Companhia Hybe, do BTS, revela Museu Musical dedicado aos fãs e artistas

Crédito: Asia On.

Via Koreapost

Hybe, a potência do K-pop por trás do BTS, Seventeen e Enhypen, abriu o que chama de “museu da música” para seus artistas e fãs em sua nova sede no centro de Seul. O local de 4.700 metros quadrados espalhados por dois andares de subsolo, possui telas gigantes que mostram uma seleção rotativa de vídeos de seus artistas, bem como souvenirs da produção musical e objetos diversos que ajudaram a criar a potência do K-pop.

Uma prévia do Hybe Insight na quarta-feira começou com uma entrada através de uma série de molduras retangulares de luz que iluminaram um corredor escuro enquanto sons futuristas fluiam ao fundo. A curta caminhada levou a um espaço de exposição chamado “Innovative Sound”. Um guia no local explicou que o espaço de exposição é um dos três espaços no subsolo que usam som, movimento e história para explicar a música de Hybe.

O local foi decorado com animações, instalações e vídeos com produtores e artistas musicais do gigante do K-pop. Um vídeo, por exemplo, mostra os produtores Pdogg e Bumzu, afiliados aos selos Hybe Big Hit Music e Pledis, respectivamente, falando sobre sua filosofia musical. Vídeos gravados com câmeras de 360 ​​graus permitem que os visitantes naveguem por vários estúdios pessoais dos artistas com Pdogg e Bumzu, e RM, Suga e J-hope do BTS.

Museu de música no centro de seul dedicado aos fãs e artistas da hybe. Foto: hybe insight

Outro recurso interativo permite que os visitantes experimentem o gosto de ser um produtor musical, adicionando ou removendo camadas de som de canções de sucesso de Hybe, como “Bet Bet” do Ike do Nuest e “Fake Love” do BTS. Em contraste com o primeiro setor que se concentra no som, os outros dois setores no andar inferior giram em torno dos aspectos visuais da produção musical.

Telas gigantes mostram alguns dos artistas da companhia dançando em frente a telas decoradas de forma simples para que o público possa se concentrar exclusivamente na coreografia. Enquanto isso, gravações de bastidores de estúdios de dança mostram os cantores ajustando seus movimentos de dança, enquanto fones de ouvido e microfones que músicos Hybe – como Jimin do BTS e Vernon of Seventeen – usaram durante suas apresentações também estão em exibição.

Obras gráficas inspiradas nas letras de canções Hybe, como o megahit BTS “Dynamite”, bem como livros como “Art of Loving” de Erich Fromm, “Jung’s Map of the Soul” de Murray Stein e o romance de maioridade “Demian” também estavam em exibição. Os três livros são conhecidos por terem inspirado os álbuns do BTS “Love Yourself”, “Map of the Soul: Persona” e “Wings”.

Esta foto, fornecida por hybe insight, mostra o museu de música no centro de seul dedicado aos fãs e artistas de hybe.

Antes que os visitantes sigam para o andar superior, eles entram em uma câmara cheia de telas imersivas e uma parede de troféus de 8,5 metros que exibe todos os troféus ganhos pelos músicos da Hybe. Um vídeo de sete minutos narrado pelo cantor Lee Hyun leva os visitantes pela história da empresa e seus momentos marcantes. O andar superior, por sua vez, se afasta da música e mostra uma variedade de objetos e obras de arte que foram inspirados na música da Hybe. A empresa disse que planeja realizar exposições especiais com artistas visuais daqui e do exterior.

Para sua primeira exposição especial, a Hybe colaborou com o artista taiwanês americano James Jean, conhecido por suas pinturas e ilustrações poéticas e míticas. Jean trabalhou em uma pintura gigante intitulada “Garden”, inspirada na música do BTS “The Truth Untold”. Sete figuras totêmicas que lembram os integrantes do BTS também estão entre as obras de Jean em exibição.

Esta foto, fornecida por hybe insight, mostra uma obra de arte do pintor james jean em exibição no museu de música no centro de seul dedicado aos fãs e artistas de hybe.

O restante do piso superior permite aos visitantes vivenciar a música através de diferentes sentidos, como luz, vibração e cheiro. Um cômodo, por exemplo, está vazio, exceto por flores e decorações verdes penduradas no teto, enquanto um perfume inspirado na música “Euphoria” do BTS preenche o espaço.

Trajes e acessórios que BTS e Seventeen usaram também são exibidos. A exposição termina com um vídeo de 10 minutos de músicos da Hybe falando sobre música e vida. Por meio de telas instaladas em todas as paredes de um quarto escuro, eles falam sobre como foi estar separados de seus familiares e amigos para treinar ou a agonia de se comparar a pessoas mais talentosas.

Os visitantes podem baixar guias de áudio de algumas de suas celebridades favoritas – como rm do bts, so-won do gfriend e jung-won do enhypen – por meio de um aplicativo móvel. Foto: hybe insight

Eles, no entanto, chegam à conclusão de que existem por causa de seus fãs e os agradecem por estarem sempre presentes. Suga, membro do BTS, observa que ele “canta para aqueles que ouvem minha música” e promete continuar cantando até que “mais e mais músicos venham, tendo ouvido nossa música”. O Hybe Insight abriu para o público oficialmente em 21/05. O local funciona de terça a domingo, com ingressos disponíveis online.

MidiÁsia entrevista Douglas Passos, produtor do Hallyu Rio, maior evento de cultura sul-coreana no RJ

Por Daniela Mazur

Sem dúvidas, o Rio de Janeiro é um polo cultural brasileiro de grande reconhecimento, mas quando o assunto é cultura pop sul-coreana, o estado ainda está se estruturando para ser um espaço pulsante desse consumo. A Hallyu, ou Onda Coreana, possui uma grande comunidade de fãs cariocas, que se organiza em favor de se expandir e atrair eventos culturais e shows de K-pop para a cidade, mas sem grandes apoios institucionais. Apesar disso, nos últimos anos festas noturnas, exposições, competições de covers e eventos especializados na Hallyu começaram a se destacar por aqui, assim como surgiram cursos de coreano especializados em diferentes partes do estado, tamanha a demanda dos fãs. O coordenador do curso Escola de Coreano e produtor de eventos Douglas Passos está envolvido diretamente no processo de ascensão carioca dessa cena cultural e é o grande responsável pelo maior evento de cultura sul-coreana no estado, o Hallyu Rio, e da comunidade Meet Kpop Rio. Com a quarta edição do Hallyu Rio marcada para ainda este ano, desta vez em formato online por causa da pandemia de COVID-19, Douglas conversa com o MidiÁsia sobre a construção da cena K-popper no Rio de Janeiro, as dificuldades de legitimação da cultura pop sul-coreana no estado e a importância de pensar o consumo brasileiro da Hallyu para além de São Paulo, que é atualmente o grande epicentro dessa experiência cultural no país.

O entrevistado Douglas Passos. Fonte: Acervo pessoal.

Como foi o seu processo pessoal de conhecer e compreender a Hallyu? Em que momento percebeu que este setor de consumo cultural precisava de atenção profissional e começou a organizar seus próprios eventos relacionados?

Douglas Passos (DP): Entrei no mundo da Hallyu como fã, então, quando me percebi assim, quis buscar locais e formas de me conectar mais com essa cultura, conhecer pessoas, enfim, saber mais sobre esse entretenimento. O meio principal da época era a internet, especialmente grupos de Facebook, que foi por onde eu conheci esse mundo. Contudo, faltavam espaços físicos ou eventos onde a gente pudesse ir aqui no Rio, que é onde eu cresci e moro. Então, nesse momento em que eu percebi que não haviam locais suficientes ou até mesmo agradáveis para podermos ir, resolvi reunir alguns amigos que conheci pela internet, que compartilhavam comigo dos mesmos gostos. A ideia surgiu de uma página que promovia encontros de fãs de K-pop, mas no Rio de Janeiro não havia nenhuma comoção para realiza-lo, então eu me voluntariei a juntar essas pessoas. Convoquei amigos, que convocaram outros, e, com a ajuda dessa página, a gente divulgou o evento do Rio de Janeiro. Assim, realizamos o primeiro encontro K-pop do Rio, do qual eu fui o organizador. Nesse primeiro momento, então, foi uma questão muito pessoal, eu queria esse espaço e por ele não existir, resolvi participar e ajudar de alguma forma a fazer isso acontecer. Desde o primeiro evento percebi que tinha um público bem consistente interessado no assunto no Rio de Janeiro e que eu poderia repetir a dose, uma vez que a primeira tinha sido um sucesso.

Encontro na Quinta da Boa Vista em 2015 realizado pelo Meet Kpop, grupo de encontro de k-poppers organizado pelo Douglas. Crédito: Amanda Cotrim e página Meet Kpop.

Esse primeiro encontro, em 2013, reuniu em torno de 50 pessoas, que foi o maior até então. As pessoas se juntaram para socializar, ouvir música, conversar sobre K-pop, mas em um espaço público. Essas 50 pessoas falaram com outras, que se mostraram também interessadas, foi assim que percebi a demanda grande que tínhamos por aqui. Fãs do Rio de Janeiro que queriam e procuravam espaços de convivência, mas faltava uma liderança para organizar esses eventos. Com isso, um mês depois, realizamos o segundo encontro que teve o dobro de pessoas. Foi dessa forma que percebi que esse público estava crescendo e esses fãs se encontravam em locais diferentes no Rio, em grupos menores e isolados, demandando um espaço único para socializar e alimentar essa comunidade para que ela pudesse crescer, porque o potencial já existia para isso.

hallyu-rio-imperator-meier-foto
Palco do Hallyu Rio 2018 com os participantes do concursos cover de dança e canto. Fonte: Sou Méier.

Como você enxerga o consumo da Hallyu no Rio de Janeiro em comparação ao resto do Brasil?

DP: Eu vejo que o Rio de Janeiro é um estado que cresceu muito em relação a isso e o principal fator de crescimento foram os próprios fãs, fomentando eventos, atividades, comunidades na internet. O Rio nunca teve muitas organizações oficiais viradas para a cultura da Coreia do Sul, até mesmo para o entretenimento em geral, foram poucas as vezes que tivemos alguma ajuda de centros culturais, da embaixada ou de outra instituição do tipo. Sempre foi um estado meio invisível em relação a isso, então o consumo da Hallyu foi crescendo graças a própria comunidade, muito foi feito dentro da lógica fã-para-fã. Esse é um fato interessante porque mostra a dedicação dessas pessoas, que, mesmo sem um espaço oficial ou contato com a comunidade coreana aqui do Rio de Janeiro para trocar informações em geral, os fãs se esforçam em buscar outras fontes através de pesquisas. A comunidade carioca de K-poppers é parecida com as de outros estados, como Fortaleza, Espírito Santo e Curitiba, que possuem grandes comunidades de fãs de K-pop, mas não têm muito respaldo oficial para esse consumo, diferente de São Paulo, que sempre teve apoio intenso do Centro Cultural Coreano e outras entidades culturais do tipo.

Apresentação cover no Hallyu Rio 2019. Crédito: Bruno Antonucci.

Em meio a sua vivência da cena, como o Rio de Janeiro se estruturou como um espaço focal da experiência brasileira da Onda Coreana? Entre erros e acertos, podemos considerar o Rio um campo em ascensão para a Coreia do Sul em termos culturais?

DP: A Onda Coreana cresceu no Rio de Janeiro a partir do fã-para-fã, onde muitos deles procuraram fomentar, divulgar e atrair novos fãs para a comunidade, tanto em espaços públicos, quanto na própria internet, esta última especialmente com sites e grupos virados apenas para o Rio de Janeiro. E, de dez anos pra cá, que foi quando a Onda realmente se expandiu, diversos shows de K-pop, atividades coreanas e eventos foram realizados no estado, porque os fãs conseguiram mostrar o grande potencial e número de interessados que existe aqui. Muitas das vezes de forma não-oficial, se utilizando apenas de páginas na internet ou de pequenas pesquisas locais, especialmente com votos e concursos para criar esse burburinho. Os primeiros shows realizados aqui no estado provaram o interesse do público, já que, mesmo quando eram apresentações de grupos muito pouco conhecidos no K-pop (alguns destes que às vezes não tinham grande reconhecimento nem mesmo na Coreia do Sul),realizavam apresentações aqui no Rio com um público bem bacana. É um esforço direto da comunidade carioca para esquentar esse circuito.

Público do Hallyu Rio 2019 durante uma atividade sobre dramas sul-coreanos. Crédito: Bruno Antonucci.

A cada atividade, a cada show, a cada recorde de público em eventos que era batido, os produtores de evento, tanto da Coreia quanto de outros estados brasileiros, começaram a ficar mais atentos ao Rio. Até mesmo o Centro Cultural Coreano no Brasil e a própria Embaixada da Coreia começaram a reconhecer o Rio de Janeiro como um estado em potencial para eventos culturais sul-coreanos. Contudo, ainda estamos em um processo de ascensão, eu diria que o Rio de Janeiro ainda não é um polo para quem ama cultura coreana, a gente ainda não tem atividades consolidadas a esse ponto. Obviamente, hoje temos muito mais eventos do que tínhamos antes, mas eu acredito que ainda não sejam o suficiente em comparação a extensão da cultura sul-coreana em si.

Apresentação de cover de canto. Crédito: Bruno Antonucci.

Acho que ainda faltam espaços ligados a isso, talvez um calendário mais organizado de eventos oficiais, não que os que já acontecem não possam ser considerados oficiais, porém é necessário algo mais estruturado na cultura. O Rio de Janeiro possui apenas um evento voltado totalmente para a cultura sul-coreana, que é o Hallyu Rio. Podemos também ver o aumento de cursos de coreano na cidade e no estado como um todo, coisa que a alguns anos atrás nem existia. Então, em resumo, acredito que o Rio de Janeiro já tem alguns espaços para o consumo da cultura coreana, mas ainda precisa melhorar. E, como produtor de evento, não tenho dúvidas que, para esse tipo de evento, o Rio de Janeiro é um lugar que vale a pena ser explorado.

O Meet Kpop Rio virou um espaço online reconhecido na cena carioca de cultura pop sul-coreana, como foi a concepção e desenvolvimento desse projeto?

DP: O Meet Kpop Rio nasceu com o objetivo de juntar pessoas com um mesmo interesse e cresceu graças aos fãs. Eu sempre fui muito fã e dessa forma tentei me conectar com outros fãs, algo natural, além disso foi graças ao K-pop que descobri minha vocação profissional que é a de trabalhar com cultura, pessoas e eventos, o que ajudou nesse processo. Então, o Meet Kpop surgiu dessa união de interesses. Aproveitamos das trocas com os fãs e nos focamos em aumentar essa comunidade aqui no Rio de Janeiro, assim o Meet Kpop se formou,como um espaço online de troca com os fãs cariocas e também um lugar para organização de eventos físicos virados para essas mesmas pessoas. Hoje são mais de 14 mil fãs na página, além de grupos no Facebook.

FlashMob Viva Coreia realizado pela Meet Kpop RJ em parceria com o Centro Cultural Coreano para as Olimpíadas Rio 2016. Crédito: Meet Kpop.

Quais são as demandas, obstáculos e recompensas de produzir um evento que tenta dar conta de tantas vertentes da cultura pop sul-coreana, especialmente sendo o único de grande porte no Rio de Janeiro? Como se configura o público que participa do Hallyu Rio?

DP: Pra começar, aqui no Rio de Janeiro nós temos poucos lugares oficiais para pesquisar informações sobre a Coreia do Sul. Então, fazer um evento sobre a cultura sul-coreana sem ter nunca ido até o país ou até mesmo sem ser um coreano-brasileiro, como é o meu caso, foi uma tarefa bem difícil. Elaborar um evento sobre uma cultura que não é a nossa demandou muita responsabilidade, por isso convidamos pessoas que tinham grande conhecimento a respeito da cultura sul-coreana e fizemos muitas pesquisas, tanto através de trocas em reuniões, quanto através de contatos com o Centro Cultural Coreano e a Embaixada da Coreia, até mesmo para confirmar informações a fim de não pisarmos em falso. Sempre tivemos essa grande preocupação, mesmo em meio a dificuldade de conseguir informações concretas. E, sendo o único evento sobre cultura sul-coreana no Rio de Janeiro, o público sempre nos confirma o grande interesse existente em nosso estado na Onda Coreana e na cultura da Coreia do Sul. Então, pra gente é um prazer pesquisar e disponibilizar a essas pessoas mais conhecimentos sobre uma cultura que os fãs amam tanto.

Apresentação de Taekwondo pelo Grupo Crescer no Hallyu Rio. Crédito: Bruno Antonucci.

O público do Hallyu Rio muitas da vezes nunca vivenciou a cultura sul-coreana para além do entretenimento, já que, aqui no Brasil, para você experienciar uma parte da Coreia do Sul você precisa ir até São Paulo, onde há restaurantes e centros culturais, ou, para quem pode, ir para a própria Coreia. Por isso, o público do evento é carente e sedento por esses conteúdos. Então, a gente (eu, Monica Velozo e Sergio Menezes, criadores e produtores do evento) tenta trazer um pedacinho da Coreia do Sul especialmente através das vertentes que temos menos contato aqui no estado, como as roupas tradicionais (hanboks) e a culinária, já que aqui no Rio temos poucos restaurantes de comida coreana, até hoje são apenas dois e ficam localizados em locais distante e de acesso restrito para boa parte desse público.  

O Hallyu Rio já estaria em sua quarta edição presencial este ano se não tivesse acontecido a pandemia de COVID-19. Desde 2015, quando aconteceu o primeiro evento, quanto e como o evento e seu público mudaram? Existem também mudanças no reconhecimento e credibilidade do Hallyu Rio no cenário cultural do Rio de Janeiro?

DP: De 2015 a 2020 mudou bastante coisa. Aqui no Rio sempre tivemos uma grande dificuldade de encontrar espaços para eventos, especialmente os de K-pop, porque é comum as casas de show pedirem informações sobre o conteúdo do evento e a gente depende que eles confiem no potencial do evento dar certo. Além da questão da precificação, já que, quanto mais duvidoso o público de um evento é, mais caro pode ser o aluguel daquele espaço. Então, de 2015 pra cá, a gente conseguiu provar a força da Onda Coreana no Rio e do próprio evento Hallyu Rio, como o público é forte e crescente, então isso repercutiu junto às casas de show, facilitando que conseguíssemos espaços para a realização desses eventos. Tanto que, hoje, nós realizamos o Hallyu Rio em um dos maiores espaços culturais do Rio de Janeiro, que é o Imperator, uma casa completa em relação a espetáculos e isso foi graças ao portfólio do Hallyu Rio, que comprova grande crescimento de público. Nossa primeira edição contou com público de 500 pessoas, já a última, realizada em 2019, contou com mil. Nosso público dobrou, então precisamos de um espaço duas vezes maior para comportar todos esses fãs.

Covers e produção do Hallyu Rio 2019. Crédito: Bruno Antonucci.

E o público do evento muda sempre, é bastante cíclico, seguem as tendências do K-pop. Normalmente os fãs começam interessados apenas nos K-dramas e no K-pop, depois passam por um processo de amadurecimento para a expansão de seus interesses para todo o universo cultural da Coreia do Sul. Então, é comum um K-popper começar interessado apenas na música, mas com o aumento no interesse cultural, começar a assistir os programas televisivos, estudar o idioma, provar a culinária do país. Então, o Hallyu Rio acaba abraçando interessados na Onda Coreana que estão em diferentes estágios: desde os que estão aficionados apenas no K-pop, quanto aqueles que já estão mergulhados em todo o contexto da cultura sul-coreana que recebemos aqui no Brasil. Há muitas pessoas também que vão ao evento com o objetivo de aprender sobre como fazer intercâmbio estudantil na Coreia ou até mesmo como conseguir entrar no mercado de trabalho do país. Como o Hallyu Rio é um evento anual, a gente percebe como de um ano para o outro as tendências de interesse vão mudando e como a Onda Coreana está sempre conquistando novos adeptos, porque o público se renova, com novos rostos participando em cada edição.

Sobre a credibilidade do evento no cenário cultural do Rio de Janeiro, hoje é inegável o fato que os produtores de evento e as próprias casas de show já têm consciência da força do K-pop no nosso estado e em todo o país. Festas noturnas, por exemplo, atualmente buscam DJs especializados em música pop sul-coreana, porque sabem que existe essa demanda muito forte do público jovem. Sem dúvidas, o reconhecimento dessa cena e da força da Hallyu é bem expressiva e bem vista hoje em dia.  

Espaço no evento Hallyu Rio para provar a vestimenta tradicional coreana, o hanbok. Crédito: Bruno Antonucci.

Os concursos de cover de dança e canto são expoentes entre os fãs de K-pop no Rio de Janeiro, como se estrutura esse recorte de fãs por aqui? Os covers continuam sendo a grande base dos eventos de K-pop?

DP: O K-pop continua sendo a grande força da Onda Coreana e essa vertente carrega muita coisa com ela, como o estilo e as coreografias. Os fãs tentam interagir com o K-pop de todas as forças possíveis e a dança é a que mais os conecta com essa música. Além disso é uma arte, atraindo até mesmo pessoas de fora do fandom, que se atraem pela qualidade dessas coreografias e expressões. O que acaba, é claro, sendo um chamariz para a Onda Coreana. Os covers agregam muitos fãs brasileiros e até por isso que os concursos de cover nos eventos sobre cultura sul-coreana aqui no Rio acabam sendo pontos altos e importantes para o público.  

Você é coordenador da Escola de Coreano, como você tem percebido a demanda pelo idioma sul-coreano no estado?

DP: O interesse desses alunos começa normalmente pelo consumo de K-pop e K-dramas e a partir disso surge o interesse em estudar o idioma. A faixa etária abrange desde os mais jovens, com 13 anos, até os mais velhos, que na terceira idade se interessam nos dramas coreanos e querem aprender esse novo idioma. Em geral, os alunos mais jovens querem aprender o coreano para expandir seus conhecimentos para poder consumir melhor a Hallyu, até mesmo para tentar fazer um intercâmbio na Coreia do Sul ou tentar trabalhar em uma empresa sul-coreana no Brasil. A Onda Coreana intensificou o interesse pelo idioma no estado, sem dúvidas.

Os eventos de K-pop nos últimos anos têm se distanciado dos bairros da Zona Sul e se aproximado especialmente da Baixada Fluminense, Zona Norte e São Gonçalo. Como você enxerga esse deslocamento e o próprio consumo da Hallyu nesses espaços? Você acredita que o subúrbio é um espaço plural que abraçou o K-pop aqui no estado?

DP: Esse distanciamento da Zona Sul tem acontecido aqui no Rio de Janeiro de forma natural, uma vez que os eventos vão ao encontro dos fãs e suas demandas. Antes os eventos eram realizados em bairros mais “reconhecidos” no Rio de Janeiro, como os da Zona Sul, por uma simples falta de pesquisa sobre onde a maioria desses fãs se encontravam aqui na cidade. Então, com o levantamento desse público, percebemos que ele se encontrava no subúrbio do que na Zona Sul. Por esse motivo, os eventos começaram a se enraizar nesses espaços, que claramente abraçaram o K-pop no Rio de Janeiro.

Você acredita que o consumo carioca da cultura pop sul-coreana esteja se desligando dos espaços da cultura pop japonesa, como, por exemplo, os eventos de anime?

DP: O grande divisor de águas para o desligamento mais concreto entre os consumos cariocas de cultura pop sul-coreana e o de japonesa foi exatamente a criação do Hallyu Rio. Antes dele não existia nenhum grande evento de cultura pop sul-coreana que não fosse interligado à cultura pop japonesa, porque antes existia uma descrença dos produtores, e até mesmo do público, se um evento só de cultura pop sul-coreana se sustentaria aqui no Rio de Janeiro. O Hallyu Rio, então, veio para comprovar esse potencial e consolidou essa divisão. É claro que ainda existem vários outros eventos pelo estado que continuam mesclando esses dois universos, especialmente eventos de anime que possuem espaços especiais para a Hallyu, já que os produtores desses eventos percebem o potencial lucrativo dessa fusão. Contudo, hoje, os kpoppers cariocas não são mais dependentes desses espaços, já que o Hallyu Rio, o Meet Kpop e outros eventos de cultura sul-coreana são realizados periodicamente por aqui.

Quais serão os próximos passos para que a cena do K-pop no Rio de Janeiro possa se aproximar desse epicentro cultural no país, que é o estado de São Paulo? Existe diferença de apoios da embaixada e consulado da Coreia do Sul no Brasil em relação aos eventos de cultura sul-coreana no Rio de Janeiro em relação a outros estados?

DP: A diferença é enorme. Desde a primeira edição do Hallyu Rio, em 2015, que a gente busca contato e apoio com centros culturais do governo da Coreia aqui no Brasil, mas ainda é um processo muito difícil. Sem um órgão oficial da Coreia do Sul no Rio de Janeiro, fica difícil provar a eles a força do público carioca. É claro que já realizamos diferentes eventos ligados à Embaixada e ao Centro Cultural Coreano aqui, mas ainda não temos uma intermediação mais fixa para esses assuntos. Acredito que o Rio de Janeiro tem grande potencial de sediar espaços oficiais de cultura sul-coreana, assim como eventos de grande porte, o que falta é atenção desses órgãos. A verdade é que todos os outros estados, excetuando apenas São Paulo, passam pelos mesmos problemas que a gente. A cidade paulista recebe a grande parte e atenção desses eventos oficiais por causa da concentração de coreanos-brasileiros no estado e dos próprios espaços culturais especializados em Coreia do Sul, assim como Brasília, que também tem destaque, uma vez que a embaixada da Coreia do Sul se encontra lá. Os outros estados, como o Rio de Janeiro, ficam à mercê dos produtores locais, que dependem de conquistar reconhecimento a fim de serem ouvidos por essas organizações coreanas aqui no país. Então, os próximos passos estão em fortalecer a comunidade carioca para apresentar ao resto do país o potencial do Rio de Janeiro como um polo de consumo da Hallyu, só assim a gente poderá criar um espaço deslocado de São Paulo.

Encontro Kpop realizado pelo Meet Kpop e pelo Shopping Nova América em 2019. Crédito: Meet Kpop.

Fãs de K-POP: uma diversificada, subestimada e poderosa força

Por Yim Hyun Su (Texto Original Korea Herald, tradução Koreapost)

Quem são os fãs de K-POP? É uma pergunta que muitas pessoas não se preocuparam em fazer até recentemente.

Mas isso parece estar mudando na sequência dos protestos do Black Lives Matter em todo o mundo: os fãs de K-pop inundaram o aplicativo iWatch Dallas do Departamento de Polícia de Dallas com fancams e assumiram a hashtag #WhiteLivesMatter no Twitter com mensagens anti-racistas. Os fãs do BTS levantaram US$ 1 milhão em pouco mais de um dia para organizações que ajudam pessoas negras.

O ator e escritor norte-americano Jordan Peele disse que “ama #kpopstans” em um tweet; o lutador profissional John Cena elogiou o BTS e seus fãs, e a mídia cobriu a notícia extensivamente.

De acordo com Michelle Cho, uma estudiosa de mídia da Universidade de Toronto, os fãs de K-pop são “diversos, socialmente progressistas e conhecedores de mídia social”.

Crédito: The Korea Herald/Koreapost.

“Eu participei da KCON algumas vezes até agora e quando você olha quem participa de convenções de fãs de K-pop, quem publica vídeos de reação, quem se torna visível entre os  fãs, você vê, pelo menos na América do Norte, que essas pessoas são predominantemente, pessoas negras”, ela disse.

Embora o K-pop não seja visto como progressivo em seu país, onde faz parte da cultura comercial convencional, Cho diz que em outros lugares – em lugares como a América do Norte e a América Latina – permanece subcultural.

“Você precisa ter um certo interesse em outras culturas e a disposição de dedicar tempo para encontrar informações sobre essa cultura, procurando traduções e maneiras de acessar toda essa subcultura que exige muito conhecimento sobre mídias”, disse ela.

O fandom também inclui um número considerável de seguidores LGBT, mas isso requer uma explicação mais sutil, dada a falta de representação LGBT na cena musical – com exceção do primeiro artista de K-pop abertamente gay, Holland.

Crédito: Quora.

“A relativa segurança que os fãs LGBTQ podem sentir dentro de um espaço de fãs para artistas pop asiáticos tem a ver com uma falta percebida de heteronormatividade agressiva” – que, ela também aponta, pode ser “baseada em visões racistas estereotipadas”.

Apesar da composição diversificada e global dos fãs, eles rapidamente se reúnem quando se trata de alcançar um objetivo coletivo e isso vem da prática.

“Os fãs de K-pop, por meio do K-pop, aprendem muitas ferramentas políticas valiosas – aprendendo sobre a organização de causas”, disse CedarBough Saeji, estudiosa da cultura coreana contemporânea. “E pode ser algo gratuito, como ir ao site do iHeartRADIO e dizer ‘Eu quero que você toque essa e aquela música’ ou você pode se organizar em torno de uma causa e, como no caso mais recente, pode exigir doações”.

Ela diz que é uma forma de aprender a formar um bloco de poder.

“Eu acho que esses jovens que estão aprendendo hoje como usar os serviços de rede social para fazer tantas coisas em termos de organização serão uma força política muito significativa na próxima década, mais ou menos porque sabem como se organizar, como alcançar uns aos outros, estabelecem metas e as realizam, e muita coisa está acontecendo sem uma única pessoa ou líder abrangente que está sendo pago para organizar.”

“No futuro, eles poderão se reunir para alcançar objetivos, por exemplo, como aprovação ao casamento gay”, disse ela.

O OneInAnARMY, por exemplo, um grupo on-line que liderou a campanha #MatchAMillion após a doação de US$ 1 milhão do BTS, possui uma rede de fãs de diferentes países com vários papéis, desde pesquisa e mídia social à design gráfico, com muitos voluntários fazendo trabalhos de tradução.

Lee Gyu-tag, professor de estudos culturais da Universidade George Mason, ressalta que o apoio que o fandom galvanizou para o Black Lives Matter nas últimas semanas é a posição mais política que já tomaram.

“Embora tenhamos tido casos como quando o BTS lançou a campanha ‘Love Myself’ com o UNICEF e soubemos que fãs e músicos de K-pop podem fazer algo, este é o primeiro momento em que testemunhamos que os fãs de K-pop pode projetar um movimento social com um propósito político ”, afirmou.

Embora RM do BTS tenha abordado questões como brutalidade policial em “Change”, sua faixa de 2017 com o rapper Wale, o K-pop como um todo permaneceu em grande parte apolítico, especialmente em comparação com seus fãs, principalmente na esperança de permanecer politicamente neutro para ser aceito por um público mais amplo.

Mas mesmo isso pode mudar em breve, à medida que o setor se encontra cada vez mais sob os holofotes globais.

“É uma situação irônica para o K-pop. Em seu mercado doméstico, é a música principal e se distancia da política, mas fora da Coreia, talvez seja necessário adotar uma postura política diferente ”, disse Lee.

Crystal S. Anderson, parte do corpo docente afiliado da Universidade George Mason, que lançará seu livro “Soul in Seoul: Música Popular Afro-Americana e K-pop” em setembro, concorda.

“Essas conversas continuarão porque o K-pop não está separado do mundo em geral, onde esses problemas ainda persistem”, disse ela.

K-POP no despertar do Black Lives Matter

Quando os protestos do Black Lives Matter começaram a se espalhar e alguns artistas de K-pop e de hip-hop coreano inicialmente mostraram apoio, houve um debate acalorado sobre se outros deveriam seguir o exemplo. A conversa, no entanto, deixou muitos fãs negros se sentindo frustrados, especialmente devido ao impacto que a música negra teve no K-pop.

“Os fãs negros frequentemente pedem que outros fãs aprendam mais sobre a cultura negra, mas acho que todos os fãs se beneficiaram com isso”, disse Anderson.

Embora muitas vezes as pessoas pensem em gêneros como hip-hop e R&B como música negra, também é o caso de outros gêneros de música popular, como rock e house, além da coreografia sofisticada encontrada no K-pop – o que, ela explica, deve muito aos grupos da Motown dos anos 60.

Crédito:  The Korea Herald/CL’s Instagram.

Em um post recente no Instagram, a cantora CL reconheceu o impacto da cultura negra.

“Artistas, diretores, escritores, dançarinos, designers, produtores, estilistas da indústria do K-pop são todos inspirados pela cultura negra, quer reconheçam ou não”, escreveu ela.

Como as mídias sociais geralmente amplificam as vozes mais altas, porém, muitas vezes não baseadas em informações corretas, Anderson quer ver mudanças no debate online, que ela diz que simplifica demais tanto a música popular K-pop quanto a negra.

“Uma coisa que poderia ajudar é se todo mundo se tornasse um pouco mais experiente e usasse um pouco mais de contexto quando falamos sobre K-pop, mesmo quando ocorrem eventos raciais”, alertou ela.

BTS, Monsta X e Ateez estão entre os grupos que apoiaram abertamente o movimento Black Lives Matter, mas o BTS liderou o comando com sua doação de US$ 1 milhão.

“Se o BTS tivesse entrado imediatamente e feito uma declaração antes que houvesse alguma conversa no fandom, pareceria vazio e performativo”, disse o professor Cho, chamando a resposta do grupo de conveniente e atenciosa.

Mas Saeji argumenta que é importante permitir que os ídolos escolham os tópicos sobre os quais eles irão falar.

“No início de suas carreiras, o BTS foi acusado de apropriação cultural e, na minha observação, eles trabalharam muito para se educar sobre a história do hip-hop e é por isso que falaram sobre o Black Lives Matter. Alguns ídolos podem não ter feito esse trabalho em segundo plano, mas o BTS fez isso há mais de cinco anos, por isso estava se manifestando naturalmente. Acho que não podemos esperar que todo artista tenha uma opinião sobre esse assunto “, disse ela.

O professor Lee está olhando pelo lado positivo.

“Existem fãs afro-americanos, hispânicos, brancos, asiáticos e do Oriente Médio no K-pop, então o conflito entre os fãs pode e vai acontecer”, disse ele.

Mas, embora reconheça problemas como apropriação cultural e etnocentrismo no K-pop, Lee diz que não acha que tudo isso é negativo para o futuro do K-pop.

“Os músicos ou a indústria de K-pop não estão realmente familiarizados com esse tipo de situação, porque costumava ser música apenas para os locais. Mas quando os fãs estão tendo conflitos ou discussões abertamente, haverá uma possibilidade de o K-pop ser mais internacionalizado e diversificado racialmente e etnicamente.”