Covid-19 e capacidade cultural: a lição sul-coreana

Por Yun Jung Im (professora e coordenadora do curso de Língua e Literatura Coreana do Departamento de Letras Orientais da USP – Universidade de São Paulo)

Cidade que foi epicentro de Covid-19 na Coreia do Sul não tem ...
Profissionais do hospital Dongsang, de Daegu, em abril de 2020. Foto: Yonhap News.

Cronologia da pandemia na Coreia do Sul

No último dia 30 de abril, a Coreia do Sul anunciou ter zerado o número de novos infectados locais de Covid-19 ao cabo de 72 dias, excluídos os quatro detectados no aeroporto. O feito foi noticiado com entusiasmo na primeira página do BBC.com com o título “South Korea records no new local vírus cases”, e também na BBC World News em primeira manchete.

Ainda que no dia seguinte o número já não fosse mais zero, o número total de infectados vinha se mantendo em um dígito por duas semanas, e os coreanos começaram a retomar seu cotidiano com “medidas de rotina anti-pandemia” a partir de 03 de maio. Já com as escolas funcionando, mas também enfrentando a segunda onda de contaminação, os coreanos agora são alvo dos olhares do mundo todo, devidamente alçados ao posto de referência mundial em vigilância epidêmica: em 18 de maio último, o presidente Moon foi convidado para fazer o discurso de abertura da Assembleia Mundial da Saúde da OMS, e a Coreia do Sul foi convidada por Trump a participar da próxima conferência do G-7.

Até 14 de junho, a Coreia do Sul registrou um total de 12.085 infectados (incluindo cerca de 10% daqueles detectados no aeroporto) e 277 mortos. Se excluirmos Daegu, a terceira maior cidade coreana, epicentro secundário e considerada ponto fora da curva, com 6.892 infectados (57%) e 189 mortos (68%) até essa data, os números sul-coreanos causam espanto, diante da situação que temos presenciado em vários países pelo mundo, incluindo o Brasil.  

안철수, 의료복은 땀으로
Ahn Chul-soo, membro da Assembleia Nacional, trabalhando voluntariamente no combate à Covid-19 em Daegu no mês de março de 2020. Foto: Yonhap News.

Explico: o paciente número 31 (reportado em 18 de fevereiro), seguidor de uma seita nada ordinária chamada Sincheonji (Novo Céu e Nova Terra), teria participado de um culto, visitado uma sauna e ainda encontrado vários outros seguidores que estavam reunidos na cidade para o velório de três dias (31 de janeiro a 02 de fevereiro) do irmão do fundador da seita. O caráter “aglomeratório extremo” da seita, com quase 250 mil fiéis no país, teria puxado o gatilho para a propagação fulminante em Daegu a partir de 15 de fevereiro. Até 31 de janeiro eram apenas sete infectados (acumulados), mas um mês depois, em 1º de março, atingia o pico de 1.063 novos infectados.

Eleições em meio a pandemia e louros para o presidente

O zero do dia 30 de abril foi especialmente caro aos sul-coreanos, que haviam ido às urnas 15 dias antes para eleger seus 300 parlamentares. Alívio a todos que acompanhavam a evolução dos números receosos de que a eleição pudesse puxar um novo gatilho, a despeito dos cuidados: uso obrigatório de máscaras, filas com distanciamento, temperatura medida e luvas descartáveis fornecidas na entrada, além da hora final destinada somente para os que estavam em isolamento.

Eleitora vota em eleições legislativas na Coreia do Sul com máscaras e luvas nesta quarta-feira (15) — Foto: Ahn Young-joon/AP Photo
Eleitores precisaram, obrigatoriamente, usar luvas e máscaras para as eleições legislativas na Coreia do Sul. Foto: Ahn Youngjoon/AP Photo.

O bom desempenho do executivo em gerir a pandemia rendeu 180 assentos para o Partido Democrático, feito inédito num cenário político que foi sempre sentido como um “campo inclinado” pendendo para a ala conservadora. A vitória foi obviamente atribuída ao presidente Moon, e a superlua do dia 7 de abril lhe valeu o título de Super Moon.

A pandemia não impediu que se registrasse o recorde de 66,2% de eleitores (o voto não é obrigatório) votantes, quase 30 milhões, que deram um enorme voto de confiança ao presidente, garantindo-lhe os dois anos finais do mandato sem empecilhos políticos. A perspectiva agora é de que as reformas pretendidas pela situação, e que vinham patinando no congresso, desencalhem.

A luta de resistência da situação

Uma das reformas apregoadas pela situação é, certamente, a reforma da mídia. No dia 30 de abril, nenhum dos três jornais mais importantes sul-coreanos, ou até cinco numa lista estendida, haviam dado a notícia do zero com destaque em primeira página. Apenas um deles deu uma nota, em uma posição desprivilegiada. A principal agência de notícias Yonhap, que noticiou o fato com destaque, preferiu o título de “Não houve transmissão do Corona durante as eleições com 29 milhões de votantes”, em vez do “Zero”. Mesmo quando Trump telefonou para o presidente pedindo kits de teste com a promessa de aprovação emergencial pelo FDA (24 de março), ou quando Bill Gates telefonou convidando-o para pesquisas conjuntas em vacina contra o vírus (10 de abril), a imprensa fez pouco caso. Quando a ministra das Relações Exteriores deu entrevista ao vivo no programa Andrew Marr da BBC (15 de março) deixando o mundo de olhos arregalados, a imprensa acusou o governo de “jogar confetes em si próprio”, e finalmente quando o governador do estado de Maryland conseguiu importar kits para 500 mil testes (18 de abril), uma das emissoras coreanas propagou a notícia falsa de que 70-80% dos kits coreanos seriam defeituosos e que os americanos não estavam conseguindo usá-los. No momento, essa mesma agência está sendo investigada por tentar fabricar uma notícia falsa mediante ameaça a um suposto informante, além de conluio com um procurador, com o objetivo de denigrir a imagem da situação e do presidente. A tentativa de busca e apreensão impetrada pelo Ministério Público em 30 de abril à emissora resultou numa barricada humana de dois dias alegando perseguição à imprensa livre.

Seoul National University students hold a rally on their campus, Aug. 23, to urge justice minister nominee Cho Kuk to step down due to multiple allegations surrounding his family. / Yonhap
Estudantes da Seoul National University se manifestam contra Jo Guk em 23 de agosto de 2019. Foto: Yonhap News.

Entretanto, outra reforma ainda mais grave é a do próprio Ministério Público, com poderes para investigar e indiciar, além de abrir investigações sem que haja denúncia. O homem indicado pelo presidente no ano passado para conduzir a reforma do judiciário, o professor de Direito da Universidade Seul, Jo Guk (uma combinação rara em que o sobrenome Jo e o nome Guk formam a palavra homófona de Pátria), entregou o cargo em 45 dias, com sua filha e esposa sendo implacavelmente investigadas pelo Ministério Público, por um suposto Certificado de Honra ao Mérito do ensino médio supostamente falsificado(!). A esposa, presa preventivamente, está sendo julgada, acusada ainda por um empréstimo dado a um primo investidor financeiro. Segundo o Ministério Público, aquilo teria sido na verdade um investimento financeiro travestido, ato proibido para Jo Guk que ocupava o cargo de chefe da Casa Civil – ainda que, rigorosamente falando, Jo Guk era ainda professor universitário à época.

E a economia vai mal, só que não

O crescimento econômico sul-coreano previsto para 2020, que era de 2,2%, foi ajustado para 0,2% pelo Korea Development Institute (20 de maio). A previsão do FMI foi um pouco mais pessimista: 3,2% negativos para a Coreia (14 de abril). Mas o mesmo FMI previu um crescimento de 6,1% negativos para os países desenvolvidos, G7+Eurozone, o que coloca a Coreia com o “maior” crescimento entre os países do OCDE em 2020.

Moon Jaein, presidente da Coreia do Sul, fala à mídia sobre medidas de combate ao impacto econômico do surto de coronavírus no dia 30 de março, anunciando verba direcionada à população mais necessitada. Foto: TheStar.

Até início de maio, os Estados Unidos haviam liberado recursos correspondentes a 13,3% do seu PIB para socorrer a população e as empresas – sem contar a emissão de dólares –, enquanto que o governo coreano havia conseguido liberar apenas 0,7% do PIB em verba emergencial, sob protesto da ala conservadora – coro engrossado pelo próprio Ministério da Economia – que exige salvaguardar a saúde financeira do Estado. Um dos pontos acirradamente discutidos foi a distribuição da verba emergencial excluindo os 30% da população mais abastada, medida que causaria inclusive atraso nos pagamentos. A solução sugerida pela presidência foi de conclamar o povo “mais abastado” a doar o valor recebido, o que poderia diminuir o montante de títulos públicos a serem emitidos, com resposta calorosa e participativa dos internautas.

Se tal discussão colaborou para atrasar a ajuda do governo central, algumas administrações regionais (províncias e municípios) agiram mais rápido, na maioria com cartão de vale-compras que só pode ser usado localmente, com o intuito de salvar os comerciantes do bairro. Com uma dívida pública baixa (38% do PIB), mas também com alto endividamento familiar (94%) e baixo índice de poupança, abaixo dos 40%, a conclusão era clara, nas palavras do governador da Província de Gyeongnam (Kim Gyeongsu): “Se o governo não se endividar, a população irá”.

Cultura a serviço do combate ao Covid-19

 23일 대구시 달성군 구지면 중앙119구조본부에서 119 구급대 앰뷸런스들이 신종 코로나바이러스 감염증(코로나19) 확진자 이송을 위해 확진자가 있는 대구 시내 각 지역으로 출동하고 있다. 중앙119구조본부는 대구에서 확진자가 무더기로 늘어남에 따라 전날부터 전국 시·도에서 18대의 앰뷸런스를 차출해 환자이송에 나서고 있다. 대구 시내 확진자들은 중구 계명대학교 대구동산병원과 서구 평리동 대구의료원으로 이송된다.
Ambulâncias de diferentes lugares da Coreia do Sul se direcionam à Daegu. Foto: Ohmynews.

Segundo o professor de economia Choi Pae Kun, da Universidade Geonguk, o sucesso coreano no combate contra o Covid-19 é resultado de uma “capacidade cultural” coletiva dos coreanos pela mobilização civil, espontânea e desperta, permitindo o governo a manter as fronteiras abertas para China – sob insistentes protestos da ala conservadora –, de onde vem, entre outras coisas, o MB (Melt-Blown), matéria prima para produção das máscaras. De fato, ficaram famosas as fotos do comboio de ambulâncias do país todo se dirigindo para Daegu, das máscaras costuradas à mão por uma senhora idosa entregues no PS do principal hospital de Daegu, milhares de marmitas e guloseimas doadas por empresas para as equipes médicas, além de centenas de voluntários que se dirigiram para a cidade, incluindo o presidente do Partido do Povo, ex-médico, e também as barracas de teste drive-thru, invenção coreana em meio à pandemia.

É verdade que a mobilização civil dos coreanos sempre foi merecedora de atenção dos olhares internacionais: na Crise Financeira Coreana de 1997, três e meio milhões de coreanos participaram da campanha civil para arrecadar ouro guardado nos armários com o fim de pagar a dívida do Estado para com o FMI, sendo arrecadadas 227 toneladas de ouro. Em 2007, uma colisão entre um navio da Samsung e um de Hong Kong provocou o vazamento de quase 80 mil barris de óleo, quando foram registrados um total de 1 milhão e 230 mil voluntários para limpar o óleo impregnado nas pedras em pleno inverno.

Sul-coreanos participam da campanha de arrecadação de ouro no início do 1998 para ajudar o Estado a pagar o FMI. Foto: JoongAng Ilbo.

Mas foi em 2016 que a mobilização civil ganhou definitivamente a política – isto é, os rumos do país – quando milhões de sul-coreanos empreenderam o que ficou conhecido como a Revolução das Velas. Com a então presidente Park Geunhye envolvida em escândalos, o povo foi às ruas segurando velas exigindo seu afastamento. De 26 de outubro de 2016 a 29 de abril de 2017, foram 23 passeatas de velas enfrentando os 15 graus negativos do rigoroso inverno de Seul. A maior delas, em 3 de dezembro, teria reunido 2,3 milhões de manifestantes, segundo os organizadores. Ainda segundo eles, um total de 17 milhões de cidadãos participaram das 23 passeatas, resultando no primeiro impeachment presidencial da história da Coreia do Sul. Sucessor de Geunhye, o presidente Moon é chamado, por esse motivo, de Presidente das Velas.

Vídeo do canal Choi Baegeun TV sobre a Revolução das Velas.

O professor Choi vê na Revolução das Velas o início de uma nova era para os coreanos, em que a sua capacidade cultural se traduz numa democracia popular ativa: em nenhuma das passeatas foi reportado qualquer incidente como roubo ou furto, os prédios liberaram seus banheiros, voluntários distribuíam cafés e lanches, e, ao final, limparam todo o lixo deixado. O economista vai além, afirmando que agora a Coreia estaria prestes a se tornar uma líder global, exercendo um soft leadership – e não soft power, bem entendido, pois nessa nova era o mundo não mais giraria em torno de forças hegemônicas de qualquer tipo.

Para ele, essa consciência democrática ativa da população civil e a liderança transparente do presidente Moon foram a chave do sucesso no combate do Covid-19. Afinal, não houve na Coreia do Sul uma corrida para estocar alimentos ou inflação no preço das máscaras. Além, é claro, da cooperação cívica massiva no distanciamento social, um marco no combate à Covid-19 no país. 

A Revolução das Velas, em 3 de dezembro de 2016, na Praça Gwanghwamun, Seul. Foto: Hankyoreh.

K-culture, K-nóias

Já há pelo menos duas décadas que a Coreia vem ensaiando passos de um emergente soft power, como não deixam dúvidas o K-pop, os K-dramas, o K-cinema, o K-food etc., mas a somatória desses fenômenos não redunda no que chamaríamos de K-culture, pois a verdadeira força desta está no ethos coreano, da corrente pró-ativa pela coletividade, conhecido apagadamente por nacionalismo.

Aproveitando o alcance global do K-pop, os grupos Dreamcatcher, AleXa e IN2IT divulgam os cuidados contra o Covid-19 em um clipe musical.

Enquanto os coreanos assistem estatelados ao que acontece na Itália, França, Inglaterra e Estados Unidos, e se perguntam o que há de errado com esses países que sempre foram fonte de admiração, inveja e sentimento de inferioridade para os coreanos, o professor Choi aponta para o paradoxo em que a civilização ocidental se funda na demarcação e liberdade individuais, e assim busca se manter, mesmo após todas as provas, por diversos meios e experiências, de que tudo está interligado até a garganta. Segundo ele, a fulminante interconectividade do Covid-19, que não distingue pobres e ricos, raças e fronteiras, animais e seres humanos, é uma afronta a uma ordem mundial estabelecida pela civilização ocidental que gira em torno das distinções eu/outro, centro/periferia etc., e tem como premissa básica a liberdade individual. Por outro lado, essa interconectividade letal do vírus rompe a corrente econômica humanamente construída da produção-comércio-consumo.

Se o nacionalismo tem como outro lado a xenofobia, o individualismo tem como efeito colateral a maldosa indiferença quando desprovido de forte lastro religioso. A falência da civilização ocidental decretada pelo professor Choi, por exagerado que possa parecer, busca resposta no colapso da cultura individualista e não invalida o seu raciocínio de que é preciso uma conscientização de uma oni-interconectividade (e por que não oninterconectividade?) necessária em nível global. Seria então a hora de negociar os limites da solidariedade/individualismo, vigilância/liberdade, governantes/governados, pois agora, todos são elos de uma rede interconectada, e cada um tem que segurar sua bola para que toda a corrente não se rompa.

Se o K-qualquer coisa tem assolado o mundo nos últimos vinte anos, o episódio do Covid-19 fez aparecer uma outra onda, desta vez interna, de coreanos inebriados e orgulhosos de seu próprio país. Muitos, incluindo o professor Choi, engrossam a massa dos chamados Gukppong, que ora traduzo, com licença nada poética por K-nóias, e apresento mais um incorporado à massa, o Joseh Juhn, advogado novaiorquino coreano-americano, que chegou à Coreia no último dia 30 de abril e publicou um depoimento no Facebook (nota: Joseh Juhn dirigiu e produziu o aclamado documentário Jeronimo, lançado em novembro do ano passado, sobre filho de um imigrante coreano em Cuba que lutou ao lado de Fidel Castro pela revolução, tornando-se seu ministro):

Cheguei na Coreia. Sabia que teria de cumprir 14 dias de isolamento. Tinha tido sintomas em Nova Iorque desde meados de março. Não eram graves, mas me castigou por semanas deixando-me emocionalmente abalado. Busquei ajuda governamental, mas meus sintomas não eram graves o suficiente para merecer atenção, e deixei meu nome na lista de espera do teste. Seis semanas depois, continuava sem contato. Não pude esconder o meu choque e desapontamento perante a impotência geral do país mais rico e da cidade mais rica do mundo. Com todo o sistema colapsado e lideranças apagadas, a consciência civil também deixou a desejar. O direito soberano da liberdade individual havia sido deturpado, lesando o bem público, produzindo um fenômeno irracional (grifos meus).

1. Passamos por consulta médica e fomos testados ali mesmo. Soltei uma risadinha vazia, sentindo-me bobo. Seis semanas angustiantes de espera em Nova Iorque dissolviam-se de forma absolutamente trivial;

2. Durante a espera, nos deram uma marmita. Aquilo me emocionou profundamente. Como o resultado sairia na madrugada, fomos levados a um hotel próximo e tudo isso nas mãos diligentes de bombeiros, policiais e funcionários do aeroporto e sem qualquer custo;

3. Na manhã seguinte, recebemos a marmita da manhã e cada um foi levado para o seu destino final, por veículos destinados para esse fim. Senti-me como um VIP;

4. Já em isolamento, recebi telefonemas do agente que ficaria responsável por me rastrear por duas semanas e recebi instruções de como utilizar o aplicativo de rastreio;

5. No dia seguinte, recebi uma caixa grande, contendo álcool em gel, termômetro, spray antisséptico, várias máscaras, sacos de lixo, além de alimentos prontos para duas semanas e produtos de higiene;

6.  Alguns chamam isso de “vigilância estatal”, mas me senti tão bem cuidado nos mínimos detalhes, a ponto de pensar se eu merecia aquilo. Na verdade, ainda não consigo acreditar que todos que chegam do exterior recebem esse tipo de “gerenciamento”. A capacidade de gestão pormenorizada e sistemática sul-coreana contrasta gritantemente com os países que chamamos de desenvolvidos, onde até os mais graves são barrados na porta do hospital. Não é simplesmente uma questão de aparelhamento, mas é possível sentir “o interesse humanizado” permeado em todas as etapas, ao qual só posso expressar gratidão (grifos meus).

Os cuidados e os procedimentos aos quais fui submetido ultrapassam qualquer imaginação. Sempre tive alguma ressalva contra iniciativas estatais, mas desta vez gritei várias vezes ‘Viva Coreia!’ por dentro. Tenho inveja daqueles que leem isso que escrevo em coreano. Experiencio o que podemos chamar de padrão global que ainda inexiste em qualquer lugar do mundo, aqui na Coreia.

Remova o óleo colando nas rochas
Voluntários se unem em Mohang-ri para retirar o óleo derramado no Mar Ocidental que ficou preso em pedras do litoral. Foto: Yonhap News.

Conectados, venceremos

Se o senso de coletividade dos coreanos tem como seu lado negativo a xenofobia, talvez essa seja uma oportunidade de, ao exercer tal soft leadership, expandir as fronteiras do “nós” coreano. E, por outro lado, talvez essa seja uma oportunidade para a civilização ocidental olhar com outros olhos para as bases fundantes do seu modo de organizar o mundo e seus possíveis efeitos nefastos. Isso seria mais urgente do que exigir indenização à China, fechar fronteiras e buscar salvar seus lucros em detrimento de quem quer que seja. O momento seria de não deixar cair nenhum elo, civil e global.

Segundo Choi, K-democracia é uma democracia fundada não sobre a liberdade individual, mas sobre a consciência de que ela é construída coletivamente e assim mantida quando cada um desempenha o seu papel de forma auto-regulada. Alguns atribuem o sucesso coreano à uma alegada obediência natural dos coreanos, fruto de uma cultura confucionista, ou ainda, a uma longa experiência por ditaduras militares. Outros ainda podem dizer que Choi generaliza apressadamente um sucesso pontual. Entretanto, a resposta pode ser encontrada mais no sistema público de saúde (não necessariamente gratuito) sul-coreano invejado por Obama, quem idealizou o Obama Care nos moldes coreanos, abortado por Trump, no parque industrial célere e flexível e uma coletividade desperta.

Samguk Yusa, um dos dois livros que formam o cânone do registro histórico da Coreia antiga, compilado em 1281 por um monge budista, traz a lenda do fundador do primeiro reino coreano Dangun. Nela, Dangun teria fundado o primeiro reino coreano sob o lema de “Trazer o bem amplo e geral a todos”, que numa tradução mais livre e oportuna, diria “Promover o ganha-ganha a todos”, devidamente conectados.

Samguk Yusa: Yonsei's First National Treasure
Livro “Samguk Yusa”, onde se encontra o trecho original da tradução “Promover o ganha-ganha a todos” . Foto: site da Yonsei University.

Yun Jung Im

O Motorista de Táxi: as lições políticas do filme ao cidadão comum

Por Alessandra Scangarelli (Via KoreaPost)

Em 18 de maio de 1980, a cidade de Gwangju, na Coreia do Sul, passou por uma revolta popular que ficaria na história como a Revolta Democrática contra o Regime Militar. Em 2011, os arquivos daquela época, foram inscritos no Registro da Memória do Mundo da UNESCO. Estima-se que até 606 pessoas podem ter morrido. Tudo começou quando estudantes locais da Universidade de Chonnam protestavam contra o governo do general Chun Doo-hwan, após este ter assumido o poder através de um golpe.

Os jovens foram atacados, mortos e espancados por tropas do governo, levando os demais moradores de Gwangju a pegarem em armas (roubando arsenais e delegacias locais). No entanto, a insurreição acabou em derrota em 27 de maio de 1980. Durante a presidência de Chun Doo-hwan, as autoridades costumavam definir o incidente como uma rebelião instigada por simpatizantes e desordeiros comunistas. Com o fim das ditaduras e a instauração da democracia, em 1997, foram estabelecidos um cemitério nacional e um dia de comemoração (18 de maio), juntamente com atos para “compensar e restaurar a honra” às vítimas.

É neste contexto que o filme “O Motorista de Taxi”, do diretor Jang Hoon, lançado em 2017, exibido em vários cinemas do Brasil, conta a história real do taxista de Seoul Man-Seuob (Sang Kang-ho) e do jornalista alemão Jürgen “Peter” Hinzpeter (Thomas Kretschmann), que acabaram juntos documentando os fatos ocorridos nesta ocasião. Também se pode acompanhar a luta deles para fugir do bloqueio e perseguição governamental e policial, no intuito de que o material fosse exibido em rede internacional e a verdade fosse contada. Esta produção foi a segunda mais vista pelos sul-coreanos no ano passado, sendo um sucesso comercial e de crítica não apenas nacionalmente, mas em diversos países. Tendo sido premiado em vários festivais, a obra ainda foi indicada pela Coreia do Sul para ser seu representante na categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar de 2018.

Cena real do conflito em Gwang-ju, registrada pelo jornal americano The New York Times.
Cena real do conflito em Gwangju, registrada pelo jornal americano The New York Times.

Há diversas questões que são tratadas no filme: o controle da opinião pública através da mídia dominada pelo governo e por grupos econômicos que acabam censurando os fatos; a importância do trabalho jornalístico honesto; a violência e repressão policial-governamental, a politização da juventude, a rejeição aos golpes de Estado; a pobreza das classe médias, mas, acima de tudo, a importância da consciência do cidadão comum sobre o seu papel político-social, que ele, muitas vezes, prefere não reconhecer.

Man-seob é o típico homem de classe média baixa, ou pobre, poderíamos assim dizer. É um sobrevivente. Viúvo, trabalha horas por dia em seu táxi, percorrendo a cidade de Seul para poder sustentar a filha e pagar as contas. Deve aluguel, não tem dinheiro suficiente para fazer reparos no táxi e não tem com quem deixar a menina, que acaba realizando as tarefas de casa sozinha. Ele parece não ter muito tempo para nada, sua passividade e inocência são claros. Ele não tem opinião política alguma e, na maioria das vezes, não se posiciona sobre qualquer assunto. Contudo, quando o faz, a exemplo dos protestos que ocorrem na capital, ele se queixa dos jovens que, na sua opinião, deveriam estar estudando, além de ficar fazendo baderna por aí. Na cabeça dele tudo vai bem no país, o governo e o exercito são, na realidade, instituições confiáveis, os jovens rebeldes é que são folgados e apenas atrapalham o dia-a-dia do cidadão de bem trabalhador.

Ele deve 100.000 wons de aluguel e quando não sabe onde poderá conseguir tamanha quantia, um colega afirma que um estrangeiro o pagou para ir até Gwangju. Man-seob assume, de forma fortuita, o lugar do amigo. Mesmo tendo morado na Arábia Saudita por um tempo, o seu inglês é bem fraco, mas ele consegue comunicar-se com “Peter” e o ajuda a desviar dos bloqueios do exército à cidade, com um certo “jeitinho” coreano. Quando lá chegam, encontram um verdadeiro cenário de guerra. Protestos contínuos que são reprimidos com violência brutal levam muitas pessoas a serem hospitalizadas. A situação é de tamanha magnitude que os taxistas locais passam a atuar voluntariamente, transportando os feridos. Para tanto, os postos de abastecimento oferecem combustível de graça, e as famílias também passam a cozinhar a todos os participantes. Certa ordem continua sendo mantida graças ao senso moral dos moradores. Isso fica bem claro, quando os taxistas locais acusam Man-seob de querer levar vantagem em cima do jornalista estrangeiro. Não que ele necessariamente fosse uma pessoa corrupta, mas sua condição e a vida dura da cidade grande, onde se tem poucos reais amigos, o fazem aderir às tramoias e golpezinhos do dia-a-dia.

Créditos: KoreaPost

Quando a história começa a desenvolver-se e o espectador é levado a adentrar mais ainda nos protestos, é possível observar que pais e avós também participam das manifestações, sendo agredidos e mortos. A solidariedade entre os participantes faz com que aquele cidadão de Seul vá aos poucos modificando a sua visão e postura com relação ao que assiste. Ele já não consegue compreender tamanha brutalidade das autoridades. É inclusive chamado de comunista por um agente policial do governo. Um estudante, Gu Jae-Sik (Ryu Jun-yeol) que sabe inglês, junta-se à dupla, passando a ser um ator importante para a educação e conscientização do taxista. Ele, um jovem normal, sem quaisquer ideais políticos, participava de um concurso musical na universidade quando os protestos começaram e seus amigos foram feridos. A atuação heroica de Gu Jae-Sik que chega a dar a própria vida, para que o jornalista alemão fosse salvo e com seu material documentado poder mostrar ao mundo o que se passava naquela pequena cidade, provoca uma espécie de culpa em Man-seob e uma transformação total. Aqui há uma crítica simbólica sutil e indireta à prepotência dos moradores de Capitais, que não raramente, acham-se incumbidos de maiores e melhores códigos morais, políticos e civilizacionais que seus compatriotas do interior… Seria mesmo o caso?

No entanto, o motorista, com a ajuda do jornalista e dos colegas taxistas locais, tem a chance de voltar a Seul. No retorno, a vida corre normalmente nas demais cidades próximas. Em uma particularmente, uma celebração à Buda está ocorrendo. Ele compra sapatos novos e caros para a filha com o dinheiro que conseguira, coisa que antes nunca teve a possibilidade de fazer. Depois, entra em um restaurante para comer e escuta os clientes comentando sobre o que se passa em Gwangju. Todos parecem acreditar nas palavras da grande mídia e do governo que afirmam terem os policiais e as autoridades sido agredidos e mortos. Neste momento, o personagem principal depara-se com um espelho e sua consciência o leva a retornar e trazer o jornalista alemão a todo custo de volta para Seul. Ele, que antes insistira que era perigoso estar na cidade, agora incentiva Peter a continuar gravando os corpos de jovens mortos.

Esta produção cinematográfica traz uma importantíssima mensagem em épocas de grande recessão econômica, crise das democracias e nova ascensão da ultradireita no mundo todo, ao cidadão comum. Afinal, este é uma peça chave para a prevenção de contextos como os que se testemunhou no período entre o final dos anos 1920 e início dos anos 1930, onde o mundo encontrou-se em depressão econômica e assistiu passivamente a ascensão de governos extremistas, apoiados por suas respectivas populações, desencadeando mais tarde na Segunda Guerra Mundial. Com interpretações magistrais, “O Motorista de Taxi” é um exemplo do amadurecimento do cinema sul-coreano que parece atualmente estar vivendo seu ápice.

Os personagens principais do filme. Foto: Youtube
Os personagens principais do filme. Créditos: Youtube

País: Coreia do Sul | Direção: Hun Jang |Roteirista: Eom You-Na e Jo Seul-Ye| Elenco: Song Kang-ho, Thomas Kretschmann, Abel Ryu, Cha Soon-bae | Duração: 137min | Ano: 2017