MidiÁsia entrevista Hugo Katsuo, diretor de “O Perigo Amarelo nos Dias Atuais” e “Batchan”

Por Daniela Mazur

Em meio ao debate sobre a população amarela brasileira nesse momento em que o coronavírus está em voga, é necessário, mais do que nunca, abordar representações e ideias concretas sobre a pauta brasileiro-asiática aqui. Em entrevista concedida ao MidiÁsia, o graduando em Cinema&Audiovisual da UFF e diretor e criador dos documentários “O Perigo Amarelo nos Dias Atuais” (2018) e “Batchan” (2020), Hugo Katsuo fala sobre questões relacionadas ao universo de discriminação contra amarelos no Brasil, a concepção da ideia de “minoria modelo” e a construção do perigo amarelo como parte essencial para entendermos as conotações racistas sofridas por essa parcela de brasileiros, especialmente dentro do contexto atual em que há a tentativa de racializar o Covid-19 como um “vírus chinês”.

Hugo Katsuo, diretor de O Perigo Amarelo nos Dias Atuais e Batchan. Crédito: Mariana de Lima.

“O Perigo Amarelo nos Dias Atuais” e “Batchan” falam muito sobre a experiência do amarelo no Brasil, mas também apresentam nuances de diferentes perspectivas de brasilidade. Como essas duas obras dialogam? O que você acredita que elas apontam na nossa sociedade?

Hugo Katsuo: Ambos falam sobre a vivência amarela no Brasil, mas trilham caminhos bastante diferentes. Acredito ser mais fácil descrever as diferenças entre eles do que as semelhanças. Quando dirigi “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais”, eu estava pensando em um documentário que fosse quase como um guia didático sobre o que seria essa tal de “militância amarela” e, portanto, a linguagem dele foi feita somente a partir de entrevistas que abarcavam desde reflexões teóricas, acadêmicas, até o relato de experiências individuais. Em outras palavras, este filme foi feito para auxiliar a divulgação do movimento amarelo e servir de material para pesquisas, auxiliando pesquisadores dos estudos asiáticos e/ou asiático-brasileiros. “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais” foi idealizado como um documentário explicitamente militante.

Cartaz oficial de “O Perigo Amarelo nos dias atuais” (2018). Crédito: Ing Lee.

O “Batchan”, por outro lado, não teve essa pretensão. Eu pensei no filme, inicialmente, como uma forma de me aproximar da minha avó, que é a minha principal referência de ancestralidade, e, sobretudo, como forma de preservar a sua memória. É claro que acredito na preservação da memória como uma forma de militância, mas não foi no intuito de fazer um cinema com uma militância explícita que eu dirigi este curta-metragem. E isso influenciou muito a linguagem que eu utilizei nele. “Batchan” é um filme muito mais pessoal e fala não somente sobre o percurso da minha avó em relação à sua espiritualidade, mas também o meu percurso em busca de uma ancestralidade. Ambos os filmes, entretanto, buscam um pertencimento, ainda que partindo de percursos bem distintos.

Cartaz oficial de “Batchan”. Crédito: Mariana de Lima.

Mesmo sendo ainda graduando, você já produziu obras de destaque que estão circulando nos circuitos de debates raciais, especialmente dentro dos espaços asiáticos-brasileiros. Como foi a construção da sua maturidade profissional e de indivíduo para chegar a produção desses conteúdos?

HK: Comecei a estudar sobre questões amarelas um pouco antes de entrar para a graduação e já ingressei no curso de Cinema & Audiovisual com a pretensão de dirigir “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais”, mesmo que, na época, eu pensasse esse documentário de outra forma. Inicialmente, queria que o filme fosse sobre imigração japonesa e, depois de entrar em contato com o tema da representatividade, queria que fosse feito a partir de relatos de artistas amarelos no Brasil. Em 2017, entretanto, fui a São Paulo e participei de uma reunião entre os membros do Perigo Amarelo, do Asiáticos Pela Diversidade e da Plataforma Lótus. Conversamos sobre diversas questões, entre elas, sobre como havia um entendimento muito superficial do que essa militância propunha e reivindicava. Foi nesse momento que mudei radicalmente a proposta do documentário e ele se tornou um filme sobre a militância amarela no Brasil.

Trecho da entrevista de Felipe Higa no filme “O Perigo Amarelo nos dias atuais”.

Dirigi “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais” no começo de 2018, eu tinha 18 anos na época. Tenho 20 anos agora e estou para fazer 21 no final do mês. E muita coisa mudou. Atualmente, eu delimitaria outros recortes temáticos e talvez focasse menos em questões como representatividades, mas sem excluí-las. Amadureci muito ao mesmo tempo em que a própria militância amarela também amadureceu. No final de 2018, quando exibi pela primeira vez o filme, ele já estava, de certa forma, datado. Em termos de amadurecimento profissional, acho que estou no processo de encontrar minha própria linguagem cinematográfica e acredito que “Batchan” foi um filme que me proporcionou muito aprendizado nesse sentido. Com uma equipe muito reduzida e querida, tive a oportunidade de brincar esteticamente com o documentário, apesar de já achar que eu poderia ter arriscado mais.

Dentro da perspectiva de raça, como foi a sua trajetória de compreensão pessoal como brasileiro amarelo? Como o racismo se apresentou para você nesse processo?

HK: Lembro até hoje que estava conversando com a minha avó materna, que não é nipo-brasileira, sobre o meu avô (nipo-brasileiro) que faleceu antes de eu nascer. Ela comentou comigo sobre algumas perseguições que ele sofreu durante a infância e adolescência. Não entendi muito bem quando ela disse que o Estado confiscou os bens da família do meu avô e, por isso, comecei a estudar sobre imigração japonesa. Descobri, então, sobre as perseguições que esses imigrantes e filhos de imigrantes passaram e sobre o debate em torno da entrada ou não dos asiáticos amarelos no país. Mas, até então, eu ainda não tinha adentrado na dimensão racial e acreditava que, por eu não ser negro, eu era branco.

Frame de “Batchan” (2020), documentário de Hugo Katsuo.

Em uma aula de História, no ensino médio, estávamos estudando as políticas imigratórias no governo Vargas e o professor comentou que elas eram contra a entrada de imigrantes “não-brancos” no país. Lembro de ter levantado a mão e falado: “e contra a dos japoneses também”. O professor, então, respondeu: “todos os não-brancos”. Foi ali que comecei a pesquisar sobre racismo contra amarelos no Brasil e achei pouquíssimo material. Posteriormente, conheci, através do Hugo Noguchi, a página do Perigo Amarelo e descobri que tinham outras pessoas pautando essas questões também. Acho que vale ressaltar que, por mais que eu achasse que era branco, eu já tinha consciência de que eu era diferente e que não me tratavam da mesma forma que os meus amigos que eram, de fato, brancos. As piadas e os estereótipos raciais sempre me incomodaram, mas até então eu não sabia dar nome a esse incômodo. Lembro que durante a minha infância e adolescência essas piadas racistas vinham não só de outros alunos como também de alguns professores. Entender os processos pelos quais passei e ainda passo foi muito importante para aprender a me impor em situações como essas.

O fato de ser asiático-brasileiro tá inscrito nos seus trabalhos, como você define hoje a presença dos corpos amarelos na mídia brasileira? Como a representação é importante para essa parcela da sociedade?

HK: Acredito que há escassez de representações amarelas no audiovisual brasileiro. Admito que tenho, atualmente, um pouco de preguiça dos debates em torno de representatividade porque acho que eles tomam um viés muito superficial e, por vezes, flertando com o neoliberalismo. Não acho que a representatividade por si só mude as coisas. Mas acho que pensar em novas práticas representacionais é extremamente importante no processo de humanizar corpos racializados. Precisamos urgentemente criar novos repertórios imagéticos, novas narrativas, que tirem grupos não-hegemônicos do lugar que foi imposto a eles. Acredito que trazer à tona novas representações, mais humanas e menos estereotipadas, potencializa mudanças. Temos, entretanto, que tomar cuidado em achar que a mudança termina aí. Meu trabalho parte muito de tentar afastar essas narrativas racializadas de contextos brancos, despir elas de estereótipos, criar espaços de pertencimento e preservar memórias.

Captura de “Batchan” (2020) com foco em Luiza Okabayashi, avó de Hugo.

O que é ser amarelo no Brasil nos dias de hoje? Quais elementos da sua realidade como homem racializado mudaram ou se mantiveram nos últimos anos no nosso país?

HK: A minha perspectiva em relação às mudanças que ocorreram nos últimos anos em relação a ser um homem amarelo no Brasil está muito relacionada às minhas pesquisas acadêmicas nas quais estou procurando investigar de que forma a entrada do soft-power sul-coreano mudou a percepção, em relação às dinâmicas de desejo e desejabilidade, sobre nossos corpos. Até pouco tempo atrás, eu era visto como indesejável e, de uma hora para outra, comecei a perceber pessoas me fetichizando racialmente. Não sei ainda se os estereótipos em torno do corpo do homem amarelo mudaram, mas, se não mudaram, com certeza o olhar sobre eles mudou. Inicialmente, isso parece inofensivo ou, até mesmo, uma mudança positiva. Mas, se entendermos o fetiche racial como um desejo baseado na objetificação da raça, ele causa danos aos corpos que são fetichizados porque desumaniza eles.

Existe certa invisibilidade da presença amarela no Brasil? Pela sua perspectiva, como os debates sobre raça, racismo e xenofobia estão se apresentando hoje dentro da comunidade asiática-brasileira e na mídia?

HK: Até pouco tempo atrás, acredito que existia uma grande invisibilidade dessa parcela da população brasileira. Atualmente, por mais que o debate ainda esteja muito centralizado em São Paulo e em certas bolhas da internet, percebo que a temática da discriminação contra amarelos cresceu bastante. Isso diz muito, a meu ver, sobre privilégios de classe também. O movimento asiático-brasileiro se configura, até onde eu sei, em 2015, com a criação da página do Perigo Amarelo. Em cinco anos já conseguimos trazer esse debate para muitos espaços midiáticos. Isso se dá, sobretudo, porque foi permitido que nós ocupássemos esses espaços, graças à nossa rápida ascensão social e econômica – que é um privilégio da minoria modelo.

Ilustração de Ing Lee para o filme “O Perigo Amarelo nos dias atuais”.

O asiático-brasileiro considerado como “minoria modelo” é percebido também como perigo amarelo ou isso muda dentro da perspectiva do contexto político-social? Quais são as peças que ditam esse jogo?

HK: Podemos ser percebidos como a minoria modelo, mas, às vezes, somos lidos como o Perigo Amarelo. Isso está muito em evidência nos últimos dias, com a racialização do coronavírus enquanto um “vírus chinês”. Mas antes disso já podíamos perceber um pouco dessa dinâmica. Por mais que sejamos vistos como uma minoria inteligente, esforçada e trabalhadora, também somos vistos como perigosa. Por exemplo, justamente pelo estereótipo da minoria modelo somos entendidos como uma ameaça em relação a “roubar” empregos ou vagas nas universidades. Se vamos ser lidos como o perigo amarelo ou como a minoria modelo, depende muito do contexto em que estamos inseridos e isso vai ditar as violências que vamos sofrer. Mariana Akemi, no documentário “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais”, comenta que ela é tratada de uma forma quando está na faculdade e de outra completamente diferente quando está na barraca de pastel dos pais. Acredito que haja aí também uma dimensão de classe.

Trecho da entrevista de Mariana Akemi no filme “O Perigo Amarelo nos dias atuais”.

É óbvio, por exemplo, que, na maior parte do tempo, serei tratado como a minoria modelo por ser um nipo-brasileiro de classe média alta inserido num contexto artístico e acadêmico. Em contrapartida, um imigrante chinês que trabalha numa lanchonete vai ser tratado como o perigo amarelo e sofrer muito mais agressões do que eu. É importante, portanto, que a gente comece a olhar cada vez menos para o próprio umbigo e começarmos a construir, de fato, pontes de solidariedade antirracista. Isso, entretanto, só vai acontecer se nos dispusermos a perder alguns privilégios que nos foram concedidos. Só vai acontecer se abandonarmos a minoria modelo e assumirmos o papel de perigo amarelo.

Quais são os seus planos para próximos trabalhos? Quais perspectivas da presença amarela no Brasil você ainda tem interesse de abordar e colocar em voga nos debates de raça no país?

HK: Estou com dois projetos audiovisuais para serem feitos. O primeiro é uma ficção LGBTQ, que será protagonizada por Nícolas Tadashi e Ciana Lopes. Nele, não entro muito nas dimensões raciais, penso mais a partir de questões de sexualidade e gênero. A minha ideia é mostrar esses corpos LGBTQ+ a partir da dor de um término, deixando a dor das violências cotidianas causadas pela LGBTQfobia em segundo plano. Os dois personagens que acabaram de terminar seus respectivos namoros começam um extenso diálogo sobre a experiência amorosa, a morte e a linguagem. A morte tem um viés mais simbólico, mas ganha também, por vezes, uma dimensão literal a partir do momento em que dialogam também com a morte das vítimas de LGBTQfobia. Mesmo este não sendo o foco do roteiro, resolvi não ignorar essa realidade. O meu outro projeto, que acredito que vá demorar mais tempo para ser feito por motivos financeiros, também é LGBTQ, mas é um documentário experimental, muito influenciado pelo filme “NEGRUM3”, de Diego Paulino, que vai trazer à tona o debate sobre LGBTQs amarelos no Brasil. Já no âmbito acadêmico, pretendo continuar minha pesquisa sobre pornografia e relações raciais no mestrado.

Para encerrar, quais canais, páginas, coletivos você recomenda para aqueles que se interessam em aprofundar seu entendimento sobre questões amarelas no Brasil?

HK: Recomendo muito o blog OutraColuna no qual são postados vários textos produzidos pela militância asiático-brasileira. No youtube, não tenho como não citar o canal do Leo Hwan. Para além disso, recomendo a leitura de pesquisadoras como Lais Miwa Higa e Marcia Yumi Takeuchi. 

Vídeo do canal Leo Hwan. Crédito: Leo Hwan.

Parasita: Uma crítica à desigualdade sistêmica, sem pretensões revolucionárias

Por Alessandra Scangarelli (Resenha completa em KoreaPost / Intertelas)

Aqueles que durante o século XX lutaram por um mundo mais igual e sem pobreza salientariam aos líderes e intelectuais de hoje que não adianta aumentar a renda e o poder de consumo das massas, sem ao mesmo tempo, promover a sua conscientização política. E este é o quadro que encontramos em “Parasita”, onde Ki Taek (Song Kang Ho) é um pobre e desempregado pai de família. Ele mora com sua esposa Choong Sook (Jang Hye Jin), o filho Ki Woo (Choi Woo Sik) e a filha Ki Jung (Park So Dam) em um apartamento úmido e infestado de insetos, em uma área de baixa renda de Seul. Um dia Ki Woo leva seu amigo Min Hyuk (Park Seo Joon) para uma loja de bebidas nas proximidades e descobre que seu amigo (que está indo estudar no exterior) vai abandonar uma vaga de professor particular.

O amigo de Ki Woo pede para que ele assuma o cargo, enquanto estiver no exterior. Logo, Ki Woo entra na vida da rica família Park e um plano começa a ser articulado por ele e seus familiares para saírem do sufoco econômico que se encontram, custe o que custar. Mesmo que isso seja “parasitar” na renda e no estilo de vida dos abastados Parks, que por sua vez também são “parasitas” do sistema, obtendo uma fortuna que não sabemos exatamente de onde sai… Contudo, a família de Ki Woo e seu desespero faz com que se tornem praticamente desumanos e pouco civilizados a ponto mesmo de tentar destruir a vida de quem, igual a eles, sofre os mesmos problemas sociais e econômicos como a governanta Moon Gwang, interpretada pela grande atriz Lee Jung Eun. Ela que será o personagem a promover uma reviravolta radical no andamento da narrativa, trazendo resultados inesperados.

A trama criativa, com pontos de virada que trazem novas situações, tornam o conjunto do enredo intrigante e envolvente ao espectador, deixando o suspense, o drama social e psicológico presente até o fim, sem esquecer a crítica que serve de base para a formação desta história. Isso somado a uma cenografia com locações que se alternam entre o bairro pobre e o rico, e a casa pobre e rica que passam a ter uma importância tal para o desenvolver dos acontecimentos, que não seria uma inverdade classificar estas residências, em especial a da família Park como também personagens atuantes na história.

Crédito: IMDb

A fotografia com posicionamentos, enquadramentos e movimentos de câmera que não são certamente revolucionários, mas saem do comum que se pratica, dão um ritmo dinâmico ao filme, da mesma forma que auxiliam a manter a harmonia entre os momentos de tensão e de calmaria. Diversas referências de outros cineastas são possíveis de serem detectadas, mas uma que chamou atenção desta autora foi a da cena final, em que a violência lembra a do japonês Takashi Miike e de seu fã ocidental Quentin Tarantino.

Por fim, não se pode terminar sem falar da interpretação que se destaca pelo seu conjunto. Todos os personagens, principais e secundários, têm importância na medida certa para a história. Nenhum fica sem significado, ou esquecido ao longo do caminho. Esta característica lembra um pouco do norte-americano Robert Altman, cujos filmes com relação aos atores e personagens destacavam-se pelo seu conjunto, sendo difícil ressaltar um ou outro. Para que esta fórmula seja bem-sucedida é preciso contar com o trabalho de atores que saibam imprimir a interpretação ideal, sem concorrer com os demais.

Portanto, o chefe da família Park (Lee Sun Kyun), assim como sua esposa Yeon Kyo (Cho Yeo Jeong), o filho ainda criança Da Song (Jeong Hyun Jun) e a filha adolescente Da Hye (Jung Ji So) atuam como pessoas totalmente desconectadas com o mundo a sua volta, vivendo em uma bolha artificial que criaram para si, onde podem viver em um mundo seguro e perfeito. Eles praticamente desconhecem problemas maiores que apenas a saúde do filho e seu comportamento. Uma bolha em que podem adquirir e descartar pessoas facilmente e onde os faz também serem vítimas da malícia e astúcia humana, em especial de quem está fora da bolha, tentando sobreviver à guerra. A passividade desta família de ricos é tão grande que desconhecem a casa onde vivem e o que ocorre nela quando estão fora, e mesmo quando estão nela.

Já a família “parasita” pobre de Kin Woo enquadra-se perfeitamente na situação de quem está tão pressionado pelas suas dificuldades econômicas que perdeu em grande parte a capacidade civilizatória que compete à humanidade. Tornaram-se sobreviventes, desesperados pela falta de emprego, de perspectivas, fazendo bicos e tendo empregos temporários para terem “um teto”, mesmo sendo uma espelunca que os mantém abrigados. Contudo, até isso se perde com o tempo, levando as atitudes da família a serem mais impensadas ainda.

Ki Taek (Song Kang Ho) o pai de família que mora com sua esposa Choong Sook (Jang Hye Jin), o filho Ki Woo (Choi Woo Sik) e a filha Ki Jung (Park So Dam), busca sobreviver a falta de emprego custe o que custar. Crédito: IMDb.
Ki Taek (Song Kang Ho) o pai de família que mora com sua esposa Choong Sook (Jang Hye Jin), o filho Ki Woo (Choi Woo Sik) e a filha Ki Jung (Park So Dam), busca sobreviver a falta de emprego custe o que custar. Crédito: IMDb.

Pessoas que atingem uma condição assim não tem tempo para grandes reflexões políticas, por isso se tornam eternamente submissas a este sistema. Tornam-se individualistas ao extremo, ainda que atuem pelo bem de suas famílias, mas em detrimento da condição de outros. Não seria de espantar, pois os valores que aprenderam, mesmo nesta situação difícil, é de que devem preocuparem-se com os seus. A situação não é diferente para os endinheirados Park. Não existe evolução social, se não se leva em conta àqueles muitos que não têm relação sanguínea alguma com você. Todos dependemos uns dos outros.

Ainda é importante salientar que as situações apresentadas em “Parasita”, em especial quando uma chuva forte cai na cidade, lembram e muito os problemas que enfrentamos dia-a-dia nas cidades brasileiras, o que aponta para uma última questão. Existem pobres em todos os cantos do Globo, inclusive no mundo desenvolvido. A diferença está nos níveis de pobreza que são encontrados nos países e que estão relacionados ao desenvolvimento econômico e social que cada nação conseguiu atingir.

A Coreia do Sul, assim como o próprio Estados Unidos são países considerados desenvolvidos, mas que entre o grupo de nações desenvolvidas apresentam índices sociais preocupantes, podendo até em uma situação ou outra encontrar semelhanças com os problemas enfrentados no mundo emergente e subdesenvolvido. Por isso, não existe situação ideal. As mudanças de um país para melhor, assim como do mundo em geral, exigem uma reflexão política importante que levará a novas soluções econômicas e sociais. Desta forma, os que mais sofrem com as desigualdades sistêmicas, ou compreendem que elas existem são os aptos a realizar estas transformações, pois dificilmente quem vive no conforto do topo da pirâmide social vai querer modificar este contexto. “Parasita” possibilita tais reflexões e até a sua crítica não revolucionária, algo parecido que se vê em Coringa e Bacurau, pode ter um efeito interessante, pois ao não dar respostas, convidam o espectador a procurá-las.

O diretor Bong Joon-ho segura o prêmio da Palma de Ouro no 72º Festival de Cannes conquistado por seu filme “Parasite”. Crédito: France 24.

Ficha técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Bong Joon Ho |Roteirista: Bong Joon Ho | Elenco: Kang Ho Song, Sun Kyun Lee, Yeo Jeong Jo, Jang Hye-Jin, Choi Woo-Sik, Park So-Dam, Lee Jung-Eun | Duração: 2h12min