Entrevista com Iara Lee (Coreanos Pelo Mundo): “A vida resume-se em saber transformar algo negativo em positivo”

Por Alessandra Scangarelli (via Korea Post e Intertelas)

A cineasta Iara Lee. Crédito: Cultures of Resistance.

O trabalho de promover solidariedade entre as pessoas é árduo e requer muita energia, persistência e disposição. Mas isso é tudo que Iara Lee, cineasta brasileira de origem coreana, nascida em 1966 e hoje radicada em Nova Iorque, tem de sobra. Ela percorreu uma longa jornada como produtora de cinema e festivais da área. Hoje é diretora e ativista. Seu trabalho visa a cobertura de notícias e debate sobre questões de extrema importância para a sociedade mundial. O cinema para ela é uma ferramenta capaz de impactar e realizar mudanças no público que o consome, ainda que seja de forma bastante seletiva e vagarosa.

No seu objetivo de incitar provocações que façam o espectador refletir e ser mais proativo no seu dia-a-dia em realizar mudanças que visem melhoras a todos, ela, em conjunto com outros colegas, deu início ao projeto “Culturas da Resistência”. Uma série de trabalhos audiovisuais documentais que almejam propagar informação, conhecimento e acima de tudo ativismo. De 1984 e 1989, ela foi produtora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Crédito: Danilo Arenas/Cultures of Resistance.

Em 1989 mudou-se para Nova York, onde fundou a empresa multimídia Caipirinha Productions, no intuito de explorar múltiplas formas de expressão artística e cultural. Os temas de suas obras englobam diversas temáticas, entre elas: a influência da alta tecnologia sobre a cultura de massa “Synthetic Pleasures” (1995) e a música eletrônica “Modulations” (1998). O projeto mais recente da realizadora é uma série de dois documentários sobre Burkina Faso. Em “Burkinabé Rising: A Arte da Resistência em Burkina Faso”, a diretora expõe o dia-a-dia de uma comunidade de artistas e cidadãos engajados, que estão a incitar mudanças políticas importantes neste país de pequeno território, localizado na África Ocidental.

Lee é também militante pela paz e realizou diversas iniciativas neste sentido como a Campanha Internacional pela Eliminação de Bombas de Fragmentação e o primeiro concerto da Filarmônica de Nova Iorque na Coreia do Norte, em 2008. Ainda na sua biografia estão experiências únicas, a exemplo de testemunhar o bombardeio israelense contra o Líbano, em 2006. Desde então ela vem apoiando e colaborando com projetos que visam a disseminação de uma cultura de paz e colaboração entre as pessoas como a campanha “Faça filmes, não guerra”.

Gravando um de seus tantos trabalhos na África sobre a cultura de resistência dos povos locais. Crédito: O Tempo.

Em 2010, ela participou da “Flotilha da Liberdade”, organizada pelo movimento Free Gaza, que tinha o objetivo de enviar uma de carga 10.000 toneladas de ajuda humanitária à Faixa de Gaza e protestar contra o bloqueio imposto por israelenses e egípcios na época. A flotilha foi atacada pelas forças israelenses. Lee foi primeiramente dada como desaparecida, até ser encontrada pelas autoridades de Israel. Em entrevista ao Koreapost, ela conta um pouco de sua trajetória no cinema e compartilha um pouca da sua visão sobre questões importantes da agenda Internacional.

Como foi o início desta trajetória?

Passei nove anos trabalhando na Mostra Internacional de São Paulo. Preferi ter esta experiência, do que ficar na faculdade de cinema da Universidade de São Paulo. Na época, achei que o curso tinha muita teoria e pouca prática. Na Mostra consegui aplicar parte das teorias que tinha aprendido. Fazia todo o trabalho que ninguém queria fazer. Tomei conhecimento de tudo que era necessário saber para melhor compreender como funciona um festival, o que é preciso para que ele ocorra. Trabalhava pela manhã, tarde e noite. Atualmente a minha vida não é muito diferente. Muitas vezes eu estou participando dos festivais e realizando trabalhos puramente burocráticos e chatos, distribuindo flyers, preparando kits de imprensa, estas coisas. Às vezes, as pessoas confundem e acham que sou a assistente e não a diretora do filme.

Crédito: João Meirinhos/Cultures of Resistance.

Após adquirir bastante conhecimento sobre os bastidores e o mercado de cinema resolvi dirigir. Então, falei com os meus pais e fui para Nova Iorque. Estudei na Universidade de Nova Iorque, mas também não gostei. Todo mundo lá queria ser um Martin Scorsese, queria fazer parte deste mundo comercial de Hollywood. Então, resolvi focar e terminar o curso, antes do período determinado pelo programa da faculdade. Consegui fazer tudo em dois anos. Além disso, também estudei filosofia. Neste período, fiz dois curtas-metragens que foram para festivais como Sundance. Meus filmes, desde o início, sempre tiveram uma linha mais autoral e experimental, tanto do quesito propriamente técnico de fazer cinema, quanto no conteúdo, nas histórias, nas mensagens que queria passar.

Como uma cineasta independente, que não se identifica tanto com o cinema comercial, faz para passar conquistar espaço em um mercado cinematográfico mundial tão monopolizado?

Pois é, eu não me sinto parte deste mundo mercadológico do cinema mesmo. No começo, meus filmes até tinham certo apelo mais comercial e eu conseguia participar dos festivais principais. Mas, quando fui me afastando desta lógica e abordando temas políticos mais delicados, até estes festivais que dizem abraçar o trabalho mais experimental, mais autoral, disseram não estar mais interessados no meu trabalho. Então tive de recomeçar. Assim, procurei outros tipos de festivais que vivem mais à margem deste sistema monopolizado e que são eventos de nicho como mostras e festivais sobre os direitos humanos, contra o fascismo, focados em questões ecológicas e etc.

Mais uma vez a minha filosofia de vida que diz ser importante saber transformar algo negativo em positivo ajudou neste momento. Não fiquei chorando porque era rejeitada pelos grandes festivais. Fui procurar alternativas. E vasculhei tanto este mundo que acabei formando uma rede de contatos bastante significativa, com organizações, com ativistas e figuras importantes que apoiam causas. Hoje qualquer filme que eu faço passa em 100 países por ano. Há muitos festivais no mundo, realizando trabalhos importantes e dando espaço para temáticas mais sensíveis, só que não tem a visibilidade dos maiores e comerciais. Os meus filmes passam em tudo que é lugar que se possa imaginar: em uma sala de cinema, em escolas, em um porão de algum lugar, na rua, ou na casa de alguém que almeja fazer uma reunião e discutir um tema. É assim somos vistos em vários países e centenas de cidades.

Vou aproveitar algumas questões que você mencionou e perguntar sobre o seu projeto “Culturas da Resistência” que aborda muitos problemas sobre a desigualdade social, econômica, a crise do meio ambiente e também sobre a importância da cultura para realizar transformações reais na sociedade. Como um filme e a cultura podem provocar tais transformações?

Eu faço filmes para os jovens, porque o futuro está nas mãos deles. Então, tento incitar uma reflexão e torná-los cidadão ativos, engajados e que visem mudar o atual cenário. Por isso, faço filmes documentários mais dinâmicos, com bastante cultura, música, com muitos cortes na edição, no objetivo de falar sobre direitos humanos e política de forma menos teórica e moralista. Procuro usar uma linguagem mais leve para tratar de temas densos e importantes. Então, as pessoas vêm assistir o filme pela música e acabam aprendendo o que se passa no Saara Ocidental, na Palestina, na Caxemira, no Congo, e são tocadas ao tomar conhecimento daquelas situações.

Crédito: Danila Ilyushchenko/Cultures of Resistance.

Creio que o cineasta precisa ter consciência e ser humilde, pois a pessoa não vai necessariamente ver o seu filme e se tornar ativista. Mas a partir do momento que eu planto sementes, de repente, estes frutos podem ser colhidos em outras gerações futuras. É um trabalho de formiga e um pouco incerto, porque você não sabe muitas vezes como o filme impacta os jovens de forma geral. Contudo, às vezes, há um retorno de alguém que diz ter conhecido a situação do Saara Ocidental pelo filme e se apaixonar pelo povo. A pessoa em questão passou a realizar campanhas nas Nações Unidas em prol da libertação do Saara Ocidental. São casos assim que surpreendem e fazem que o trabalho continue, apesar das dificuldades.

É o famoso dizer que instigar uma pessoa já é o suficiente, correto?

Sim, mas é preciso ser humilde. Muitas vezes as pessoas ao final do filme vêm falar comigo e dizer que ficaram super inspiradas. Então eu digo: “não basta apenas ficar inspirada, precisa ter ação. Não desapareça, fique em contato, vamos conversar pela mídia social”. Assim, fico fazendo divulgação dos filmes por estes canais.

Crédito: Cultures of Resistance.

Então você diria que o principal objetivo do “Culturas da Resistência” é instigar as pessoas a tomarem inciativas, não apenas informá-las?

Exato! Porque ser informado e educado não é o suficiente. É preciso pôr o seu conhecimento na sua ação diária. Não é preciso viajar o mundo. Seja ativo na sua cidade, no seu bairro, no seu país. Veja um exemplo: é preciso saber o que se está comprando, quem está oferecendo aquele produto, que responsabilidade tem determinada empresa. Caso se saiba de problemas, uma alternativa é boicotar companhias que não têm compromisso algum com o meio ambiente ou que abusam de seus trabalhadores. Ou mobilizar as pessoas da sua cidade para atuarem contra coisas que você acha injustas. É um processo difícil, eu sei. Em especial esta coisa de confrontar governos e grandes empresas. As pessoas têm medo de morrer, de perder o emprego, de ir para a prisão.

É difícil mobilizar multidões. Contudo, pequenos passos, como o ativismo de consumo, é algo totalmente possível, pois o mundo é controlado por conglomerados econômicos. A partir do momento que você sabe que este chocolate delicioso é feito com o trabalho escravo de crianças da Costa do Marfim, pare de consumi-lo. Procure outro produto que não tem este problema. Não compre água mineral da Coca-Cola, ou da Nestlé que estão usando, praticamente roubam e lucram com a água de mananciais de países pobres que não têm como se defender. Então, são coisas pequenas que não há desculpa, as pessoas podem fazer, elas podem ser ativistas.

No campo de refugiados saharauis em Tindouf, Argélia. Crédito: Twitter Iara Lee

E o cinema é a melhor forma de promover esta conscientização?

Olha, eu não vou mentir, há momentos de muita frustração, nos quais eu penso que, de repente, valeria mais a pena fazer outra coisa, para conseguir um resultado mais imediato. Mas cada um faz o que pode. Uns escrevem, outros fazem música, outros cinema, outros agricultura. Acho que todos fazemos parte de um mosaico. Somos limitados, mas se unirmos todas estas forças, cada um, na sua área, consegue ter um impacto na sociedade.

Gostaria de perguntar sobre uma questão pessoal. Você desejou voltar a Coreia do Sul um dia?

Meus pais eram coreanos e vieram para o Brasil nos anos 1960. Teve a Guerra da Coreia nos anos 1950 e depois, quando o país estava em condições na época ainda muito pobres, iniciou uma imigração grande dos coreanos. Minha família pensou no Brasil como um país grande, de clima bom, solo bom, acolhedor e foram todos de navio da Coreia para o lá. Eu nasci no Brasil e, apesar de muito tempo fora, sou culturalmente muito brasileira.

Uma época tive também este interesse de procurar as minhas raízes e fui para a Coreia do Sul. Quando cheguei na lá fiquei muito desapontada. Aquilo parecia mais uma colônia dos Estados Unidos do que a Coreia. Muito americanizado, muito ocidentalizado. As pessoas vivendo naquele capitalismo exacerbado. Fiquei chocada. Não encontrei a Coreia que buscava. Então, comecei a ter maior interesse pela Coreia do Norte. E acabei trabalhando mais com eles do que com a Coreia do Sul.

Iara Lee, cineasta ativista brasileira, fala com o Korea Herald antes do EBS International Documentary Festival, no edifício da Samsung Electronics a sul de Seul. Crédito: Claire Lee / The Korea Herald.

Ajudei a levar a Orquestra Filarmônica de Nova Iorque para o país. Fiz parte da companha da diplomacia através da música. O Ministério da Cultura da Coreia do Norte convidou a orquestra para se apresentar e eles aceitaram. Foi algo histórico, pois pela primeira vez, a bandeira da Coreia do Norte e dos Estados Unidos estavam no mesmo palco. Foi a primeira vez também que a mídia internacional pode entrar no país. E antes deste projeto também realizei trabalhos de agricultura, onde fiz um programa de doação de sementes, em razão dos problemas relacionados à fome que os país passou.

Normalmente sempre falam que o problema da Coreia do Norte é o governo autoritário. Porém, é também verdade que países como a Coreia do Norte, com o fim da União Soviética, tiveram de se readaptar aos novos tempos. E eles ainda hoje sofrem bloqueios econômicos que têm um impacto significativo em suas economias. 

O bloqueio econômico que os países do ocidente fazem contra estas nações é grave. Para você ter uma ideia, os aviões no Irã caem muitas vezes, por eles não conseguirem importar peças que não tem como fabricar internamente para a construção de suas aeronaves. Outro exemplo é a tecnologia hospitalar para doentes, ou alguma matéria prima que precisa ser importada e o bloqueio não permite. Então, é um sofrimento muito grande e sem falar que estes países são constantemente ameaçados, por quererem seguir uma ideologia diferente.

As demais nações acabam querendo passar por cima e exterminar quem não segue a mesma linha. Washington não está preocupado com o cidadão comum norte-coreano e o quanto ele vai sofrer sem ter isso ou aquilo em razão do bloqueio econômico. Então, se você quer uma forma alternativa de viver é preciso resistir. E a tendência é o país fechar-se cada vez mais.

O cinema sul-coreano atualmente está em voga. E é um cinema que não pertence ao chamado “centro cultural do mundo”. Ele não é proveniente da Europa, nem nos Estados Unidos. Mas não apenas a Coreia, outros países como a China, a Índia, o próprio Japão, que mantem sua influência cultural, estão bastante presentes e ganhando fãs ao redor do mundo. Como você analisa a Ásia reemergindo com um polo político, econômico e cultural?

Eu acho algo incrível, pelo fato que nesta questão podemos ver claramente a importância da cultura, até da própria indústria cultural, mesmo a mais comercial, mas que está, ou estava à margem do sistema. Quando a Coreia do Sul estava em baixa e fazia filmes com temática menos internacionais, as pessoas menosprezavam muito o país. Contudo, muito mudou após esta onda cultural sul-coreana, que não traz apenas o cinema, mas a música etc. No próprio Japão, os coreanos que eram vistos como gente de segunda classe, era precisa deixar a sua digital na alfândega para entrar no país, estão recebendo os japoneses fascinados com a cultura sul-coreana e que estão indo para a Coreia como objetivo de experimentar mais.

A Coreia é um país que reemergiu através da cultura. Porém, outros estão chegando e acho que serão ainda mais fortes. Veja a China, e a Índia. O poder econômico delas hoje é indiscutível. Culturalmente ainda não trabalharam o suficiente para propagarem suas bagagens culturais, mas creio que virão com uma força gigantesca no futuro também nesta área. E quando isso correr, penso que realmente teremos uma febre pela Ásia mesmo. A cultura é assim, está em constante movimento e mudança. Vamos lembrar o passado mais recente, quando todos queriam ir para os EUA, em razão da imagem que o cinema dos EUA criou. As pessoas formam uma visão idealizada a partir desta indústria.

E como será este mundo na sua opinião?

Será um mundo bastante diferente. Vamos analisar a África como exemplo. Atualmente há países como a Nigéria que estão desenvolvendo fortes indústrias cinematográficas regionais e tornando-se polos econômicos de cinema influentes e importantes. Então, hoje os africanos já não querem ver filmes apenas com gente da Europa, ou dos EUA. Eles agora podem ver filmes que tenham os africanos como protagonistas. E filmes feitos por eles. Creio que neste novo mundo vai ocorrer o inverso, os estadunidenses é que vão começar a ver filmes com pessoas que tem outros rostos e outras cores, outras línguas e outras culturas.

Você acha então que o mundo será mais como ele é na realidade. A diversidade mundial estará mais em evidência nas telas?

Acho que sim e é algo super importante ter mais africano, mais asiático, os próprios indígenas do mundo inteiro serem mais representados neste mundo da cultura pop. E com isso também espero que outras coisas sejam possíveis como a eliminar visto, passaporte. Gostaria de poder ao menos testemunhar um mundo em que todos possam enxergá-lo como fazendo parte dele, como uma casa apenas e que todos devemos estar unidos para salvá-la.

O mundo atual está passando por uma crise generalizada tanto no campo econômico, quanto no político e social. Esta era asiática poderá construir um mundo diferente, com uma estrutura de poder diferente, menos exploradora e um pouco menos desigual?

Nós humanos ainda temos esta coisa bastante arraigada de querer ser mais que o outro e assim eliminar o próximo. Este instinto capitalista que está presente há séculos, creio que ainda vai persistir por muito tempo. Contudo, a questão ecológica e a crise climática vão fazer com que as pessoas sofram mais e, assim, tenham de obrigatoriamente rever valores e atitudes. Não será possível viver como espécie se continuarmos neste mesmo paradigma. Então é uma mudança sistêmica radical que é necessária.

Gravando na Noruega documentário dos povos indígenas da Europa, os Sami. Crédito: Twitter Iara Lee.

Os jovens precisam abrir os olhos. Não dá mais para continuar neste capitalismo exacerbado, onde se produz e se consome absurdamente. Se usa e joga fora. Tudo e descartável e só se objetiva fazer dinheiro. O capitalismo não funciona e todos sabem disso, mas insistem com ele. O ser humano só muda quando a coisa explode mesmo, onde já nos encontramos em nível de sobrevivência. É algo triste. E o meu trabalho de formiga vem neste sentido de tentar alertar e motivar as pessoas a saírem da sua zona de conforto e fazer algo mínimo que seja para evitar que as coisas fiquem insuportáveis. Parece que há algo autodestrutivo em todos nós.

Quais os seus planos futuros?

Acabei de filmar em Chernobyl, na Ucrânia. O local que depois de anos abandonado em razão do acidente nuclear está voltando à vida. As pessoas voltaram a frequentar a floresta e entrar em contato com os animais. Diversas atividades culturais e esportivas estão sendo realizada lá atualmente. Assim, aproveito esta situação de Chernobyl hoje para relembrar o desastre nuclear. Este foi o primeiro e deveria ter servido de lição, mas outros acidentes continuam ocorrendo, veja Fukushima e que o governo não tomou as mesmas providências que o ucraniano na época. Em Fukushima o material radiativo continua indo para o oceano.
Além deste trabalho, fiz outro documentário no Lesoto, um enclave da África do Sul, onde os jovens que não têm muitas oportunidades utilizam da criatividade para conseguir sobreviver.

Crédito: Cultures of Resistance.

Fiz outro filme sobre a agroecologia em Guine Bissau, onde as mulheres estão no comando da agroecologia. Este assunto, por sinal, é uma extensão do trabalho que fiz em Burkina Faso. Acabei de voltar do Malawi, em que fiz vários curtas sobre artistas que usam da arte e cultura para ajudar hospitais, orfanatos, a combater a malária e ajudar os refugiados das guerras. É o uso da arte e cultura como instrumento de ativismo humanitário.

Por fim, estou editando um documentário também sobre os indígenas da Europa, que são super desconhecidos. Fomos ao norte da Suécia, da Finlândia, da Noruega e uma parte da Rússia. Estes indígenas também estão lutando, pois os governos destes países estão tomando medidas muito prejudiciais ao meio ambiente.

São trabalhos que abordam diversas causas pelo mundo, mas que na essência têm o mesmo objetivo, questionar a forma individualista atual que levamos a vida. Não basta apenas pensar em mim e na minha família. É preciso dar sentido maior ás pessoas de que a solidariedade para com todos é a única forma de prolongarmos a nossa existência e evitarmos a nossa eliminação como espécie. E desta solidariedade que vem a esperança de fazer algo melhor, mais justo, mais igual, onde todos os seres, não apenas os humanos, estão inseridos.

Fonte: Texto originalmente publicado no site do Koreapost e também disponível no site da Revista Intertelas.

Kim Ji Young, nascida em 1982: o fim do super-heroísmo e o poder das mulheres reais

Por Alessandra Scangarelli (Resenha completa em InterTelas/KoreaPost)

Se formos pensar como o imaginário da sociedade atual tem das mulheres, no que se considera ideal e digno de aplauso é algo próximo ao de uma “Mulher Maravilha”, uma figura, por sinal, anglo-saxã e branca… Super-heróis, masculinos, ou femininos, ou qualquer outro gênero que queiram listar, pouco têm em comum com as pessoas reais e o seu dia-a-dia. É impossível para o humano ser um profissional, um cônjuge, pai, ou mãe, amante, modelo de beleza e saúde exemplar. Mas é justamente isso que se exige das mulheres. Como se fossemos capazes de fazer tudo sozinhas e o pior é que acreditamos nisso e seguimos este absurdo da mulher perfeita para depois apenas sofrer de ansiedade, ou depressão.

O filme “Kim Ji Young: Nascida em 1982” (2019), dirigido por Kim Do Young, baseado no livro de Jo Nam Jjoo, de forma indireta, incita tal debate. Estrelada por Jung Yu Mi que vive Kim Ji Young na trama e Gong Yoo, que interpreta seu marido Jung Dae Hyun, esta produção cinematográfica não se curva de assuntos espinhosos, ainda que o faça de forma sutil e muito sensível. A personagem principal trabalha em uma agência de relações públicas. Porém, um dia casa e tem uma filha, tendo que deixar o seu emprego. A vida segue o seu curso normalmente, até que, de repente, Kim Ji Young começa a falar como sua mãe, sua irmã mais velha. Do nada, transforma-se e passa a ser outra pessoa. Estaria ela possuída? Sofreria ela de dupla personalidade? O que teria acontecido?

Antes de mais nada é importante salientar que o interessante de um filme que aborda tal temática, de tantos que já foram feitos sobre o mesmo assunto ao redor do mundo, é a sua capacidade de levar um tema polêmico como este para situações cotidianas, para o ambiente privado e íntimo do lar, onde a correlação de forças entre marido e mulher definitivamente ocorre. Alguns diriam que tal situação na Coreia é diferente de outros países do ocidente, onde as mulheres não são necessariamente obrigadas a deixar seus empregos.

Primeiro, que tal contexto do filme pertence à década de 1980, onde tal situação ainda ocorria. Muito mudou na Coreia rapidamente em alguns poucos anos. No entanto, muito ainda dos velhos costumes permanecem. E pior, com as transformações sociais, as coreanas passaram a acumular tarefas, assim como qualquer mulher dos países no ocidente. É interessante perceber que aqui não se contempla a ideia utópica da maternidade idílica, paradisíaca, como muito afirmam por aí, mas também não temos o inferno na Terra. A personagem principal luta diariamente com as dificuldades de criar uma criança, com o trabalho exaustivo que demanda. No entanto, diferente da maioria, Kim Ji Young rebela-se de forma bastante inusitada, inconsciente, através da “incorporação”, ou no deixar falar uma voz que ela nem sabe que tem.

Fonte: IMDB

Ela enfrenta quem a julga, quem almeja dizer-lhe o que deve fazer ou não, confrontando até os mais velhos, situação complexa em uma sociedade como a coreana tão hierarquizada e tão submissa à ideia de respeito aos mais velhos, mesmo que os idosos usem disso para oprimir, ou livremente extrapolarem seus direitos sobre os mais jovens. Tal atitude dela intriga seu marido, que busca compreender e ajudá-la. Uma figura já digamos diferente, com uma mente mais aberta do que os homens da sua época. A maioria provavelmente já teria saído e abandonado a família, como até hoje, é normal.

O diferencial nos protestos desta nova persona que Kim Ji Young assume é que ela deixa claro não ser obrigada a assumir todas responsabilidades que lhe são impostas como naturais. Afinal, ela também tem anseios para além da casa e da família e assim praticamente obriga seu marido, mãe, irmão e tal a auxiliarem-na. Fica claro, por exemplo, a falta de atenção do pai, que facilita tudo para o irmão dela e o mima, enquanto Kim Ji Young para ele praticamente não existe.O interessante aqui é justamente esta atitude de não incorporar a heroína e tentar fazer tudo sozinha, mas transformar o seu ambiente e as pessoas ao seu redor. A dupla de atores principais têm atuações primorosas, de pessoas comuns que tentam lidar com seus problemas mais íntimos em meio a uma sociedade que pouco compreende, ou quer compreender. Os atores que interpretam papéis secundários fornecem o suporte necessário para que o casal de atores principal possa dar sua melhor performance. A química profissional entre Jung Yu Mi e Gong Yoo não precisa de grandes apresentações. Velhos conhecidos de outras produções como “Invasão Zumbi” (2016), de Yeon Sang Ho e “Silêncio” (2011) de Hwang Dong Hyuk, eles deixam claro que juntos na tela têm muito a dizer, a mostrar e comover o espectador.

Jung Yu Mi interpreta Kim Ji Young. Crédito: Cinema Escapist.

A direção de Kim Do Young traz a sutileza e complexidade psicológica que o enredo necessita, sustentado na escrita do roteiro adaptado que ela compartilha com Yoo Young A e com a autora do livro Jo Nam Joo. Não há falas demais, nem explicações desnecessárias, nem discurso ativista na história. A diretora deixa através das cenas e das atuações que a trama flua e por si deixe que as questões e suas polêmicas livremente sejam manifestadas ao espectador. Deste filme, pode-se pensar o quanto estamos realmente transformando o nosso cotidiano.

Os homens de nossa época estão cientes do papel que têm na criação dos filhos e nas atividades domésticas? O meio de trabalho ainda tão masculinizado e pouco preparado, até fisicamente, para as mulheres que engravidam, ou têm filhos, está sendo modificado? Mulheres grávidas têm a necessidade de alguns cuidados sim, como o meio de trabalho adaptou-se às necessidades delas? Isso não seria importante levar em conta, em especial em uma sociedade com problemas graves de natalidade? E quando as crianças nascem há creches nas empresas para os pais, ambos, trabalharem e estarem próximos dos filhos? Existem benefícios para formar uma família? São questionamentos que nem o Feminismo hoje realiza ou leva como uma bandeira integral sua. Se há falta de igualdade nos âmbitos empresariais mais sofisticados, imagina nas fábricas, na realidade das trabalhadoras braçais, de “chão de fábrica”, como diz o jargão popular. Reflexões deste tipo são necessárias. Assim, Feminismo sem consciência de classe e atenção às questões mais particulares do mundo feminino torna-se, na opinião desta autora, ineficaz para as massas.

Talvez o que muitos grupos dentro do Feminismo, não todos obviamente, estejam fazendo sem saber é apenas incorporar à estrutura masculina do sistema algumas mulheres, que acabam virando chefes com medidas praticamente iguais, ou tão opressoras como a de um chefe homem. E até isso o filme em questão salienta. A chefe de Kim Ji Young é compreensiva com ela, com seus problemas, não a descarta nem por medo de competição, nem pela sua aparente falta de produtividade e utilidade momentânea…

Crédito: Medium.

Aqui também temos um apelo à saúde não apenas física, mas mental, emocional dos empregados como algo primordial para que a estrutura do trabalho, do sistema empresarial possa funcionar melhor. Na busca da superação das várias desigualdades que o sistema atual produz, o universo feminino e suas questões particulares necessitam ser observados por todos e estarem no centro do debate. Só assim antigos padrões e injustiças serão realmente superados.

Ficha técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Kim Do Young | Roteiro: Jo Nam Joo (livro), Yoo Young A, Kim Do Young | Atores: Gong Yoo, Jung Yu Mi, Kim Mi Kyung  | Duração: 1h58 |  Ano: 2019. 

MidiÁsia entrevista Hugo Katsuo, diretor de “O Perigo Amarelo nos Dias Atuais” e “Batchan”

Por Daniela Mazur

Em meio ao debate sobre a população amarela brasileira nesse momento em que o coronavírus está em voga, é necessário, mais do que nunca, abordar representações e ideias concretas sobre a pauta brasileiro-asiática aqui. Em entrevista concedida ao MidiÁsia, o graduando em Cinema&Audiovisual da UFF e diretor e criador dos documentários “O Perigo Amarelo nos Dias Atuais” (2018) e “Batchan” (2020), Hugo Katsuo fala sobre questões relacionadas ao universo de discriminação contra amarelos no Brasil, a concepção da ideia de “minoria modelo” e a construção do perigo amarelo como parte essencial para entendermos as conotações racistas sofridas por essa parcela de brasileiros, especialmente dentro do contexto atual em que há a tentativa de racializar o Covid-19 como um “vírus chinês”.

Hugo Katsuo, diretor de O Perigo Amarelo nos Dias Atuais e Batchan. Crédito: Mariana de Lima.

“O Perigo Amarelo nos Dias Atuais” e “Batchan” falam muito sobre a experiência do amarelo no Brasil, mas também apresentam nuances de diferentes perspectivas de brasilidade. Como essas duas obras dialogam? O que você acredita que elas apontam na nossa sociedade?

Hugo Katsuo: Ambos falam sobre a vivência amarela no Brasil, mas trilham caminhos bastante diferentes. Acredito ser mais fácil descrever as diferenças entre eles do que as semelhanças. Quando dirigi “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais”, eu estava pensando em um documentário que fosse quase como um guia didático sobre o que seria essa tal de “militância amarela” e, portanto, a linguagem dele foi feita somente a partir de entrevistas que abarcavam desde reflexões teóricas, acadêmicas, até o relato de experiências individuais. Em outras palavras, este filme foi feito para auxiliar a divulgação do movimento amarelo e servir de material para pesquisas, auxiliando pesquisadores dos estudos asiáticos e/ou asiático-brasileiros. “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais” foi idealizado como um documentário explicitamente militante.

Cartaz oficial de “O Perigo Amarelo nos dias atuais” (2018). Crédito: Ing Lee.

O “Batchan”, por outro lado, não teve essa pretensão. Eu pensei no filme, inicialmente, como uma forma de me aproximar da minha avó, que é a minha principal referência de ancestralidade, e, sobretudo, como forma de preservar a sua memória. É claro que acredito na preservação da memória como uma forma de militância, mas não foi no intuito de fazer um cinema com uma militância explícita que eu dirigi este curta-metragem. E isso influenciou muito a linguagem que eu utilizei nele. “Batchan” é um filme muito mais pessoal e fala não somente sobre o percurso da minha avó em relação à sua espiritualidade, mas também o meu percurso em busca de uma ancestralidade. Ambos os filmes, entretanto, buscam um pertencimento, ainda que partindo de percursos bem distintos.

Cartaz oficial de “Batchan”. Crédito: Mariana de Lima.

Mesmo sendo ainda graduando, você já produziu obras de destaque que estão circulando nos circuitos de debates raciais, especialmente dentro dos espaços asiáticos-brasileiros. Como foi a construção da sua maturidade profissional e de indivíduo para chegar a produção desses conteúdos?

HK: Comecei a estudar sobre questões amarelas um pouco antes de entrar para a graduação e já ingressei no curso de Cinema & Audiovisual com a pretensão de dirigir “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais”, mesmo que, na época, eu pensasse esse documentário de outra forma. Inicialmente, queria que o filme fosse sobre imigração japonesa e, depois de entrar em contato com o tema da representatividade, queria que fosse feito a partir de relatos de artistas amarelos no Brasil. Em 2017, entretanto, fui a São Paulo e participei de uma reunião entre os membros do Perigo Amarelo, do Asiáticos Pela Diversidade e da Plataforma Lótus. Conversamos sobre diversas questões, entre elas, sobre como havia um entendimento muito superficial do que essa militância propunha e reivindicava. Foi nesse momento que mudei radicalmente a proposta do documentário e ele se tornou um filme sobre a militância amarela no Brasil.

Trecho da entrevista de Felipe Higa no filme “O Perigo Amarelo nos dias atuais”.

Dirigi “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais” no começo de 2018, eu tinha 18 anos na época. Tenho 20 anos agora e estou para fazer 21 no final do mês. E muita coisa mudou. Atualmente, eu delimitaria outros recortes temáticos e talvez focasse menos em questões como representatividades, mas sem excluí-las. Amadureci muito ao mesmo tempo em que a própria militância amarela também amadureceu. No final de 2018, quando exibi pela primeira vez o filme, ele já estava, de certa forma, datado. Em termos de amadurecimento profissional, acho que estou no processo de encontrar minha própria linguagem cinematográfica e acredito que “Batchan” foi um filme que me proporcionou muito aprendizado nesse sentido. Com uma equipe muito reduzida e querida, tive a oportunidade de brincar esteticamente com o documentário, apesar de já achar que eu poderia ter arriscado mais.

Dentro da perspectiva de raça, como foi a sua trajetória de compreensão pessoal como brasileiro amarelo? Como o racismo se apresentou para você nesse processo?

HK: Lembro até hoje que estava conversando com a minha avó materna, que não é nipo-brasileira, sobre o meu avô (nipo-brasileiro) que faleceu antes de eu nascer. Ela comentou comigo sobre algumas perseguições que ele sofreu durante a infância e adolescência. Não entendi muito bem quando ela disse que o Estado confiscou os bens da família do meu avô e, por isso, comecei a estudar sobre imigração japonesa. Descobri, então, sobre as perseguições que esses imigrantes e filhos de imigrantes passaram e sobre o debate em torno da entrada ou não dos asiáticos amarelos no país. Mas, até então, eu ainda não tinha adentrado na dimensão racial e acreditava que, por eu não ser negro, eu era branco.

Frame de “Batchan” (2020), documentário de Hugo Katsuo.

Em uma aula de História, no ensino médio, estávamos estudando as políticas imigratórias no governo Vargas e o professor comentou que elas eram contra a entrada de imigrantes “não-brancos” no país. Lembro de ter levantado a mão e falado: “e contra a dos japoneses também”. O professor, então, respondeu: “todos os não-brancos”. Foi ali que comecei a pesquisar sobre racismo contra amarelos no Brasil e achei pouquíssimo material. Posteriormente, conheci, através do Hugo Noguchi, a página do Perigo Amarelo e descobri que tinham outras pessoas pautando essas questões também. Acho que vale ressaltar que, por mais que eu achasse que era branco, eu já tinha consciência de que eu era diferente e que não me tratavam da mesma forma que os meus amigos que eram, de fato, brancos. As piadas e os estereótipos raciais sempre me incomodaram, mas até então eu não sabia dar nome a esse incômodo. Lembro que durante a minha infância e adolescência essas piadas racistas vinham não só de outros alunos como também de alguns professores. Entender os processos pelos quais passei e ainda passo foi muito importante para aprender a me impor em situações como essas.

O fato de ser asiático-brasileiro tá inscrito nos seus trabalhos, como você define hoje a presença dos corpos amarelos na mídia brasileira? Como a representação é importante para essa parcela da sociedade?

HK: Acredito que há escassez de representações amarelas no audiovisual brasileiro. Admito que tenho, atualmente, um pouco de preguiça dos debates em torno de representatividade porque acho que eles tomam um viés muito superficial e, por vezes, flertando com o neoliberalismo. Não acho que a representatividade por si só mude as coisas. Mas acho que pensar em novas práticas representacionais é extremamente importante no processo de humanizar corpos racializados. Precisamos urgentemente criar novos repertórios imagéticos, novas narrativas, que tirem grupos não-hegemônicos do lugar que foi imposto a eles. Acredito que trazer à tona novas representações, mais humanas e menos estereotipadas, potencializa mudanças. Temos, entretanto, que tomar cuidado em achar que a mudança termina aí. Meu trabalho parte muito de tentar afastar essas narrativas racializadas de contextos brancos, despir elas de estereótipos, criar espaços de pertencimento e preservar memórias.

Captura de “Batchan” (2020) com foco em Luiza Okabayashi, avó de Hugo.

O que é ser amarelo no Brasil nos dias de hoje? Quais elementos da sua realidade como homem racializado mudaram ou se mantiveram nos últimos anos no nosso país?

HK: A minha perspectiva em relação às mudanças que ocorreram nos últimos anos em relação a ser um homem amarelo no Brasil está muito relacionada às minhas pesquisas acadêmicas nas quais estou procurando investigar de que forma a entrada do soft-power sul-coreano mudou a percepção, em relação às dinâmicas de desejo e desejabilidade, sobre nossos corpos. Até pouco tempo atrás, eu era visto como indesejável e, de uma hora para outra, comecei a perceber pessoas me fetichizando racialmente. Não sei ainda se os estereótipos em torno do corpo do homem amarelo mudaram, mas, se não mudaram, com certeza o olhar sobre eles mudou. Inicialmente, isso parece inofensivo ou, até mesmo, uma mudança positiva. Mas, se entendermos o fetiche racial como um desejo baseado na objetificação da raça, ele causa danos aos corpos que são fetichizados porque desumaniza eles.

Existe certa invisibilidade da presença amarela no Brasil? Pela sua perspectiva, como os debates sobre raça, racismo e xenofobia estão se apresentando hoje dentro da comunidade asiática-brasileira e na mídia?

HK: Até pouco tempo atrás, acredito que existia uma grande invisibilidade dessa parcela da população brasileira. Atualmente, por mais que o debate ainda esteja muito centralizado em São Paulo e em certas bolhas da internet, percebo que a temática da discriminação contra amarelos cresceu bastante. Isso diz muito, a meu ver, sobre privilégios de classe também. O movimento asiático-brasileiro se configura, até onde eu sei, em 2015, com a criação da página do Perigo Amarelo. Em cinco anos já conseguimos trazer esse debate para muitos espaços midiáticos. Isso se dá, sobretudo, porque foi permitido que nós ocupássemos esses espaços, graças à nossa rápida ascensão social e econômica – que é um privilégio da minoria modelo.

Ilustração de Ing Lee para o filme “O Perigo Amarelo nos dias atuais”.

O asiático-brasileiro considerado como “minoria modelo” é percebido também como perigo amarelo ou isso muda dentro da perspectiva do contexto político-social? Quais são as peças que ditam esse jogo?

HK: Podemos ser percebidos como a minoria modelo, mas, às vezes, somos lidos como o Perigo Amarelo. Isso está muito em evidência nos últimos dias, com a racialização do coronavírus enquanto um “vírus chinês”. Mas antes disso já podíamos perceber um pouco dessa dinâmica. Por mais que sejamos vistos como uma minoria inteligente, esforçada e trabalhadora, também somos vistos como perigosa. Por exemplo, justamente pelo estereótipo da minoria modelo somos entendidos como uma ameaça em relação a “roubar” empregos ou vagas nas universidades. Se vamos ser lidos como o perigo amarelo ou como a minoria modelo, depende muito do contexto em que estamos inseridos e isso vai ditar as violências que vamos sofrer. Mariana Akemi, no documentário “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais”, comenta que ela é tratada de uma forma quando está na faculdade e de outra completamente diferente quando está na barraca de pastel dos pais. Acredito que haja aí também uma dimensão de classe.

Trecho da entrevista de Mariana Akemi no filme “O Perigo Amarelo nos dias atuais”.

É óbvio, por exemplo, que, na maior parte do tempo, serei tratado como a minoria modelo por ser um nipo-brasileiro de classe média alta inserido num contexto artístico e acadêmico. Em contrapartida, um imigrante chinês que trabalha numa lanchonete vai ser tratado como o perigo amarelo e sofrer muito mais agressões do que eu. É importante, portanto, que a gente comece a olhar cada vez menos para o próprio umbigo e começarmos a construir, de fato, pontes de solidariedade antirracista. Isso, entretanto, só vai acontecer se nos dispusermos a perder alguns privilégios que nos foram concedidos. Só vai acontecer se abandonarmos a minoria modelo e assumirmos o papel de perigo amarelo.

Quais são os seus planos para próximos trabalhos? Quais perspectivas da presença amarela no Brasil você ainda tem interesse de abordar e colocar em voga nos debates de raça no país?

HK: Estou com dois projetos audiovisuais para serem feitos. O primeiro é uma ficção LGBTQ, que será protagonizada por Nícolas Tadashi e Ciana Lopes. Nele, não entro muito nas dimensões raciais, penso mais a partir de questões de sexualidade e gênero. A minha ideia é mostrar esses corpos LGBTQ+ a partir da dor de um término, deixando a dor das violências cotidianas causadas pela LGBTQfobia em segundo plano. Os dois personagens que acabaram de terminar seus respectivos namoros começam um extenso diálogo sobre a experiência amorosa, a morte e a linguagem. A morte tem um viés mais simbólico, mas ganha também, por vezes, uma dimensão literal a partir do momento em que dialogam também com a morte das vítimas de LGBTQfobia. Mesmo este não sendo o foco do roteiro, resolvi não ignorar essa realidade. O meu outro projeto, que acredito que vá demorar mais tempo para ser feito por motivos financeiros, também é LGBTQ, mas é um documentário experimental, muito influenciado pelo filme “NEGRUM3”, de Diego Paulino, que vai trazer à tona o debate sobre LGBTQs amarelos no Brasil. Já no âmbito acadêmico, pretendo continuar minha pesquisa sobre pornografia e relações raciais no mestrado.

Para encerrar, quais canais, páginas, coletivos você recomenda para aqueles que se interessam em aprofundar seu entendimento sobre questões amarelas no Brasil?

HK: Recomendo muito o blog OutraColuna no qual são postados vários textos produzidos pela militância asiático-brasileira. No youtube, não tenho como não citar o canal do Leo Hwan. Para além disso, recomendo a leitura de pesquisadoras como Lais Miwa Higa e Marcia Yumi Takeuchi. 

Vídeo do canal Leo Hwan. Crédito: Leo Hwan.

Our Shining Days: quando Ocidente e Oriente se encontram numa batalha muito mais do que musical

Por Mayara Araujo

Ao se falar sobre a China no Ocidente, os discursos e narrativas tendem a ser pejorativos, com um tom ameaçador e repleto de uma profunda falta de conhecimento sobre o gigante asiático. A verdade é que, para além de estereótipos envolvendo comidas exóticas, artes marciais e preconceitos associados a sua cultura e sistema político, a China permanece sendo um território pouco explorado no senso comum do cidadão brasileiro. Por sorte, com o apoio das facilidades promovidas pelas novas tecnologias da comunicação, nos encontramos em uma posição privilegiada para investigar um pouco melhor tal país, através de seus produtos midiáticos que podem ser encontrados em plataformas de streaming como a Netflix e outras vias não oficiais. É nesse contexto que nos deparamos com Our Shining Days, um filme musical de temática adolescente que aborda uma emocionante batalha entre instrumentos musicais tradicionais chineses e os instrumentos clássicos ocidentais. Embora muitos possam torcer o nariz para filmes teen, saiba de antemão que de bobo, Our Shining Days não tem nada.

A história acompanha dois grupos de estudantes de uma escola de música – um da orquestra chinesa e o outro da orquestra clássica – que vivem uma atmosfera de constante rivalidade, competindo sobre quais instrumentos musicais são melhores. O primeiro grupo é composto por estudantes focados em tocar os instrumentos que conhecemos no ocidente, como o piano e o violino, enquanto a orquestra chinesa é especializada em instrumentos musicais tipicamente chineses, como o yangqin e o guzheng, sobre os quais dificilmente os espectadores ocidentais detém conhecimento a respeito. Evidentemente, como todo bom filme de temática adolescente, ele trabalha com clichês do gênero e, com isso, existe uma disputa de poder entre o grupo “popular” e o grupo minoritário, que é constantemente perseguido pelos populares e pela administração da escola. Nisso, os estudantes da orquestra chinesa precisam se reafirmar e reafirmar a importância de seus instrumentos, diante de um cenário de zoações e ameaças de perda de espaço físico, o que os impediriam de praticar.

Em um primeiro momento, a protagonista Chen Jiang (Xu Lu) não se vê envolvida com essas dinâmicas conturbadas entre os grupos rivais, pois está concentrada em seu próprio cotidiano. No entanto, esse cenário rapidamente se transforma, ao se apaixonar pelo pianista Wang Wen (Luo Mingjie). Ao se declarar para Wang Wen, ele não somente a rejeita, como também exalta publicamente o seu desapreço pelos instrumentos musicais chineses, fazendo-a se sentir humilhada. Assim, Chen Jiang rapidamente assume a liderança da disputa musical e se vê determinada em provar tanto para Wang Wen quanto para a orquestra clássica – e a própria escola – o valor e a importância dos instrumentos musicais chineses.

Yangqin, erhu, guzheng, pipa, cello/violin/viola/double bass ...
Instrumentos musicais chineses. Crédito: kijiji.ca

Através da metáforada rivalidade entre dois grupos que preferem instrumentos musicais diferentes, traça-se nas entrelinhas a atual narrativa da recorrente competição por protagonismo e liderança global entre a China e o Ocidente, representado principalmente pelos Estados Unidos. De fato, a importância da China no cenário internacional tem se apresentado de forma cada vez mais proeminente, seja por conta de sua pujança econômica ou seu desenvolvimento tecnológico que vem chamando a atenção ao redor do mundo. Além disso, é perceptível os recentes e crescentes investimentos chineses em propagar a sua cultura ao redor do mundo, através de institutos culturais como o Instituto Confúcio (ICs), inserção da mídia chinesa em diversos idiomas (como a Xinhua News e o China Daily) e a busca em aperfeiçoamento de linguagem para a criação de um cinema com forte apelo internacional. O avanço da China, sem dúvida, contribui para colocar em xeque as pressuposições sobre essa nação diante do mundo ocidental.

Para desafiar a orquestra clássica de forma oficial, Chen Jiang se une com outros cinco estudantes da orquestra chinesa: Li You (Peng Yu Chang), seu melhor amigo que toca o tambor chinês; Xiao Mai (Liu Yongxi), também conhecida como “senhor dos mil dedos”, por conta de suas performances super populares nas comunidades otakus da internet; Ying Zi (Li Nuo), que toca erthu (uma espécie de flauta) e sofreu tanto bullying na escola que parou de falar; Beibei (Lu Zhaohua) e Tata (Han Zhongyu), duas meninas que se vestem no estilo lolita e que tocam ruan e pipa. Juntos, eles formam a banda 2.5 Dimension. No entanto, a falta de popularidade de Chen Jiang é tão expressa que para conseguir formar a banda, ela se compromete a comprar action figures de preço elevado para as participantes não a deixarem na mão e usarem seus talentos em conjunto, para o bem da banda.

Em uma explícita referência a cultura pop japonesa, o 2.5 Dimension é convidado para fazer uma performance ao vivo em uma convenção de animê, na qual também se deparam com olhares desconfiados do público que estava animado com apresentações musicais anteriores de grupos de C-Pop. No entanto, ao começarem a deixar o som de seus instrumentos musicais transparecer, o público geek do evento acaba se aglomerando e ampliando a audiência, aplaudindo ativamente os músicos e disponibilizando a apresentação em plataformas digitais.

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Poster promocional do filme. Crédito: Edko Films Ltd. 

Com a popularidade recém obtida, Chen Jiang, diante de uma plateia de estudantes, novamente se declara para Wang Wen, mas recebe mais um não como resposta. Em mais uma metáfora, Wang Wen, pianista clássico, rejeita a protagonista ao dizer que eles são muito diferentes e que têm objetivos distintos e pede, portanto, para que ela pare de atrapalhar a vida dele. No entanto, inesperadamente, os espectadores da cena compram o lado de nossa protagonista e a defende das humilhações recebidas. Nesse momento, Li You assume a cena, em uma brilhante atuação do jovem ator Peng Yu Chang, que ensina Wang Wen e a nós, os espectadores, as origens do yangqin, que é tocado na China há mais de 400 anos. Nessa alegoria, o roteiro ressalta o valor das tradições chinesas e exige o respeito merecido por sua História e sua cultura.

No retorno das férias de verão, a orquestra chinesa é surpreendida com o anúncio do encerramento das atividades do departamento devido a pouca popularidade obtida ao longo dos anos. Nisso, os estudantes se propõem a defender a permanência do departamento e embarcam em uma disputa musical contra os alunos da orquestra clássica. Em uma emocionante disputa sonora, a orquestra chinesa se faz vitoriosa, obrigando a orquestra clássica a reconhecer a qualidade e o valor dos instrumentos tradicionais chineses. No mais, as apresentações da orquestra chinesa em eventos oficiais e de prestígio para além do ambiente escolar, acabam por influenciar uma nova geração de estudantes de música que, inspirados nesse grupo, vão optando por aprender mais sobre os instrumentos tradicionais.

Por fim, Our Shining Days traduz uma celebração da China de uma maneira leve e ambiciosa, na qual dialoga com o público jovem ao mesmo tempo em que consegue transpor a importância de suas tradições e o orgulho pelo passado através de uma repaginada. Com o pano de fundo musical, a batalha entre oriente e ocidente se torna a veia condutora dos acontecimentos. No mais, independentemente de vitórias ou derrotas musicais, o filme traz uma abordagem revigorada sobre sua própria sociedade, quebrando estereótipos do gigante asiático e revelando uma profunda autoestima. Nisso, a China nos brinda com sua tradição musical, jamais contemplada no Ocidente, e nos apresenta uma trilha sonora repleta do empolgante som do C-Pop.

Our Shining Days - Part 1: Movie Analysis - Ignite Chinese
Crédito: ignite chinese

Ficha Técnica: 

País: China  | Direção: Wang Ran | Roteirista: Bao JingJing | Elenco: Xu Lu; Peng Yuchang; Liu Yongxi; Li Nuo; Lu Zhaohua; Luo Mingjie; Han Zhongyu | Duração: 100min | Ano: 2017

O Motorista de Táxi: as lições políticas do filme ao cidadão comum

Por Alessandra Scangarelli (Via KoreaPost)

Em 18 de maio de 1980, a cidade de Gwangju, na Coreia do Sul, passou por uma revolta popular que ficaria na história como a Revolta Democrática contra o Regime Militar. Em 2011, os arquivos daquela época, foram inscritos no Registro da Memória do Mundo da UNESCO. Estima-se que até 606 pessoas podem ter morrido. Tudo começou quando estudantes locais da Universidade de Chonnam protestavam contra o governo do general Chun Doo-hwan, após este ter assumido o poder através de um golpe.

Os jovens foram atacados, mortos e espancados por tropas do governo, levando os demais moradores de Gwangju a pegarem em armas (roubando arsenais e delegacias locais). No entanto, a insurreição acabou em derrota em 27 de maio de 1980. Durante a presidência de Chun Doo-hwan, as autoridades costumavam definir o incidente como uma rebelião instigada por simpatizantes e desordeiros comunistas. Com o fim das ditaduras e a instauração da democracia, em 1997, foram estabelecidos um cemitério nacional e um dia de comemoração (18 de maio), juntamente com atos para “compensar e restaurar a honra” às vítimas.

É neste contexto que o filme “O Motorista de Taxi”, do diretor Jang Hoon, lançado em 2017, exibido em vários cinemas do Brasil, conta a história real do taxista de Seoul Man-Seuob (Sang Kang-ho) e do jornalista alemão Jürgen “Peter” Hinzpeter (Thomas Kretschmann), que acabaram juntos documentando os fatos ocorridos nesta ocasião. Também se pode acompanhar a luta deles para fugir do bloqueio e perseguição governamental e policial, no intuito de que o material fosse exibido em rede internacional e a verdade fosse contada. Esta produção foi a segunda mais vista pelos sul-coreanos no ano passado, sendo um sucesso comercial e de crítica não apenas nacionalmente, mas em diversos países. Tendo sido premiado em vários festivais, a obra ainda foi indicada pela Coreia do Sul para ser seu representante na categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar de 2018.

Cena real do conflito em Gwang-ju, registrada pelo jornal americano The New York Times.
Cena real do conflito em Gwangju, registrada pelo jornal americano The New York Times.

Há diversas questões que são tratadas no filme: o controle da opinião pública através da mídia dominada pelo governo e por grupos econômicos que acabam censurando os fatos; a importância do trabalho jornalístico honesto; a violência e repressão policial-governamental, a politização da juventude, a rejeição aos golpes de Estado; a pobreza das classe médias, mas, acima de tudo, a importância da consciência do cidadão comum sobre o seu papel político-social, que ele, muitas vezes, prefere não reconhecer.

Man-seob é o típico homem de classe média baixa, ou pobre, poderíamos assim dizer. É um sobrevivente. Viúvo, trabalha horas por dia em seu táxi, percorrendo a cidade de Seul para poder sustentar a filha e pagar as contas. Deve aluguel, não tem dinheiro suficiente para fazer reparos no táxi e não tem com quem deixar a menina, que acaba realizando as tarefas de casa sozinha. Ele parece não ter muito tempo para nada, sua passividade e inocência são claros. Ele não tem opinião política alguma e, na maioria das vezes, não se posiciona sobre qualquer assunto. Contudo, quando o faz, a exemplo dos protestos que ocorrem na capital, ele se queixa dos jovens que, na sua opinião, deveriam estar estudando, além de ficar fazendo baderna por aí. Na cabeça dele tudo vai bem no país, o governo e o exercito são, na realidade, instituições confiáveis, os jovens rebeldes é que são folgados e apenas atrapalham o dia-a-dia do cidadão de bem trabalhador.

Ele deve 100.000 wons de aluguel e quando não sabe onde poderá conseguir tamanha quantia, um colega afirma que um estrangeiro o pagou para ir até Gwangju. Man-seob assume, de forma fortuita, o lugar do amigo. Mesmo tendo morado na Arábia Saudita por um tempo, o seu inglês é bem fraco, mas ele consegue comunicar-se com “Peter” e o ajuda a desviar dos bloqueios do exército à cidade, com um certo “jeitinho” coreano. Quando lá chegam, encontram um verdadeiro cenário de guerra. Protestos contínuos que são reprimidos com violência brutal levam muitas pessoas a serem hospitalizadas. A situação é de tamanha magnitude que os taxistas locais passam a atuar voluntariamente, transportando os feridos. Para tanto, os postos de abastecimento oferecem combustível de graça, e as famílias também passam a cozinhar a todos os participantes. Certa ordem continua sendo mantida graças ao senso moral dos moradores. Isso fica bem claro, quando os taxistas locais acusam Man-seob de querer levar vantagem em cima do jornalista estrangeiro. Não que ele necessariamente fosse uma pessoa corrupta, mas sua condição e a vida dura da cidade grande, onde se tem poucos reais amigos, o fazem aderir às tramoias e golpezinhos do dia-a-dia.

Créditos: KoreaPost

Quando a história começa a desenvolver-se e o espectador é levado a adentrar mais ainda nos protestos, é possível observar que pais e avós também participam das manifestações, sendo agredidos e mortos. A solidariedade entre os participantes faz com que aquele cidadão de Seul vá aos poucos modificando a sua visão e postura com relação ao que assiste. Ele já não consegue compreender tamanha brutalidade das autoridades. É inclusive chamado de comunista por um agente policial do governo. Um estudante, Gu Jae-Sik (Ryu Jun-yeol) que sabe inglês, junta-se à dupla, passando a ser um ator importante para a educação e conscientização do taxista. Ele, um jovem normal, sem quaisquer ideais políticos, participava de um concurso musical na universidade quando os protestos começaram e seus amigos foram feridos. A atuação heroica de Gu Jae-Sik que chega a dar a própria vida, para que o jornalista alemão fosse salvo e com seu material documentado poder mostrar ao mundo o que se passava naquela pequena cidade, provoca uma espécie de culpa em Man-seob e uma transformação total. Aqui há uma crítica simbólica sutil e indireta à prepotência dos moradores de Capitais, que não raramente, acham-se incumbidos de maiores e melhores códigos morais, políticos e civilizacionais que seus compatriotas do interior… Seria mesmo o caso?

No entanto, o motorista, com a ajuda do jornalista e dos colegas taxistas locais, tem a chance de voltar a Seul. No retorno, a vida corre normalmente nas demais cidades próximas. Em uma particularmente, uma celebração à Buda está ocorrendo. Ele compra sapatos novos e caros para a filha com o dinheiro que conseguira, coisa que antes nunca teve a possibilidade de fazer. Depois, entra em um restaurante para comer e escuta os clientes comentando sobre o que se passa em Gwangju. Todos parecem acreditar nas palavras da grande mídia e do governo que afirmam terem os policiais e as autoridades sido agredidos e mortos. Neste momento, o personagem principal depara-se com um espelho e sua consciência o leva a retornar e trazer o jornalista alemão a todo custo de volta para Seul. Ele, que antes insistira que era perigoso estar na cidade, agora incentiva Peter a continuar gravando os corpos de jovens mortos.

Esta produção cinematográfica traz uma importantíssima mensagem em épocas de grande recessão econômica, crise das democracias e nova ascensão da ultradireita no mundo todo, ao cidadão comum. Afinal, este é uma peça chave para a prevenção de contextos como os que se testemunhou no período entre o final dos anos 1920 e início dos anos 1930, onde o mundo encontrou-se em depressão econômica e assistiu passivamente a ascensão de governos extremistas, apoiados por suas respectivas populações, desencadeando mais tarde na Segunda Guerra Mundial. Com interpretações magistrais, “O Motorista de Taxi” é um exemplo do amadurecimento do cinema sul-coreano que parece atualmente estar vivendo seu ápice.

Os personagens principais do filme. Foto: Youtube
Os personagens principais do filme. Créditos: Youtube

País: Coreia do Sul | Direção: Hun Jang |Roteirista: Eom You-Na e Jo Seul-Ye| Elenco: Song Kang-ho, Thomas Kretschmann, Abel Ryu, Cha Soon-bae | Duração: 137min | Ano: 2017 

Parasita: Uma crítica à desigualdade sistêmica, sem pretensões revolucionárias

Por Alessandra Scangarelli (Resenha completa em KoreaPost / Intertelas)

Aqueles que durante o século XX lutaram por um mundo mais igual e sem pobreza salientariam aos líderes e intelectuais de hoje que não adianta aumentar a renda e o poder de consumo das massas, sem ao mesmo tempo, promover a sua conscientização política. E este é o quadro que encontramos em “Parasita”, onde Ki Taek (Song Kang Ho) é um pobre e desempregado pai de família. Ele mora com sua esposa Choong Sook (Jang Hye Jin), o filho Ki Woo (Choi Woo Sik) e a filha Ki Jung (Park So Dam) em um apartamento úmido e infestado de insetos, em uma área de baixa renda de Seul. Um dia Ki Woo leva seu amigo Min Hyuk (Park Seo Joon) para uma loja de bebidas nas proximidades e descobre que seu amigo (que está indo estudar no exterior) vai abandonar uma vaga de professor particular.

O amigo de Ki Woo pede para que ele assuma o cargo, enquanto estiver no exterior. Logo, Ki Woo entra na vida da rica família Park e um plano começa a ser articulado por ele e seus familiares para saírem do sufoco econômico que se encontram, custe o que custar. Mesmo que isso seja “parasitar” na renda e no estilo de vida dos abastados Parks, que por sua vez também são “parasitas” do sistema, obtendo uma fortuna que não sabemos exatamente de onde sai… Contudo, a família de Ki Woo e seu desespero faz com que se tornem praticamente desumanos e pouco civilizados a ponto mesmo de tentar destruir a vida de quem, igual a eles, sofre os mesmos problemas sociais e econômicos como a governanta Moon Gwang, interpretada pela grande atriz Lee Jung Eun. Ela que será o personagem a promover uma reviravolta radical no andamento da narrativa, trazendo resultados inesperados.

A trama criativa, com pontos de virada que trazem novas situações, tornam o conjunto do enredo intrigante e envolvente ao espectador, deixando o suspense, o drama social e psicológico presente até o fim, sem esquecer a crítica que serve de base para a formação desta história. Isso somado a uma cenografia com locações que se alternam entre o bairro pobre e o rico, e a casa pobre e rica que passam a ter uma importância tal para o desenvolver dos acontecimentos, que não seria uma inverdade classificar estas residências, em especial a da família Park como também personagens atuantes na história.

Crédito: IMDb

A fotografia com posicionamentos, enquadramentos e movimentos de câmera que não são certamente revolucionários, mas saem do comum que se pratica, dão um ritmo dinâmico ao filme, da mesma forma que auxiliam a manter a harmonia entre os momentos de tensão e de calmaria. Diversas referências de outros cineastas são possíveis de serem detectadas, mas uma que chamou atenção desta autora foi a da cena final, em que a violência lembra a do japonês Takashi Miike e de seu fã ocidental Quentin Tarantino.

Por fim, não se pode terminar sem falar da interpretação que se destaca pelo seu conjunto. Todos os personagens, principais e secundários, têm importância na medida certa para a história. Nenhum fica sem significado, ou esquecido ao longo do caminho. Esta característica lembra um pouco do norte-americano Robert Altman, cujos filmes com relação aos atores e personagens destacavam-se pelo seu conjunto, sendo difícil ressaltar um ou outro. Para que esta fórmula seja bem-sucedida é preciso contar com o trabalho de atores que saibam imprimir a interpretação ideal, sem concorrer com os demais.

Portanto, o chefe da família Park (Lee Sun Kyun), assim como sua esposa Yeon Kyo (Cho Yeo Jeong), o filho ainda criança Da Song (Jeong Hyun Jun) e a filha adolescente Da Hye (Jung Ji So) atuam como pessoas totalmente desconectadas com o mundo a sua volta, vivendo em uma bolha artificial que criaram para si, onde podem viver em um mundo seguro e perfeito. Eles praticamente desconhecem problemas maiores que apenas a saúde do filho e seu comportamento. Uma bolha em que podem adquirir e descartar pessoas facilmente e onde os faz também serem vítimas da malícia e astúcia humana, em especial de quem está fora da bolha, tentando sobreviver à guerra. A passividade desta família de ricos é tão grande que desconhecem a casa onde vivem e o que ocorre nela quando estão fora, e mesmo quando estão nela.

Já a família “parasita” pobre de Kin Woo enquadra-se perfeitamente na situação de quem está tão pressionado pelas suas dificuldades econômicas que perdeu em grande parte a capacidade civilizatória que compete à humanidade. Tornaram-se sobreviventes, desesperados pela falta de emprego, de perspectivas, fazendo bicos e tendo empregos temporários para terem “um teto”, mesmo sendo uma espelunca que os mantém abrigados. Contudo, até isso se perde com o tempo, levando as atitudes da família a serem mais impensadas ainda.

Ki Taek (Song Kang Ho) o pai de família que mora com sua esposa Choong Sook (Jang Hye Jin), o filho Ki Woo (Choi Woo Sik) e a filha Ki Jung (Park So Dam), busca sobreviver a falta de emprego custe o que custar. Crédito: IMDb.
Ki Taek (Song Kang Ho) o pai de família que mora com sua esposa Choong Sook (Jang Hye Jin), o filho Ki Woo (Choi Woo Sik) e a filha Ki Jung (Park So Dam), busca sobreviver a falta de emprego custe o que custar. Crédito: IMDb.

Pessoas que atingem uma condição assim não tem tempo para grandes reflexões políticas, por isso se tornam eternamente submissas a este sistema. Tornam-se individualistas ao extremo, ainda que atuem pelo bem de suas famílias, mas em detrimento da condição de outros. Não seria de espantar, pois os valores que aprenderam, mesmo nesta situação difícil, é de que devem preocuparem-se com os seus. A situação não é diferente para os endinheirados Park. Não existe evolução social, se não se leva em conta àqueles muitos que não têm relação sanguínea alguma com você. Todos dependemos uns dos outros.

Ainda é importante salientar que as situações apresentadas em “Parasita”, em especial quando uma chuva forte cai na cidade, lembram e muito os problemas que enfrentamos dia-a-dia nas cidades brasileiras, o que aponta para uma última questão. Existem pobres em todos os cantos do Globo, inclusive no mundo desenvolvido. A diferença está nos níveis de pobreza que são encontrados nos países e que estão relacionados ao desenvolvimento econômico e social que cada nação conseguiu atingir.

A Coreia do Sul, assim como o próprio Estados Unidos são países considerados desenvolvidos, mas que entre o grupo de nações desenvolvidas apresentam índices sociais preocupantes, podendo até em uma situação ou outra encontrar semelhanças com os problemas enfrentados no mundo emergente e subdesenvolvido. Por isso, não existe situação ideal. As mudanças de um país para melhor, assim como do mundo em geral, exigem uma reflexão política importante que levará a novas soluções econômicas e sociais. Desta forma, os que mais sofrem com as desigualdades sistêmicas, ou compreendem que elas existem são os aptos a realizar estas transformações, pois dificilmente quem vive no conforto do topo da pirâmide social vai querer modificar este contexto. “Parasita” possibilita tais reflexões e até a sua crítica não revolucionária, algo parecido que se vê em Coringa e Bacurau, pode ter um efeito interessante, pois ao não dar respostas, convidam o espectador a procurá-las.

O diretor Bong Joon-ho segura o prêmio da Palma de Ouro no 72º Festival de Cannes conquistado por seu filme “Parasite”. Crédito: France 24.

Ficha técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Bong Joon Ho |Roteirista: Bong Joon Ho | Elenco: Kang Ho Song, Sun Kyun Lee, Yeo Jeong Jo, Jang Hye-Jin, Choi Woo-Sik, Park So-Dam, Lee Jung-Eun | Duração: 2h12min