Os cem poemas dos cem poetas

Por Roberto Schmitt-Prym

Cem poemas de cem poetas (Ogura Hyakunin Isshu) é uma coletânea organizada pelo poeta e crítico literário Fujiwara no Teika (1162–1241). É ainda hoje a mais querida e conhecida antologia poética japonesa, ocupando esse status desde que foi composta, quase oitocentos anos atrás. Teve um papel decisivo na formação do senso estético japonês: seus poemas são tema de incontáveis pinturas, peças teatrais, objetos de decoração, canções, filmes, padrões têxteis, xilogravuras, ilustrações e muitas outras manifestações artísticas. No século XX, seus poetas foram representados em anime e manga. No século XXI, surgem em games e aplicativos. Um conhecimento mesmo superficial desse conteúdo artístico e histórico é passaporte para uma fruição muito mais rica de inúmeros artefatos culturais japoneses — e até mesmo brasileiros.

Capa do livro Cem poemas e cem poetas. Créditos: Editora Bestiário.

No fim da vida, recluso em sua casa de campo na colina de Ogura, Teika escolheu cem poemas, cada um de um autor diferente, e escreveu cada um deles em papel acartonado para caligrafia. Em seguida, afixou esses quadros às divisórias de correr, criando uma exposição poética. Os cem poemas waka (5 versos de 5-7-5-7-7 sílabas) estão dispostos em sequência mais ou menos cronológica, cobrindo um período que vai do século VII ao XIII, como que representando o desenvolvimento da poesia japonesa até aquele momento.

No Japão, os poemas contidos em Cem poemas de cem poetas fazem parte do currículo do ensino médio. Há um baralho de cartas baseado na coletânea, e o jogo de karuta é, até hoje, uma brincadeira que faz parte das festividades do ano-novo. Existe também uma versão competitiva do mesmo jogo, com campeonatos nacionais no Japão e em diversos países do mundo, incluindo o Brasil.

A presente tradução não tem por objetivo ser uma “versão brasileira” do jogo de cartas pois, para isso, eu precisaria ter dado prioridade à métrica dos poemas, com perda de outros elementos poéticos que eu considero mais importantes (e que eu explico mais adiante nesta Introdução). Ainda assim, este livro pode ser útil para quem se interessa por karuta, pois fiz questão de incluir os poemas em japonês e em transcrição, assim como as diferentes versões do nome de cada poeta — tal como é conhecido no mundo da literatura e no contexto do jogo de cartas.

Exemplo da paginação, com ilustrações de Arakawa Kamejirô. Créditos: Editora Bestiário.

Acompanham cada poema uma breve biografia dos autores e algumas notas para auxiliar na interpretação do poema — como se encontra, no Japão, em qualquer livro de bolso dedicado à coletânea. As ilustrações são de Arakawa Kamejirô, de uma edição da antologia de 1903 (vide Referências no final do livro). Para evitar que os paratextos sufoquem os poemas, deixei as explicações, ilustrações e biografias do lado esquerdo, nas páginas pares. Os poemas ficam em destaque, com tipografia maior, nas páginas ímpares. Alguém que prefira ler os poemas sem “instruções de uso” pode focar apenas nas páginas ímpares, e os que gostam de explicações mais detalhadas não vão precisar ir até o fim do livro atrás de notas desconfortavelmente entrincheiradas longe dos poemas a que se referem.

Por um lado, a fruição de poesia traduzida sem guias de leitura tem muitos defensores no Brasil, e pode servir como um teste bastante rigoroso da autonomia do texto poético em português. Por outro lado, “autonomia do texto” é um conceito extremamente problemático e, no Japão, o uso mais comum que se faz de literatura clássica envolve necessariamente notas, explicações e biografias. Os próprios poemas, na época em que foram compostos, eram anotados com títulos, prólogos e outros textos auxiliares. Em tradução, as notas e biografias compõem um retrato da época e dos autores dos poemas, funcionando como uma espécie de “almanaque da Antiguidade japonesa”.

Ficha técnica: Cem poemas de cem poetas. Tradutor: Andrei Cunha (UFRGS). Publicação: Bestiário/Class. Ano: 2018, p. 266.

As entrelinhas do jogo: o caso de Ghost of Tsushima

Por Mateus Nascimento e Douglas Almeida*

Chegou a hora e a vez de falarmos de videogames, Ásia e as possíveis utilizações desse material para além do ludicidade! Faz muito tempo que o público dos games vem aguardando um título de mundo aberto baseado na Ásia e as utilizações possíveis destes produtos eu estão chegando cada vez se torna mais evidente: não são só jogos, são produtos que armazenam espaços de construção de conhecimento.

Nesta modalidade, o chamado mundo aberto, as decisões do jogo e a forma de desenvolvimento dos personagens é mais livre do que num jogo tradicional com etapas e trajetórias pré-definidas. Estamos falando de jogos que permitem a cada jogador a liberdade de explorar as terras e vivenciá-las do seu jeito e no seu tempo, quase que como entrando na telinha (leia o livro Homo Ludens de Johan Huizinga, para compreender o papel do jogo e dos seus elementos formadores na sociedade, ok?).

Some-se a isso o fato de que essas terras e história são as de países asiáticos tradicionalmente envoltos em mistérios, lendas e narrativas e personalidades icônicas – o que torna a diversão ainda mais emocionante. No que diz respeito ao Japão, a espera de alguns finalmente acabou: com vocês o recém lançado Ghost of Tsushima!

Versão física do jogo Ghost of Tsushima. Créditos: Amazon.

Na verdade, os desenvolvedores da Sucker Punch Productions (1997 – atualmente) reinauguraram esta que já era uma área consolidada na indústria dos games de console. Alguns games já trouxeram cultura japonesa em suas narrativas. Exemplos não faltam: a série Yakuza (2005-2020), Ōkami (2006), Way of the Samurai (2002), Samurai Warriors (a “eterna franquia” iniciada em 2004 constantemente atualizada), o especial componente da franquia Total War, Total War Shogun e suas atualizações (2000) para citarmos alguns dos mais conhecidos mundialmente. Contudo, o destaque a Ghost of Tsushima, lançado em 17/07/2020 reside na sua tecnologia de simulação histórica, precisão dos elementos dessa simulação e no design em modo aberto (modo de mundo aberto, ou openworld).

Um dos maiores espaços de exibição de tecnologia de jogos, a Paris Game Week, apresentou o jogo em 2017, empolgando todo um público, com a proposta do enredo: o jogador assume o controle de um samurai, Jin Sakai, participante de um dos eventos mais controversos da história do Japão, as invasão mongólicas de 1274. O jogo se passa em Tsushima, a ilha do arquipélago japonês mais próxima da península coreana, de onde os navios da primeira invasão teriam partido.  

Vemos a preparação dos samurais locais que deverão fazer frente aos primeiros movimentos do exército mongol. A partir dali assumimos o papel do protagonista Jin Sakai, samurai cabeça de seu clã e servo de seu tio Lorde Shimura, que terá como objetivo sobreviver ao ataque e resistir a invasão. Um dos pontos altos de seu enredo é sua construção do personagem principal, que inicia como um samurai submetido a um código de conduta guerreiro extremamente rígido que aos poucos passa a questionar seus próprios princípios, para ser capaz de derrotar a horda inimiga que se usa de artifícios de guerra pouco convencionais e menos honrados do que normalmente se imagina.

Cena do jogo. Créditos: Playstation Store

A inserção desse personagem samurai, suas dúvidas e a forma de sua evolução remete as obras do cinema japonês especializado nesse grupo social histórico, samurai. Especialmente famoso é o diretor Akira Kurosawa (1910-1998), o qual é homenageado no jogo através de um modo de câmera do jogo que busca repetir os traços nostálgicos das suas películas cinematográficas, de quando produzia cinema tradicional em preto e branco.

Os duelos entre samurais, o questionamento da honra, a busca pela benção sagrada dos santuários e o constante embate contra as hordas mongóis proporcionam uma narrativa e aventuras que estruturam a expectativa de 50-60 horas de gameplay, considerado o tempo mínimo para realizar esta história.

Além disso, a ambientação, com detalhes e repleto de referências a diversos lugares reais da história japonesa, chama a atenção pelo seu poder de convencimento. Figuras históricas reais aparecem na história, com trechos que contam fatos dessa história da cultura do Japão para o jogador, que, supomos, pode ser influenciado por elas mesmo sabendo se tratar de um jogo.

Mais ainda: no imaginário coletivo, a cultura dos mongóis e da Mongólia é permeada de orientalismos e enquadramentos pejorativos. Por um lado, Gêngis Khan (1162-1227) o grande líder mongol é representado como bárbaro, ameaçador e perigo em potencial para a cristandade medieval, como um outro não exemplar que precisa ser combatido por não fazer parte do mundo cristão. Contudo, na outra face dessa relação basta considerar que o termo mongol durante anos foi usado como chacota, uma espécie de ofensa quando se chama alguém como mongol para destacar pouca inteligência ou deficiência psiquiátrica qualquer. Fica aqui o alerta e o manifesto em prol do abandono desse uso das palavras.

Nesse sentido, é o jogo – de novo: é o jogo – que vai nos apresentar esses excluídos das narrativas históricas que são apagados no momento em que o “Grande Khan” é usado como sua representação no ensino de história mundial. Longe de serem representados como meros bárbaros sádicos, estes nos são apresentados como um povo poderoso, civilizado, que tem práticas políticas e diplomáticas em meio a herança de tradições de seu.

Gameplay em 18 minutos. Fonte: Youtube

Diversos itens colecionáveis pelo cenário do game nos permitem conhecer mais pormenorizado essa cultura mongólica, através de objetos tradicionais ou mesmo vasos romanos, máscaras de deidades de terras distantes ou porcelana chinesa de outras dinastias conquistadas, os quais são acrescidos de comentários ou explicações em cards inseridos com menção, inclusive, a livros e fontes consultáveis.

No exato momento que essa busca extra (consulta externa ao jogo) se materializar, não teríamos aí uma outra utilização do jogo em tempos de mediação midiática tão acentuada? Eis uma boa questão para pesquisas, pois as representações e a forma como as interpretamos e mobilizamos são excelentes objetos de pesquisa dos estudos de mídia. 

Nas entrelinhas do jogar, a visão sobre o passado e cultura mongólica nos Games nunca teve tanto destaque ou foi tão bem feita quanto em Ghost of Tsushima, que, portanto, nos apresenta o Japão feudal na visão de um samurai ambientado e ao mesmo tempo o intenso jogo das relações entre Japão e continente pelo elemento histórico da guerra. Isso conduz o jogador por uma série de representações dignas de estudos futuros.

Review de Ghost of Tsuhima. Fonte: Youtube

Esperamos que aproveitem a dica e divirtam-se!

* Douglas Almeida é Historiador formado pela Universidade Federal Fluminense, com especialização em História Militar pela UNIRIO, ambas com pesquisas acerca da História dos Samurais. Também atua como 2º Coordenador do Grupo de Estudos Japoneses da UFF (GEHJA-UFF), Coordenador Geral da Academia Nipo Brasileira de Estudos de História & Cultura Japonesa do Instituto Cultural Brasil-Japão (ANBEHCJA-ICBJ), membro pesquisador do Grupo de Estudos de Diplomacia Multidimensional do Oriente (GEDIMO-UFF), do Núcleo de Estudos Japoneses da Federal de Santa Catarina (NEJAP-UFSC), do Grupo de Estudos de História Militar (GEHM-CEIA/UFF) e pesquisador colaborador do Centro de Estudos Asiáticos (CEA-UFF) e Midiásia-UFF.

Corpo e voz: conheça o artista japonês Daichi Miura

Por Sérgio Menezes*

Satoshi Hiroshi Miura, ou Daichi Miura para os fãs, é um dos artistas mais completos que já vi em toda a minha vida. Um artista completo, que começou sua jornada aos nove anos de idade, em 1997, no grupo Folder, e desde aquela época já se mostrava um artista nato, bem diferenciado, e chamando a atenção dentro do grupo.

O grupo era da escola de atores de Okinawa, com cinco meninas e dois meninos, sendo Daichi, o vocalista principal do grupo, e chamado de “O menor Soulman do Japão” pelo público que os acompanhavam. No seu repertório tinham músicas originais, mas também algumas músicas dos Jackson Five, como” “ABC” e “I want You Back”. Daichi também era muito reconhecido como um dançarino extremamente talentoso e dedicado, e quando sua voz começou a mudar, ele se afastou dos palcos e de seu grupo, que no ano 2000 se tornou o grupo Folder 5, com as cinco meninas. Depois de um hiato de cinco anos na carreira, em 2005, Daichi começou sua carreira solo. Lançou o single “Keep it Going’ On” e em 2006 o primeiro Álbum, “D-ROCK with U”, gravando seu primeiro DVD logo em seguida.

Crédito: universo japonês.

O primeiro contato que tive com sua música foi entre 2008 e 2009, com o single “Inside your head” que, além de um videoclipe completo no Youtube, ainda tinha vídeos tutoriais exclusivos do próprio Daichi com os dançarinos ensinando a coreografia. Como um artista completo e preocupado com stages sempre mostrando muita dança, Daichi chamou os quatro dançarinos que formam, até hoje, o grupo S**T Kingz. O grupo consiste nos quatro melhores dançarinos japoneses mais conhecidos mundialmente, que além de performances incríveis, já ganharam duas vezes o campeonato Body Rock, nos EUA, um dos campeonatos de danças urbanas mais respeitados do mundo e um feito inédito, já que o evento recebe grupos de 30 a 50 integrantes.

A trajetória de Daichi Miura também revela um Collab com BoA, uma cantora e dançarina coreana extraordinária, que quebrou todos os recordes e tem uma história marcante na indústria do entretenimento asiático, e que hoje é uma das acionistas da SM Entertainment, a maior empresa da Coreia do sul. O single “Collab Possibility” foi lançado em 2010 e conta com mais de 9 milhões de views no Youtube. De lá pra cá sua sequência de singles não parou mais. Singles como “The Answer” em 2010, “Right now” em 2012, “Go for” it em 2013, “Unlock” em 2015, “Cry & Fight” e “(RE)PLAY” em 2016, “Excite” em 2017 e “Blizzard” em 2018, mostram uma carreira consistente e repleta de músicas marcantes. “Colorless” é seu último single, lançado em 2020, um pouco antes da pandemia do novo Corona vírus.

Crédito: Arama! Japan

Daichi tem um ritmo de treinamento intenso e chegou a ir até Los Angeles treinar em um dos estúdios mais famosos de Hip Hop dos Estados Unidos, chamado Moviment Lifestyle. Lá, ele contratou o coreógrafo Keone Madrid, conhecido, dentre uma carreira prolífera, por coreografias do BTS, BIGBANG e outros artistas da música, tanto asiática quanto americana. Desta parceria, nasceu a coreografia do Single “Right Now’, mas as coreografias de suas produções, sempre, são assinadas pelo próprio Daichi em conjunto com os coreógrafos contratados por ele, o que dá aos trabalhos não só uma originalidade, como o seu toque final.

Em (RE)PLAY não foi diferente, mas ele chamou um time de peso de dançarinos consagrados e mostrou uma versatilidade a mais, entre estilos de danças urbanas diversos, como Popping, Locking, Break e Hip hop. Outras de suas performances, como a de “Cry& Fight” ao vivo, mostram não só a dança, mas um potencial vocal diferenciado, sem perder o fôlego e sem desafinar. Buscando sempre se reinventar e alcançar novos mercados, cantou também dois singles que se tornaram temas de animês, sendo esses “Excite” em “Kamen Rider Ex-Aid” e “Blizzard” em “Dragon Ball Super Broly”.

Videoclipe de Blizzard

A Avex, empresa que gerencia a carreira de Daichi, liberou nessa quarentena um Show completo, mas infelizmente o vídeo já foi privado. Daichi ainda está criando apresentações em casa com seus músicos e dançarinos, e fazendo performances muito interessantes, se valendo de uma edição por vezes inventiva e atrativa, nunca parando completamente de performar, ainda que não em um palco, propriamente dito.

Ademais, o que poderemos esperar no próximo ano desse “Soulman” é uma incógnita. A única garantia é que será algo de qualidade, como tudo o que ele se propõe.

* Sérgio Menezes é dançarino e coreógrafo há 13 anos e produtor de eventos há 7 anos na cidade do Rio de Janeiro.

Entrevista com Tetsuya Otsuru, o Cônsul-Geral do Japão no Rio de Janeiro: “A China é um dos parceiros mais importantes para o Japão”

Por Alessandra Scangarelli e Mateus Nascimento (via Revista Intertelas)

O cônsul-geral do Japão Tetsuya Otsuro. Crédito: Facebook do Consulado Geral do Japão.

Nos últimos anos, o continente asiático passou por diversas mudanças com a ascensão econômica e política de países como Japão, Coreia do Sul e mais recentemente, a China. A Ásia Oriental é a região central em torno dessas mudanças. O Japão, uma das nações pioneiras em tais mudanças é um ator estratégico para compreendermos melhor como ocorrem as relações políticas e econômicas desta parte do mundo, em especial sua cooperação com países como China, as Coreias e Rússia.

Levando em conta este cenário, a Revista Intertelas solicitou ao cônsul-geral do Japão no Rio de Janeiro Tetsuya Otsuru, que respondesse algumas perguntas. Aqui o diplomata esclarece questões sobre as relações entre Japão e seus vizinhos, sobre os desafios que a sociedade japonesa enfrenta hoje, como o fato do país estar adaptando-se à pandemia do coronavírus e ele ainda conta sobre sua atuação nas redes sociais, promovendo uma aproximação inédita do consulado com o público local. Confira a entrevista abaixo.

O evento “Impressões do Japão”, parte do “Mês do Japão”, contou com a participação do cônsul geral da China no Rio de Janeiro Li Yang. Crédito: Alessandra S. Brites/Revista Intertelas.

Hoje países como China e Coreia têm maior destaque no cenário internacional, como acha que o Japão poderia colaborar com ambos, para uma maior estabilidade no Leste da Ásia?

A China é um dos parceiros mais importantes para o Japão. Antes da pandemia eclodir, houve contatos de alto nível entre os chefes de governo e ministros das relações exteriores. Além disso, havia iniciativas conjuntas em desenvolvimento nas áreas de esporte e cultura.

Nossas relações econômicas com a China são muito fortes, especialmente em comércio e investimento. Nossos países são interdependentes. O caminho é seguir construindo uma relação ainda mais sólida e madura, além de ampliar e aprofundar os contatos nas mais diversas áreas, contribuindo para a prosperidade na Ásia e no mundo.

Na relação com a Coreia do Norte, assinamos em 2002 a Declaração de Pyongyang, onde concordamos em resolver de forma abrangente os temas pendentes, como os sequestros, o programa nuclear e os misseis balísticos, visando normalizar as relações diplomáticas. Porém, sem solucionar a situação dos sequestros, não será possível alcançar a normalização das relações com a Coreia do Norte.

A Rússia é outro país estratégico para a Ásia Oriental, vizinha do Japão e que nos últimos anos retorna a fortalecer a sua posição no cenário internacional. As pessoas em geral pensam que a relação Japão-Rússia é marcada somente por conflitos. Sabemos que não é. Que exemplos de cooperação entre os dois países o senhor destacaria? 

 É verdade que existem algumas questões abertas com a Rússia como a de território. Por outro lado, é frequente a comunicação de alto nível, entre chefes de governo e ministros das relações exteriores. Isso faz as relações avançarem em áreas importantes como segurança e intercâmbio de profissionais e jovens.

Como exemplo do objetivo de ampliar as trocas entre os países, e como consequência de acordo bilateral com a Rússia, em 2018 e 2019 ocorreram o “O ano do Japão na Rússia” e “O ano da Rússia no Japão”. Foram mais de 600 eventos relacionados a esse calendário e 1,6 milhões de pessoas participaram.

Em 2018 e 2019, Rússia e Japão realizaram a iniciativa de cooperação cultural “O ano do Japão na Rússia” e “O ano da Rússia no Japão”. Em 2018, o presidente russo Vladimir Putin e o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe lançaram o ano transcultural russo-japonês em uma cerimônia no Teatro Bolshoi em Moscou. Crédito: Prime Minister´s Office of Japan.

A Ásia vem tornando-se um polo econômico bastante forte, o que países como o Brasil, localizados em outras regiões distantes do continente asiático, poderiam aproveitar desta nova realidade que o continente está apresentando ao mundo?

Existe um fórum inter-regional para promover o intercâmbios entre os países dos dois continentes, o Fórum Para a Cooperação do Leste da Ásia e da América Latina (FEALAC). No âmbito da FEALAC são discutidos diversos temas como as experiências de desenvolvimento econômico da Ásia e projetos de cooperação.

A FEALAC é um fórum que não trata só de economia, mas também de programas de intercâmbio cultural e projetos relacionados à mudança climática, em um esforço para aumentar os benefícios mútuos. Queremos seguir utilizando esse foro como um mecanismo para alcançar prosperidade para as duas regiões.

Como o senhor avalia o impacto do grupo BRICS para o mundo? E como o Japão poderia colaborar com eles?

Os países dos BRICS conseguiram desenvolver suas economias empregando seus recursos naturais e mão-de-obra abundantes. Para o Japão, onde temos o fenômeno da baixa taxa de natalidade e do envelhecimento populacional, a força que os BRICS demonstram é muito atraente. Daqui em diante, queremos aprofundar a relação tanto nos canais econômicos, quanto na diplomacia cultural e nas iniciativas de intercâmbio de estudantes e jovens líderes destes países.

O Brasil participou em Santo Domingo da “XX Reunião de Altos Funcionários do Foro de Cooperação América Latina- Ásia do Leste. que celebra os 20 anos do Foro. Crédito: Facebook da Embaixada do Brasil em São Domingos.

Sobre as relações Brasil e Japão, o que o senhor apontaria como bons resultados e o que poderia ser aprimorado?

Como foram realizadas três reuniões entre os chefes de governo no ano de 2019, a relação do Japão e o Brasil está consolidada como nunca antes. Desde 2014, nos baseamos na premissa dos “Três Juntos (Progredir Juntos, Liderar Juntos, Inspirar Juntos)”, com cooperação ativa nas áreas de economia e de programas de intercâmbio. No futuro, queremos desenvolver ainda mais essa relação e ao mesmo tempo, queremos focar em fortalecer os laços com a comunidade Nikkei, descendentes de japoneses, no Brasil, que é maior fora do Japão.

Com o advento do coronavírus, infelizmente, vemos uma onda de preconceito contra asiáticos no ocidente, como o Japão vem respondendo a este desafio?

Antes de surgir na Europa ou América Latina, a expansão de novo coronavírus ocorreu na Ásia. Porém, lamento que isso tenha instigado a discriminação e o preconceito contra os asiáticos, incluindo os japoneses. Aqui no Rio de Janeiro, houve o caso de um estudante asiático que foi agredido com palavras discriminatórias no Metrô. Fiquei muito triste com isso.

 Ao mesmo tempo, vemos o movimento “Black Lives Matter” espalhando-se dos EUA para todo o mundo. O Japão está empenhado em criar um mundo sem discriminação. Acredito que a comunidade internacional pode atuar em conjunto para vencermos esse desafio sem precedentes, da pandemia combinada com a discriminação.

Como o Japão está adaptando-se à realidade do coronavírus, ao mesmo tempo que é a sede das olimpíadas?

Nesse momento em que ainda não temos uma vacina para o coronavírus, a cidade de Tóquio está se adaptando a um novo estilo da vida. No Japão, cada um de nós deve tomar as medidas básicas para não se contaminar, como por exemplo usar máscara e lavar as mãos. O governo também recomenda evitar as aglomerações no dia-a-dia.

Além disso, muitas empresas passaram para os regimes de “home-office” e de reuniões virtuais, como parte deste “Novo Normal”. Infelizmente tivemos essa pandemia em nosso planeta e por isso os Jogos Olímpicos de Tóquio foram adiados para o ano que vem. Contudo, nós estamos trabalhando arduamente para criar um ambiente seguro para realizar os Jogos Olímpicos. Creio que em 2021 os Jogos terão um papel de reconfortar a humanidade que este ano está enfrentando esta imensa dificuldade.

Se o senhor pudesse listar, quais seriam os desafios principais que a sociedade japonesa enfrenta neste início de século XXI e como poderia superá-los?

 Um grande desafio que a sociedade japonesa enfrenta é o demográfico, com baixa taxa de natalidade e envelhecimento populacional. Nossa população jovem está diminuindo. Há previsões que mostram que em 50 anos, os idosos com mais de 65 anos de idade serão 40% da população.

Olhando para esse desafio, devemos pensar em alternativas. Há opções possíveis: ampliar a mão-de-obra estrangeira e aprofundar a automação na produção com o uso da inteligência artificial por exemplo.

Por sua vez, essas alternativas nos levam à novas demandas, para alcançar a sociedade da coexistência intercultural e para ter a infraestrutura necessária para a privacidade e a segurança tecnológica. Tomar essas medidas que eu mencionei, de forma simultânea, requer um tratamento cuidadoso desses assuntos, porque eles são complexos.

Crédito: National Institute of Population and Social Security Research.

Você já expressou nas suas postagens que futuramente o Japão pode tornar-se uma sociedade multicultural, em razão do número cada vez maior de imigrantes e seus descendentes que vivem no país. A questão da imigração e do multiculturalismo estão no centro do debate político mundial atualmente, qual a sua visão sobre eles?

A vasta experiência que temos com o Brasil serve de referência para a criação de uma sociedade multicultural no Japão. Cerca de 200 mil brasileiros vivem no Japão, e este é um ano a ser celebrado, pois comemoramos 30 anos da comunidade brasileira no Japão. A cidade anfitriã do Time Brasil durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Tóquio será Hamamatsu, na província de Shizuoka, que irá receber o maior número de atletas da delegação brasileira.

Lá tem uma grande comunidade brasileira, com escolas que lecionam língua portuguesa e podemos ver pela cidade placas escritas em português. Podemos desfrutar de churrascarias, eventos de samba com quase o mesmo nível do Brasil. Espero que, tendo como modelo para o governo local a cidade de Hamamatsu, com seu longo histórico em acolher estrangeiros, possamos construir uma sociedade multicultural. Mas ao mesmo tempo, talvez possamos usar como referência a iniciativa do Brasil, que por tanto tempo veio acolhendo os descendentes japoneses.

Normalmente, as pessoas têm uma visão ainda bastante estereotipada sobre o Japão. Isso ocorre tanto no Brasil, quanto em outros países. O Brasil também acaba sofrendo com o mesmo problema. Acreditamos que quando nos conhecemos melhor, menos conflitos são gerados. Como a diplomacia cultural, ou até outras medidas governamentais, poderiam auxiliar a um conhecimento mais profundo sobre os países e suas culturas?

O Brasil possui a maior comunidade japonesa do mundo, e é um país com muitas pessoas aficionadas e conhecedoras do Japão. Por outro lado, dentre os brasileiros comuns, devem ter ainda muitos que confundem as culturas japonesa, chinesa e coreana, não é mesmo?

Uma das nossas funções é a propagação da verdadeira cultura japonesa e regularmente realizamos eventos para apresentar esta cultura. Em fevereiro e março deste ano, realizamos no Centro Cultural Correios do Rio de Janeiro um evento chamado Mês do Japão (veja a reportagem que a Intertelas realizou na abertura do evento). Além da exposição de pôsteres, calendários e peças de origami, fizemos um concerto musical, mostra de filmes japoneses, e workshops de mangá, origami e ikebana, e recebemos muitos visitantes. Depois que passar a pandemia do coronavírus, gostaria de retomar este tipo de evento. Além disso, no momento estamos planejando eventos culturais online.

Ao mesmo tempo, o Consulado-Geral tem como uma de suas importantes funções transmitir corretamente a todas as camadas da sociedade japonesa notícias e informações relacionadas ao Brasil. Acredito que isso contribuirá para corrigir as imagens possivelmente estereotipadas entre os japoneses. Todos os funcionários deste Consulado Geral estão trabalhando nisso, juntos, todos os dias.

Discurso do Cônsul-Geral do Japão no Rio de Janeiro Tetsuya Otsuru durante a cerimônia de abertura do Mês do Japão no Centro Cultural Correios (clique na imagem para ser direcionado para o vídeo no Facebook). Crédito: Facebook Consulado Geral do Japão no Rio de Janeiro.

O Brasil, assim como outros países da América do Sul, tem uma forte influência da cultura europeia e dos Estados Unidos. A Ásia e suas culturas estão também presentes há séculos na região, porém não com a mesma intensidade. Como o senhor avalia o futuro da presença cultural do Japão e da Ásia como um todo no Brasil e na América do Sul?

Como o Brasil tem o histórico de ter acolhido imigrantes de diversos países, recebeu fortes influências culturais de muitos deles, principalmente da Europa. A imigração japonesa começou em 1908, e atualmente há no Brasil uma comunidade japonesa de dois milhões de pessoas. Além disso, também temos o trabalho da comunidade Nikkei que se esforçou para espalhar a culinária japonesa, suas verduras e legumes. Sinto que a presença cultural japonesa aqui não é pequena.

Por outro lado, agora está nascendo a sexta geração de descendentes de japoneses, e a medida que avança a mudança de gerações, o governo japonês busca aprofundar a compreensão do Japão atual, através do programa de convite a nipo-brasileiros na América do Sul. Além disso, nosso Consulado divulga a cultura japonesa através das mídias sociais e eventos culturais.

O senhor gosta um pouco da cultura brasileira. Qual aspecto parece-lhe mais interessante? Tem algum hábito brasileiro que o senhor adquiriu desde que chegou aqui?

Não é um pouco, é muitíssimo! Acho que tem aspectos diferentes e parecidos entre brasileiros e japoneses. Tenho a impressão de que os brasileiros sabem aproveitar a vida muito mais que os japoneses. Pelo menos eu sinto que meu coração se enriquece mais quando estou dançando com todo mundo no Carnaval, ou vendo o sol se pôr na praia de Ipanema, do que se eu estivesse dentro de um trem lotado em Tóquio. No entanto, talvez no que diz respeito à profundidade do “pensar no próximo”, tanto os brasileiros como os japoneses tenham excelência em comparação a outros povos do mundo. Além do mais, nas danças tipo samba, ou então nos dribles de futebol, vocês brasileiros são dezenas de vezes melhores que nós japoneses, sem nenhuma dúvida.

Apesar da pandemia, quais têm sido as ações do Consulado para incentivar o gosto pela cultura japonesa?

O Consulado já costumava postar conteúdos sobre a cultura japonesa ativamente nas redes sociais como o Instagram e o Facebook. Porém com a disseminação da infecção do coronavírus, não foi mais possível realizar eventos com aglomeração e com isso a importância do uso das redes sociais ficou ainda maior. Desde que comecei a trabalhar aqui, comecei a usar o Instagram pela primeira vez. Apresento não só a cultura japonesa, mas também os encantos do Rio e coisas que eu sinto na vida cotidiana. Ficaria feliz que pudessem seguir as nossas redes e aprofundar o interesse pela cultura japonesa.

O senhor é bem articulado nas redes sociais. Como percebe essa relação de um consular com o público mais amplo que lhe acompanha?

Eu comecei a usar o Instagram em novembro do ano passado e estamos com mais de 2.500 seguidores. Tem um limite de pessoas com quem eu posso conversar realmente. É um grande prazer poder interagir através do Instagram com tanta gente e eu ficaria muito feliz se as pessoas que veem as minhas postagens, possam ficar mais alegres na difícil situação que encontramos hoje. Na verdade, se alguém tiver pedido com sugestão de assunto para eu falar a respeito, vou adorar receber comentários. 

“O Cônsul Geral do Japão no Rio de Janeiro no Instagram, o sr. Tetsuya Otsuru, tem cedido o espaço para o chef de sua residência, o sr. Takeo Shingu, para ensinar aos seus seguidores várias receitas de comida japonesa” (clique na foto para acompanhar o Instagram do Consulado Geral do Japão no Rio). Crédito: Facebook Consulado Geral do Japão no Rio de Janeiro.

Quando as pessoas encontram com autoridades japonesas, normalmente acontece de valorizarem muitos aspectos do Japão, comparando-os com a cultura brasileira. Mas, se o senhor pudesse falar de hábitos parecidos entre brasileiros e japoneses, qual ou quais o senhor destacaria?

Aqueles que já visitaram o Japão, talvez possam ter tido a experiência de excelentes recepções e serviços. A esse respeito, acho que a maioria dos turistas que visitam o Rio de Janeiro, um dos principais destinos turísticos do Brasil, são atraídos não somente pelas belas praias e paisagens, mas também pelo sorriso alegre e a gentileza carioca. Penso que como mencionei anteriormente, o termo em comum de “pensar no próximo” existe no fundo tanto para o brasileiro quanto para o japonês.

Entrevistadores:

Alessandra Scangarelli Brites
Editora-chefe da Revista Intertelas, jornalista (PUCRS), escritora, tradutora e pesquisadora vinculada ao MidiÁsia (Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática e Contemporânea da UFF) e ao Grupo de Estudos 9 de Maio. Especialista em Política Internacional (PUCRS) e Mestre em Estudos Estratégicos Internacionais (UFRGS). Além de jornalista, trabalhou como assistente de produção e conteúdo em algumas empresas de cinema do Rio de Janeiro

Mateus Nascimento
Colunista da Revista Intertelas, mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense (PPGH-UFF). Graduado em História pela mesma universidade. Pesquisador efetivo do Centro de Estudos Asiáticos (CEA-UFF), do Núcleo de Estudos Tempo Literário do Instituto Cultural Brasil-Japão e do MidiÁsia/UFF – Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática Contemporânea. Membro da Red Iberoamericana de Investigadores en Anime y Manga (RIIAM) e da Academia Nipo-Brasileira de Estudos de Literatura Japonesa (atuando como seu vice coordenador no triênio 2019-2021)

Edição e pesquisa de vídeos/imagens: Alessandra Scangarelli Brites.

ÜBERSEEZUNGEN: Retrato de uma língua e outras criações de Yoko Tawada

Por Roberto Schmitt-Prym (Editora Bestiário)

Um livro ousado, repleto de graça e inspiração.

Lê-se no título de “Überseezungen” – entre outros significados – as “traduções” que levam a protagonista a viajar ao sul da África, aos Estados Unidos, ao Canadá e de volta ao Japão e à Alemanha (Tawada, nascida e criada no Japão, mora desde 1979 na Alemanha).

O leitor aprende muito sobre países, sobre povos e sobre os traços das palavras quando a escritora, em sua perspicácia benjaminiana, expressa a perplexidade e o maravilhamento proporcionados pelas diferentes formas e barreiras linguísticas, as quais investiga espirituosamente em frases simples, ao mesmo tempo vivazes e despreocupadas, que respiram os ares da poesia e da filosofia.

Überseezungen é, ao mesmo tempo, uma palavra, uma criação; uma tradução, uma transcriação.

O título de Tawada é um entrelaçamento de formas e significados. Em um primeiro momento, sua fisionomia mostra a expressão central do livro: Übersetzungen, em alemão, significa “traduções”.

Um segundo olhar traz ao leitor os desdobramentos atribuídos ao conceito: See é traduzível por “mar”; Übersee, por sua vez, pode ser traduzido em português como “além-mar”, aquilo que cruza os oceanos, que está para além do horizonte marítimo; Zungen traz o significado de “línguas”, as línguas que falam, a língua física; e Seezunge é a tradução de “linguado”, peixe cujo aspecto morfológico oval e achatado lembra o formato de uma língua.

O linguado caracteriza-se, ainda, por sofrer uma metamorfose ao longo de seu ciclo de vida: seus olhos migram e seu rosto se transforma, literalmente, no momento em que passa a viver a maior parte do tempo no fundo de seu ambiente aquático. O título evoca os aspectos relativos à língua e à tradução e os associa intrinsecamente ao aspecto físico do órgão responsável pela articulação da fala. Mostra ainda a fisicalidade do movimento, mesmo que muitas vezes não seja necessário um efetivo deslocamento para que esse movimento ocorra.

A partir de tais leituras, pode-se observar a relação da tradução com a linguagem e com o corpo, a metáfora do viajar por entre continentes, do assumir metafisicamente a forma e a essência de ser uma língua — do sentir-se como língua em constante transformação.

Em Überseezungen, Tawada explora o viajar pelos idiomas, de modo que o trânsito linguístico se sobrepõe ao deslocamento físico e geográfico. Do duplo foco nos movimentos linguísticos e geográficos emergem amplas interpretações sobre a natureza da comunicação e do ato de viajar, resultando em uma fascinante reflexão que integra mobilidade, geografia, linguagem e identidade.

A ideia de movimento já se apresenta ao leitor desde o título, cuja marcação em itálico evoca o ondular da água em sua visualidade gráfica dentro da palavra. Ao lado das considerações sobre o deslocamento linguístico, a autora oferece reflexões sobre as muitas formas de tradução que se implicam e se revelam em cada uma das aventuras. Em alemão, o verbo übersetzen, além de significar “traduzir”, possui ainda o significado de transpor, passar para outro lado. Esse duplo sentido também aparece no seu jogo de significados, posto que traduzir envolve muito mais do que passar palavras de um idioma para outro — envolve um deslocamento efetivo de quem fala e transita entre margens linguísticas.

Entre essas margens, Tawada imagina um espaço fluido, no qual se dissolvem as palavras e as letras, e onde a comunicação volta a fazer parte de um todo cósmico e transcendental ao qual pertenceriam originalmente. A fluidez associada a esse espaço de formas livres que não pertencem a nenhum lugar é simbolizada pela água e, por isso, a imagem da água encontra grande relevância no trabalho da autora.

Sobre a autora:
Yoko Tawada nasceu em Tóquio em 1960. Em 1979 fez sua primeira viagem à Alemanha pela ferrovia Transiberiana. De 1982 até 2006 morou em Hamburgo; desde então, vive em Berlim. Tawada é autora de contos, romances, ensaios, poesias e peças de teatro, obras que escreve tanto em japonês como em alemão. Seus trabalhos recebem grande atenção e reconhecimento nos círculos literários e acadêmicos de todo o mundo devido ao grande valor literário que possuem bem como de suas características multilíngues e interculturais. Dentre inúmeros prêmios de literatura recebidos pela autora, destacam-se o Prêmio Kleist, recebido na Alemanha em 2016 e o Prêmio Fundação Japão, recebido no Japão em 2018.

Ficha técnica:

Título: ÜBERSEEZUNGEN: Retrato de uma língua e outras criações de Yoko Tawada – Tradução: Marianna Ilgenfritz Daudt e Gerson Roberto NeumannPublicação: Bestiário/Class, 2019.

Entre a distopia e a realidade brasileira: a música do artista afro asiático Yannick Hara

Por Mateus Nascimento

A sugestão de obra de hoje sai do cenário literário e adentra o âmbito musical! Estamos nos referindo a música do artista afro asiático Yannick Hara.

De acordo com a suas falas registradas na página O inimigo do no médium, ficamos sabendo que ele é filho de pai negro e mãe japonesa, a primeira mistura. Yannick mescla a cultura oriental e ocidental, fundindo o universo dos mangás e animes com o do hip hop. Sempre em busca de quebrar paradigmas, agora o rapper volta imerso na cultura do cyberpunk e da ficção científica.

Ficamos na torcida para que seja um som novo e provocante na quarentena para os leitores do MidiÁsia, pois o artista conversou com nossa equipe e topou dar uma palavra mais autoral sobre seus novos projetos:

Com capa de Thiago Hara e foto de Tiago Santana, eis o disco O caçador de andróides. *Todas as fotos deste texto são de Tiago Santana.*

Mateus Nascimento: Quem é Yannick Hara?

Yannick Hara: Sou um artista afro-asiático filho de mãe japonesa e pai negro. Desde do berço fui fortemente influenciado pelas culturas asiática e africana. Exemplo disso foi o hábito de ler mangás e assistir animes, além de ouvir muita música negra como o jazz, o blues, o soul, o rock e o rap. O sobrenome Hara vem da mãe, a Dona Nair, Yannick também tem um nome japonês que é Seiji, Dias é meu sobrenome paterno, meu pai Seu Francisco.

MN: Quando e porque nasceu O Caçador de Andróides?

YH: O Caçador de Andróides nasceu da influência musical herdada do meu pai, pois quando pequeno, me mostrou a trilha sonora de Vangelis[1]. Me apaixonei por aquela estética sonora, em seguida assisti ao filme Blade Runner (filme de 1982, dirigido por Ridley Scott) e fiquei impressionado como na década de 90 (nasci em 1984 e tive essa experiência 7 anos depois em 91) alguém poderia imaginar como seria o ano de 2019. Na adolescência fui conhecendo mais sobre ficção científica e na vida adulta sobre a cultura cyberpunk, em 2018 iniciei a produção deste disco. Foi como se eu voltasse a infância e realizasse uma idéia que ficou fixa em meu subconsciente, além de ser uma ótima oportunidade em falar tudo aquilo que eu gostaria de dizer, politicamente, socialmente e espiritualmente. 

MN: Quais os elementos dessa estética? Ele é cyberpunk, distópico, mas o que é isso para você?

YH: Sim, o disco é cyberpunk e sim, é distópico. Cyberpunk para mim é a valorização da tecnologia em detrimento da qualidade de vida. Distopia é o mundo em que vivemos, corrupto, desigual, alienado, manipulado, sociopata, escravizado, controlado, enfim nada mais que o hoje, nada mais que a atualidade em que vivemos no Brasil e no mundo. A distopia é real.

MN: O que ou quem Yannick Hara quer ser?

YH: Como artista eu busco viver plenamente da arte e o que a arte possa me proporcionar em sua totalidade e completude. Como ser humano busco o amor e ser livre.

MN: O que você espera que as pessoas que ouçam sintam e vejam em suas mentes?

YH: Espero que elas sintam, vejam o que elas quiserem em suas mentes. Ao ouvir a obra, essa obra não me pertence mais, proponho sempre aos ouvintes que se apropriem do trabalho e realizem suas próprias conclusões, reflexões, narrativas e conceitos . Para mim isso é arte, entregar e compartilhar o todo.

MN: O disco está em um canal, mas ele se pretende algo maior? Tem em mente ser produzido e distribuído como normalmente é feito – gravadora e tal – ou ele é militante nesse sentido de estar acessível de cara?

YH: O disco é totalmente acessível está disponível hoje no que o mercado dispõe, porém ele será também distribuído na forma de CD físico e em breve em vinil pela Unleashed Noise Records, selo e gravadora punk de São Paulo.

Link para ouvir o disco:


[1] Vangelis é um músico grego dos estilos neoclássico, progressivo, música eletrônica e ambiente. Suas composições mais conhecidas são o tema vencedor do Oscar de 1981, com o filme Chariots of Fire (Carruagens de Fogo no Brasil). Dados da Wikipedia. 

O Navio-fábrica Caranguejeiro de Takiji Kobayashi

Por Mateus Nascimento (Via Revista Intertelas)

Você conhece a puroretaria bungaku, a literatura proletária do Japão? Hoje vamos falar de um de seus maiores expoentes: Takiji Kobayashi, autor de Kanikosen. Eram os tempos mais duros da política japonesa. Os gabinetes estavam sob controle dos militares e a economia dando sinais de recuperação lenta. A famosa Era Taisho entrou na história marcada pelos governos conservadores e mais militarizados e pelo expansionismo japonês, dirigido por autoridades militares que tomaram os principais órgãos administrativos.

O escritor Takiji Kobayashi. Crédito: goodreads.

Ao mesmo tempo, cresciam as desigualdades sociais e muitos escritores, pintores e personalidades embarcaram no projeto de contestação a elas: surgia aí uma demanda por uma produção artística que levasse em contato as demandas da sociedade e dos menos favorecidos. Esses artistas eram das mais variadas matizes políticas e propunham mudanças e uma revolução.

Por volta de 1928, as principais revistas do país continham textos desses autores e autoras e o processo de perseguição começou. A visibilidade alcançada tornou-se uma arma mobilizada contra essas vozes dissidentes: muitos foram mortos, outros presos, violentados e em alguns casos utilizados como exemplo para a população do que poderia vir a ocorrer se alguém tomasse as mesmas ideias.

Nesse contexto, vemos o Takiji Kobayashi. Nascido pouco antes desses fatos, no ano de 1903, Takiji viveu em um Japão marcado pela crise. Com o país se recuperando a inflação, muitos japoneses são estimulados a se deslocarem para outros países. O Brasil recebeu muitos por volta de 1908 e tornou-se símbolo dessa campanha estatal pela imigração.

Poderia se pensar que ele acompanhou as primeiras notícias e decidiu se envolver minimamente com as questões desse projeto, pois dentre os seus temas se destacam as táticas repressivas do Estado japonês, as roubalheiras institucionais e a crise na qual se encontravam trabalhadores no contexto da tomada de decisão. Segundo os elementos retomados por Takiji no seu principal livro Kanikosen, sobre o qual falaremos adiante, boa parte das motivações para que trabalhadores migrassem estava no fato de que o estado teria aplicado golpes comerciais no campo, impulsionando crises e deslocamento. Takiji passou a ser perseguido e até investigado pela polícia secreta. Após a “fama”, Kobayashi inicia o projeto mais marcante de sua produção, Kanikosen.

Kanikosen: El pesquero (Spanish Edition) por [Takiji Kobayashi, Shizuko Ono, Jordi Juste]
Capa da versão espanhola do Kanikosen. Créditos: Amazon

A despeito da perseguição que se passa em sua vida, a qual culmina na apoteótica morte em 1933, Kobayashi desenvolveu uma tese sobre a vida dos trabalhadores no Japão que assumiu como missão relatar: segundo ele, havia uma situação de extrema exploração do trabalho que contrastava com o cenário nos pólos de Osaka e Tóquio, mostrado ao Ocidente, que só existia pela falta de organização política da classe trabalhadora.

Para tanto Kobayashi nos apresenta uma fábrica dentro de um navio, o Hakukô-Maru, especializado em pesca e processamento de caranguejos. Sua área de exploração é o mar de Okhotsk, no limite com os mares soviéticos. No seu interior, pescadores, operários, foguistas e tripulantes se juntam num espaço mínimo para dar conta da “missão de abastecer o glorioso Japão com o trabalho do fornecimento de alimentos”.

Cena de processamento do caranguejo do filme Kanikosen de 2009. Créditos: Asian Wiki

Evidentemente, falamos de um navio com variados grupos: os tripulantes oficiais e diretores, o encarregado, normalmente conhecido como capitão, e os demais tripulantes que na sua maioria são oriundos da crise dos campos. O primeiro a ser apresentado é o explorador, capitão Asakawa, que comanda os rumos do navio de acordo com as ordens lhe dadas pelos dirigentes dos zaibatsu do setor. Zaibatsu é um conglomerado de famílias, as quais administram uma ou mais empresas em um determinado setor. Aqui não temos referência direta a nomes, talvez por conta da própria perseguição pela qual passou o autor. Qualquer letra escrita por ele poderia ser uma referência a pessoas ou personalidades daquele momento.

De certa forma, essa elipse é bem mais explícita do que se supõe, pois é possível identificar o império, os órgãos públicos e as liberdades concedidas às empresas no tocante a lei do trabalho, todos em acordo sobre esse conjunto de situações.

Ps.: Kanikosen ainda não foi publicado por nenhuma editora brasileira. Caso queira ler a obra, recomendamos a tradução abaixo:

André Felipe de Sousa. ALMEIDA. O navio-fábrica caranguejeiro, de Kobayashi Takiji: tradução e considerações. 2016. Dissertação (Mestrado em Língua, Literatura e Cultura Japonesa) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, University of São Paulo, São Paulo, 2016.

Tokyo Monogatari: Sim, às vezes a vida é decepcionante mesmo

Por Mayara Araujo

Em 1953, o cineasta japonês Yasujiro Ozu encerrava a “trilogia Noriko” com a aclamada atriz Setsuko Hara – uma espécie de “princesinha do Japão”, cujo legado continua sendo reconhecido até a atualidade – com a sutil e fascinante história de Tokyo Monogatari. No Brasil, o filme ficou conhecido como “Era uma vez em Tóquio”, que é facilmente encontrado para assistir online com legenda em português, inglês ou sem legenda em plataformas de streaming como o Youtube. Com poucos cenários e nem tantos diálogos assim, Tokyo Monogatari nos brinda com um emaranhado de emoções tenras e que, sem dúvida, nos colocam para questionar o quão satisfeitos estamos com a vida dinâmica e atarefada dos séculos XX e XXI. 

Tokyo Monogatari conta a história de um casal de idosos que viajam para a efervescente Tóquio do pós-guerra para reencontrar seus filhos adultos. Ao chegar lá, percebemos que esses filhos se tornaram ocupados demais com suas próprias vidas e rotinas de trabalho para que reservassem um pouco de seu tempo para receber os pais de forma apropriada. Esse suposto descaso é brutalmente contrastado com o carinho afetuoso de sua noras e seu genro, causando um certo incômodo desgostoso no espectador. 

É curioso que em tempos de pandemia e incertezas como estamos enfrentando agora, procuraremos apreciar um filme que nos traz um sentimento conflitante, um pouco amargo e um pouco doce, mas que inevitavelmente nos arranca um suspiro pesaroso acompanhado, mais ao término da narrativa, de um sorriso triste. Tokyo Monogatari não arrancará lágrimas do espectador, pois não se trata de uma narrativa embrulhada em uma dose considerável de melodrama e do desgastante palpitar causado por reviravoltas típicas de diversas histórias. Esse filme nos convida a refletir sobre nossas relações com nossos pais e não nos deixará mais tristes, mas certamente finalizamos essa experiência nos sentindo menos felizes. Como a filha mais jovem desse casal de idosos, Kyoko (Kyoko Kagawa) bem sintetiza mais ao final da trama: não é decepcionante a vida? Sim, Kyoko. Eu acho que ela é.

Tokyo Story (1963) | Tokyo story
Legenda: Diálogo em Kyoko e Noriko. Crédito: Pinterest

Embora possa ser um pouco datada, a premissa só parece fazer sentido por ser justamente ambientada na década de 1950. Esse é também o ponto mais alto do filme. Como espectadores brasileiros, acostumados a associar o Japão a um país vibrante e repleto de tecnologia, ver as breves cenas da Tóquio de 1953 nos direciona para um retorno a um tempo irrecuperável. O próprio preto-e-branco das imagens reforçam essa ideia de um passado que hoje poderia até mesmo ser ficcional. A frieza com que interpretamos as relações humanas do filme também me parecem ser características de um distanciamento físico e desprendimento emocional que somente um retorno ao passado poderiam justificar. Mas seriam, de fato, frias as relações? Talvez a gente precise de um pouco mais do que o nosso olhar ocidentalizado para compreender que embora pareça incompreensível, as relações sustentadas no filme parecem ser baseadas em um afeto melancólico.

Shukichi (Chisu Ryuu) e Tomi Hirayama (Chieko Higashiyama) moram na cidade de Onomichi com sua filha mais nova, Kyoko Hirayama. Em dado dia, o casal faz uma longa viagem de trem para visitar os seus outros filhos: Koichi Hirayama (So Yamamura) – médico – e Shige Kaneko (Haruko Sugimura) – dona de um salão de beleza -, além de sua nora Noriko (Setsuko Hara), esposa de seu filho Shoji, falecido durante a segunda guerra. Existe também um quinto filho, Keizo (Shiro Osaka), que mora na cidade de Osaka. 

Ao chegarem em Tóquio, Shukichi e Tomi se sentem como um incômodo, visto que acabam dependendo exclusivamente do apreço de Noriko, a nora, para conhecer Tóquio e conversar com eles. Seus filhos de sangue, no entanto, não parecem estar muito felizes com a chegada dos pais. Para remediar a situação conturbada, Shige e Koichi usam suas economias para enviar os pais em uma viagem para Atami, uma cidade não muito distante de Tóquio, conhecida por suas fontes termais. Assim, o casal poderia descansar e passear na praia, o que os deixariam mais entretidos e ocupados. Entretanto, a situação não é tão relaxante em Atami quanto se esperava.

Tokyo Story (1953) | The Criterion Collection
Legenda: Tomi e Shukichi em Atami. Crédito: criterion.com

Cansados da barulheira do hotel, Shukichi e Tomi retornam para a casa da filha Shige, que agora se encontra ocupada com uma pequena reunião “de negócios”. Tendo em vista que não havia mais espaço para eles naquele lar, Tomi decide se hospedar uma noite na casa da nora e Shukichi sai para beber com um antigo conhecido que havia se mudado para a capital anos atrás. Nessa situação desconfortável, Tomi aproveita para conversar com Noriko e sugerir que a nora deveria encontrar um novo marido e Shukichi passa mais tempo do que o desejável em um bar e volta para o salão/casa de Shige arrastado pela polícia, completamente bêbado, intensificando a sensação de que os pais estão deslocados.

Percebendo que não há muito espaço para os dois em Tóquio, o casal decide voltar para sua cidade natal. Já na estação de trem, Tomi percebe que essa será a última vez que encontrará sua família, visto que a viagem é longa e cansativa, e eles não têm mais idade para ficar indo e vindo. Assim, a despedida dos filhos é repleta de melancolia. Não por menos, os dois precisam parar abruptamente em Osaka durante o retorno para a casa, uma vez que Tomi não se sentiu muito bem durante a viagem. Ao chegar em Onomichi seu estado de saúde já se encontra bastante debilitado, o que leva Shukichi a enviar telegramas para os filhos, avisando que a mãe poderia falecer em breve.

Koichi, Shige e Noriko vão imediatamente para Onomichi, chegando a tempo de se despedir da mãe, embora estivesse em coma. Keizo, no entanto, não consegue chegar a tempo. Amarrando a lógica do filme, Keizo estava incomunicável quando o telegrama foi enviado, pois estava em uma viagem de trabalho e não havia como receber a informação. “Eu não fui um bom filho”, sintetiza os sentimentos de Keizo durante o funeral da mãe. Em seguida, Shige, Keizo e Koichi decidem ir embora, deixando novamente para trás o seu passado e seu pai, agora sozinho. No entanto, a nora Noriko decide ficar mais um tempo e ajudá-lo no que for preciso. 

Tokyo Story (1953) directed by Yasujirō Ozu • Reviews, film + cast •  Letterboxd
Legenda: Noriko e Shukichi. Crédito: letterbox.com

A filha caçula, Kyoko, conta para Noriko que se sente frustrada e indignada com o egoísmo de seus irmãos. Aqui, talvez pela primeira vez na narrativa inteira, Noriko expressa sua opinião verdadeiramente, ao dizer para Kyoko que ela entenderá quando for mais velha e que não se trata de falta de consideração ou egoísmo. É simplesmente normal que os filhos se tornem ocupados e se distanciem de seus próprios pais. “Não é decepcionante a vida?”, questiona Kyoko, antes de partir para o trabalho, trazendo um sentimento definitivamente agridoce para as complexas relações humanas.

Ao fim, antes de Noriko voltar para Tóquio, Shukichi revela que sua esposa andava preocupada com o fato de Noriko não ter casado de novo e que a considerava uma “filha” muito boa. Também compartilha que a gentileza de Noriko foi, inclusive, superior à de seus próprios filhos, mesmo sem ter o mesmo sangue. Ele a incentiva a não viver a vida de forma solitária e casar novamente, deixando o sogro – e seu passado – para trás.

Talvez minhas palavras não capazes de refletir sutileza o suficiente para retratar o pesar ironicamente leve que essa obra de arte dirigida e co-roteirizada por Ozu nos apresenta. Como a vida nos obriga a moldar as nossas relações interpessoais? O quanto as dinâmicas da vida são capazes de nos afastar de nossos berços para que persigamos objetivos próprios e nos ceguem para o que fica para trás? Tokyo Monogatari traduz brilhantemente um sentimento agridoce de obrigação e abandono que nem sequer tem um nome.

Setsuko Hara and Chishû Ryû in Tôkyô monogatari (1953)
Crédito: IMDB

Ficha técnica:

País: Japão | Direção: Yasujiro Ozu | Roteiro: Yasujiro Ozu e Kogo Noda | Atores: Setsuko Hara, Chieko Hagashiyama, Chisu Ryuu, Haruko Sugimura, Kyoko Kagawa, Shiro Osaka, So Yamamura | Duração: 136min |  Ano: 1953. 

An – O sabor da vida: Tudo neste mundo tem algo a nos contar, basta que estejamos dispostos a ouvir

Por Edylene Daniel Severiano

“Acredito que tudo neste mundo tem uma história para contar (…).” “Tentamos viver nossas vidas de forma irrepreensível, mas, às vezes somos esmagados pela ignorância do mundo.” Tokue

Não estivesse datado de 2015, o premiado filme nipo-franco-alemão, de roteiro de Tetsuya Akikawa e Naomi Kawase, trazido à vida no ecrã pelo habilidoso e sutil olhar de Kawase, An (Sabor da Vida), poderia ser datado de um futuro próximo, inspirado nas vicissitudes de nossos dias, agora mais longos pela incerteza que nos atravessa, melhor, inspirado na ausência que nos trouxe ao aqui-agora: a inapetência da escuta que nos atropela por todos os lados numa avalanche de ignorância. Nossa ignorância, nossa incapacidade de ouvir o mundo.

Baseado no romance homônimo de Durian Sukegawa, An oferece uma ode às relações familiares e à natureza, numa trama centrada nas histórias de três personagens: uma mulher idosa, um homem de meia idade e uma estudante. Um filme de cores e fotografias suaves, em que o signo que se afirma preponderante é o som, assim se inicia a película, com os sons estridentes das coisas no mundo: trem, vozes de transeuntes, arrastar de pés; mas no profundo quase silêncio de duas das personagens principais, a tímida Wakana e o introspectivo Sentarô.

Interpretada por Kyara Uchida, a adolescente Wakana se mostra deslocada no mundo, presa a uma relação distante com sua mãe, que não a estimula a continuar os estudos, e isolada dos colegas de escola. Seu centro de interação é a pequena loja de dorayaki onde Sentarô trabalha sozinho, para onde ela vai, faz um lanche e recebe dele as sobras de massa que “não deram certo”. O silêncio da jovem faz-se gritante pelo contraste com outras jovens na loja, efusivas, contentes, brincando entre si e até com Sentarô, enquanto Wakana apenas se limita a saudações e agradecimentos. Mesmo em casa, sua mãe e seu canário, Marvy, emitem mais sons do que a jovem. É sabido que a fala é uma expressão da dobra com a ausculta, elaborada por meio do silêncio, e é neste que Wakana está contida, sem conseguir fazer-se ouvir.

Crédito: IMDB, 2020

Como um contínuo dessa inércia está Sentarô, interpretado por Masatoshi Nagase, um homem na casa dos 40 anos que se dedica a uma pequena loja de dorayaki, sem ao menos gostar de doces. Indiferente aos clientes, em sua maioria jovens estudantes descontraídas, passa seus dias entre a pequena loja, seus cigarros e seu apartamento, inerte a todos, todos os sons ao redor, silente como Wakana. Uma das cenas iniciais do filme traz Sentarô arrastando os pés até o terraço de seu prédio, indo fumar antes de mais um dia de trabalho. O som de seu arrastar de pés revela o mais profundo que há no seu ser: o vazio. Como pacientes, ambos, Sentarô e Wakana, parecem esperar a aparição de Tokue para propagar e dar sentido às suas vidas.

Interpretada pela talentosa Kirin Kiki, logo nas primeiras cenas uma pequena e frágil senhora que conversa com as árvores, o Sol, a Lua, Tokue, que está em mais um de seus passeios, aparece na loja de dorayaki e indaga Sentarô quanto à cerejeira plantada em frente à loja. Ele se limita a responder que não era dali. A frágil senhora, então, mostra-seinteressada na oferta de trabalho que constava no letreiro em frente à loja, e, após, trocar algumas palavras com o doceiro, esse lhe pergunta sua idade e se surpreende, já que o trabalho seria pesado para uma senhora de 76 anos. Tokue insiste e pede para o futuro chefe pensar. Ele, não muito receptivo, oferece-lhe um dorayaki. Tokue se despede, agradece e parte, não sem antes cumprimentar a cerejeira. Wakana, que observava a cena, pergunta se, caso ele não contratasse Tokue, ela poderia trabalhar como sua ajudante. Sentarô menciona a escola e a menina afirma que a abandonará.

Essa cena inusitada poderia ser mais uma, mas é o mote para a narrativa de Kawase se desenvolver. Passados alguns dias, Tokue retorna à loja reiterando seu pedido de trabalho. Diante da negativa de Sentarô, comenta que provou o dorayaki e que a massa até estava boa, mas a pasta de feijão doce (an) não, deixando assim a an, que ela mesma preparara, para o doceiro experimentar. Sentarô, no fim do expediente, olha para o pote de doce e o joga no lixo, mas em um ímpeto recolhe e resolve experimentar. Nesse momento seu mundo se abre. A an, pasta de feijão azuki adocicada, que dá nome ao filme, era saborosa. Dias depois quando Tokue retorna, ele a contrata e tem início uma jornada pelo sabor do An, pelo sabor da vida. Tokue ensina as minúcias do preparo, que começa antes do raiar do “Senhor Sol” e exige horas de paciente escuta e apreciação. Em pouco tempo o dorayaki feito por eles fica famoso e cada vez mais clientes vêm à loja.

Crédito: IMDB, 2020

O tempo passa, as estações passam e tudo parece transcorrer bem, até que a proprietária aparece e exige que o doceiro demita sua ajudante. Tokue tinha as mãos defeituosas, sequela da lepra que a acometera ainda na adolescência. Apesar da insistência, fraca, de Sentarô, sua chefe afirma que, se as pessoas souberem, deixarão de frequentar a loja. Emerge assim uma face da sociedade japonesa a que o público mais geral está pouco afeito, a face da exclusão e do preconceito. O doceiro, sem coragem de demitir Tokue, que afirmava já estar curada, e estava, vê com o passar do tempo o estabelecimento se esvaziar. Não importava que Tokue estivesse curada, o medo e o estigma falaram mais alto. E um dia a frágil e determinada senhorinha não mais retorna.

No decorrer dos dias da ausência da doce Tokue, inconformado com a situação, Sentarô entrega-se à desolação. Até que um dia sua ajudante quebra o silêncio ao lhe escrever uma carta expressando o quanto era grata por ter estado ao lado dele e por ter novamente podido preparar a an, afinal esse tinha sido seu trabalho por 50 anos. Suas palavras, doces e suaves, como a pasta que fazia, tocam o coração de Sentarô: “Acredito que tudo neste mundo tem uma história para contar (…)”. Assim Tokue conta como ouvia os feijões, suas histórias desde os campos até a panela, acolhia-os com sua suavidade e os adoçava com ternura e paciência, respeitando seu tempo de preparo.

Ao lado de Wakana, Sentarô parte em busca de Tokue. O local é uma antiga área de isolamento de pessoas com hanseníase. A chegada até lá tem um quê de viagem bucólica, há uma pequena floresta e depois dela uma Tokue mais frágil e debilitada, que conta como chegara até ali, ainda muito jovem, e nunca mais vira sua mãe, tampouco pôde ter seu filho. Os laços de cuidado e afeto, até então discretos, evidenciam-se: uma mãe sem seu filho, um filho sem sua mãe e uma criança sem cuidados, assim estavam Tokue, Sentarô e Wakana antes de ouvirem juntos os feijões azuki. Sentarô, num gesto confessional, escreve uma carta a Tokue revelando porquê emudecera diante do mundo:  ao apartar uma briga acabou ferindo alguém e por isso ficara preso por três anos. Nesse ínterim, sua mãe veio a falecer e ele não pode mais ouvir o que ela tinha para contar, suas histórias: emudecera diante do silêncio. E intentando entregá-la guarda-a.

Crédito: IMDB, 2020

O doceiro, motivado pelas palavras de sua ajudante, retoma o trabalho, dedicando-se a fazer a an e com a ajuda de Wakana vê seu trabalho com entusiasmo, quando mais um empurrão os silencia: a proprietária tem planos de modernização da loja e impõe um novo ajudante, que virá a ser chefe de Sentarô. Desnorteados Sêntaro e Wakana partem de novo em busca de Tokue, mas são informados por Yoshiko, sua amiga do asilo, de que ela falecera. Ela, porém, lega a Sentarô seus instrumentos de cozinha e a Wakana um pedido de desculpas por não ter podido cuidar de Marvy, não pudera mantê-lo preso. Yoshiko conta-lhes, ainda, que, como eles não podem ser sepultados, é plantada uma árvore quando um deles falece e os leva à árvore de Tokue, uma cerejeira, em meio a uma pequena floresta, uma pequena floresta capaz de falar a quem quiser ouvir.

Kawase, assim, oferece ao espectador uma reflexão sobre as relações familiares e a natureza, e como essas entrelaçam-se pelas falas e auscultas, lembrando que todos têm algo a oferecer, não importando a idade. Não há seres descartáveis, o que deve ser isolado é o medo do diferente. Mais do que os feijões, Tokue se dedicava a ouvir o mundo, a ouvir o som, a voz, as narrativas que as pequenas coisas têm para contar, as minúcias daquilo que compõe o cotidiano. Impedida de ouvir seus entes queridos, restou a Tokue aprender a ouvir a natureza, os sentidos e sentimentos que essa expressa, inclusive os alimentos. A natureza, então, é o que passa a atá-la ao mundo. Kawase dá forma a uma pequena família, cujos membros conseguem se conectar a partir da escuta da natureza: Tokue que aprendera a ouvir o mundo, como mãe e avó, dedica-se a ensinar essa escuta motivadora da presença, do estar, da agência no mundo, da fala. Sentarô encontra a voz perdida de uma mãe a acolher seu filho e prepará-lo para o mundo. E  Wakana, que não conseguia ser ouvida por sua mãe, recebe de Tokue e Senterô o incentivo para encarar a vida. Desse modo, ela lega aos dois o aprendizado de ouvirem as vozes do mundo, da natureza, para que assim, ecoem e falem. Numa prática das ideias para adiar o fim do mundo, Tokue adia o fim de dois mundos, dos sonhos de Sentarô e Wakana. “Não há inverno que não seja seguido da primavera”, diz um provérbio japonês. Como tal, Sentarô e Wakana veem florescer suas vidas, ela seguindo seu sonho de estudar e ele finalmente deixando a doçura do dorayaki guiar sua vida.

O que faz do filme de Kawase um diálogo contemporâneo, pois, mais do que nunca, mas tanto quanto antes, todas as formas de humanidades são convocadas a ouvir o que as coisas do mundo têm a dizer, como afirma Tokue: “Viemos a este mundo para vê-lo e ouvi-lo” (tradução livre da autora).

Crédito: IMDB, 2020

Ficha técnica:

País: Japão; França; Alemanha | Direção: Naomi Kawase | Roteiro: Durian Sukegawa (livro), Tetsuya Akikawa, Naomi Kawase | Elenco: Kirin Kiki, Masatoshi Nagase, Kyara Uchida | Duração: 113 min | Ano: 2015.

High Score Girl I: um anime sobre videogames e amadurecimento

Por Mayara Araujo

Baseado no mangá de Rensuke Oshikiri, publicado pela desenvolvedora de jogos Square Enix em parceria com a revista Monthly Big Gangan, o animê High Score Girl hoje conta com duas temporadas completas e três episódios em OVA, foi produzido pela J.C.Staff e Shogakukan Music & Digital Entertainment durante os anos de 2018 e 2019. Os direitos de distribuição foram adquiridos pela plataforma de streaming Netflix, que colaborou para difundir internacionalmente esse animê do gênero seinen (voltado para um público predominantemente adulto e masculino). Embora o design dos personagens animados não seja particularmente apelativo para todos os gostos, o animê surpreende pela sensibilidade com que trata questões sobre amadurecimento em congruência com uma série de metáforas inspiradas em jogos clássicos de videogames e fliperamas.

A história retoma a década de 1990 em um saudosismo e tom nostálgico de um Japão que vivenciada o boom dos das lojas de jogos e fliperamas que, por sinal, continuam sendo um ambiente bastante popular até os dias de hoje. Repleto de referência aos clássicos jogos de luta, como Street Fighter e The King of Fighters, acompanhamos a jornada de nosso jovem protagonista Yaguchi Haruo (Kohei Amazaki), um ávido gamer que ainda frequentava o ensino fundamental e possuía como rotina sair da escola e passar em lojas de jogos para ampliar as suas habilidades. O que ele não esperava, no entanto, era ser humilhantemente derrotado no Street Fighter II enquanto utilizava táticas secretas para garantir sua vitória, por uma misteriosa menina cujo rosto e nome ainda se faziam desconhecidos para Haruo.

Ono Akira (Sayumi Suzushiro), por sua vez, é descendente de um zaibatsu (conglomerados industriais) e se comporta justamente da forma oposta à Haruo. Vinda de uma família rica, extremamente controladora e rígida, ela encontra seu subterfúgio nos fliperamas, nas raras oportunidade nas quais consegue fugir de casa e se distrair. Em uma dessas escapadas, Akira acaba duelando com Haruo que dificulta a sua vitória ao se valer das supracitadas técnicas secretas. Com isso, uma história de rivalidade e amizade tem início e acaba se transformando em uma intensa relação de amor e ódio entre as duas crianças.

Fonte: interprete.me

Sem nunca abandonar a rivalidade nos jogos, Haruo e Akira se tornam gradativamente mais participativos um na vida do outro, compreendendo seus dilemas e problemas familiares. No entanto, essa relação ainda incipiente de afeto entre os dois personagens acaba por ter uma interrupção abrupta, quando Haruo descobre que a família de Akira a enviará para estudar no exterior. Infelizes com o afastamento repentino, Haruo começa a aprender a lidar com seus sentimentos juvenis ao correr para o aeroporto para se despedir de sua maior rival – e primeiro amor. Como um gesto de afeto e respeito, Haruo entrega um anel obtido em gacha gacha – um tipo de máquina de venda automática muito populares no Japão, nas quais se oferece pequenas action figures e outros objetos pegos na sorte – para Akira levar de lembrança dos momentos que compartilharam juntos. 

Ainda no Japão, anos depois, Haruo estabelece como meta de vida treinar bastante nos fliperamas para que no dia em que Akira retornasse, ele estivesse preparado para derrotá-la. Entretanto, o que Haruo não esperava era encontrar nessa jornada solitária uma companhia que viria a deixar os seus dias turbulentos no decorrer de sua juventude. Uma colega de classe tímida e introvertida também se torna interessada pelos famosos jogos de fliperama ao observar rotineiramente a afeição que Haruo sente pelos arcades. Inicialmente sem se arriscar a jogar, Hidaka Koharu (Yuki Hirose) vivencia empolgação da competição através dos olhos de Haruo, que acaba a convidando para compartilhar da experiência. Assim como Akira, Hidaka tem um talento natural para os jogos e desenvolve as suas habilidades progressiva e rapidamente. Não é uma surpresa, portanto, que Haruo passe a prestar mais atenção nessa nova amizade e, consequentemente, nessa nova rivalidade.

Enquanto Haruo enxerga Hidaka meramente como uma parceira de jogos e uma desafiante em potencial, Hidaka passa a nutrir sentimentos mais complexos em relação à Haruo. Conforme o tempo passa, ela vai se dando conta de que seus sentimentos de raiva e frustração que são paulatinamente transpostos através de suas vitórias agressivas nos jogos, são decorrentes de uma emoção ainda desconhecida em seu vocabulário. Com medo de nomeá-lo, Hidaka em um primeiro momento reprime os seus sentimentos na medida em que percebe que Haruo não têm acompanhado o mesmo timing de maturidade do que ela. Entretanto, quando em uma viagem escolar um rosto conhecido retorna à cena, Hidaka percebe que sua rivalidade com Haruo em nada significa perto do que está por vir. Ao perceber que Haruo nutre sentimentos por uma misteriosa garota de cabelo roxo, ela percebe que precisa agir.

Fonte: Jbox

No ensino médio, nossos protagonistas desfrutam de um novo ambiente escolar, agora separados. Nesse sentido, o lugar propício para reencontros e o desabrochar de suas emoções fica restrito às lojas de fliperamas. Aqui, pela primeira vez, Hidaka e Akira se encontram oficialmente e se apresentam apropriadamente. Também é a primeira vez que as duas têm a possibilidade de duelar juntas em diversos jogos da loja de arcade. Hidaka não perde a oportunidade de indaga Akira sobre os sentimentos dela sobre Haruo. No entanto, como de costume, o silêncio de Akira é a resposta. Ao mesmo tempo, suas manobras nos jogos se tornam mais agressivas e violentas, deixando claro a rivalidade amorosa entre as duas, e derrotando ferozmente Hidaka. Nesse sentido, as palavras se tornam insignificante e os jogos se tornam responsáveis por transmitir, uma para a outra, os seus pensamentos. 

A vida de Akira, no entanto, se torna mais dura e mais difícil no decorrer dos episódios. Os métodos educacionais caseiros nos quais ela se encontra vão se tornando mais rígidos na medida em que ela foge para apreciar os jogos no fliperama, o que a leva a fugir para outra cidade. Haruo, então, corre desesperadamente atrás de sua principal rival e primeiro amor. Ao saber dos últimos eventos, Hidaka, por sua vez, percebe que é hora de agir e deixar suas próprias palavras expressarem os seus sentimentos, para além dos personagens dos jogos. A temporada encerra, por fim, com o lançamento do playstation I e a sua declaração de amor.

Paralelamente ao amadurecer físico e emocional, o animê se debruça sobre o lançamento de grandes ícones do mundo dos jogos, retratando a excitação da juventude da época ao se deparar com novos jogos e com as versões mais atualizadas dos melhores. Há de se ressaltar aqui a fidelidade com que o animê trata os gráficos da época e a evolução dos mesmos. Além dos supracitados títulos, o animê também conta com a aparição de jogos populares como Mortal Kombat, Samurai Shodown, Space Invaders, Final Fight, dentre outros. Assim, alguns dos personagens desses títulos aparecem recorrentemente como parte da história do animê, através de uma metalinguagem na qual os vídeo-games ajudam aos protagonistas a entenderem os seus próprios sentimentos. Trazendo, por fim, uma nova camada de complexidade para os próprios personagens do universo gamer.

Fonte: manualdosgames.com

A primeira temporada de High Score Girl é uma grata surpresa do catálogo da Netflix brasileira. Com um tom divertido e nostálgico, o animê nos teletransporta de volta para a década de 1990 de uma realidade nem tão semelhante a da juventude brasileira, mas que consegue dialogar perfeitamente com os fãs de jogos da época, através de uma série de referências que aquece e saúda os nossos corações de jogadores ao mesmo tempo em que nos remete aos percalços de nossos primeiros amores e trajetos de amadurecimento individual. 

Ficha técnica:

País: Japão | Direção: Yoshiki Yamakawa | Roteiro: Tatsuhiko Urahata | Dubladores: Kohei Amazaki, Sayumi Suzushiro e Yuki Hirose | Emissoras: TokyoMX, MBS, BS11 | Episódios: 12  Ano: 2018.