CEA-UFF participa de programa da Rádio Showtime

Nesta sexta-feira, dia 6 de novembro, às 9h, a pesquisadora do Centro de Estudos Asiáticos da Universidade Federal Fluminense (CEA-UFF) Fabiane Assaf participará do programa da Rádio Showtime (FM), em que fará uma análise da política internacional e o Oriente Médio. O objetivo deste programa é promover um diálogo entre a universidade e o público em geral. Assaf ainda vai abordar a sua trajetória acadêmica e os estudos acadêmicos na área de Oriente Médio e Ásia.  Esta iniciativa também é uma parceria entre o CEA-UFF e a Rádio Showtime. Para acompanhar a programação, acesse o link: https://allmylinks.com/radioshowtime?fbclid=IwAR0gVbt0LgNht48HEiQUgdwU6K_e54mcT6NiUbhYV1aHXEuHdHHOGLB0cbA

Crédito: Facebook Rádio Showtime.

“Tel Aviv em Chamas”: uma visão cômica do conflito Israel-Palestina que não foge à dura realidade

Por Alessandra Scangarelli (Via Intertelas)

O cinema é um espaço bastante amplo e que contempla diversas abordagens e representações da realidade, inclusive de questões bastante delicadas como o conflito Israel-Palestina. Afinal, mesmo em uma das regiões mais problemáticas do planeta, a vida dos que ainda permanecem por lá continua. Parece difícil para muitos compreenderem como as maiores amenidades das relações sociais podem seguir em curso, ainda que uma guerra, um território ocupado e tantas outras formas de violência extrema estejam presentes no dia-a-dia dos habitantes que estão expostos a sucessivos ataques armados.

Mais, há quem não acredite, porém gêneros como a comédia podem ser a escolha perfeita para lançar um olhar mais complexo e bastante humano, com sutilezas provocantes, críticas que ficam nas entrelinhas, utilizando de ironia e sarcasmo para criar um quadro diferente e bastante interessante de um assunto que sempre é lembrado pelo drama da guerra. Estas características podem ser encontradas em “Tel Aviv em Chamas” (2018), distribuído no Brasil pela Pandora Filmes e um dos últimos trabalhos de Sameh Zoabi, nascido em Iksal, uma aldeia palestina, localizada próxima à cidade de Nazaré.

Nesta história, o personagem principal Salam (Kais Nashif), um assistente de produção palestino, conduz o espectador pelos bastidores da gravação de uma telenovela palestina que leva o mesmo nome do filme. Quem já teve alguma experiência com o cotidiano de uma produção audiovisual, sabe o quão caóticos e imersivos os dias de gravação podem ser para os envolvidos. E isso ocorre independentemente da nacionalidade e do país. É um traço comum deste ramo profissional. Ao levar isto em conta, duplique a tensão no contexto de uma novela que está sendo gravada na própria Palestina e cujo enredo central em si tem como tema o conflito local.

Crédito: Samsa Film – TS Productions – Lama F… Productions.

Assim, Salam para sair de sua casa e ir até o estúdio necessita cruzar o posto de controle entre as cidades de Jerusalém e Ramala, diariamente. São nestes momentos chaves que é possível ter uma noção do absurdo que tal situação impõe às pessoas, aos cidadãos palestinos em geral, como a limitação da liberdade de ir e vir, a desigualdade social, a desconfiança e a violência, às vezes passiva, mas não menos cruel, das autoridades e de uma elite israelense, que através de seu braço armado, despoja os palestinos da condição de cidadãos, ao desprovê-los de direitos básicos, na própria casa deles.

É no posto de controle que Salam conhece o oficial do exército israelense Assi (Yaniv Biton), que acompanha a novela “Tel Aviv em Chamas” com sua mulher, Tala (Lubna Azabal) e que ao saber do ofício de Salam começa a querer ter suas opiniões e sugestões para o desenrolar da trama levadas em conta. Ao contrário do que se espera, Salam encontra nestas conversas impostas por Assis uma oportunidade profissional.

Ele começa a se apropriar das ideias do militar e sugerí-las à equipe de produção, o que lhe proporciona aos poucos um lugar de destaque e confiança, tornando-o o roteirista principal. No entanto, o escritor novato vai precisar ter muita sabedoria para lidar com as perspectivas, com o ambiente conflituoso e dividido, mas, principalmente, com os anseios contrários dos investidores palestinos e do oficial israelense para o final da história. Será preciso muita sagacidade e criatividade para chegar a um resultado que satisfaça a todos.

Crédito: Samsa Film – TS Productions – Lama F… Productions.

“Tel Aviv em Chamas” torna-se uma produção especial ao conseguir transmitir através de sua trama e diálogos um ambiente de constante tensão, de opiniões inflamadas de ambos os lados, mas, acima de tudo, de ambições políticas e pessoais que estão presentes nas constantes falhas da personalidade humana que ao invés de auxiliar, só tornam os contextos mais difíceis para que a vida em comunidade seja possível. E tudo isso com um bom toque cômico. A cenografia e a fotografia da obra auxiliam a criar a atmosfera do humor oscilante dos personagens.

Na realidade, são elementos de extrema importância para induzir, ou transferir ao público as emoções daqueles personagens. Porém, certamente, de nada adiantaria sem a interpretação e a interação entre Kais Nashif e Yaniv Biton. Estes formam uma dupla única, capaz de transpassar diversas vezes a linha entre amizade e inimizade, entre colaboração e disputa, que acontece em um cenário repleto de manipulações que objetivam promover interesses particulares e também dos povos que os personagens ali representam. Pela sua extrema humanidade, no que há de melhor e pior, “Tel Aviv em Chamas” é uma abordagem diferenciada sobre o conflito e como opção cinematográfica promove entretenimento e reflexão.

Ficha Técnica:

País: Israel, França, Luxemburgo e Bélgica | Direção: Sameh Zoabi | Roteiro: Dan Kleinman e Sameh Zoabi | Elenco: Kais Nashif, Lubna Azabal, Yaniv Biton | Duração: 100 min. | Ano: 2018

Persépolis: a Revolução vista por uma menina

Por Fabiane Assaf (Via CEA-Centro de Estudos Asiáticos da UFF)

Quando se fala em revolução, muitas imagens surgem em nossa cabeça, como a chegada de operários ao poder ou grupos de guerrilha armados. Neste cenário, como pensar uma revolução islâmica e teocrática, caso da Revolução Iraniana de 1979, que teve consequências marcantes não somente para o Oriente Médio, como para o ocidente?

A sugestão de hoje responde à pergunta anterior e é a do filme “Persépolis” (2000), da artista gráfica Marjane Satrapi. Trata-se de uma animação de 96 minutos baseada na obra estilo quadrinhos homônima da autora. A história do filme é espécie de autobiografia da autora e retrata a vida no Irã pré e pós revolucionário. Marjane Satrapi nasceu no Irã em 1969 numa família que tinha ligações com o movimento comunista e muito cedo teve de ir morar na Europa por motivação política, fato que marca a sua vida. Assistiu em sua infância e início da adolescência aos eventos mais marcantes pré-revolucionários incluindo a queda do Xá, o regime inicial de Ruhollah Khomeini, e os primeiros anos da Guerra Irã-Iraque.

Aos 14 anos, em 1983, Satrapi teve de ser enviada a Viena, Áustria, por seus pais, a fim de fugir do regime iraniano e lá estudou no Liceu Francês de Viena. Como visto em sua autobiografia, ela permaneceu em Viena durante o ensino médio, morando na casa de amigos, em pensionatos e repúblicas estudantis, até finalmente ficar desabrigada e morar nas ruas. Após  sofrer um ataque quase mortal de pneumonia, devido às precárias condições de vida a que estava submetida, ela retornou ao Irã, onde casou-se com um iraniano.

Marjane na vida real X Marjane em Persepolis (2000)

O filme é importante justamente porque aborda a crise de identidade que sofreu a protagonista ao retornar para sua cidade natal, Teerã. Enquanto no tempo em que viveu na Europa aprendeu a conviver e ter suas relações pautadas pelo status de imigrante terceiro-mundista, já não conseguiu sentir-se igual aos seus conterrâneos iranianos, familiares e amigos, ao retornar  pela influência dos hábitos e pensamento ocidentais.  

A reflexão é pertinente não somente por abordar as questões identitárias, como para pensar de que formas a guerra pode afetar o cotidiano, o emocional e a vida das pessoas, bem como os ruídos práticos do que Edward Said (1978) chama de orientalismo, ou seja, a forma como o Ocidente retrata o Oriente a partir de perspectivas próprias. Além disso, trata-se de valioso relato de um grave conflito político de proporções globais, a Revolução Iraniana de 1979, da perspectiva de uma criança, cujo vínculo familiar e busca pelo pertencimento, amor, amizade e lugar no mundo são latentes, característica comum a qualquer adolescente.

Em entrevista concedida à atriz Emma Watson em 2006, Marjane Satrapi explica sua escolha pela tinta preta para a produção da HQ justificando-a pelo fato de que nas histórias em quadrinhos a informação visual é tão importante quando a escrita, a opção pelo preto sendo espécie de facilitador do ritmo de leitura de uma história densa e na qual havia muito para ser contado.

Leitura e filme obrigatórios!

Fonte: Youtube

Ficha Técnica:

País: Estados Unidos da América, França | Direção: Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud | Estreia: 27 de junho de 2007  | Duração: 96 minutos.