Todos os Haicais de Ryōkan Taigu!

Por Roberto Schmitt-Prym (Editora Bestiário)

Esta é a coleção completa dos haicais do monge budista Ryōkan Taigu, em edição bilíngue.

A produção poética de Ryôkan se encontra dispersa em diários, cartas, anotações, leques, biombos, trabalhos de caligrafia, desenhos e outras obras que ele produziu ao longo da vida e que foram preservadas pelas pessoas que conviveram com ele. Assim, os haicais desta antologia se apresentam numa ordem não cronológica, baseada na forma tradicional das coletâneas de poesia do Japão, que agrupa poemas em torno de temas sazonais.

Foto do livro. Créditos: Mateus Nascimento

Como figura humana, a posteridade se encarregou de disseminar anedotas, muitas das quais apócrifas, sobre o suposto caráter excêntrico de Ryôkan. Ele é visto como um mendigo, um velho louco, uma personagem um pouco patética — um eremita que vivia isolado do mundo dos homens, na mais abjeta miséria. Os poemas desta antologia ajudarão talvez a compreender a profunda visão humana que havia por trás dessa figura considerada por muitos como “digna de pena”. A sua vida ascética foi um poderoso instrumento espiritual, permitindo que ele visse as coisas e as pessoas com mais liberdade — e que as descrevesse com maior franqueza.

Estátua do poeta em Niigata. Crédito: Enciclopédia Britannica (https://www.britannica.com/biography/Ryokan)

Ryôkan Taigu (良寛大愚) (Izumozaki, na atual Fukushima, 1758-1831) foi um poeta, caligrafista e monge zen-budista que viveu grande parte de sua vida como um eremita. É lembrado como o grande poeta do zen-budismo e comparado a Francisco de Assis em seu significado como religioso para os budistas.

Os nomes religiosos com os quais se intitulou significam “Vasta Tolerância” (Ryōkan) e “Grande Louco” (Taigu), mas os relatos dos seus contemporâneos também falam do seu calor humano e compaixão. Aos dezoito anos, decidiu entrar em um mosteiro. Estudou com o famoso professor Kokusen Roshi da escola Sotō. Após a morte de seu mestre, Ryōkan passou os próximos vinte anos em um eremitério nas montanhas. Embora não tenha escrito em um único estilo, por possuir um espírito inovador, grande parte dos seus mais de 1.400 poemas foram compilados por pesquisadores (Ryokan somente distribuía poemas a amigos). O poeta praticou largamente o haicai.

Em 1826, Ryōkan ficou doente e não pôde continuar vivendo como eremita. Ele se mudou para a casa de um dos seus patronos, Kimura Motouemon, e foi cuidado por Teishin, pela qual se apaixona e, embora raramente estivessem juntos, nos próximos três anos escreveu o que, aparentemente, são alguns dos mais belos poemas de amor da literatura japonesa.

Ficha técnica:

Título: TODOS OS HAICAIS. Autor: Ryōkan Taigu. Tradução: Roberto Schmitt-Prym. Ensaio: Andrei Cunha. Publicação: Bestiário/Class, 2020.

ÜBERSEEZUNGEN: Retrato de uma língua e outras criações de Yoko Tawada

Por Roberto Schmitt-Prym (Editora Bestiário)

Um livro ousado, repleto de graça e inspiração.

Lê-se no título de “Überseezungen” – entre outros significados – as “traduções” que levam a protagonista a viajar ao sul da África, aos Estados Unidos, ao Canadá e de volta ao Japão e à Alemanha (Tawada, nascida e criada no Japão, mora desde 1979 na Alemanha).

O leitor aprende muito sobre países, sobre povos e sobre os traços das palavras quando a escritora, em sua perspicácia benjaminiana, expressa a perplexidade e o maravilhamento proporcionados pelas diferentes formas e barreiras linguísticas, as quais investiga espirituosamente em frases simples, ao mesmo tempo vivazes e despreocupadas, que respiram os ares da poesia e da filosofia.

Überseezungen é, ao mesmo tempo, uma palavra, uma criação; uma tradução, uma transcriação.

O título de Tawada é um entrelaçamento de formas e significados. Em um primeiro momento, sua fisionomia mostra a expressão central do livro: Übersetzungen, em alemão, significa “traduções”.

Um segundo olhar traz ao leitor os desdobramentos atribuídos ao conceito: See é traduzível por “mar”; Übersee, por sua vez, pode ser traduzido em português como “além-mar”, aquilo que cruza os oceanos, que está para além do horizonte marítimo; Zungen traz o significado de “línguas”, as línguas que falam, a língua física; e Seezunge é a tradução de “linguado”, peixe cujo aspecto morfológico oval e achatado lembra o formato de uma língua.

O linguado caracteriza-se, ainda, por sofrer uma metamorfose ao longo de seu ciclo de vida: seus olhos migram e seu rosto se transforma, literalmente, no momento em que passa a viver a maior parte do tempo no fundo de seu ambiente aquático. O título evoca os aspectos relativos à língua e à tradução e os associa intrinsecamente ao aspecto físico do órgão responsável pela articulação da fala. Mostra ainda a fisicalidade do movimento, mesmo que muitas vezes não seja necessário um efetivo deslocamento para que esse movimento ocorra.

A partir de tais leituras, pode-se observar a relação da tradução com a linguagem e com o corpo, a metáfora do viajar por entre continentes, do assumir metafisicamente a forma e a essência de ser uma língua — do sentir-se como língua em constante transformação.

Em Überseezungen, Tawada explora o viajar pelos idiomas, de modo que o trânsito linguístico se sobrepõe ao deslocamento físico e geográfico. Do duplo foco nos movimentos linguísticos e geográficos emergem amplas interpretações sobre a natureza da comunicação e do ato de viajar, resultando em uma fascinante reflexão que integra mobilidade, geografia, linguagem e identidade.

A ideia de movimento já se apresenta ao leitor desde o título, cuja marcação em itálico evoca o ondular da água em sua visualidade gráfica dentro da palavra. Ao lado das considerações sobre o deslocamento linguístico, a autora oferece reflexões sobre as muitas formas de tradução que se implicam e se revelam em cada uma das aventuras. Em alemão, o verbo übersetzen, além de significar “traduzir”, possui ainda o significado de transpor, passar para outro lado. Esse duplo sentido também aparece no seu jogo de significados, posto que traduzir envolve muito mais do que passar palavras de um idioma para outro — envolve um deslocamento efetivo de quem fala e transita entre margens linguísticas.

Entre essas margens, Tawada imagina um espaço fluido, no qual se dissolvem as palavras e as letras, e onde a comunicação volta a fazer parte de um todo cósmico e transcendental ao qual pertenceriam originalmente. A fluidez associada a esse espaço de formas livres que não pertencem a nenhum lugar é simbolizada pela água e, por isso, a imagem da água encontra grande relevância no trabalho da autora.

Sobre a autora:
Yoko Tawada nasceu em Tóquio em 1960. Em 1979 fez sua primeira viagem à Alemanha pela ferrovia Transiberiana. De 1982 até 2006 morou em Hamburgo; desde então, vive em Berlim. Tawada é autora de contos, romances, ensaios, poesias e peças de teatro, obras que escreve tanto em japonês como em alemão. Seus trabalhos recebem grande atenção e reconhecimento nos círculos literários e acadêmicos de todo o mundo devido ao grande valor literário que possuem bem como de suas características multilíngues e interculturais. Dentre inúmeros prêmios de literatura recebidos pela autora, destacam-se o Prêmio Kleist, recebido na Alemanha em 2016 e o Prêmio Fundação Japão, recebido no Japão em 2018.

Ficha técnica:

Título: ÜBERSEEZUNGEN: Retrato de uma língua e outras criações de Yoko Tawada – Tradução: Marianna Ilgenfritz Daudt e Gerson Roberto NeumannPublicação: Bestiário/Class, 2019.

O Navio-fábrica Caranguejeiro de Takiji Kobayashi

Por Mateus Nascimento (Via Revista Intertelas)

Você conhece a puroretaria bungaku, a literatura proletária do Japão? Hoje vamos falar de um de seus maiores expoentes: Takiji Kobayashi, autor de Kanikosen. Eram os tempos mais duros da política japonesa. Os gabinetes estavam sob controle dos militares e a economia dando sinais de recuperação lenta. A famosa Era Taisho entrou na história marcada pelos governos conservadores e mais militarizados e pelo expansionismo japonês, dirigido por autoridades militares que tomaram os principais órgãos administrativos.

O escritor Takiji Kobayashi. Crédito: goodreads.

Ao mesmo tempo, cresciam as desigualdades sociais e muitos escritores, pintores e personalidades embarcaram no projeto de contestação a elas: surgia aí uma demanda por uma produção artística que levasse em contato as demandas da sociedade e dos menos favorecidos. Esses artistas eram das mais variadas matizes políticas e propunham mudanças e uma revolução.

Por volta de 1928, as principais revistas do país continham textos desses autores e autoras e o processo de perseguição começou. A visibilidade alcançada tornou-se uma arma mobilizada contra essas vozes dissidentes: muitos foram mortos, outros presos, violentados e em alguns casos utilizados como exemplo para a população do que poderia vir a ocorrer se alguém tomasse as mesmas ideias.

Nesse contexto, vemos o Takiji Kobayashi. Nascido pouco antes desses fatos, no ano de 1903, Takiji viveu em um Japão marcado pela crise. Com o país se recuperando a inflação, muitos japoneses são estimulados a se deslocarem para outros países. O Brasil recebeu muitos por volta de 1908 e tornou-se símbolo dessa campanha estatal pela imigração.

Poderia se pensar que ele acompanhou as primeiras notícias e decidiu se envolver minimamente com as questões desse projeto, pois dentre os seus temas se destacam as táticas repressivas do Estado japonês, as roubalheiras institucionais e a crise na qual se encontravam trabalhadores no contexto da tomada de decisão. Segundo os elementos retomados por Takiji no seu principal livro Kanikosen, sobre o qual falaremos adiante, boa parte das motivações para que trabalhadores migrassem estava no fato de que o estado teria aplicado golpes comerciais no campo, impulsionando crises e deslocamento. Takiji passou a ser perseguido e até investigado pela polícia secreta. Após a “fama”, Kobayashi inicia o projeto mais marcante de sua produção, Kanikosen.

Kanikosen: El pesquero (Spanish Edition) por [Takiji Kobayashi, Shizuko Ono, Jordi Juste]
Capa da versão espanhola do Kanikosen. Créditos: Amazon

A despeito da perseguição que se passa em sua vida, a qual culmina na apoteótica morte em 1933, Kobayashi desenvolveu uma tese sobre a vida dos trabalhadores no Japão que assumiu como missão relatar: segundo ele, havia uma situação de extrema exploração do trabalho que contrastava com o cenário nos pólos de Osaka e Tóquio, mostrado ao Ocidente, que só existia pela falta de organização política da classe trabalhadora.

Para tanto Kobayashi nos apresenta uma fábrica dentro de um navio, o Hakukô-Maru, especializado em pesca e processamento de caranguejos. Sua área de exploração é o mar de Okhotsk, no limite com os mares soviéticos. No seu interior, pescadores, operários, foguistas e tripulantes se juntam num espaço mínimo para dar conta da “missão de abastecer o glorioso Japão com o trabalho do fornecimento de alimentos”.

Cena de processamento do caranguejo do filme Kanikosen de 2009. Créditos: Asian Wiki

Evidentemente, falamos de um navio com variados grupos: os tripulantes oficiais e diretores, o encarregado, normalmente conhecido como capitão, e os demais tripulantes que na sua maioria são oriundos da crise dos campos. O primeiro a ser apresentado é o explorador, capitão Asakawa, que comanda os rumos do navio de acordo com as ordens lhe dadas pelos dirigentes dos zaibatsu do setor. Zaibatsu é um conglomerado de famílias, as quais administram uma ou mais empresas em um determinado setor. Aqui não temos referência direta a nomes, talvez por conta da própria perseguição pela qual passou o autor. Qualquer letra escrita por ele poderia ser uma referência a pessoas ou personalidades daquele momento.

De certa forma, essa elipse é bem mais explícita do que se supõe, pois é possível identificar o império, os órgãos públicos e as liberdades concedidas às empresas no tocante a lei do trabalho, todos em acordo sobre esse conjunto de situações.

Ps.: Kanikosen ainda não foi publicado por nenhuma editora brasileira. Caso queira ler a obra, recomendamos a tradução abaixo:

André Felipe de Sousa. ALMEIDA. O navio-fábrica caranguejeiro, de Kobayashi Takiji: tradução e considerações. 2016. Dissertação (Mestrado em Língua, Literatura e Cultura Japonesa) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, University of São Paulo, São Paulo, 2016.

MidiÁsia entrevista Luis Girão, coordenador do Grupo de Tradução de Literatura Infantil Coreana da USP

Por Daniela Mazur

O pesquisador Luis Girão. Crédito: Acervo pessoal.

Hoje em dia é difícil pensar em Coreia do Sul e não remeter diretamente à sua cultura pop. A Onda Coreana tem presença cativa nos fluxos culturais da arena global contemporânea e seus grandes pilares, o K-pop e os dramas de TV, se apresentam de forma contundente no mercado internacional e aqui no Brasil. Contudo, uma das vertentes desse fenômeno cultural ainda pouco comentada em terras brasileiras, mas de grande reconhecimento no cenário mundial, é a Literatura sul-coreana. Por esse e outros motivos, é essencial que as pesquisas que abordam esse pilar estejam em destaque, especialmente nesse momento de aprofundamento da experiência da cultura coreana no cotidiano brasileiro. Para isso, convidamos o estimado pesquisador acadêmico Luis Girão para uma conversa sobre o lugar da Coreia do Sul nos fluxos literários globais e o destaque da literatura infantil nesse movimento. Ele, que é doutorando e mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP e graduado em Design de Moda pela Faculdade Católica do Ceará, coordena atualmente o Grupo de Tradução de Literatura Infantil Coreana e Contos Folclóricos Coreanos no Departamento de Letras Orientais da USP, junto a professora e principal tradutora de livros sul-coreanos para o português brasileiro, Yun Jung Im Park. Ele também faz parte do grupo de pesquisa “A voz escrita infantil e juvenil: práticas discursivas” (PUC-SP) e ministrou, em fevereiro de 2020, o curso Literatura Infantojuvenil Coreana: Histórias e Horizontes na USP. Com toda sua experiência e bagagem de pesquisa, Luis fala ao MidiÁsia um pouco sobre o universo fascinante da literatura, com foco acurado nos livros infantis da Coreia do Sul que, até mesmo aqui no Brasil, já fazem parte do dia a dia das crianças.

Ilustração do livro “Espelho” de Suzy Lee. Crédito: Suzy Lee.

Apesar da força da Onda Coreana no Brasil na última década, o mercado da literatura sul-coreana ainda se apresenta incipiente por aqui, diferente do cenário internacional. Existem previsões de que o mercado de romances literários sul-coreanos se concretize de forma mais efetiva no nosso país?

Luis Girão (LG): O mercado de livros no Brasil, de maneira geral, vem sofrendo há algum tempo e, nos últimos 3 anos, a situação tem ficado visível aos olhos todos, já que grandes redes de livrarias e editoras estão fechando as portas. Isso não deixa de ser um sinal dos tempos e reflexo socioeconômico, mesmo cultural, do brasileiro. Fora o caráter político, uma vez que um dos maiores compradores de livros no Brasil é o próprio governo. No entanto, em paralelo a essa série de constatações que não deixam de ser lamentáveis, testemunhamos um surgimento pulsante, ainda que localizado nas capitais, de pequenas iniciativas movidas por livreiros cujo foco está nas editoras menores, mesmo independentes. Ou seja, há uma queda massiva na presença de livros à disposição para leitores habituais e leitores em potencial, ainda que uma “nova” alternativa à sobrevivência na circulação de livros se apresente no horizonte e venha demonstrando recepção positiva de um público mais seleto e consumidor de gêneros específicos – o que tem resultado em mudanças comportamentais na relação de leitores com a leitura e o consumo de literatura. Além disso, destaco alguns dados do Instituto Coreano de Tradução Literária (LTI Korea) referentes à queda drástica no número de obras traduzidas do coreano para outras línguas entre os anos de 2014 e 2015 (de 3899 títulos traduzidos em 2014 para 466 em 2015), queda esta que estabeleceu um patamar menor nesses números até hoje (360 títulos traduzidos em 2016, 475 em 2017, 277 em 2018 e 349 em 2019).

Dados do Instituto Coreano de Tradução Literária que abrangem a queda da tradução de livros sul-coreanos entre os anos de 2014 e 2019. Fonte: LTI Korea.

Coloco esse quadro antes de responder diretamente à pergunta, pois é bastante pertinente apontar as possibilidades que vão surgindo com essa mudança comportamental da sociedade na sua relação com a leitura. Isso posto, tomo como dados oficiais um estudo recente da professora Yun Jung Im Park, principal tradutora de literatura coreana para o português no Brasil hoje, onde ela reflete sobre a falta de tradutores literários capacitados para a execução dessa tarefa crítica e criadora que é tornar acessível um texto de partida em uma língua, para um texto de chegada, em uma outra. Ela aponta nosso olhar para alguns horizontes prováveis, caso seja investido um maior esforço na mudança desse contexto carente de tradutores e acredito que, atrelada à realidade que comentei inicialmente (sobre as mudanças comportamentais ligadas à leitura do brasileiro), há aí uma oportunidade de ouro – tanto para as editores nacionais, quanto para os projetos de fomento internacionais – para obras literárias coreanas na pluralidade significativa que a Coreia do Sul vem produzindo nas últimas décadas, em especial, após a fundação do LTI Korea.

Entrevista com a professora Yun Jung Im Park em 2017 pelo canal do Itaú Cultural.

O mercado editorial no Brasil é movido, em parte, pela tradução de livros que entraram na categoria best-seller em cenário internacional, o que segue como uma das portas de entrada de títulos coreanos cada vez mais premiados no exterior (romances, em sua maioria). Porém, nem só de prosa longa é formado esse cenário literário: há muitos contistas e poetas coreanos cujas vozes precisam ser ouvidas para além de limites geográficos e alcançar ouvidos de humanos que vivem sensações semelhantes às suas e que estão espalhados pelo mundo – eu destacaria, com certa segurança, muitos deles no Brasil. O consumo de coletâneas de contos é uma realidade ao leitor adulto brasileiro, o que já aponta aí uma investida possível e profícua paralela à recorrente tradução de romances coreanos.

A autora Han Kang e seu livro de grande sucesso internacional, A Vegetariana. Crédito: Jean Chung do The New York Times.

Como pesquisador da área, você acredita na possibilidade de engajamento do público global que consome a cultura pop sul-coreana com as histórias apresentadas pelos grandes sucessos literários que a Coreia do Sul está exportando para o mundo?

LG: Se tomarmos como verdadeira a hipótese de que maior parte do público consumidor da cultura pop sul-coreana são pessoas que assistem e curtem dramas de TV, eu acredito que sim, há uma probabilidade palpável de que esse público consuma a literatura coreana reconhecida internacionalmente. Estamos falando de uma forma narrativa que é milenar: a poesia dramática. Se os dramas coreanos, desde que despontaram como uma das bases da Hallyu, conseguem capturar telespectadores por seu incessante desenvolver de relatos humanos ficcionalizados, não diferente seria o impacto da leitura de uma prosa, longa e/ou curta, coreana no leitor de hoje. A leitura de romances coreanos, como os de Han Kang ou Bae Su-ah, não muito se difere da materialização sensível de um humano estilhaçado em múltiplas camadas de complexidade na leitura de uma coletânea de poesias como a de Kim Ki-Taek.

A autora Bae Su-ah e sua obra “Sukiyaki de domingo”. Crédito: arttv.ch e Estação Liberdade.

Os elementos que constituem uma identidade nacional coreana – hoje presentes, inclusive, nas letras mais conscientes dessa construção identitária no k-pop, como as escritas pelo Suga do BTS –, sempre marcantes nos dramas coreanos, aparecem de maneira mais aprofundada nas personagens literárias, o que acaba por ampliar o raio de alcance do “estar em contato” com essa subjetividade coreana no contemporâneo. Esse acesso à diferença de alteridades por meio da literatura, de maneira diversa à do drama e à da música, mesmo à do cinema, em muito embasa minha crença de que, sim, o público que consome a cultura pop sul-coreana se engajaria quando diante da leitura de um romance ou uma poesia. Mas eu acrescentaria um ponto: o leitor jovem (adolescentes entre 12 e 18 anos) é consumidor voraz de ficção em prosa, dados os números de vendas dos best-sellers identificados como juvenis, ou YA (Young Adults). Essa faixa de público é aquela que consome músicas e dramas, mesmo os manhwa, coreanos. Fica a questão: por que não investir mais nesse público juvenil?

Agust D, ato solo do Suga (BTS), na sua música lançada mais recentemente, onde o artista critica o universo da indústria do K-pop enquanto faz referência à símbolos e personagens da Dinastia Joseon.

Além de ser um especialista em literatura sul-coreana, você acabou se encontrando junto à especificidade dos livros infantis. Como foi sua jornada de descoberta desse universo em particular?

LG: Sou uma pessoa intimamente relacionada com o livro infantil desde a infância. Essa relação moldou muito o meu sentir o mundo e o meu expressar. Fui para a faculdade de Moda por ser apaixonado por desenhar desde essa época, quando um livro narrando um conto de fadas tradicional sequestrava minha atenção pelo colorido das ilustrações e pelas músicas que tocavam enquanto a página estava aberta em minhas mãos. Após o meu primeiro contato com a música coreana, entre 2003 e 2004, acabei indo trabalhar como ilustrador para uma gravadora coreana por 2 anos, entre 2010 e 2012, período em que eu realizava, paralelamente, minha especialização em design gráfico (agora reunindo a paixão por ilustrações e palavras num mesmo espaço de criação – o livro) e auxiliava na tradução do coreano para português (comecei a estudar a língua coreana, como autodidata, em 2006) de notícias, letras de músicas, falas de dramas, blogs sobre filmes e gêneros musicais para um portal especializado em cultura coreana – fundado por Natália Pak e eu, em 2008: o SarangInGayo. Nesse período, tive contato com a obra de Suzy Lee.

Suzy Lee é autora e ilustradora de livros infantis, como “Onda” e “Espelho”, lançados no Brasil em 2009. Crédito: site Crescer.

Esse contato foi um “divisor de águas” na minha história pessoal, pois, cheio de indagações pela leitura da obra dessa autora enquanto ilustrador, tradutor e entusiasta da cultura coreana, tomei a decisão de me dedicar exclusivamente aos estudos em âmbito acadêmico daquilo que eu não conseguia explicar às pessoas que me perguntavam “Mas o que é isso que você está estudando? Um livro de uma autora coreana? Um livro sem palavras? Não tem em português?”. Eram perguntas que me inflavam para buscar formas de respondê-las, já que eu não vinha das Letras, mas do Design. O período em que comecei a estudar exclusivamente sobre esses “livros sem palavras” (os livros-imagem) foi também o período que me aprofundei na obra de Suzy Lee – autora que começou a publicar livros em 2002, fora da Coreia do Sul. Hoje, com quase 20 anos de carreira e reconhecida internacionalmente por ter levado a literatura infantil sul-coreana para lugares inimagináveis exatamente pela linguagem universal das imagens (“sem palavras”), posso dizer que ela “abriu caminhos” para a imensa, e de extrema qualidade, produção de livros ilustrados coreanos (o geu-rim-chaek) que, por sinal, vem ditando tendências a nível internacional nos mercados dessa literatura endereçada à infância.

Animação de um dos livros de Suzy Lee, “Onda”. Crédito: Danilo Pasa; Cosac Naify.

Estudei Suzy Lee como uma das autoras analisadas em minha dissertação de mestrado (2015-2017) – em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP –, e ela segue como um dos objetos de investigação em minha tese de doutorado (2018-), exatamente como exemplar desses livros infantis que deixam o leitor atônito e sem respostas precisas às perguntas que me faziam quase 10 anos atrás. De lá pra cá, fui descobrindo e lendo as obras de outros autores sul-coreanos que publicam livros ilustrados infantis e, mais recentemente, venho investigando também a produção em prosa juvenil. Se antes, entre 2003 e 2012, eu já era um entusiasta da cultura coreana, hoje, de 2013 até agora, o ânimo de seguir promovendo essa produção cultural riquíssima em qualidade formal e de conteúdo parece reforçada e sem limitações de horizonte.

Alguns dos livros já lançados por Suzy Lee. Crédito: site The Picture Book Lab.

No contexto atual, quais são as principais tendências na literatura infantil sul-coreana que você poderia nos apontar?

LG: Em outubro de 2018, participei do VII Encontro de Estudos Coreanos da USP, a convite da professora Yun Jung Im Park. Para a ocasião, propus uma fala sobre a pesquisa que venho realizando em paralelo ao meu doutorado: a literatura infantil coreana e os livros ilustrados coreanos. Após um breve histórico sobre a recente história da literatura infantil na Coreia (iniciada na década de 1920, por Bang Jung-hwan), apresentei algumas tendências dessa produção literária hoje, nas explorações de linguagens múltiplas que ela se utiliza – verbal, visual, sonora, tátil, incluindo o objeto livro.

Capas brasileiras dos livros “Flora Hen: Uma fábula de amor e esperança” de Sun-mi Hwang (Editora Geração) e “Esperando Mamãe” de Lee Tae-jun (Editora SM).

Como se passaram 2 anos dessa fala, atualizo esses dados afirmando que os livros infantis coreanos se debruçam acerca de temáticas essencialmente humanas, como: o universo familiar (caso de Esperando mamãe/엄마 마중, de 2012, escrito por Lee Tae-jun e ilustrado por Kim Dong-seong); as amizades que nos mantêm vivos (caso de A meninada convidada/초대받은 아이들, de 2001, escrito por Hwang Sun-mi e ilustrado por Kim Jin-yi); o revisitar histórias de animais (como Flora Hen: Uma fábula de amor e esperança/마당을 나온 암탉, de 2014, escrito por Hwang Sun-mi e ilustrado por Yasmin Mundaca); o explorar dos passados recente e longínquo (como A casa onde os livros zanzam/책과 노니는 집, de 2009, escrito por Lee Young-seo e ilustrado por Kim Dong-seong); espíritos/monstros/fantasmas já nem tão escondidos assim (como Gelato de lua/달 샤베트, de 2010, escrito e ilustrado por Baek Heena); os prazeres de aproveitar a vida (como Onda/파도야 놀자, de 2008, escrito e ilustrado por Suzy Lee); a diáspora de coreanos nos EUA (como Where’s Halmoni?, de 2018, escrito e ilustrado por Julie Kim); jogos sonoros e de descobertas (como KongKongKong/콩콩콩, de 2018, escrito e ilustrado por Lee Hee-eun); além dos percursos de autoconhecimento (como Fruta vermelha/빨간 열매, de 2018, escrito e ilustrado por Lee Ji-eun).

Entrevista de Hwang Sun-mi sobre o livro “Flora Hen”, para a Arirang, em 2014.
Leitura e visualização do livro ilustrado 달 샤베트 (Gelato de Lua), de Baek Heena.
Leitura e visualização mediada de 빨간 열매 (Fruta Vermelha), de Lee Ji-eun.

A despeito da baixa penetração de romances da literatura da Coreia do Sul no Brasil, um ramo da literatura que está em rápido crescimento de importação e circulação no país são os livros infantis sul-coreanos. Segundo a professora Yun Jung Im Park, na última década mais de 70 livros foram traduzidos e publicados para o mercado brasileiro até o ano passado, alguns até mesmo incluídos no Programa Nacional Biblioteca nas Escolas do Governo Federal Brasileiro. Quais, na sua opinião, foram os diferenciais para o sucesso no Brasil desse ramo específico?

LG: A linguagem universal da imagem facilitou, de maneira significativa, uma ampliação no campo de circulação de obras como Onda (2008), livro-imagem de Suzy Lee, publicado pela extinta Cosac Naify (hoje pela Cia. das Letrinhas) e que integrou um dos editais do também extinto PNBE (descontinuado em 2016 e substituído pelo atual Programa Nacional do Livro e do Material Didático – PNLD). Como especialista na obra de Lee e pesquisador na área de Literatura Infantil, tive a chance de trocar com outros colegas pesquisadores que relataram as relações das crianças com Onda: enquanto algumas, mais velhas, acabavam por deixar o livro de lado à constatação de que só havia palavra no título (hábito comum no Brasil e resultado de uma educação precária e majoritariamente conservadora, que vê o objeto literário como objeto de ensino, acima de tudo, e que reproduz métodos tradicionais, e já ultrapassados, de ensinar o texto verbal como principal meio de formar leitores), as crianças mais novas criavam elos sensíveis com aqueles brincar e descobrir propostos na narrativa pictórica de Lee, exatamente pela possibilidade de elas lerem a linguagem que dominam enquanto sujeitos ainda não alfabetizados, a linguagem visual. Isso me faz pontuar que uma das principais características que distinguem os coreanos dos demais autores em feiras internacionais de livros infantis – como é o caso da tradicional Bologna Children’s Book Fair, que ocorre anualmente na Itália – é a ilustração. É bem comum encontrarmos livros escritos por autores de língua inglesa, hispânica, italiana e francesa e ilustrados por coreanos. Prova desse renome que a ilustração coreana carrega hoje é o recente reconhecimento de Baek Heena pelo Astrid Lindgren Memorial Award (ALMA) – um dos maiores prêmios mundiais de Literatura Infantil.

Baek Heena ganhou o Prêmio Memorial Astrid Lindgren de 2020. Crédito: Publishers Weekly.

Por sua vez, no Brasil, sendo as escolas o maior consumidor de livros literários infantis (para a composição de acervos de bibliotecas e professores, bem como para a disposição de títulos aos alunos), os editais dos programas de fomento governamentais delimitam alguns temas para a seleção de novos títulos a serem distribuídos. Essa delimitação por tema nos editais influencia grande parte das editoras maiores, focadas em livros didáticos e detentoras dos direitos de títulos ficcionais mais conhecidos. E aqui pontuamos o caso de Esperando mamãe (2012), livro ilustrado de Lee Tae-jun e Kim Dong-seong, publicado pela SM (grande conglomerado editorial especializado em livros didáticos de língua portuguesa) e que também integrou um dos editais do PNBE. Temas relacionados à família são um carro-chefe comum na produção literária endereçada a crianças, ainda mais quando esse tema é explorado de maneira sensível em construções que fogem do padrão, como é o caso de Esperando mamãe. A fragilidade da criança que espera por uma mãe que não retorna, imersa em um mundo repleto de adultos indiferentes à sua presença e circundada por intempéries naturais, transmite sensações de uma falta que em muito dialoga com as faltas sentidas pela criança que vai à escola pela primeira vez, ou que fica maior parte do dia na escola (longe da família), ou ainda das crianças que vivem distanciadas da família por questões alheias a elas e à família.

Contracapa de “Esperando Mamãe”. Fonte: site da Amazon.

São muitas as configurações temáticas que atraem a criança para uma obra literária, e no caso da literatura infantil coreana contemporânea, ainda que criada por autores localizados em um contexto sociocultural particularmente distinto do nosso, por tratarem o conteúdo de maneira excepcionalmente aguda (como acontece também com a literatura coreana adulta), que corta bem onde o sentir pulsa, ela chega ao leitor brasileiro por um caminho distinto ao comumente estereotipado e ainda promove uma chance de acessar a diferença que é uma criança de um outro país em uma história que, em muitos aspectos, é universal. Eu pontuaria, em essência, essas duas características da literatura infantil coreana em seu contato diferenciado com o público brasileiro: a ilustração e o narrar sensível e agudo.

Anúncio da maior premiação da literatura infantil do mundo, o Prêmio Memorial Astrid Lindgren de 2020, que foi concedido à Baek Heena.

Você também coordena o Grupo de Tradução de Literatura Infantil Coreana e Contos Folclóricos Coreanos da USP, como foi a formação desse projeto e quais objetivos vocês pretendem alcançar nesse momento de crescimento do consumo de cultura sul-coreana no nosso país?

LG: A professora Yun Jung Im Park me convidou para formar um grupo de tradução literária com alguns alunos da graduação (tanto aqueles em formação quanto já formados), como uma maneira de seguirem exercitando a prática tradutória em outro campo de atuação, a literatura infantil – esses alunos compuseram, em anos anteriores, grupos de aprendizes nos workshops de tradução literária que a professora Yun realiza desde 2017 com apoio do LTI Korea. São tradutores em formação que costumam ter acesso à literatura coreana adulta em suas práticas e estudos, mas que não costumam ler ou acompanhar a produção literária infantil do país. Sendo assim, como projeto extraoficial às atividades de cada um, nosso objetivo desde a formação, em fevereiro de 2019, é experimentar modos operacionais da prática tradutória e tirar resultados qualitativos para o exercício particular de todos a partir de encontros quinzenais ou mensais – que costumam ocorrer aos domingos, trazendo à tona outra particularidade desse grupo: seguir se aperfeiçoando, mesmo nos finais de semana, movidos pelo desejo de trabalhar com a tradução literária. Atualmente, o grupo é composto por 6 integrantes (Camila Camargo, Jennifer Murari, Laura Torelli, Mariane Brito, Natália Tae e Virginia Lazzari), todas com histórico de alguma experiência de trocas diretas com a Coreia do Sul, seja no contato com autores e professores coreanos na realização de eventos aqui no Brasil, seja na realização de viagens para intercâmbio estudantil.

Capas dos livros de Baek Heena. Crédito: Korea.net.

Aproveito para registrar meu agradecimento e meus parabéns a todas elas pelo trabalho dedicado e primoroso, posso dizer que um objetivo maior do grupo seja traduzir obras de literatura infantil coreana para a publicação no mercado brasileiro, dada a enorme oferta de obras coreanas nas feiras internacionais (foram 55 editoras coreanas expondo títulos diversos apenas na edição 2019 da Bologna Children’s Book Fair, por exemplo), ocasião onde as editoras nacionais negociam os direitos autorais de títulos estrangeiros, que acabam sendo traduzidos para idiomas que já vêm estabelecendo um histórico com essa produção pela existência de tradutores do coreano para essas línguas (inglesa, hispânica, italiana, francesa). No momento, estamos trabalhando remotamente na tradução de uma coletânea de contos folclóricos coreanos, não necessariamente infantis, mas que dialogam com as infâncias de todos os leitores (do bebê ao vovô), e que trazem muito da tradição narrativa da Coreia, seja pelos elementos e figuras místicas (partindo das lendas fundantes do país), seja no trabalho delicado com a oralidade e a musicalidade da língua. Nosso objetivo com esse projeto, feito em etapas de tradução e revisão coletivas, é publicar uma coletânea inédita em língua portuguesa, que traga o conteúdo essencialmente coreano (as histórias breves) em um exercício experimental com a oralidade da nossa língua (com uma sonoridade do Brasil), ou seja, que forma e conteúdo sejam mantidos, no limite do possível, na tradução que chegará aos leitores daqui, ao mesmo tempo que apresenta algo que eles nunca haviam lido. Claro, todo esse trabalho é coordenado por mim, mas sob a supervisão da professora Yun, que é nossa guia no elaborar hipóteses criativas que solucionem as traduções sem correlatos diretos do coreano para o português.

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Estande dos autores sul-coreanos na edição de 2018 da Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha. Crédito: Printing Korea.

Existem particularidades no processo de tradução que mudaram sua percepção da pesquisa sobre literatura infantil?

LG: Sem dúvidas. Como mestre e doutorando em Crítica Literária, meu trabalho é olhar para as obras que leio como quem desconfia, como alguém que busca charadas ocultas na construção poética, que levanta questões relacionadas ao fazer artístico diante daquilo que me está dado, impresso nas páginas do livro. O trabalho de tradução literária é, antes de tudo, um trabalho de re-criação, de trans-figuração, ou seja, de dar corpo outro a algo que ainda não existe na língua de chegada, mas que existe no imaginário a partir da leitura atenta de cada palavra escrita na língua de partida. No processo do tradutor, muitas perguntas são direcionadas ao texto em coreano, o que não difere tanto das indagações levantadas pelo crítico literário diante de qualquer texto poético. Logo, consigo dizer que o trabalho de tradução que realizo no grupo, tanto em minhas próprias traduções quanto na troca de traduções com as integrantes, tem deixado cada vez mais “afiada” minha capacidade de ler questionando, de questionar lendo, sempre no sentido de ampliar possibilidades de leitura intencionadas na própria escritura.

Suzy Lee se tornou um grande destaque dos livros ilustrados para crianças no contexto global e também se apresenta com notoriedade nas suas pesquisas. Poderia nos falar sobre a importância da obra dessa autora no cenário contemporâneo?

LG: Em 2019 fui convidado pelo Blog da Letrinhas (do selo Cia. das Letrinhas, que atualmente detém os direitos de publicação da obra de Suzy Lee no Brasil) para realizar um comentário geral sobre alguns aspectos que considero relevantes destacar acerca da obra dessa artista tão notória. Elenquei cinco olhares (O narrar abissalmente simples; O drama plástico/gráfico; Cotidiano e infância; O livro infantil para todas as idades; A sinestesia) que entendo como basilares nas produções exclusivas dela (nas quais ela escreve e ilustra). Porém, em 2020, ela causou um rebuliço nas minhas percepções críticas ao acrescentar novas potencialidades em sua já plural capacidade artística: além de estrear como tradutora literária (sua tradução para o clássico da literatura infantil norte-americana Our Snowman, de 1986, escrito e ilustrado por M. B. Goffstein, chegou aos leitores coreanos pela renomada Changbi Publishers – selo responsável pela publicação de obras endereçadas às crianças desde 1966 na Coreia do Sul), ela ilustrou outros 3 livros escritos por artistas distintos, dentre eles o cantor sul-coreano Lucid Fall, num livro-sanfona que coloca em diálogo a letra da música Sonho de me tornar água/물이 되는 꿈 e o já famoso jogo de traçados em carvão e pinceladas de aquarela que são “marca registrada” na produção literária de Suzy Lee.

“Sonho de me tornar água” com ilustrações de Suzy Lee e canção de Lucid Fall.

Suzy realizou mestrado em artes do livro na Inglaterra (entre 2000 e 2001), sendo assim, o experimentar com as formas de narrar diretamente ligadas às dobras das páginas, aos tipos de papel são assunto que não deixa de estar presente em toda e qualquer proposta artística sua. Sobre esse tópico em específico, gostaria de mencionar uma breve entrevista que realizei com Suzy Lee, também em 2019, e que resultou em um belo depoimento dela sobre a arte de trabalhar com o objeto livro infantil. Já sobre a importância de sua obra, eu começaria pontuando que Suzy Lee ficou famosa no mundo inteiro quando ela estava morando fora da Coreia do Sul (entre 2000 e 2010, ela viveu na Inglaterra, nos Estados Unidos e em Cingapura) e tendo publicado seus principais títulos primeiramente em editoras europeias e norte-americanas, exatamente por não haver, à época, um lugar reconhecido para o tipo de arte literária que ela faz – reunindo a plasticidade da palavra, o movimentar das imagens e a presença narrativa do objeto livro na composição – em sua terra natal.

Suzy Lee, em 2020, com o livro-sanfona ilustrado a partir da letra de Lucid Fall. Crédito: Portal Dong-A Ilbo.

Desde que retornou à Coreia do Sul, vem produzindo algo como 1 livro (escrito e ilustrado por ela) por ano, fora as parcerias como ilustradora de textos escritos por autores coreanos, chineses, estadunidenses. Hoje, em 2020, muitas das características que encontramos na obra de Suzy Lee podem ser também encontradas, com outras perspectivas, em livros publicados por outros autores sul-coreanos, mas todos diretamente influenciados por Lee em alguma medida – ela está sempre envolvida com oficinas de escrita e ilustração para livros infantis promovidas por centros de estudos especializados no geu-rim-chaek. Sempre lembrada pela sensibilidade que investe no experimentar com os sentidos do seu leitor nas materialidades que constituem o objeto livro, Suzy Lee é hoje, dentre alguns nomes internacionais, uma fonte de iluminação e imaginação para o que se faz de mais inovador, ainda que de uma simplicidade no narrar, na literatura infantil contemporânea.

O livro-sanfona ilustrado de Suzy Lee e Lucid Fall, quando aberto, chega a medir 5m70cm. Crédito: Chungaram Media

O apoio do Instituto Coreano de Tradução Literária e a criação do primeiro bacharelado em Língua e Literatura Coreana do Brasil com foco na formação de novos tradutores, estabelecido na USP desde 2013, se apresentam como peças recentes no jogo da introdução literária sul-coreana no mercado brasileiro. Partindo desse cenário, onde ainda estamos apenas no início da circulação, disponibilidade e consumo da literatura sul-coreana no Brasil, você acredita que novos laços culturais entre nosso país e a Coreia do Sul possam ser desenvolvidos para além daqueles já estruturados pela cultura pop e a favor de um alcance ainda maior do público brasileiro? Qual poderia ser o papel da literatura no aprofundamento das sensibilidades culturais entre os dois países, especialmente do ponto de vista brasileiro, que é profundamente imerso em orientalismos?

LG: Gostaria de iniciar minha resposta trazendo o recente e marcante Oscar 2020, cujas estatuetas das duas principais categorias – Melhor Direção e Melhor Filme – foram para as mãos do responsável pelo rasgante e denunciador filme Parasita: Bong Joon-ho. Como pessoas envolvidas com a cultura pop sul-coreana, além de consumidores dos produtos culturais diversos da Coreia do Sul, sabemos que a arte de Bong vem de uma trajetória marcada por filmes-denúncias que são lembrados pela aspereza (no apontar das injustiças) que se constrói na delicadeza e na fragilidade das relações humanas – como o foram as narrativas críticas ao comportamento antropocêntrico em O Hospedeiro e Okja. Partindo desse ponto, eu arrisco afirmar que há uma consciência humana vindo à tona, a passos lentos mas sem retroceder, em plano mundial; logo, o reconhecer-se na realidade injusta e de exploração humana pelo capital representada no filme coreano é sinal de nossos tempos, onde nossa capacidade de estabelecer relações de semelhanças e diferenças parece mais elaborada e, como consequência positiva, essencial para o estabelecimento das bases de um pensamento crítico sobre o si no social a partir da arte (o cinema, no caso). Essa aspereza no narrar sul-coreano, envolto pelas camadas frágeis do contato entre humanos e o mundo que os cerca, é uma das marcas registradas tanto na prosa quanto na poesia da Coreia do Sul, e não apenas hoje. Em suma, temos aqui uma porta que se abriu para não se fechar: o cinema coreano atingiu uma universalidade que, como disse Bong Joon-ho, “superou a barreira das legendas”.

Imagem de divulgação do aclamado “Parasita”, filme de Bong Joon-ho. Crédito: Pandora Filmes.

Como o filme é uma narrativa longa, roteirizada e constituída por uma série de linguagens, chamo a atenção para o fato de, em essência, ser um contar história. Ainda nessa arte narrativa audiovisual, temos o sucesso internacional dos silêncios cortantes que marcam os filmes de Kim Ki-duk, como Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera, Casa Vazia e Time – O amor contra a passagem do tempo, onde a linguagem corporal comunica o interior humano na complexidade que isso impõe. Veja quantas características essencialmente humanas sustentam a construção dessas narrativas sul-coreanas, mas que, de uma forma ou de outra, são narrativas nossas, algo que corre por baixo de nossas línguas e que bate similar no corpo de cada um de nós, numa comunicação subterrânea, quase de placas tectônicas, e que chegam à superfície como expressões, no caso, verbais em língua coreana e língua portuguesa – mas que não deixam de ser língua humana. Acredito que um investimento concentrado nessas narrativas – sejam elas expressas na literatura, no teatro, no cinema, na dança, na música (que deslumbrante é acompanhar, nas entonações da voz, as ações do narrador em sua jornada cantada numa performance de pansori) –, de maneira mais equilibrada e, claro, realizando-se uma pesquisa de público aprofundada e direcionadora, pode resultar em novos olhares brasileiros para essa arte que se produz na Coreia do Sul com tamanha qualidade.

Cartazes de divulgação dos filmes Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera, Casa Vazia e Time – O amor contra a passagem do tempo, respectivamente. Fonte: IMDB.

Não digo que a música pop sul-coreana já não atraia um público numeroso, porém, como alguém que trabalhou na divulgação do k-pop de 2005 até 2012, posso dizer que o material que temos hoje, de modo geral, é mais focado no conjunto audiovisual da coisa do que na qualidade musical, do que no trabalho maior com as letras. Sem polêmicas, hein?! Apenas digo que há uma ponta dessa produção cultural sul-coreana fortemente exposta, enquanto outras pontas tão potentes e ricas em tradições, histórias, heranças e estruturas do sujeito coreano seguem colocadas embaixo do guarda-chuva que representa o tema “cultura coreana”, e que, por sua vez, seguem encontrando resistências em sua expansão para além dos muros do lugar exótico (o orientalismo estereotipado). Penso que isso seja um trabalho a ser realizado tanto pela Coreia do Sul quanto pelo Brasil, em uma troca mútua de interesses, onde a oferta de artefatos culturais seja um atrativo real ao interessado em experimentar essas outras possibilidades de estar em contato com a cultura sul-coreana. Há editais, programas de intercâmbio e oportunidades de acesso a essa riqueza humana que é a cultura, em grande medida, por parte da Coreia do Sul (o LTI Korea abre chamadas anuais para o seu curso de imersão e formação de tradutores literários em língua coreana), mas será que temos pessoas interessadas o suficiente para mergulhar nessas águas (turbulentas pela dificuldade no seguir aprendendo a língua coreana) e trazer algo daí? É uma pergunta que faço genuinamente. Se há quem esteja interessado, e você está me lendo: não desista e tente! E eu ainda acrescentaria ao questionar: por que não investir em projetos de tradução de prosas juvenis como o romance Vou cruzar o mundo até você/세계를 건너 너에게 갈게, de 2018, escrito por Lee Kkot-nim? Ou o relato visceral de Derivado/번외, também de 2018, escrito por Park Ji-ri? Ou mesmo a coletânea de contos Abismo/벼랑, de 2008, escrito por Lee Geum-yi – indicada pela Coreia do Sul à edição 2020 do Hans Christian Andersen Awards (considerado o Prêmio Nobel da Literatura Infantil)? São histórias de juventudes humanas que travam diálogo íntimo com a realidade contemporânea da Coreia do Sul e do Brasil.

Capa do livro Vou cruzar o mundo até você/세계를 건너 너에게 갈게 de Lee Kkot-nim (2018). Fonte: yes24

Para encerrar, quais livros e autores sul-coreanos você recomendaria aos leitores do MidiÁsia?

LG: Eu teria uma lista imensa de títulos para compartilhar, mas irei focar naquilo que podemos ter acesso por meio de livrarias virtuais internacionais, já que dificilmente conseguiríamos adquirir livros infantis coreanos a partir de sites especializados da Coreia do Sul. Já existentes em língua portuguesa, eu recomendaria: todos os livros de Suzy Lee, Espelho (2009), Onda (2008), Sombra (2010) e Abra este pequeno livro (2013), assim como as traduções realizadas pela professora Yun para os livros ilustrados O guarda-chuva verde (2011), de Yun Dong-jae e Kim Jae-hong, e Esperando mamãe (2012), de Lee Tae-jun e Kim Dong-seong, além do recém-lançado Azul, Vermelho, Transpareço… (2020), escrito e ilustrado por Hwang Seong-hye. Levados para os países de língua inglesa, ainda que se tratem de livros-imagem, destacaria a ludicidade visual de Pool (2015) e Doors (2018), ambos criados pela talentosa ilustradora Lee Ji-hyeon; ou a países de língua hispânica e francesa, mesmo falantes do alemão e do mandarim, apontaria a potência surrealista dos livros ilustrados Promenade (2016) e Tempus (2019), ambos pelo incrível artista plástico Lee Jung-ho. Por fim, acho que seria interessante ler na perspectiva de uma voz coreana que se constrói fora da Coreia do Sul, no caso, em língua inglesa, como os livros escritos e ilustrados pela autora da diáspora Yangsook Choi: New Cat (1999), The Name Jar (2000) e Behind The Mask (2006). Não poderia finalizar sem dar espaço ao recomendadíssimo (nas feiras internacionais de livros infantis, mas improvável de obter por aqui) Coça-Coça/간질간질, de 2017, escrito e ilustrado pela irônica Seo-hyun.

Book trailer do livro ilustrado Azul, Vermelho, Transpareço…, pela Editora do Brasil

O Japão entre a fé e a descrença: O silêncio de Shusaku Endo

Por Mateus Nascimento (Via EloNihon)

Em seu filme, O Silêncio, o conhecido diretor Martin Scorsese nos transporta para o Japão no período de 1570 e 1614. Inspirado no livro homônimo O silêncio do escritor Shusaku Endo (1923-1996), ganhador do prêmio Tanizaki em 1966, o filme (2016) retrata de forma interessante e inédita a cultura e a política do período histórico de repressão ao cristianismo no Japão, iniciado por Toyotomi Hideyoshi em 1587.

Shusaku Endo, reconhecido autor no Japão do pós-guerra, nasce em Tóquio no ano de 1923 e anos depois se muda com os pais para a Manchúria. Eles viriam a separar-se dez anos depois – um trauma retomado em alguns de seus livros – e ele ainda jovem passa a morar com a mãe em Kōbe. Ela se converteu ao catolicismo quando ele era bem pequeno e ele viria a ser batizado anos depois, pois fora criado como católico, com a decisão vindo por volta dos doze anos.

Shusaku Endo (1923-2010).
Créditos: Filmow (https://filmow.com/shusaku-endo-a213388/)

Desde jovem, frequentava igrejas e pesquisava sobre a história do cristianismo e, especificamente, sobre a história de missionários cristãos pela Ásia. Por volta dos anos 30, inicia sua formação em literatura comparada, que viria a ser interrompida em virtude da segunda grande guerra (1939/1945). Tempos depois, ele retoma seus estudos conseguindo uma bolsa de estudos na Universidade de Lyon na França (1950/53) – o que lhe rendeu uma especialização em literatura francesa. Ali sofreu com a discriminação racial (antiniponismo crescente de então) e desenvolveu depressão.

Ainda na França foi diagnosticado com tuberculose e ficou internado por vários meses. O diagnóstico fez com que duvidasse de sua fé e quando obteve alta do hospital para tratamento domiciliar empreendeu uma viagem a Palestina para pesquisar sobre a vida de Jesus.

A viagem fora um momento decisivo para sua concepção de cristianismo bem como de diversos outros temas recorrentes em seus textos: dilemas entre Ocidente e Oriente, fé e descrença, tradição e modernidade, para citar os principais. Além desses assuntos, o trauma do racismo viria a ser retomado em suas obras e alguns de seus personagens tem esta doença, representando a vida do autor.

Destacamos o que o filme significa para o próprio Scorsese: “peguei este romance pela primeira vez quase 20 anos atrás. desde então, eu o reli incontáveis vezes e, agora, preparo uma adaptação cinematográfica. Ele tem me dado um tipo de amparo que eu encontrei em muito poucas obras de arte” – ele escreve para o prefácio da edição de 2011.

Capa do DVD em inglês. Créditos: Cover Box

A narrativa nos conta que dois jovens padres, Francisco Garpe e Sebastião Rodrigues iniciam uma saga pelo oriente a fim de encontrar o seu mentor espiritual, o padre Cristóvão Ferreira. De início, instalam-se em Macau, a porta comercial dos europeus na Ásia e uma região evangelizada pela igreja católica. Esta região era relativamente segura e poderia prover recursos básicos para a partida.

Ali encontram um japonês apóstata confesso chamado Kichijiro, que seria seu guia no território japonês uma vez que ele sabia minimamente a língua dos padres e o paradeiro do procurado. O trio consegue um barco e iniciam, via rota Macau-Kagoshima, a ida de fato. Pode-se dizer que objetivavam também fortalecer e expandir a fé cristã no Japão.

Desde a chegada, observamos que o silêncio no filme enquanto metáfora permite uma interpretação do contexto histórico, político e social da missão jesuíta no Japão do séc. XVII: ela nos ajuda a compreender um pouco do pensamento japonês sobre o conceito de religião.

O cristianismo representou um choque as estruturas do pensamento japonês, pois as práticas japonesas não correspondiam com os dogmas cristãos balizados pela dicotomia bem e mal. Por sua vez, este discurso somente foi usado no momento em que os governos japoneses não achavam mais os portugueses e sua cultura necessários ou úteis. Percebe-se então que a chegada do cristianismo no Japão não se dera somente pelo aspecto religioso: era sobretudo uma empreitada política!

O fluxo comercial era intenso e mesmo armas eram comercializadas entre portugueses e japoneses – os ashigaru (guerreiros a pé) eram camponeses portadores de tanegashima (nome pelo qual ficaram conhecidos os primeiros armamentos de pólvora) pelos senhores.

Portanto, a missão cristã no Japão deve ser explicada tendo em vista o conceito de circulação: ver que algo circula implica perceber (e querer investigar) de que houve um percurso entre aceitação, choque e rejeição de pensamentos ou inovações técnicas dos portugueses por parte dos japoneses entre 1549 e 1614.

Há que se destacar que o cristianismo foi aceito (junto com armas e artigos de guerra) num momento de grande descentralização do poder (Sengoku Jidai) pois Oda Nobunaga almejava vantagens no conhecimento e no uso das tecnologias militares ocidentais, e o culto só foi proibido para senhores num momento relativa estabilidade, quando Hideyoshi não mais desejava a presença e influências dos saberes portugueses sobre a população e mesmo nas elites. Por fim, foi duramente reprimido sob o xogunato dos Tokugawa quando a lógica era de se proteger o Japão das influências estrangeiras, sobretudo, do projeto colonizador do império Português, relacionado em grande medida com a igreja católica.

Scorsese e Endo, parece-nos, buscam proclamar a existência de um Japão que não seja indiferente ao cristianismo, mas que procura uma forma de cristianismo condizente com o caráter nacional.

Ficha técnica: O Silêncio (Silence) / Direção: Martins Scorsese / Ano: 2016 / Distribuidora: Imagem Filmes.

Sinopse: Ambientada no Japão no século XVI, a história trata de missionários portugueses que viajam ao país oriental para confortar convertidos locais e impedir que senhores feudais torturem padres cristãos – maneira local encontrada para tentar expulsar do Japão os catequistas europeus.

Vozes de Hiroshima

Por Mateus Nascimento

Inicialmente, gostaria de sugerir aqui que quando memória e discurso se fundem ao engajamento, nasce o testemunho – que, no nosso caso, é esse ato (estilo de vida) de contar para que não se repita. Primo Levi (1919-1987) caminhou nessa direção, narrando a sua experiência em Auschwitz; há inúmeras versões do diário de Anne Frank (1929-1945), e até alguns teóricos atualmente conhecidos que escreveram ou na cadeia ou em fuga do terror nazista (Erwin Panofsky, produzindo em história da arte, por exemplo). Também há variados livros que tratam do nazismo e seu funcionamento.

O expansionismo, o holocausto, a violência política, as batalhas… Tudo isso já é de conhecimento do público amplo. Poderíamos ainda lembrar dos extermínios, da loucura nazista, dos campos de concentração, da inauguração dos fronts asiáticos, dos crimes de guerra cometidos por tantos dos países envolvidos… Muitos dados traumáticos para uma humanidade que conhecia no séc. XX um dos maiores desenvolvimentos técnico-científicos, os quais foram utilizados nesse evento de maneira traumática.

No entanto, o que poderíamos utilizar cientificamente para divergir desse quadro mais conhecido? Primeiramente, é necessário assumir que a pesquisa é uma militância, na qual os pesquisadores assumem como objetivo influenciar o meio que vivem e a humanidade com suas comprovações e explicações. Isso se chama engajamento. Segundamente, com relação ao tema específico da Segunda Guerra Mundial é possível encontrar nestas memórias e discursos ricos,  dados e conceitos possivelmente analisáveis para uma crítica qualificada. Às vezes podem ser encontradas direções inéditas que dão novo fôlego a pesquisa e a reflexão.

Me refiro a trajetória dos Sobreviventes de Hiroshima, após a bomba. Sim, homens e mulheres que testemunharam o horror daquele dia – 6 de agosto – e apesar de todo o sentimento que poderia brotar, decidiram viver militando pela paz, alertando ao mundo sobre os horrores da guerra em tempos tão conturbados.

Junko Watanabe, 76 anos. Takashi Morita, 96 anos. Kunihiko Bonkohara, 78 anos.
Créditos: divulgação do projeto Sobreviventes pela Paz

Eis, os três são sobreviventes de Hiroshima. Seus testemunhos daquele contexto se encontram no livro organizado por Cristiane Izumi e Paulo Endo, os quais tendo a psicologia como campo de especialização, organizaram um evento sobre Hiroshima e Nagasaki no Instituto de Psicologia da USP em setembro de 2012. Deste encontro, nasceu o livro Hiroshima e Nagasaki: testemunho, inscrição e memória das catástrofes. Takashi Morita, por sua vez, tem seu testemunho publicado em livro a parte, A última mensagem de Hiroshima: o que vi e como sobrevivi à bomba atômica, lançado em 2017…

Capa do livro Hiroshima e Nagasaki. Créditos: foto do autor.

O primeiro livro conta com artigos de variados autores, com destaque para os textos de Ecléa Bosi e Sedi Hirano que apresentam um rico panorama dos fatos e uma análise tanto da guerra quanto das implicações dela partindo da metodologia da psicologia social para se compreender essa inscrição da memória tanto individual quanto coletiva das catástrofes. O conceito remete a psicanálise, aquele exercício de interpretação dos simbolismos e suas aparições subjetivas, que afetam o social e a socialização. Não possui só artigos, também está recheado com os testemunhos transcritos dos idosos e alguns de seus desenhos, criados como um escape ao que viam – ricos materiais para um estudo de arte que seria inédito, o testemunho em desenho.

Foto: Pessoas queimadas vagando em meio a Hiroshima em chamas. Desenho do senhor Takashi Morita, que autografou o exemplar do autor em agosto de 2018. Créditos: foto do autor.

Quanto ao livro dedicado ao testemunho do senhor Morita, parece-nos que Hiroshima se faz como uma cidade completamente incendiada, com pessoas carbonizadas, feridas em pústulas vivas, e os cadáveres quase informes, todos protestando silenciosamente contra a guerra. Ficamos sabendo de todo o dia 6, desde antes do bombardeio até as medidas adotadas pelo governo japonês que se encontrava prostrado.

Vemos isso através de sua palavras vívidas que se insurgem contra a guerra. De fato os eventos que acontecem entre 1939 e 1945 mexem com o mundo todo e alguns dos acontecimentos ainda encontram espaço na memória popular. Trata-se de um dos momentos mais importantes da história da humanidade: a Segunda Guerra Mundial.

Capa do Livro com o testemunho do senhor Takashi Morita. Crédito: foto do autor.

Talvez, voltar os ouvidos para a paz e para os seus defensores seja um caminho para refletirmos e mudarmos a direção em tempos pandêmicos em que a humanidade encontra-se mais uma vez contestada e poderosos roubam insumos entre si. Pela vida, pela paz: Hiroshima nunca mais.

Rogério Nagai, diretor e idealizador do “Sobreviventes pela paz” fala sobre o projeto exclusivamente para o MidiÁsia.

Ficha técnica:  
Título: Hiroshima e Nagasaki: testemunho, inscrição e memória das catástrofes.
Organizadores: Cristina izumi e Paulo Endo
Editora: Benjamin Editorial
Ano: 2015.

Ficha técnica:  
Título: A última mensagem de Hiroshima: o que vi e como sobrevivi à bomba atômica.
Autores: Takashi Morita
Editora: Universo dos livros
Ano: 2017

Shūichi Katō em Tempo e Espaço na cultura japonesa

Por Mateus Nascimento

Se você tem interesse em estudar algum tema relacionado a cultura japonesa e já ouviu dizer que existem poucos livros sobre o país em português – o que inviabilizaria seu estudo segundo essas vozes desinformadas –, te convido a fazer uma leitura fundamental: Tempo e Espaço na cultura japonesa, escrito pelo crítico de literatura e cultura Shūichi Katō (1919 – 2008).

Na obra em questão, o autor parte de dois conceitos fundamentais: tempo, jikan, e espaço, kūkan. Ambos os conceitos são analisados profundamente e para comprovar a forma específica pela qual eles aparecem no Japão, o autor começa com uma comparação com outras sociedades.

Por exemplo: antes de pensar o conceito de tempo no Japão, ele examina o conceito no judaísmo, na Grécia Antiga, no budismo (que se tornou um traço incontornável nesta cultura) e por fim, nos textos clássicos japoneses, com destaque para o Kojiki, “Relato das coisas antigas”, texto fundamental que fala sobre a criação do Japão.

Fazendo uma análise das ideias e das formas simbólicas, Katō inova ao apresentar os elementos que constituem o estilo de ação, ou os estilos de ação do povo japonês. Esse é um de seus principais conceitos, sempre presente nas suas interpretações que tratam sobre as características da língua japonesa, da arte, da religiosidade e das formas pelas quais acontecem as relações sociais, objetos de pesquisa interessantes que normalmente estão entre os primeiros interesses de pesquisadores brasileiros.

Assim, o que o autor chama de estilos de ação é essa forma japonesa de ser no mundo, tanto individualmente quanto coletivamente, que aparentemente segue duas lógicas. A de tempo-espaço, vista pelo famoso presente longo, que afeta até a linguagem desta sociedade: note-se a diferença dos tempos verbais do Japão, que se dividem em passado e o não passado. Até as frases e a comunicação de uma maneira geral necessitam de componentes a mais – os apostos – para designar algumas intenções do falante que se mostram, quase sempre, através de elipses.

A outra é a de subjetividade, traduzida nos jogos conceituais honne, algo como a real intenção, tatemae, opinião pública (no sentido de ser a posição que alguém assume pela unidade harmônica do e no campo público), uchi, “ser de dentro” e soto, “ser de fora”. Esses conceitos estão por detrás dos hábitos que conhecemos, sobretudo, a tendência ao ocultamento da qual falamos antes.

Capa de Tempo e Espaço na cultura japonesa. Créditos: foto do autor.

Por exemplo: a elipse se dá através do ocultamento de si mesmo, ocultamento das opiniões, ocultamento daquilo que seja potencialmente prejudicial, ou seja, é uma posição defensiva, objetivando a manutenção da harmonia de um todo, do qual somente participam aqueles que entendem suas regras, por sua vez, previstas nos conceitos apresentados.

Publicado pela primeira vez em 2007 e traduzido para o português por Neide Nagae e Fernando Chamas, em 2012 (publicado pela Estação Liberdade), o livro reflete a maturidade do autor consagrado pela análise que faz da mentalidade japonesa.

Ficha técnica:  
Título: Tempo e espaço na cultura japonesa.
Autor: Shūichi Katō.
Tradutores: Neide Nagae e Fernando Chamas.
Editora: Estação Liberdade, São Paulo.
Ano: 2012.