“Um destino forjado pelo céu: A História de Hong Gildong”, o ensaio vencedor do VI Concurso de Literatura Coreana

Capa do livro “A História de Hong Gildong”, de Heo Gyun, com tradução e notas de Yun Jung Im (Estação Liberdade, 2020). Fonte da imagem: Editora Estação Liberdade.

Um destino forjado pelo céu: A História de Hong Gildong

Por Claudia Bitti Leal Vieira

Resumo: A presente resenha da obra A História de Hong Gildong (Heo Gyun, trad. Yun Jung Im, Editora Estação Liberdade, 2020) objetiva descrevê-la para um público não familiarizado com a produção cultural sul-coreana, refletindo criticamente sobre o enredo. Ademais, busca contextualizar sua importância cultural e histórica na Coreia, bem como discorrer, brevemente, acerca das controvérsias que cercam o texto. Ressalta-se o status de clássico da obra, bem como a importância de sua leitura para os que desejam conhecer mais a fundo a cultura coreana.

Um dos aspectos mais interessantes da chamada “Onda Coreana” ou “Hallyu” – a crescente popularidade dos produtos culturais coreanos em diversas regiões do mundo – é a difusão da literatura coreana. Antes praticamente desconhecida no Ocidente, na última década a produção literária da Coreia tornou-se parte inescapável do panorama cultural contemporâneo. Publicações recentes figuram nas listas de mais vendidos e ganham prêmios literários; autores coreanos são aclamados nos mais distintos gêneros, desde a ficção literária à literatura infantil, passando por horror e ficção científica.

Diante do sucesso da produção literária contemporânea sul-coreana, é natural que tenha surgido um interesse de editoras estrangeiras também pela literatura clássica do país. Isso é boa notícia para quem deseja conhecer outras facetas do país asiático. Afinal, nem só de modernidade vive a Coreia: é uma terra de longa história e antigas tradições.

Em 2016, o selo Penguin Classics publicou A História de Hong Gildong em inglês, com tradução e introdução do historiador Minsoo Kang; a primeira vez que uma obra coreana era incluída na lista de clássicos mais famosa do mundo. A tradução da Penguin é a da versão manuscrita (pilsaKim Donguk 89, a mais longa entre as 34 versões sobreviventes do clássico, que se diferenciam em tamanho, estilo e detalhes como nomes das personagens.

O estadista Heo Gyun (1569-1618), tradicionalmente considerado o autor de “A História de Hong Gildong”. Fonte da imagem: BBS News.

Agora, A História de Hong Gildong chega a prateleiras brasileiras graças à editora Estação Liberdade, com tradução e introdução de Yun Jung Im, professora do Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo. A versão é a wanpan 36, texto impresso produzido em Wanju (atual Jeonju), com 36 folhas.

Que Hong Gildong tenha sido o primeiro clássico coreano a “ganhar o mundo” não é surpreendente. Considerada a mais importante obra clássica de ficção em prosa da Coreia, tradicionalmente é atribuída ao nobre estadista Heo Gyun (1569-1618) e caracterizada como um texto antifeudalista, de matizes revolucionárias. O livro teria sido também o primeiro escrito em hangeul, o alfabeto coreano, criado pelo rei Sejong, o Grande e mais acessível para a população que os ideogramas chineses. Recentes pesquisas, porém, rejeitam essas premissas. A principal diferença entre as versões da Estação Liberdade e da Penguin Classics, aliás, reside nas posições que os respectivos tradutores adotam. Yun Jung Im defende o campo tradicionalista com detalhadas anotações sobre a obra e o autor, reafirmando a importância da obra como artefato literário de meados da dinastia Joseon, escrito por um ministro idealista e igualitário. Já Minsoo Kang está entre os pesquisadores que afirmam que é mais provável que A História de Hong Gildong tenha sido escrita no final do século XIX (portanto, alguns séculos mais tarde do que geralmente aceito), por um autor desconhecido ou anônimo, não como texto político ou ideológico, mas como entretenimento para as massas. Ademais, teria sido escrito em hangeul, mas não seria pioneiro. Além de defender suas conclusões resumidamente na introdução para a Penguin, publicou o livro Invincible and Righteous Outlaw: the Korean Hero Hong Gildong (2018, University of Hawaii Press).

The Story of Hong Gildong | Amazon.com.br
Versão em inglês lançada pela Penguin Classics e traduzida por Minsoo Kang. Fonte da imagem: Amazon.

É fato que existem estudiosos respeitados em ambos os lados da contenda literária. O leitor só tem a ganhar se desejar se aprofundar na estimulante controvérsia histórica, que envolve até mesmo a biografia de Heo Gyun e a trama palaciana que levou à sua execução (um complô digno de Game of Thrones), e quem teria sido o verdadeiro Hong Gildong. De qualquer modo, nada disso diminui a estatura do clássico, e é inegável que grande parte de sua relevância reside também na persistência de seu enredo e personagens no imaginário coletivo coreano.

Situada durante a dinastia Joseon (1392-1897), a história de Hong Gildong começa com sua concepção. O ministro Hong Mun tem um sonho auspicioso e busca conceber um filho com sua esposa, mas, como ela se recusa a deitar-se com ele, o frustrado ministro então satisfaz seu desejo com uma jovem criada, Chun Sim (nota-se certa ambiguidade textual ou talvez ironia autoral quanto à caracterização do nobre ministro: elogiado como “um verdadeiro herói moral de seu tempo”, uma de suas primeiras atitudes na história é violar a criada). Consciente do seu limitado horizonte de possibilidades como membro de classe inferior, Chun Sim se submete. O ministro Hong, impressionado com a discrição da serva, a eleva para o posto de sua concubina, e ela se torna mãe do menino Hong Gildong. 

Ilustração de Shin Dong-wu, autor dos quadrinhos “Hong Gildong, o Herói”, cuja publicação se iniciou em 1965. O visual criado pelo artista para a personagem, com o colete azul, pequeno chapéu amarelo, mangas arregaçadas e uma espada na cintura, tornou-se icônico. Fonte da imagem: Asian American Writers’ Workshop.

Apesar de naturalmente talentoso, o menino Gildong, por ser filho de uma concubina e, consequentemente, ter status secundário na sociedade, cresce se lamentando por saber que nunca poderá se dedicar aos dois caminhos de prestígio abertos aos varões de nascimento nobre (yangban): o serviço público ou o militar. Sua outra grande tristeza é a de nunca poder chamar a seu próprio pai de Pai, nem a seu irmão (legítimo) de Irmão, pelo costume da época.

Os muitos dotes de Gildong despertam a inveja da concubina sênior, Chonang, que não tem filhos. Ela conspira para causar a morte do jovem. Em uma das passagens mais interessantes do livro, uma adivinha a serviço de Chonang se dirige ao ministro Hong e finge que viu em Gildong a face de um rei, alertando que se o menino fracassar em suas ambições, será a causa de grandes infortúnios. Naquela época, a traição ao rei poderia ser punida com o extermínio de três gerações da família. Como, oficialmente, Gildong nunca poderia exercer suas ambições, o ministro pensa exatamente como sua concubina esperava, e considera que o melhor seria que seu filho morresse, para evitar uma tragédia maior na família. Mais uma vez notamos certa ironia autoral em relação ao ministro, tão elogiado como capaz e erudito, caindo facilmente em uma artimanha combinada por mulheres das mais baixas origens. Ainda melhor, a profecia fajuta acerta, pois a eventual rebeldia de Gildong, derivada dos obstáculos a suas ambições legítimas, de fato traz sofrimentos para a família (ainda que de forma temporária), e afinal ele se torna, incrivelmente, um rei.

Pôster do filme de animação “A História de Hong Gildong”, de Shin Dong-heon (1967), com roteiro de seu irmão Shin Dong-wu. Este foi o primeiro longa-metragem de animação da Coreia. Fonte da imagem: Asian American Writers’ Workshop.

Como Laio em Édipo Rei, o ministro, temeroso, busca impedir a concretização da profecia, e acaba por criar melhores condições para que ela venha a fruição. Sem coragem de ordenar a morte do filho ilegítimo, obriga o jovem Gildong a viver isolado em um anexo e o proíbe de sair da propriedade. Com tanto tempo livre e nenhuma distração, o menino se dedica a estudos esotéricos e às artes marciais, chegando a dominar poderes sobrenaturais e controlar os elementos. Tão mágico quanto Harry Potter, mais poderoso que o Super-Homem (pois, ao contrário deste, Gildong não possui uma fraqueza), e com a mente militar de um César, Hong Gildong se torna invencível. Logo se vê por que Hong Gildong hoje é visto como um símbolo da masculinidade perfeita na Coreia.

Após Chonang contratar um assassino, com a concordância da esposa do ministro e de seu filho legítimo, Gildong derrota os conspiradores. Seu pai lhe concede a graça de chamá-lo de Pai, mas Gildong, consciente da precariedade de sua situação, deixa a casa paterna. Em sua nova vida, torna-se o líder de um bando de foras da lei, lamentando, ainda, o fato de não poder ter uma carreira legítima e honrada servindo ao rei. Daqui advêm as comparações com Robin Hood, pois o bando de Gildong rouba de ricos para dar aos pobres, e pune oficiais corruptos que infernizam a vida da população humilde. Adaptações modernas da história costumam aumentar ou sanitizar as ações de Gildong com seu bando, e mesmo a tardia versão wanpan 36 busca justificar o saque de um tempo budista, ocasião em que os monges são enganados e amarrados, com uma adição ao texto, uma longa passagem antibudista, possível referência à repressão do budismo durante o período Joseon, quando prevaleceu o neo-confucionismo. Nas versões pilsa e gyeongpan da história, não há qualquer justificativa para o crime; as ações de Hong Gildong são menos evidentemente “puras”.

Muitos são os feitos de Gildong, de forma que logo sua reputação chega aos ouvidos do rei. A família de Gildong inevitavelmente sofre com a punição real: o ministro Hong, idoso, é preso, e a família tem a grande vergonha de ser relacionada a um fora da lei. Porém, o rei age com benevolência e lhes oferece uma chance, desde que o irmão legítimo de Gildong o prenda. Gildong se deixa capturar, apenas para demonstrar espetacularmente que força humana nenhuma pode detê-lo. Suplica ao rei que o nomeie ministro da guerra, mas quando, milagrosamente, alcança esta grande ambição, imediatamente rejeita o convite e anuncia que partirá do reino para sempre. O que explica a repentina mudança de ideia do jovem herói? Talvez fosse apenas um desejo de provar que poderia conseguir o cargo; talvez o mero posto de ministro fosse realmente pouco para quem tem o poder de invocar divindades para cumprir seu comando.

Imagem do filme norte-coreano “Hong Kil-dong” (1986). O filme foi distribuído em países comunistas, como Cuba e Angola. Nele, Hong Kil-dong (de branco) luta contra ninjas japoneses invasores.

Juntamente com seu bando, vai viver em uma ilha. No caminho, luta contra monstros e assim conquista não só uma bela esposa, como duas concubinas, que eram reféns das criaturas. Após alguns anos de prosperidade, o talvez já não tão benevolente Gildong decide exercitar seu poderio militar para subjugar um outro reino, próspero e pacífico. A vitória do mais forte, Hong argumenta com lógica quase darwiniana em carta exigindo a rendição do rei legítimo, é nada menos que “o mando do céu”. Não deixa de ser irônico que a história de Hong Gildong hoje simbolize tão fortemente a rebelião dos oprimidos contra os fortes em um país que já foi colonizado como a Coreia, quando a história louva a tomada de um reino independente. E assim, Hong Gildong, de menino de status secundário, torna-se rei. Décadas depois, já em idade avançada, transfere a regência para seu filho legítimo mais velho, e ascende aos céus com sua esposa, tornando-se uma divindade.

A História de Hong Gildong possui forte apelo simbólico e grande popularidade na Coreia (aqui nos referimos às duas Coreias, pois a história data de muito antes da divisão da península), principalmente pelo seu tema de talento pessoal que eleva a grandes posições um indivíduo oprimido por uma sociedade que lhe desfavorece. A ideia de um jovem herói que pune opressores e auxilia os humildes também é muito atraente para um povo que foi dominado em diferentes eras. É a parte da história que mais recebe destaque nas muitas “reencarnações” em filmes, séries de televisão, quadrinhos, etc, e os “vilões” podem ser facilmente modificados de funcionários públicos corruptos ou nobres opressores para japoneses colonizadores e mesmo grandes empresários corruptos, dependendo do zeitgeist.

Material promocional do drama “Hong Gildong, the Hero” (KBS, 2008). Adaptação feita com o público Hallyu em mente, o drama inclui deliberadamente elementos modernos (de penteados estilosos e óculos escuros a K-pop) como forma de atualização da história. Fonte da imagem: Viki.

É interessante verificar, entretanto, que o Hong Gildong textual é um herói com mais zonas cinzentas do que a versão simplificada que é mais conhecida. Que ele considera as leis de Joseon injustas no tocante a ele próprio, por obstaculizarem sua devoção filial e ascensão social, é certo. Embora muitos atribuam à personagem zelo reformista ou revolucionário, essa leitura não é evidente, uma vez que em nenhum momento ele peleja para transformar o sistema, as leis, no que se aplicam à sociedade em geral. Sua temporada causando caos no reino com seu bando pode ser interpretada como uma forma de chamar a atenção do rei para suas habilidades. Sua atitude em invadir e colonizar um reino pacífico, com governantes justos, é frequentemente vista como a criação de uma utopia, mas, longe de criar uma sociedade em novos moldes, sem discriminação de status, Hong simplesmente replica a sociedade hierárquica de Joseon, desta vez com ele no topo. As diferentes leituras a que o texto dá azo até os dias de hoje são parte do que o faz um clássico.

Conhecer a literatura clássica de um país é uma das melhores formas de entrar em contato com o núcleo de sua cultura compartilhada. Se um clássico é “um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, nas palavras de Italo Calvino, nada mais apto para descrever A história de Hong Gildong, que atravessou os séculos na Coreia divertindo e inspirando. Enquanto houver a aspiração por uma sociedade mais justa e o sonho de um herói que aja com bravura para proteger os oprimidos, a lenda de Hong Gildong permanecerá viva.

Ensaio por Claudia Vieira

O MidiÁsia agradece a disponibilidade da autora em conceder o texto para publicação, assim como a professora Yun Jung Im que confiou no nosso site para ser um espaço de extensão do VI Concurso de Literatura Coreana.

Para saber mais sobre a autora do ensaio e o VI Concurso de Literatura Coreana, acesse aqui a notícia no MidiÁsia.

Conheça o ensaio vencedor do VI Concurso de Literatura Coreana

Em dezembro de 2020 aconteceu a premiação do VI Concurso de Literatura Coreana, evento realizado pela USP, com o apoio do Centro Cultural Coreano no Brasil e patrocínio do Literature Translation Institute of Korea. Para o concurso, foram convocados participantes interessados em desenvolver ensaios em português sobre o livro “A História de Hong Gildong” (Heo Gyun, tradução de Yun Jung Im, Editora Estação Liberdade), que foram divididos em três grupos: Junior (pessoas com até 18 anos), Universitários (até 25 anos) e Público Geral (a partir dos 26 anos). O livro, lançado em versão traduzida no Brasil no final de 2020, é um romance sul-coreano inspirado em uma figura histórica e narra a vida de Hong Gildong, o filho ilegítimo de um nobre com sua concubina. Escrito em 1612 por Heo Gyun (1569-1618), durante a dinastia Joseon, a história se desenvolve apresentando o cotidiano da sociedade à época e as aventuras do protagonista, que apresenta grande inteligência e poderes sobrenaturais. A obra se encontra disponível para venda no site da editora.

Folder do evento VI Concurso de Literatura Coreana, realizado em 2020. Fonte: Facebook do Centro Cultural Coreano no Brasil.

O VI Concurso de Literatura Coreana premiou os melhores ensaios redigidos e Claudia Vieira foi a grande vencedora com o texto “Um destino forjado pelo céu: A História de Hong Gildong“. Advogada e mestranda em Direitos e Garantias Fundamentais pela Faculdade de Direito de Vitória, Claudia Vieira é especializada em Direito Internacional e Relações Internacionais e interessada nos estudos sobre interações entre produtos culturais e geopolítica, principalmente no contexto leste asiático e no indiano. O ensaio dela apresenta detalhes da narrativa e do processo de tradução e lançamento da obra no Brasil, além de introduzir de forma muito completa o livro para potenciais leitores da obra. O texto de Claudia também traz explicações e aprofundamentos sobre o protagonista Hong Gildong, que ajudarão também àqueles que já conhecem a história a refletir sobre as diferentes abordagens que a leitura deste livro pode prover. Além de pontuar questões relacionadas ao contexto histórico da narrativa, assim como suas adaptações e conspirações sobre a natureza da obra. A riqueza do livro é muito bem representada por este ensaio vencedor.

A autora Claudia Vieira e grande vencedora do VI Concurso de Literatura Coreana. Fonte da imagem: acervo pessoal.

O MidiÁsia, então, tem a honra de publicar exclusivamente o texto que venceu o Concurso e apresentar a excelente obra de Heo Gyun através dos olhos de Claudia Vieira. Acessem aqui o texto do ensaio na íntegra.

Ouvindo os sons do vento com Haruki Murakami

Por Mateus Nascimento

Ouça a canção do vento, de 1979, é o primeiro texto de Haruki Murakami (ou Murakami Haruki dependendo do quão imerso nos estudos japoneses você esteja), o grande autor japonês pop!

Ler este livro é fundamental para se conhecer um Murakami das primeiras ideias literárias, antes de ser o sucesso de vendagem que é hoje. De certa forma, é ter em suas mãos as primeiras experimentações do autor no campo da escrita, mesclando imagens mais contemporâneas e ocidentais (especialmente americanas), mas também outras mais clássicas, do repertório da literatura japonesa.

Ele é um dos escritores japoneses mais conhecidos justamente porque seus livros abordam desde a própria cultura japonesa até as questões mais centrais de nosso tempo, às vezes misturando as duas coisas em histórias qualificadas como pertencentes ao realismo fantástico.

Haruki Murakami. Créditos: The Star

Nascido em Quioto pouco tempo após a Segunda Guerra Mundial, em 1949, Murakami é filho de um sacerdote budista com a filha de um comerciante de Osaka, com os quais aprendeu literatura japonesa. Frequentou a Universidade de Waseda, em Tóquio, dedicando-se sobretudo aos estudos teatrais. Antes de terminar o curso, abriu um bar de jazz chamado Peter Cat, à frente do qual se manteve entre 1974 e 1982, e se casou jovem. O casal não tem filhos.

Com esse breve histórico, parece que Murakami quis ser diferente do padrão. Sua vida mostra alguém que quis ser um outsider ou crítico do estilo de vida capitalista do Japão, muito marcado pelos conceitos de produtividade, meritocracia, que compõem aquela imagem do japonês como pessoa sempre ocupada, disciplinada, educada, etc., que nós ocidentais conhecemos na mídia.

Normalmente, muitos comentadores o associam à corrente de autores do realismo fantástico, por conta da junção de elementos folclóricos, ficcionais a imagens que podemos encontrar na realidade: música clássica, música pop americana, imagens da pop art e cenas fantásticas que se inspiram em lendas japonesas ou em lendas ocidentais. Toda a mistura aparece somada a gatinhos, cervejas e bastante cenários típicos de um Japão em constante aceleração, marcado pelas dores do individualismo extremo que reina ali, apesar de quase todas as atividades dos sujeitos serem atravessadas por conceitos e formas que privilegiam o coletivo e a coletividade.

Capa do livro Ouça a canção do vento. Créditos: foto do autor.

Por sua vez, Ouça a Canção do Vento é um romance curto, mais próximo de uma novela o que de um romance, e acompanha um narrador sem nome ao longo de poucos dias de suas férias de verão da faculdade, em agosto de 1970. O livro virou filme em 1981, dirigido por Kazuki Ōmori – Hear the Wind Sing – e logo popularizou o texto murakamiano no próprio país.

Narrado em primeira pessoa com capítulos curtos, esse narrador, cujo nome não sabemos em nenhum momento da história, passa grande parte do seu tempo com seu melhor amigo, o Rato, e com J., barman e dono do J’s Bar, onde os três passam as noites bebendo e conversando.

Entre uma aparição e outra de California Girls do grupo Beach Boys ou de Return to the Sender de Elvis Presley, ao passo que a vida boêmia de Kobe se apresenta, o narrador resgata uma moça desacordada no bar e em torno desse relacionacionamento gira a história, com algumas pausas nas quais ele busca lembrar-se de relacionamentos passados e experiências da sua vida. Apesar de conhecermos pouco todos os personagens – o Rato um pouco mais pois é mencionado o fato dele ser filho de empresários – ficamos sabendo que o narrador está vivendo tudo isto por estar de férias da faculdade, entre os dias 8 e 26 de agosto de 1970.

Certamente esses personagens sugerem um apontamento murakamiano sobre os deslocados no interior da cultura do Japão, que consequentemente desenvolvem a solidão e medo de serem inadequados, o que se correlaciona com o nosso tempo atual. É curioso o fato de que Murakami tenha escrito sobre esses dramas na década de 1980 e alguns dos textos dessa fase ainda serem tão atuais.

Perceba: personagens sem nome, no meio de uma sociedade que valoriza bastante o coletivo; a quase onipresença do álcool em todos os momentos das histórias; as mortes e a crise profissional que assombra boa parte dos protagonistas, temas quase incabíveis no Japão que nos é continuamente apresentado como o país do futuro, da dedicação pessoal e do sucesso. 

Para ele, por exemplo, é ausente do mundo atual um conceito de heroísmo, muito presente no elogio do sucesso formulado pela cultura da meritocracia. Também estariam ausente as fórmulas prontas. A situação atual é o que é e nada mais e suas obras falam desse cotidiano da contemporaneidade, que mais nos oprime e desloca e mata psicossocialmente. Com vocês, Haruki Murakami.

Ficha Técnica:

Título: Ouça a canção do vento / Autor: Haruki Murakami / Tradutora: Rita Kohl / Editora Alfaguara, 2016.

“Isso não é arte” de Kobayashi Issa

Por Roberto Schmitt-Prym e Andrei Cunha (Editora Bestiário)

Kobayashi Issa (1763–1827) é um daqueles grandes da literatura que pagaram um preço alto por darem prazer ao seu público: como Mario Quintana, Alexandre Dumas, Anton Tchekhov, Jacques Prévert, ou ainda seus conterrâneos Miyazawa Kenji e Murakami Haruki, o impacto de Issa é tão acessível, mesmo para quem “não gosta de literatura”, que suscita desconfiança em críticos mais sisudos — o tipo que imagina que, para ser arte, precisa dar trabalho ao leitor.

Estátua de Kobayashi Issa em Kashiwabara. Créditos: Green shinto

Isso não é arte? É um clichê dizer que é muito difícil ser simples, que a leveza do artista esconde um fazer cheio de gravidade. Os haicais de Issa abrigam muitos níveis interpretativos, tanto como representantes da sua cultura, quanto como peças discretas que funcionam em diversos contextos. Ele é herdeiro de uma tradição japonesa, literalmente milenar, de desprezo pela distinção entre o confessional e a ficção: seus comoventes diários e poemas são, ao mesmo tempo, “baseados em fatos reais” e sínteses daquilo que Ricardo Silvestrin chama, em sua Introdução, de “um eu que se dissolve, um eu mínimo, no limite do não-eu”.

Por outro lado, mesmo sem o melodrama pessoal, extirpados de seus habitat linguístico, social, moral, os poemas continuam vivos, desafiando o equívoco, bastante comum, de que Issa não merece ser mencionado com os outros dois da tríade — Bashô e Buson —, por não ser “suficientemente sério, suficientemente profundo”.

Imagem do livro “Isso não é arte”. Créditos: Mateus Nascimento.

Assim como há quem ache simples ser simples, vai ter gente que vai dizer que o trabalho de Silvestrin foi pequeno. Afinal, que mistério pode haver em repetir, em português do Brasil, as frases diretas e descomplicadas de um poeta de fácil comunicação? O sentimentalismo dos haicais de Issa, que ele herdou da tradição do waka da Antiguidade, mais do que do haicai da Idade Média, já é tão pungente, que bastaria, seguindo esse raciocínio, repetir a mesma história em nossa língua. De novo, há aí engano. Silvestrin consegue fazer um trabalho difícil sem permitir que ele pareça difícil: os poemas — que ele escolheu claramente por afinidade, por ressonância — se apresentam a cada folha deste precioso livro como que recém-chegados a um mundo que é uma fusão de brevidade nipônica com uma sensibilidade linguística nossa, e isso é para poucos.

Eis aí a mágica, que nem todos veem: ser arte tão leve que desafia a mesma ideia do que seja arte.

Ficha técnica:

Título: ISSO NÃO É ARTE. Autor: Kobayashi Issa. Tradução: Ricardo Silvestrin. Publicação: Bestiário/Class, 2019.

Todos os Haicais de Ryōkan Taigu!

Por Roberto Schmitt-Prym (Editora Bestiário)

Esta é a coleção completa dos haicais do monge budista Ryōkan Taigu, em edição bilíngue.

A produção poética de Ryôkan se encontra dispersa em diários, cartas, anotações, leques, biombos, trabalhos de caligrafia, desenhos e outras obras que ele produziu ao longo da vida e que foram preservadas pelas pessoas que conviveram com ele. Assim, os haicais desta antologia se apresentam numa ordem não cronológica, baseada na forma tradicional das coletâneas de poesia do Japão, que agrupa poemas em torno de temas sazonais.

Foto do livro. Créditos: Mateus Nascimento

Como figura humana, a posteridade se encarregou de disseminar anedotas, muitas das quais apócrifas, sobre o suposto caráter excêntrico de Ryôkan. Ele é visto como um mendigo, um velho louco, uma personagem um pouco patética — um eremita que vivia isolado do mundo dos homens, na mais abjeta miséria. Os poemas desta antologia ajudarão talvez a compreender a profunda visão humana que havia por trás dessa figura considerada por muitos como “digna de pena”. A sua vida ascética foi um poderoso instrumento espiritual, permitindo que ele visse as coisas e as pessoas com mais liberdade — e que as descrevesse com maior franqueza.

Estátua do poeta em Niigata. Crédito: Enciclopédia Britannica (https://www.britannica.com/biography/Ryokan)

Ryôkan Taigu (良寛大愚) (Izumozaki, na atual Fukushima, 1758-1831) foi um poeta, caligrafista e monge zen-budista que viveu grande parte de sua vida como um eremita. É lembrado como o grande poeta do zen-budismo e comparado a Francisco de Assis em seu significado como religioso para os budistas.

Os nomes religiosos com os quais se intitulou significam “Vasta Tolerância” (Ryōkan) e “Grande Louco” (Taigu), mas os relatos dos seus contemporâneos também falam do seu calor humano e compaixão. Aos dezoito anos, decidiu entrar em um mosteiro. Estudou com o famoso professor Kokusen Roshi da escola Sotō. Após a morte de seu mestre, Ryōkan passou os próximos vinte anos em um eremitério nas montanhas. Embora não tenha escrito em um único estilo, por possuir um espírito inovador, grande parte dos seus mais de 1.400 poemas foram compilados por pesquisadores (Ryokan somente distribuía poemas a amigos). O poeta praticou largamente o haicai.

Em 1826, Ryōkan ficou doente e não pôde continuar vivendo como eremita. Ele se mudou para a casa de um dos seus patronos, Kimura Motouemon, e foi cuidado por Teishin, pela qual se apaixona e, embora raramente estivessem juntos, nos próximos três anos escreveu o que, aparentemente, são alguns dos mais belos poemas de amor da literatura japonesa.

Ficha técnica:

Título: TODOS OS HAICAIS. Autor: Ryōkan Taigu. Tradução: Roberto Schmitt-Prym. Ensaio: Andrei Cunha. Publicação: Bestiário/Class, 2020.

ÜBERSEEZUNGEN: Retrato de uma língua e outras criações de Yoko Tawada

Por Roberto Schmitt-Prym (Editora Bestiário)

Um livro ousado, repleto de graça e inspiração.

Lê-se no título de “Überseezungen” – entre outros significados – as “traduções” que levam a protagonista a viajar ao sul da África, aos Estados Unidos, ao Canadá e de volta ao Japão e à Alemanha (Tawada, nascida e criada no Japão, mora desde 1979 na Alemanha).

O leitor aprende muito sobre países, sobre povos e sobre os traços das palavras quando a escritora, em sua perspicácia benjaminiana, expressa a perplexidade e o maravilhamento proporcionados pelas diferentes formas e barreiras linguísticas, as quais investiga espirituosamente em frases simples, ao mesmo tempo vivazes e despreocupadas, que respiram os ares da poesia e da filosofia.

Überseezungen é, ao mesmo tempo, uma palavra, uma criação; uma tradução, uma transcriação.

O título de Tawada é um entrelaçamento de formas e significados. Em um primeiro momento, sua fisionomia mostra a expressão central do livro: Übersetzungen, em alemão, significa “traduções”.

Um segundo olhar traz ao leitor os desdobramentos atribuídos ao conceito: See é traduzível por “mar”; Übersee, por sua vez, pode ser traduzido em português como “além-mar”, aquilo que cruza os oceanos, que está para além do horizonte marítimo; Zungen traz o significado de “línguas”, as línguas que falam, a língua física; e Seezunge é a tradução de “linguado”, peixe cujo aspecto morfológico oval e achatado lembra o formato de uma língua.

O linguado caracteriza-se, ainda, por sofrer uma metamorfose ao longo de seu ciclo de vida: seus olhos migram e seu rosto se transforma, literalmente, no momento em que passa a viver a maior parte do tempo no fundo de seu ambiente aquático. O título evoca os aspectos relativos à língua e à tradução e os associa intrinsecamente ao aspecto físico do órgão responsável pela articulação da fala. Mostra ainda a fisicalidade do movimento, mesmo que muitas vezes não seja necessário um efetivo deslocamento para que esse movimento ocorra.

A partir de tais leituras, pode-se observar a relação da tradução com a linguagem e com o corpo, a metáfora do viajar por entre continentes, do assumir metafisicamente a forma e a essência de ser uma língua — do sentir-se como língua em constante transformação.

Em Überseezungen, Tawada explora o viajar pelos idiomas, de modo que o trânsito linguístico se sobrepõe ao deslocamento físico e geográfico. Do duplo foco nos movimentos linguísticos e geográficos emergem amplas interpretações sobre a natureza da comunicação e do ato de viajar, resultando em uma fascinante reflexão que integra mobilidade, geografia, linguagem e identidade.

A ideia de movimento já se apresenta ao leitor desde o título, cuja marcação em itálico evoca o ondular da água em sua visualidade gráfica dentro da palavra. Ao lado das considerações sobre o deslocamento linguístico, a autora oferece reflexões sobre as muitas formas de tradução que se implicam e se revelam em cada uma das aventuras. Em alemão, o verbo übersetzen, além de significar “traduzir”, possui ainda o significado de transpor, passar para outro lado. Esse duplo sentido também aparece no seu jogo de significados, posto que traduzir envolve muito mais do que passar palavras de um idioma para outro — envolve um deslocamento efetivo de quem fala e transita entre margens linguísticas.

Entre essas margens, Tawada imagina um espaço fluido, no qual se dissolvem as palavras e as letras, e onde a comunicação volta a fazer parte de um todo cósmico e transcendental ao qual pertenceriam originalmente. A fluidez associada a esse espaço de formas livres que não pertencem a nenhum lugar é simbolizada pela água e, por isso, a imagem da água encontra grande relevância no trabalho da autora.

Sobre a autora:
Yoko Tawada nasceu em Tóquio em 1960. Em 1979 fez sua primeira viagem à Alemanha pela ferrovia Transiberiana. De 1982 até 2006 morou em Hamburgo; desde então, vive em Berlim. Tawada é autora de contos, romances, ensaios, poesias e peças de teatro, obras que escreve tanto em japonês como em alemão. Seus trabalhos recebem grande atenção e reconhecimento nos círculos literários e acadêmicos de todo o mundo devido ao grande valor literário que possuem bem como de suas características multilíngues e interculturais. Dentre inúmeros prêmios de literatura recebidos pela autora, destacam-se o Prêmio Kleist, recebido na Alemanha em 2016 e o Prêmio Fundação Japão, recebido no Japão em 2018.

Ficha técnica:

Título: ÜBERSEEZUNGEN: Retrato de uma língua e outras criações de Yoko Tawada – Tradução: Marianna Ilgenfritz Daudt e Gerson Roberto NeumannPublicação: Bestiário/Class, 2019.

As origens sociais da ditadura e da democracia, na Ásia (!) por Barrington Moore Jr

Por Mateus Nascimento

Muitas pessoas questionam a possibilidade de se estudar a Ásia. Elas alegam a falta ou inexistência de materiais em nossa língua, mas, como já dissemos aqui, isso é fruto de uma desinformação quanto aos esforços transnacionais de países asiáticos para a publicização de seus pesquisadores e de suas produções científicas. Existem variados materiais oriundos dos países asiáticos já traduzidos para nossa língua. Contudo, talvez seja uma condição de desinformação também relacionada a pouca observância de textos tradicionais que abordam temas asiáticos. Esse é o caso da pouco mencionada segunda parte do livro As origens sociais da ditadura e da democracia, do sociólogo Barrington Morre Jr. 

Escrito originalmente em 1967, o livro trata dos tipos de relacionamento que tiveram senhores e camponeses no decorrer da história, buscando pensar como os interesses de classe se chocaram na construção da modernidade nas mais variadas realidades analisadas. Especificamente os textos dessa segunda parte se preocupam em explicar as formas pelas quais China e Japão chegaram ao mundo moderno, entendido aqui como o estágio do desenvolvimento industrial.

Capa do livro (foto do autor).

Para Moore, a pesquisa histórica comprova a existência de três formas de passagem do mundo pré-industrial para o mundo moderno: 1. Revolução burguesa, que termina numa aliança entre o capitalismo e a democracia do tipo ocidental. 2. Revolução “de cima” (ou pelo alto em algumas traduções), via capitalista-reacionária, que termina no fascismo. 3. Revolução camponesa, que termina no comunismo. Os três tipos são acompanhados de casos, pois a sua escrita visa comprovar a utilidade da sociologia comparativa norte-americana – sociologia histórica comparativa para alguns – que propõe a análise comparada como método elucidativo mais potente.

Assim, primeiramente, para a China, o caminho da revolução camponesa estava dado pela condicionante da pobreza no próprio campo: Sua situação econômica ficou abalada com o abandono de determinados tipos de plantação, com a quebra dos sistemas de irrigação, aumento do desemprego agrícola causado, sobretudo, pois o setor foi atingido pela concorrência dos têxteis e outros produtos mais baratos do Ocidente. Além disso, podemos citar o consumo do ópio que os ocidentais e depois os japoneses distribuíram desagregou a moral e dissuadiu os camponeses de buscar melhorias, pois os índices de dependência atingiram cifras absurdas no período final do governo imperial.

Logo, a própria atuação do Partido Comunista Chinês sobre esse cenário de miséria e decadência não foi suficiente para provocar transformações profundas, segundo Moore. O Partido fundado em 1921, somente após a ruptura com Tchang-Kaichek em 1927, abandonou a estratégia ortodoxa de apoiar-se no proletariado para a tomada do poder e voltou-se para as massas camponesas.

De forma decisiva, a invasão dos japoneses e seus métodos de ocupação causaram preocupação entre os proprietários e funcionários do Kuomintang, os quais partiram do campo para novos estilos de vida nas regiões mais urbanizadas. Os japoneses cumpriram duas grandes etapas: eliminaram as antigas elites e fizeram nascer a solidariedade dos oprimidos. A guerra agravou uma situação revolucionária e a fez amadurecer.

Sobre o Japão, ficamos sabendo que a Restauração Meiji que derrubou o shogunato deveu-se a uma aliança entre uma parcela da nobreza e comerciantes conservadores temerosos da concorrência ocidental. O governo Meiji tomaria medidas importantes para refazer o Japão à imagem de uma sociedade industrial: criar um Estado centralizado e uma economia industrial. Os feudos tornaram-se unidades administrativas sob a direção do governo central, foi proclamada a igualdade perante a lei, foram suprimidas as barreiras locais que freavam o comércio e as comunicações, foi autorizada a aquisição de terras.

Barrington Moore Jr. (Foto da Wikipedia)

A ausência de revolução camponesa no Japão pode ser explicada por três razões fundamentais. O sistema fiscal dos Tokugawa parece ter deixado aos camponeses um excedente cada vez maior. Em seguida, contrariamente à da China, a sociedade rural do Japão era marcada por ligações estreitas entre a comunidade camponesa e o senhor feudal, mais tarde com seu sucessor, o proprietário agrícola. Enfim, as instituições sociais-rurais japonesas adaptaram-se muito bem à agricultura comercial com a ajuda de mecanismos de repressão, herdados do antigo regime, unidos aos novos, exigidos pela sociedade moderna.

Enfim, ele diz na introdução sobre seu projeto: “Quando se procura compreender a história de um país numa ótica comparativa, se é levado a levantar questões frutíferas e novas (…) e a comparação pode conduzir a novas generalizações históricas (…) poder-se-ia comparar as generalizações bem feitas a um desses mapas de grande escala que os navegadores aéreos usam para atravessar os continentes (…). É exatamente o que eu vou tentar fazer agora; vou traçar em grandes traços um esboço de minhas descobertas para dar ao leitor um primeiro apanhado do terreno onde nós vamos aventurar juntos.”

Recomendamos a leitura ^^

Ficha técnica:

Título: As origens sociais da ditadura e da democracia: senhores e camponeses na construção do mundo moderno.

Autor: Barrington Moore Jr.

Lisboa, Edições Cosmos; Santos, Livraria Martins Fontes.

Ano: 1975 (edição)

Vozes de Hiroshima

Por Mateus Nascimento

Inicialmente, gostaria de sugerir aqui que quando memória e discurso se fundem ao engajamento, nasce o testemunho – que, no nosso caso, é esse ato (estilo de vida) de contar para que não se repita. Primo Levi (1919-1987) caminhou nessa direção, narrando a sua experiência em Auschwitz; há inúmeras versões do diário de Anne Frank (1929-1945), e até alguns teóricos atualmente conhecidos que escreveram ou na cadeia ou em fuga do terror nazista (Erwin Panofsky, produzindo em história da arte, por exemplo). Também há variados livros que tratam do nazismo e seu funcionamento.

O expansionismo, o holocausto, a violência política, as batalhas… Tudo isso já é de conhecimento do público amplo. Poderíamos ainda lembrar dos extermínios, da loucura nazista, dos campos de concentração, da inauguração dos fronts asiáticos, dos crimes de guerra cometidos por tantos dos países envolvidos… Muitos dados traumáticos para uma humanidade que conhecia no séc. XX um dos maiores desenvolvimentos técnico-científicos, os quais foram utilizados nesse evento de maneira traumática.

No entanto, o que poderíamos utilizar cientificamente para divergir desse quadro mais conhecido? Primeiramente, é necessário assumir que a pesquisa é uma militância, na qual os pesquisadores assumem como objetivo influenciar o meio que vivem e a humanidade com suas comprovações e explicações. Isso se chama engajamento. Segundamente, com relação ao tema específico da Segunda Guerra Mundial é possível encontrar nestas memórias e discursos ricos,  dados e conceitos possivelmente analisáveis para uma crítica qualificada. Às vezes podem ser encontradas direções inéditas que dão novo fôlego a pesquisa e a reflexão.

Me refiro a trajetória dos Sobreviventes de Hiroshima, após a bomba. Sim, homens e mulheres que testemunharam o horror daquele dia – 6 de agosto – e apesar de todo o sentimento que poderia brotar, decidiram viver militando pela paz, alertando ao mundo sobre os horrores da guerra em tempos tão conturbados.

Junko Watanabe, 76 anos. Takashi Morita, 96 anos. Kunihiko Bonkohara, 78 anos.
Créditos: divulgação do projeto Sobreviventes pela Paz

Eis, os três são sobreviventes de Hiroshima. Seus testemunhos daquele contexto se encontram no livro organizado por Cristiane Izumi e Paulo Endo, os quais tendo a psicologia como campo de especialização, organizaram um evento sobre Hiroshima e Nagasaki no Instituto de Psicologia da USP em setembro de 2012. Deste encontro, nasceu o livro Hiroshima e Nagasaki: testemunho, inscrição e memória das catástrofes. Takashi Morita, por sua vez, tem seu testemunho publicado em livro a parte, A última mensagem de Hiroshima: o que vi e como sobrevivi à bomba atômica, lançado em 2017…

Capa do livro Hiroshima e Nagasaki. Créditos: foto do autor.

O primeiro livro conta com artigos de variados autores, com destaque para os textos de Ecléa Bosi e Sedi Hirano que apresentam um rico panorama dos fatos e uma análise tanto da guerra quanto das implicações dela partindo da metodologia da psicologia social para se compreender essa inscrição da memória tanto individual quanto coletiva das catástrofes. O conceito remete a psicanálise, aquele exercício de interpretação dos simbolismos e suas aparições subjetivas, que afetam o social e a socialização. Não possui só artigos, também está recheado com os testemunhos transcritos dos idosos e alguns de seus desenhos, criados como um escape ao que viam – ricos materiais para um estudo de arte que seria inédito, o testemunho em desenho.

Foto: Pessoas queimadas vagando em meio a Hiroshima em chamas. Desenho do senhor Takashi Morita, que autografou o exemplar do autor em agosto de 2018. Créditos: foto do autor.

Quanto ao livro dedicado ao testemunho do senhor Morita, parece-nos que Hiroshima se faz como uma cidade completamente incendiada, com pessoas carbonizadas, feridas em pústulas vivas, e os cadáveres quase informes, todos protestando silenciosamente contra a guerra. Ficamos sabendo de todo o dia 6, desde antes do bombardeio até as medidas adotadas pelo governo japonês que se encontrava prostrado.

Vemos isso através de sua palavras vívidas que se insurgem contra a guerra. De fato os eventos que acontecem entre 1939 e 1945 mexem com o mundo todo e alguns dos acontecimentos ainda encontram espaço na memória popular. Trata-se de um dos momentos mais importantes da história da humanidade: a Segunda Guerra Mundial.

Capa do Livro com o testemunho do senhor Takashi Morita. Crédito: foto do autor.

Talvez, voltar os ouvidos para a paz e para os seus defensores seja um caminho para refletirmos e mudarmos a direção em tempos pandêmicos em que a humanidade encontra-se mais uma vez contestada e poderosos roubam insumos entre si. Pela vida, pela paz: Hiroshima nunca mais.

Rogério Nagai, diretor e idealizador do “Sobreviventes pela paz” fala sobre o projeto exclusivamente para o MidiÁsia.

Ficha técnica:  
Título: Hiroshima e Nagasaki: testemunho, inscrição e memória das catástrofes.
Organizadores: Cristina izumi e Paulo Endo
Editora: Benjamin Editorial
Ano: 2015.

Ficha técnica:  
Título: A última mensagem de Hiroshima: o que vi e como sobrevivi à bomba atômica.
Autores: Takashi Morita
Editora: Universo dos livros
Ano: 2017

O Japão desde o Brasil: O próximo e o distante de Renato Ortiz

Por Mateus Nascimento

O próximo e o distante: Japão e modernidade-mundo, escrito por Renato Ortiz, inova ao propor uma espécie de explicação sociológica da aventura da modernidade para além dos referenciais eurocentrados que conhecemos, tendo como objeto heurístico o Japão e a sociedade japonesa.

O livro foi publicado no ano 2000 (editora Brasiliense) e é fruto da elaboração teórica deste autor que desejou problematizar a modernidade e a leitura tradicional que se faz sobre ela. Muitos pesquisadores mais clássicos a pensam como um programa que se expande de um centro europeu para o restante do mundo.

Capa do livro. Créditos: foto do autor.

Por sua vez, Ortiz, após uma estada de aproximadamente 3 meses no Japão, visitando bibliotecas e espaços culturais consagrados em Tóquio, mergulha na história e na cultura dos hábitos para refletir sobre os marcos da modernidade para além das origens europeias do programa, partindo de uma análise das especificidades do trato social japonês.

O estudo dos temas sociais como gosto, modos e cultura tradicional que são pontuados no livro como integrantes da constelação de símbolos do Japão, revela uma concordância (não explícita) de Ortiz com o conceito de intuição poética de Roger Bastide, que dizia que a sociologia só poderia ser renovada e útil se se detivesse no estudo do imaginário do poder e da cultura – as imagens e formas sociais do discurso institucional sobre a tradição – e o inconsciente coletivo, os quais são usados para se compreender sociologicamente um todo articulado de relações e ações. 

Nesse sentido, o trabalho pioneiro de Ortiz se utiliza da história japonesa como a base para compreender a relação da modernidade com a modernização não só no campo econômico, mas também, e sobretudo, no campo cultural. Sociólogo de formação, busca uma explicação da realidade japonesa, e como ele mesmo diz, a toma como “um espaço possível para a leitura do movimento de mundialização da cultura”.

Seu conceito de mundialização é importantíssimo, pois significa a compreensão dos novos alcances da esfera cultural, que se tornou um poder na era das relações globalizadas. A própria questão da identidade como construção segue a lógica dessa sociedade global, na qual existe um fluxo (e, eventualmente, contrafluxos, não-hegemônicos) que atravessa essa construção em si. A partir dessas relações sociais planetárias forma-se um conjunto articulado de comunicação que vai influenciar as formações identitárias e vice-versa.

Aplicando tal perspectiva, o autor comprova a existência de uma manifestação da globalização nas formas pelas quais os hábitos sociais acontecem. Ele se refere aos mesmos hábitos antes de 1868 e após 1945, momentos em que o Japão se encontrou com países-potências. Através desses contatos é possível ver mudanças na realidade japonesa orientadas pela preocupação com o restante do mundo ao mesmo tempo que a permanência de elementos tradicionais no espaço público no séc. XIX e  uma mudança das relações de força, quando o Japão assume o campo da exportação da cultura pop no séc. XX e XXI. Para Ortiz, são movimentos de mundialização da cultura japonesa.

A aplicabilidade do conceito se materializa quando, por exemplo, pensamos o período Meiji, momento crucial para a política japonesa: ali nascia um Japão que precisava se modernizar e se atualizar de acordo com as práticas institucionais existentes no jogo das relações entre potências. Portanto, se pensarmos sobre as continuidades desde o período Meiji até a novíssima era Reiwa – a contemporaneidade – em que o Japão se renova na cena pública global, a leitura de Ortiz é indispensável.   

Ficha técnica:  
Título: O próximo e o distante: Japão e modernidade-mundo.
Autor: Renato Ortiz.
Editora: Brasiliense.
Ano: 2000.  

Shūichi Katō em Tempo e Espaço na cultura japonesa

Por Mateus Nascimento

Se você tem interesse em estudar algum tema relacionado a cultura japonesa e já ouviu dizer que existem poucos livros sobre o país em português – o que inviabilizaria seu estudo segundo essas vozes desinformadas –, te convido a fazer uma leitura fundamental: Tempo e Espaço na cultura japonesa, escrito pelo crítico de literatura e cultura Shūichi Katō (1919 – 2008).

Na obra em questão, o autor parte de dois conceitos fundamentais: tempo, jikan, e espaço, kūkan. Ambos os conceitos são analisados profundamente e para comprovar a forma específica pela qual eles aparecem no Japão, o autor começa com uma comparação com outras sociedades.

Por exemplo: antes de pensar o conceito de tempo no Japão, ele examina o conceito no judaísmo, na Grécia Antiga, no budismo (que se tornou um traço incontornável nesta cultura) e por fim, nos textos clássicos japoneses, com destaque para o Kojiki, “Relato das coisas antigas”, texto fundamental que fala sobre a criação do Japão.

Fazendo uma análise das ideias e das formas simbólicas, Katō inova ao apresentar os elementos que constituem o estilo de ação, ou os estilos de ação do povo japonês. Esse é um de seus principais conceitos, sempre presente nas suas interpretações que tratam sobre as características da língua japonesa, da arte, da religiosidade e das formas pelas quais acontecem as relações sociais, objetos de pesquisa interessantes que normalmente estão entre os primeiros interesses de pesquisadores brasileiros.

Assim, o que o autor chama de estilos de ação é essa forma japonesa de ser no mundo, tanto individualmente quanto coletivamente, que aparentemente segue duas lógicas. A de tempo-espaço, vista pelo famoso presente longo, que afeta até a linguagem desta sociedade: note-se a diferença dos tempos verbais do Japão, que se dividem em passado e o não passado. Até as frases e a comunicação de uma maneira geral necessitam de componentes a mais – os apostos – para designar algumas intenções do falante que se mostram, quase sempre, através de elipses.

A outra é a de subjetividade, traduzida nos jogos conceituais honne, algo como a real intenção, tatemae, opinião pública (no sentido de ser a posição que alguém assume pela unidade harmônica do e no campo público), uchi, “ser de dentro” e soto, “ser de fora”. Esses conceitos estão por detrás dos hábitos que conhecemos, sobretudo, a tendência ao ocultamento da qual falamos antes.

Capa de Tempo e Espaço na cultura japonesa. Créditos: foto do autor.

Por exemplo: a elipse se dá através do ocultamento de si mesmo, ocultamento das opiniões, ocultamento daquilo que seja potencialmente prejudicial, ou seja, é uma posição defensiva, objetivando a manutenção da harmonia de um todo, do qual somente participam aqueles que entendem suas regras, por sua vez, previstas nos conceitos apresentados.

Publicado pela primeira vez em 2007 e traduzido para o português por Neide Nagae e Fernando Chamas, em 2012 (publicado pela Estação Liberdade), o livro reflete a maturidade do autor consagrado pela análise que faz da mentalidade japonesa.

Ficha técnica:  
Título: Tempo e espaço na cultura japonesa.
Autor: Shūichi Katō.
Tradutores: Neide Nagae e Fernando Chamas.
Editora: Estação Liberdade, São Paulo.
Ano: 2012.