Um homem e uma mulher – a família em crise e o amor impossível

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas e KoreaPost)

O conservadorismo da sociedade coreana é um prato cheio para o impulso criativo da indústria cinematográfica deste país. Talvez seja uma das razões que expliquem a existência de diversos filmes com histórias sobre amores impossíveis. “Um Homem e Uma Mulher” (2016), de Lee Yoon Ki, é mais uma produção que trata de um tema já retratado em outras obras ao redor do mundo, mas que continua polêmico: a paixão extraconjugal, ou, para muitos, a traição.

Contudo, a forma como Lee Yoon Ki desenvolveu o seu enredo não torna a abordagem da questão como algo clichê, do estilo “mais do mesmo”. A sensibilidade e a sutileza que percorrem toda a trama, dando um toque de cotidiano da vida real, auxiliam a conduzir o espectador ao universo de personagens tão parecidos aos indivíduos que encontramos no dia-a-dia. Todos nós podemos ter passado por uma situação semelhante, ou podemos conhecer alguém que tenha vivenciado algo parecido com o que Sang Min (Jeon Do Yeon) e Ki Hong (Gong Yoo) experimentaram.

Sendo sua primeira parte filmada em locações na Finlândia, durante o inverno, o filme conta com uma fotografia encantadora em seu início, que dialoga perfeitamente com os aspectos psicológicos que o diretor deseja transmitir. Da mesma forma, a trilha sonora também é um aspecto importante, tornando-se não um elemento a mais, mas uma peça essencial para indicar a intensidade dos sentimentos do casal que em instante sai de um estágio de recém conhecidos para o sexo casual.

Todos estes itens são uma complementação para a peça chave do filme que é a interpretação introspectiva e extremamente emocional que Jeon Do Yeon e Gong Yoo disponibilizam ao público. A química entre eles é vibrante, e mesmo Gong Yoo sendo bem mais novo que Jeon Do Yeon, eles equilibram-se de tal forma que nem esta diferença pode ser percebida. Ambos são ótimos atores, muito expressivos e que normalmente conseguem dar a carga emocional adequada para seus diferentes trabalhos no cinema.

Ela, nesta história, vive Sang Min, uma mulher casada que está na Finlândia para acompanhar o filho autista, matriculado em uma escola especial para alunos que apresentam tal condição. O vínculo entre mãe e filho é muito forte, ao ponto de tornar-se um pouco doentio. Um exemplo desta condição ocorre quando Sang Min permite que o filho participe de um passeio na escola, mas permanece preocupada se ele ficará bem. Assim, ela chega ao ponto de pedir aos coordenadores da instituição que a deixem participar da viagem. Obviamente, ela é persuadida a deixar o filho sob os cuidados da escola. Desta forma, um pouco contrariada ela afasta-se, andando um pouco sem rumo, e encontra Ki Hong, um arquiteto coreano que está na Finlândia a trabalho e cuja filha, que sofre de depressão profunda, também estuda na mesma escola.

Ela pede um cigarro a ele e que a leve até o local do acampamento. Após ver onde o filho estava, Sang Min decide voltar, mas uma nevasca bloqueia a estrada, fazendo com que ambos tenham de passar a noite em um hotel. A sequência de acontecimentos nesta parte do filme é bastante interessante, pois é possível sentir a atração de ambos despertando aos poucos, através de fatos extremamente banais, como jantar e socializar.

Crédito:  Han Cinema.

O ápice deste “encontro” ocorre quando eles, no dia seguinte, em um passeio antes de seguirem viagem, encontram uma sauna finlandesa, no meio da floresta, onde param para descansar e acabam transando. As cenas íntimas também são interessantes, pois apresentam muita sensualidade, não possuindo nudez, nem sexo gratuitos, ou que vise apenas atrair, ou chocar o espectador. Todas as tomadas dos corpos dos atores estão em consonância com o romantismo e a delicadeza destes dois personagens que parecem poder viver uma certa liberdade, e uma certa felicidade no exterior que não é possível em seu país de origem, local onde se passa a segunda parte da história.

Após uma despedida fria de Sang Min na Finlândia, vamos saber mais sobre ela e sua vida cotidiana na Coreia do Sul. Trata-se de uma outra pessoa. Uma profissional bem-sucedida, nada frágil, que organiza espaços para eventos e lojas de moda. Contudo, sua relação com o marido é fria, já que ele não se mostra nem um pouco carinhoso, ou atencioso com ela e o filho. Ki Hong, por sua vez, também tem sérios problemas com sua esposa, uma pessoa emocionalmente muito instável, o que nos leva a compreender um pouco do porquê de ele visivelmente não ser uma pessoa feliz e decidir reencontrar Sang Min. O filme percorre toda esta problemática que os personagens constantemente perguntam-se: devemos seguir em frente, ou sacrificar a relação pela família?

A resposta é fornecida no desfecho do filme, de forma simples e sutil, praticamente sem diálogos e com alta carga dramática. Trata-se de uma obra cinematográfica que, na realidade, também está lidando com questões de família, as “prisões” que elas acabam tornando-se para os personagens principais e como esta instituição social encontra-se em crise, ou pode permanecer em constante estado crítico, a ponto de desmoronar. Em outras palavras – não existem pessoas perfeitas, como amam apresentar os comerciais de margarina…

Crédito: Han cinema.

Poderiam os filhos de Sang Min e Ki Hong terem uma vida melhor, se ambos decidissem ficar juntos? Às vezes, não é possível ter tudo nesta vida, em razão de algumas das muitas responsabilidades que nos são impostas ao longo de nossa trajetória. A exemplo do que demonstra este filme, crianças com problemas de saúde e conjugues com uma estrutura psicológica e emocional frágil acabam por induzir escolhas conservadoras, porém compreensíveis.

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Lee Yoon-Ki | Roteirista: Lee Yoon-ki, Sin Eun-yeong | Elenco: Jeon Do-yeon, Gong Yoo e Bang Jun-seok | Duração: 55 min | Ano: 2016

Bungee Jumping of their own: as diversas faces de almas gêmeas

Por Mayara Araujo

Até que ponto iríamos para estar com a nossa alma gêmea? Será que o amor pode ser um sentimento que ultrapasse as barreiras do corpo físico? O quanto estamos dispostos a arriscar para estar com a pessoa amada? Essas e outras importantes questões são introduzidas na mente do espectador na obra Bungee Jumping of their own, longa lançado em 2001, do diretor Kim Dae-Sung. O filme poderia recorrer aos clichês do gênero melodrama, mas acaba por trilhar caminhos mais obscuros ao enfrentar os tabus sociais a respeito da homossexualidade na Coreia do Sul.

O enredo parece simples: In-woo (Lee Byung-hun) e Tae-hee (Lee Eun-ju) acabaram de entrar na faculdade e ambos não acreditam na ideia de amor à primeira vista. No entanto, acabam se apaixonando dessa forma e se envolvendo em uma relação profunda e verdadeira que pareceria ser capaz de durar para sempre. No experienciar da juventude do casal, eles prometem selar esse amor eterno com um salto de bungee jump em um famoso pico da Nova Zelândia. Enquanto isso, nós, como espectadores, também somos levados a acreditar que esse amor – comum e heterossexual – sobreviveria às mazelas do tempo e poderia se tornar duradouro.

Acontece que sem nenhuma espécie de aviso prévio para o público, somos transportados até o futuro. Dezessete anos mais tarde, nos encontramos mais uma vez com In-woo, agora mais velho, formado e professor de uma escola de ensino médio. Ele tem uma filha ainda pequena e está casado – com uma mulher que não é Tae-hee. 

Crédito: theeast.org

Essa nova realidade nos leva inevitavelmente ao seguinte questionamento: o que aconteceu com Tae-hee? Rapidamente, a narrativa do filme tenta nos ajudar a respondê-la, quando um dos estudantes de In-woo, Im Hyun-bin (Yeo Hyun-soo), indaga o professor sobre o seu primeiro amor. Com as memórias ainda vívidas, In-woo percebe que ainda tem sentimentos por Tae-hee, mesmo depois de tantos anos, e passa a investigar o paradeiro de sua amada. Renasce, assim, a sutil esperança de reencontrá-la.

A partir desse ponto que a graça e as nuances do filme de Kim Dae-seung se apresentam sob o desenrolar de um estranho mistério que, por vezes, poderia até mesmo ser considerado sobrenatural. Na medida em que a trama se desenvolve, estranhas situações envolvendo o estudante Im Hyun-bin, de dezessete anos, acontecem. Itens outrora pertencentes à Tae-hee reaparecem nas mãos do rapaz. Observar essas inusitadas situações, impotente e sem entender o que está acontecendo, vai levando In-woo ao limite do bem-estar emocional e da confusão mental.

Afinal, quem é o jovem Hyun-bin e por que ele parece estar diretamente conectado ao seu professor? Nesse momento, Hyun-bin também parece estar sendo levado para uma trama que ele não entende, a partir do descobrir de seus próprios sentimentos. Assim, o rapaz encerra o seu relacionamento com sua namorada de outra classe e, cada vez mais, se vê envolvido com In-woo, mesmo sem entender as razões e tendo que lidar com o desconforto da desconfiança e olhares jocosos advindos dos colegas de classe e do corpo docente.

Crédito: Buena Vista International Korea

Por outro lado, In-woo passa a questionar a própria vida. Ele ainda amava sua esposa? Ou melhor, ele ainda a desejava? O que estaria havendo, afinal, com a sua própria identidade sexual? Desesperado, In-woo chega até mesmo a buscar ajuda médica no intuito de descobrir se existe algum desvio. É nesse ínterim que o filme apresenta a sua verdadeira face: aquela que lida e desafia os preconceitos com a comunidade LGBT na Coreia do Sul. Para além do drama e do romance existentes na trama, sua verdadeira mensagem diz respeito a uma contundente crítica social à discriminação que permeia as diversas camadas da sociedade sul-coreana. 

Cabe aqui ressaltar que a Coreia do Sul é um dos países que nem sequer reconhece casamentos ou união estável de pessoas do mesmo gênero. Em 2014, alguns membros do Partido Democrata chegaram a apresentar à Assembleia Nacional um projeto de lei que legalizaria o relacionamento LGBT, no entanto, isso nem sequer foi levado a votação até os dias atuais. O máximo da conquista dessa comunidade aconteceu em 2019, quando o governo sul-coreano anunciou que reconheceria cônjuges do mesmo gênero de diplomatas estrangeiros que fossem para a Coreia do Sul, mas que não reconheceria o casamento entre diplomatas homossexuais sul-coreanos, ainda que residam e trabalhem no exterior.

Após a situação se tornar caótica e repleta de rechaços, In-woo é finalmente demitido da instituição. Confuso sobre a situação, ele decide ir embora para a Nova Zelândia para realizar o sonho que construiu com sua amada Tae-hee. Imediatamente em seguida, ele é acompanhado pelo estudante Hyun-bin até a estação de trem, onde sua verdadeira face finalmente se revela. No reflexo do trem, vemos a imagem de Tae-hee se aproximando de In-woo. 

Resultado de imagem para bungee jumping of their own filme
Crédito: gayhf.com

De volta ao passado, o paradeiro de Tae-hee é revelado. Em uma noite, indo ao encontro de In-woo, Tae-hee sofre um terrível acidente e morre no ato. Dezessete anos mais tarde, em um lindo e sensível diálogo entre Tae-hee, agora no corpo de Hyun-bin, e In-woo o mistério é resolvido. “Eu demorei muito para chegar”, diz Hyun-bin. “Você chegou no momento certo”, responde In-woo. Assim, os dois se encaminham para o destino final na Nova Zelândia.

Ao término do filme, In-woo e Tae-hee vivendo sob a carcaça de Hyun-bin, cometem o seu ato dramático de amor final, ao pularem sem nenhum equipamento de Bungee Jump. Agora, quem se comunica são apenas almas que vagam sobre um riacho: “eu prometo voltar mulher na próxima vida”, diz Tae-hee. “E se eu voltar mulher também?”, Indaga In-woo. “A gente tenta de novo”, responde. 

Crédito:  moviefit.me

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Kim Dae Seung | Roteiristas: Ko Eun Nim | Elenco: Lee Byung Hun, Yeo Hyeon Soo, Lee Eun Ju, Hong Su Hyeon, Jeon Mi Seon, Chang Suk Won | Duração: 100 min | Ano: 2001

A crítica poética em “Eungyo – A Musa”, de Jung Ji Woo

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas / KoreaPost)

Atualmente é difícil encontrar produções cinematográficas coreanas que tenham uma conexão com a literatura, no que diz respeito a sua trama e os demais elementos de um filme como a fotografia, figurino e locações. “Eungyo – A Musa”, do diretor e roteirista Jung Ji Woo, baseado no romance de Park Bum Shin, lançado em 2012, é um exemplo de um filme que discorre sua narrativa, e até sua mensagem, de forma poética; quem sabe até visando tornar-se uma poesia.

Junto a esta beleza cinematográfica/literária, temos uma crítica à atual sociedade movida pela tecnologia e todas as facilidades que ela proporciona. Esta mesma que faz questão de criar uma juventude sequiosa por fama e sucesso, fazendo o que tiver de ser feito para alcança-los. Afinal, ser famoso e bem-sucedido é sinônimo de status e respeito, que devem ser obtidos sem grande esforço e à “toque de caixa”. Desta forma, pode-se resumir as ambições que traçam as características negativas do jovem do início do século XXI.

A criação e a inspiração genuínas já fazem parte de um passado não muito longínquo, onde estas podiam existir, pois tinham artistas, escritores e etc. que basearam suas vidas perseguindo-as, no intuito de criar uma nova obra prima. Hoje tudo se copia, como também se rouba, no objetivo de se chegar a condição de grande escritor de forma rápida, como muito bem é apresentado em mais esta produção coreana.

Crédito: AsianWiki

“Eungyo – A Musa”, como todo bom filme sul-coreano, não foge de uma temática polêmica e apresenta um triangulo amoroso entre um escritor idoso e famoso, de 70 anos, Lee Juk Yo (Park Hae Il), uma jovem (sua musa e inspiração) de 17 anos Han Eungyo (Kim Go Eun) e seu jovem discípulo/assistente Seo Ji Woo (Kim Moo Yul). No entanto, este amor proibido serve apenas de fachada para as verdadeiras intenções do diretor. Em uma época repleta de guardiões da boa moral e dos bons costumes, é importante frisar que apenas focar sua atenção na pretensa imoralidade desta “relação” pode-se perder a essência de um filme que tem muito a dizer e promove diversos momentos cinematográficos inesquecíveis.

Nosso trio romântico é formado por indivíduos extremamente solitários e, provavelmente, carentes. O escritor Lee Juk Yo, imerso em uma vida enfadonha, morando em uma casa distante dos grandes centros urbanos, tem a companhia do seu aprendiz Seo Ji Woo. Este é um aspirante a escritor, formado em engenharia, sem talento algum para a escrita. Ele se dedica inteiramente ao seu mestre, a quem diz considerar como pai, mas, logo se percebe, que o tutor não passa de uma fonte de criação, em que o jovem busca absorver todo o talento que lhe falta e finalmente lançar-se à fama.

Ele assim consegue, já que seu mestre concorda em ser um escritor fantasma para a obra que terá grande reconhecimento e torna conhecido o nome de Seo Ji Woo. O verdadeiro autor não se importa e espera que seu discípulo possa, depois desta primeira “conquista”, seguir sozinho e criar suas próprias histórias. É interessante perceber que o aprendiz nunca retribui todo o esforço do mestre, inclusive contribui para a condição de peça antiga, pertencente ao passado que a sociedade quer impor-lhe, e que o tutor tanto odeia.

Crédito: divulgação

É ele que auxilia um grupo a conseguir uma reunião com seu mentor para construírem um museu sobre sua vida. Obviamente que a oferta é recusada e com uma fala, o personagem deixa explicito que nunca tinha visto um museu ser construído para pessoas ainda vivas.

Um dia a jovem Han Eungyo aparece do nada na casa de Lee Juk Yo, e é contratada pelo assistente para limpar a casa do escritor. Ela visivelmente é uma típica musa Lolita, que, de primeira, conquista os sentimentos do mestre, tornando-se a sua inspiração para elaborar uma obra prima. Um conto poético, em que o escritor idoso busca retornar à juventude perdida e viver um amor não proibido com Eungyo.

Na figura dela, o grande escritor deposita toda uma fantasia de pureza e inocência. Tais características estão representadas através das vestimentas que a personagem feminina usa ao longo do filme, que vão de tons claros a brancos; além de uma fotografia onde a luz sempre incide sobre ela, dando-lhe um aspecto, em alguns momentos, de figura sagrada, de uma jovem intocada. A forte relação estabelecida entre ela e o escritor, cujo grau de intimidade vai aumentando aos poucos, leva o discípulo a criar um sentimento de apreensão e raiva por Eungyo.

Crédito: divulgação

As passagens íntimas entre o escritor idoso e a menina dão-se através de enquadramentos de câmera que revelam detalhes, como o momento em que Lee Juk Yo olha dentro de suas cobertas e a encontra dormindo, encostada em suas coxas. São duas figuras extremamente solitárias e que desejam intensamente convivência e carinho. As ótimas interpretações dos três atores transmitem muito bem estes sentimentos de sentir-se só e de tristeza. Kim Go-eun foi bastante premiada por este trabalho, fazendo de “Eungyo- A Musa”, o filme que impulsionou a sua carreira e a tornou uma atriz digna de produções intelectualmente mais sofisticadas.

Seo Ji Woo encontra o conto no baú de madeira do escritor e publica-o em seu nome. Com isso, ele acaba conquistando o grande prêmio literário da Coreia e provoca a ira de Lee Juk Yo. Finalmente o mestre consegue enxergar o discípulo como ele realmente é: um parasita. Assim, Seo Ji Woo é proibido de conviver com o escritor, mas em seguida é perdoado.

Contudo, o aprendiz não vai deixar de cometer novos atos de traição. Ele seduz a jovem solitária no escritório de seu mentor, que assiste ao ato sexual pela janela, do lado de fora da casa, suspenso em uma escada. A raiva do escritor é tal que ele fura o pneu do carro de Seo Ji Woo e estraga as engrenagens do seu próprio veículo, almejando com isso que o assistente sofra um acidente mortal.

VDMovie] Eungyo: A Musa - Resenha | Vida de Dorameiro Amino
Crédito: filmow.com

Tal reação deve-se ao rancor que Lee Juk Yo sente pela perda da inocência de sua musa, que teve sua pureza roubada por alguém tão vil. Eungyo por fim percebe que foi enganada e, em uma cena emocionante, agradece o amor recebido em um conto que a descreve de uma forma que ela nunca tinha considerado poder ser anteriormente. Por um momento, a solidão de ambos é aplacada e o carinho afaga temporariamente a tristeza e a carência de duas figuras puras e genuínas. “Eungyo – A Musa” é uma crítica poética à juventude que perdeu a habilidade de criar e sentir e vale o seu tempo para assisti-lo.

Ficha técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Jung Ji Woo | Roteiristas: Park Bum Shin (novela), Jung Ji Woo | Elenco: Park Hae Il, Kim Go Eun, Kim Moo Yul | Duração: 129 min | Ano: 2012

Jovens coreanos utilizam aplicativos para ganhar dinheiro extra

Via Koreapost

Aplicativos que permitem que as pessoas ganhem algum dinheiro adicional estão se tornando populares entre os jovens à medida que a epidemia de coronavírus se arrasta. Alguns aplicativos pagam 40 wons para cada 10.000 passos dados, enquanto outros pagam 3 wons para clicar em um anúncio ou 300 para participar de uma pesquisa (US $ 1 = 1.117 wons). O único benefício é que eles podem coletar dados que esperam vender para os anunciantes, mas muitos trabalhadores licenciados nos setores de hospitalidade e outros serviços ficam felizes em vender sua privacidade por um pouco mais de dinheiro.

Um funcionário de escritório de 28 anos em Incheon liga seu aplicativo para smartphone no caminho para o trabalho todos os dias. O aplicativo lhe dá 40 wons se ele andar 10.000 passos por dia – não por preocupação com sua saúde, mas porque sabe onde ele está indo.

Assim que chega ao escritório, ele ativa outro aplicativo que paga 1.000 wons por preencher uma pesquisa. Ele ganha 1,8 milhões de wons por mês, mas a epidemia o deixou ansioso sobre perder o emprego. Ele foi dispensado por cerca de três meses em abril e novamente por duas semanas em agosto e teme perder o emprego por completo. Ele se inscreveu para um conta poupança que drena com segurança 3.000 wons de seu dinheiro por dia e faz download de aplicativos de smartphone que pagam em dinheiro.

Crédito: http://english.chosun.com/site/data/html_dir/2020/11/21/2020112100392.html

“Se eu economizar 3.000 wons por dia e receber o dinheiro dos aplicativos, posso ganhar 600.000 wons em seis meses”, diz ele. “Para mim, isso não é uma pequena quantia de dinheiro”. Outro funcionário de um hotel de 28 anos em Seul está pegando seu smartphone assim que acorda todas as manhãs às 8h. Um anúncio aparece assim que ele toca na tela e seu telefone tem um aplicativo que desativa o bloqueio após assistir um anúncio. Dessa forma, ele acumula até 5 wons de crédito para cada anúncio visualizado.

“Eu instalei o aplicativo para que pudesse ganhar 2.000 wons por dia para cobrir minhas tarifas de transporte público”, diz ele. Seu empregador tem licenciado trabalhadores por uma semana em rodízio desde março. “Meu salário mensal encolheu de quase 3 milhões para 2 milhões de wons. Depois de colocar 1 milhão em minha conta de poupança e pagar 100.000 em juros de empréstimo mais outras despesas, fico com quase nada.” O portal de empregos Incruit entrevistou 825 pessoas em junho e descobriu que 77% haviam cortado gastos e estavam recorrendo a outras fontes de renda.

The Witness: um triste retrato da indiferença

Por Mayara Araujo

Desde o merecido Oscar de Parasita e a recente pandemia de COVID-19 que tem impossibilitado o amplo acesso às salas de cinema, a plataforma de streaming norte-americana, Netflix, tem nos brindado com catálogo relativamente diverso de filmes sul-coreanos. Esse é o caso da inserção de The Witness, do estreante Jo Kyoo-Jang que entre altos e baixos traz a ácida crítica da indiferença com a qual a sociedade contemporânea lida com as relações humanas.

Com um roteiro extremamente simples, a narrativa traz o olhar de Sang Hoon (Sung-min Lee), que ao chegar do trabalho em uma madrugada, acaba testemunhando um brutal assassinato de uma moça através de sua janela. Antes que pudesse denunciar o acontecimento, sua esposa acorda no meio da noite e acende as luzes, chamando a atenção do assassino do lado de fora, que imediatamente nota Sang Hoon. Assustado ao ser percebido, Sang Hoon deixa de denunciar o crime para a polícia e passa a viver acuado com a possibilidade de ser encontrado e com o bem-estar de sua família.

Esses minutos iniciais da trama marcam o início de uma perseguição implacável que nosso protagonista passará a experienciar, na qual tudo o que parece importar é a sua própria segurança e a de seus entes-queridos. Para isso, San Hoon estará disposto a se calar, a mentir sobre a verdade e a ignorar a dor da perda dentro de sua própria vizinhança. 

Crédito: BrazilKorea.com

Na manhã seguinte, o corpo da vítima é encontrado e o detetive Jae-Yeob (Kim Sang-Ho) assume o caso. Para isso, Jae-Yeob passa a interrogar os moradores do complexo residencial para tentar localizar o criminoso. No entanto, ele se depara com a fria indiferença da maior parte dos moradores e uma preocupação exclusiva com a possível alteração no valor dos imóveis devido a má fama da região.

Enquanto isso, o assassino Tae-ho (Kwak Si-yang), sempre à espreita, atua como um verdadeiro stalker, mapeando e vigiando as testemunhas para garantir que não seja pego. Assim, intimida o protagonista, comete outro assassinato, bem como manda “mensagens” horripilantes – como matar um animal de estimação e enviar sua cabeça para os donos – no intuito de controlar a situação.

O filme se perde pelo meio do caminho ao enfatizar excessivamente na atmosfera de thriller e preterir o roteiro. A violência, típica da estética cinematográfica sul-coreana, chega a incomodar, visto que se sobrepõe à narrativa e torna o passar dos minutos um tanto quanto arrastados. 

Crédito: canaltech.com

As motivações de Tae-ho não são explicadas na trama, falta aprofundamento em sua personalidade e o seu passado não é revelado. Não há nuances em sua apresentação, tornando-o um vilão meramente vil. De fato, o roteiro carece de “nós” que deixariam a história mais envolvente e bem amarrada.

Mais para o término, Sang Hoon e detetive Jae-Yeob conseguem agir em alguma sintonia, visto que ambos possuem o objetivo em comum de impedir que o assassino continue à solta. Grotescamente, é Sang Hoon que consegue limitá-lo e levar Tae-ho para de trás das grades. Assim, nosso protagonista finalmente alcança a paz necessária para continuar vivendo com sua família – agora em outra vizinhança. 

Ainda assim, de forma irônica, o filme é encerrado da mesma forma que começa: no pátio do complexo residencial, com Sang Hoon, agora transformado por suas últimas experiências, gritando por socorro no meio da noite. Ele aguarda que as luzes acendam e que alguém venha averiguar o que está acontecendo, principalmente depois de traumáticos assassinatos ocorridos na vizinhança. E se choca, em uma brilhante atuação de Sung-min Lee, ao perceber que nada mudou e que ninguém acenderá a luz, revelando, por fim, a total indiferença com o bem-estar do outro.

Crédito: sessaosemedo.com

Sem dúvida, o que The Witness traduz não passa de um retrato triste da sociedade contemporânea, que vive os seus dias fechada dentro de suas próprias bolhas e com uma cruel falta de empatia com a vida dos outros. 

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Jo Kyoo-Jang | Roteirista: Lee Young-jong | Elenco: Lee Sung-min, Kim Sang-ho, Jin Kyung, Kwak Si-yang  | Duração: 111 min | Ano: 2018

O veterano: os vícios de uma sociedade corrompida e altamente hierarquizada

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas / KoreaPost)

Muitos pensadores socialistas concordam com a ideia de que o sistema capitalista utiliza da estrutura política e socioeconômica tradicional, pode-se dizer até arcaica, de um grupo social específico, ou até uma nação inteira, em favor dos seus objetivos. Isso quer dizer exatamente o que? Um bom fato histórico para exemplificar a colocação acima foi a escravidão no Brasil. Esta estrutura de exploração do trabalho a custo zero com a mão-de-obra braçal rendeu diversos benefícios ao sistema capitalista mundial.

Como diria o autor Eric Williams“foram as plantações trabalhadas por escravos que fizeram crescer o volume do comércio intercontinental, estimularam o desenvolvimento de todo um conjunto de indústrias de transformação (desde o refino de açúcar até as primeiras fábricas de tecido de algodão) e tornaram alguns portos atlânticos em prósperos comerciais”.

Na Coreia do Sul, o sistema certamente faz adaptações à cultura local, mas a sua essência não é em nada modificada: a exploração da força de trabalho, com o menor custo. Certamente, em um período mais avançado do mundo pós-moderno, os alicerces desta estrutura exploradora necessitam ser mais sofisticados e complexos, no intuito de impossibilitarem a sua mais fácil compreensão, em especial para as camadas mais pobres.

Crédito: IMDB

A Coreia é conhecida por sua sociedade com valores tradicionais, de respeito, ou quase submissão aos mais velhos, da honra adquirida pela dedicação total ao trabalho e à comunidade, ao país. Tratam-se de características seculares da sociedade coreana. De um ponto de vista ocidental, estes elementos parecem, à primeira vista, bastante nobres, e, em boa parte dos acontecimentos realmente o são. No entanto, eles escondem também um cenário bastante triste e assustador de abusos, total desrespeito ao ser humano e de exploração máxima dos que menos detêm voz para contestar qualquer situação injusta.

Mais do que isso, esta estrutura de valorização do esforço dedicado ao trabalho, do respeito aos mais velhos, ou aos mais experientes, ou de cargo superior dentro de uma empresa, na realidade, também existem, com o objetivo de não fazer com que algumas questões sejam melhoradas, ou modernizadas. Desta forma, a elite, governante do país há décadas, continua a auferir dos lucros que esta estrutura de poder rende-lhe, em uma exploração e praticamente escravista à forma moderna do trabalhador sul-coreano, legalizada e aceita pelos próprios coreanos.

Assim, criam-se ideias românticas, como a de mães heroínas que obtêm três empregos para que os filhos possam entrar para a melhor faculdade, e vai-se aprofundando a desigualdade social, sem que o trabalhador possa perceber o quanto, na realidade, é explorado. Contudo, há momentos que esta farsa toda é rompida e a realidade, por alguns segundos, vem à tona. E estas oportunidades normalmente ocorrem à partir daqueles que ousam contestar tudo e tomar atitudes concretas. E este cenário que está por traz do filme “O Veterano” (2015), dirigido por Ryoo Seung Wan.

Crédito: IMDB

Certamente, não se quer afirmar neste texto que o diretor e os demais criadores desta produção cinematográfica necessariamente leram Karl Marx para contar esta história, mas o artista com uma sensibilidade acima do normal e observador do seu cotidiano, consegue compor e descrever melhor uma situação do que muitos pseudo-intelectuais, pretensamente “mestres do universo”, que existem nas universidades, mídia e outros locais… Neste enredo, o detetive Seo Do Cheol (interpretado por Hwang Jung Min) é uma espécie de policial totalmente “fora da curva”, que segue poucas regras, não obedece a superiores mas é implacável com o crime.

Um dia ele atende a ocorrência do motorista Bae, (vivido por Jung Woong In) que parece ter tentado suicídio ao perder uma reivindicação de pagamento de salário, após o encerramento de contrato com o grupo de motoristas por serem sindicalizados. Mas a sagacidade do detetive o faz desconfiar do jovem milionário, arrogante e herdeiro do poderoso conglomerado Sinjin Group Jo Tae Oh (que toma vida na pele do maravilhoso e jovem ator Yoo Ah In, um ator de personalidade já bastante polêmica e provocativa na vida real). O policial percebe que Bae provavelmente foi espancado e atirado de uma escada, em prédio com vários andores pelo filhinho do papai, sem limite algum. No entanto, não importa o quão rigorosamente a equipe de Seo o persiga, Jo sempre escapa com a ajuda de sua riqueza e conexões.

De todos os fatores que seria possível citar sobre esta obra, que passou a ser a quarta maior bilheteria da história do cinema coreano, estão as interpretações, a narrativa, o conjunto de planos filmados e a montagem que utiliza do clássico formato de contar uma história do fim para o início e explora a criação de cenas especiais para ilustrar as teorias do detetive e as mentiras do jovem riquinho, nas colocações de ambos do que venha a ter realmente ocorrido. Com um elenco secundário de primeira linha que dá toda a sustentação dramática para a trama, “O Veterano” brilha neste quesito, entretendo e provocando indignação e reflexões.

O motorista Bae, interpretado por Jung Woong In. Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Estão no filme atores do calibre de: Yu Hae Jin (que interpreta o diretor Choi, o responsável por encobrir tudo que ocorre, ou Jo Tae Oh faz); Oh Dal Su (vive chefe da equipe policial de Seo); Song Young Chang (é o presidente do conglomerado e pai de Jo); além de Bae Sung WooJeong Man Sik e Cheon Ho Jin. Hwang Jung Min e Yoo Ah In fazem uma dupla maravilhosa, que em situações de violência física e verbal, exploram tanto a crueldade e seriedade das situações, quanto o caráter cômico dos personagens, ambos de personalidade bastante explosiva, capazes de chegar a extremos, até ao ridículo.

Yoo Ah In lembra muito filhos de ricos brasileiros que cometem atrocidades, até matam pessoas, e jamais são presos. E Hwang Jung Min é aquele servidor público, aquele policial praticamente em extinção, que nasceu para exercer esta função e que tem o senso de perceber as situações, enquanto a maioria de seus colegas seguem caminhos tradicionais e mais fáceis. Com métodos até antiquados, o detetive faz de tudo para fazer valer a lei, mas é uma peça única em uma estrutura burocrática bastante hierarquizada e corrompida.

Em parte, as boas performances devem-se, acima de tudo, à construção narrativa de Ryoo Seung Wan, que como de costume na Coreia, tradicionalmente mistura diversos gêneros, em especial ação, situações cômicas, violentas e de um certo suspense, gerando aquela obra policial que faz o espectador acompanha-la até o final, sem pegar no sono, e consegue ao mesmo implantar uma semente de indignação importante. Nela ainda se pode observar aquela capacidade bastante peculiar do coreano de rir da própria desgraça, algo que tem em comum com o brasileiro, até certa medida. “O Veterano” está disponível na Netflix e deve contar na sua lista de filmes coreanos a assistir, se por acaso ainda não o fez.

Yu Hae Jin interpreta o diretor Choi. Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Ryoo Seung Wan | Roteiro: Ryoo Seung Wan | Elenco: Yoo Ah In, Hwang Jung Min, Yu Hae Jin, Oh Dal Su, Jung Woong In, Song Young Chang, Jeong Man Sik | Duração: 122min | Ano: 2015.

Signal: quando o passado e o presente se entrelaçam em uma complexa narrativa de perseguição

Por Mayara Araujo

Histórias nas quais as temporalidades se conectam e promovem uma série de modificações no tempo presente ou futuro não são pouco usuais. Em uma referência um pouco mais clássica da ficção científica, poderíamos citar a trilogia De volta para o futuro, dirigido por Robert Zemeckis. Em 2004, observamos o sucesso de bilheteria de Efeito Borboleta. Até mesmo dramas românticos que intercalam temporalidades foram criados, como Questão de tempo em 2013. A própria série alemã Dark é um complexo e instigante prato cheio para aqueles que se interessam pela temática. No entanto, poucas narrativas foram tão bem estruturadas e repletas de emoção como observamos no drama de televisão sul-coreano, Signal, exibido pela tvN em 2016. Antes de prosseguir, é importante deixar escrito que esse K-drama vai levar o seu sono embora ao longo dos alucinantes 16 episódios.

Nas últimas décadas, observamos o levante cultural da Coreia do Sul através de sua música pop (K-pop) e seus dramas de televisão (K-dramas), que tem conquistado uma expressiva audiência global e se tornado pauta de discursos midiáticos e trabalhos acadêmicos. Recentemente, com o estrondoso sucesso de Parasita de Bong Joon-Ho que conquistou diversos prêmios cinematográficos, dentre os quais o Oscar de melhor filme, também tem colaborado para pluralizar e complexificar as imagens que circulam da Coreia do Sul além-mar. Nesse sentido, produções televisivas como Signal, que fogem à lógica dos K-dramas com roteiros majoritariamente centrados em um romance, se destacam no catálogo da Netflix brasileira. 

A quinze anos atrás, uma criança foi sequestrada e, dias depois, foi encontrada morta. A polícia não conseguiu resolver esse crime. No entanto, Park Hae Young (Kim Hyun Bin), a versão ainda criança do protagonista, viu a mulher que havia levado sua colega de classe embora. A polícia não lhe deu ouvidos. Em paralelo, seu irmão de 18 anos é acusado de um crime que ele acredita ser impossível de ter cometido. Após cumprir sua pena, Park Seon Woo (Chani) comete suicídio. Desde então, Park Hae Young não confia nas forças policiais sul-coreanas. Quinze anos depois, em 2015, nos encontramos novamentes com Park Hae Young (Lee Je Hoon), um policial cuja especialidade é fazer um perfil psicológico dos criminosos. Um dia, ele encontra um walkie-talkie sem bateria, que possibilita que ele entre em contato com o passado (2001, 1997, 1985 e outros anos) do policial Lee Jae Han (Jo Jin Woong), que está desaparecido desde 2001, após ser acusado de corrupção. Assim, Hae Young consegue informações privilegiadas sobre o passado e, principalmente ao lado da líder de equipe Cha Soo Hyun (Kim Hye Soo), eles abrem novas investigações sobre os crimes passados que a polícia não conseguiu resolver.

Crédito: doramaworld.blogspot.com

Já no passado, a recém-contratada policial Cha So Hyun é designada para o mesmo setor de Lee Jae Han, sendo apresentada como uma “mascote” por ser a primeira mulher do departamento. Causando certo alvoroço dentre os demais policiais que ficam sem jeito de receber uma mulher no local de trabalho, Lee Jae Han se mantém intacto aos seus princípios e continua se comportando da mesma forma independentemente de uma presença feminina. Não tarda, portanto, para que os dois passem a trabalhar juntos e a desenvolverem uma forte amizade – que poderia se transformar em algo mais. Ali, os colegas de trabalho têm observado que Jae Han anda sempre apegado a um walkie-talkie velho, mas que ele alega “dar sorte”. Assim, Jae Han começa a se envolver com casos obscuros e a apontar o dedo na cara de policiais e outros representantes poderosos e, evidentemente, passa a incomodar muita gente. Em paralelo, existe uma disputa política ocorrendo e o chefe do departamento é transferido para outra cidade, abrindo espaço para a chegada do supervisor Kim Beom Joo (Jang Hyun Sung). Beom Joo é o típico caso de sucesso misterioso: ascendeu a cargos gradativamente mais poderosos rapidamente, além de nutrir relações obscuras com representantes políticos e donos de empresas multimilionárias.

Como todo clichê do gênero, ao se interferir no passado, o presente sofre modificações e isso se transforma em um grande dilema para o protagonista. Até que ponto é positivo que ele esteja em contato com Lee Jae Han? Vale a pena salvar a vida de uma vítima se outra pessoa morre em seu lugar? É prudente interferir no passado e arriscar uma mudança drástica no momento presente? Sem dúvida, as transformações ocorridas ao longo desses fluxos temporais colocam em xeque a consciência de Hae Young. No entanto, a situação se complica no momento em que o detetive Hae Young se depara com situações de seu próprio passado que ficaram pendentes.

Já Cha Soo Hyun mudou muito nos últimos quinze anos. De uma policial sem experiência e que frequentemente se assustava com os acontecimentos cotidiano, se transformou em uma mulher extremamente forte, pronta para liderar uma equipe com maestria, mesmo sob desconfiança de outros policiais homens do departamento. Cha Soo Hyun desenvolve uma certa afeição por Hae Young, embora desconfie de suas ações e sabedoria que são pouco explicadas, em virtude de estranhas conversas em um walkie-talkie. Em 2015, a detetive continua em busca de seu antigo parceiro Jae Han, desaparecido em 2001. Eventualmente, com apoio de Hae Young, ela pôde reencontrar os restos mortais de Jae Han no necrotério da polícia. O que levou Jae Han à morte? Mais uma vez, interferir no passado se torna urgente para que o presente não seja um ambiente de tanto sofrimento.

Crédito: Asianwiki.com

De volta à sua juventude, Hae Young presencia a prisão de seu irmão mais velho, Park Seon Woo, acusado de participar de um estupro coletivo de uma colega de classe. Após pegar alguns meses de detenção e sendo Seon Woo o único punido pelo crime, o rapaz retorna para casa e encontra uma família desestruturada. Dias depois Hae Young encontra seu irmão desacordado, envolto de sangue. Teria Seon Woo cometido suicídio? A polícia sul-coreana teria sido incapaz de investigar o crime corretamente, levado Seon Woo a desistir de tudo agora que seu nome fora manchado? Qual a correlação entre Jae Han e Seon Woo? O que existe escondido nesse passado injusto e turbulento?

Em uma série de reviravoltas, por vezes surpreendentes, e atuações simplesmente brilhantes, Hae Young, Lee Jae Han e Cha Soo Hyun desafiam a macroestrutura policial da Coreia do Sul, ora reescrevendo o passado e lidando com as consequências no presente e ora constatando que há situações que não devem ser revertidas. Juntos, a equipe de “cold cases” garantem que o futuro/presente de Lee Jae Han seja mais brando. Ou será que nem tanto?

Crédito: viki.com

Ficha técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Kim Won Suk | Roteiro: Kim Eun Hee | Atores: Lee Je Hoon, Kim Hye Soo, Jo Jin Woong, Kim Won Hae, Jang Hyun Sung, Chani, Kim Hyun Bin| Episódios: 16 |  Ano: 2016. 

Admirável Poesia de Mi-ja

Por Mateus Nascimento

Se você gosta de cinema coreano para pensar as questões sociais de nosso tempo, gostaríamos de sugerir para você ver o filme Poesia de Lee Chang-Dong.

Lançado em 2010, Poesia, 시 (Si na língua original), desponta como uma das obras mais filosóficas do diretor, recentemente reconhecido pelo filme Burning, Em chamas em português, inspirado num conto de Haruki Murakami (Queimar Celeiros). Por sua vez, Poesia conta a história da sofrida dona Mi-ja, uma avó na casa dos 66 anos que descobre princípios de da doença de Alzheimer após diagnóstico de seus esquecimentos leves.

A interpretação brilhante de Yoon Jeong-hee (1944–), uma das atrizes mais reconhecidas da Coreia do Sul desde pelo menos 1967, com variados prêmios de interpretação de papéis dramáticos, é composta ainda de um drama paralelo a esse: ela cuida de um neto em tempo integral, sozinha sem ajuda dos progenitores, e descobre as ações dele, dentre elas um estupro de uma estudante da mesma escola.

Cartaz do filme. Créditos: Amazon.

A história é impactante por vários motivos. Vemos na tela o que seria um drama do envelhecimento na Coreia do Sul, questionando todas as nossas expectativas e estereótipos do sucesso das políticas sociais das sociedades asiáticas. Some-se a isso a questão social do abandono parental pela qual podem passar os filhos de toda uma geração orientada para o sucesso profissional acima de tudo e todos, o impacto de doenças degenerativas ainda sem cura no planeta apesar de alguns países estarem melhor preparados do que outros etc. São muitos dramas e questões e dona Mi-ja brilha na tela por representar um questionamento que aparece nas entrelinhas da narrativa: a possibilidade de nós nos encontrarmos conosco mesmos no exato momento da crise, do trauma, da estafa ou da situação limite.

Afinal, como seria possível para alguém como ela, abandonada e abraçada a própria determinação de viver se reinventar diante de algo que a corrói por dentro? Nisso entra a poesia, a poética e o ponto central, mais provocante: uma senhora sem quaisquer condições decide ser poeta e praticar aquilo que muitos poetas apregoam, uma observação cuidadosa e paciente do mundo ao redor.

Voltando a dona Mi-ja, ficamos sabendo que mesmo com a idade avançada ainda trabalha ocasionalmente para complementar a renda, a ponto de se submeter aos serviços em casa de famílias para conseguir resolver suas contas e necessidades e as do neto também.

Yoon Jeong-hee é dona Mi-ja no filme Poesia de Lee Chang-Dong (2010). Créditos: Pinterest.

Concomitante, quando alguns pais envolvidos descobrem as atrocidades cometidas por ele e seu grupo da escola, ela é inserida em uma grande negociação indenizatória, para que todos os envolvidos saiam ilesos, sem registros criminais que afetariam os negócios de família. Uma condenação ou uma exposição exagerada poderia prejudicar eternamente o futuro do negócio dos pais (que devem continuar na vida dos seus filhos, roboticamente destacados para a tarefa) e o desenvolvimento social deles, embora a primeira preocupação seja mais forte.

Certamente, a querida dona Mi-ja já é uma vencedora por suportar tamanhas demandas sendo quem é, materialmente falando.

Nesse somatório de absurdos, de coisas que nos constrangem e irritam (traço típico das construções fílmicas do diretor) reside a poética de Lee Chang-Dong: como um conhecedor da cultura coreana (ele foi funcionário do ministério da Cultura deste país), ele aponta com o dedo em riste sem pudor para dentro da comunidade sul coreana e nos lança as mesmas questões, mostrando através das imagens que essa situação dramática da humanidade tem haver com todos os participantes da comunidade humana, sobretudo, por nos calarmos diante de situações como essas. Todos temos alguma culpa e deveríamos ter o ímpeto de procurar alguma resposta diante da dor dos outros. 

Ao propor um enredo com uma senhora que se descobre poeta após (repito: após!) saber ser portadora de Alzheimer, Lee está sugerindo, pelo menos, uma tomada de posição. Perceba-se desde já que cada plano carrega pelo menos duas exclamações: a situação de Mi-ja não é inverossímil! A situação de Mi-ja deveria ser inaceitável! Contudo, Mi-ja mora na Coreia, no Brasil e em toda parte do mundo que não se permita refletir sobre envelhecimento. Bom filme.

Trailer do filme no Youtube

Ficha técnica: Poesia (Si), de Lee Chang-dong (Coréia do Sul, 2010).

Obsessão: o amor conturbado de um veterano de guerra

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas)

Amor é algo facilmente confundido por outros tipos de sentimentos, normalmente, menos altruístas, menos puros e incondicionais como a paixão, a necessidade de controle, de possuir, ou a obsessão por alguém. Esta questão é bastante explorada nas mais diversas cinematografias pelo mundo e na sul-coreana não seria diferente. No filme “Obsessão” (2014), dirigido por Kim Dae Woo, o coronel Kim Jin Pyong (Song Seung Heon), que fez parte do grupo de militares sul-coreanos levados a combater junto às tropas dos Estados Unidos no Vietnã, sofre em silêncio de Transtorno de Estresse Pós-traumático (TEPT).

Decorado herói de guerra, ele também está prestes a ser promovido a general. É casado com a filha de seu comandante, a gentil Lee Sook Jin (Cho Yeo Jeong). Uma união que, ao menos para ele, não há mais qualquer afeição e carinho real, mas um coronel deve sempre, ao menos em teoria, seguir suas obrigações. Um dia, um capitão chamado Kyung Woo Jin (On Joo Wan) é transferido para a tropa de Jin Yong, mudando-se para a casa ao lado com sua esposa, a chinesa, Ga heun (Lim Ji Yeon).

Até um período, os vizinhos não parecem ter grande contato, mas a esposa do coronel está bastante interessada nos recém-chegados. Assim, ela acaba provocando a curiosidade de coronel Kim Jin Pyong que vai a casa dos vizinhos e depara-se com a esposa de seu capitão. Percebe-se de pronto que uma atração instantânea acontece, resultando em um caso extraconjugal futuro.

Crédito: IMDB

“Obsessão” não é um filme extraordinário, nem aborda questões muito diferentes que outros já não tivessem discutido, mas tem seus encantos. Em especial pela forma como a narrativa é construída, pelas atuações, pelas críticas implícitas, quase sutis, e pela sua beleza fotográfica. É importante ainda ressaltar, perdão a indiscrição da autora, a beleza física do ator Song Seung Heon, cuja forma corpórea é bem utilizada pelo diretor, em especial nas cenas de sexo.

Os quadros e tomadas dos momentos mais íntimos do casal são bastante explícitos para os padrões sul-coreanos, mas ao mesmo tempo têm uma sensualidade e uma plasticidade interessante, não sendo nada vulgares. A atuação do par de atores atingiu o objetivo em demonstrar ter bastante química, naturalidade e desenvoltura nestas cenas em particular, algo extremamente complicado e difícil de fazer, ainda que o público geral ache que não.

A fotografia bastante clara em ambientes externos e que utiliza luzes quentes nos momentos de confraternização dos indivíduos daquela situação e em seus momentos mais íntimos também, contribui para envolver o espectador naquela atmosfera de sentimentos reprimidos, para depois serem extravasados quando os personagens permitem-se mais. As sombras durante as passagens de tensão também almejam incitar no público a sensação de perturbação, a turbulência psicológica do casal de amantes, em especial do coronel.

Lim Ji Yeon é a apática Ga Heun. Casada com o capitão Kyung Woo Jin (On Joo Wan), ele tem um caso secreto com o comandante de seu esposo. Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Por sinal, segundo o próprio Song Seung Heon, esta obra foi um divisor de águas para a sua carreira, já que ele necessitaria até então provar para si que seria capaz de participar em tal produção. O ator que até aquele momento sempre fizera papeis de mocinho com carinha bonita, ansiava por mostrar que era mais do que isso. Para muitos, este, que é um dos queridinhos da onda Hallyu, fracassou no seu objetivo, mas esta autora tende a descordar com a opinião geral.

Song Seung Heon é sim um grande ator e incarna de forma muito convincente, com a dosagem certa de emoção, o coronel introvertido, que sofre em silêncio, que mantem as aparências acima de tudo, mas que sufoca aos poucos com o contexto um tanto opressor em que está inserido. Importante ainda salientar que esta foi a primeira experiência do ator com cenas íntimas de um casal. No entanto, ele não atingiria tal resultado positivo, sem a participação conjunta de suas e seus colegas. O elenco dos personagens secundários cumpre o papel de suporte de forma bem satisfatórias. A atriz Cho Yeo Jeong faz uma esposa perfeitamente avoada, infantil, tagarela, que vive em seu pequeno mundinho de aparências e nem nota o sofrimento do marido. Ela está mais preocupada com o entorno e os demais, do que com aqueles que lhe são mais próximos, vivendo em um mundo à parte.

Um mundo feliz e bonito, criado, talvez, de forma inconsciente em consequência de ser uma mulher mimada, ou pela sua dificuldade em lidar com questão complicadas, como ser esposa de um militar, herói de guerra. Não se trata de uma pessoa ruim, mas um clássico clichê da mulher da época que é agradável com todos, não é preconceituosa, mas ao mesmo tem a cabeça enquadrada no sistema.

O capitão Kyung Woo Jin (On Joo Wan) faz de tudo para avançar na carreira militar, inclusive usar a própria esposa. Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Já On Joo Wan faz o típico aproveitador, carreirista, capaz de usar a própria mulher para atingir seus objetivos profissionais. O capitão Kyung Woo Jin representa bem como é um ambiente estruturado em uma hierarquia muito rígida, resultando em diversos puxas-sacos e profissionais que apresentam uma ambiguidade de caráter, tão comum a este meio, quanto a outros digamos mais liberais. Lim Ji Yeon também vive de forma crível uma mulher quase apática para a vida. Ela compreende que o marido a explora, mas aceita. Mesmo não sentindo conforto, nem felicidade ao seu lado.

Seu encontro com o coronel, ainda que contenha grande carga emocional em vários momentos, no geral, parece apenas mais um acontecimento, quase um acidente de percurso a sua existência, sendo bastante evidente em outros momentos de tensão do filme. A atriz, de repente, encarnou tanto a apatia de sua personagem, que lhe faltou uma dose maior de explosão emocional ao final, em que Ga Heun compreende que sentia amor pelo coronel afinal. Detalhe que esta foi a primeira experiência da atriz em um projeto cinematográfico comercial.

Esta atmosfera de passividade com relação ao status quo é realmente uma característica que engrandece o enredo. A sensação é de que se está sufocando em torno de pessoas tão bem-comportadas, tão aparentemente cordiais e diplomáticas. É possível compreender o coronel em vários momentos e seus conflitos internos. Contudo, nos bastidores, as fofocas espalham-se, assim como os preconceitos com a chinesa Ga Heun e a superficialidade de mulheres que parecem insistir em levar vidas normais, com uma, ou outra aventura, uma que outra atitude ousada, como dançar às segundas com um estranho chamado Lim (Yu Hae Jin), dançarino de tango. Enquanto isso, seus maridos vivem as experiências mais horríveis que um ser humano pode experienciar. A guerra está em pleno vapor ainda no Vietnã, mas parece não atingir o cotidiano daquele pequeno mundinho sul-coreano, aparentemente.O romance com Ga Heun será para o coronel Kim Jin Pyong como o ponto de explosão, em que ele extravasa suas angústias e tenta experimentar retornar a vida normal. Isso é perceptível quando ele procura aprender a dançar para uma noite especial com aquela que ele acha ser sua nova e verdadeira amada.

Cena do filme “Obsessão”. Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Talvez, o que tenha provocado no coronel estabelecer este vínculo com Ga Heun fosse a reação dela em um momento de extrema tensão, em um evento do hospital do exército, organizado pelas esposas dos oficiais comissionados, onde são voluntárias. Na ocasião, um paciente que sofre de TEPT ataca Ga Heun, e Kim Jin Pyong vem em seu auxílio.

Ela chega a ser baleada, mas age como se nada tivesse ocorrido, enquanto as demais mulheres desesperadas gritam e desmaiam. Uma atitude que chama atenção a um ex-combatente de guerra, pois ali está alguém que pode entender um pouco das suas experiências e do que significa viver a sua realidade, ser quem ele é, tendo de presenciar situações de conflito, comuns para aquele modo de vida.

Outra curiosidade do filme, e que poderia ter sido melhor explorada, é justamente o fato histórico da participação sul-coreana na Guerra do Vietnã, algo pouco comentado, talvez até por razões compreensíveis. Afinal, este evento histórico traz uma verdade um tanto vergonhosa para uma Coreia que sempre lutou por independência, acabar submetida às ordens de outro país, que almejava invadir e controlar um irmão asiático.

Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Por fim, seria amor o que o Coronel sente? Ou apenas uma consequência de sua mente perturbada? Para a maioria dos críticos na época a segunda constatação seria a certa. Esta autora acredita que o humano é sempre mais complexo e aposta que podem ser ambos. Pois mentes perturbadas também amam, de forma errada talvez, mas amam.

E anseiam, acima de tudo, buscar algo de mais real, verdadeiro e honesto que o entorno aparentemente da normalidade e da aparência não oferece.  Alguém que entenda as dificuldades e não apenas as ignore. Trata-se de uma tentativa de buscar por algo melhor, mesmo que passe de uma ilusão e que possa ter consequências mais drásticas em seu desfecho.

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Kim Dae Woo | Roteiro: Kim Dae Woo, Oh Tae Kyung | Elenco: Song Seung Heon, Lim Ji Yeon, Cho Yeo Jeong, On Joo Wan, Yu Hae Jin, Bae Sung Woo | Duração: 232mins | Ano: 2014

Silenced: Abandono daqueles que gritam em silêncio

Por Hsu Ya Ya*

Uma escola para deficientes auditivos e intelectuais entre 7 e 22 anos. O medo refletido através dos olhos das crianças. Roxo, a cor que deveria estar estampado nos desenhos está presente nos rostos em forma de hematomas. Parece roteiro de filme de terror, não? Não deixa de ser um filme, mas o gênero não é de terror. Silenced é baseado em fatos reais que aconteceram na Coreia do Sul entre os anos 2000 a 2004, quando o caso foi exposto por um professor ao grupo de direitos humanos da cidade de Gwangju.

Em 2009, a autora Gong Ji Young lançou o livro “The Crucible”, baseado no caso “Gwangju Inhwa School”, mas a história só causou impacto na sociedade sul-coreana quando o filme foi lançado, em 2011.

Kang In Ho (Gong Yoo) é um professor de artes que fora indicado para dar aula em uma escola para deficientes auditivos na cidade de Minju a fim de ensinar e conseguir dinheiro para a sua família que passava por momentos difíceis, após o suicídio de sua esposa e a doença da filha. Logo no primeiro dia de trabalho, Kang      nota o ambiente sombrio que permeia entre os corredores da escola e os olhares distantes de seus alunos.

Crédito: viki.com

Durante a sua primeira aula, Min Su (Baek Seung Hwan) chega a aula com diversos hematomas no rosto, e quando In Ho questiona o professor Park Bo Hyun (Kim Min Sang), este relata que os machucados foram ocasionados pela sua “deficiência”, além da recente perda do seu irmão mais novo. Curioso a respeito das crianças, o professor de artes busca o histórico escolar do Min Su, Yeon Doo (Kim Hyun Soo) e Yoo Ri (Jung In Seo), reparando que essas crianças são órfãs ou foram abandonadas pelos pais.

A reviravolta começa quando In Ho encontra Yeon Doo sendo torturada pela irmã do diretor do instituto, que fora socorrida e encaminhada ao hospital com a ajuda da ativista dos direitos humanos Seo Yoo Jin (Jung Yu Mi). Ao passar a noite acompanhando a menina, a ativista recebe através de uma carta, o relato de estupros que vem acontecendo dentro da escola feito pelo diretor, o seu irmão e o professor Park. Com isso, In Ho e Yoon Jin começam a luta pelo direito dessas crianças, enquanto as autoridades locais e a própria população fechava os olhos diante do caso.

Apesar do filme ser baseado em fatos reais, alguns acontecimentos foram alterados, seja na questão da quantidade de acusados envolvidos no caso, ou as vítimas que sofreram tais abusos. Um número questionável até as últimas notícias sobre o ocorrido na vida real, mas nada se compara ao impacto da narrativa do início ao fim, com cenas fortes e tocantes sofridas pelas crianças, a indiferença dos professores que presenciavam as agressões físicas, a descrença da população para o caso.

Crédito: YouTube

A primeira impressão que se tem é que o filme parece ser de suspense ou terror pela sensação que passa ao espectador, através da ambientação do local malcuidado, pouca iluminação, olhares sem vidas e a tortura psicológica a quem assiste pelas cenas chocantes de abusos.

Silenced passa a sensação de impotência para quem assiste, mas levanta diversos questionamentos sobre o papel do ser humano diante de casos obscuros que permeiam a nossa sociedade, a conduta que devemos ter como cidadãos, em contrapartida, o poder na mão daqueles que têm mais dinheiro, o silenciamento das vítimas oprimidas pela sociedade, as brechas dentro da legislação, o papel do jornalismo a fim de expor casos que seriam acobertados por aqueles que têm poder e a importância de defender os direitos humanos.

Crédito: Tumblr

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Hwang Dong Hyuk | Roteirista: Hwang Dong Hyuk baseado no livro “The Crucible” da autora Gong Ji Young | Elenco: Gong Yoo, Jung Yu Mi, Kim Hyun Soo, Jung In Seo, Baek Seung Hwan | Duração: 125min | Ano: 2011

*Hsu Ya Ya é graduanda em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), pesquisadora no grupo Comunicação, Arte e Literacia Midiática, membro do Observatório da Qualidade no Audiovisual e bolsista de treinamento profissional no projeto #Observatório: Produção de vídeos de divulgação científica)