“A negociação”: a empatia transformadora e combatente entre um criminoso e uma policial

Por Alessandra Scangarelli (Via Intertelas e KoreaPost)

Toda sociedade tem um número de “crenças” e regras que mesmo não sendo reais no mundo concreto, continuam por serem perpetuadas na busca de manter a fé das pessoas na humanidade. A ideia de que uma pessoa somente, uma espécie de herói, ou heroína, com um poder descomunal é capaz de reverter todo mal aquece e tranquiliza o coração de muitos.

Mais profundo ainda é quando se acredita que um ser abstrato vá um dia surgir, ou ressurgir, fazer a limpeza e o dever de casa que os humanos imperfeitos assim não conseguiram, tornando o mundo e a vida justos finalmente. São as crenças e as ilusões necessárias para que, no geral, a grande maioria continue na linha e reproduza o as regras do sistema criado pelos homens, como deve ser, sem transformá-lo, sem revolucioná-lo para algo melhor.

Um sistema que tem uma estrutura bastante complexa e que apenas existe se tanto o lado “bom”, quanto o lado “ruim” coexistirem. Como o mercado ilegal e o legal que, na realidade, dependem um do outro para seguirem com suas funções. Afinal, para que seriam necessários policiais se não existissem bandidos? Para que seriam necessários exércitos se as guerras não ocorressem? E para que produzir armas se todos respeitam a vida acima de tudo? Ao ter claro que este contexto existe, sendo realista e não pessimista, encontrando soluções concretas e não fantasiosas, é possível ter em conta que as mudanças podem ser realizadas através da atitude pouco convencional e muitas vezes corajosa dos indivíduos em conjunto.

Crédito: Pinteres/Korean Drama 24/7

Isso quando estes conseguem livrar-se da “máquina” que os conduz diariamente, deixando de serem meros sobreviventes egoístas, ou parte da engrenagem sistêmica exploradora para pensar em todos e lutar por todos, ou por alguém em específico do qual acabem criando empatia, ou um certo amor humano fraternal, que os faça querer justiça e cuidar do próximo, ainda que este lhe seja um estranho, ou digamos seja inclusive uma pessoa que não tenha feito as escolhas mais certas na vida.

“A Negociação” (The Negotiation) (2018), dirigida por Jong Suk Lee traz esta mensagem em um enredo que combina de forma bastante natural entretenimento e os males mais proeminentes na sociedade sul-coreana atual. Assim, a história gira em torno de uma negociadora chamada Ha Chae Yoon (Son Ye Jin) que faz parte da equipe de negociação de crises da Agência Metropolitana de Polícia de Seul e um traficante de armas Min Tae Gu (Hyun-Bin) que sequestrou dois coreanos em Bangkok . Ha Chae Yoon é a típica servidora pública que ao trabalhar em algo tão único faz com que dificilmente possa ter uma vida cotidiana muito turbulenta, com pouco tempo usufruir dela. Seguindo uma lógica bastante comum de ocorrer nestes casos era de se esperar que ela não fosse uma pessoa muito emotiva, que tivesse uma atitude mais endurecida sentimentalmente e que encarasse a violência como algo normal.

Contudo, a personagem foge deste clichê e supreendentemente apresenta uma personalidade bastante humana, sofrendo com as vítimas, com a perda ocasional de vidas. E mais interessante é que o traficante e sequestrador Min Tae-Gu acaba seguindo esta mesma linha.

Crédito: IMDB

À primeira vista parece um criminoso frio e calculista. Contudo, ao longo da narrativa, quando se vai descobrindo as razões que o levaram a sequestrar e fazer reféns,  percebe-se que a raiz do seu problema tem como pano de fundo uma história de teor pessoal bastante emocional. E, acima de tudo, suas intenções visam, principalmente, enfrentar um sistema extremamente corrupto, comandado por uma casta de autoridades e uma elite empresarial de grande poder, envolvidas com tráfico de armas internacional. Este mercado que tanto legal, quanto ilegal é um dos mais lucrativos do mundo.

Segundo o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), uma organização que realiza pesquisas científicas em questões sobre conflitos, localizada na Suécia, o valor total do comércio de armas em 2017 gerou algo em torno de 95 bilhões de dólares e as 100 maiores empresas do campo lucraram em torno de 398.2 bilhões de dólares apenas no ano referido. Os principais países que vendem armas são exatamente nesta ordem: Estados Unidos, Rússia, França, Alemanha e China. Os alemães têm como seu principal comprador a Coreia do Sul, totalizando 19% de suas vendas. A Coreia que tem suas próprias empresas de armas e que participa deste mercado tanto legalmente, quanto ilegalmente.

“A Negociação”, infelizmente, não trabalha em sua narrativa, os bastidores deste mundo com maior profundidade, servindo este mais como um pano de fundo e para promover uma das causas que desencadeia todos os acontecimentos da trama. Contudo, esta falta não diminui a importância, nem torna esta produção cinematográfica menos atraente, pois ela acaba focando na questão humana que se almeja debater.

Crédito: IMDB

Somado a isso, as intepretações de grandes atores, em conjunto com um roteiro que explora bem as situações de tensão deixam o espectador bastante focado e esperando pelo desfecho que este drama terá. O mais interessante talvez a se apontar é que será através de Min Tae Gu que a negociadora Ha Chae Yoon vai deixar sua posição passiva para tomar uma atitude e tonar-se uma policial real. Isso porque ele enxerga nela a capacidade humana mais evoluída para tanto, como salientando acima: o de ter empatia pelo próximo, seja ele (a) quem for.

Desta forma, “A Negociação”, além de nos fazer atentar para a estrutura do sistema e suas relações dúbias e bastante esquizofrênicas entre o mundo legal e o mundo ilegal, destaca algumas temáticas importantes: criminosos também amam e podem ter causas bastante justas para defender, apesar de suas escolhas; um bandido pode ser mais humano do que aqueles que vivem aparentemente uma vida de conduta social impecável, mas que, por baixo do tapete, são os reais monstros desprovidos de qualquer humanidade; um indivíduo comum como uma servidora pública e seus colegas estão mais inclinados a poder realizar as transformações necessárias e enfrentar o sistema do que os chamados líderes, pessoas de destaque ou seus superiores já viciados, conduzidos e engolidos pela “máquina sistêmica”. Assista “A Negociação” na Netflix.

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul  | Direção: Jong Suk Lee | Roteirista: Sung Hyun Choi, Park Myeong Chan (comic) | Elenco: Ye Jin Son, Hyun Bin, Sang Ho Kim | Duração: 112 min | Ano: 2018

Novas normas sociais surgem na Coreia, na Era do Covid – 19

Via Koreapost/ Fonte Original Korea Herald

As mudanças podem ter chegado para ficar, exigindo que as pessoas se adaptem à nova realidade. Com a diminuição de novos casos de infecção por COVID-19 na Coreia do Sul, o governo começou a aplicar um aviso de distanciamento social relaxado a partir de 20 de abril. Apesar da orientação facilitada, muitos coreanos ainda estão seguindo “regras” que surgiram após a propagação do vírus.

“Enquanto fazemos nossa palestra usando o ‘Zoom’, temos que usar fones de ouvido”, disse Kim Ki Wook, estudante de pós-graduação. Ele explicou que, se os participantes da conferência ao vivo on-line não usarem fones de ouvido, o som do alto-falante do computador poderá causar feedback para todos que estiverem ouvindo. “No começo, as pessoas não conheciam essa ‘etiqueta’ e era difícil prosseguir com a palestra devido ao barulho”, explicou Kim.

Distanciamento social em refeitório. Crédito: Yonhap/Korea Herald

Kim também compartilhou sua experiência de encontrar os seus colegas em plataformas de transmissão ao vivo on-line para se conhecerem melhor. “O novo semestre começou, mas nunca nos conhecemos. Em nossa classe, costumamos dar feedback um ao outro sobre nossa tarefa; portanto, todos pensávamos que precisávamos de tempo para nos conhecer. Durante esta reunião, tivemos que ter certeza de ouvir a pessoa que está falando e não falar ao mesmo tempo”, afirmou.

Os funcionários de escritório que ainda precisam se deslocar para o trabalho estão aderindo a novas regras sociais. “Um aviso no elevador diz para usar máscaras e evitar conversas”, disse Cho Seo Jin, funcionário de um escritório em Mokdong, em Seul.

“Vi um homem falando ao telefone sem máscara há algumas semanas. Ninguém disse nada a ele, mas notei que todos pareciam desconfortáveis. Ao usar o desinfetante em spray na entrada do nosso escritório, também asseguro que não haja ninguém por perto antes de pulverizar em meu casaco”, acrescentou Cho. Ele disse que não havia algum tipo de penalidade para quem não seguir as regras, mas, como são consideradas boas maneiras, ele e muitos de seus colegas sentem uma obrigação social de segui-las.

O uso de máscaras tornou-se obrigatório na Coreia do Sul. Crédito: Yonhap/Korea Herald

“Nossa equipe de RH nos acompanha de perto e regularmente. Disseram-nos para usar máscaras e sentar na distância de um assento um do outro durante as reuniões. Agora, a maioria das pessoas segue. No início, muitas pessoas tiravam as máscaras durante as reuniões, mas nossa equipe de RH rapidamente mostra uma tela de smartphone com a frase ‘Por favor, use sua máscara’ na janela da sala de reuniões”, disse um funcionário da empresa de TI local sob condição de anonimato.

“Nossa equipe geralmente saía junto para jantar pelo menos uma vez a cada 2 meses. Mas desde fevereiro não fazemos isso, pois nossa empresa proibiu reuniões de grupo após o horário de trabalho”, disse Yang Ji Ae, funcionário de um escritório em Gangnam, Seul. “Ainda almoçamos juntos como uma equipe. Mas hoje em dia ninguém pergunta aos outros se eles querem compartilhar a comida.”

Yang também pede que entregadores deixem a comida que trazem na frente da porta após tocar a campainha. “Faço isso para minimizar o contato. Eu acho que isso é bom para o entregador e para mim”, disse Yang. Como a maioria das etiquetas visa minimizar o contato e manter distância, muitos especialistas as veem como eficazes na prevenção da propagação do novo coronavírus.

“Penso muito no público após a nova etiqueta. É claro que algum crédito deve ser destinado ao governo e à equipe médica, mas o papel do público também foi importante”, disse Kim Woo Joo, professor de doenças infecciosas no Hospital Guro da Universidade da Coreia“Acho que isso foi possível devido à experiência que as pessoas tiveram de passar com outros vírus como o Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS) e a gripe suína”.

Fila para testagem Covid-19. Crédito: Yonhap/Korea Herald

“A nova etiqueta, como apertar botões com as costas das mãos, é ótima, pois os dedos e as palmas das mãos podem transmitir e espalhar o vírus com mais facilidade”, disse Kim Dong Hyun, presidente da Sociedade Coreana de Epidemiologia e especialista em medicina preventiva da Hallym Medical School. Os especialistas também enfatizaram que, juntamente com os indivíduos que seguem novas normas sociais, também é crucial que a sociedade como um todo faça alguns ajustes para uma pandemia futura.

“Pode haver uma segunda onda do vírus neste inverno. Alguns especialistas ainda dizem que o padrão da pandemia pode ser repetido até 2024. Portanto, a nova maneira de viver, como as palestras ou reuniões on-line, provavelmente se tornará algo normal para muitos. Como sociedade, devemos estar prontos para isso”, disse o professor Kim Dong Hyun.

“A menos que exista uma vacina (para COVID-19), é importante se ajustar à situação e ter uma nova etiqueta. Por exemplo, acho que empresas como o Starbucks remover alguns assentos e mesas para manter as pessoas afastadas é uma ótima ideia”, disse o professor Kim Woo Joo.

“O refeitório do nosso hospital também possui placas de acrílico instaladas entre cada assento, como uma biblioteca, para impedir fisicamente que as gotículas se espalhem.” Olhando para o futuro, alguns especialistas disseram que em breve as pessoas se acostumarão às normas sociais e que isso logo tornará nossa sociedade mais individualizada.

“Por enquanto, a maioria das pessoas está no estágio em que deseja voltar ao modo como costumava viver e encontrar as pessoas pessoalmente. Mas se o vírus persistir por muito tempo, como até o final deste ano, as pessoas em breve se acostumarão com o novo estilo de vida e pensarão que sair para o trabalho ou ter uma reunião off-line é uma perda de tempo”, diz Kwak Geum Joo, professor de psicologia da Universidade Nacional de Seul. “Mas se essa mudança for inevitável, é importante se ajustar gradualmente à situação. Por exemplo, aprender a se concentrar no trabalho fora do escritório pode ser útil.”


Kim Ji Young, nascida em 1982: o fim do super-heroísmo e o poder das mulheres reais

Por Alessandra Scangarelli (Resenha completa em InterTelas/KoreaPost)

Se formos pensar como o imaginário da sociedade atual tem das mulheres, no que se considera ideal e digno de aplauso é algo próximo ao de uma “Mulher Maravilha”, uma figura, por sinal, anglo-saxã e branca… Super-heróis, masculinos, ou femininos, ou qualquer outro gênero que queiram listar, pouco têm em comum com as pessoas reais e o seu dia-a-dia. É impossível para o humano ser um profissional, um cônjuge, pai, ou mãe, amante, modelo de beleza e saúde exemplar. Mas é justamente isso que se exige das mulheres. Como se fossemos capazes de fazer tudo sozinhas e o pior é que acreditamos nisso e seguimos este absurdo da mulher perfeita para depois apenas sofrer de ansiedade, ou depressão.

O filme “Kim Ji Young: Nascida em 1982” (2019), dirigido por Kim Do Young, baseado no livro de Jo Nam Jjoo, de forma indireta, incita tal debate. Estrelada por Jung Yu Mi que vive Kim Ji Young na trama e Gong Yoo, que interpreta seu marido Jung Dae Hyun, esta produção cinematográfica não se curva de assuntos espinhosos, ainda que o faça de forma sutil e muito sensível. A personagem principal trabalha em uma agência de relações públicas. Porém, um dia casa e tem uma filha, tendo que deixar o seu emprego. A vida segue o seu curso normalmente, até que, de repente, Kim Ji Young começa a falar como sua mãe, sua irmã mais velha. Do nada, transforma-se e passa a ser outra pessoa. Estaria ela possuída? Sofreria ela de dupla personalidade? O que teria acontecido?

Antes de mais nada é importante salientar que o interessante de um filme que aborda tal temática, de tantos que já foram feitos sobre o mesmo assunto ao redor do mundo, é a sua capacidade de levar um tema polêmico como este para situações cotidianas, para o ambiente privado e íntimo do lar, onde a correlação de forças entre marido e mulher definitivamente ocorre. Alguns diriam que tal situação na Coreia é diferente de outros países do ocidente, onde as mulheres não são necessariamente obrigadas a deixar seus empregos.

Primeiro, que tal contexto do filme pertence à década de 1980, onde tal situação ainda ocorria. Muito mudou na Coreia rapidamente em alguns poucos anos. No entanto, muito ainda dos velhos costumes permanecem. E pior, com as transformações sociais, as coreanas passaram a acumular tarefas, assim como qualquer mulher dos países no ocidente. É interessante perceber que aqui não se contempla a ideia utópica da maternidade idílica, paradisíaca, como muito afirmam por aí, mas também não temos o inferno na Terra. A personagem principal luta diariamente com as dificuldades de criar uma criança, com o trabalho exaustivo que demanda. No entanto, diferente da maioria, Kim Ji Young rebela-se de forma bastante inusitada, inconsciente, através da “incorporação”, ou no deixar falar uma voz que ela nem sabe que tem.

Fonte: IMDB

Ela enfrenta quem a julga, quem almeja dizer-lhe o que deve fazer ou não, confrontando até os mais velhos, situação complexa em uma sociedade como a coreana tão hierarquizada e tão submissa à ideia de respeito aos mais velhos, mesmo que os idosos usem disso para oprimir, ou livremente extrapolarem seus direitos sobre os mais jovens. Tal atitude dela intriga seu marido, que busca compreender e ajudá-la. Uma figura já digamos diferente, com uma mente mais aberta do que os homens da sua época. A maioria provavelmente já teria saído e abandonado a família, como até hoje, é normal.

O diferencial nos protestos desta nova persona que Kim Ji Young assume é que ela deixa claro não ser obrigada a assumir todas responsabilidades que lhe são impostas como naturais. Afinal, ela também tem anseios para além da casa e da família e assim praticamente obriga seu marido, mãe, irmão e tal a auxiliarem-na. Fica claro, por exemplo, a falta de atenção do pai, que facilita tudo para o irmão dela e o mima, enquanto Kim Ji Young para ele praticamente não existe.O interessante aqui é justamente esta atitude de não incorporar a heroína e tentar fazer tudo sozinha, mas transformar o seu ambiente e as pessoas ao seu redor. A dupla de atores principais têm atuações primorosas, de pessoas comuns que tentam lidar com seus problemas mais íntimos em meio a uma sociedade que pouco compreende, ou quer compreender. Os atores que interpretam papéis secundários fornecem o suporte necessário para que o casal de atores principal possa dar sua melhor performance. A química profissional entre Jung Yu Mi e Gong Yoo não precisa de grandes apresentações. Velhos conhecidos de outras produções como “Invasão Zumbi” (2016), de Yeon Sang Ho e “Silêncio” (2011) de Hwang Dong Hyuk, eles deixam claro que juntos na tela têm muito a dizer, a mostrar e comover o espectador.

Jung Yu Mi interpreta Kim Ji Young. Crédito: Cinema Escapist.

A direção de Kim Do Young traz a sutileza e complexidade psicológica que o enredo necessita, sustentado na escrita do roteiro adaptado que ela compartilha com Yoo Young A e com a autora do livro Jo Nam Joo. Não há falas demais, nem explicações desnecessárias, nem discurso ativista na história. A diretora deixa através das cenas e das atuações que a trama flua e por si deixe que as questões e suas polêmicas livremente sejam manifestadas ao espectador. Deste filme, pode-se pensar o quanto estamos realmente transformando o nosso cotidiano.

Os homens de nossa época estão cientes do papel que têm na criação dos filhos e nas atividades domésticas? O meio de trabalho ainda tão masculinizado e pouco preparado, até fisicamente, para as mulheres que engravidam, ou têm filhos, está sendo modificado? Mulheres grávidas têm a necessidade de alguns cuidados sim, como o meio de trabalho adaptou-se às necessidades delas? Isso não seria importante levar em conta, em especial em uma sociedade com problemas graves de natalidade? E quando as crianças nascem há creches nas empresas para os pais, ambos, trabalharem e estarem próximos dos filhos? Existem benefícios para formar uma família? São questionamentos que nem o Feminismo hoje realiza ou leva como uma bandeira integral sua. Se há falta de igualdade nos âmbitos empresariais mais sofisticados, imagina nas fábricas, na realidade das trabalhadoras braçais, de “chão de fábrica”, como diz o jargão popular. Reflexões deste tipo são necessárias. Assim, Feminismo sem consciência de classe e atenção às questões mais particulares do mundo feminino torna-se, na opinião desta autora, ineficaz para as massas.

Talvez o que muitos grupos dentro do Feminismo, não todos obviamente, estejam fazendo sem saber é apenas incorporar à estrutura masculina do sistema algumas mulheres, que acabam virando chefes com medidas praticamente iguais, ou tão opressoras como a de um chefe homem. E até isso o filme em questão salienta. A chefe de Kim Ji Young é compreensiva com ela, com seus problemas, não a descarta nem por medo de competição, nem pela sua aparente falta de produtividade e utilidade momentânea…

Crédito: Medium.

Aqui também temos um apelo à saúde não apenas física, mas mental, emocional dos empregados como algo primordial para que a estrutura do trabalho, do sistema empresarial possa funcionar melhor. Na busca da superação das várias desigualdades que o sistema atual produz, o universo feminino e suas questões particulares necessitam ser observados por todos e estarem no centro do debate. Só assim antigos padrões e injustiças serão realmente superados.

Ficha técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Kim Do Young | Roteiro: Jo Nam Joo (livro), Yoo Young A, Kim Do Young | Atores: Gong Yoo, Jung Yu Mi, Kim Mi Kyung  | Duração: 1h58 |  Ano: 2019. 

Kim Ji-ha e a poesia coreana

Por Mateus Nascimento

Você já leu a poesia coreana? Como acha que ela é? Quais seriam os elementos de seus estilos? Hoje vamos falar um pouco de um dos mais importantes ícones dela: a obra do poeta coreano Kim Ji-ha.

Ele nasceu em fevereiro de 1941, com o nome Kim Yeongil, mas passou a adotar o pseudônimo Kim Ji-ha logo após o sucesso de seu primeiro poema publicado, História Noturna (no original Jeonyeok iyagi, ainda sem tradução para o português).

Formou-se em Estética pela Universidade Nacional de Seul por volta de 1966 e sua obra é marcada por essa estética que visa mostrar uma profunda consciência política dissidente. Essa formação aparece muito em sua obra através do uso das palavras e de imagens bastante simples para contar os horrores do setor político. Muitos dos elementos de seu texto remetem a sua vida política: o autor questionou o autoritário governo de Park Chung-hee, marcado pelo autoritarismo de inspiração militar e pela industrialização sul coreana. O próprio sobrenome que escolheu para si, Ji-ha, está relacionado com a palavra “subterrâneo”.

Kim Ji-ha, 79 anos, é um autor de destaque da poesia coreana (foto da Wikipedia).

Mas não encontramos só os temas políticos. O seu registro na biblioteca Digital da Literatura Coreana (https://library.ltikorea.or.kr/node/100) lista uma lista de 39 títulos traduzidos para várias línguas mundiais (e algumas participações em eventos internacionais), os quais tratam do pensamento coreano, a religião desde a nativa as presenças católicas, passando ainda pelo credo coreano donghak, pelo budismo e pelo zen. Infelizmente, temos notícia de somente um de seus livros traduzido para o português: Os Cinco Bandidos, lançado pela editora 7 Letras, traduzido por Joon Moon, em 2018.

Os Cinco Bandidos, na verdade, é uma coletânea com 5 poemas do autor, sendo um deles homônimo do título do livro. Os demais são: Os cinco elementos, A canção da cerejeira bandida, Camicase e O mar de merda.

Logo na primeira página, os editores retomaram uma frase do próprio autor para explicar os seus objetivos com a escrita politicamente engajada, pois diz Kim: “O poeta deve dar esperança e a visão de um futuro melhor aos pobres”. Kim Ji-ha usa as suas palavras para contar ao leitor um pouco sobre esse tempo na Coreia. Ele fala de um período de muita brutalidade, pois viveu a Guerra da Coreia, aos nove anos, cenas dramáticas que certamente lhe marcaram.

Capa do livro (foto do autor)

O livro também representa uma vida de engajamento: os conteúdos do livro fazem sátira ao governo militar, a participação dos empresários e a própria estrutura governamental sul coreana. Kim se utiliza do estilo tamsi, que privilegia o uso de oralidade na escrita dos poemas. Essa junção da crítica ao poder com oralidade na escrita tornou o seu texto bastante conhecido entre os anos 1960 e 1980, o que lhe rendeu uma perseguição insana: prisão, tortura segundo conta, sentenças de prisão perpétua e uma condenação a morte, contando 8 anos na prisão.

No período em que esteve preso, sua obra tornou-se notória no país que ele mais criticou, o Japão (o poema Camicase é dedicado a Yukio Mishima!), e ganhou um prêmio bastante significativo que lhe rendeu apoio internacional: o Prêmio Lótus (em 1975).

Kim foi solto em 1980, após o assassinato do presidente que alvo de suas críticas. Interessante destacar que por esses motivos factuais a obra de Kim Ji-ha é rica em imagens da história sul coreana.

E agora, vamos conhecer a poesia sul coreana?

Ficha técnica:

Título: Os Cinco bandidos

Autor: Kim Ji-ha

Editora: 7 Letras

Ano: 2018

116 páginas

O Motorista de Táxi: as lições políticas do filme ao cidadão comum

Por Alessandra Scangarelli (Via KoreaPost)

Em 18 de maio de 1980, a cidade de Gwangju, na Coreia do Sul, passou por uma revolta popular que ficaria na história como a Revolta Democrática contra o Regime Militar. Em 2011, os arquivos daquela época, foram inscritos no Registro da Memória do Mundo da UNESCO. Estima-se que até 606 pessoas podem ter morrido. Tudo começou quando estudantes locais da Universidade de Chonnam protestavam contra o governo do general Chun Doo-hwan, após este ter assumido o poder através de um golpe.

Os jovens foram atacados, mortos e espancados por tropas do governo, levando os demais moradores de Gwangju a pegarem em armas (roubando arsenais e delegacias locais). No entanto, a insurreição acabou em derrota em 27 de maio de 1980. Durante a presidência de Chun Doo-hwan, as autoridades costumavam definir o incidente como uma rebelião instigada por simpatizantes e desordeiros comunistas. Com o fim das ditaduras e a instauração da democracia, em 1997, foram estabelecidos um cemitério nacional e um dia de comemoração (18 de maio), juntamente com atos para “compensar e restaurar a honra” às vítimas.

É neste contexto que o filme “O Motorista de Taxi”, do diretor Jang Hoon, lançado em 2017, exibido em vários cinemas do Brasil, conta a história real do taxista de Seoul Man-Seuob (Sang Kang-ho) e do jornalista alemão Jürgen “Peter” Hinzpeter (Thomas Kretschmann), que acabaram juntos documentando os fatos ocorridos nesta ocasião. Também se pode acompanhar a luta deles para fugir do bloqueio e perseguição governamental e policial, no intuito de que o material fosse exibido em rede internacional e a verdade fosse contada. Esta produção foi a segunda mais vista pelos sul-coreanos no ano passado, sendo um sucesso comercial e de crítica não apenas nacionalmente, mas em diversos países. Tendo sido premiado em vários festivais, a obra ainda foi indicada pela Coreia do Sul para ser seu representante na categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar de 2018.

Cena real do conflito em Gwang-ju, registrada pelo jornal americano The New York Times.
Cena real do conflito em Gwangju, registrada pelo jornal americano The New York Times.

Há diversas questões que são tratadas no filme: o controle da opinião pública através da mídia dominada pelo governo e por grupos econômicos que acabam censurando os fatos; a importância do trabalho jornalístico honesto; a violência e repressão policial-governamental, a politização da juventude, a rejeição aos golpes de Estado; a pobreza das classe médias, mas, acima de tudo, a importância da consciência do cidadão comum sobre o seu papel político-social, que ele, muitas vezes, prefere não reconhecer.

Man-seob é o típico homem de classe média baixa, ou pobre, poderíamos assim dizer. É um sobrevivente. Viúvo, trabalha horas por dia em seu táxi, percorrendo a cidade de Seul para poder sustentar a filha e pagar as contas. Deve aluguel, não tem dinheiro suficiente para fazer reparos no táxi e não tem com quem deixar a menina, que acaba realizando as tarefas de casa sozinha. Ele parece não ter muito tempo para nada, sua passividade e inocência são claros. Ele não tem opinião política alguma e, na maioria das vezes, não se posiciona sobre qualquer assunto. Contudo, quando o faz, a exemplo dos protestos que ocorrem na capital, ele se queixa dos jovens que, na sua opinião, deveriam estar estudando, além de ficar fazendo baderna por aí. Na cabeça dele tudo vai bem no país, o governo e o exercito são, na realidade, instituições confiáveis, os jovens rebeldes é que são folgados e apenas atrapalham o dia-a-dia do cidadão de bem trabalhador.

Ele deve 100.000 wons de aluguel e quando não sabe onde poderá conseguir tamanha quantia, um colega afirma que um estrangeiro o pagou para ir até Gwangju. Man-seob assume, de forma fortuita, o lugar do amigo. Mesmo tendo morado na Arábia Saudita por um tempo, o seu inglês é bem fraco, mas ele consegue comunicar-se com “Peter” e o ajuda a desviar dos bloqueios do exército à cidade, com um certo “jeitinho” coreano. Quando lá chegam, encontram um verdadeiro cenário de guerra. Protestos contínuos que são reprimidos com violência brutal levam muitas pessoas a serem hospitalizadas. A situação é de tamanha magnitude que os taxistas locais passam a atuar voluntariamente, transportando os feridos. Para tanto, os postos de abastecimento oferecem combustível de graça, e as famílias também passam a cozinhar a todos os participantes. Certa ordem continua sendo mantida graças ao senso moral dos moradores. Isso fica bem claro, quando os taxistas locais acusam Man-seob de querer levar vantagem em cima do jornalista estrangeiro. Não que ele necessariamente fosse uma pessoa corrupta, mas sua condição e a vida dura da cidade grande, onde se tem poucos reais amigos, o fazem aderir às tramoias e golpezinhos do dia-a-dia.

Créditos: KoreaPost

Quando a história começa a desenvolver-se e o espectador é levado a adentrar mais ainda nos protestos, é possível observar que pais e avós também participam das manifestações, sendo agredidos e mortos. A solidariedade entre os participantes faz com que aquele cidadão de Seul vá aos poucos modificando a sua visão e postura com relação ao que assiste. Ele já não consegue compreender tamanha brutalidade das autoridades. É inclusive chamado de comunista por um agente policial do governo. Um estudante, Gu Jae-Sik (Ryu Jun-yeol) que sabe inglês, junta-se à dupla, passando a ser um ator importante para a educação e conscientização do taxista. Ele, um jovem normal, sem quaisquer ideais políticos, participava de um concurso musical na universidade quando os protestos começaram e seus amigos foram feridos. A atuação heroica de Gu Jae-Sik que chega a dar a própria vida, para que o jornalista alemão fosse salvo e com seu material documentado poder mostrar ao mundo o que se passava naquela pequena cidade, provoca uma espécie de culpa em Man-seob e uma transformação total. Aqui há uma crítica simbólica sutil e indireta à prepotência dos moradores de Capitais, que não raramente, acham-se incumbidos de maiores e melhores códigos morais, políticos e civilizacionais que seus compatriotas do interior… Seria mesmo o caso?

No entanto, o motorista, com a ajuda do jornalista e dos colegas taxistas locais, tem a chance de voltar a Seul. No retorno, a vida corre normalmente nas demais cidades próximas. Em uma particularmente, uma celebração à Buda está ocorrendo. Ele compra sapatos novos e caros para a filha com o dinheiro que conseguira, coisa que antes nunca teve a possibilidade de fazer. Depois, entra em um restaurante para comer e escuta os clientes comentando sobre o que se passa em Gwangju. Todos parecem acreditar nas palavras da grande mídia e do governo que afirmam terem os policiais e as autoridades sido agredidos e mortos. Neste momento, o personagem principal depara-se com um espelho e sua consciência o leva a retornar e trazer o jornalista alemão a todo custo de volta para Seul. Ele, que antes insistira que era perigoso estar na cidade, agora incentiva Peter a continuar gravando os corpos de jovens mortos.

Esta produção cinematográfica traz uma importantíssima mensagem em épocas de grande recessão econômica, crise das democracias e nova ascensão da ultradireita no mundo todo, ao cidadão comum. Afinal, este é uma peça chave para a prevenção de contextos como os que se testemunhou no período entre o final dos anos 1920 e início dos anos 1930, onde o mundo encontrou-se em depressão econômica e assistiu passivamente a ascensão de governos extremistas, apoiados por suas respectivas populações, desencadeando mais tarde na Segunda Guerra Mundial. Com interpretações magistrais, “O Motorista de Taxi” é um exemplo do amadurecimento do cinema sul-coreano que parece atualmente estar vivendo seu ápice.

Os personagens principais do filme. Foto: Youtube
Os personagens principais do filme. Créditos: Youtube

País: Coreia do Sul | Direção: Hun Jang |Roteirista: Eom You-Na e Jo Seul-Ye| Elenco: Song Kang-ho, Thomas Kretschmann, Abel Ryu, Cha Soon-bae | Duração: 137min | Ano: 2017 

Parasita: Uma crítica à desigualdade sistêmica, sem pretensões revolucionárias

Por Alessandra Scangarelli (Resenha completa em KoreaPost / Intertelas)

Aqueles que durante o século XX lutaram por um mundo mais igual e sem pobreza salientariam aos líderes e intelectuais de hoje que não adianta aumentar a renda e o poder de consumo das massas, sem ao mesmo tempo, promover a sua conscientização política. E este é o quadro que encontramos em “Parasita”, onde Ki Taek (Song Kang Ho) é um pobre e desempregado pai de família. Ele mora com sua esposa Choong Sook (Jang Hye Jin), o filho Ki Woo (Choi Woo Sik) e a filha Ki Jung (Park So Dam) em um apartamento úmido e infestado de insetos, em uma área de baixa renda de Seul. Um dia Ki Woo leva seu amigo Min Hyuk (Park Seo Joon) para uma loja de bebidas nas proximidades e descobre que seu amigo (que está indo estudar no exterior) vai abandonar uma vaga de professor particular.

O amigo de Ki Woo pede para que ele assuma o cargo, enquanto estiver no exterior. Logo, Ki Woo entra na vida da rica família Park e um plano começa a ser articulado por ele e seus familiares para saírem do sufoco econômico que se encontram, custe o que custar. Mesmo que isso seja “parasitar” na renda e no estilo de vida dos abastados Parks, que por sua vez também são “parasitas” do sistema, obtendo uma fortuna que não sabemos exatamente de onde sai… Contudo, a família de Ki Woo e seu desespero faz com que se tornem praticamente desumanos e pouco civilizados a ponto mesmo de tentar destruir a vida de quem, igual a eles, sofre os mesmos problemas sociais e econômicos como a governanta Moon Gwang, interpretada pela grande atriz Lee Jung Eun. Ela que será o personagem a promover uma reviravolta radical no andamento da narrativa, trazendo resultados inesperados.

A trama criativa, com pontos de virada que trazem novas situações, tornam o conjunto do enredo intrigante e envolvente ao espectador, deixando o suspense, o drama social e psicológico presente até o fim, sem esquecer a crítica que serve de base para a formação desta história. Isso somado a uma cenografia com locações que se alternam entre o bairro pobre e o rico, e a casa pobre e rica que passam a ter uma importância tal para o desenvolver dos acontecimentos, que não seria uma inverdade classificar estas residências, em especial a da família Park como também personagens atuantes na história.

Crédito: IMDb

A fotografia com posicionamentos, enquadramentos e movimentos de câmera que não são certamente revolucionários, mas saem do comum que se pratica, dão um ritmo dinâmico ao filme, da mesma forma que auxiliam a manter a harmonia entre os momentos de tensão e de calmaria. Diversas referências de outros cineastas são possíveis de serem detectadas, mas uma que chamou atenção desta autora foi a da cena final, em que a violência lembra a do japonês Takashi Miike e de seu fã ocidental Quentin Tarantino.

Por fim, não se pode terminar sem falar da interpretação que se destaca pelo seu conjunto. Todos os personagens, principais e secundários, têm importância na medida certa para a história. Nenhum fica sem significado, ou esquecido ao longo do caminho. Esta característica lembra um pouco do norte-americano Robert Altman, cujos filmes com relação aos atores e personagens destacavam-se pelo seu conjunto, sendo difícil ressaltar um ou outro. Para que esta fórmula seja bem-sucedida é preciso contar com o trabalho de atores que saibam imprimir a interpretação ideal, sem concorrer com os demais.

Portanto, o chefe da família Park (Lee Sun Kyun), assim como sua esposa Yeon Kyo (Cho Yeo Jeong), o filho ainda criança Da Song (Jeong Hyun Jun) e a filha adolescente Da Hye (Jung Ji So) atuam como pessoas totalmente desconectadas com o mundo a sua volta, vivendo em uma bolha artificial que criaram para si, onde podem viver em um mundo seguro e perfeito. Eles praticamente desconhecem problemas maiores que apenas a saúde do filho e seu comportamento. Uma bolha em que podem adquirir e descartar pessoas facilmente e onde os faz também serem vítimas da malícia e astúcia humana, em especial de quem está fora da bolha, tentando sobreviver à guerra. A passividade desta família de ricos é tão grande que desconhecem a casa onde vivem e o que ocorre nela quando estão fora, e mesmo quando estão nela.

Já a família “parasita” pobre de Kin Woo enquadra-se perfeitamente na situação de quem está tão pressionado pelas suas dificuldades econômicas que perdeu em grande parte a capacidade civilizatória que compete à humanidade. Tornaram-se sobreviventes, desesperados pela falta de emprego, de perspectivas, fazendo bicos e tendo empregos temporários para terem “um teto”, mesmo sendo uma espelunca que os mantém abrigados. Contudo, até isso se perde com o tempo, levando as atitudes da família a serem mais impensadas ainda.

Ki Taek (Song Kang Ho) o pai de família que mora com sua esposa Choong Sook (Jang Hye Jin), o filho Ki Woo (Choi Woo Sik) e a filha Ki Jung (Park So Dam), busca sobreviver a falta de emprego custe o que custar. Crédito: IMDb.
Ki Taek (Song Kang Ho) o pai de família que mora com sua esposa Choong Sook (Jang Hye Jin), o filho Ki Woo (Choi Woo Sik) e a filha Ki Jung (Park So Dam), busca sobreviver a falta de emprego custe o que custar. Crédito: IMDb.

Pessoas que atingem uma condição assim não tem tempo para grandes reflexões políticas, por isso se tornam eternamente submissas a este sistema. Tornam-se individualistas ao extremo, ainda que atuem pelo bem de suas famílias, mas em detrimento da condição de outros. Não seria de espantar, pois os valores que aprenderam, mesmo nesta situação difícil, é de que devem preocuparem-se com os seus. A situação não é diferente para os endinheirados Park. Não existe evolução social, se não se leva em conta àqueles muitos que não têm relação sanguínea alguma com você. Todos dependemos uns dos outros.

Ainda é importante salientar que as situações apresentadas em “Parasita”, em especial quando uma chuva forte cai na cidade, lembram e muito os problemas que enfrentamos dia-a-dia nas cidades brasileiras, o que aponta para uma última questão. Existem pobres em todos os cantos do Globo, inclusive no mundo desenvolvido. A diferença está nos níveis de pobreza que são encontrados nos países e que estão relacionados ao desenvolvimento econômico e social que cada nação conseguiu atingir.

A Coreia do Sul, assim como o próprio Estados Unidos são países considerados desenvolvidos, mas que entre o grupo de nações desenvolvidas apresentam índices sociais preocupantes, podendo até em uma situação ou outra encontrar semelhanças com os problemas enfrentados no mundo emergente e subdesenvolvido. Por isso, não existe situação ideal. As mudanças de um país para melhor, assim como do mundo em geral, exigem uma reflexão política importante que levará a novas soluções econômicas e sociais. Desta forma, os que mais sofrem com as desigualdades sistêmicas, ou compreendem que elas existem são os aptos a realizar estas transformações, pois dificilmente quem vive no conforto do topo da pirâmide social vai querer modificar este contexto. “Parasita” possibilita tais reflexões e até a sua crítica não revolucionária, algo parecido que se vê em Coringa e Bacurau, pode ter um efeito interessante, pois ao não dar respostas, convidam o espectador a procurá-las.

O diretor Bong Joon-ho segura o prêmio da Palma de Ouro no 72º Festival de Cannes conquistado por seu filme “Parasite”. Crédito: France 24.

Ficha técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Bong Joon Ho |Roteirista: Bong Joon Ho | Elenco: Kang Ho Song, Sun Kyun Lee, Yeo Jeong Jo, Jang Hye-Jin, Choi Woo-Sik, Park So-Dam, Lee Jung-Eun | Duração: 2h12min