dos anos 2000 também havia o comércio pirata de doramas em alguns bairros em São Paulo (onde se concentra uma grande quantidade de descendentes de japoneses), mas, de forma geral, o circuito ficou vinculado às plataformas digitais. No Brasil, tivemos pouquíssimas oportunidades nas quais os doramas foram exibidos em nossas redes de televisão, sendo que o mais recente foi o dorama “Dear Sister”, que foi transmitido em 2017 na TV local E-Paraná. Sem dúvida, não houve esforços para popularizar o formato.

O dorama “Dear Sisters”. Crédito: Animo Apps.

Acredita que os doramas promovem ou instigam debates e transformações sociais?

Sem dúvida. Muitos dos dramas japoneses que circulam dialogam com questões delicadas, como xenofobia no Japão, a questão do trabalho x maternidade e excesso de horas extras trabalhadas. É claro que precisaria de mais pesquisas e aprofundamento nesse ponto para afirmar que essas temáticas acarretam em transformações sociais, mas me parece evidente que certos questionamentos são lançados.

O dorama “Erased”. Crédito: Netflix.

Acha que os doramas são uma ferramenta que o Japão usa para promover a cultura e a economia do país no exterior?

Quando a gente pensa na realidade brasileira ou latino-americana é perceptível o quanto sabemos poucos sobre esse formato televisivo. As estratégias de difusão de cultura e desenvolvimento do soft power japonês são completamente ancoradas nas animações e em elementos mais tradicionais de sua cultura. Há autores que afirmam que a entrada de animês em países do leste e sudeste asiático é menos problemática, pois são “inodoros”, ou seja, não são etnicamente japoneses. Como o Japão tem um passado conturbado por conta de seu imperialismo, muitos países da região restringiram a entrada de conteúdo japonês por muitos anos. No entanto, desde a década de 1990, os trendy dramas obtiveram sucesso em alguns países e se tornaram referenciais de modernidade e estilo de vida para a juventude asiática. Eu diria, então, que não são os protagonistas, mas cumprem um papel.

O que acha que precisaria melhorar neste ramo?

A experiência sul-coreana em relação a difusão dos K-dramas globalmente é digna de nota. Até pouco tempo atrás, aqui no Brasil, nós mal ouvíamos falar da Coreia do Sul e hoje ela parece perpetuar no imaginário da camada jovem da sociedade. Alguns falam de hibridização do conteúdo, ou seja, tornar os K-dramas palatáveis para qualquer audiência. Talvez tenha sido um modelo de sucesso. Os doramas acabam sendo muito centrados na lógica japonesa, na realidade japonesa e em uma suposta forma de “ser japonês”. Me parece uma espécie de criação (involuntária) de soft power a partir da exclusão, de vender a ideia do exótico, do diferente e do “venha me decifrar” para atrair o público. Não sei até que ponto isso funciona.

E o Brasil como poderia refletir a presença dos doramas em seu mercado para seus objetivos de propagação da cultura brasileira e cooperação com o Japão?

O formato dos dramas de TV tem características que lembram as telenovelas brasileiras como, por exemplo, a presença do melodrama. De certa forma, são linguagens que dialogam. Em 2005, a Rede Bandeirantes e a NHK coproduziram “Haru e Natsu”: as cartas que não chegaram, uma minissérie que conta a história da imigração japonesa para o Brasil. Ela foi transmitida em 2008 no Brasil, no ano em que se comemorou o centenário da imigração japonesa, mas não houve grande visibilidade para essa coprodução.

Ainda assim, partindo do princípio de que caminhos alternativos à maciça presença estadunidense/ocidental  vivem um momento de plena efervescência, as redes de televisão brasileiras poderiam dar mais atenção a conteúdos fora desse eixo para pensar as próprias produções televisivas e incentivar à busca por novos conteúdos. Os brasileiros são poucos representados nos doramas e são uma grande comunidade de estrangeiros no Japão. O mesmo ocorre com os japoneses e seus descendentes no Brasil.

O dorama “Haru e Natsu”. Créditos: YouTube.

É possível modificar está situação? Se sim, o que é preciso para modificar e como fazer?

De forma geral, os doramas não costumam apresentar muitos personagens estrangeiros. De fato, eu nunca assisti um dorama com um personagem brasileiro, apesar de já ter visto menções a brasileiros famosos. Em “Long Vacation”, por exemplo, o protagonista chama-se “Sena” e há diálogos em que ele é chamado de “Ayrton”. No caso das telenovelas brasileiras, há um enorme apagamento em relação aos japoneses e, quando são representados costumam ser interpretados por brasileiros sem parentesco com japoneses. Há iniciativas para promover a presença de artistas asiáticos na TV brasileira, como o coletivo Oriente-se, que pode ser uma ponte para diminuir esse apagamento. No caso japonês, desconheço iniciativas.