An – O sabor da vida: Tudo neste mundo tem algo a nos contar, basta que estejamos dispostos a ouvir

Por Edylene Daniel Severiano

“Acredito que tudo neste mundo tem uma história para contar (…).” “Tentamos viver nossas vidas de forma irrepreensível, mas, às vezes somos esmagados pela ignorância do mundo.” Tokue

Não estivesse datado de 2015, o premiado filme nipo-franco-alemão, de roteiro de Tetsuya Akikawa e Naomi Kawase, trazido à vida no ecrã pelo habilidoso e sutil olhar de Kawase, An (Sabor da Vida), poderia ser datado de um futuro próximo, inspirado nas vicissitudes de nossos dias, agora mais longos pela incerteza que nos atravessa, melhor, inspirado na ausência que nos trouxe ao aqui-agora: a inapetência da escuta que nos atropela por todos os lados numa avalanche de ignorância. Nossa ignorância, nossa incapacidade de ouvir o mundo.

Baseado no romance homônimo de Durian Sukegawa, An oferece uma ode às relações familiares e à natureza, numa trama centrada nas histórias de três personagens: uma mulher idosa, um homem de meia idade e uma estudante. Um filme de cores e fotografias suaves, em que o signo que se afirma preponderante é o som, assim se inicia a película, com os sons estridentes das coisas no mundo: trem, vozes de transeuntes, arrastar de pés; mas no profundo quase silêncio de duas das personagens principais, a tímida Wakana e o introspectivo Sentarô.

Interpretada por Kyara Uchida, a adolescente Wakana se mostra deslocada no mundo, presa a uma relação distante com sua mãe, que não a estimula a continuar os estudos, e isolada dos colegas de escola. Seu centro de interação é a pequena loja de dorayaki onde Sentarô trabalha sozinho, para onde ela vai, faz um lanche e recebe dele as sobras de massa que “não deram certo”. O silêncio da jovem faz-se gritante pelo contraste com outras jovens na loja, efusivas, contentes, brincando entre si e até com Sentarô, enquanto Wakana apenas se limita a saudações e agradecimentos. Mesmo em casa, sua mãe e seu canário, Marvy, emitem mais sons do que a jovem. É sabido que a fala é uma expressão da dobra com a ausculta, elaborada por meio do silêncio, e é neste que Wakana está contida, sem conseguir fazer-se ouvir.

Crédito: IMDB, 2020

Como um contínuo dessa inércia está Sentarô, interpretado por Masatoshi Nagase, um homem na casa dos 40 anos que se dedica a uma pequena loja de dorayaki, sem ao menos gostar de doces. Indiferente aos clientes, em sua maioria jovens estudantes descontraídas, passa seus dias entre a pequena loja, seus cigarros e seu apartamento, inerte a todos, todos os sons ao redor, silente como Wakana. Uma das cenas iniciais do filme traz Sentarô arrastando os pés até o terraço de seu prédio, indo fumar antes de mais um dia de trabalho. O som de seu arrastar de pés revela o mais profundo que há no seu ser: o vazio. Como pacientes, ambos, Sentarô e Wakana, parecem esperar a aparição de Tokue para propagar e dar sentido às suas vidas.

Interpretada pela talentosa Kirin Kiki, logo nas primeiras cenas uma pequena e frágil senhora que conversa com as árvores, o Sol, a Lua, Tokue, que está em mais um de seus passeios, aparece na loja de dorayaki e indaga Sentarô quanto à cerejeira plantada em frente à loja. Ele se limita a responder que não era dali. A frágil senhora, então, mostra-seinteressada na oferta de trabalho que constava no letreiro em frente à loja, e, após, trocar algumas palavras com o doceiro, esse lhe pergunta sua idade e se surpreende, já que o trabalho seria pesado para uma senhora de 76 anos. Tokue insiste e pede para o futuro chefe pensar. Ele, não muito receptivo, oferece-lhe um dorayaki. Tokue se despede, agradece e parte, não sem antes cumprimentar a cerejeira. Wakana, que observava a cena, pergunta se, caso ele não contratasse Tokue, ela poderia trabalhar como sua ajudante. Sentarô menciona a escola e a menina afirma que a abandonará.

Essa cena inusitada poderia ser mais uma, mas é o mote para a narrativa de Kawase se desenvolver. Passados alguns dias, Tokue retorna à loja reiterando seu pedido de trabalho. Diante da negativa de Sentarô, comenta que provou o dorayaki e que a massa até estava boa, mas a pasta de feijão doce (an) não, deixando assim a an, que ela mesma preparara, para o doceiro experimentar. Sentarô, no fim do expediente, olha para o pote de doce e o joga no lixo, mas em um ímpeto recolhe e resolve experimentar. Nesse momento seu mundo se abre. A an, pasta de feijão azuki adocicada, que dá nome ao filme, era saborosa. Dias depois quando Tokue retorna, ele a contrata e tem início uma jornada pelo sabor do An, pelo sabor da vida. Tokue ensina as minúcias do preparo, que começa antes do raiar do “Senhor Sol” e exige horas de paciente escuta e apreciação. Em pouco tempo o dorayaki feito por eles fica famoso e cada vez mais clientes vêm à loja.

Crédito: IMDB, 2020

O tempo passa, as estações passam e tudo parece transcorrer bem, até que a proprietária aparece e exige que o doceiro demita sua ajudante. Tokue tinha as mãos defeituosas, sequela da lepra que a acometera ainda na adolescência. Apesar da insistência, fraca, de Sentarô, sua chefe afirma que, se as pessoas souberem, deixarão de frequentar a loja. Emerge assim uma face da sociedade japonesa a que o público mais geral está pouco afeito, a face da exclusão e do preconceito. O doceiro, sem coragem de demitir Tokue, que afirmava já estar curada, e estava, vê com o passar do tempo o estabelecimento se esvaziar. Não importava que Tokue estivesse curada, o medo e o estigma falaram mais alto. E um dia a frágil e determinada senhorinha não mais retorna.

No decorrer dos dias da ausência da doce Tokue, inconformado com a situação, Sentarô entrega-se à desolação. Até que um dia sua ajudante quebra o silêncio ao lhe escrever uma carta expressando o quanto era grata por ter estado ao lado dele e por ter novamente podido preparar a an, afinal esse tinha sido seu trabalho por 50 anos. Suas palavras, doces e suaves, como a pasta que fazia, tocam o coração de Sentarô: “Acredito que tudo neste mundo tem uma história para contar (…)”. Assim Tokue conta como ouvia os feijões, suas histórias desde os campos até a panela, acolhia-os com sua suavidade e os adoçava com ternura e paciência, respeitando seu tempo de preparo.

Ao lado de Wakana, Sentarô parte em busca de Tokue. O local é uma antiga área de isolamento de pessoas com hanseníase. A chegada até lá tem um quê de viagem bucólica, há uma pequena floresta e depois dela uma Tokue mais frágil e debilitada, que conta como chegara até ali, ainda muito jovem, e nunca mais vira sua mãe, tampouco pôde ter seu filho. Os laços de cuidado e afeto, até então discretos, evidenciam-se: uma mãe sem seu filho, um filho sem sua mãe e uma criança sem cuidados, assim estavam Tokue, Sentarô e Wakana antes de ouvirem juntos os feijões azuki. Sentarô, num gesto confessional, escreve uma carta a Tokue revelando porquê emudecera diante do mundo:  ao apartar uma briga acabou ferindo alguém e por isso ficara preso por três anos. Nesse ínterim, sua mãe veio a falecer e ele não pode mais ouvir o que ela tinha para contar, suas histórias: emudecera diante do silêncio. E intentando entregá-la guarda-a.

Crédito: IMDB, 2020

O doceiro, motivado pelas palavras de sua ajudante, retoma o trabalho, dedicando-se a fazer a an e com a ajuda de Wakana vê seu trabalho com entusiasmo, quando mais um empurrão os silencia: a proprietária tem planos de modernização da loja e impõe um novo ajudante, que virá a ser chefe de Sentarô. Desnorteados Sêntaro e Wakana partem de novo em busca de Tokue, mas são informados por Yoshiko, sua amiga do asilo, de que ela falecera. Ela, porém, lega a Sentarô seus instrumentos de cozinha e a Wakana um pedido de desculpas por não ter podido cuidar de Marvy, não pudera mantê-lo preso. Yoshiko conta-lhes, ainda, que, como eles não podem ser sepultados, é plantada uma árvore quando um deles falece e os leva à árvore de Tokue, uma cerejeira, em meio a uma pequena floresta, uma pequena floresta capaz de falar a quem quiser ouvir.

Kawase, assim, oferece ao espectador uma reflexão sobre as relações familiares e a natureza, e como essas entrelaçam-se pelas falas e auscultas, lembrando que todos têm algo a oferecer, não importando a idade. Não há seres descartáveis, o que deve ser isolado é o medo do diferente. Mais do que os feijões, Tokue se dedicava a ouvir o mundo, a ouvir o som, a voz, as narrativas que as pequenas coisas têm para contar, as minúcias daquilo que compõe o cotidiano. Impedida de ouvir seus entes queridos, restou a Tokue aprender a ouvir a natureza, os sentidos e sentimentos que essa expressa, inclusive os alimentos. A natureza, então, é o que passa a atá-la ao mundo. Kawase dá forma a uma pequena família, cujos membros conseguem se conectar a partir da escuta da natureza: Tokue que aprendera a ouvir o mundo, como mãe e avó, dedica-se a ensinar essa escuta motivadora da presença, do estar, da agência no mundo, da fala. Sentarô encontra a voz perdida de uma mãe a acolher seu filho e prepará-lo para o mundo. E  Wakana, que não conseguia ser ouvida por sua mãe, recebe de Tokue e Senterô o incentivo para encarar a vida. Desse modo, ela lega aos dois o aprendizado de ouvirem as vozes do mundo, da natureza, para que assim, ecoem e falem. Numa prática das ideias para adiar o fim do mundo, Tokue adia o fim de dois mundos, dos sonhos de Sentarô e Wakana. “Não há inverno que não seja seguido da primavera”, diz um provérbio japonês. Como tal, Sentarô e Wakana veem florescer suas vidas, ela seguindo seu sonho de estudar e ele finalmente deixando a doçura do dorayaki guiar sua vida.

O que faz do filme de Kawase um diálogo contemporâneo, pois, mais do que nunca, mas tanto quanto antes, todas as formas de humanidades são convocadas a ouvir o que as coisas do mundo têm a dizer, como afirma Tokue: “Viemos a este mundo para vê-lo e ouvi-lo” (tradução livre da autora).

Crédito: IMDB, 2020

Ficha técnica:

País: Japão; França; Alemanha | Direção: Naomi Kawase | Roteiro: Durian Sukegawa (livro), Tetsuya Akikawa, Naomi Kawase | Elenco: Kirin Kiki, Masatoshi Nagase, Kyara Uchida | Duração: 113 min | Ano: 2015.

High Score Girl I: um anime sobre videogames e amadurecimento

Por Mayara Araujo

Baseado no mangá de Rensuke Oshikiri, publicado pela desenvolvedora de jogos Square Enix em parceria com a revista Monthly Big Gangan, o animê High Score Girl hoje conta com duas temporadas completas e três episódios em OVA, foi produzido pela J.C.Staff e Shogakukan Music & Digital Entertainment durante os anos de 2018 e 2019. Os direitos de distribuição foram adquiridos pela plataforma de streaming Netflix, que colaborou para difundir internacionalmente esse animê do gênero seinen (voltado para um público predominantemente adulto e masculino). Embora o design dos personagens animados não seja particularmente apelativo para todos os gostos, o animê surpreende pela sensibilidade com que trata questões sobre amadurecimento em congruência com uma série de metáforas inspiradas em jogos clássicos de videogames e fliperamas.

A história retoma a década de 1990 em um saudosismo e tom nostálgico de um Japão que vivenciada o boom dos das lojas de jogos e fliperamas que, por sinal, continuam sendo um ambiente bastante popular até os dias de hoje. Repleto de referência aos clássicos jogos de luta, como Street Fighter e The King of Fighters, acompanhamos a jornada de nosso jovem protagonista Yaguchi Haruo (Kohei Amazaki), um ávido gamer que ainda frequentava o ensino fundamental e possuía como rotina sair da escola e passar em lojas de jogos para ampliar as suas habilidades. O que ele não esperava, no entanto, era ser humilhantemente derrotado no Street Fighter II enquanto utilizava táticas secretas para garantir sua vitória, por uma misteriosa menina cujo rosto e nome ainda se faziam desconhecidos para Haruo.

Ono Akira (Sayumi Suzushiro), por sua vez, é descendente de um zaibatsu (conglomerados industriais) e se comporta justamente da forma oposta à Haruo. Vinda de uma família rica, extremamente controladora e rígida, ela encontra seu subterfúgio nos fliperamas, nas raras oportunidade nas quais consegue fugir de casa e se distrair. Em uma dessas escapadas, Akira acaba duelando com Haruo que dificulta a sua vitória ao se valer das supracitadas técnicas secretas. Com isso, uma história de rivalidade e amizade tem início e acaba se transformando em uma intensa relação de amor e ódio entre as duas crianças.

Fonte: interprete.me

Sem nunca abandonar a rivalidade nos jogos, Haruo e Akira se tornam gradativamente mais participativos um na vida do outro, compreendendo seus dilemas e problemas familiares. No entanto, essa relação ainda incipiente de afeto entre os dois personagens acaba por ter uma interrupção abrupta, quando Haruo descobre que a família de Akira a enviará para estudar no exterior. Infelizes com o afastamento repentino, Haruo começa a aprender a lidar com seus sentimentos juvenis ao correr para o aeroporto para se despedir de sua maior rival – e primeiro amor. Como um gesto de afeto e respeito, Haruo entrega um anel obtido em gacha gacha – um tipo de máquina de venda automática muito populares no Japão, nas quais se oferece pequenas action figures e outros objetos pegos na sorte – para Akira levar de lembrança dos momentos que compartilharam juntos. 

Ainda no Japão, anos depois, Haruo estabelece como meta de vida treinar bastante nos fliperamas para que no dia em que Akira retornasse, ele estivesse preparado para derrotá-la. Entretanto, o que Haruo não esperava era encontrar nessa jornada solitária uma companhia que viria a deixar os seus dias turbulentos no decorrer de sua juventude. Uma colega de classe tímida e introvertida também se torna interessada pelos famosos jogos de fliperama ao observar rotineiramente a afeição que Haruo sente pelos arcades. Inicialmente sem se arriscar a jogar, Hidaka Koharu (Yuki Hirose) vivencia empolgação da competição através dos olhos de Haruo, que acaba a convidando para compartilhar da experiência. Assim como Akira, Hidaka tem um talento natural para os jogos e desenvolve as suas habilidades progressiva e rapidamente. Não é uma surpresa, portanto, que Haruo passe a prestar mais atenção nessa nova amizade e, consequentemente, nessa nova rivalidade.

Enquanto Haruo enxerga Hidaka meramente como uma parceira de jogos e uma desafiante em potencial, Hidaka passa a nutrir sentimentos mais complexos em relação à Haruo. Conforme o tempo passa, ela vai se dando conta de que seus sentimentos de raiva e frustração que são paulatinamente transpostos através de suas vitórias agressivas nos jogos, são decorrentes de uma emoção ainda desconhecida em seu vocabulário. Com medo de nomeá-lo, Hidaka em um primeiro momento reprime os seus sentimentos na medida em que percebe que Haruo não têm acompanhado o mesmo timing de maturidade do que ela. Entretanto, quando em uma viagem escolar um rosto conhecido retorna à cena, Hidaka percebe que sua rivalidade com Haruo em nada significa perto do que está por vir. Ao perceber que Haruo nutre sentimentos por uma misteriosa garota de cabelo roxo, ela percebe que precisa agir.

Fonte: Jbox

No ensino médio, nossos protagonistas desfrutam de um novo ambiente escolar, agora separados. Nesse sentido, o lugar propício para reencontros e o desabrochar de suas emoções fica restrito às lojas de fliperamas. Aqui, pela primeira vez, Hidaka e Akira se encontram oficialmente e se apresentam apropriadamente. Também é a primeira vez que as duas têm a possibilidade de duelar juntas em diversos jogos da loja de arcade. Hidaka não perde a oportunidade de indaga Akira sobre os sentimentos dela sobre Haruo. No entanto, como de costume, o silêncio de Akira é a resposta. Ao mesmo tempo, suas manobras nos jogos se tornam mais agressivas e violentas, deixando claro a rivalidade amorosa entre as duas, e derrotando ferozmente Hidaka. Nesse sentido, as palavras se tornam insignificante e os jogos se tornam responsáveis por transmitir, uma para a outra, os seus pensamentos. 

A vida de Akira, no entanto, se torna mais dura e mais difícil no decorrer dos episódios. Os métodos educacionais caseiros nos quais ela se encontra vão se tornando mais rígidos na medida em que ela foge para apreciar os jogos no fliperama, o que a leva a fugir para outra cidade. Haruo, então, corre desesperadamente atrás de sua principal rival e primeiro amor. Ao saber dos últimos eventos, Hidaka, por sua vez, percebe que é hora de agir e deixar suas próprias palavras expressarem os seus sentimentos, para além dos personagens dos jogos. A temporada encerra, por fim, com o lançamento do playstation I e a sua declaração de amor.

Paralelamente ao amadurecer físico e emocional, o animê se debruça sobre o lançamento de grandes ícones do mundo dos jogos, retratando a excitação da juventude da época ao se deparar com novos jogos e com as versões mais atualizadas dos melhores. Há de se ressaltar aqui a fidelidade com que o animê trata os gráficos da época e a evolução dos mesmos. Além dos supracitados títulos, o animê também conta com a aparição de jogos populares como Mortal Kombat, Samurai Shodown, Space Invaders, Final Fight, dentre outros. Assim, alguns dos personagens desses títulos aparecem recorrentemente como parte da história do animê, através de uma metalinguagem na qual os vídeo-games ajudam aos protagonistas a entenderem os seus próprios sentimentos. Trazendo, por fim, uma nova camada de complexidade para os próprios personagens do universo gamer.

Fonte: manualdosgames.com

A primeira temporada de High Score Girl é uma grata surpresa do catálogo da Netflix brasileira. Com um tom divertido e nostálgico, o animê nos teletransporta de volta para a década de 1990 de uma realidade nem tão semelhante a da juventude brasileira, mas que consegue dialogar perfeitamente com os fãs de jogos da época, através de uma série de referências que aquece e saúda os nossos corações de jogadores ao mesmo tempo em que nos remete aos percalços de nossos primeiros amores e trajetos de amadurecimento individual. 

Ficha técnica:

País: Japão | Direção: Yoshiki Yamakawa | Roteiro: Tatsuhiko Urahata | Dubladores: Kohei Amazaki, Sayumi Suzushiro e Yuki Hirose | Emissoras: TokyoMX, MBS, BS11 | Episódios: 12  Ano: 2018. 

Vozes de Hiroshima

Por Mateus Nascimento

Inicialmente, gostaria de sugerir aqui que quando memória e discurso se fundem ao engajamento, nasce o testemunho – que, no nosso caso, é esse ato (estilo de vida) de contar para que não se repita. Primo Levi (1919-1987) caminhou nessa direção, narrando a sua experiência em Auschwitz; há inúmeras versões do diário de Anne Frank (1929-1945), e até alguns teóricos atualmente conhecidos que escreveram ou na cadeia ou em fuga do terror nazista (Erwin Panofsky, produzindo em história da arte, por exemplo). Também há variados livros que tratam do nazismo e seu funcionamento.

O expansionismo, o holocausto, a violência política, as batalhas… Tudo isso já é de conhecimento do público amplo. Poderíamos ainda lembrar dos extermínios, da loucura nazista, dos campos de concentração, da inauguração dos fronts asiáticos, dos crimes de guerra cometidos por tantos dos países envolvidos… Muitos dados traumáticos para uma humanidade que conhecia no séc. XX um dos maiores desenvolvimentos técnico-científicos, os quais foram utilizados nesse evento de maneira traumática.

No entanto, o que poderíamos utilizar cientificamente para divergir desse quadro mais conhecido? Primeiramente, é necessário assumir que a pesquisa é uma militância, na qual os pesquisadores assumem como objetivo influenciar o meio que vivem e a humanidade com suas comprovações e explicações. Isso se chama engajamento. Segundamente, com relação ao tema específico da Segunda Guerra Mundial é possível encontrar nestas memórias e discursos ricos,  dados e conceitos possivelmente analisáveis para uma crítica qualificada. Às vezes podem ser encontradas direções inéditas que dão novo fôlego a pesquisa e a reflexão.

Me refiro a trajetória dos Sobreviventes de Hiroshima, após a bomba. Sim, homens e mulheres que testemunharam o horror daquele dia – 6 de agosto – e apesar de todo o sentimento que poderia brotar, decidiram viver militando pela paz, alertando ao mundo sobre os horrores da guerra em tempos tão conturbados.

Junko Watanabe, 76 anos. Takashi Morita, 96 anos. Kunihiko Bonkohara, 78 anos.
Créditos: divulgação do projeto Sobreviventes pela Paz

Eis, os três são sobreviventes de Hiroshima. Seus testemunhos daquele contexto se encontram no livro organizado por Cristiane Izumi e Paulo Endo, os quais tendo a psicologia como campo de especialização, organizaram um evento sobre Hiroshima e Nagasaki no Instituto de Psicologia da USP em setembro de 2012. Deste encontro, nasceu o livro Hiroshima e Nagasaki: testemunho, inscrição e memória das catástrofes. Takashi Morita, por sua vez, tem seu testemunho publicado em livro a parte, A última mensagem de Hiroshima: o que vi e como sobrevivi à bomba atômica, lançado em 2017…

Capa do livro Hiroshima e Nagasaki. Créditos: foto do autor.

O primeiro livro conta com artigos de variados autores, com destaque para os textos de Ecléa Bosi e Sedi Hirano que apresentam um rico panorama dos fatos e uma análise tanto da guerra quanto das implicações dela partindo da metodologia da psicologia social para se compreender essa inscrição da memória tanto individual quanto coletiva das catástrofes. O conceito remete a psicanálise, aquele exercício de interpretação dos simbolismos e suas aparições subjetivas, que afetam o social e a socialização. Não possui só artigos, também está recheado com os testemunhos transcritos dos idosos e alguns de seus desenhos, criados como um escape ao que viam – ricos materiais para um estudo de arte que seria inédito, o testemunho em desenho.

Foto: Pessoas queimadas vagando em meio a Hiroshima em chamas. Desenho do senhor Takashi Morita, que autografou o exemplar do autor em agosto de 2018. Créditos: foto do autor.

Quanto ao livro dedicado ao testemunho do senhor Morita, parece-nos que Hiroshima se faz como uma cidade completamente incendiada, com pessoas carbonizadas, feridas em pústulas vivas, e os cadáveres quase informes, todos protestando silenciosamente contra a guerra. Ficamos sabendo de todo o dia 6, desde antes do bombardeio até as medidas adotadas pelo governo japonês que se encontrava prostrado.

Vemos isso através de sua palavras vívidas que se insurgem contra a guerra. De fato os eventos que acontecem entre 1939 e 1945 mexem com o mundo todo e alguns dos acontecimentos ainda encontram espaço na memória popular. Trata-se de um dos momentos mais importantes da história da humanidade: a Segunda Guerra Mundial.

Capa do Livro com o testemunho do senhor Takashi Morita. Crédito: foto do autor.

Talvez, voltar os ouvidos para a paz e para os seus defensores seja um caminho para refletirmos e mudarmos a direção em tempos pandêmicos em que a humanidade encontra-se mais uma vez contestada e poderosos roubam insumos entre si. Pela vida, pela paz: Hiroshima nunca mais.

Rogério Nagai, diretor e idealizador do “Sobreviventes pela paz” fala sobre o projeto exclusivamente para o MidiÁsia.

Ficha técnica:  
Título: Hiroshima e Nagasaki: testemunho, inscrição e memória das catástrofes.
Organizadores: Cristina izumi e Paulo Endo
Editora: Benjamin Editorial
Ano: 2015.

Ficha técnica:  
Título: A última mensagem de Hiroshima: o que vi e como sobrevivi à bomba atômica.
Autores: Takashi Morita
Editora: Universo dos livros
Ano: 2017

O Japão desde o Brasil: O próximo e o distante de Renato Ortiz

Por Mateus Nascimento

O próximo e o distante: Japão e modernidade-mundo, escrito por Renato Ortiz, inova ao propor uma espécie de explicação sociológica da aventura da modernidade para além dos referenciais eurocentrados que conhecemos, tendo como objeto heurístico o Japão e a sociedade japonesa.

O livro foi publicado no ano 2000 (editora Brasiliense) e é fruto da elaboração teórica deste autor que desejou problematizar a modernidade e a leitura tradicional que se faz sobre ela. Muitos pesquisadores mais clássicos a pensam como um programa que se expande de um centro europeu para o restante do mundo.

Capa do livro. Créditos: foto do autor.

Por sua vez, Ortiz, após uma estada de aproximadamente 3 meses no Japão, visitando bibliotecas e espaços culturais consagrados em Tóquio, mergulha na história e na cultura dos hábitos para refletir sobre os marcos da modernidade para além das origens europeias do programa, partindo de uma análise das especificidades do trato social japonês.

O estudo dos temas sociais como gosto, modos e cultura tradicional que são pontuados no livro como integrantes da constelação de símbolos do Japão, revela uma concordância (não explícita) de Ortiz com o conceito de intuição poética de Roger Bastide, que dizia que a sociologia só poderia ser renovada e útil se se detivesse no estudo do imaginário do poder e da cultura – as imagens e formas sociais do discurso institucional sobre a tradição – e o inconsciente coletivo, os quais são usados para se compreender sociologicamente um todo articulado de relações e ações. 

Nesse sentido, o trabalho pioneiro de Ortiz se utiliza da história japonesa como a base para compreender a relação da modernidade com a modernização não só no campo econômico, mas também, e sobretudo, no campo cultural. Sociólogo de formação, busca uma explicação da realidade japonesa, e como ele mesmo diz, a toma como “um espaço possível para a leitura do movimento de mundialização da cultura”.

Seu conceito de mundialização é importantíssimo, pois significa a compreensão dos novos alcances da esfera cultural, que se tornou um poder na era das relações globalizadas. A própria questão da identidade como construção segue a lógica dessa sociedade global, na qual existe um fluxo (e, eventualmente, contrafluxos, não-hegemônicos) que atravessa essa construção em si. A partir dessas relações sociais planetárias forma-se um conjunto articulado de comunicação que vai influenciar as formações identitárias e vice-versa.

Aplicando tal perspectiva, o autor comprova a existência de uma manifestação da globalização nas formas pelas quais os hábitos sociais acontecem. Ele se refere aos mesmos hábitos antes de 1868 e após 1945, momentos em que o Japão se encontrou com países-potências. Através desses contatos é possível ver mudanças na realidade japonesa orientadas pela preocupação com o restante do mundo ao mesmo tempo que a permanência de elementos tradicionais no espaço público no séc. XIX e  uma mudança das relações de força, quando o Japão assume o campo da exportação da cultura pop no séc. XX e XXI. Para Ortiz, são movimentos de mundialização da cultura japonesa.

A aplicabilidade do conceito se materializa quando, por exemplo, pensamos o período Meiji, momento crucial para a política japonesa: ali nascia um Japão que precisava se modernizar e se atualizar de acordo com as práticas institucionais existentes no jogo das relações entre potências. Portanto, se pensarmos sobre as continuidades desde o período Meiji até a novíssima era Reiwa – a contemporaneidade – em que o Japão se renova na cena pública global, a leitura de Ortiz é indispensável.   

Ficha técnica:  
Título: O próximo e o distante: Japão e modernidade-mundo.
Autor: Renato Ortiz.
Editora: Brasiliense.
Ano: 2000.  

Revista Intertelas entrevista Mayara Araujo, pesquisadora do MidiÁsia

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas)

Nesta entrevista concedida à Revista Intertelas, nossa pesquisadora Mayara Araujo, também doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (PPGCOM-UFF) e Mestre em Comunicação e Cultura pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro analisa a produção audiovisual japonesa e, em específico, o impacto e os problemas atuais dos chamados doramas para a promoção do país no exterior e no Brasil.

Como a cultura japonesa entrou na sua vida e o que ela transformou?

Eu tive meu primeiro contato com a cultura japonesa a partir de Pokémon, quando foi transmitido na TV em 1999. Desde então, passei a me interessar por outros animês e, eventualmente, esse meu interesse de infância foi se transformando e amadurecendo: acabei procurando um curso de japonês, culinária, turismo e, por fim, utilizar essa afinidade como objeto de estudo no mestrado. A meu ver, ter a possibilidade de pesquisar elementos da cultura japonesa academicamente foi a maior transformação que essa preferência me proporcionou, visto que eu consegui fazer disso um trabalho.

O dorama “Long vacation”. Crédito: https://dramaswithasideofkimchi.com

Como você avalia o mercado de doramas dentro e fora do Japão?

Fora do Japão e da Ásia, o mercado é praticamente inexistente. A maior forma de consumo é através da comunidade de fãs da cultura pop japonesa que legendam e distribuem esse conteúdo por conta própria. Há algumas iniciativas de parcerias entre as redes televisivas japonesas e plataformas de streaming, como é o caso da TV Fuji com a Netflix. Além de licenciar animês, agora também é possível assistir dramas de TV japoneses pela plataforma. Mas o mais interessante, a meu ver, são os doramas co-produzidos pelas duas companhias, que gerou conteúdo de sucesso como “Good Morning Call” e “Erased”. Talvez um dos motivos de certo “apagamento” dos doramas frente aos K-dramas (dramas de TV sul-coreanos) seja uma possível necessidade japonesa em dialogar somente entre seus pares.

Enquanto a estratégia da Coreia do Sul em relação a sua indústria midiática consistiu em buscar elementos em comum entre os países de seu entorno regional ou com o ocidente, o Japão insiste em produzir conteúdo visando especificamente o mercado doméstico. O próprio Ota Toru, produtor da Fuji TV e um dos criadores dos “trendy dramas” (o formato que consumimos atualmente e que foi emulado pela Coreia do Sul, por exemplo) chegou a afirmar que a estratégia consistia em atingir o mercado interno.

O dorama “Good Morning Call”. Crédito: Amino Apps.

Qual o impacto dos doramas japoneses no Brasil, levando em conta que é o país com maior comunidade de japoneses fora do Japão?

Eu diria que bastante incipiente. Apesar de termos a maior colônia japonesa do mundo, a circulação dos doramas no Brasil acabou sendo ofuscada pelos animês e tokusatsus (filmes ou séries live-action que fazem um uso forte de efeitos especiais) que vêm preenchendo horários de nossas grades televisivas desde a década de 1970, mais ou menos. Inicialmente, os doramas acabaram ficando restritos ao circuito dos fãs dos animês, que acabavam se interessando por outros conteúdos japoneses e legendavam e distribuíam na Internet.

No início dos anos 2000 também havia o comércio pirata de doramas em alguns bairros em São Paulo (onde se concentra uma grande quantidade de descendentes de japoneses), mas, de forma geral, o circuito ficou vinculado às plataformas digitais. No Brasil, tivemos pouquíssimas oportunidades nas quais os doramas foram exibidos em nossas redes de televisão, sendo que o mais recente foi o dorama “Dear Sister”, que foi transmitido em 2017 na TV local E-Paraná. Sem dúvida, não houve esforços para popularizar o formato.

O dorama “Dear Sisters”. Crédito: Animo Apps.

Acredita que os doramas promovem ou instigam debates e transformações sociais?

Sem dúvida. Muitos dos dramas japoneses que circulam dialogam com questões delicadas, como xenofobia no Japão, a questão do trabalho x maternidade e excesso de horas extras trabalhadas. É claro que precisaria de mais pesquisas e aprofundamento nesse ponto para afirmar que essas temáticas acarretam em transformações sociais, mas me parece evidente que certos questionamentos são lançados.

O dorama “Erased”. Crédito: Netflix.

Acha que os doramas são uma ferramenta que o Japão usa para promover a cultura e a economia do país no exterior?

Quando a gente pensa na realidade brasileira ou latino-americana é perceptível o quanto sabemos poucos sobre esse formato televisivo. As estratégias de difusão de cultura e desenvolvimento do soft power japonês são completamente ancoradas nas animações e em elementos mais tradicionais de sua cultura. Há autores que afirmam que a entrada de animês em países do leste e sudeste asiático é menos problemática, pois são “inodoros”, ou seja, não são etnicamente japoneses. Como o Japão tem um passado conturbado por conta de seu imperialismo, muitos países da região restringiram a entrada de conteúdo japonês por muitos anos. No entanto, desde a década de 1990, os trendy dramas obtiveram sucesso em alguns países e se tornaram referenciais de modernidade e estilo de vida para a juventude asiática. Eu diria, então, que não são os protagonistas, mas cumprem um papel.

O que acha que precisaria melhorar neste ramo?

A experiência sul-coreana em relação a difusão dos K-dramas globalmente é digna de nota. Até pouco tempo atrás, aqui no Brasil, nós mal ouvíamos falar da Coreia do Sul e hoje ela parece perpetuar no imaginário da camada jovem da sociedade. Alguns falam de hibridização do conteúdo, ou seja, tornar os K-dramas palatáveis para qualquer audiência. Talvez tenha sido um modelo de sucesso. Os doramas acabam sendo muito centrados na lógica japonesa, na realidade japonesa e em uma suposta forma de “ser japonês”. Me parece uma espécie de criação (involuntária) de soft power a partir da exclusão, de vender a ideia do exótico, do diferente e do “venha me decifrar” para atrair o público. Não sei até que ponto isso funciona.

E o Brasil como poderia refletir a presença dos doramas em seu mercado para seus objetivos de propagação da cultura brasileira e cooperação com o Japão?

O formato dos dramas de TV tem características que lembram as telenovelas brasileiras como, por exemplo, a presença do melodrama. De certa forma, são linguagens que dialogam. Em 2005, a Rede Bandeirantes e a NHK coproduziram “Haru e Natsu”: as cartas que não chegaram, uma minissérie que conta a história da imigração japonesa para o Brasil. Ela foi transmitida em 2008 no Brasil, no ano em que se comemorou o centenário da imigração japonesa, mas não houve grande visibilidade para essa coprodução.

Ainda assim, partindo do princípio de que caminhos alternativos à maciça presença estadunidense/ocidental  vivem um momento de plena efervescência, as redes de televisão brasileiras poderiam dar mais atenção a conteúdos fora desse eixo para pensar as próprias produções televisivas e incentivar à busca por novos conteúdos. Os brasileiros são poucos representados nos doramas e são uma grande comunidade de estrangeiros no Japão. O mesmo ocorre com os japoneses e seus descendentes no Brasil.

O dorama “Haru e Natsu”. Créditos: YouTube.

É possível modificar está situação? Se sim, o que é preciso para modificar e como fazer?

De forma geral, os doramas não costumam apresentar muitos personagens estrangeiros. De fato, eu nunca assisti um dorama com um personagem brasileiro, apesar de já ter visto menções a brasileiros famosos. Em “Long Vacation”, por exemplo, o protagonista chama-se “Sena” e há diálogos em que ele é chamado de “Ayrton”. No caso das telenovelas brasileiras, há um enorme apagamento em relação aos japoneses e, quando são representados costumam ser interpretados por brasileiros sem parentesco com japoneses. Há iniciativas para promover a presença de artistas asiáticos na TV brasileira, como o coletivo Oriente-se, que pode ser uma ponte para diminuir esse apagamento. No caso japonês, desconheço iniciativas.

Shūichi Katō em Tempo e Espaço na cultura japonesa

Por Mateus Nascimento

Se você tem interesse em estudar algum tema relacionado a cultura japonesa e já ouviu dizer que existem poucos livros sobre o país em português – o que inviabilizaria seu estudo segundo essas vozes desinformadas –, te convido a fazer uma leitura fundamental: Tempo e Espaço na cultura japonesa, escrito pelo crítico de literatura e cultura Shūichi Katō (1919 – 2008).

Na obra em questão, o autor parte de dois conceitos fundamentais: tempo, jikan, e espaço, kūkan. Ambos os conceitos são analisados profundamente e para comprovar a forma específica pela qual eles aparecem no Japão, o autor começa com uma comparação com outras sociedades.

Por exemplo: antes de pensar o conceito de tempo no Japão, ele examina o conceito no judaísmo, na Grécia Antiga, no budismo (que se tornou um traço incontornável nesta cultura) e por fim, nos textos clássicos japoneses, com destaque para o Kojiki, “Relato das coisas antigas”, texto fundamental que fala sobre a criação do Japão.

Fazendo uma análise das ideias e das formas simbólicas, Katō inova ao apresentar os elementos que constituem o estilo de ação, ou os estilos de ação do povo japonês. Esse é um de seus principais conceitos, sempre presente nas suas interpretações que tratam sobre as características da língua japonesa, da arte, da religiosidade e das formas pelas quais acontecem as relações sociais, objetos de pesquisa interessantes que normalmente estão entre os primeiros interesses de pesquisadores brasileiros.

Assim, o que o autor chama de estilos de ação é essa forma japonesa de ser no mundo, tanto individualmente quanto coletivamente, que aparentemente segue duas lógicas. A de tempo-espaço, vista pelo famoso presente longo, que afeta até a linguagem desta sociedade: note-se a diferença dos tempos verbais do Japão, que se dividem em passado e o não passado. Até as frases e a comunicação de uma maneira geral necessitam de componentes a mais – os apostos – para designar algumas intenções do falante que se mostram, quase sempre, através de elipses.

A outra é a de subjetividade, traduzida nos jogos conceituais honne, algo como a real intenção, tatemae, opinião pública (no sentido de ser a posição que alguém assume pela unidade harmônica do e no campo público), uchi, “ser de dentro” e soto, “ser de fora”. Esses conceitos estão por detrás dos hábitos que conhecemos, sobretudo, a tendência ao ocultamento da qual falamos antes.

Capa de Tempo e Espaço na cultura japonesa. Créditos: foto do autor.

Por exemplo: a elipse se dá através do ocultamento de si mesmo, ocultamento das opiniões, ocultamento daquilo que seja potencialmente prejudicial, ou seja, é uma posição defensiva, objetivando a manutenção da harmonia de um todo, do qual somente participam aqueles que entendem suas regras, por sua vez, previstas nos conceitos apresentados.

Publicado pela primeira vez em 2007 e traduzido para o português por Neide Nagae e Fernando Chamas, em 2012 (publicado pela Estação Liberdade), o livro reflete a maturidade do autor consagrado pela análise que faz da mentalidade japonesa.

Ficha técnica:  
Título: Tempo e espaço na cultura japonesa.
Autor: Shūichi Katō.
Tradutores: Neide Nagae e Fernando Chamas.
Editora: Estação Liberdade, São Paulo.
Ano: 2012.