Admirável Poesia de Mi-ja

Por Mateus Nascimento

Se você gosta de cinema coreano para pensar as questões sociais de nosso tempo, gostaríamos de sugerir para você ver o filme Poesia de Lee Chang-Dong.

Lançado em 2010, Poesia, 시 (Si na língua original), desponta como uma das obras mais filosóficas do diretor, recentemente reconhecido pelo filme Burning, Em chamas em português, inspirado num conto de Haruki Murakami (Queimar Celeiros). Por sua vez, Poesia conta a história da sofrida dona Mi-ja, uma avó na casa dos 66 anos que descobre princípios de da doença de Alzheimer após diagnóstico de seus esquecimentos leves.

A interpretação brilhante de Yoon Jeong-hee (1944–), uma das atrizes mais reconhecidas da Coreia do Sul desde pelo menos 1967, com variados prêmios de interpretação de papéis dramáticos, é composta ainda de um drama paralelo a esse: ela cuida de um neto em tempo integral, sozinha sem ajuda dos progenitores, e descobre as ações dele, dentre elas um estupro de uma estudante da mesma escola.

Cartaz do filme. Créditos: Amazon.

A história é impactante por vários motivos. Vemos na tela o que seria um drama do envelhecimento na Coreia do Sul, questionando todas as nossas expectativas e estereótipos do sucesso das políticas sociais das sociedades asiáticas. Some-se a isso a questão social do abandono parental pela qual podem passar os filhos de toda uma geração orientada para o sucesso profissional acima de tudo e todos, o impacto de doenças degenerativas ainda sem cura no planeta apesar de alguns países estarem melhor preparados do que outros etc. São muitos dramas e questões e dona Mi-ja brilha na tela por representar um questionamento que aparece nas entrelinhas da narrativa: a possibilidade de nós nos encontrarmos conosco mesmos no exato momento da crise, do trauma, da estafa ou da situação limite.

Afinal, como seria possível para alguém como ela, abandonada e abraçada a própria determinação de viver se reinventar diante de algo que a corrói por dentro? Nisso entra a poesia, a poética e o ponto central, mais provocante: uma senhora sem quaisquer condições decide ser poeta e praticar aquilo que muitos poetas apregoam, uma observação cuidadosa e paciente do mundo ao redor.

Voltando a dona Mi-ja, ficamos sabendo que mesmo com a idade avançada ainda trabalha ocasionalmente para complementar a renda, a ponto de se submeter aos serviços em casa de famílias para conseguir resolver suas contas e necessidades e as do neto também.

Yoon Jeong-hee é dona Mi-ja no filme Poesia de Lee Chang-Dong (2010). Créditos: Pinterest.

Concomitante, quando alguns pais envolvidos descobrem as atrocidades cometidas por ele e seu grupo da escola, ela é inserida em uma grande negociação indenizatória, para que todos os envolvidos saiam ilesos, sem registros criminais que afetariam os negócios de família. Uma condenação ou uma exposição exagerada poderia prejudicar eternamente o futuro do negócio dos pais (que devem continuar na vida dos seus filhos, roboticamente destacados para a tarefa) e o desenvolvimento social deles, embora a primeira preocupação seja mais forte.

Certamente, a querida dona Mi-ja já é uma vencedora por suportar tamanhas demandas sendo quem é, materialmente falando.

Nesse somatório de absurdos, de coisas que nos constrangem e irritam (traço típico das construções fílmicas do diretor) reside a poética de Lee Chang-Dong: como um conhecedor da cultura coreana (ele foi funcionário do ministério da Cultura deste país), ele aponta com o dedo em riste sem pudor para dentro da comunidade sul coreana e nos lança as mesmas questões, mostrando através das imagens que essa situação dramática da humanidade tem haver com todos os participantes da comunidade humana, sobretudo, por nos calarmos diante de situações como essas. Todos temos alguma culpa e deveríamos ter o ímpeto de procurar alguma resposta diante da dor dos outros. 

Ao propor um enredo com uma senhora que se descobre poeta após (repito: após!) saber ser portadora de Alzheimer, Lee está sugerindo, pelo menos, uma tomada de posição. Perceba-se desde já que cada plano carrega pelo menos duas exclamações: a situação de Mi-ja não é inverossímil! A situação de Mi-ja deveria ser inaceitável! Contudo, Mi-ja mora na Coreia, no Brasil e em toda parte do mundo que não se permita refletir sobre envelhecimento. Bom filme.

Trailer do filme no Youtube

Ficha técnica: Poesia (Si), de Lee Chang-dong (Coréia do Sul, 2010).

Persépolis: a Revolução vista por uma menina

Por Fabiane Assaf (Via CEA-Centro de Estudos Asiáticos da UFF)

Quando se fala em revolução, muitas imagens surgem em nossa cabeça, como a chegada de operários ao poder ou grupos de guerrilha armados. Neste cenário, como pensar uma revolução islâmica e teocrática, caso da Revolução Iraniana de 1979, que teve consequências marcantes não somente para o Oriente Médio, como para o ocidente?

A sugestão de hoje responde à pergunta anterior e é a do filme “Persépolis” (2000), da artista gráfica Marjane Satrapi. Trata-se de uma animação de 96 minutos baseada na obra estilo quadrinhos homônima da autora. A história do filme é espécie de autobiografia da autora e retrata a vida no Irã pré e pós revolucionário. Marjane Satrapi nasceu no Irã em 1969 numa família que tinha ligações com o movimento comunista e muito cedo teve de ir morar na Europa por motivação política, fato que marca a sua vida. Assistiu em sua infância e início da adolescência aos eventos mais marcantes pré-revolucionários incluindo a queda do Xá, o regime inicial de Ruhollah Khomeini, e os primeiros anos da Guerra Irã-Iraque.

Aos 14 anos, em 1983, Satrapi teve de ser enviada a Viena, Áustria, por seus pais, a fim de fugir do regime iraniano e lá estudou no Liceu Francês de Viena. Como visto em sua autobiografia, ela permaneceu em Viena durante o ensino médio, morando na casa de amigos, em pensionatos e repúblicas estudantis, até finalmente ficar desabrigada e morar nas ruas. Após  sofrer um ataque quase mortal de pneumonia, devido às precárias condições de vida a que estava submetida, ela retornou ao Irã, onde casou-se com um iraniano.

Marjane na vida real X Marjane em Persepolis (2000)

O filme é importante justamente porque aborda a crise de identidade que sofreu a protagonista ao retornar para sua cidade natal, Teerã. Enquanto no tempo em que viveu na Europa aprendeu a conviver e ter suas relações pautadas pelo status de imigrante terceiro-mundista, já não conseguiu sentir-se igual aos seus conterrâneos iranianos, familiares e amigos, ao retornar  pela influência dos hábitos e pensamento ocidentais.  

A reflexão é pertinente não somente por abordar as questões identitárias, como para pensar de que formas a guerra pode afetar o cotidiano, o emocional e a vida das pessoas, bem como os ruídos práticos do que Edward Said (1978) chama de orientalismo, ou seja, a forma como o Ocidente retrata o Oriente a partir de perspectivas próprias. Além disso, trata-se de valioso relato de um grave conflito político de proporções globais, a Revolução Iraniana de 1979, da perspectiva de uma criança, cujo vínculo familiar e busca pelo pertencimento, amor, amizade e lugar no mundo são latentes, característica comum a qualquer adolescente.

Em entrevista concedida à atriz Emma Watson em 2006, Marjane Satrapi explica sua escolha pela tinta preta para a produção da HQ justificando-a pelo fato de que nas histórias em quadrinhos a informação visual é tão importante quando a escrita, a opção pelo preto sendo espécie de facilitador do ritmo de leitura de uma história densa e na qual havia muito para ser contado.

Leitura e filme obrigatórios!

Fonte: Youtube

Ficha Técnica:

País: Estados Unidos da América, França | Direção: Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud | Estreia: 27 de junho de 2007  | Duração: 96 minutos.

Tokyo Monogatari: Sim, às vezes a vida é decepcionante mesmo

Por Mayara Araujo

Em 1953, o cineasta japonês Yasujiro Ozu encerrava a “trilogia Noriko” com a aclamada atriz Setsuko Hara – uma espécie de “princesinha do Japão”, cujo legado continua sendo reconhecido até a atualidade – com a sutil e fascinante história de Tokyo Monogatari. No Brasil, o filme ficou conhecido como “Era uma vez em Tóquio”, que é facilmente encontrado para assistir online com legenda em português, inglês ou sem legenda em plataformas de streaming como o Youtube. Com poucos cenários e nem tantos diálogos assim, Tokyo Monogatari nos brinda com um emaranhado de emoções tenras e que, sem dúvida, nos colocam para questionar o quão satisfeitos estamos com a vida dinâmica e atarefada dos séculos XX e XXI. 

Tokyo Monogatari conta a história de um casal de idosos que viajam para a efervescente Tóquio do pós-guerra para reencontrar seus filhos adultos. Ao chegar lá, percebemos que esses filhos se tornaram ocupados demais com suas próprias vidas e rotinas de trabalho para que reservassem um pouco de seu tempo para receber os pais de forma apropriada. Esse suposto descaso é brutalmente contrastado com o carinho afetuoso de sua noras e seu genro, causando um certo incômodo desgostoso no espectador. 

É curioso que em tempos de pandemia e incertezas como estamos enfrentando agora, procuraremos apreciar um filme que nos traz um sentimento conflitante, um pouco amargo e um pouco doce, mas que inevitavelmente nos arranca um suspiro pesaroso acompanhado, mais ao término da narrativa, de um sorriso triste. Tokyo Monogatari não arrancará lágrimas do espectador, pois não se trata de uma narrativa embrulhada em uma dose considerável de melodrama e do desgastante palpitar causado por reviravoltas típicas de diversas histórias. Esse filme nos convida a refletir sobre nossas relações com nossos pais e não nos deixará mais tristes, mas certamente finalizamos essa experiência nos sentindo menos felizes. Como a filha mais jovem desse casal de idosos, Kyoko (Kyoko Kagawa) bem sintetiza mais ao final da trama: não é decepcionante a vida? Sim, Kyoko. Eu acho que ela é.

Tokyo Story (1963) | Tokyo story
Legenda: Diálogo em Kyoko e Noriko. Crédito: Pinterest

Embora possa ser um pouco datada, a premissa só parece fazer sentido por ser justamente ambientada na década de 1950. Esse é também o ponto mais alto do filme. Como espectadores brasileiros, acostumados a associar o Japão a um país vibrante e repleto de tecnologia, ver as breves cenas da Tóquio de 1953 nos direciona para um retorno a um tempo irrecuperável. O próprio preto-e-branco das imagens reforçam essa ideia de um passado que hoje poderia até mesmo ser ficcional. A frieza com que interpretamos as relações humanas do filme também me parecem ser características de um distanciamento físico e desprendimento emocional que somente um retorno ao passado poderiam justificar. Mas seriam, de fato, frias as relações? Talvez a gente precise de um pouco mais do que o nosso olhar ocidentalizado para compreender que embora pareça incompreensível, as relações sustentadas no filme parecem ser baseadas em um afeto melancólico.

Shukichi (Chisu Ryuu) e Tomi Hirayama (Chieko Higashiyama) moram na cidade de Onomichi com sua filha mais nova, Kyoko Hirayama. Em dado dia, o casal faz uma longa viagem de trem para visitar os seus outros filhos: Koichi Hirayama (So Yamamura) – médico – e Shige Kaneko (Haruko Sugimura) – dona de um salão de beleza -, além de sua nora Noriko (Setsuko Hara), esposa de seu filho Shoji, falecido durante a segunda guerra. Existe também um quinto filho, Keizo (Shiro Osaka), que mora na cidade de Osaka. 

Ao chegarem em Tóquio, Shukichi e Tomi se sentem como um incômodo, visto que acabam dependendo exclusivamente do apreço de Noriko, a nora, para conhecer Tóquio e conversar com eles. Seus filhos de sangue, no entanto, não parecem estar muito felizes com a chegada dos pais. Para remediar a situação conturbada, Shige e Koichi usam suas economias para enviar os pais em uma viagem para Atami, uma cidade não muito distante de Tóquio, conhecida por suas fontes termais. Assim, o casal poderia descansar e passear na praia, o que os deixariam mais entretidos e ocupados. Entretanto, a situação não é tão relaxante em Atami quanto se esperava.

Tokyo Story (1953) | The Criterion Collection
Legenda: Tomi e Shukichi em Atami. Crédito: criterion.com

Cansados da barulheira do hotel, Shukichi e Tomi retornam para a casa da filha Shige, que agora se encontra ocupada com uma pequena reunião “de negócios”. Tendo em vista que não havia mais espaço para eles naquele lar, Tomi decide se hospedar uma noite na casa da nora e Shukichi sai para beber com um antigo conhecido que havia se mudado para a capital anos atrás. Nessa situação desconfortável, Tomi aproveita para conversar com Noriko e sugerir que a nora deveria encontrar um novo marido e Shukichi passa mais tempo do que o desejável em um bar e volta para o salão/casa de Shige arrastado pela polícia, completamente bêbado, intensificando a sensação de que os pais estão deslocados.

Percebendo que não há muito espaço para os dois em Tóquio, o casal decide voltar para sua cidade natal. Já na estação de trem, Tomi percebe que essa será a última vez que encontrará sua família, visto que a viagem é longa e cansativa, e eles não têm mais idade para ficar indo e vindo. Assim, a despedida dos filhos é repleta de melancolia. Não por menos, os dois precisam parar abruptamente em Osaka durante o retorno para a casa, uma vez que Tomi não se sentiu muito bem durante a viagem. Ao chegar em Onomichi seu estado de saúde já se encontra bastante debilitado, o que leva Shukichi a enviar telegramas para os filhos, avisando que a mãe poderia falecer em breve.

Koichi, Shige e Noriko vão imediatamente para Onomichi, chegando a tempo de se despedir da mãe, embora estivesse em coma. Keizo, no entanto, não consegue chegar a tempo. Amarrando a lógica do filme, Keizo estava incomunicável quando o telegrama foi enviado, pois estava em uma viagem de trabalho e não havia como receber a informação. “Eu não fui um bom filho”, sintetiza os sentimentos de Keizo durante o funeral da mãe. Em seguida, Shige, Keizo e Koichi decidem ir embora, deixando novamente para trás o seu passado e seu pai, agora sozinho. No entanto, a nora Noriko decide ficar mais um tempo e ajudá-lo no que for preciso. 

Tokyo Story (1953) directed by Yasujirō Ozu • Reviews, film + cast •  Letterboxd
Legenda: Noriko e Shukichi. Crédito: letterbox.com

A filha caçula, Kyoko, conta para Noriko que se sente frustrada e indignada com o egoísmo de seus irmãos. Aqui, talvez pela primeira vez na narrativa inteira, Noriko expressa sua opinião verdadeiramente, ao dizer para Kyoko que ela entenderá quando for mais velha e que não se trata de falta de consideração ou egoísmo. É simplesmente normal que os filhos se tornem ocupados e se distanciem de seus próprios pais. “Não é decepcionante a vida?”, questiona Kyoko, antes de partir para o trabalho, trazendo um sentimento definitivamente agridoce para as complexas relações humanas.

Ao fim, antes de Noriko voltar para Tóquio, Shukichi revela que sua esposa andava preocupada com o fato de Noriko não ter casado de novo e que a considerava uma “filha” muito boa. Também compartilha que a gentileza de Noriko foi, inclusive, superior à de seus próprios filhos, mesmo sem ter o mesmo sangue. Ele a incentiva a não viver a vida de forma solitária e casar novamente, deixando o sogro – e seu passado – para trás.

Talvez minhas palavras não capazes de refletir sutileza o suficiente para retratar o pesar ironicamente leve que essa obra de arte dirigida e co-roteirizada por Ozu nos apresenta. Como a vida nos obriga a moldar as nossas relações interpessoais? O quanto as dinâmicas da vida são capazes de nos afastar de nossos berços para que persigamos objetivos próprios e nos ceguem para o que fica para trás? Tokyo Monogatari traduz brilhantemente um sentimento agridoce de obrigação e abandono que nem sequer tem um nome.

Setsuko Hara and Chishû Ryû in Tôkyô monogatari (1953)
Crédito: IMDB

Ficha técnica:

País: Japão | Direção: Yasujiro Ozu | Roteiro: Yasujiro Ozu e Kogo Noda | Atores: Setsuko Hara, Chieko Hagashiyama, Chisu Ryuu, Haruko Sugimura, Kyoko Kagawa, Shiro Osaka, So Yamamura | Duração: 136min |  Ano: 1953. 

O Motorista de Táxi: as lições políticas do filme ao cidadão comum

Por Alessandra Scangarelli (Via KoreaPost)

Em 18 de maio de 1980, a cidade de Gwangju, na Coreia do Sul, passou por uma revolta popular que ficaria na história como a Revolta Democrática contra o Regime Militar. Em 2011, os arquivos daquela época, foram inscritos no Registro da Memória do Mundo da UNESCO. Estima-se que até 606 pessoas podem ter morrido. Tudo começou quando estudantes locais da Universidade de Chonnam protestavam contra o governo do general Chun Doo-hwan, após este ter assumido o poder através de um golpe.

Os jovens foram atacados, mortos e espancados por tropas do governo, levando os demais moradores de Gwangju a pegarem em armas (roubando arsenais e delegacias locais). No entanto, a insurreição acabou em derrota em 27 de maio de 1980. Durante a presidência de Chun Doo-hwan, as autoridades costumavam definir o incidente como uma rebelião instigada por simpatizantes e desordeiros comunistas. Com o fim das ditaduras e a instauração da democracia, em 1997, foram estabelecidos um cemitério nacional e um dia de comemoração (18 de maio), juntamente com atos para “compensar e restaurar a honra” às vítimas.

É neste contexto que o filme “O Motorista de Taxi”, do diretor Jang Hoon, lançado em 2017, exibido em vários cinemas do Brasil, conta a história real do taxista de Seoul Man-Seuob (Sang Kang-ho) e do jornalista alemão Jürgen “Peter” Hinzpeter (Thomas Kretschmann), que acabaram juntos documentando os fatos ocorridos nesta ocasião. Também se pode acompanhar a luta deles para fugir do bloqueio e perseguição governamental e policial, no intuito de que o material fosse exibido em rede internacional e a verdade fosse contada. Esta produção foi a segunda mais vista pelos sul-coreanos no ano passado, sendo um sucesso comercial e de crítica não apenas nacionalmente, mas em diversos países. Tendo sido premiado em vários festivais, a obra ainda foi indicada pela Coreia do Sul para ser seu representante na categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar de 2018.

Cena real do conflito em Gwang-ju, registrada pelo jornal americano The New York Times.
Cena real do conflito em Gwangju, registrada pelo jornal americano The New York Times.

Há diversas questões que são tratadas no filme: o controle da opinião pública através da mídia dominada pelo governo e por grupos econômicos que acabam censurando os fatos; a importância do trabalho jornalístico honesto; a violência e repressão policial-governamental, a politização da juventude, a rejeição aos golpes de Estado; a pobreza das classe médias, mas, acima de tudo, a importância da consciência do cidadão comum sobre o seu papel político-social, que ele, muitas vezes, prefere não reconhecer.

Man-seob é o típico homem de classe média baixa, ou pobre, poderíamos assim dizer. É um sobrevivente. Viúvo, trabalha horas por dia em seu táxi, percorrendo a cidade de Seul para poder sustentar a filha e pagar as contas. Deve aluguel, não tem dinheiro suficiente para fazer reparos no táxi e não tem com quem deixar a menina, que acaba realizando as tarefas de casa sozinha. Ele parece não ter muito tempo para nada, sua passividade e inocência são claros. Ele não tem opinião política alguma e, na maioria das vezes, não se posiciona sobre qualquer assunto. Contudo, quando o faz, a exemplo dos protestos que ocorrem na capital, ele se queixa dos jovens que, na sua opinião, deveriam estar estudando, além de ficar fazendo baderna por aí. Na cabeça dele tudo vai bem no país, o governo e o exercito são, na realidade, instituições confiáveis, os jovens rebeldes é que são folgados e apenas atrapalham o dia-a-dia do cidadão de bem trabalhador.

Ele deve 100.000 wons de aluguel e quando não sabe onde poderá conseguir tamanha quantia, um colega afirma que um estrangeiro o pagou para ir até Gwangju. Man-seob assume, de forma fortuita, o lugar do amigo. Mesmo tendo morado na Arábia Saudita por um tempo, o seu inglês é bem fraco, mas ele consegue comunicar-se com “Peter” e o ajuda a desviar dos bloqueios do exército à cidade, com um certo “jeitinho” coreano. Quando lá chegam, encontram um verdadeiro cenário de guerra. Protestos contínuos que são reprimidos com violência brutal levam muitas pessoas a serem hospitalizadas. A situação é de tamanha magnitude que os taxistas locais passam a atuar voluntariamente, transportando os feridos. Para tanto, os postos de abastecimento oferecem combustível de graça, e as famílias também passam a cozinhar a todos os participantes. Certa ordem continua sendo mantida graças ao senso moral dos moradores. Isso fica bem claro, quando os taxistas locais acusam Man-seob de querer levar vantagem em cima do jornalista estrangeiro. Não que ele necessariamente fosse uma pessoa corrupta, mas sua condição e a vida dura da cidade grande, onde se tem poucos reais amigos, o fazem aderir às tramoias e golpezinhos do dia-a-dia.

Créditos: KoreaPost

Quando a história começa a desenvolver-se e o espectador é levado a adentrar mais ainda nos protestos, é possível observar que pais e avós também participam das manifestações, sendo agredidos e mortos. A solidariedade entre os participantes faz com que aquele cidadão de Seul vá aos poucos modificando a sua visão e postura com relação ao que assiste. Ele já não consegue compreender tamanha brutalidade das autoridades. É inclusive chamado de comunista por um agente policial do governo. Um estudante, Gu Jae-Sik (Ryu Jun-yeol) que sabe inglês, junta-se à dupla, passando a ser um ator importante para a educação e conscientização do taxista. Ele, um jovem normal, sem quaisquer ideais políticos, participava de um concurso musical na universidade quando os protestos começaram e seus amigos foram feridos. A atuação heroica de Gu Jae-Sik que chega a dar a própria vida, para que o jornalista alemão fosse salvo e com seu material documentado poder mostrar ao mundo o que se passava naquela pequena cidade, provoca uma espécie de culpa em Man-seob e uma transformação total. Aqui há uma crítica simbólica sutil e indireta à prepotência dos moradores de Capitais, que não raramente, acham-se incumbidos de maiores e melhores códigos morais, políticos e civilizacionais que seus compatriotas do interior… Seria mesmo o caso?

No entanto, o motorista, com a ajuda do jornalista e dos colegas taxistas locais, tem a chance de voltar a Seul. No retorno, a vida corre normalmente nas demais cidades próximas. Em uma particularmente, uma celebração à Buda está ocorrendo. Ele compra sapatos novos e caros para a filha com o dinheiro que conseguira, coisa que antes nunca teve a possibilidade de fazer. Depois, entra em um restaurante para comer e escuta os clientes comentando sobre o que se passa em Gwangju. Todos parecem acreditar nas palavras da grande mídia e do governo que afirmam terem os policiais e as autoridades sido agredidos e mortos. Neste momento, o personagem principal depara-se com um espelho e sua consciência o leva a retornar e trazer o jornalista alemão a todo custo de volta para Seul. Ele, que antes insistira que era perigoso estar na cidade, agora incentiva Peter a continuar gravando os corpos de jovens mortos.

Esta produção cinematográfica traz uma importantíssima mensagem em épocas de grande recessão econômica, crise das democracias e nova ascensão da ultradireita no mundo todo, ao cidadão comum. Afinal, este é uma peça chave para a prevenção de contextos como os que se testemunhou no período entre o final dos anos 1920 e início dos anos 1930, onde o mundo encontrou-se em depressão econômica e assistiu passivamente a ascensão de governos extremistas, apoiados por suas respectivas populações, desencadeando mais tarde na Segunda Guerra Mundial. Com interpretações magistrais, “O Motorista de Taxi” é um exemplo do amadurecimento do cinema sul-coreano que parece atualmente estar vivendo seu ápice.

Os personagens principais do filme. Foto: Youtube
Os personagens principais do filme. Créditos: Youtube

País: Coreia do Sul | Direção: Hun Jang |Roteirista: Eom You-Na e Jo Seul-Ye| Elenco: Song Kang-ho, Thomas Kretschmann, Abel Ryu, Cha Soon-bae | Duração: 137min | Ano: 2017 

Parasita: Uma crítica à desigualdade sistêmica, sem pretensões revolucionárias

Por Alessandra Scangarelli (Resenha completa em KoreaPost / Intertelas)

Aqueles que durante o século XX lutaram por um mundo mais igual e sem pobreza salientariam aos líderes e intelectuais de hoje que não adianta aumentar a renda e o poder de consumo das massas, sem ao mesmo tempo, promover a sua conscientização política. E este é o quadro que encontramos em “Parasita”, onde Ki Taek (Song Kang Ho) é um pobre e desempregado pai de família. Ele mora com sua esposa Choong Sook (Jang Hye Jin), o filho Ki Woo (Choi Woo Sik) e a filha Ki Jung (Park So Dam) em um apartamento úmido e infestado de insetos, em uma área de baixa renda de Seul. Um dia Ki Woo leva seu amigo Min Hyuk (Park Seo Joon) para uma loja de bebidas nas proximidades e descobre que seu amigo (que está indo estudar no exterior) vai abandonar uma vaga de professor particular.

O amigo de Ki Woo pede para que ele assuma o cargo, enquanto estiver no exterior. Logo, Ki Woo entra na vida da rica família Park e um plano começa a ser articulado por ele e seus familiares para saírem do sufoco econômico que se encontram, custe o que custar. Mesmo que isso seja “parasitar” na renda e no estilo de vida dos abastados Parks, que por sua vez também são “parasitas” do sistema, obtendo uma fortuna que não sabemos exatamente de onde sai… Contudo, a família de Ki Woo e seu desespero faz com que se tornem praticamente desumanos e pouco civilizados a ponto mesmo de tentar destruir a vida de quem, igual a eles, sofre os mesmos problemas sociais e econômicos como a governanta Moon Gwang, interpretada pela grande atriz Lee Jung Eun. Ela que será o personagem a promover uma reviravolta radical no andamento da narrativa, trazendo resultados inesperados.

A trama criativa, com pontos de virada que trazem novas situações, tornam o conjunto do enredo intrigante e envolvente ao espectador, deixando o suspense, o drama social e psicológico presente até o fim, sem esquecer a crítica que serve de base para a formação desta história. Isso somado a uma cenografia com locações que se alternam entre o bairro pobre e o rico, e a casa pobre e rica que passam a ter uma importância tal para o desenvolver dos acontecimentos, que não seria uma inverdade classificar estas residências, em especial a da família Park como também personagens atuantes na história.

Crédito: IMDb

A fotografia com posicionamentos, enquadramentos e movimentos de câmera que não são certamente revolucionários, mas saem do comum que se pratica, dão um ritmo dinâmico ao filme, da mesma forma que auxiliam a manter a harmonia entre os momentos de tensão e de calmaria. Diversas referências de outros cineastas são possíveis de serem detectadas, mas uma que chamou atenção desta autora foi a da cena final, em que a violência lembra a do japonês Takashi Miike e de seu fã ocidental Quentin Tarantino.

Por fim, não se pode terminar sem falar da interpretação que se destaca pelo seu conjunto. Todos os personagens, principais e secundários, têm importância na medida certa para a história. Nenhum fica sem significado, ou esquecido ao longo do caminho. Esta característica lembra um pouco do norte-americano Robert Altman, cujos filmes com relação aos atores e personagens destacavam-se pelo seu conjunto, sendo difícil ressaltar um ou outro. Para que esta fórmula seja bem-sucedida é preciso contar com o trabalho de atores que saibam imprimir a interpretação ideal, sem concorrer com os demais.

Portanto, o chefe da família Park (Lee Sun Kyun), assim como sua esposa Yeon Kyo (Cho Yeo Jeong), o filho ainda criança Da Song (Jeong Hyun Jun) e a filha adolescente Da Hye (Jung Ji So) atuam como pessoas totalmente desconectadas com o mundo a sua volta, vivendo em uma bolha artificial que criaram para si, onde podem viver em um mundo seguro e perfeito. Eles praticamente desconhecem problemas maiores que apenas a saúde do filho e seu comportamento. Uma bolha em que podem adquirir e descartar pessoas facilmente e onde os faz também serem vítimas da malícia e astúcia humana, em especial de quem está fora da bolha, tentando sobreviver à guerra. A passividade desta família de ricos é tão grande que desconhecem a casa onde vivem e o que ocorre nela quando estão fora, e mesmo quando estão nela.

Já a família “parasita” pobre de Kin Woo enquadra-se perfeitamente na situação de quem está tão pressionado pelas suas dificuldades econômicas que perdeu em grande parte a capacidade civilizatória que compete à humanidade. Tornaram-se sobreviventes, desesperados pela falta de emprego, de perspectivas, fazendo bicos e tendo empregos temporários para terem “um teto”, mesmo sendo uma espelunca que os mantém abrigados. Contudo, até isso se perde com o tempo, levando as atitudes da família a serem mais impensadas ainda.

Ki Taek (Song Kang Ho) o pai de família que mora com sua esposa Choong Sook (Jang Hye Jin), o filho Ki Woo (Choi Woo Sik) e a filha Ki Jung (Park So Dam), busca sobreviver a falta de emprego custe o que custar. Crédito: IMDb.
Ki Taek (Song Kang Ho) o pai de família que mora com sua esposa Choong Sook (Jang Hye Jin), o filho Ki Woo (Choi Woo Sik) e a filha Ki Jung (Park So Dam), busca sobreviver a falta de emprego custe o que custar. Crédito: IMDb.

Pessoas que atingem uma condição assim não tem tempo para grandes reflexões políticas, por isso se tornam eternamente submissas a este sistema. Tornam-se individualistas ao extremo, ainda que atuem pelo bem de suas famílias, mas em detrimento da condição de outros. Não seria de espantar, pois os valores que aprenderam, mesmo nesta situação difícil, é de que devem preocuparem-se com os seus. A situação não é diferente para os endinheirados Park. Não existe evolução social, se não se leva em conta àqueles muitos que não têm relação sanguínea alguma com você. Todos dependemos uns dos outros.

Ainda é importante salientar que as situações apresentadas em “Parasita”, em especial quando uma chuva forte cai na cidade, lembram e muito os problemas que enfrentamos dia-a-dia nas cidades brasileiras, o que aponta para uma última questão. Existem pobres em todos os cantos do Globo, inclusive no mundo desenvolvido. A diferença está nos níveis de pobreza que são encontrados nos países e que estão relacionados ao desenvolvimento econômico e social que cada nação conseguiu atingir.

A Coreia do Sul, assim como o próprio Estados Unidos são países considerados desenvolvidos, mas que entre o grupo de nações desenvolvidas apresentam índices sociais preocupantes, podendo até em uma situação ou outra encontrar semelhanças com os problemas enfrentados no mundo emergente e subdesenvolvido. Por isso, não existe situação ideal. As mudanças de um país para melhor, assim como do mundo em geral, exigem uma reflexão política importante que levará a novas soluções econômicas e sociais. Desta forma, os que mais sofrem com as desigualdades sistêmicas, ou compreendem que elas existem são os aptos a realizar estas transformações, pois dificilmente quem vive no conforto do topo da pirâmide social vai querer modificar este contexto. “Parasita” possibilita tais reflexões e até a sua crítica não revolucionária, algo parecido que se vê em Coringa e Bacurau, pode ter um efeito interessante, pois ao não dar respostas, convidam o espectador a procurá-las.

O diretor Bong Joon-ho segura o prêmio da Palma de Ouro no 72º Festival de Cannes conquistado por seu filme “Parasite”. Crédito: France 24.

Ficha técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Bong Joon Ho |Roteirista: Bong Joon Ho | Elenco: Kang Ho Song, Sun Kyun Lee, Yeo Jeong Jo, Jang Hye-Jin, Choi Woo-Sik, Park So-Dam, Lee Jung-Eun | Duração: 2h12min