NC Curadorias está com inscrições abertas para o evento “Encontro sobre Murakami”

Via Revista Intertelas

Nélida Capela Curadorias vai realizar no dia 21 de novembrodas 14h às 17h,  o evento “Encontro sobre Murakami”, em que alguns livros de Haruki Murakami serão lidos e debatidos. Sob coordenação de Mateus Nascimento, o participantes da iniciativa poderão mergulhar no universo deste escritor japonês que é um dos mais conhecidos internacionalmente, entre os autores do Japão. Segundo afirma Nascimento, “seus livros são interessantes por que abordam desde a própria cultura japonesa até as questões mais centrais da humanidade“.

Crédito: NC Curadorias.

Alguns trechos e/ou obras desta produção serão lidos e debatidos. Mateus Nascimento é mestre em história pelo Programa de Pós-Graduação do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense (PPGH/IHT/UFF), bacharel e licenciado em história pela mesma instituição, além de pesquisador do Centro de Estudos Asiáticos (CEA-UFF), do Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática Contemporânea (MidiÁsia/UFF) e do Instituto Cultural Brasil-Japão (ICBJ-RJ).  Entre as obras sugeridas aos participantes estão: “Ouça a canção do vento – Pinball 1973”“Minha querida Sputnik” e “O elefante desaparece”‘. Para adquirir os livros, visite a página do autor na loja virtual da Blooks Livraria. O evento é uma parceria entre Blooks Livraria, Centro de Estudos Asiáticos, Interseção Comunicação, MidiÁsia e Revista Intertelas. Para outras informações e fazer a sua inscrição, acesse o site do Sympla.

Os cem poemas dos cem poetas

Por Roberto Schmitt-Prym

Cem poemas de cem poetas (Ogura Hyakunin Isshu) é uma coletânea organizada pelo poeta e crítico literário Fujiwara no Teika (1162–1241). É ainda hoje a mais querida e conhecida antologia poética japonesa, ocupando esse status desde que foi composta, quase oitocentos anos atrás. Teve um papel decisivo na formação do senso estético japonês: seus poemas são tema de incontáveis pinturas, peças teatrais, objetos de decoração, canções, filmes, padrões têxteis, xilogravuras, ilustrações e muitas outras manifestações artísticas. No século XX, seus poetas foram representados em anime e manga. No século XXI, surgem em games e aplicativos. Um conhecimento mesmo superficial desse conteúdo artístico e histórico é passaporte para uma fruição muito mais rica de inúmeros artefatos culturais japoneses — e até mesmo brasileiros.

Capa do livro Cem poemas e cem poetas. Créditos: Editora Bestiário.

No fim da vida, recluso em sua casa de campo na colina de Ogura, Teika escolheu cem poemas, cada um de um autor diferente, e escreveu cada um deles em papel acartonado para caligrafia. Em seguida, afixou esses quadros às divisórias de correr, criando uma exposição poética. Os cem poemas waka (5 versos de 5-7-5-7-7 sílabas) estão dispostos em sequência mais ou menos cronológica, cobrindo um período que vai do século VII ao XIII, como que representando o desenvolvimento da poesia japonesa até aquele momento.

No Japão, os poemas contidos em Cem poemas de cem poetas fazem parte do currículo do ensino médio. Há um baralho de cartas baseado na coletânea, e o jogo de karuta é, até hoje, uma brincadeira que faz parte das festividades do ano-novo. Existe também uma versão competitiva do mesmo jogo, com campeonatos nacionais no Japão e em diversos países do mundo, incluindo o Brasil.

A presente tradução não tem por objetivo ser uma “versão brasileira” do jogo de cartas pois, para isso, eu precisaria ter dado prioridade à métrica dos poemas, com perda de outros elementos poéticos que eu considero mais importantes (e que eu explico mais adiante nesta Introdução). Ainda assim, este livro pode ser útil para quem se interessa por karuta, pois fiz questão de incluir os poemas em japonês e em transcrição, assim como as diferentes versões do nome de cada poeta — tal como é conhecido no mundo da literatura e no contexto do jogo de cartas.

Exemplo da paginação, com ilustrações de Arakawa Kamejirô. Créditos: Editora Bestiário.

Acompanham cada poema uma breve biografia dos autores e algumas notas para auxiliar na interpretação do poema — como se encontra, no Japão, em qualquer livro de bolso dedicado à coletânea. As ilustrações são de Arakawa Kamejirô, de uma edição da antologia de 1903 (vide Referências no final do livro). Para evitar que os paratextos sufoquem os poemas, deixei as explicações, ilustrações e biografias do lado esquerdo, nas páginas pares. Os poemas ficam em destaque, com tipografia maior, nas páginas ímpares. Alguém que prefira ler os poemas sem “instruções de uso” pode focar apenas nas páginas ímpares, e os que gostam de explicações mais detalhadas não vão precisar ir até o fim do livro atrás de notas desconfortavelmente entrincheiradas longe dos poemas a que se referem.

Por um lado, a fruição de poesia traduzida sem guias de leitura tem muitos defensores no Brasil, e pode servir como um teste bastante rigoroso da autonomia do texto poético em português. Por outro lado, “autonomia do texto” é um conceito extremamente problemático e, no Japão, o uso mais comum que se faz de literatura clássica envolve necessariamente notas, explicações e biografias. Os próprios poemas, na época em que foram compostos, eram anotados com títulos, prólogos e outros textos auxiliares. Em tradução, as notas e biografias compõem um retrato da época e dos autores dos poemas, funcionando como uma espécie de “almanaque da Antiguidade japonesa”.

Ficha técnica: Cem poemas de cem poetas. Tradutor: Andrei Cunha (UFRGS). Publicação: Bestiário/Class. Ano: 2018, p. 266.

Ouvindo os sons do vento com Haruki Murakami

Por Mateus Nascimento

Ouça a canção do vento, de 1979, é o primeiro texto de Haruki Murakami (ou Murakami Haruki dependendo do quão imerso nos estudos japoneses você esteja), o grande autor japonês pop!

Ler este livro é fundamental para se conhecer um Murakami das primeiras ideias literárias, antes de ser o sucesso de vendagem que é hoje. De certa forma, é ter em suas mãos as primeiras experimentações do autor no campo da escrita, mesclando imagens mais contemporâneas e ocidentais (especialmente americanas), mas também outras mais clássicas, do repertório da literatura japonesa.

Ele é um dos escritores japoneses mais conhecidos justamente porque seus livros abordam desde a própria cultura japonesa até as questões mais centrais de nosso tempo, às vezes misturando as duas coisas em histórias qualificadas como pertencentes ao realismo fantástico.

Haruki Murakami. Créditos: The Star

Nascido em Quioto pouco tempo após a Segunda Guerra Mundial, em 1949, Murakami é filho de um sacerdote budista com a filha de um comerciante de Osaka, com os quais aprendeu literatura japonesa. Frequentou a Universidade de Waseda, em Tóquio, dedicando-se sobretudo aos estudos teatrais. Antes de terminar o curso, abriu um bar de jazz chamado Peter Cat, à frente do qual se manteve entre 1974 e 1982, e se casou jovem. O casal não tem filhos.

Com esse breve histórico, parece que Murakami quis ser diferente do padrão. Sua vida mostra alguém que quis ser um outsider ou crítico do estilo de vida capitalista do Japão, muito marcado pelos conceitos de produtividade, meritocracia, que compõem aquela imagem do japonês como pessoa sempre ocupada, disciplinada, educada, etc., que nós ocidentais conhecemos na mídia.

Normalmente, muitos comentadores o associam à corrente de autores do realismo fantástico, por conta da junção de elementos folclóricos, ficcionais a imagens que podemos encontrar na realidade: música clássica, música pop americana, imagens da pop art e cenas fantásticas que se inspiram em lendas japonesas ou em lendas ocidentais. Toda a mistura aparece somada a gatinhos, cervejas e bastante cenários típicos de um Japão em constante aceleração, marcado pelas dores do individualismo extremo que reina ali, apesar de quase todas as atividades dos sujeitos serem atravessadas por conceitos e formas que privilegiam o coletivo e a coletividade.

Capa do livro Ouça a canção do vento. Créditos: foto do autor.

Por sua vez, Ouça a Canção do Vento é um romance curto, mais próximo de uma novela o que de um romance, e acompanha um narrador sem nome ao longo de poucos dias de suas férias de verão da faculdade, em agosto de 1970. O livro virou filme em 1981, dirigido por Kazuki Ōmori – Hear the Wind Sing – e logo popularizou o texto murakamiano no próprio país.

Narrado em primeira pessoa com capítulos curtos, esse narrador, cujo nome não sabemos em nenhum momento da história, passa grande parte do seu tempo com seu melhor amigo, o Rato, e com J., barman e dono do J’s Bar, onde os três passam as noites bebendo e conversando.

Entre uma aparição e outra de California Girls do grupo Beach Boys ou de Return to the Sender de Elvis Presley, ao passo que a vida boêmia de Kobe se apresenta, o narrador resgata uma moça desacordada no bar e em torno desse relacionacionamento gira a história, com algumas pausas nas quais ele busca lembrar-se de relacionamentos passados e experiências da sua vida. Apesar de conhecermos pouco todos os personagens – o Rato um pouco mais pois é mencionado o fato dele ser filho de empresários – ficamos sabendo que o narrador está vivendo tudo isto por estar de férias da faculdade, entre os dias 8 e 26 de agosto de 1970.

Certamente esses personagens sugerem um apontamento murakamiano sobre os deslocados no interior da cultura do Japão, que consequentemente desenvolvem a solidão e medo de serem inadequados, o que se correlaciona com o nosso tempo atual. É curioso o fato de que Murakami tenha escrito sobre esses dramas na década de 1980 e alguns dos textos dessa fase ainda serem tão atuais.

Perceba: personagens sem nome, no meio de uma sociedade que valoriza bastante o coletivo; a quase onipresença do álcool em todos os momentos das histórias; as mortes e a crise profissional que assombra boa parte dos protagonistas, temas quase incabíveis no Japão que nos é continuamente apresentado como o país do futuro, da dedicação pessoal e do sucesso. 

Para ele, por exemplo, é ausente do mundo atual um conceito de heroísmo, muito presente no elogio do sucesso formulado pela cultura da meritocracia. Também estariam ausente as fórmulas prontas. A situação atual é o que é e nada mais e suas obras falam desse cotidiano da contemporaneidade, que mais nos oprime e desloca e mata psicossocialmente. Com vocês, Haruki Murakami.

Ficha Técnica:

Título: Ouça a canção do vento / Autor: Haruki Murakami / Tradutora: Rita Kohl / Editora Alfaguara, 2016.

“Isso não é arte” de Kobayashi Issa

Por Roberto Schmitt-Prym e Andrei Cunha (Editora Bestiário)

Kobayashi Issa (1763–1827) é um daqueles grandes da literatura que pagaram um preço alto por darem prazer ao seu público: como Mario Quintana, Alexandre Dumas, Anton Tchekhov, Jacques Prévert, ou ainda seus conterrâneos Miyazawa Kenji e Murakami Haruki, o impacto de Issa é tão acessível, mesmo para quem “não gosta de literatura”, que suscita desconfiança em críticos mais sisudos — o tipo que imagina que, para ser arte, precisa dar trabalho ao leitor.

Estátua de Kobayashi Issa em Kashiwabara. Créditos: Green shinto

Isso não é arte? É um clichê dizer que é muito difícil ser simples, que a leveza do artista esconde um fazer cheio de gravidade. Os haicais de Issa abrigam muitos níveis interpretativos, tanto como representantes da sua cultura, quanto como peças discretas que funcionam em diversos contextos. Ele é herdeiro de uma tradição japonesa, literalmente milenar, de desprezo pela distinção entre o confessional e a ficção: seus comoventes diários e poemas são, ao mesmo tempo, “baseados em fatos reais” e sínteses daquilo que Ricardo Silvestrin chama, em sua Introdução, de “um eu que se dissolve, um eu mínimo, no limite do não-eu”.

Por outro lado, mesmo sem o melodrama pessoal, extirpados de seus habitat linguístico, social, moral, os poemas continuam vivos, desafiando o equívoco, bastante comum, de que Issa não merece ser mencionado com os outros dois da tríade — Bashô e Buson —, por não ser “suficientemente sério, suficientemente profundo”.

Imagem do livro “Isso não é arte”. Créditos: Mateus Nascimento.

Assim como há quem ache simples ser simples, vai ter gente que vai dizer que o trabalho de Silvestrin foi pequeno. Afinal, que mistério pode haver em repetir, em português do Brasil, as frases diretas e descomplicadas de um poeta de fácil comunicação? O sentimentalismo dos haicais de Issa, que ele herdou da tradição do waka da Antiguidade, mais do que do haicai da Idade Média, já é tão pungente, que bastaria, seguindo esse raciocínio, repetir a mesma história em nossa língua. De novo, há aí engano. Silvestrin consegue fazer um trabalho difícil sem permitir que ele pareça difícil: os poemas — que ele escolheu claramente por afinidade, por ressonância — se apresentam a cada folha deste precioso livro como que recém-chegados a um mundo que é uma fusão de brevidade nipônica com uma sensibilidade linguística nossa, e isso é para poucos.

Eis aí a mágica, que nem todos veem: ser arte tão leve que desafia a mesma ideia do que seja arte.

Ficha técnica:

Título: ISSO NÃO É ARTE. Autor: Kobayashi Issa. Tradução: Ricardo Silvestrin. Publicação: Bestiário/Class, 2019.

Fundação Japão de SP lança biblioteca literária online

Via Fundação Japão

A Fundação Japão apresenta a Biblioteca Literária Online, um projeto com o objetivo de divulgar a literatura japonesa no Brasil, incentivando não apenas a sua leitura, como também o interesse pela tradução de novas obras para o português.  O leitor poderá explorar um pouco mais o prolífico mundo literário nipônico por meio de informações relevantes disponíveis online organizadas em forma de dossiês e mini dossiês focados em uma autoria, sem ater-se em demasia em detalhes biográficos.

Crédito: Fundação Japão.

O primeiro escritor que já tem um levantamento disponível é Natsume Soseki. Para conferir o trabalho, acesse o site da Biblioteca Literária Online – Dossiê Literário.