The Witness: um triste retrato da indiferença

Por Mayara Araujo

Desde o merecido Oscar de Parasita e a recente pandemia de COVID-19 que tem impossibilitado o amplo acesso às salas de cinema, a plataforma de streaming norte-americana, Netflix, tem nos brindado com catálogo relativamente diverso de filmes sul-coreanos. Esse é o caso da inserção de The Witness, do estreante Jo Kyoo-Jang que entre altos e baixos traz a ácida crítica da indiferença com a qual a sociedade contemporânea lida com as relações humanas.

Com um roteiro extremamente simples, a narrativa traz o olhar de Sang Hoon (Sung-min Lee), que ao chegar do trabalho em uma madrugada, acaba testemunhando um brutal assassinato de uma moça através de sua janela. Antes que pudesse denunciar o acontecimento, sua esposa acorda no meio da noite e acende as luzes, chamando a atenção do assassino do lado de fora, que imediatamente nota Sang Hoon. Assustado ao ser percebido, Sang Hoon deixa de denunciar o crime para a polícia e passa a viver acuado com a possibilidade de ser encontrado e com o bem-estar de sua família.

Esses minutos iniciais da trama marcam o início de uma perseguição implacável que nosso protagonista passará a experienciar, na qual tudo o que parece importar é a sua própria segurança e a de seus entes-queridos. Para isso, San Hoon estará disposto a se calar, a mentir sobre a verdade e a ignorar a dor da perda dentro de sua própria vizinhança. 

Crédito: BrazilKorea.com

Na manhã seguinte, o corpo da vítima é encontrado e o detetive Jae-Yeob (Kim Sang-Ho) assume o caso. Para isso, Jae-Yeob passa a interrogar os moradores do complexo residencial para tentar localizar o criminoso. No entanto, ele se depara com a fria indiferença da maior parte dos moradores e uma preocupação exclusiva com a possível alteração no valor dos imóveis devido a má fama da região.

Enquanto isso, o assassino Tae-ho (Kwak Si-yang), sempre à espreita, atua como um verdadeiro stalker, mapeando e vigiando as testemunhas para garantir que não seja pego. Assim, intimida o protagonista, comete outro assassinato, bem como manda “mensagens” horripilantes – como matar um animal de estimação e enviar sua cabeça para os donos – no intuito de controlar a situação.

O filme se perde pelo meio do caminho ao enfatizar excessivamente na atmosfera de thriller e preterir o roteiro. A violência, típica da estética cinematográfica sul-coreana, chega a incomodar, visto que se sobrepõe à narrativa e torna o passar dos minutos um tanto quanto arrastados. 

Crédito: canaltech.com

As motivações de Tae-ho não são explicadas na trama, falta aprofundamento em sua personalidade e o seu passado não é revelado. Não há nuances em sua apresentação, tornando-o um vilão meramente vil. De fato, o roteiro carece de “nós” que deixariam a história mais envolvente e bem amarrada.

Mais para o término, Sang Hoon e detetive Jae-Yeob conseguem agir em alguma sintonia, visto que ambos possuem o objetivo em comum de impedir que o assassino continue à solta. Grotescamente, é Sang Hoon que consegue limitá-lo e levar Tae-ho para de trás das grades. Assim, nosso protagonista finalmente alcança a paz necessária para continuar vivendo com sua família – agora em outra vizinhança. 

Ainda assim, de forma irônica, o filme é encerrado da mesma forma que começa: no pátio do complexo residencial, com Sang Hoon, agora transformado por suas últimas experiências, gritando por socorro no meio da noite. Ele aguarda que as luzes acendam e que alguém venha averiguar o que está acontecendo, principalmente depois de traumáticos assassinatos ocorridos na vizinhança. E se choca, em uma brilhante atuação de Sung-min Lee, ao perceber que nada mudou e que ninguém acenderá a luz, revelando, por fim, a total indiferença com o bem-estar do outro.

Crédito: sessaosemedo.com

Sem dúvida, o que The Witness traduz não passa de um retrato triste da sociedade contemporânea, que vive os seus dias fechada dentro de suas próprias bolhas e com uma cruel falta de empatia com a vida dos outros. 

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Jo Kyoo-Jang | Roteirista: Lee Young-jong | Elenco: Lee Sung-min, Kim Sang-ho, Jin Kyung, Kwak Si-yang  | Duração: 111 min | Ano: 2018

O veterano: os vícios de uma sociedade corrompida e altamente hierarquizada

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas / KoreaPost)

Muitos pensadores socialistas concordam com a ideia de que o sistema capitalista utiliza da estrutura política e socioeconômica tradicional, pode-se dizer até arcaica, de um grupo social específico, ou até uma nação inteira, em favor dos seus objetivos. Isso quer dizer exatamente o que? Um bom fato histórico para exemplificar a colocação acima foi a escravidão no Brasil. Esta estrutura de exploração do trabalho a custo zero com a mão-de-obra braçal rendeu diversos benefícios ao sistema capitalista mundial.

Como diria o autor Eric Williams“foram as plantações trabalhadas por escravos que fizeram crescer o volume do comércio intercontinental, estimularam o desenvolvimento de todo um conjunto de indústrias de transformação (desde o refino de açúcar até as primeiras fábricas de tecido de algodão) e tornaram alguns portos atlânticos em prósperos comerciais”.

Na Coreia do Sul, o sistema certamente faz adaptações à cultura local, mas a sua essência não é em nada modificada: a exploração da força de trabalho, com o menor custo. Certamente, em um período mais avançado do mundo pós-moderno, os alicerces desta estrutura exploradora necessitam ser mais sofisticados e complexos, no intuito de impossibilitarem a sua mais fácil compreensão, em especial para as camadas mais pobres.

Crédito: IMDB

A Coreia é conhecida por sua sociedade com valores tradicionais, de respeito, ou quase submissão aos mais velhos, da honra adquirida pela dedicação total ao trabalho e à comunidade, ao país. Tratam-se de características seculares da sociedade coreana. De um ponto de vista ocidental, estes elementos parecem, à primeira vista, bastante nobres, e, em boa parte dos acontecimentos realmente o são. No entanto, eles escondem também um cenário bastante triste e assustador de abusos, total desrespeito ao ser humano e de exploração máxima dos que menos detêm voz para contestar qualquer situação injusta.

Mais do que isso, esta estrutura de valorização do esforço dedicado ao trabalho, do respeito aos mais velhos, ou aos mais experientes, ou de cargo superior dentro de uma empresa, na realidade, também existem, com o objetivo de não fazer com que algumas questões sejam melhoradas, ou modernizadas. Desta forma, a elite, governante do país há décadas, continua a auferir dos lucros que esta estrutura de poder rende-lhe, em uma exploração e praticamente escravista à forma moderna do trabalhador sul-coreano, legalizada e aceita pelos próprios coreanos.

Assim, criam-se ideias românticas, como a de mães heroínas que obtêm três empregos para que os filhos possam entrar para a melhor faculdade, e vai-se aprofundando a desigualdade social, sem que o trabalhador possa perceber o quanto, na realidade, é explorado. Contudo, há momentos que esta farsa toda é rompida e a realidade, por alguns segundos, vem à tona. E estas oportunidades normalmente ocorrem à partir daqueles que ousam contestar tudo e tomar atitudes concretas. E este cenário que está por traz do filme “O Veterano” (2015), dirigido por Ryoo Seung Wan.

Crédito: IMDB

Certamente, não se quer afirmar neste texto que o diretor e os demais criadores desta produção cinematográfica necessariamente leram Karl Marx para contar esta história, mas o artista com uma sensibilidade acima do normal e observador do seu cotidiano, consegue compor e descrever melhor uma situação do que muitos pseudo-intelectuais, pretensamente “mestres do universo”, que existem nas universidades, mídia e outros locais… Neste enredo, o detetive Seo Do Cheol (interpretado por Hwang Jung Min) é uma espécie de policial totalmente “fora da curva”, que segue poucas regras, não obedece a superiores mas é implacável com o crime.

Um dia ele atende a ocorrência do motorista Bae, (vivido por Jung Woong In) que parece ter tentado suicídio ao perder uma reivindicação de pagamento de salário, após o encerramento de contrato com o grupo de motoristas por serem sindicalizados. Mas a sagacidade do detetive o faz desconfiar do jovem milionário, arrogante e herdeiro do poderoso conglomerado Sinjin Group Jo Tae Oh (que toma vida na pele do maravilhoso e jovem ator Yoo Ah In, um ator de personalidade já bastante polêmica e provocativa na vida real). O policial percebe que Bae provavelmente foi espancado e atirado de uma escada, em prédio com vários andores pelo filhinho do papai, sem limite algum. No entanto, não importa o quão rigorosamente a equipe de Seo o persiga, Jo sempre escapa com a ajuda de sua riqueza e conexões.

De todos os fatores que seria possível citar sobre esta obra, que passou a ser a quarta maior bilheteria da história do cinema coreano, estão as interpretações, a narrativa, o conjunto de planos filmados e a montagem que utiliza do clássico formato de contar uma história do fim para o início e explora a criação de cenas especiais para ilustrar as teorias do detetive e as mentiras do jovem riquinho, nas colocações de ambos do que venha a ter realmente ocorrido. Com um elenco secundário de primeira linha que dá toda a sustentação dramática para a trama, “O Veterano” brilha neste quesito, entretendo e provocando indignação e reflexões.

O motorista Bae, interpretado por Jung Woong In. Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Estão no filme atores do calibre de: Yu Hae Jin (que interpreta o diretor Choi, o responsável por encobrir tudo que ocorre, ou Jo Tae Oh faz); Oh Dal Su (vive chefe da equipe policial de Seo); Song Young Chang (é o presidente do conglomerado e pai de Jo); além de Bae Sung WooJeong Man Sik e Cheon Ho Jin. Hwang Jung Min e Yoo Ah In fazem uma dupla maravilhosa, que em situações de violência física e verbal, exploram tanto a crueldade e seriedade das situações, quanto o caráter cômico dos personagens, ambos de personalidade bastante explosiva, capazes de chegar a extremos, até ao ridículo.

Yoo Ah In lembra muito filhos de ricos brasileiros que cometem atrocidades, até matam pessoas, e jamais são presos. E Hwang Jung Min é aquele servidor público, aquele policial praticamente em extinção, que nasceu para exercer esta função e que tem o senso de perceber as situações, enquanto a maioria de seus colegas seguem caminhos tradicionais e mais fáceis. Com métodos até antiquados, o detetive faz de tudo para fazer valer a lei, mas é uma peça única em uma estrutura burocrática bastante hierarquizada e corrompida.

Em parte, as boas performances devem-se, acima de tudo, à construção narrativa de Ryoo Seung Wan, que como de costume na Coreia, tradicionalmente mistura diversos gêneros, em especial ação, situações cômicas, violentas e de um certo suspense, gerando aquela obra policial que faz o espectador acompanha-la até o final, sem pegar no sono, e consegue ao mesmo implantar uma semente de indignação importante. Nela ainda se pode observar aquela capacidade bastante peculiar do coreano de rir da própria desgraça, algo que tem em comum com o brasileiro, até certa medida. “O Veterano” está disponível na Netflix e deve contar na sua lista de filmes coreanos a assistir, se por acaso ainda não o fez.

Yu Hae Jin interpreta o diretor Choi. Crédito: IMDb.
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Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Ryoo Seung Wan | Roteiro: Ryoo Seung Wan | Elenco: Yoo Ah In, Hwang Jung Min, Yu Hae Jin, Oh Dal Su, Jung Woong In, Song Young Chang, Jeong Man Sik | Duração: 122min | Ano: 2015.

Signal: quando o passado e o presente se entrelaçam em uma complexa narrativa de perseguição

Por Mayara Araujo

Histórias nas quais as temporalidades se conectam e promovem uma série de modificações no tempo presente ou futuro não são pouco usuais. Em uma referência um pouco mais clássica da ficção científica, poderíamos citar a trilogia De volta para o futuro, dirigido por Robert Zemeckis. Em 2004, observamos o sucesso de bilheteria de Efeito Borboleta. Até mesmo dramas românticos que intercalam temporalidades foram criados, como Questão de tempo em 2013. A própria série alemã Dark é um complexo e instigante prato cheio para aqueles que se interessam pela temática. No entanto, poucas narrativas foram tão bem estruturadas e repletas de emoção como observamos no drama de televisão sul-coreano, Signal, exibido pela tvN em 2016. Antes de prosseguir, é importante deixar escrito que esse K-drama vai levar o seu sono embora ao longo dos alucinantes 16 episódios.

Nas últimas décadas, observamos o levante cultural da Coreia do Sul através de sua música pop (K-pop) e seus dramas de televisão (K-dramas), que tem conquistado uma expressiva audiência global e se tornado pauta de discursos midiáticos e trabalhos acadêmicos. Recentemente, com o estrondoso sucesso de Parasita de Bong Joon-Ho que conquistou diversos prêmios cinematográficos, dentre os quais o Oscar de melhor filme, também tem colaborado para pluralizar e complexificar as imagens que circulam da Coreia do Sul além-mar. Nesse sentido, produções televisivas como Signal, que fogem à lógica dos K-dramas com roteiros majoritariamente centrados em um romance, se destacam no catálogo da Netflix brasileira. 

A quinze anos atrás, uma criança foi sequestrada e, dias depois, foi encontrada morta. A polícia não conseguiu resolver esse crime. No entanto, Park Hae Young (Kim Hyun Bin), a versão ainda criança do protagonista, viu a mulher que havia levado sua colega de classe embora. A polícia não lhe deu ouvidos. Em paralelo, seu irmão de 18 anos é acusado de um crime que ele acredita ser impossível de ter cometido. Após cumprir sua pena, Park Seon Woo (Chani) comete suicídio. Desde então, Park Hae Young não confia nas forças policiais sul-coreanas. Quinze anos depois, em 2015, nos encontramos novamentes com Park Hae Young (Lee Je Hoon), um policial cuja especialidade é fazer um perfil psicológico dos criminosos. Um dia, ele encontra um walkie-talkie sem bateria, que possibilita que ele entre em contato com o passado (2001, 1997, 1985 e outros anos) do policial Lee Jae Han (Jo Jin Woong), que está desaparecido desde 2001, após ser acusado de corrupção. Assim, Hae Young consegue informações privilegiadas sobre o passado e, principalmente ao lado da líder de equipe Cha Soo Hyun (Kim Hye Soo), eles abrem novas investigações sobre os crimes passados que a polícia não conseguiu resolver.

Crédito: doramaworld.blogspot.com

Já no passado, a recém-contratada policial Cha So Hyun é designada para o mesmo setor de Lee Jae Han, sendo apresentada como uma “mascote” por ser a primeira mulher do departamento. Causando certo alvoroço dentre os demais policiais que ficam sem jeito de receber uma mulher no local de trabalho, Lee Jae Han se mantém intacto aos seus princípios e continua se comportando da mesma forma independentemente de uma presença feminina. Não tarda, portanto, para que os dois passem a trabalhar juntos e a desenvolverem uma forte amizade – que poderia se transformar em algo mais. Ali, os colegas de trabalho têm observado que Jae Han anda sempre apegado a um walkie-talkie velho, mas que ele alega “dar sorte”. Assim, Jae Han começa a se envolver com casos obscuros e a apontar o dedo na cara de policiais e outros representantes poderosos e, evidentemente, passa a incomodar muita gente. Em paralelo, existe uma disputa política ocorrendo e o chefe do departamento é transferido para outra cidade, abrindo espaço para a chegada do supervisor Kim Beom Joo (Jang Hyun Sung). Beom Joo é o típico caso de sucesso misterioso: ascendeu a cargos gradativamente mais poderosos rapidamente, além de nutrir relações obscuras com representantes políticos e donos de empresas multimilionárias.

Como todo clichê do gênero, ao se interferir no passado, o presente sofre modificações e isso se transforma em um grande dilema para o protagonista. Até que ponto é positivo que ele esteja em contato com Lee Jae Han? Vale a pena salvar a vida de uma vítima se outra pessoa morre em seu lugar? É prudente interferir no passado e arriscar uma mudança drástica no momento presente? Sem dúvida, as transformações ocorridas ao longo desses fluxos temporais colocam em xeque a consciência de Hae Young. No entanto, a situação se complica no momento em que o detetive Hae Young se depara com situações de seu próprio passado que ficaram pendentes.

Já Cha Soo Hyun mudou muito nos últimos quinze anos. De uma policial sem experiência e que frequentemente se assustava com os acontecimentos cotidiano, se transformou em uma mulher extremamente forte, pronta para liderar uma equipe com maestria, mesmo sob desconfiança de outros policiais homens do departamento. Cha Soo Hyun desenvolve uma certa afeição por Hae Young, embora desconfie de suas ações e sabedoria que são pouco explicadas, em virtude de estranhas conversas em um walkie-talkie. Em 2015, a detetive continua em busca de seu antigo parceiro Jae Han, desaparecido em 2001. Eventualmente, com apoio de Hae Young, ela pôde reencontrar os restos mortais de Jae Han no necrotério da polícia. O que levou Jae Han à morte? Mais uma vez, interferir no passado se torna urgente para que o presente não seja um ambiente de tanto sofrimento.

Crédito: Asianwiki.com

De volta à sua juventude, Hae Young presencia a prisão de seu irmão mais velho, Park Seon Woo, acusado de participar de um estupro coletivo de uma colega de classe. Após pegar alguns meses de detenção e sendo Seon Woo o único punido pelo crime, o rapaz retorna para casa e encontra uma família desestruturada. Dias depois Hae Young encontra seu irmão desacordado, envolto de sangue. Teria Seon Woo cometido suicídio? A polícia sul-coreana teria sido incapaz de investigar o crime corretamente, levado Seon Woo a desistir de tudo agora que seu nome fora manchado? Qual a correlação entre Jae Han e Seon Woo? O que existe escondido nesse passado injusto e turbulento?

Em uma série de reviravoltas, por vezes surpreendentes, e atuações simplesmente brilhantes, Hae Young, Lee Jae Han e Cha Soo Hyun desafiam a macroestrutura policial da Coreia do Sul, ora reescrevendo o passado e lidando com as consequências no presente e ora constatando que há situações que não devem ser revertidas. Juntos, a equipe de “cold cases” garantem que o futuro/presente de Lee Jae Han seja mais brando. Ou será que nem tanto?

Crédito: viki.com

Ficha técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Kim Won Suk | Roteiro: Kim Eun Hee | Atores: Lee Je Hoon, Kim Hye Soo, Jo Jin Woong, Kim Won Hae, Jang Hyun Sung, Chani, Kim Hyun Bin| Episódios: 16 |  Ano: 2016. 

Admirável Poesia de Mi-ja

Por Mateus Nascimento

Se você gosta de cinema coreano para pensar as questões sociais de nosso tempo, gostaríamos de sugerir para você ver o filme Poesia de Lee Chang-Dong.

Lançado em 2010, Poesia, 시 (Si na língua original), desponta como uma das obras mais filosóficas do diretor, recentemente reconhecido pelo filme Burning, Em chamas em português, inspirado num conto de Haruki Murakami (Queimar Celeiros). Por sua vez, Poesia conta a história da sofrida dona Mi-ja, uma avó na casa dos 66 anos que descobre princípios de da doença de Alzheimer após diagnóstico de seus esquecimentos leves.

A interpretação brilhante de Yoon Jeong-hee (1944–), uma das atrizes mais reconhecidas da Coreia do Sul desde pelo menos 1967, com variados prêmios de interpretação de papéis dramáticos, é composta ainda de um drama paralelo a esse: ela cuida de um neto em tempo integral, sozinha sem ajuda dos progenitores, e descobre as ações dele, dentre elas um estupro de uma estudante da mesma escola.

Cartaz do filme. Créditos: Amazon.

A história é impactante por vários motivos. Vemos na tela o que seria um drama do envelhecimento na Coreia do Sul, questionando todas as nossas expectativas e estereótipos do sucesso das políticas sociais das sociedades asiáticas. Some-se a isso a questão social do abandono parental pela qual podem passar os filhos de toda uma geração orientada para o sucesso profissional acima de tudo e todos, o impacto de doenças degenerativas ainda sem cura no planeta apesar de alguns países estarem melhor preparados do que outros etc. São muitos dramas e questões e dona Mi-ja brilha na tela por representar um questionamento que aparece nas entrelinhas da narrativa: a possibilidade de nós nos encontrarmos conosco mesmos no exato momento da crise, do trauma, da estafa ou da situação limite.

Afinal, como seria possível para alguém como ela, abandonada e abraçada a própria determinação de viver se reinventar diante de algo que a corrói por dentro? Nisso entra a poesia, a poética e o ponto central, mais provocante: uma senhora sem quaisquer condições decide ser poeta e praticar aquilo que muitos poetas apregoam, uma observação cuidadosa e paciente do mundo ao redor.

Voltando a dona Mi-ja, ficamos sabendo que mesmo com a idade avançada ainda trabalha ocasionalmente para complementar a renda, a ponto de se submeter aos serviços em casa de famílias para conseguir resolver suas contas e necessidades e as do neto também.

Yoon Jeong-hee é dona Mi-ja no filme Poesia de Lee Chang-Dong (2010). Créditos: Pinterest.

Concomitante, quando alguns pais envolvidos descobrem as atrocidades cometidas por ele e seu grupo da escola, ela é inserida em uma grande negociação indenizatória, para que todos os envolvidos saiam ilesos, sem registros criminais que afetariam os negócios de família. Uma condenação ou uma exposição exagerada poderia prejudicar eternamente o futuro do negócio dos pais (que devem continuar na vida dos seus filhos, roboticamente destacados para a tarefa) e o desenvolvimento social deles, embora a primeira preocupação seja mais forte.

Certamente, a querida dona Mi-ja já é uma vencedora por suportar tamanhas demandas sendo quem é, materialmente falando.

Nesse somatório de absurdos, de coisas que nos constrangem e irritam (traço típico das construções fílmicas do diretor) reside a poética de Lee Chang-Dong: como um conhecedor da cultura coreana (ele foi funcionário do ministério da Cultura deste país), ele aponta com o dedo em riste sem pudor para dentro da comunidade sul coreana e nos lança as mesmas questões, mostrando através das imagens que essa situação dramática da humanidade tem haver com todos os participantes da comunidade humana, sobretudo, por nos calarmos diante de situações como essas. Todos temos alguma culpa e deveríamos ter o ímpeto de procurar alguma resposta diante da dor dos outros. 

Ao propor um enredo com uma senhora que se descobre poeta após (repito: após!) saber ser portadora de Alzheimer, Lee está sugerindo, pelo menos, uma tomada de posição. Perceba-se desde já que cada plano carrega pelo menos duas exclamações: a situação de Mi-ja não é inverossímil! A situação de Mi-ja deveria ser inaceitável! Contudo, Mi-ja mora na Coreia, no Brasil e em toda parte do mundo que não se permita refletir sobre envelhecimento. Bom filme.

Trailer do filme no Youtube

Ficha técnica: Poesia (Si), de Lee Chang-dong (Coréia do Sul, 2010).

Obsessão: o amor conturbado de um veterano de guerra

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas)

Amor é algo facilmente confundido por outros tipos de sentimentos, normalmente, menos altruístas, menos puros e incondicionais como a paixão, a necessidade de controle, de possuir, ou a obsessão por alguém. Esta questão é bastante explorada nas mais diversas cinematografias pelo mundo e na sul-coreana não seria diferente. No filme “Obsessão” (2014), dirigido por Kim Dae Woo, o coronel Kim Jin Pyong (Song Seung Heon), que fez parte do grupo de militares sul-coreanos levados a combater junto às tropas dos Estados Unidos no Vietnã, sofre em silêncio de Transtorno de Estresse Pós-traumático (TEPT).

Decorado herói de guerra, ele também está prestes a ser promovido a general. É casado com a filha de seu comandante, a gentil Lee Sook Jin (Cho Yeo Jeong). Uma união que, ao menos para ele, não há mais qualquer afeição e carinho real, mas um coronel deve sempre, ao menos em teoria, seguir suas obrigações. Um dia, um capitão chamado Kyung Woo Jin (On Joo Wan) é transferido para a tropa de Jin Yong, mudando-se para a casa ao lado com sua esposa, a chinesa, Ga heun (Lim Ji Yeon).

Até um período, os vizinhos não parecem ter grande contato, mas a esposa do coronel está bastante interessada nos recém-chegados. Assim, ela acaba provocando a curiosidade de coronel Kim Jin Pyong que vai a casa dos vizinhos e depara-se com a esposa de seu capitão. Percebe-se de pronto que uma atração instantânea acontece, resultando em um caso extraconjugal futuro.

Crédito: IMDB

“Obsessão” não é um filme extraordinário, nem aborda questões muito diferentes que outros já não tivessem discutido, mas tem seus encantos. Em especial pela forma como a narrativa é construída, pelas atuações, pelas críticas implícitas, quase sutis, e pela sua beleza fotográfica. É importante ainda ressaltar, perdão a indiscrição da autora, a beleza física do ator Song Seung Heon, cuja forma corpórea é bem utilizada pelo diretor, em especial nas cenas de sexo.

Os quadros e tomadas dos momentos mais íntimos do casal são bastante explícitos para os padrões sul-coreanos, mas ao mesmo tempo têm uma sensualidade e uma plasticidade interessante, não sendo nada vulgares. A atuação do par de atores atingiu o objetivo em demonstrar ter bastante química, naturalidade e desenvoltura nestas cenas em particular, algo extremamente complicado e difícil de fazer, ainda que o público geral ache que não.

A fotografia bastante clara em ambientes externos e que utiliza luzes quentes nos momentos de confraternização dos indivíduos daquela situação e em seus momentos mais íntimos também, contribui para envolver o espectador naquela atmosfera de sentimentos reprimidos, para depois serem extravasados quando os personagens permitem-se mais. As sombras durante as passagens de tensão também almejam incitar no público a sensação de perturbação, a turbulência psicológica do casal de amantes, em especial do coronel.

Lim Ji Yeon é a apática Ga Heun. Casada com o capitão Kyung Woo Jin (On Joo Wan), ele tem um caso secreto com o comandante de seu esposo. Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Por sinal, segundo o próprio Song Seung Heon, esta obra foi um divisor de águas para a sua carreira, já que ele necessitaria até então provar para si que seria capaz de participar em tal produção. O ator que até aquele momento sempre fizera papeis de mocinho com carinha bonita, ansiava por mostrar que era mais do que isso. Para muitos, este, que é um dos queridinhos da onda Hallyu, fracassou no seu objetivo, mas esta autora tende a descordar com a opinião geral.

Song Seung Heon é sim um grande ator e incarna de forma muito convincente, com a dosagem certa de emoção, o coronel introvertido, que sofre em silêncio, que mantem as aparências acima de tudo, mas que sufoca aos poucos com o contexto um tanto opressor em que está inserido. Importante ainda salientar que esta foi a primeira experiência do ator com cenas íntimas de um casal. No entanto, ele não atingiria tal resultado positivo, sem a participação conjunta de suas e seus colegas. O elenco dos personagens secundários cumpre o papel de suporte de forma bem satisfatórias. A atriz Cho Yeo Jeong faz uma esposa perfeitamente avoada, infantil, tagarela, que vive em seu pequeno mundinho de aparências e nem nota o sofrimento do marido. Ela está mais preocupada com o entorno e os demais, do que com aqueles que lhe são mais próximos, vivendo em um mundo à parte.

Um mundo feliz e bonito, criado, talvez, de forma inconsciente em consequência de ser uma mulher mimada, ou pela sua dificuldade em lidar com questão complicadas, como ser esposa de um militar, herói de guerra. Não se trata de uma pessoa ruim, mas um clássico clichê da mulher da época que é agradável com todos, não é preconceituosa, mas ao mesmo tem a cabeça enquadrada no sistema.

O capitão Kyung Woo Jin (On Joo Wan) faz de tudo para avançar na carreira militar, inclusive usar a própria esposa. Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Já On Joo Wan faz o típico aproveitador, carreirista, capaz de usar a própria mulher para atingir seus objetivos profissionais. O capitão Kyung Woo Jin representa bem como é um ambiente estruturado em uma hierarquia muito rígida, resultando em diversos puxas-sacos e profissionais que apresentam uma ambiguidade de caráter, tão comum a este meio, quanto a outros digamos mais liberais. Lim Ji Yeon também vive de forma crível uma mulher quase apática para a vida. Ela compreende que o marido a explora, mas aceita. Mesmo não sentindo conforto, nem felicidade ao seu lado.

Seu encontro com o coronel, ainda que contenha grande carga emocional em vários momentos, no geral, parece apenas mais um acontecimento, quase um acidente de percurso a sua existência, sendo bastante evidente em outros momentos de tensão do filme. A atriz, de repente, encarnou tanto a apatia de sua personagem, que lhe faltou uma dose maior de explosão emocional ao final, em que Ga Heun compreende que sentia amor pelo coronel afinal. Detalhe que esta foi a primeira experiência da atriz em um projeto cinematográfico comercial.

Esta atmosfera de passividade com relação ao status quo é realmente uma característica que engrandece o enredo. A sensação é de que se está sufocando em torno de pessoas tão bem-comportadas, tão aparentemente cordiais e diplomáticas. É possível compreender o coronel em vários momentos e seus conflitos internos. Contudo, nos bastidores, as fofocas espalham-se, assim como os preconceitos com a chinesa Ga Heun e a superficialidade de mulheres que parecem insistir em levar vidas normais, com uma, ou outra aventura, uma que outra atitude ousada, como dançar às segundas com um estranho chamado Lim (Yu Hae Jin), dançarino de tango. Enquanto isso, seus maridos vivem as experiências mais horríveis que um ser humano pode experienciar. A guerra está em pleno vapor ainda no Vietnã, mas parece não atingir o cotidiano daquele pequeno mundinho sul-coreano, aparentemente.O romance com Ga Heun será para o coronel Kim Jin Pyong como o ponto de explosão, em que ele extravasa suas angústias e tenta experimentar retornar a vida normal. Isso é perceptível quando ele procura aprender a dançar para uma noite especial com aquela que ele acha ser sua nova e verdadeira amada.

Cena do filme “Obsessão”. Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Talvez, o que tenha provocado no coronel estabelecer este vínculo com Ga Heun fosse a reação dela em um momento de extrema tensão, em um evento do hospital do exército, organizado pelas esposas dos oficiais comissionados, onde são voluntárias. Na ocasião, um paciente que sofre de TEPT ataca Ga Heun, e Kim Jin Pyong vem em seu auxílio.

Ela chega a ser baleada, mas age como se nada tivesse ocorrido, enquanto as demais mulheres desesperadas gritam e desmaiam. Uma atitude que chama atenção a um ex-combatente de guerra, pois ali está alguém que pode entender um pouco das suas experiências e do que significa viver a sua realidade, ser quem ele é, tendo de presenciar situações de conflito, comuns para aquele modo de vida.

Outra curiosidade do filme, e que poderia ter sido melhor explorada, é justamente o fato histórico da participação sul-coreana na Guerra do Vietnã, algo pouco comentado, talvez até por razões compreensíveis. Afinal, este evento histórico traz uma verdade um tanto vergonhosa para uma Coreia que sempre lutou por independência, acabar submetida às ordens de outro país, que almejava invadir e controlar um irmão asiático.

Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Por fim, seria amor o que o Coronel sente? Ou apenas uma consequência de sua mente perturbada? Para a maioria dos críticos na época a segunda constatação seria a certa. Esta autora acredita que o humano é sempre mais complexo e aposta que podem ser ambos. Pois mentes perturbadas também amam, de forma errada talvez, mas amam.

E anseiam, acima de tudo, buscar algo de mais real, verdadeiro e honesto que o entorno aparentemente da normalidade e da aparência não oferece.  Alguém que entenda as dificuldades e não apenas as ignore. Trata-se de uma tentativa de buscar por algo melhor, mesmo que passe de uma ilusão e que possa ter consequências mais drásticas em seu desfecho.

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Kim Dae Woo | Roteiro: Kim Dae Woo, Oh Tae Kyung | Elenco: Song Seung Heon, Lim Ji Yeon, Cho Yeo Jeong, On Joo Wan, Yu Hae Jin, Bae Sung Woo | Duração: 232mins | Ano: 2014

Silenced: Abandono daqueles que gritam em silêncio

Por Hsu Ya Ya*

Uma escola para deficientes auditivos e intelectuais entre 7 e 22 anos. O medo refletido através dos olhos das crianças. Roxo, a cor que deveria estar estampado nos desenhos está presente nos rostos em forma de hematomas. Parece roteiro de filme de terror, não? Não deixa de ser um filme, mas o gênero não é de terror. Silenced é baseado em fatos reais que aconteceram na Coreia do Sul entre os anos 2000 a 2004, quando o caso foi exposto por um professor ao grupo de direitos humanos da cidade de Gwangju.

Em 2009, a autora Gong Ji Young lançou o livro “The Crucible”, baseado no caso “Gwangju Inhwa School”, mas a história só causou impacto na sociedade sul-coreana quando o filme foi lançado, em 2011.

Kang In Ho (Gong Yoo) é um professor de artes que fora indicado para dar aula em uma escola para deficientes auditivos na cidade de Minju a fim de ensinar e conseguir dinheiro para a sua família que passava por momentos difíceis, após o suicídio de sua esposa e a doença da filha. Logo no primeiro dia de trabalho, Kang      nota o ambiente sombrio que permeia entre os corredores da escola e os olhares distantes de seus alunos.

Crédito: viki.com

Durante a sua primeira aula, Min Su (Baek Seung Hwan) chega a aula com diversos hematomas no rosto, e quando In Ho questiona o professor Park Bo Hyun (Kim Min Sang), este relata que os machucados foram ocasionados pela sua “deficiência”, além da recente perda do seu irmão mais novo. Curioso a respeito das crianças, o professor de artes busca o histórico escolar do Min Su, Yeon Doo (Kim Hyun Soo) e Yoo Ri (Jung In Seo), reparando que essas crianças são órfãs ou foram abandonadas pelos pais.

A reviravolta começa quando In Ho encontra Yeon Doo sendo torturada pela irmã do diretor do instituto, que fora socorrida e encaminhada ao hospital com a ajuda da ativista dos direitos humanos Seo Yoo Jin (Jung Yu Mi). Ao passar a noite acompanhando a menina, a ativista recebe através de uma carta, o relato de estupros que vem acontecendo dentro da escola feito pelo diretor, o seu irmão e o professor Park. Com isso, In Ho e Yoon Jin começam a luta pelo direito dessas crianças, enquanto as autoridades locais e a própria população fechava os olhos diante do caso.

Apesar do filme ser baseado em fatos reais, alguns acontecimentos foram alterados, seja na questão da quantidade de acusados envolvidos no caso, ou as vítimas que sofreram tais abusos. Um número questionável até as últimas notícias sobre o ocorrido na vida real, mas nada se compara ao impacto da narrativa do início ao fim, com cenas fortes e tocantes sofridas pelas crianças, a indiferença dos professores que presenciavam as agressões físicas, a descrença da população para o caso.

Crédito: YouTube

A primeira impressão que se tem é que o filme parece ser de suspense ou terror pela sensação que passa ao espectador, através da ambientação do local malcuidado, pouca iluminação, olhares sem vidas e a tortura psicológica a quem assiste pelas cenas chocantes de abusos.

Silenced passa a sensação de impotência para quem assiste, mas levanta diversos questionamentos sobre o papel do ser humano diante de casos obscuros que permeiam a nossa sociedade, a conduta que devemos ter como cidadãos, em contrapartida, o poder na mão daqueles que têm mais dinheiro, o silenciamento das vítimas oprimidas pela sociedade, as brechas dentro da legislação, o papel do jornalismo a fim de expor casos que seriam acobertados por aqueles que têm poder e a importância de defender os direitos humanos.

Crédito: Tumblr

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Hwang Dong Hyuk | Roteirista: Hwang Dong Hyuk baseado no livro “The Crucible” da autora Gong Ji Young | Elenco: Gong Yoo, Jung Yu Mi, Kim Hyun Soo, Jung In Seo, Baek Seung Hwan | Duração: 125min | Ano: 2011

*Hsu Ya Ya é graduanda em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), pesquisadora no grupo Comunicação, Arte e Literacia Midiática, membro do Observatório da Qualidade no Audiovisual e bolsista de treinamento profissional no projeto #Observatório: Produção de vídeos de divulgação científica)

Covid-19 e capacidade cultural: a lição sul-coreana

Por Yun Jung Im (professora e coordenadora do curso de Língua e Literatura Coreana do Departamento de Letras Orientais da USP – Universidade de São Paulo)

Cidade que foi epicentro de Covid-19 na Coreia do Sul não tem ...
Profissionais do hospital Dongsang, de Daegu, em abril de 2020. Foto: Yonhap News.

Cronologia da pandemia na Coreia do Sul

No último dia 30 de abril, a Coreia do Sul anunciou ter zerado o número de novos infectados locais de Covid-19 ao cabo de 72 dias, excluídos os quatro detectados no aeroporto. O feito foi noticiado com entusiasmo na primeira página do BBC.com com o título “South Korea records no new local vírus cases”, e também na BBC World News em primeira manchete.

Ainda que no dia seguinte o número já não fosse mais zero, o número total de infectados vinha se mantendo em um dígito por duas semanas, e os coreanos começaram a retomar seu cotidiano com “medidas de rotina anti-pandemia” a partir de 03 de maio. Já com as escolas funcionando, mas também enfrentando a segunda onda de contaminação, os coreanos agora são alvo dos olhares do mundo todo, devidamente alçados ao posto de referência mundial em vigilância epidêmica: em 18 de maio último, o presidente Moon foi convidado para fazer o discurso de abertura da Assembleia Mundial da Saúde da OMS, e a Coreia do Sul foi convidada por Trump a participar da próxima conferência do G-7.

Até 14 de junho, a Coreia do Sul registrou um total de 12.085 infectados (incluindo cerca de 10% daqueles detectados no aeroporto) e 277 mortos. Se excluirmos Daegu, a terceira maior cidade coreana, epicentro secundário e considerada ponto fora da curva, com 6.892 infectados (57%) e 189 mortos (68%) até essa data, os números sul-coreanos causam espanto, diante da situação que temos presenciado em vários países pelo mundo, incluindo o Brasil.  

안철수, 의료복은 땀으로
Ahn Chul-soo, membro da Assembleia Nacional, trabalhando voluntariamente no combate à Covid-19 em Daegu no mês de março de 2020. Foto: Yonhap News.

Explico: o paciente número 31 (reportado em 18 de fevereiro), seguidor de uma seita nada ordinária chamada Sincheonji (Novo Céu e Nova Terra), teria participado de um culto, visitado uma sauna e ainda encontrado vários outros seguidores que estavam reunidos na cidade para o velório de três dias (31 de janeiro a 02 de fevereiro) do irmão do fundador da seita. O caráter “aglomeratório extremo” da seita, com quase 250 mil fiéis no país, teria puxado o gatilho para a propagação fulminante em Daegu a partir de 15 de fevereiro. Até 31 de janeiro eram apenas sete infectados (acumulados), mas um mês depois, em 1º de março, atingia o pico de 1.063 novos infectados.

Eleições em meio a pandemia e louros para o presidente

O zero do dia 30 de abril foi especialmente caro aos sul-coreanos, que haviam ido às urnas 15 dias antes para eleger seus 300 parlamentares. Alívio a todos que acompanhavam a evolução dos números receosos de que a eleição pudesse puxar um novo gatilho, a despeito dos cuidados: uso obrigatório de máscaras, filas com distanciamento, temperatura medida e luvas descartáveis fornecidas na entrada, além da hora final destinada somente para os que estavam em isolamento.

Eleitora vota em eleições legislativas na Coreia do Sul com máscaras e luvas nesta quarta-feira (15) — Foto: Ahn Young-joon/AP Photo
Eleitores precisaram, obrigatoriamente, usar luvas e máscaras para as eleições legislativas na Coreia do Sul. Foto: Ahn Youngjoon/AP Photo.

O bom desempenho do executivo em gerir a pandemia rendeu 180 assentos para o Partido Democrático, feito inédito num cenário político que foi sempre sentido como um “campo inclinado” pendendo para a ala conservadora. A vitória foi obviamente atribuída ao presidente Moon, e a superlua do dia 7 de abril lhe valeu o título de Super Moon.

A pandemia não impediu que se registrasse o recorde de 66,2% de eleitores (o voto não é obrigatório) votantes, quase 30 milhões, que deram um enorme voto de confiança ao presidente, garantindo-lhe os dois anos finais do mandato sem empecilhos políticos. A perspectiva agora é de que as reformas pretendidas pela situação, e que vinham patinando no congresso, desencalhem.

A luta de resistência da situação

Uma das reformas apregoadas pela situação é, certamente, a reforma da mídia. No dia 30 de abril, nenhum dos três jornais mais importantes sul-coreanos, ou até cinco numa lista estendida, haviam dado a notícia do zero com destaque em primeira página. Apenas um deles deu uma nota, em uma posição desprivilegiada. A principal agência de notícias Yonhap, que noticiou o fato com destaque, preferiu o título de “Não houve transmissão do Corona durante as eleições com 29 milhões de votantes”, em vez do “Zero”. Mesmo quando Trump telefonou para o presidente pedindo kits de teste com a promessa de aprovação emergencial pelo FDA (24 de março), ou quando Bill Gates telefonou convidando-o para pesquisas conjuntas em vacina contra o vírus (10 de abril), a imprensa fez pouco caso. Quando a ministra das Relações Exteriores deu entrevista ao vivo no programa Andrew Marr da BBC (15 de março) deixando o mundo de olhos arregalados, a imprensa acusou o governo de “jogar confetes em si próprio”, e finalmente quando o governador do estado de Maryland conseguiu importar kits para 500 mil testes (18 de abril), uma das emissoras coreanas propagou a notícia falsa de que 70-80% dos kits coreanos seriam defeituosos e que os americanos não estavam conseguindo usá-los. No momento, essa mesma agência está sendo investigada por tentar fabricar uma notícia falsa mediante ameaça a um suposto informante, além de conluio com um procurador, com o objetivo de denigrir a imagem da situação e do presidente. A tentativa de busca e apreensão impetrada pelo Ministério Público em 30 de abril à emissora resultou numa barricada humana de dois dias alegando perseguição à imprensa livre.

Seoul National University students hold a rally on their campus, Aug. 23, to urge justice minister nominee Cho Kuk to step down due to multiple allegations surrounding his family. / Yonhap
Estudantes da Seoul National University se manifestam contra Jo Guk em 23 de agosto de 2019. Foto: Yonhap News.

Entretanto, outra reforma ainda mais grave é a do próprio Ministério Público, com poderes para investigar e indiciar, além de abrir investigações sem que haja denúncia. O homem indicado pelo presidente no ano passado para conduzir a reforma do judiciário, o professor de Direito da Universidade Seul, Jo Guk (uma combinação rara em que o sobrenome Jo e o nome Guk formam a palavra homófona de Pátria), entregou o cargo em 45 dias, com sua filha e esposa sendo implacavelmente investigadas pelo Ministério Público, por um suposto Certificado de Honra ao Mérito do ensino médio supostamente falsificado(!). A esposa, presa preventivamente, está sendo julgada, acusada ainda por um empréstimo dado a um primo investidor financeiro. Segundo o Ministério Público, aquilo teria sido na verdade um investimento financeiro travestido, ato proibido para Jo Guk que ocupava o cargo de chefe da Casa Civil – ainda que, rigorosamente falando, Jo Guk era ainda professor universitário à época.

E a economia vai mal, só que não

O crescimento econômico sul-coreano previsto para 2020, que era de 2,2%, foi ajustado para 0,2% pelo Korea Development Institute (20 de maio). A previsão do FMI foi um pouco mais pessimista: 3,2% negativos para a Coreia (14 de abril). Mas o mesmo FMI previu um crescimento de 6,1% negativos para os países desenvolvidos, G7+Eurozone, o que coloca a Coreia com o “maior” crescimento entre os países do OCDE em 2020.

Moon Jaein, presidente da Coreia do Sul, fala à mídia sobre medidas de combate ao impacto econômico do surto de coronavírus no dia 30 de março, anunciando verba direcionada à população mais necessitada. Foto: TheStar.

Até início de maio, os Estados Unidos haviam liberado recursos correspondentes a 13,3% do seu PIB para socorrer a população e as empresas – sem contar a emissão de dólares –, enquanto que o governo coreano havia conseguido liberar apenas 0,7% do PIB em verba emergencial, sob protesto da ala conservadora – coro engrossado pelo próprio Ministério da Economia – que exige salvaguardar a saúde financeira do Estado. Um dos pontos acirradamente discutidos foi a distribuição da verba emergencial excluindo os 30% da população mais abastada, medida que causaria inclusive atraso nos pagamentos. A solução sugerida pela presidência foi de conclamar o povo “mais abastado” a doar o valor recebido, o que poderia diminuir o montante de títulos públicos a serem emitidos, com resposta calorosa e participativa dos internautas.

Se tal discussão colaborou para atrasar a ajuda do governo central, algumas administrações regionais (províncias e municípios) agiram mais rápido, na maioria com cartão de vale-compras que só pode ser usado localmente, com o intuito de salvar os comerciantes do bairro. Com uma dívida pública baixa (38% do PIB), mas também com alto endividamento familiar (94%) e baixo índice de poupança, abaixo dos 40%, a conclusão era clara, nas palavras do governador da Província de Gyeongnam (Kim Gyeongsu): “Se o governo não se endividar, a população irá”.

Cultura a serviço do combate ao Covid-19

 23일 대구시 달성군 구지면 중앙119구조본부에서 119 구급대 앰뷸런스들이 신종 코로나바이러스 감염증(코로나19) 확진자 이송을 위해 확진자가 있는 대구 시내 각 지역으로 출동하고 있다. 중앙119구조본부는 대구에서 확진자가 무더기로 늘어남에 따라 전날부터 전국 시·도에서 18대의 앰뷸런스를 차출해 환자이송에 나서고 있다. 대구 시내 확진자들은 중구 계명대학교 대구동산병원과 서구 평리동 대구의료원으로 이송된다.
Ambulâncias de diferentes lugares da Coreia do Sul se direcionam à Daegu. Foto: Ohmynews.

Segundo o professor de economia Choi Pae Kun, da Universidade Geonguk, o sucesso coreano no combate contra o Covid-19 é resultado de uma “capacidade cultural” coletiva dos coreanos pela mobilização civil, espontânea e desperta, permitindo o governo a manter as fronteiras abertas para China – sob insistentes protestos da ala conservadora –, de onde vem, entre outras coisas, o MB (Melt-Blown), matéria prima para produção das máscaras. De fato, ficaram famosas as fotos do comboio de ambulâncias do país todo se dirigindo para Daegu, das máscaras costuradas à mão por uma senhora idosa entregues no PS do principal hospital de Daegu, milhares de marmitas e guloseimas doadas por empresas para as equipes médicas, além de centenas de voluntários que se dirigiram para a cidade, incluindo o presidente do Partido do Povo, ex-médico, e também as barracas de teste drive-thru, invenção coreana em meio à pandemia.

É verdade que a mobilização civil dos coreanos sempre foi merecedora de atenção dos olhares internacionais: na Crise Financeira Coreana de 1997, três e meio milhões de coreanos participaram da campanha civil para arrecadar ouro guardado nos armários com o fim de pagar a dívida do Estado para com o FMI, sendo arrecadadas 227 toneladas de ouro. Em 2007, uma colisão entre um navio da Samsung e um de Hong Kong provocou o vazamento de quase 80 mil barris de óleo, quando foram registrados um total de 1 milhão e 230 mil voluntários para limpar o óleo impregnado nas pedras em pleno inverno.

Sul-coreanos participam da campanha de arrecadação de ouro no início do 1998 para ajudar o Estado a pagar o FMI. Foto: JoongAng Ilbo.

Mas foi em 2016 que a mobilização civil ganhou definitivamente a política – isto é, os rumos do país – quando milhões de sul-coreanos empreenderam o que ficou conhecido como a Revolução das Velas. Com a então presidente Park Geunhye envolvida em escândalos, o povo foi às ruas segurando velas exigindo seu afastamento. De 26 de outubro de 2016 a 29 de abril de 2017, foram 23 passeatas de velas enfrentando os 15 graus negativos do rigoroso inverno de Seul. A maior delas, em 3 de dezembro, teria reunido 2,3 milhões de manifestantes, segundo os organizadores. Ainda segundo eles, um total de 17 milhões de cidadãos participaram das 23 passeatas, resultando no primeiro impeachment presidencial da história da Coreia do Sul. Sucessor de Geunhye, o presidente Moon é chamado, por esse motivo, de Presidente das Velas.

Vídeo do canal Choi Baegeun TV sobre a Revolução das Velas.

O professor Choi vê na Revolução das Velas o início de uma nova era para os coreanos, em que a sua capacidade cultural se traduz numa democracia popular ativa: em nenhuma das passeatas foi reportado qualquer incidente como roubo ou furto, os prédios liberaram seus banheiros, voluntários distribuíam cafés e lanches, e, ao final, limparam todo o lixo deixado. O economista vai além, afirmando que agora a Coreia estaria prestes a se tornar uma líder global, exercendo um soft leadership – e não soft power, bem entendido, pois nessa nova era o mundo não mais giraria em torno de forças hegemônicas de qualquer tipo.

Para ele, essa consciência democrática ativa da população civil e a liderança transparente do presidente Moon foram a chave do sucesso no combate do Covid-19. Afinal, não houve na Coreia do Sul uma corrida para estocar alimentos ou inflação no preço das máscaras. Além, é claro, da cooperação cívica massiva no distanciamento social, um marco no combate à Covid-19 no país. 

A Revolução das Velas, em 3 de dezembro de 2016, na Praça Gwanghwamun, Seul. Foto: Hankyoreh.

K-culture, K-nóias

Já há pelo menos duas décadas que a Coreia vem ensaiando passos de um emergente soft power, como não deixam dúvidas o K-pop, os K-dramas, o K-cinema, o K-food etc., mas a somatória desses fenômenos não redunda no que chamaríamos de K-culture, pois a verdadeira força desta está no ethos coreano, da corrente pró-ativa pela coletividade, conhecido apagadamente por nacionalismo.

Aproveitando o alcance global do K-pop, os grupos Dreamcatcher, AleXa e IN2IT divulgam os cuidados contra o Covid-19 em um clipe musical.

Enquanto os coreanos assistem estatelados ao que acontece na Itália, França, Inglaterra e Estados Unidos, e se perguntam o que há de errado com esses países que sempre foram fonte de admiração, inveja e sentimento de inferioridade para os coreanos, o professor Choi aponta para o paradoxo em que a civilização ocidental se funda na demarcação e liberdade individuais, e assim busca se manter, mesmo após todas as provas, por diversos meios e experiências, de que tudo está interligado até a garganta. Segundo ele, a fulminante interconectividade do Covid-19, que não distingue pobres e ricos, raças e fronteiras, animais e seres humanos, é uma afronta a uma ordem mundial estabelecida pela civilização ocidental que gira em torno das distinções eu/outro, centro/periferia etc., e tem como premissa básica a liberdade individual. Por outro lado, essa interconectividade letal do vírus rompe a corrente econômica humanamente construída da produção-comércio-consumo.

Se o nacionalismo tem como outro lado a xenofobia, o individualismo tem como efeito colateral a maldosa indiferença quando desprovido de forte lastro religioso. A falência da civilização ocidental decretada pelo professor Choi, por exagerado que possa parecer, busca resposta no colapso da cultura individualista e não invalida o seu raciocínio de que é preciso uma conscientização de uma oni-interconectividade (e por que não oninterconectividade?) necessária em nível global. Seria então a hora de negociar os limites da solidariedade/individualismo, vigilância/liberdade, governantes/governados, pois agora, todos são elos de uma rede interconectada, e cada um tem que segurar sua bola para que toda a corrente não se rompa.

Se o K-qualquer coisa tem assolado o mundo nos últimos vinte anos, o episódio do Covid-19 fez aparecer uma outra onda, desta vez interna, de coreanos inebriados e orgulhosos de seu próprio país. Muitos, incluindo o professor Choi, engrossam a massa dos chamados Gukppong, que ora traduzo, com licença nada poética por K-nóias, e apresento mais um incorporado à massa, o Joseh Juhn, advogado novaiorquino coreano-americano, que chegou à Coreia no último dia 30 de abril e publicou um depoimento no Facebook (nota: Joseh Juhn dirigiu e produziu o aclamado documentário Jeronimo, lançado em novembro do ano passado, sobre filho de um imigrante coreano em Cuba que lutou ao lado de Fidel Castro pela revolução, tornando-se seu ministro):

Cheguei na Coreia. Sabia que teria de cumprir 14 dias de isolamento. Tinha tido sintomas em Nova Iorque desde meados de março. Não eram graves, mas me castigou por semanas deixando-me emocionalmente abalado. Busquei ajuda governamental, mas meus sintomas não eram graves o suficiente para merecer atenção, e deixei meu nome na lista de espera do teste. Seis semanas depois, continuava sem contato. Não pude esconder o meu choque e desapontamento perante a impotência geral do país mais rico e da cidade mais rica do mundo. Com todo o sistema colapsado e lideranças apagadas, a consciência civil também deixou a desejar. O direito soberano da liberdade individual havia sido deturpado, lesando o bem público, produzindo um fenômeno irracional (grifos meus).

1. Passamos por consulta médica e fomos testados ali mesmo. Soltei uma risadinha vazia, sentindo-me bobo. Seis semanas angustiantes de espera em Nova Iorque dissolviam-se de forma absolutamente trivial;

2. Durante a espera, nos deram uma marmita. Aquilo me emocionou profundamente. Como o resultado sairia na madrugada, fomos levados a um hotel próximo e tudo isso nas mãos diligentes de bombeiros, policiais e funcionários do aeroporto e sem qualquer custo;

3. Na manhã seguinte, recebemos a marmita da manhã e cada um foi levado para o seu destino final, por veículos destinados para esse fim. Senti-me como um VIP;

4. Já em isolamento, recebi telefonemas do agente que ficaria responsável por me rastrear por duas semanas e recebi instruções de como utilizar o aplicativo de rastreio;

5. No dia seguinte, recebi uma caixa grande, contendo álcool em gel, termômetro, spray antisséptico, várias máscaras, sacos de lixo, além de alimentos prontos para duas semanas e produtos de higiene;

6.  Alguns chamam isso de “vigilância estatal”, mas me senti tão bem cuidado nos mínimos detalhes, a ponto de pensar se eu merecia aquilo. Na verdade, ainda não consigo acreditar que todos que chegam do exterior recebem esse tipo de “gerenciamento”. A capacidade de gestão pormenorizada e sistemática sul-coreana contrasta gritantemente com os países que chamamos de desenvolvidos, onde até os mais graves são barrados na porta do hospital. Não é simplesmente uma questão de aparelhamento, mas é possível sentir “o interesse humanizado” permeado em todas as etapas, ao qual só posso expressar gratidão (grifos meus).

Os cuidados e os procedimentos aos quais fui submetido ultrapassam qualquer imaginação. Sempre tive alguma ressalva contra iniciativas estatais, mas desta vez gritei várias vezes ‘Viva Coreia!’ por dentro. Tenho inveja daqueles que leem isso que escrevo em coreano. Experiencio o que podemos chamar de padrão global que ainda inexiste em qualquer lugar do mundo, aqui na Coreia.

Remova o óleo colando nas rochas
Voluntários se unem em Mohang-ri para retirar o óleo derramado no Mar Ocidental que ficou preso em pedras do litoral. Foto: Yonhap News.

Conectados, venceremos

Se o senso de coletividade dos coreanos tem como seu lado negativo a xenofobia, talvez essa seja uma oportunidade de, ao exercer tal soft leadership, expandir as fronteiras do “nós” coreano. E, por outro lado, talvez essa seja uma oportunidade para a civilização ocidental olhar com outros olhos para as bases fundantes do seu modo de organizar o mundo e seus possíveis efeitos nefastos. Isso seria mais urgente do que exigir indenização à China, fechar fronteiras e buscar salvar seus lucros em detrimento de quem quer que seja. O momento seria de não deixar cair nenhum elo, civil e global.

Segundo Choi, K-democracia é uma democracia fundada não sobre a liberdade individual, mas sobre a consciência de que ela é construída coletivamente e assim mantida quando cada um desempenha o seu papel de forma auto-regulada. Alguns atribuem o sucesso coreano à uma alegada obediência natural dos coreanos, fruto de uma cultura confucionista, ou ainda, a uma longa experiência por ditaduras militares. Outros ainda podem dizer que Choi generaliza apressadamente um sucesso pontual. Entretanto, a resposta pode ser encontrada mais no sistema público de saúde (não necessariamente gratuito) sul-coreano invejado por Obama, quem idealizou o Obama Care nos moldes coreanos, abortado por Trump, no parque industrial célere e flexível e uma coletividade desperta.

Samguk Yusa, um dos dois livros que formam o cânone do registro histórico da Coreia antiga, compilado em 1281 por um monge budista, traz a lenda do fundador do primeiro reino coreano Dangun. Nela, Dangun teria fundado o primeiro reino coreano sob o lema de “Trazer o bem amplo e geral a todos”, que numa tradução mais livre e oportuna, diria “Promover o ganha-ganha a todos”, devidamente conectados.

Samguk Yusa: Yonsei's First National Treasure
Livro “Samguk Yusa”, onde se encontra o trecho original da tradução “Promover o ganha-ganha a todos” . Foto: site da Yonsei University.

Yun Jung Im

A contrução do universo ficcional de Crônicas de Arthdal

Por Krystal Urbano (Resenha completa em Revista Intertelas)

“Em uma época em que os seres humanos não haviam chegado ao topo da pirâmide natural e também não sonhavam, eles desceram das árvores, aprenderam a usar o fogo e a produzir armas afiadas, inventaram a roda e construíram trilhas e, por fim, aprenderam a plantar e se instalaram em um lugar. No entanto, não tinham uma nação, nem um rei… A terra gloriosa das antigas mães, Arth”. (Arthdal Chronicles, 2019, TvN-Netflix).

Ambientada no início do período da civilização, durante a Idade do Bronze que remonta a mais de 2.000 anos antes de Cristo, Crônicas de Arthdal (Arthdal ​​Chronicles) é uma série de TV sul-coreana produzida pelo Studio Dragon e exibida pela emissora de TV a cabo Total Variety Network (TvN) em 2019, com distribuição internacional via site de streaming da Netflix. A série, que é um k-drama épico de fantasia, é assinada pelos roteiristas Kim Young Hyun e Park Sang Yeon, nomes importantes na indústria dos dramas históricos, sendo também vagamente baseada na história de Dangun, o lendário rei que se proclamou o fundador do primeiro reino coreano de Gojoseon (2333 aC-108 aC).

De fato, os conflitos e relações entre as diferentes espécies e o suposto perigo do cruzamento entre elas – gerando os híbridos e temidos Igutus – está no cerne do referido k-drama, que se passa em um continente mítico chamado Arth, liderado por um líder de uma das diferentes tribos que formam a chamada União Arthdal. Basicamente, o enredo da série convida-nos a todo momento a aceitação da pluridiversidade, enquanto promove uma crítica ao exarcebamento da ambição e ideais de evolução da sociedade, quando descreve a batalha pelo poder dos chefes concorrentes pelo trono da primeira nação fundada no continente.

A lenda em torno da fundação de Arthdal conta que Aramun Haesulla, foi um saram enviado pela grande mãe espiritual, a Asa Sin, há uns duzentos anos atrás para unir as diferentes tribos vivendo em Arth em uma civilização. A lenda ainda conta que a reencarnação de Aramun Haesulla retornaria a Arth centenas de anos depois montado no Kanmoreu (o cavalo mais rápido, descendente direto da longa linhagem de primogênitos, o primeiro cavalo que já existiu, com memórias de correr na natureza gravadas no cérebro e, por isso, nenhum outro cavalo é capaz de ultrapassá-lo), seguido de um exército, tendo o machado do vento em uma mão e uma flor de lonicera na outra.

Crédito: IMDB

A União Arthdal não só se desenvolveu a partir de lendas e contos amplamentes difundidos entre os integrantes das diferentes tribos a respeito de seu fundador, como também foi gestada por seus líderes posteriores, visando a livre expansão territorial, em detrimento aos modos de vida primitivos dos demais povos – os chamados povos livres. Dentre essas tribos que disputam o poder de liderar a União, ganham destaque na narrativa a tribo Saenyeok, a tribo Hae e a tribo da Montanha Branca. Já como exemplo de tribos consideradas primitivas, ganha destaque elevado na história, a tribo Wahan, conforme veremos em seguida.

A construção do universo ficcional de Crônicas de Arthdal pode ser bem melhor compreendido, quando temos em vista os três tipos de raças que dão corpo e características aos personagens principais da trama. A primeira delas consiste nos Neanthals, seres que coexistem em harmonia com a natureza, não se prendem por laços, nem formam cidades. Uma das particularidades mais visíveis na raça dos Neathals consiste na força, muito superior a dos Sarams, além de possuirem o sangue azul e enxergarem perfeitamente no escuro. Já os Sarams, seres que representam a raça humana, possuem a astúcia e inteligência para desenvolverem armas e equipamentos, bem como estratégias ancoradas na ambição e desejo de conquista e subjulgação da outros povos. Porém, dispõe de pouca sensibilidade para lidarem com a natureza e a diferença. De fato, a primeira temporada da série ilustra de maneira bastante contundente como durante a Grande Guerra, devido a uma estratégia militar dos Sarams, mais especificamente do jovem carismático Tagon (Jang Dong Gun) da tribo Saenyeok, filho do então líder da União Arthdal, Sanung, eles obtiveram vitória quase absoluta sobre os Neanthals.

Contudo, uma vez que os líderes da União Arthdal não conseguiram exterminar toda a raça Neanthal, houve uma contribuição para acontecimentos não imaginados de antemão. Sobretudo, o nascimento de dois bebês gêmeos concebidos por Asa Hon (uma descendente da família Asa, da Tribo da Montanha Branca) que ingenuamente serviu como bode expiatório da União Arthdal, levando a morte aos Neanthals, com Ragaz (um Neanthal, um dos mais fortes e guerreiros), vai ser o ponto de partida para o desenrolar da história dos irmãos Igutus (mestiços de sangue roxo) de nome EunSeom e Saya (Song Joong Ki), respectivamente.

Crédito: https://aminoapps.com/
Crédito: aminoapps

EunSeom trilhou com a mãe, Asa Hon, para a longínqua terra de Iarc, uma terra distante, simples e pacífica que desconhecia as civilizações vizinhas, nem como montar em animais, cultivar a terra ou forjar armas, vivendo apenas da natureza e daquilo que ela naturalmente oferece. O fato é que Asa Hon sonhou que as crianças que ela gerou iriam trazer calamidade para o mundo, sendo orientada no sonho a não seguir o homem que cantarola. Ao descobrir que Ragaz foi assassinado e ver seu outro bebê, que estava com o pai no meio da mata, sendo levado por um homem cantarolando, Tagon, filho do líder da União, resolve partir para Iarc com o outro filho numa escalada no Grande Penhasco que dura dez anos, por acreditar que havia sido almadiçoada por Aramun Heasulla.

Contrariando todas as expectativas, Tagon, o jovem conquistador, cria o outro gêmeo de Asa Hon e Ragaz como seu filho as escondidas, tendo ajuda e suporte da sua amante e amada Taelha (Kim Ok Vin), filha do ambicioso líder da tribo Hae. Posteriormente, Saya irá tornar-se um grande aliado de Tagon, enquanto busca um sentido para a própria existência. Uma vez que viveu confinado ao longo de 20 anos, Saya procura seu lugar no mundo, ao ter conhecimento que é diferente dos demais Sarams, por possuir sangue roxo e estar confinado por ordem do suposto “pai”, Tagon. Naturalmente, Saya parece desconfiar de suas origens, enquanto EunSeom e Tanya cada vez mais aproximam-se dele ao longo da narrativa.

Com efeito, o ponto alto da história concede destaque a uma antiga profecia de Arthdal, que preconiza que aquele (ou aqueles) que destruiria(m) Arthdal, nasceria(m) sob a passagem do cometa Azul. Tal dia não só marca o nascimento dos gêmeos de Asa Hon e Ragaz, os igutus EunSeom e Saya, mas também de Tanya, herdeira da posição de matriarca e xamã da tribo Wahan, descendente direta da Loba Branca que fundou a tribo Wahan. O fato é que Tanya, EunSeom e o irmão gêmeo dele, Saya, são as crianças da grande profecia que representam os objetos celestiais que apareceram juntos há duas décadas no mundo.

A espada para matar a todos (EunSeom), o sino para ecoar pelo mundo (Tanya) e o espelho para iluminar o mundo (Saya). Essas três coisas, ao se juntarem, conforme diz a profecia, acabarão com o mundo e, o homem que matou o próprio pai lutará contra os objetos celestiais e impedirá o fim do mundo. Tal papel é concedido a Tagon, atual líder da União Arthdal, depois de assassinar seu pai em embate direto, na presença de EunSeom.

Por fim, parece-me que Crônicas de Arthdal estipula em sua primeira temporada os principais personagens e arcos narrativos que irão movimentar o drama até seu fim, mesmo com a incerteza de uma segunda temporada. Os três arcos mencionados, isto é, as três partes da primeira temporada disponibilizadas na Netflix, revezam o papel central dentro dos episódios dessa temporada. Tomada como um todo, a estrutura de Crônicas de Arthdal pode ser exaltada por sua complexidade, uma vez que a estrutura da produção revela uma sobreposição de três grandes arcos que, ao serem entrelaçados, exigem mais esforço por parte do roteiro e do espectador.

Desse modo, o drama sul-coreano consegue elaborar uma proposta muito atraente do ponto de vista da serialização, visto que brinca com as fronteiras dos arcos desenvolvidos dentro da trama. Assim, nota-se que desde o princípio a série trabalha com uma economia de informações, apresentando no decorrer dos episódios como os personagens lidam com elas, à medida que vão revelando-se.

Crédito: Twitter Haeri_Go_4815

Ficha técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Kim Won Seok | Roteiro: Kim Young Hyun e Park Sang Yeon | Elenco: Jang Dong Gun; Song Joong Ki; Kim Ji Won; Kim Ok Vin | Emissora: TvN | Episódios: 18 | Ano: 2019

MidiÁsia entrevista Luis Girão, coordenador do Grupo de Tradução de Literatura Infantil Coreana da USP

Por Daniela Mazur

O pesquisador Luis Girão. Crédito: Acervo pessoal.

Hoje em dia é difícil pensar em Coreia do Sul e não remeter diretamente à sua cultura pop. A Onda Coreana tem presença cativa nos fluxos culturais da arena global contemporânea e seus grandes pilares, o K-pop e os dramas de TV, se apresentam de forma contundente no mercado internacional e aqui no Brasil. Contudo, uma das vertentes desse fenômeno cultural ainda pouco comentada em terras brasileiras, mas de grande reconhecimento no cenário mundial, é a Literatura sul-coreana. Por esse e outros motivos, é essencial que as pesquisas que abordam esse pilar estejam em destaque, especialmente nesse momento de aprofundamento da experiência da cultura coreana no cotidiano brasileiro. Para isso, convidamos o estimado pesquisador acadêmico Luis Girão para uma conversa sobre o lugar da Coreia do Sul nos fluxos literários globais e o destaque da literatura infantil nesse movimento. Ele, que é doutorando e mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP e graduado em Design de Moda pela Faculdade Católica do Ceará, coordena atualmente o Grupo de Tradução de Literatura Infantil Coreana e Contos Folclóricos Coreanos no Departamento de Letras Orientais da USP, junto a professora e principal tradutora de livros sul-coreanos para o português brasileiro, Yun Jung Im Park. Ele também faz parte do grupo de pesquisa “A voz escrita infantil e juvenil: práticas discursivas” (PUC-SP) e ministrou, em fevereiro de 2020, o curso Literatura Infantojuvenil Coreana: Histórias e Horizontes na USP. Com toda sua experiência e bagagem de pesquisa, Luis fala ao MidiÁsia um pouco sobre o universo fascinante da literatura, com foco acurado nos livros infantis da Coreia do Sul que, até mesmo aqui no Brasil, já fazem parte do dia a dia das crianças.

Ilustração do livro “Espelho” de Suzy Lee. Crédito: Suzy Lee.

Apesar da força da Onda Coreana no Brasil na última década, o mercado da literatura sul-coreana ainda se apresenta incipiente por aqui, diferente do cenário internacional. Existem previsões de que o mercado de romances literários sul-coreanos se concretize de forma mais efetiva no nosso país?

Luis Girão (LG): O mercado de livros no Brasil, de maneira geral, vem sofrendo há algum tempo e, nos últimos 3 anos, a situação tem ficado visível aos olhos todos, já que grandes redes de livrarias e editoras estão fechando as portas. Isso não deixa de ser um sinal dos tempos e reflexo socioeconômico, mesmo cultural, do brasileiro. Fora o caráter político, uma vez que um dos maiores compradores de livros no Brasil é o próprio governo. No entanto, em paralelo a essa série de constatações que não deixam de ser lamentáveis, testemunhamos um surgimento pulsante, ainda que localizado nas capitais, de pequenas iniciativas movidas por livreiros cujo foco está nas editoras menores, mesmo independentes. Ou seja, há uma queda massiva na presença de livros à disposição para leitores habituais e leitores em potencial, ainda que uma “nova” alternativa à sobrevivência na circulação de livros se apresente no horizonte e venha demonstrando recepção positiva de um público mais seleto e consumidor de gêneros específicos – o que tem resultado em mudanças comportamentais na relação de leitores com a leitura e o consumo de literatura. Além disso, destaco alguns dados do Instituto Coreano de Tradução Literária (LTI Korea) referentes à queda drástica no número de obras traduzidas do coreano para outras línguas entre os anos de 2014 e 2015 (de 3899 títulos traduzidos em 2014 para 466 em 2015), queda esta que estabeleceu um patamar menor nesses números até hoje (360 títulos traduzidos em 2016, 475 em 2017, 277 em 2018 e 349 em 2019).

Dados do Instituto Coreano de Tradução Literária que abrangem a queda da tradução de livros sul-coreanos entre os anos de 2014 e 2019. Fonte: LTI Korea.

Coloco esse quadro antes de responder diretamente à pergunta, pois é bastante pertinente apontar as possibilidades que vão surgindo com essa mudança comportamental da sociedade na sua relação com a leitura. Isso posto, tomo como dados oficiais um estudo recente da professora Yun Jung Im Park, principal tradutora de literatura coreana para o português no Brasil hoje, onde ela reflete sobre a falta de tradutores literários capacitados para a execução dessa tarefa crítica e criadora que é tornar acessível um texto de partida em uma língua, para um texto de chegada, em uma outra. Ela aponta nosso olhar para alguns horizontes prováveis, caso seja investido um maior esforço na mudança desse contexto carente de tradutores e acredito que, atrelada à realidade que comentei inicialmente (sobre as mudanças comportamentais ligadas à leitura do brasileiro), há aí uma oportunidade de ouro – tanto para as editores nacionais, quanto para os projetos de fomento internacionais – para obras literárias coreanas na pluralidade significativa que a Coreia do Sul vem produzindo nas últimas décadas, em especial, após a fundação do LTI Korea.

Entrevista com a professora Yun Jung Im Park em 2017 pelo canal do Itaú Cultural.

O mercado editorial no Brasil é movido, em parte, pela tradução de livros que entraram na categoria best-seller em cenário internacional, o que segue como uma das portas de entrada de títulos coreanos cada vez mais premiados no exterior (romances, em sua maioria). Porém, nem só de prosa longa é formado esse cenário literário: há muitos contistas e poetas coreanos cujas vozes precisam ser ouvidas para além de limites geográficos e alcançar ouvidos de humanos que vivem sensações semelhantes às suas e que estão espalhados pelo mundo – eu destacaria, com certa segurança, muitos deles no Brasil. O consumo de coletâneas de contos é uma realidade ao leitor adulto brasileiro, o que já aponta aí uma investida possível e profícua paralela à recorrente tradução de romances coreanos.

A autora Han Kang e seu livro de grande sucesso internacional, A Vegetariana. Crédito: Jean Chung do The New York Times.

Como pesquisador da área, você acredita na possibilidade de engajamento do público global que consome a cultura pop sul-coreana com as histórias apresentadas pelos grandes sucessos literários que a Coreia do Sul está exportando para o mundo?

LG: Se tomarmos como verdadeira a hipótese de que maior parte do público consumidor da cultura pop sul-coreana são pessoas que assistem e curtem dramas de TV, eu acredito que sim, há uma probabilidade palpável de que esse público consuma a literatura coreana reconhecida internacionalmente. Estamos falando de uma forma narrativa que é milenar: a poesia dramática. Se os dramas coreanos, desde que despontaram como uma das bases da Hallyu, conseguem capturar telespectadores por seu incessante desenvolver de relatos humanos ficcionalizados, não diferente seria o impacto da leitura de uma prosa, longa e/ou curta, coreana no leitor de hoje. A leitura de romances coreanos, como os de Han Kang ou Bae Su-ah, não muito se difere da materialização sensível de um humano estilhaçado em múltiplas camadas de complexidade na leitura de uma coletânea de poesias como a de Kim Ki-Taek.

A autora Bae Su-ah e sua obra “Sukiyaki de domingo”. Crédito: arttv.ch e Estação Liberdade.

Os elementos que constituem uma identidade nacional coreana – hoje presentes, inclusive, nas letras mais conscientes dessa construção identitária no k-pop, como as escritas pelo Suga do BTS –, sempre marcantes nos dramas coreanos, aparecem de maneira mais aprofundada nas personagens literárias, o que acaba por ampliar o raio de alcance do “estar em contato” com essa subjetividade coreana no contemporâneo. Esse acesso à diferença de alteridades por meio da literatura, de maneira diversa à do drama e à da música, mesmo à do cinema, em muito embasa minha crença de que, sim, o público que consome a cultura pop sul-coreana se engajaria quando diante da leitura de um romance ou uma poesia. Mas eu acrescentaria um ponto: o leitor jovem (adolescentes entre 12 e 18 anos) é consumidor voraz de ficção em prosa, dados os números de vendas dos best-sellers identificados como juvenis, ou YA (Young Adults). Essa faixa de público é aquela que consome músicas e dramas, mesmo os manhwa, coreanos. Fica a questão: por que não investir mais nesse público juvenil?

Agust D, ato solo do Suga (BTS), na sua música lançada mais recentemente, onde o artista critica o universo da indústria do K-pop enquanto faz referência à símbolos e personagens da Dinastia Joseon.

Além de ser um especialista em literatura sul-coreana, você acabou se encontrando junto à especificidade dos livros infantis. Como foi sua jornada de descoberta desse universo em particular?

LG: Sou uma pessoa intimamente relacionada com o livro infantil desde a infância. Essa relação moldou muito o meu sentir o mundo e o meu expressar. Fui para a faculdade de Moda por ser apaixonado por desenhar desde essa época, quando um livro narrando um conto de fadas tradicional sequestrava minha atenção pelo colorido das ilustrações e pelas músicas que tocavam enquanto a página estava aberta em minhas mãos. Após o meu primeiro contato com a música coreana, entre 2003 e 2004, acabei indo trabalhar como ilustrador para uma gravadora coreana por 2 anos, entre 2010 e 2012, período em que eu realizava, paralelamente, minha especialização em design gráfico (agora reunindo a paixão por ilustrações e palavras num mesmo espaço de criação – o livro) e auxiliava na tradução do coreano para português (comecei a estudar a língua coreana, como autodidata, em 2006) de notícias, letras de músicas, falas de dramas, blogs sobre filmes e gêneros musicais para um portal especializado em cultura coreana – fundado por Natália Pak e eu, em 2008: o SarangInGayo. Nesse período, tive contato com a obra de Suzy Lee.

Suzy Lee é autora e ilustradora de livros infantis, como “Onda” e “Espelho”, lançados no Brasil em 2009. Crédito: site Crescer.

Esse contato foi um “divisor de águas” na minha história pessoal, pois, cheio de indagações pela leitura da obra dessa autora enquanto ilustrador, tradutor e entusiasta da cultura coreana, tomei a decisão de me dedicar exclusivamente aos estudos em âmbito acadêmico daquilo que eu não conseguia explicar às pessoas que me perguntavam “Mas o que é isso que você está estudando? Um livro de uma autora coreana? Um livro sem palavras? Não tem em português?”. Eram perguntas que me inflavam para buscar formas de respondê-las, já que eu não vinha das Letras, mas do Design. O período em que comecei a estudar exclusivamente sobre esses “livros sem palavras” (os livros-imagem) foi também o período que me aprofundei na obra de Suzy Lee – autora que começou a publicar livros em 2002, fora da Coreia do Sul. Hoje, com quase 20 anos de carreira e reconhecida internacionalmente por ter levado a literatura infantil sul-coreana para lugares inimagináveis exatamente pela linguagem universal das imagens (“sem palavras”), posso dizer que ela “abriu caminhos” para a imensa, e de extrema qualidade, produção de livros ilustrados coreanos (o geu-rim-chaek) que, por sinal, vem ditando tendências a nível internacional nos mercados dessa literatura endereçada à infância.

Animação de um dos livros de Suzy Lee, “Onda”. Crédito: Danilo Pasa; Cosac Naify.

Estudei Suzy Lee como uma das autoras analisadas em minha dissertação de mestrado (2015-2017) – em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP –, e ela segue como um dos objetos de investigação em minha tese de doutorado (2018-), exatamente como exemplar desses livros infantis que deixam o leitor atônito e sem respostas precisas às perguntas que me faziam quase 10 anos atrás. De lá pra cá, fui descobrindo e lendo as obras de outros autores sul-coreanos que publicam livros ilustrados infantis e, mais recentemente, venho investigando também a produção em prosa juvenil. Se antes, entre 2003 e 2012, eu já era um entusiasta da cultura coreana, hoje, de 2013 até agora, o ânimo de seguir promovendo essa produção cultural riquíssima em qualidade formal e de conteúdo parece reforçada e sem limitações de horizonte.

Alguns dos livros já lançados por Suzy Lee. Crédito: site The Picture Book Lab.

No contexto atual, quais são as principais tendências na literatura infantil sul-coreana que você poderia nos apontar?

LG: Em outubro de 2018, participei do VII Encontro de Estudos Coreanos da USP, a convite da professora Yun Jung Im Park. Para a ocasião, propus uma fala sobre a pesquisa que venho realizando em paralelo ao meu doutorado: a literatura infantil coreana e os livros ilustrados coreanos. Após um breve histórico sobre a recente história da literatura infantil na Coreia (iniciada na década de 1920, por Bang Jung-hwan), apresentei algumas tendências dessa produção literária hoje, nas explorações de linguagens múltiplas que ela se utiliza – verbal, visual, sonora, tátil, incluindo o objeto livro.

Capas brasileiras dos livros “Flora Hen: Uma fábula de amor e esperança” de Sun-mi Hwang (Editora Geração) e “Esperando Mamãe” de Lee Tae-jun (Editora SM).

Como se passaram 2 anos dessa fala, atualizo esses dados afirmando que os livros infantis coreanos se debruçam acerca de temáticas essencialmente humanas, como: o universo familiar (caso de Esperando mamãe/엄마 마중, de 2012, escrito por Lee Tae-jun e ilustrado por Kim Dong-seong); as amizades que nos mantêm vivos (caso de A meninada convidada/초대받은 아이들, de 2001, escrito por Hwang Sun-mi e ilustrado por Kim Jin-yi); o revisitar histórias de animais (como Flora Hen: Uma fábula de amor e esperança/마당을 나온 암탉, de 2014, escrito por Hwang Sun-mi e ilustrado por Yasmin Mundaca); o explorar dos passados recente e longínquo (como A casa onde os livros zanzam/책과 노니는 집, de 2009, escrito por Lee Young-seo e ilustrado por Kim Dong-seong); espíritos/monstros/fantasmas já nem tão escondidos assim (como Gelato de lua/달 샤베트, de 2010, escrito e ilustrado por Baek Heena); os prazeres de aproveitar a vida (como Onda/파도야 놀자, de 2008, escrito e ilustrado por Suzy Lee); a diáspora de coreanos nos EUA (como Where’s Halmoni?, de 2018, escrito e ilustrado por Julie Kim); jogos sonoros e de descobertas (como KongKongKong/콩콩콩, de 2018, escrito e ilustrado por Lee Hee-eun); além dos percursos de autoconhecimento (como Fruta vermelha/빨간 열매, de 2018, escrito e ilustrado por Lee Ji-eun).

Entrevista de Hwang Sun-mi sobre o livro “Flora Hen”, para a Arirang, em 2014.
Leitura e visualização do livro ilustrado 달 샤베트 (Gelato de Lua), de Baek Heena.
Leitura e visualização mediada de 빨간 열매 (Fruta Vermelha), de Lee Ji-eun.

A despeito da baixa penetração de romances da literatura da Coreia do Sul no Brasil, um ramo da literatura que está em rápido crescimento de importação e circulação no país são os livros infantis sul-coreanos. Segundo a professora Yun Jung Im Park, na última década mais de 70 livros foram traduzidos e publicados para o mercado brasileiro até o ano passado, alguns até mesmo incluídos no Programa Nacional Biblioteca nas Escolas do Governo Federal Brasileiro. Quais, na sua opinião, foram os diferenciais para o sucesso no Brasil desse ramo específico?

LG: A linguagem universal da imagem facilitou, de maneira significativa, uma ampliação no campo de circulação de obras como Onda (2008), livro-imagem de Suzy Lee, publicado pela extinta Cosac Naify (hoje pela Cia. das Letrinhas) e que integrou um dos editais do também extinto PNBE (descontinuado em 2016 e substituído pelo atual Programa Nacional do Livro e do Material Didático – PNLD). Como especialista na obra de Lee e pesquisador na área de Literatura Infantil, tive a chance de trocar com outros colegas pesquisadores que relataram as relações das crianças com Onda: enquanto algumas, mais velhas, acabavam por deixar o livro de lado à constatação de que só havia palavra no título (hábito comum no Brasil e resultado de uma educação precária e majoritariamente conservadora, que vê o objeto literário como objeto de ensino, acima de tudo, e que reproduz métodos tradicionais, e já ultrapassados, de ensinar o texto verbal como principal meio de formar leitores), as crianças mais novas criavam elos sensíveis com aqueles brincar e descobrir propostos na narrativa pictórica de Lee, exatamente pela possibilidade de elas lerem a linguagem que dominam enquanto sujeitos ainda não alfabetizados, a linguagem visual. Isso me faz pontuar que uma das principais características que distinguem os coreanos dos demais autores em feiras internacionais de livros infantis – como é o caso da tradicional Bologna Children’s Book Fair, que ocorre anualmente na Itália – é a ilustração. É bem comum encontrarmos livros escritos por autores de língua inglesa, hispânica, italiana e francesa e ilustrados por coreanos. Prova desse renome que a ilustração coreana carrega hoje é o recente reconhecimento de Baek Heena pelo Astrid Lindgren Memorial Award (ALMA) – um dos maiores prêmios mundiais de Literatura Infantil.

Baek Heena ganhou o Prêmio Memorial Astrid Lindgren de 2020. Crédito: Publishers Weekly.

Por sua vez, no Brasil, sendo as escolas o maior consumidor de livros literários infantis (para a composição de acervos de bibliotecas e professores, bem como para a disposição de títulos aos alunos), os editais dos programas de fomento governamentais delimitam alguns temas para a seleção de novos títulos a serem distribuídos. Essa delimitação por tema nos editais influencia grande parte das editoras maiores, focadas em livros didáticos e detentoras dos direitos de títulos ficcionais mais conhecidos. E aqui pontuamos o caso de Esperando mamãe (2012), livro ilustrado de Lee Tae-jun e Kim Dong-seong, publicado pela SM (grande conglomerado editorial especializado em livros didáticos de língua portuguesa) e que também integrou um dos editais do PNBE. Temas relacionados à família são um carro-chefe comum na produção literária endereçada a crianças, ainda mais quando esse tema é explorado de maneira sensível em construções que fogem do padrão, como é o caso de Esperando mamãe. A fragilidade da criança que espera por uma mãe que não retorna, imersa em um mundo repleto de adultos indiferentes à sua presença e circundada por intempéries naturais, transmite sensações de uma falta que em muito dialoga com as faltas sentidas pela criança que vai à escola pela primeira vez, ou que fica maior parte do dia na escola (longe da família), ou ainda das crianças que vivem distanciadas da família por questões alheias a elas e à família.

Contracapa de “Esperando Mamãe”. Fonte: site da Amazon.

São muitas as configurações temáticas que atraem a criança para uma obra literária, e no caso da literatura infantil coreana contemporânea, ainda que criada por autores localizados em um contexto sociocultural particularmente distinto do nosso, por tratarem o conteúdo de maneira excepcionalmente aguda (como acontece também com a literatura coreana adulta), que corta bem onde o sentir pulsa, ela chega ao leitor brasileiro por um caminho distinto ao comumente estereotipado e ainda promove uma chance de acessar a diferença que é uma criança de um outro país em uma história que, em muitos aspectos, é universal. Eu pontuaria, em essência, essas duas características da literatura infantil coreana em seu contato diferenciado com o público brasileiro: a ilustração e o narrar sensível e agudo.

Anúncio da maior premiação da literatura infantil do mundo, o Prêmio Memorial Astrid Lindgren de 2020, que foi concedido à Baek Heena.

Você também coordena o Grupo de Tradução de Literatura Infantil Coreana e Contos Folclóricos Coreanos da USP, como foi a formação desse projeto e quais objetivos vocês pretendem alcançar nesse momento de crescimento do consumo de cultura sul-coreana no nosso país?

LG: A professora Yun Jung Im Park me convidou para formar um grupo de tradução literária com alguns alunos da graduação (tanto aqueles em formação quanto já formados), como uma maneira de seguirem exercitando a prática tradutória em outro campo de atuação, a literatura infantil – esses alunos compuseram, em anos anteriores, grupos de aprendizes nos workshops de tradução literária que a professora Yun realiza desde 2017 com apoio do LTI Korea. São tradutores em formação que costumam ter acesso à literatura coreana adulta em suas práticas e estudos, mas que não costumam ler ou acompanhar a produção literária infantil do país. Sendo assim, como projeto extraoficial às atividades de cada um, nosso objetivo desde a formação, em fevereiro de 2019, é experimentar modos operacionais da prática tradutória e tirar resultados qualitativos para o exercício particular de todos a partir de encontros quinzenais ou mensais – que costumam ocorrer aos domingos, trazendo à tona outra particularidade desse grupo: seguir se aperfeiçoando, mesmo nos finais de semana, movidos pelo desejo de trabalhar com a tradução literária. Atualmente, o grupo é composto por 6 integrantes (Camila Camargo, Jennifer Murari, Laura Torelli, Mariane Brito, Natália Tae e Virginia Lazzari), todas com histórico de alguma experiência de trocas diretas com a Coreia do Sul, seja no contato com autores e professores coreanos na realização de eventos aqui no Brasil, seja na realização de viagens para intercâmbio estudantil.

Capas dos livros de Baek Heena. Crédito: Korea.net.

Aproveito para registrar meu agradecimento e meus parabéns a todas elas pelo trabalho dedicado e primoroso, posso dizer que um objetivo maior do grupo seja traduzir obras de literatura infantil coreana para a publicação no mercado brasileiro, dada a enorme oferta de obras coreanas nas feiras internacionais (foram 55 editoras coreanas expondo títulos diversos apenas na edição 2019 da Bologna Children’s Book Fair, por exemplo), ocasião onde as editoras nacionais negociam os direitos autorais de títulos estrangeiros, que acabam sendo traduzidos para idiomas que já vêm estabelecendo um histórico com essa produção pela existência de tradutores do coreano para essas línguas (inglesa, hispânica, italiana, francesa). No momento, estamos trabalhando remotamente na tradução de uma coletânea de contos folclóricos coreanos, não necessariamente infantis, mas que dialogam com as infâncias de todos os leitores (do bebê ao vovô), e que trazem muito da tradição narrativa da Coreia, seja pelos elementos e figuras místicas (partindo das lendas fundantes do país), seja no trabalho delicado com a oralidade e a musicalidade da língua. Nosso objetivo com esse projeto, feito em etapas de tradução e revisão coletivas, é publicar uma coletânea inédita em língua portuguesa, que traga o conteúdo essencialmente coreano (as histórias breves) em um exercício experimental com a oralidade da nossa língua (com uma sonoridade do Brasil), ou seja, que forma e conteúdo sejam mantidos, no limite do possível, na tradução que chegará aos leitores daqui, ao mesmo tempo que apresenta algo que eles nunca haviam lido. Claro, todo esse trabalho é coordenado por mim, mas sob a supervisão da professora Yun, que é nossa guia no elaborar hipóteses criativas que solucionem as traduções sem correlatos diretos do coreano para o português.

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Estande dos autores sul-coreanos na edição de 2018 da Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha. Crédito: Printing Korea.

Existem particularidades no processo de tradução que mudaram sua percepção da pesquisa sobre literatura infantil?

LG: Sem dúvidas. Como mestre e doutorando em Crítica Literária, meu trabalho é olhar para as obras que leio como quem desconfia, como alguém que busca charadas ocultas na construção poética, que levanta questões relacionadas ao fazer artístico diante daquilo que me está dado, impresso nas páginas do livro. O trabalho de tradução literária é, antes de tudo, um trabalho de re-criação, de trans-figuração, ou seja, de dar corpo outro a algo que ainda não existe na língua de chegada, mas que existe no imaginário a partir da leitura atenta de cada palavra escrita na língua de partida. No processo do tradutor, muitas perguntas são direcionadas ao texto em coreano, o que não difere tanto das indagações levantadas pelo crítico literário diante de qualquer texto poético. Logo, consigo dizer que o trabalho de tradução que realizo no grupo, tanto em minhas próprias traduções quanto na troca de traduções com as integrantes, tem deixado cada vez mais “afiada” minha capacidade de ler questionando, de questionar lendo, sempre no sentido de ampliar possibilidades de leitura intencionadas na própria escritura.

Suzy Lee se tornou um grande destaque dos livros ilustrados para crianças no contexto global e também se apresenta com notoriedade nas suas pesquisas. Poderia nos falar sobre a importância da obra dessa autora no cenário contemporâneo?

LG: Em 2019 fui convidado pelo Blog da Letrinhas (do selo Cia. das Letrinhas, que atualmente detém os direitos de publicação da obra de Suzy Lee no Brasil) para realizar um comentário geral sobre alguns aspectos que considero relevantes destacar acerca da obra dessa artista tão notória. Elenquei cinco olhares (O narrar abissalmente simples; O drama plástico/gráfico; Cotidiano e infância; O livro infantil para todas as idades; A sinestesia) que entendo como basilares nas produções exclusivas dela (nas quais ela escreve e ilustra). Porém, em 2020, ela causou um rebuliço nas minhas percepções críticas ao acrescentar novas potencialidades em sua já plural capacidade artística: além de estrear como tradutora literária (sua tradução para o clássico da literatura infantil norte-americana Our Snowman, de 1986, escrito e ilustrado por M. B. Goffstein, chegou aos leitores coreanos pela renomada Changbi Publishers – selo responsável pela publicação de obras endereçadas às crianças desde 1966 na Coreia do Sul), ela ilustrou outros 3 livros escritos por artistas distintos, dentre eles o cantor sul-coreano Lucid Fall, num livro-sanfona que coloca em diálogo a letra da música Sonho de me tornar água/물이 되는 꿈 e o já famoso jogo de traçados em carvão e pinceladas de aquarela que são “marca registrada” na produção literária de Suzy Lee.

“Sonho de me tornar água” com ilustrações de Suzy Lee e canção de Lucid Fall.

Suzy realizou mestrado em artes do livro na Inglaterra (entre 2000 e 2001), sendo assim, o experimentar com as formas de narrar diretamente ligadas às dobras das páginas, aos tipos de papel são assunto que não deixa de estar presente em toda e qualquer proposta artística sua. Sobre esse tópico em específico, gostaria de mencionar uma breve entrevista que realizei com Suzy Lee, também em 2019, e que resultou em um belo depoimento dela sobre a arte de trabalhar com o objeto livro infantil. Já sobre a importância de sua obra, eu começaria pontuando que Suzy Lee ficou famosa no mundo inteiro quando ela estava morando fora da Coreia do Sul (entre 2000 e 2010, ela viveu na Inglaterra, nos Estados Unidos e em Cingapura) e tendo publicado seus principais títulos primeiramente em editoras europeias e norte-americanas, exatamente por não haver, à época, um lugar reconhecido para o tipo de arte literária que ela faz – reunindo a plasticidade da palavra, o movimentar das imagens e a presença narrativa do objeto livro na composição – em sua terra natal.

Suzy Lee, em 2020, com o livro-sanfona ilustrado a partir da letra de Lucid Fall. Crédito: Portal Dong-A Ilbo.

Desde que retornou à Coreia do Sul, vem produzindo algo como 1 livro (escrito e ilustrado por ela) por ano, fora as parcerias como ilustradora de textos escritos por autores coreanos, chineses, estadunidenses. Hoje, em 2020, muitas das características que encontramos na obra de Suzy Lee podem ser também encontradas, com outras perspectivas, em livros publicados por outros autores sul-coreanos, mas todos diretamente influenciados por Lee em alguma medida – ela está sempre envolvida com oficinas de escrita e ilustração para livros infantis promovidas por centros de estudos especializados no geu-rim-chaek. Sempre lembrada pela sensibilidade que investe no experimentar com os sentidos do seu leitor nas materialidades que constituem o objeto livro, Suzy Lee é hoje, dentre alguns nomes internacionais, uma fonte de iluminação e imaginação para o que se faz de mais inovador, ainda que de uma simplicidade no narrar, na literatura infantil contemporânea.

O livro-sanfona ilustrado de Suzy Lee e Lucid Fall, quando aberto, chega a medir 5m70cm. Crédito: Chungaram Media

O apoio do Instituto Coreano de Tradução Literária e a criação do primeiro bacharelado em Língua e Literatura Coreana do Brasil com foco na formação de novos tradutores, estabelecido na USP desde 2013, se apresentam como peças recentes no jogo da introdução literária sul-coreana no mercado brasileiro. Partindo desse cenário, onde ainda estamos apenas no início da circulação, disponibilidade e consumo da literatura sul-coreana no Brasil, você acredita que novos laços culturais entre nosso país e a Coreia do Sul possam ser desenvolvidos para além daqueles já estruturados pela cultura pop e a favor de um alcance ainda maior do público brasileiro? Qual poderia ser o papel da literatura no aprofundamento das sensibilidades culturais entre os dois países, especialmente do ponto de vista brasileiro, que é profundamente imerso em orientalismos?

LG: Gostaria de iniciar minha resposta trazendo o recente e marcante Oscar 2020, cujas estatuetas das duas principais categorias – Melhor Direção e Melhor Filme – foram para as mãos do responsável pelo rasgante e denunciador filme Parasita: Bong Joon-ho. Como pessoas envolvidas com a cultura pop sul-coreana, além de consumidores dos produtos culturais diversos da Coreia do Sul, sabemos que a arte de Bong vem de uma trajetória marcada por filmes-denúncias que são lembrados pela aspereza (no apontar das injustiças) que se constrói na delicadeza e na fragilidade das relações humanas – como o foram as narrativas críticas ao comportamento antropocêntrico em O Hospedeiro e Okja. Partindo desse ponto, eu arrisco afirmar que há uma consciência humana vindo à tona, a passos lentos mas sem retroceder, em plano mundial; logo, o reconhecer-se na realidade injusta e de exploração humana pelo capital representada no filme coreano é sinal de nossos tempos, onde nossa capacidade de estabelecer relações de semelhanças e diferenças parece mais elaborada e, como consequência positiva, essencial para o estabelecimento das bases de um pensamento crítico sobre o si no social a partir da arte (o cinema, no caso). Essa aspereza no narrar sul-coreano, envolto pelas camadas frágeis do contato entre humanos e o mundo que os cerca, é uma das marcas registradas tanto na prosa quanto na poesia da Coreia do Sul, e não apenas hoje. Em suma, temos aqui uma porta que se abriu para não se fechar: o cinema coreano atingiu uma universalidade que, como disse Bong Joon-ho, “superou a barreira das legendas”.

Imagem de divulgação do aclamado “Parasita”, filme de Bong Joon-ho. Crédito: Pandora Filmes.

Como o filme é uma narrativa longa, roteirizada e constituída por uma série de linguagens, chamo a atenção para o fato de, em essência, ser um contar história. Ainda nessa arte narrativa audiovisual, temos o sucesso internacional dos silêncios cortantes que marcam os filmes de Kim Ki-duk, como Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera, Casa Vazia e Time – O amor contra a passagem do tempo, onde a linguagem corporal comunica o interior humano na complexidade que isso impõe. Veja quantas características essencialmente humanas sustentam a construção dessas narrativas sul-coreanas, mas que, de uma forma ou de outra, são narrativas nossas, algo que corre por baixo de nossas línguas e que bate similar no corpo de cada um de nós, numa comunicação subterrânea, quase de placas tectônicas, e que chegam à superfície como expressões, no caso, verbais em língua coreana e língua portuguesa – mas que não deixam de ser língua humana. Acredito que um investimento concentrado nessas narrativas – sejam elas expressas na literatura, no teatro, no cinema, na dança, na música (que deslumbrante é acompanhar, nas entonações da voz, as ações do narrador em sua jornada cantada numa performance de pansori) –, de maneira mais equilibrada e, claro, realizando-se uma pesquisa de público aprofundada e direcionadora, pode resultar em novos olhares brasileiros para essa arte que se produz na Coreia do Sul com tamanha qualidade.

Cartazes de divulgação dos filmes Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera, Casa Vazia e Time – O amor contra a passagem do tempo, respectivamente. Fonte: IMDB.

Não digo que a música pop sul-coreana já não atraia um público numeroso, porém, como alguém que trabalhou na divulgação do k-pop de 2005 até 2012, posso dizer que o material que temos hoje, de modo geral, é mais focado no conjunto audiovisual da coisa do que na qualidade musical, do que no trabalho maior com as letras. Sem polêmicas, hein?! Apenas digo que há uma ponta dessa produção cultural sul-coreana fortemente exposta, enquanto outras pontas tão potentes e ricas em tradições, histórias, heranças e estruturas do sujeito coreano seguem colocadas embaixo do guarda-chuva que representa o tema “cultura coreana”, e que, por sua vez, seguem encontrando resistências em sua expansão para além dos muros do lugar exótico (o orientalismo estereotipado). Penso que isso seja um trabalho a ser realizado tanto pela Coreia do Sul quanto pelo Brasil, em uma troca mútua de interesses, onde a oferta de artefatos culturais seja um atrativo real ao interessado em experimentar essas outras possibilidades de estar em contato com a cultura sul-coreana. Há editais, programas de intercâmbio e oportunidades de acesso a essa riqueza humana que é a cultura, em grande medida, por parte da Coreia do Sul (o LTI Korea abre chamadas anuais para o seu curso de imersão e formação de tradutores literários em língua coreana), mas será que temos pessoas interessadas o suficiente para mergulhar nessas águas (turbulentas pela dificuldade no seguir aprendendo a língua coreana) e trazer algo daí? É uma pergunta que faço genuinamente. Se há quem esteja interessado, e você está me lendo: não desista e tente! E eu ainda acrescentaria ao questionar: por que não investir em projetos de tradução de prosas juvenis como o romance Vou cruzar o mundo até você/세계를 건너 너에게 갈게, de 2018, escrito por Lee Kkot-nim? Ou o relato visceral de Derivado/번외, também de 2018, escrito por Park Ji-ri? Ou mesmo a coletânea de contos Abismo/벼랑, de 2008, escrito por Lee Geum-yi – indicada pela Coreia do Sul à edição 2020 do Hans Christian Andersen Awards (considerado o Prêmio Nobel da Literatura Infantil)? São histórias de juventudes humanas que travam diálogo íntimo com a realidade contemporânea da Coreia do Sul e do Brasil.

Capa do livro Vou cruzar o mundo até você/세계를 건너 너에게 갈게 de Lee Kkot-nim (2018). Fonte: yes24

Para encerrar, quais livros e autores sul-coreanos você recomendaria aos leitores do MidiÁsia?

LG: Eu teria uma lista imensa de títulos para compartilhar, mas irei focar naquilo que podemos ter acesso por meio de livrarias virtuais internacionais, já que dificilmente conseguiríamos adquirir livros infantis coreanos a partir de sites especializados da Coreia do Sul. Já existentes em língua portuguesa, eu recomendaria: todos os livros de Suzy Lee, Espelho (2009), Onda (2008), Sombra (2010) e Abra este pequeno livro (2013), assim como as traduções realizadas pela professora Yun para os livros ilustrados O guarda-chuva verde (2011), de Yun Dong-jae e Kim Jae-hong, e Esperando mamãe (2012), de Lee Tae-jun e Kim Dong-seong, além do recém-lançado Azul, Vermelho, Transpareço… (2020), escrito e ilustrado por Hwang Seong-hye. Levados para os países de língua inglesa, ainda que se tratem de livros-imagem, destacaria a ludicidade visual de Pool (2015) e Doors (2018), ambos criados pela talentosa ilustradora Lee Ji-hyeon; ou a países de língua hispânica e francesa, mesmo falantes do alemão e do mandarim, apontaria a potência surrealista dos livros ilustrados Promenade (2016) e Tempus (2019), ambos pelo incrível artista plástico Lee Jung-ho. Por fim, acho que seria interessante ler na perspectiva de uma voz coreana que se constrói fora da Coreia do Sul, no caso, em língua inglesa, como os livros escritos e ilustrados pela autora da diáspora Yangsook Choi: New Cat (1999), The Name Jar (2000) e Behind The Mask (2006). Não poderia finalizar sem dar espaço ao recomendadíssimo (nas feiras internacionais de livros infantis, mas improvável de obter por aqui) Coça-Coça/간질간질, de 2017, escrito e ilustrado pela irônica Seo-hyun.

Book trailer do livro ilustrado Azul, Vermelho, Transpareço…, pela Editora do Brasil

“A negociação”: a empatia transformadora e combatente entre um criminoso e uma policial

Por Alessandra Scangarelli (Via Intertelas e KoreaPost)

Toda sociedade tem um número de “crenças” e regras que mesmo não sendo reais no mundo concreto, continuam por serem perpetuadas na busca de manter a fé das pessoas na humanidade. A ideia de que uma pessoa somente, uma espécie de herói, ou heroína, com um poder descomunal é capaz de reverter todo mal aquece e tranquiliza o coração de muitos.

Mais profundo ainda é quando se acredita que um ser abstrato vá um dia surgir, ou ressurgir, fazer a limpeza e o dever de casa que os humanos imperfeitos assim não conseguiram, tornando o mundo e a vida justos finalmente. São as crenças e as ilusões necessárias para que, no geral, a grande maioria continue na linha e reproduza o as regras do sistema criado pelos homens, como deve ser, sem transformá-lo, sem revolucioná-lo para algo melhor.

Um sistema que tem uma estrutura bastante complexa e que apenas existe se tanto o lado “bom”, quanto o lado “ruim” coexistirem. Como o mercado ilegal e o legal que, na realidade, dependem um do outro para seguirem com suas funções. Afinal, para que seriam necessários policiais se não existissem bandidos? Para que seriam necessários exércitos se as guerras não ocorressem? E para que produzir armas se todos respeitam a vida acima de tudo? Ao ter claro que este contexto existe, sendo realista e não pessimista, encontrando soluções concretas e não fantasiosas, é possível ter em conta que as mudanças podem ser realizadas através da atitude pouco convencional e muitas vezes corajosa dos indivíduos em conjunto.

Crédito: Pinteres/Korean Drama 24/7

Isso quando estes conseguem livrar-se da “máquina” que os conduz diariamente, deixando de serem meros sobreviventes egoístas, ou parte da engrenagem sistêmica exploradora para pensar em todos e lutar por todos, ou por alguém em específico do qual acabem criando empatia, ou um certo amor humano fraternal, que os faça querer justiça e cuidar do próximo, ainda que este lhe seja um estranho, ou digamos seja inclusive uma pessoa que não tenha feito as escolhas mais certas na vida.

“A Negociação” (The Negotiation) (2018), dirigida por Jong Suk Lee traz esta mensagem em um enredo que combina de forma bastante natural entretenimento e os males mais proeminentes na sociedade sul-coreana atual. Assim, a história gira em torno de uma negociadora chamada Ha Chae Yoon (Son Ye Jin) que faz parte da equipe de negociação de crises da Agência Metropolitana de Polícia de Seul e um traficante de armas Min Tae Gu (Hyun-Bin) que sequestrou dois coreanos em Bangkok . Ha Chae Yoon é a típica servidora pública que ao trabalhar em algo tão único faz com que dificilmente possa ter uma vida cotidiana muito turbulenta, com pouco tempo usufruir dela. Seguindo uma lógica bastante comum de ocorrer nestes casos era de se esperar que ela não fosse uma pessoa muito emotiva, que tivesse uma atitude mais endurecida sentimentalmente e que encarasse a violência como algo normal.

Contudo, a personagem foge deste clichê e supreendentemente apresenta uma personalidade bastante humana, sofrendo com as vítimas, com a perda ocasional de vidas. E mais interessante é que o traficante e sequestrador Min Tae-Gu acaba seguindo esta mesma linha.

Crédito: IMDB

À primeira vista parece um criminoso frio e calculista. Contudo, ao longo da narrativa, quando se vai descobrindo as razões que o levaram a sequestrar e fazer reféns,  percebe-se que a raiz do seu problema tem como pano de fundo uma história de teor pessoal bastante emocional. E, acima de tudo, suas intenções visam, principalmente, enfrentar um sistema extremamente corrupto, comandado por uma casta de autoridades e uma elite empresarial de grande poder, envolvidas com tráfico de armas internacional. Este mercado que tanto legal, quanto ilegal é um dos mais lucrativos do mundo.

Segundo o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), uma organização que realiza pesquisas científicas em questões sobre conflitos, localizada na Suécia, o valor total do comércio de armas em 2017 gerou algo em torno de 95 bilhões de dólares e as 100 maiores empresas do campo lucraram em torno de 398.2 bilhões de dólares apenas no ano referido. Os principais países que vendem armas são exatamente nesta ordem: Estados Unidos, Rússia, França, Alemanha e China. Os alemães têm como seu principal comprador a Coreia do Sul, totalizando 19% de suas vendas. A Coreia que tem suas próprias empresas de armas e que participa deste mercado tanto legalmente, quanto ilegalmente.

“A Negociação”, infelizmente, não trabalha em sua narrativa, os bastidores deste mundo com maior profundidade, servindo este mais como um pano de fundo e para promover uma das causas que desencadeia todos os acontecimentos da trama. Contudo, esta falta não diminui a importância, nem torna esta produção cinematográfica menos atraente, pois ela acaba focando na questão humana que se almeja debater.

Crédito: IMDB

Somado a isso, as intepretações de grandes atores, em conjunto com um roteiro que explora bem as situações de tensão deixam o espectador bastante focado e esperando pelo desfecho que este drama terá. O mais interessante talvez a se apontar é que será através de Min Tae Gu que a negociadora Ha Chae Yoon vai deixar sua posição passiva para tomar uma atitude e tonar-se uma policial real. Isso porque ele enxerga nela a capacidade humana mais evoluída para tanto, como salientando acima: o de ter empatia pelo próximo, seja ele (a) quem for.

Desta forma, “A Negociação”, além de nos fazer atentar para a estrutura do sistema e suas relações dúbias e bastante esquizofrênicas entre o mundo legal e o mundo ilegal, destaca algumas temáticas importantes: criminosos também amam e podem ter causas bastante justas para defender, apesar de suas escolhas; um bandido pode ser mais humano do que aqueles que vivem aparentemente uma vida de conduta social impecável, mas que, por baixo do tapete, são os reais monstros desprovidos de qualquer humanidade; um indivíduo comum como uma servidora pública e seus colegas estão mais inclinados a poder realizar as transformações necessárias e enfrentar o sistema do que os chamados líderes, pessoas de destaque ou seus superiores já viciados, conduzidos e engolidos pela “máquina sistêmica”. Assista “A Negociação” na Netflix.

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul  | Direção: Jong Suk Lee | Roteirista: Sung Hyun Choi, Park Myeong Chan (comic) | Elenco: Ye Jin Son, Hyun Bin, Sang Ho Kim | Duração: 112 min | Ano: 2018