The Witness: um triste retrato da indiferença

Por Mayara Araujo

Desde o merecido Oscar de Parasita e a recente pandemia de COVID-19 que tem impossibilitado o amplo acesso às salas de cinema, a plataforma de streaming norte-americana, Netflix, tem nos brindado com catálogo relativamente diverso de filmes sul-coreanos. Esse é o caso da inserção de The Witness, do estreante Jo Kyoo-Jang que entre altos e baixos traz a ácida crítica da indiferença com a qual a sociedade contemporânea lida com as relações humanas.

Com um roteiro extremamente simples, a narrativa traz o olhar de Sang Hoon (Sung-min Lee), que ao chegar do trabalho em uma madrugada, acaba testemunhando um brutal assassinato de uma moça através de sua janela. Antes que pudesse denunciar o acontecimento, sua esposa acorda no meio da noite e acende as luzes, chamando a atenção do assassino do lado de fora, que imediatamente nota Sang Hoon. Assustado ao ser percebido, Sang Hoon deixa de denunciar o crime para a polícia e passa a viver acuado com a possibilidade de ser encontrado e com o bem-estar de sua família.

Esses minutos iniciais da trama marcam o início de uma perseguição implacável que nosso protagonista passará a experienciar, na qual tudo o que parece importar é a sua própria segurança e a de seus entes-queridos. Para isso, San Hoon estará disposto a se calar, a mentir sobre a verdade e a ignorar a dor da perda dentro de sua própria vizinhança. 

Crédito: BrazilKorea.com

Na manhã seguinte, o corpo da vítima é encontrado e o detetive Jae-Yeob (Kim Sang-Ho) assume o caso. Para isso, Jae-Yeob passa a interrogar os moradores do complexo residencial para tentar localizar o criminoso. No entanto, ele se depara com a fria indiferença da maior parte dos moradores e uma preocupação exclusiva com a possível alteração no valor dos imóveis devido a má fama da região.

Enquanto isso, o assassino Tae-ho (Kwak Si-yang), sempre à espreita, atua como um verdadeiro stalker, mapeando e vigiando as testemunhas para garantir que não seja pego. Assim, intimida o protagonista, comete outro assassinato, bem como manda “mensagens” horripilantes – como matar um animal de estimação e enviar sua cabeça para os donos – no intuito de controlar a situação.

O filme se perde pelo meio do caminho ao enfatizar excessivamente na atmosfera de thriller e preterir o roteiro. A violência, típica da estética cinematográfica sul-coreana, chega a incomodar, visto que se sobrepõe à narrativa e torna o passar dos minutos um tanto quanto arrastados. 

Crédito: canaltech.com

As motivações de Tae-ho não são explicadas na trama, falta aprofundamento em sua personalidade e o seu passado não é revelado. Não há nuances em sua apresentação, tornando-o um vilão meramente vil. De fato, o roteiro carece de “nós” que deixariam a história mais envolvente e bem amarrada.

Mais para o término, Sang Hoon e detetive Jae-Yeob conseguem agir em alguma sintonia, visto que ambos possuem o objetivo em comum de impedir que o assassino continue à solta. Grotescamente, é Sang Hoon que consegue limitá-lo e levar Tae-ho para de trás das grades. Assim, nosso protagonista finalmente alcança a paz necessária para continuar vivendo com sua família – agora em outra vizinhança. 

Ainda assim, de forma irônica, o filme é encerrado da mesma forma que começa: no pátio do complexo residencial, com Sang Hoon, agora transformado por suas últimas experiências, gritando por socorro no meio da noite. Ele aguarda que as luzes acendam e que alguém venha averiguar o que está acontecendo, principalmente depois de traumáticos assassinatos ocorridos na vizinhança. E se choca, em uma brilhante atuação de Sung-min Lee, ao perceber que nada mudou e que ninguém acenderá a luz, revelando, por fim, a total indiferença com o bem-estar do outro.

Crédito: sessaosemedo.com

Sem dúvida, o que The Witness traduz não passa de um retrato triste da sociedade contemporânea, que vive os seus dias fechada dentro de suas próprias bolhas e com uma cruel falta de empatia com a vida dos outros. 

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Jo Kyoo-Jang | Roteirista: Lee Young-jong | Elenco: Lee Sung-min, Kim Sang-ho, Jin Kyung, Kwak Si-yang  | Duração: 111 min | Ano: 2018

Admirável Poesia de Mi-ja

Por Mateus Nascimento

Se você gosta de cinema coreano para pensar as questões sociais de nosso tempo, gostaríamos de sugerir para você ver o filme Poesia de Lee Chang-Dong.

Lançado em 2010, Poesia, 시 (Si na língua original), desponta como uma das obras mais filosóficas do diretor, recentemente reconhecido pelo filme Burning, Em chamas em português, inspirado num conto de Haruki Murakami (Queimar Celeiros). Por sua vez, Poesia conta a história da sofrida dona Mi-ja, uma avó na casa dos 66 anos que descobre princípios de da doença de Alzheimer após diagnóstico de seus esquecimentos leves.

A interpretação brilhante de Yoon Jeong-hee (1944–), uma das atrizes mais reconhecidas da Coreia do Sul desde pelo menos 1967, com variados prêmios de interpretação de papéis dramáticos, é composta ainda de um drama paralelo a esse: ela cuida de um neto em tempo integral, sozinha sem ajuda dos progenitores, e descobre as ações dele, dentre elas um estupro de uma estudante da mesma escola.

Cartaz do filme. Créditos: Amazon.

A história é impactante por vários motivos. Vemos na tela o que seria um drama do envelhecimento na Coreia do Sul, questionando todas as nossas expectativas e estereótipos do sucesso das políticas sociais das sociedades asiáticas. Some-se a isso a questão social do abandono parental pela qual podem passar os filhos de toda uma geração orientada para o sucesso profissional acima de tudo e todos, o impacto de doenças degenerativas ainda sem cura no planeta apesar de alguns países estarem melhor preparados do que outros etc. São muitos dramas e questões e dona Mi-ja brilha na tela por representar um questionamento que aparece nas entrelinhas da narrativa: a possibilidade de nós nos encontrarmos conosco mesmos no exato momento da crise, do trauma, da estafa ou da situação limite.

Afinal, como seria possível para alguém como ela, abandonada e abraçada a própria determinação de viver se reinventar diante de algo que a corrói por dentro? Nisso entra a poesia, a poética e o ponto central, mais provocante: uma senhora sem quaisquer condições decide ser poeta e praticar aquilo que muitos poetas apregoam, uma observação cuidadosa e paciente do mundo ao redor.

Voltando a dona Mi-ja, ficamos sabendo que mesmo com a idade avançada ainda trabalha ocasionalmente para complementar a renda, a ponto de se submeter aos serviços em casa de famílias para conseguir resolver suas contas e necessidades e as do neto também.

Yoon Jeong-hee é dona Mi-ja no filme Poesia de Lee Chang-Dong (2010). Créditos: Pinterest.

Concomitante, quando alguns pais envolvidos descobrem as atrocidades cometidas por ele e seu grupo da escola, ela é inserida em uma grande negociação indenizatória, para que todos os envolvidos saiam ilesos, sem registros criminais que afetariam os negócios de família. Uma condenação ou uma exposição exagerada poderia prejudicar eternamente o futuro do negócio dos pais (que devem continuar na vida dos seus filhos, roboticamente destacados para a tarefa) e o desenvolvimento social deles, embora a primeira preocupação seja mais forte.

Certamente, a querida dona Mi-ja já é uma vencedora por suportar tamanhas demandas sendo quem é, materialmente falando.

Nesse somatório de absurdos, de coisas que nos constrangem e irritam (traço típico das construções fílmicas do diretor) reside a poética de Lee Chang-Dong: como um conhecedor da cultura coreana (ele foi funcionário do ministério da Cultura deste país), ele aponta com o dedo em riste sem pudor para dentro da comunidade sul coreana e nos lança as mesmas questões, mostrando através das imagens que essa situação dramática da humanidade tem haver com todos os participantes da comunidade humana, sobretudo, por nos calarmos diante de situações como essas. Todos temos alguma culpa e deveríamos ter o ímpeto de procurar alguma resposta diante da dor dos outros. 

Ao propor um enredo com uma senhora que se descobre poeta após (repito: após!) saber ser portadora de Alzheimer, Lee está sugerindo, pelo menos, uma tomada de posição. Perceba-se desde já que cada plano carrega pelo menos duas exclamações: a situação de Mi-ja não é inverossímil! A situação de Mi-ja deveria ser inaceitável! Contudo, Mi-ja mora na Coreia, no Brasil e em toda parte do mundo que não se permita refletir sobre envelhecimento. Bom filme.

Trailer do filme no Youtube

Ficha técnica: Poesia (Si), de Lee Chang-dong (Coréia do Sul, 2010).

Obsessão: o amor conturbado de um veterano de guerra

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas)

Amor é algo facilmente confundido por outros tipos de sentimentos, normalmente, menos altruístas, menos puros e incondicionais como a paixão, a necessidade de controle, de possuir, ou a obsessão por alguém. Esta questão é bastante explorada nas mais diversas cinematografias pelo mundo e na sul-coreana não seria diferente. No filme “Obsessão” (2014), dirigido por Kim Dae Woo, o coronel Kim Jin Pyong (Song Seung Heon), que fez parte do grupo de militares sul-coreanos levados a combater junto às tropas dos Estados Unidos no Vietnã, sofre em silêncio de Transtorno de Estresse Pós-traumático (TEPT).

Decorado herói de guerra, ele também está prestes a ser promovido a general. É casado com a filha de seu comandante, a gentil Lee Sook Jin (Cho Yeo Jeong). Uma união que, ao menos para ele, não há mais qualquer afeição e carinho real, mas um coronel deve sempre, ao menos em teoria, seguir suas obrigações. Um dia, um capitão chamado Kyung Woo Jin (On Joo Wan) é transferido para a tropa de Jin Yong, mudando-se para a casa ao lado com sua esposa, a chinesa, Ga heun (Lim Ji Yeon).

Até um período, os vizinhos não parecem ter grande contato, mas a esposa do coronel está bastante interessada nos recém-chegados. Assim, ela acaba provocando a curiosidade de coronel Kim Jin Pyong que vai a casa dos vizinhos e depara-se com a esposa de seu capitão. Percebe-se de pronto que uma atração instantânea acontece, resultando em um caso extraconjugal futuro.

Crédito: IMDB

“Obsessão” não é um filme extraordinário, nem aborda questões muito diferentes que outros já não tivessem discutido, mas tem seus encantos. Em especial pela forma como a narrativa é construída, pelas atuações, pelas críticas implícitas, quase sutis, e pela sua beleza fotográfica. É importante ainda ressaltar, perdão a indiscrição da autora, a beleza física do ator Song Seung Heon, cuja forma corpórea é bem utilizada pelo diretor, em especial nas cenas de sexo.

Os quadros e tomadas dos momentos mais íntimos do casal são bastante explícitos para os padrões sul-coreanos, mas ao mesmo tempo têm uma sensualidade e uma plasticidade interessante, não sendo nada vulgares. A atuação do par de atores atingiu o objetivo em demonstrar ter bastante química, naturalidade e desenvoltura nestas cenas em particular, algo extremamente complicado e difícil de fazer, ainda que o público geral ache que não.

A fotografia bastante clara em ambientes externos e que utiliza luzes quentes nos momentos de confraternização dos indivíduos daquela situação e em seus momentos mais íntimos também, contribui para envolver o espectador naquela atmosfera de sentimentos reprimidos, para depois serem extravasados quando os personagens permitem-se mais. As sombras durante as passagens de tensão também almejam incitar no público a sensação de perturbação, a turbulência psicológica do casal de amantes, em especial do coronel.

Lim Ji Yeon é a apática Ga Heun. Casada com o capitão Kyung Woo Jin (On Joo Wan), ele tem um caso secreto com o comandante de seu esposo. Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Por sinal, segundo o próprio Song Seung Heon, esta obra foi um divisor de águas para a sua carreira, já que ele necessitaria até então provar para si que seria capaz de participar em tal produção. O ator que até aquele momento sempre fizera papeis de mocinho com carinha bonita, ansiava por mostrar que era mais do que isso. Para muitos, este, que é um dos queridinhos da onda Hallyu, fracassou no seu objetivo, mas esta autora tende a descordar com a opinião geral.

Song Seung Heon é sim um grande ator e incarna de forma muito convincente, com a dosagem certa de emoção, o coronel introvertido, que sofre em silêncio, que mantem as aparências acima de tudo, mas que sufoca aos poucos com o contexto um tanto opressor em que está inserido. Importante ainda salientar que esta foi a primeira experiência do ator com cenas íntimas de um casal. No entanto, ele não atingiria tal resultado positivo, sem a participação conjunta de suas e seus colegas. O elenco dos personagens secundários cumpre o papel de suporte de forma bem satisfatórias. A atriz Cho Yeo Jeong faz uma esposa perfeitamente avoada, infantil, tagarela, que vive em seu pequeno mundinho de aparências e nem nota o sofrimento do marido. Ela está mais preocupada com o entorno e os demais, do que com aqueles que lhe são mais próximos, vivendo em um mundo à parte.

Um mundo feliz e bonito, criado, talvez, de forma inconsciente em consequência de ser uma mulher mimada, ou pela sua dificuldade em lidar com questão complicadas, como ser esposa de um militar, herói de guerra. Não se trata de uma pessoa ruim, mas um clássico clichê da mulher da época que é agradável com todos, não é preconceituosa, mas ao mesmo tem a cabeça enquadrada no sistema.

O capitão Kyung Woo Jin (On Joo Wan) faz de tudo para avançar na carreira militar, inclusive usar a própria esposa. Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Já On Joo Wan faz o típico aproveitador, carreirista, capaz de usar a própria mulher para atingir seus objetivos profissionais. O capitão Kyung Woo Jin representa bem como é um ambiente estruturado em uma hierarquia muito rígida, resultando em diversos puxas-sacos e profissionais que apresentam uma ambiguidade de caráter, tão comum a este meio, quanto a outros digamos mais liberais. Lim Ji Yeon também vive de forma crível uma mulher quase apática para a vida. Ela compreende que o marido a explora, mas aceita. Mesmo não sentindo conforto, nem felicidade ao seu lado.

Seu encontro com o coronel, ainda que contenha grande carga emocional em vários momentos, no geral, parece apenas mais um acontecimento, quase um acidente de percurso a sua existência, sendo bastante evidente em outros momentos de tensão do filme. A atriz, de repente, encarnou tanto a apatia de sua personagem, que lhe faltou uma dose maior de explosão emocional ao final, em que Ga Heun compreende que sentia amor pelo coronel afinal. Detalhe que esta foi a primeira experiência da atriz em um projeto cinematográfico comercial.

Esta atmosfera de passividade com relação ao status quo é realmente uma característica que engrandece o enredo. A sensação é de que se está sufocando em torno de pessoas tão bem-comportadas, tão aparentemente cordiais e diplomáticas. É possível compreender o coronel em vários momentos e seus conflitos internos. Contudo, nos bastidores, as fofocas espalham-se, assim como os preconceitos com a chinesa Ga Heun e a superficialidade de mulheres que parecem insistir em levar vidas normais, com uma, ou outra aventura, uma que outra atitude ousada, como dançar às segundas com um estranho chamado Lim (Yu Hae Jin), dançarino de tango. Enquanto isso, seus maridos vivem as experiências mais horríveis que um ser humano pode experienciar. A guerra está em pleno vapor ainda no Vietnã, mas parece não atingir o cotidiano daquele pequeno mundinho sul-coreano, aparentemente.O romance com Ga Heun será para o coronel Kim Jin Pyong como o ponto de explosão, em que ele extravasa suas angústias e tenta experimentar retornar a vida normal. Isso é perceptível quando ele procura aprender a dançar para uma noite especial com aquela que ele acha ser sua nova e verdadeira amada.

Cena do filme “Obsessão”. Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Talvez, o que tenha provocado no coronel estabelecer este vínculo com Ga Heun fosse a reação dela em um momento de extrema tensão, em um evento do hospital do exército, organizado pelas esposas dos oficiais comissionados, onde são voluntárias. Na ocasião, um paciente que sofre de TEPT ataca Ga Heun, e Kim Jin Pyong vem em seu auxílio.

Ela chega a ser baleada, mas age como se nada tivesse ocorrido, enquanto as demais mulheres desesperadas gritam e desmaiam. Uma atitude que chama atenção a um ex-combatente de guerra, pois ali está alguém que pode entender um pouco das suas experiências e do que significa viver a sua realidade, ser quem ele é, tendo de presenciar situações de conflito, comuns para aquele modo de vida.

Outra curiosidade do filme, e que poderia ter sido melhor explorada, é justamente o fato histórico da participação sul-coreana na Guerra do Vietnã, algo pouco comentado, talvez até por razões compreensíveis. Afinal, este evento histórico traz uma verdade um tanto vergonhosa para uma Coreia que sempre lutou por independência, acabar submetida às ordens de outro país, que almejava invadir e controlar um irmão asiático.

Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Por fim, seria amor o que o Coronel sente? Ou apenas uma consequência de sua mente perturbada? Para a maioria dos críticos na época a segunda constatação seria a certa. Esta autora acredita que o humano é sempre mais complexo e aposta que podem ser ambos. Pois mentes perturbadas também amam, de forma errada talvez, mas amam.

E anseiam, acima de tudo, buscar algo de mais real, verdadeiro e honesto que o entorno aparentemente da normalidade e da aparência não oferece.  Alguém que entenda as dificuldades e não apenas as ignore. Trata-se de uma tentativa de buscar por algo melhor, mesmo que passe de uma ilusão e que possa ter consequências mais drásticas em seu desfecho.

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Kim Dae Woo | Roteiro: Kim Dae Woo, Oh Tae Kyung | Elenco: Song Seung Heon, Lim Ji Yeon, Cho Yeo Jeong, On Joo Wan, Yu Hae Jin, Bae Sung Woo | Duração: 232mins | Ano: 2014

Silenced: Abandono daqueles que gritam em silêncio

Por Hsu Ya Ya*

Uma escola para deficientes auditivos e intelectuais entre 7 e 22 anos. O medo refletido através dos olhos das crianças. Roxo, a cor que deveria estar estampado nos desenhos está presente nos rostos em forma de hematomas. Parece roteiro de filme de terror, não? Não deixa de ser um filme, mas o gênero não é de terror. Silenced é baseado em fatos reais que aconteceram na Coreia do Sul entre os anos 2000 a 2004, quando o caso foi exposto por um professor ao grupo de direitos humanos da cidade de Gwangju.

Em 2009, a autora Gong Ji Young lançou o livro “The Crucible”, baseado no caso “Gwangju Inhwa School”, mas a história só causou impacto na sociedade sul-coreana quando o filme foi lançado, em 2011.

Kang In Ho (Gong Yoo) é um professor de artes que fora indicado para dar aula em uma escola para deficientes auditivos na cidade de Minju a fim de ensinar e conseguir dinheiro para a sua família que passava por momentos difíceis, após o suicídio de sua esposa e a doença da filha. Logo no primeiro dia de trabalho, Kang      nota o ambiente sombrio que permeia entre os corredores da escola e os olhares distantes de seus alunos.

Crédito: viki.com

Durante a sua primeira aula, Min Su (Baek Seung Hwan) chega a aula com diversos hematomas no rosto, e quando In Ho questiona o professor Park Bo Hyun (Kim Min Sang), este relata que os machucados foram ocasionados pela sua “deficiência”, além da recente perda do seu irmão mais novo. Curioso a respeito das crianças, o professor de artes busca o histórico escolar do Min Su, Yeon Doo (Kim Hyun Soo) e Yoo Ri (Jung In Seo), reparando que essas crianças são órfãs ou foram abandonadas pelos pais.

A reviravolta começa quando In Ho encontra Yeon Doo sendo torturada pela irmã do diretor do instituto, que fora socorrida e encaminhada ao hospital com a ajuda da ativista dos direitos humanos Seo Yoo Jin (Jung Yu Mi). Ao passar a noite acompanhando a menina, a ativista recebe através de uma carta, o relato de estupros que vem acontecendo dentro da escola feito pelo diretor, o seu irmão e o professor Park. Com isso, In Ho e Yoon Jin começam a luta pelo direito dessas crianças, enquanto as autoridades locais e a própria população fechava os olhos diante do caso.

Apesar do filme ser baseado em fatos reais, alguns acontecimentos foram alterados, seja na questão da quantidade de acusados envolvidos no caso, ou as vítimas que sofreram tais abusos. Um número questionável até as últimas notícias sobre o ocorrido na vida real, mas nada se compara ao impacto da narrativa do início ao fim, com cenas fortes e tocantes sofridas pelas crianças, a indiferença dos professores que presenciavam as agressões físicas, a descrença da população para o caso.

Crédito: YouTube

A primeira impressão que se tem é que o filme parece ser de suspense ou terror pela sensação que passa ao espectador, através da ambientação do local malcuidado, pouca iluminação, olhares sem vidas e a tortura psicológica a quem assiste pelas cenas chocantes de abusos.

Silenced passa a sensação de impotência para quem assiste, mas levanta diversos questionamentos sobre o papel do ser humano diante de casos obscuros que permeiam a nossa sociedade, a conduta que devemos ter como cidadãos, em contrapartida, o poder na mão daqueles que têm mais dinheiro, o silenciamento das vítimas oprimidas pela sociedade, as brechas dentro da legislação, o papel do jornalismo a fim de expor casos que seriam acobertados por aqueles que têm poder e a importância de defender os direitos humanos.

Crédito: Tumblr

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Hwang Dong Hyuk | Roteirista: Hwang Dong Hyuk baseado no livro “The Crucible” da autora Gong Ji Young | Elenco: Gong Yoo, Jung Yu Mi, Kim Hyun Soo, Jung In Seo, Baek Seung Hwan | Duração: 125min | Ano: 2011

*Hsu Ya Ya é graduanda em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), pesquisadora no grupo Comunicação, Arte e Literacia Midiática, membro do Observatório da Qualidade no Audiovisual e bolsista de treinamento profissional no projeto #Observatório: Produção de vídeos de divulgação científica)

“Tel Aviv em Chamas”: uma visão cômica do conflito Israel-Palestina que não foge à dura realidade

Por Alessandra Scangarelli (Via Intertelas)

O cinema é um espaço bastante amplo e que contempla diversas abordagens e representações da realidade, inclusive de questões bastante delicadas como o conflito Israel-Palestina. Afinal, mesmo em uma das regiões mais problemáticas do planeta, a vida dos que ainda permanecem por lá continua. Parece difícil para muitos compreenderem como as maiores amenidades das relações sociais podem seguir em curso, ainda que uma guerra, um território ocupado e tantas outras formas de violência extrema estejam presentes no dia-a-dia dos habitantes que estão expostos a sucessivos ataques armados.

Mais, há quem não acredite, porém gêneros como a comédia podem ser a escolha perfeita para lançar um olhar mais complexo e bastante humano, com sutilezas provocantes, críticas que ficam nas entrelinhas, utilizando de ironia e sarcasmo para criar um quadro diferente e bastante interessante de um assunto que sempre é lembrado pelo drama da guerra. Estas características podem ser encontradas em “Tel Aviv em Chamas” (2018), distribuído no Brasil pela Pandora Filmes e um dos últimos trabalhos de Sameh Zoabi, nascido em Iksal, uma aldeia palestina, localizada próxima à cidade de Nazaré.

Nesta história, o personagem principal Salam (Kais Nashif), um assistente de produção palestino, conduz o espectador pelos bastidores da gravação de uma telenovela palestina que leva o mesmo nome do filme. Quem já teve alguma experiência com o cotidiano de uma produção audiovisual, sabe o quão caóticos e imersivos os dias de gravação podem ser para os envolvidos. E isso ocorre independentemente da nacionalidade e do país. É um traço comum deste ramo profissional. Ao levar isto em conta, duplique a tensão no contexto de uma novela que está sendo gravada na própria Palestina e cujo enredo central em si tem como tema o conflito local.

Crédito: Samsa Film – TS Productions – Lama F… Productions.

Assim, Salam para sair de sua casa e ir até o estúdio necessita cruzar o posto de controle entre as cidades de Jerusalém e Ramala, diariamente. São nestes momentos chaves que é possível ter uma noção do absurdo que tal situação impõe às pessoas, aos cidadãos palestinos em geral, como a limitação da liberdade de ir e vir, a desigualdade social, a desconfiança e a violência, às vezes passiva, mas não menos cruel, das autoridades e de uma elite israelense, que através de seu braço armado, despoja os palestinos da condição de cidadãos, ao desprovê-los de direitos básicos, na própria casa deles.

É no posto de controle que Salam conhece o oficial do exército israelense Assi (Yaniv Biton), que acompanha a novela “Tel Aviv em Chamas” com sua mulher, Tala (Lubna Azabal) e que ao saber do ofício de Salam começa a querer ter suas opiniões e sugestões para o desenrolar da trama levadas em conta. Ao contrário do que se espera, Salam encontra nestas conversas impostas por Assis uma oportunidade profissional.

Ele começa a se apropriar das ideias do militar e sugerí-las à equipe de produção, o que lhe proporciona aos poucos um lugar de destaque e confiança, tornando-o o roteirista principal. No entanto, o escritor novato vai precisar ter muita sabedoria para lidar com as perspectivas, com o ambiente conflituoso e dividido, mas, principalmente, com os anseios contrários dos investidores palestinos e do oficial israelense para o final da história. Será preciso muita sagacidade e criatividade para chegar a um resultado que satisfaça a todos.

Crédito: Samsa Film – TS Productions – Lama F… Productions.

“Tel Aviv em Chamas” torna-se uma produção especial ao conseguir transmitir através de sua trama e diálogos um ambiente de constante tensão, de opiniões inflamadas de ambos os lados, mas, acima de tudo, de ambições políticas e pessoais que estão presentes nas constantes falhas da personalidade humana que ao invés de auxiliar, só tornam os contextos mais difíceis para que a vida em comunidade seja possível. E tudo isso com um bom toque cômico. A cenografia e a fotografia da obra auxiliam a criar a atmosfera do humor oscilante dos personagens.

Na realidade, são elementos de extrema importância para induzir, ou transferir ao público as emoções daqueles personagens. Porém, certamente, de nada adiantaria sem a interpretação e a interação entre Kais Nashif e Yaniv Biton. Estes formam uma dupla única, capaz de transpassar diversas vezes a linha entre amizade e inimizade, entre colaboração e disputa, que acontece em um cenário repleto de manipulações que objetivam promover interesses particulares e também dos povos que os personagens ali representam. Pela sua extrema humanidade, no que há de melhor e pior, “Tel Aviv em Chamas” é uma abordagem diferenciada sobre o conflito e como opção cinematográfica promove entretenimento e reflexão.

Ficha Técnica:

País: Israel, França, Luxemburgo e Bélgica | Direção: Sameh Zoabi | Roteiro: Dan Kleinman e Sameh Zoabi | Elenco: Kais Nashif, Lubna Azabal, Yaniv Biton | Duração: 100 min. | Ano: 2018

REBELS OF THE NEON GOD: Juventude, divindades e chuva, muita chuva

Por Guilherme Gooda*

Tsai Ming-Liang debuta no cinema lançando o espectador dentro de uma Taipei em pleno movimento e recorta a vida de quatro jovens. O filme de 1992 Rebels of the Neon God, nome em inglês para o título 青少年哪吒 (ou Jovem Nezha em tradução literal), retrata a camada média da juventude de Taipei a partir de três personagens, vazios de objetivos e desejos enquanto vagam pelas ruas de uma noturna e chuvosa Taipei, iluminada pelo farol das motocicletas, letreiros de neon e gigantescos fliperamas. Para eles, Taipei é o começo e fim. Para onde mais iriam? O que mais eles conhecem? Sem carreiras, conexões, futuro, amor ou esperança. O filme retrata a irônica alienação e solidão que as mega-cidades proporcionam.

A começar pelo título, o nome original chinês sendo alterado para o Ocidente faz referência direta à uma divindade de cultura chinesa que por vezes é mencionada no filme. A história mitológica de Nezha (or Norzha na pronúncia taiwanesa) que é rejeitado por seu pai e se envolve em grandes problemas com outras divindades ao matar por acidente o filho de Ao Kuang, o general dragão condenando a China com chuvas e inundações, até decidir se oferecer em sacrifício para que o castigo fosse aliviado.

A narrativa do filme segue e atualiza em várias medidas o conto mitológico. Hsiao Kang (Lee Kang-sheng) estuda para as provas de vestibular mesmo sem ter muita ideia de para onde aquilo o levaria e sua falta de interesse pelos estudos gera conflito com o pai. Hsiao Kang planeja então abandonar o curso e pegar o dinheiro da rescisão sem comunicar aos pais. Enquanto isso Ah Tze (Chen Chao-jung) rouba moedas de cabines telefônicas para passar a madrugada em um fliperama junto com um amigo. 

Crédito: qelle.tumblr.com

Ah-Kuei (Wang Yu-wen), uma garota que trabalha um ringue de patinação, pede uma carona para Ah-Tze e então os dois personagens iniciam uma conversa e um relacionamento. Na primeira cena de contato entre três dos personagens centrais:  Hsiao Kang dentro de um táxi guiado por seu pai, acompanha com o olhar Ah-Tze e Ah-Kuei, passeando pelas ruas de Taipei em uma motocicleta. Hsiao Kang sente um misto de inveja e admiração por Ah Tze. 

Os dois personagens são bastante diferentes, enquanto o primeiro é mais reservado e introspectivo e mesmo infantil o segundo parece mais aventuresco, destemido e rebelde. Tais características são refletida na diferença do veículo dos dois: enquanto Hsiao Kang anda em uma scooter, Ah Tze tem um moto esportiva e uma garota na garupa,  não esconde a inspiração do diretor Tsai Ming-Liang no clássico “Rebel without a cause” (1955, Nicholas Ray), compartilhando a mesma temática de conflito de gerações e referências mais óbvias como um pôster do filme na parede da casa do protagonista, Ah Tze é um novo tipo de James Jean agora atualizado aos anos 90. 

Hsiao-Kang fica então obcecado pela vida de Ah Tze e começa a seguí-lo em toda parte sem o outro note, gerando certa atmosfera de suspense que é agravada pela sempre noturna Taipei. Os poucos diálogos do filme e a discrição de Hsiao-Kang em revelar sua motivação instigam o espectador, existe certa melancolia no personagem uma vez que Hsiao-Kang persegue os outros personagens (sentando bem em frente deles em uma cena), mas completamente invisível, mescla-se a isso um sentimento de repulsa por um personagem um tanto bizarro, que como o voyeur acompanha a vida alheia.

Crédito: http://moviemezzanine.com/rebels-of-the-neon-god

Acompanhando o personagem central, mergulhamos em regiões ocultas da cidade: vemos o interior de um shopping, restaurantes e  arcades, mas também corredores, quartos de hotel e banheiros públicos. Rebels of the Neon God é também um filme sobre a cidade de Taipei, não observando apenas a superfície, tal característica do diretor Tsai Ming-Liang se repete em outras obras familiarizando o espectador com cada canto de uma sempre viva e mutável cidade. 

 O filme é um recorte de realidade onde os personagens são  apresentados ao espectador sem que haja julgamento prévio de suas ações, abrindo a interpretação alguns podem pensar como o pai de Hsiao Kang que  pertencendo a uma geração anterior julga que o filho seja um inútil por se negar a estudar; outros podem levar a interpretação para certo fatalismo entendendo que o desfecho dos personagens não poderia ser diferente. Como Ah Tze, alguns podem ainda ter a esperança de saírem em suas motocicletas e buscarem uma vida ideal fora da cidade, um sentido de fuga jovem de quem experimenta o fracasso talvez pela primeira vez. 

As reações e os dramas da juventude são abordados na obra porém sem a alegria, o otimismo e a leve ingenuidade com a qual ela costuma ser abordada no cinema. Rebels of the Neon God é um filme cru que dialoga justamente com a ânsia do jovem que ao se perceber “inútil e fora do lugar” abraça o entretenimento como forma de rebeldia e mesmo como escape.

“Jovens sendo jovens” alguém poderia dizer, mas se tratando de uma obra oriental usaremos uma parábola oriental para descrevê-lo: “Lá estão os cavalos, com seus cascos para pisotear a neve e gelo, e sua pelagem para que se mantenham aquecidos do vento frio. Comendo grama e bebendo, saltitando e correndo – esta é a natureza dos cavalos. Mesmo grandes salões, ou elegantes terraços nada disso tem uso para eles.” 

Ficha técnica: 

País: China  | Direção: Tsai Ming-Liang | Roteirista: Tsai Ming-Liang | Elenco: Chen Chao-jung,  Jen Chang-Bin,  Lee Kang-sheng  | Duração: 106min | Ano: 1992

* Guilherme Gooda é doutorando em Comunicação pela UNESP-Bauru (2019-), onde pesquisa produções midiáticas do leste asiático em especial as chinesas, e mestre pela mesma instituição (2016-2018). Graduado em Letras (português-mandarim) na FFLCH-USP. Suas pesquisas envolvem a atualização do imaginário popular e a sobrevivências das imagens, bem como as relações Brasil-China em diversas esferas.

O Japão entre a fé e a descrença: O silêncio de Shusaku Endo

Por Mateus Nascimento (Via EloNihon)

Em seu filme, O Silêncio, o conhecido diretor Martin Scorsese nos transporta para o Japão no período de 1570 e 1614. Inspirado no livro homônimo O silêncio do escritor Shusaku Endo (1923-1996), ganhador do prêmio Tanizaki em 1966, o filme (2016) retrata de forma interessante e inédita a cultura e a política do período histórico de repressão ao cristianismo no Japão, iniciado por Toyotomi Hideyoshi em 1587.

Shusaku Endo, reconhecido autor no Japão do pós-guerra, nasce em Tóquio no ano de 1923 e anos depois se muda com os pais para a Manchúria. Eles viriam a separar-se dez anos depois – um trauma retomado em alguns de seus livros – e ele ainda jovem passa a morar com a mãe em Kōbe. Ela se converteu ao catolicismo quando ele era bem pequeno e ele viria a ser batizado anos depois, pois fora criado como católico, com a decisão vindo por volta dos doze anos.

Shusaku Endo (1923-2010).
Créditos: Filmow (https://filmow.com/shusaku-endo-a213388/)

Desde jovem, frequentava igrejas e pesquisava sobre a história do cristianismo e, especificamente, sobre a história de missionários cristãos pela Ásia. Por volta dos anos 30, inicia sua formação em literatura comparada, que viria a ser interrompida em virtude da segunda grande guerra (1939/1945). Tempos depois, ele retoma seus estudos conseguindo uma bolsa de estudos na Universidade de Lyon na França (1950/53) – o que lhe rendeu uma especialização em literatura francesa. Ali sofreu com a discriminação racial (antiniponismo crescente de então) e desenvolveu depressão.

Ainda na França foi diagnosticado com tuberculose e ficou internado por vários meses. O diagnóstico fez com que duvidasse de sua fé e quando obteve alta do hospital para tratamento domiciliar empreendeu uma viagem a Palestina para pesquisar sobre a vida de Jesus.

A viagem fora um momento decisivo para sua concepção de cristianismo bem como de diversos outros temas recorrentes em seus textos: dilemas entre Ocidente e Oriente, fé e descrença, tradição e modernidade, para citar os principais. Além desses assuntos, o trauma do racismo viria a ser retomado em suas obras e alguns de seus personagens tem esta doença, representando a vida do autor.

Destacamos o que o filme significa para o próprio Scorsese: “peguei este romance pela primeira vez quase 20 anos atrás. desde então, eu o reli incontáveis vezes e, agora, preparo uma adaptação cinematográfica. Ele tem me dado um tipo de amparo que eu encontrei em muito poucas obras de arte” – ele escreve para o prefácio da edição de 2011.

Capa do DVD em inglês. Créditos: Cover Box

A narrativa nos conta que dois jovens padres, Francisco Garpe e Sebastião Rodrigues iniciam uma saga pelo oriente a fim de encontrar o seu mentor espiritual, o padre Cristóvão Ferreira. De início, instalam-se em Macau, a porta comercial dos europeus na Ásia e uma região evangelizada pela igreja católica. Esta região era relativamente segura e poderia prover recursos básicos para a partida.

Ali encontram um japonês apóstata confesso chamado Kichijiro, que seria seu guia no território japonês uma vez que ele sabia minimamente a língua dos padres e o paradeiro do procurado. O trio consegue um barco e iniciam, via rota Macau-Kagoshima, a ida de fato. Pode-se dizer que objetivavam também fortalecer e expandir a fé cristã no Japão.

Desde a chegada, observamos que o silêncio no filme enquanto metáfora permite uma interpretação do contexto histórico, político e social da missão jesuíta no Japão do séc. XVII: ela nos ajuda a compreender um pouco do pensamento japonês sobre o conceito de religião.

O cristianismo representou um choque as estruturas do pensamento japonês, pois as práticas japonesas não correspondiam com os dogmas cristãos balizados pela dicotomia bem e mal. Por sua vez, este discurso somente foi usado no momento em que os governos japoneses não achavam mais os portugueses e sua cultura necessários ou úteis. Percebe-se então que a chegada do cristianismo no Japão não se dera somente pelo aspecto religioso: era sobretudo uma empreitada política!

O fluxo comercial era intenso e mesmo armas eram comercializadas entre portugueses e japoneses – os ashigaru (guerreiros a pé) eram camponeses portadores de tanegashima (nome pelo qual ficaram conhecidos os primeiros armamentos de pólvora) pelos senhores.

Portanto, a missão cristã no Japão deve ser explicada tendo em vista o conceito de circulação: ver que algo circula implica perceber (e querer investigar) de que houve um percurso entre aceitação, choque e rejeição de pensamentos ou inovações técnicas dos portugueses por parte dos japoneses entre 1549 e 1614.

Há que se destacar que o cristianismo foi aceito (junto com armas e artigos de guerra) num momento de grande descentralização do poder (Sengoku Jidai) pois Oda Nobunaga almejava vantagens no conhecimento e no uso das tecnologias militares ocidentais, e o culto só foi proibido para senhores num momento relativa estabilidade, quando Hideyoshi não mais desejava a presença e influências dos saberes portugueses sobre a população e mesmo nas elites. Por fim, foi duramente reprimido sob o xogunato dos Tokugawa quando a lógica era de se proteger o Japão das influências estrangeiras, sobretudo, do projeto colonizador do império Português, relacionado em grande medida com a igreja católica.

Scorsese e Endo, parece-nos, buscam proclamar a existência de um Japão que não seja indiferente ao cristianismo, mas que procura uma forma de cristianismo condizente com o caráter nacional.

Ficha técnica: O Silêncio (Silence) / Direção: Martins Scorsese / Ano: 2016 / Distribuidora: Imagem Filmes.

Sinopse: Ambientada no Japão no século XVI, a história trata de missionários portugueses que viajam ao país oriental para confortar convertidos locais e impedir que senhores feudais torturem padres cristãos – maneira local encontrada para tentar expulsar do Japão os catequistas europeus.

Entrevista com Iara Lee (Coreanos Pelo Mundo): “A vida resume-se em saber transformar algo negativo em positivo”

Por Alessandra Scangarelli (via Korea Post e Intertelas)

A cineasta Iara Lee. Crédito: Cultures of Resistance.

O trabalho de promover solidariedade entre as pessoas é árduo e requer muita energia, persistência e disposição. Mas isso é tudo que Iara Lee, cineasta brasileira de origem coreana, nascida em 1966 e hoje radicada em Nova Iorque, tem de sobra. Ela percorreu uma longa jornada como produtora de cinema e festivais da área. Hoje é diretora e ativista. Seu trabalho visa a cobertura de notícias e debate sobre questões de extrema importância para a sociedade mundial. O cinema para ela é uma ferramenta capaz de impactar e realizar mudanças no público que o consome, ainda que seja de forma bastante seletiva e vagarosa.

No seu objetivo de incitar provocações que façam o espectador refletir e ser mais proativo no seu dia-a-dia em realizar mudanças que visem melhoras a todos, ela, em conjunto com outros colegas, deu início ao projeto “Culturas da Resistência”. Uma série de trabalhos audiovisuais documentais que almejam propagar informação, conhecimento e acima de tudo ativismo. De 1984 e 1989, ela foi produtora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Crédito: Danilo Arenas/Cultures of Resistance.

Em 1989 mudou-se para Nova York, onde fundou a empresa multimídia Caipirinha Productions, no intuito de explorar múltiplas formas de expressão artística e cultural. Os temas de suas obras englobam diversas temáticas, entre elas: a influência da alta tecnologia sobre a cultura de massa “Synthetic Pleasures” (1995) e a música eletrônica “Modulations” (1998). O projeto mais recente da realizadora é uma série de dois documentários sobre Burkina Faso. Em “Burkinabé Rising: A Arte da Resistência em Burkina Faso”, a diretora expõe o dia-a-dia de uma comunidade de artistas e cidadãos engajados, que estão a incitar mudanças políticas importantes neste país de pequeno território, localizado na África Ocidental.

Lee é também militante pela paz e realizou diversas iniciativas neste sentido como a Campanha Internacional pela Eliminação de Bombas de Fragmentação e o primeiro concerto da Filarmônica de Nova Iorque na Coreia do Norte, em 2008. Ainda na sua biografia estão experiências únicas, a exemplo de testemunhar o bombardeio israelense contra o Líbano, em 2006. Desde então ela vem apoiando e colaborando com projetos que visam a disseminação de uma cultura de paz e colaboração entre as pessoas como a campanha “Faça filmes, não guerra”.

Gravando um de seus tantos trabalhos na África sobre a cultura de resistência dos povos locais. Crédito: O Tempo.

Em 2010, ela participou da “Flotilha da Liberdade”, organizada pelo movimento Free Gaza, que tinha o objetivo de enviar uma de carga 10.000 toneladas de ajuda humanitária à Faixa de Gaza e protestar contra o bloqueio imposto por israelenses e egípcios na época. A flotilha foi atacada pelas forças israelenses. Lee foi primeiramente dada como desaparecida, até ser encontrada pelas autoridades de Israel. Em entrevista ao Koreapost, ela conta um pouco de sua trajetória no cinema e compartilha um pouca da sua visão sobre questões importantes da agenda Internacional.

Como foi o início desta trajetória?

Passei nove anos trabalhando na Mostra Internacional de São Paulo. Preferi ter esta experiência, do que ficar na faculdade de cinema da Universidade de São Paulo. Na época, achei que o curso tinha muita teoria e pouca prática. Na Mostra consegui aplicar parte das teorias que tinha aprendido. Fazia todo o trabalho que ninguém queria fazer. Tomei conhecimento de tudo que era necessário saber para melhor compreender como funciona um festival, o que é preciso para que ele ocorra. Trabalhava pela manhã, tarde e noite. Atualmente a minha vida não é muito diferente. Muitas vezes eu estou participando dos festivais e realizando trabalhos puramente burocráticos e chatos, distribuindo flyers, preparando kits de imprensa, estas coisas. Às vezes, as pessoas confundem e acham que sou a assistente e não a diretora do filme.

Crédito: João Meirinhos/Cultures of Resistance.

Após adquirir bastante conhecimento sobre os bastidores e o mercado de cinema resolvi dirigir. Então, falei com os meus pais e fui para Nova Iorque. Estudei na Universidade de Nova Iorque, mas também não gostei. Todo mundo lá queria ser um Martin Scorsese, queria fazer parte deste mundo comercial de Hollywood. Então, resolvi focar e terminar o curso, antes do período determinado pelo programa da faculdade. Consegui fazer tudo em dois anos. Além disso, também estudei filosofia. Neste período, fiz dois curtas-metragens que foram para festivais como Sundance. Meus filmes, desde o início, sempre tiveram uma linha mais autoral e experimental, tanto do quesito propriamente técnico de fazer cinema, quanto no conteúdo, nas histórias, nas mensagens que queria passar.

Como uma cineasta independente, que não se identifica tanto com o cinema comercial, faz para passar conquistar espaço em um mercado cinematográfico mundial tão monopolizado?

Pois é, eu não me sinto parte deste mundo mercadológico do cinema mesmo. No começo, meus filmes até tinham certo apelo mais comercial e eu conseguia participar dos festivais principais. Mas, quando fui me afastando desta lógica e abordando temas políticos mais delicados, até estes festivais que dizem abraçar o trabalho mais experimental, mais autoral, disseram não estar mais interessados no meu trabalho. Então tive de recomeçar. Assim, procurei outros tipos de festivais que vivem mais à margem deste sistema monopolizado e que são eventos de nicho como mostras e festivais sobre os direitos humanos, contra o fascismo, focados em questões ecológicas e etc.

Mais uma vez a minha filosofia de vida que diz ser importante saber transformar algo negativo em positivo ajudou neste momento. Não fiquei chorando porque era rejeitada pelos grandes festivais. Fui procurar alternativas. E vasculhei tanto este mundo que acabei formando uma rede de contatos bastante significativa, com organizações, com ativistas e figuras importantes que apoiam causas. Hoje qualquer filme que eu faço passa em 100 países por ano. Há muitos festivais no mundo, realizando trabalhos importantes e dando espaço para temáticas mais sensíveis, só que não tem a visibilidade dos maiores e comerciais. Os meus filmes passam em tudo que é lugar que se possa imaginar: em uma sala de cinema, em escolas, em um porão de algum lugar, na rua, ou na casa de alguém que almeja fazer uma reunião e discutir um tema. É assim somos vistos em vários países e centenas de cidades.

Vou aproveitar algumas questões que você mencionou e perguntar sobre o seu projeto “Culturas da Resistência” que aborda muitos problemas sobre a desigualdade social, econômica, a crise do meio ambiente e também sobre a importância da cultura para realizar transformações reais na sociedade. Como um filme e a cultura podem provocar tais transformações?

Eu faço filmes para os jovens, porque o futuro está nas mãos deles. Então, tento incitar uma reflexão e torná-los cidadão ativos, engajados e que visem mudar o atual cenário. Por isso, faço filmes documentários mais dinâmicos, com bastante cultura, música, com muitos cortes na edição, no objetivo de falar sobre direitos humanos e política de forma menos teórica e moralista. Procuro usar uma linguagem mais leve para tratar de temas densos e importantes. Então, as pessoas vêm assistir o filme pela música e acabam aprendendo o que se passa no Saara Ocidental, na Palestina, na Caxemira, no Congo, e são tocadas ao tomar conhecimento daquelas situações.

Crédito: Danila Ilyushchenko/Cultures of Resistance.

Creio que o cineasta precisa ter consciência e ser humilde, pois a pessoa não vai necessariamente ver o seu filme e se tornar ativista. Mas a partir do momento que eu planto sementes, de repente, estes frutos podem ser colhidos em outras gerações futuras. É um trabalho de formiga e um pouco incerto, porque você não sabe muitas vezes como o filme impacta os jovens de forma geral. Contudo, às vezes, há um retorno de alguém que diz ter conhecido a situação do Saara Ocidental pelo filme e se apaixonar pelo povo. A pessoa em questão passou a realizar campanhas nas Nações Unidas em prol da libertação do Saara Ocidental. São casos assim que surpreendem e fazem que o trabalho continue, apesar das dificuldades.

É o famoso dizer que instigar uma pessoa já é o suficiente, correto?

Sim, mas é preciso ser humilde. Muitas vezes as pessoas ao final do filme vêm falar comigo e dizer que ficaram super inspiradas. Então eu digo: “não basta apenas ficar inspirada, precisa ter ação. Não desapareça, fique em contato, vamos conversar pela mídia social”. Assim, fico fazendo divulgação dos filmes por estes canais.

Crédito: Cultures of Resistance.

Então você diria que o principal objetivo do “Culturas da Resistência” é instigar as pessoas a tomarem inciativas, não apenas informá-las?

Exato! Porque ser informado e educado não é o suficiente. É preciso pôr o seu conhecimento na sua ação diária. Não é preciso viajar o mundo. Seja ativo na sua cidade, no seu bairro, no seu país. Veja um exemplo: é preciso saber o que se está comprando, quem está oferecendo aquele produto, que responsabilidade tem determinada empresa. Caso se saiba de problemas, uma alternativa é boicotar companhias que não têm compromisso algum com o meio ambiente ou que abusam de seus trabalhadores. Ou mobilizar as pessoas da sua cidade para atuarem contra coisas que você acha injustas. É um processo difícil, eu sei. Em especial esta coisa de confrontar governos e grandes empresas. As pessoas têm medo de morrer, de perder o emprego, de ir para a prisão.

É difícil mobilizar multidões. Contudo, pequenos passos, como o ativismo de consumo, é algo totalmente possível, pois o mundo é controlado por conglomerados econômicos. A partir do momento que você sabe que este chocolate delicioso é feito com o trabalho escravo de crianças da Costa do Marfim, pare de consumi-lo. Procure outro produto que não tem este problema. Não compre água mineral da Coca-Cola, ou da Nestlé que estão usando, praticamente roubam e lucram com a água de mananciais de países pobres que não têm como se defender. Então, são coisas pequenas que não há desculpa, as pessoas podem fazer, elas podem ser ativistas.

No campo de refugiados saharauis em Tindouf, Argélia. Crédito: Twitter Iara Lee

E o cinema é a melhor forma de promover esta conscientização?

Olha, eu não vou mentir, há momentos de muita frustração, nos quais eu penso que, de repente, valeria mais a pena fazer outra coisa, para conseguir um resultado mais imediato. Mas cada um faz o que pode. Uns escrevem, outros fazem música, outros cinema, outros agricultura. Acho que todos fazemos parte de um mosaico. Somos limitados, mas se unirmos todas estas forças, cada um, na sua área, consegue ter um impacto na sociedade.

Gostaria de perguntar sobre uma questão pessoal. Você desejou voltar a Coreia do Sul um dia?

Meus pais eram coreanos e vieram para o Brasil nos anos 1960. Teve a Guerra da Coreia nos anos 1950 e depois, quando o país estava em condições na época ainda muito pobres, iniciou uma imigração grande dos coreanos. Minha família pensou no Brasil como um país grande, de clima bom, solo bom, acolhedor e foram todos de navio da Coreia para o lá. Eu nasci no Brasil e, apesar de muito tempo fora, sou culturalmente muito brasileira.

Uma época tive também este interesse de procurar as minhas raízes e fui para a Coreia do Sul. Quando cheguei na lá fiquei muito desapontada. Aquilo parecia mais uma colônia dos Estados Unidos do que a Coreia. Muito americanizado, muito ocidentalizado. As pessoas vivendo naquele capitalismo exacerbado. Fiquei chocada. Não encontrei a Coreia que buscava. Então, comecei a ter maior interesse pela Coreia do Norte. E acabei trabalhando mais com eles do que com a Coreia do Sul.

Iara Lee, cineasta ativista brasileira, fala com o Korea Herald antes do EBS International Documentary Festival, no edifício da Samsung Electronics a sul de Seul. Crédito: Claire Lee / The Korea Herald.

Ajudei a levar a Orquestra Filarmônica de Nova Iorque para o país. Fiz parte da companha da diplomacia através da música. O Ministério da Cultura da Coreia do Norte convidou a orquestra para se apresentar e eles aceitaram. Foi algo histórico, pois pela primeira vez, a bandeira da Coreia do Norte e dos Estados Unidos estavam no mesmo palco. Foi a primeira vez também que a mídia internacional pode entrar no país. E antes deste projeto também realizei trabalhos de agricultura, onde fiz um programa de doação de sementes, em razão dos problemas relacionados à fome que os país passou.

Normalmente sempre falam que o problema da Coreia do Norte é o governo autoritário. Porém, é também verdade que países como a Coreia do Norte, com o fim da União Soviética, tiveram de se readaptar aos novos tempos. E eles ainda hoje sofrem bloqueios econômicos que têm um impacto significativo em suas economias. 

O bloqueio econômico que os países do ocidente fazem contra estas nações é grave. Para você ter uma ideia, os aviões no Irã caem muitas vezes, por eles não conseguirem importar peças que não tem como fabricar internamente para a construção de suas aeronaves. Outro exemplo é a tecnologia hospitalar para doentes, ou alguma matéria prima que precisa ser importada e o bloqueio não permite. Então, é um sofrimento muito grande e sem falar que estes países são constantemente ameaçados, por quererem seguir uma ideologia diferente.

As demais nações acabam querendo passar por cima e exterminar quem não segue a mesma linha. Washington não está preocupado com o cidadão comum norte-coreano e o quanto ele vai sofrer sem ter isso ou aquilo em razão do bloqueio econômico. Então, se você quer uma forma alternativa de viver é preciso resistir. E a tendência é o país fechar-se cada vez mais.

O cinema sul-coreano atualmente está em voga. E é um cinema que não pertence ao chamado “centro cultural do mundo”. Ele não é proveniente da Europa, nem nos Estados Unidos. Mas não apenas a Coreia, outros países como a China, a Índia, o próprio Japão, que mantem sua influência cultural, estão bastante presentes e ganhando fãs ao redor do mundo. Como você analisa a Ásia reemergindo com um polo político, econômico e cultural?

Eu acho algo incrível, pelo fato que nesta questão podemos ver claramente a importância da cultura, até da própria indústria cultural, mesmo a mais comercial, mas que está, ou estava à margem do sistema. Quando a Coreia do Sul estava em baixa e fazia filmes com temática menos internacionais, as pessoas menosprezavam muito o país. Contudo, muito mudou após esta onda cultural sul-coreana, que não traz apenas o cinema, mas a música etc. No próprio Japão, os coreanos que eram vistos como gente de segunda classe, era precisa deixar a sua digital na alfândega para entrar no país, estão recebendo os japoneses fascinados com a cultura sul-coreana e que estão indo para a Coreia como objetivo de experimentar mais.

A Coreia é um país que reemergiu através da cultura. Porém, outros estão chegando e acho que serão ainda mais fortes. Veja a China, e a Índia. O poder econômico delas hoje é indiscutível. Culturalmente ainda não trabalharam o suficiente para propagarem suas bagagens culturais, mas creio que virão com uma força gigantesca no futuro também nesta área. E quando isso correr, penso que realmente teremos uma febre pela Ásia mesmo. A cultura é assim, está em constante movimento e mudança. Vamos lembrar o passado mais recente, quando todos queriam ir para os EUA, em razão da imagem que o cinema dos EUA criou. As pessoas formam uma visão idealizada a partir desta indústria.

E como será este mundo na sua opinião?

Será um mundo bastante diferente. Vamos analisar a África como exemplo. Atualmente há países como a Nigéria que estão desenvolvendo fortes indústrias cinematográficas regionais e tornando-se polos econômicos de cinema influentes e importantes. Então, hoje os africanos já não querem ver filmes apenas com gente da Europa, ou dos EUA. Eles agora podem ver filmes que tenham os africanos como protagonistas. E filmes feitos por eles. Creio que neste novo mundo vai ocorrer o inverso, os estadunidenses é que vão começar a ver filmes com pessoas que tem outros rostos e outras cores, outras línguas e outras culturas.

Você acha então que o mundo será mais como ele é na realidade. A diversidade mundial estará mais em evidência nas telas?

Acho que sim e é algo super importante ter mais africano, mais asiático, os próprios indígenas do mundo inteiro serem mais representados neste mundo da cultura pop. E com isso também espero que outras coisas sejam possíveis como a eliminar visto, passaporte. Gostaria de poder ao menos testemunhar um mundo em que todos possam enxergá-lo como fazendo parte dele, como uma casa apenas e que todos devemos estar unidos para salvá-la.

O mundo atual está passando por uma crise generalizada tanto no campo econômico, quanto no político e social. Esta era asiática poderá construir um mundo diferente, com uma estrutura de poder diferente, menos exploradora e um pouco menos desigual?

Nós humanos ainda temos esta coisa bastante arraigada de querer ser mais que o outro e assim eliminar o próximo. Este instinto capitalista que está presente há séculos, creio que ainda vai persistir por muito tempo. Contudo, a questão ecológica e a crise climática vão fazer com que as pessoas sofram mais e, assim, tenham de obrigatoriamente rever valores e atitudes. Não será possível viver como espécie se continuarmos neste mesmo paradigma. Então é uma mudança sistêmica radical que é necessária.

Gravando na Noruega documentário dos povos indígenas da Europa, os Sami. Crédito: Twitter Iara Lee.

Os jovens precisam abrir os olhos. Não dá mais para continuar neste capitalismo exacerbado, onde se produz e se consome absurdamente. Se usa e joga fora. Tudo e descartável e só se objetiva fazer dinheiro. O capitalismo não funciona e todos sabem disso, mas insistem com ele. O ser humano só muda quando a coisa explode mesmo, onde já nos encontramos em nível de sobrevivência. É algo triste. E o meu trabalho de formiga vem neste sentido de tentar alertar e motivar as pessoas a saírem da sua zona de conforto e fazer algo mínimo que seja para evitar que as coisas fiquem insuportáveis. Parece que há algo autodestrutivo em todos nós.

Quais os seus planos futuros?

Acabei de filmar em Chernobyl, na Ucrânia. O local que depois de anos abandonado em razão do acidente nuclear está voltando à vida. As pessoas voltaram a frequentar a floresta e entrar em contato com os animais. Diversas atividades culturais e esportivas estão sendo realizada lá atualmente. Assim, aproveito esta situação de Chernobyl hoje para relembrar o desastre nuclear. Este foi o primeiro e deveria ter servido de lição, mas outros acidentes continuam ocorrendo, veja Fukushima e que o governo não tomou as mesmas providências que o ucraniano na época. Em Fukushima o material radiativo continua indo para o oceano.
Além deste trabalho, fiz outro documentário no Lesoto, um enclave da África do Sul, onde os jovens que não têm muitas oportunidades utilizam da criatividade para conseguir sobreviver.

Crédito: Cultures of Resistance.

Fiz outro filme sobre a agroecologia em Guine Bissau, onde as mulheres estão no comando da agroecologia. Este assunto, por sinal, é uma extensão do trabalho que fiz em Burkina Faso. Acabei de voltar do Malawi, em que fiz vários curtas sobre artistas que usam da arte e cultura para ajudar hospitais, orfanatos, a combater a malária e ajudar os refugiados das guerras. É o uso da arte e cultura como instrumento de ativismo humanitário.

Por fim, estou editando um documentário também sobre os indígenas da Europa, que são super desconhecidos. Fomos ao norte da Suécia, da Finlândia, da Noruega e uma parte da Rússia. Estes indígenas também estão lutando, pois os governos destes países estão tomando medidas muito prejudiciais ao meio ambiente.

São trabalhos que abordam diversas causas pelo mundo, mas que na essência têm o mesmo objetivo, questionar a forma individualista atual que levamos a vida. Não basta apenas pensar em mim e na minha família. É preciso dar sentido maior ás pessoas de que a solidariedade para com todos é a única forma de prolongarmos a nossa existência e evitarmos a nossa eliminação como espécie. E desta solidariedade que vem a esperança de fazer algo melhor, mais justo, mais igual, onde todos os seres, não apenas os humanos, estão inseridos.

Fonte: Texto originalmente publicado no site do Koreapost e também disponível no site da Revista Intertelas.

Kim Ji Young, nascida em 1982: o fim do super-heroísmo e o poder das mulheres reais

Por Alessandra Scangarelli (Resenha completa em InterTelas/KoreaPost)

Se formos pensar como o imaginário da sociedade atual tem das mulheres, no que se considera ideal e digno de aplauso é algo próximo ao de uma “Mulher Maravilha”, uma figura, por sinal, anglo-saxã e branca… Super-heróis, masculinos, ou femininos, ou qualquer outro gênero que queiram listar, pouco têm em comum com as pessoas reais e o seu dia-a-dia. É impossível para o humano ser um profissional, um cônjuge, pai, ou mãe, amante, modelo de beleza e saúde exemplar. Mas é justamente isso que se exige das mulheres. Como se fossemos capazes de fazer tudo sozinhas e o pior é que acreditamos nisso e seguimos este absurdo da mulher perfeita para depois apenas sofrer de ansiedade, ou depressão.

O filme “Kim Ji Young: Nascida em 1982” (2019), dirigido por Kim Do Young, baseado no livro de Jo Nam Jjoo, de forma indireta, incita tal debate. Estrelada por Jung Yu Mi que vive Kim Ji Young na trama e Gong Yoo, que interpreta seu marido Jung Dae Hyun, esta produção cinematográfica não se curva de assuntos espinhosos, ainda que o faça de forma sutil e muito sensível. A personagem principal trabalha em uma agência de relações públicas. Porém, um dia casa e tem uma filha, tendo que deixar o seu emprego. A vida segue o seu curso normalmente, até que, de repente, Kim Ji Young começa a falar como sua mãe, sua irmã mais velha. Do nada, transforma-se e passa a ser outra pessoa. Estaria ela possuída? Sofreria ela de dupla personalidade? O que teria acontecido?

Antes de mais nada é importante salientar que o interessante de um filme que aborda tal temática, de tantos que já foram feitos sobre o mesmo assunto ao redor do mundo, é a sua capacidade de levar um tema polêmico como este para situações cotidianas, para o ambiente privado e íntimo do lar, onde a correlação de forças entre marido e mulher definitivamente ocorre. Alguns diriam que tal situação na Coreia é diferente de outros países do ocidente, onde as mulheres não são necessariamente obrigadas a deixar seus empregos.

Primeiro, que tal contexto do filme pertence à década de 1980, onde tal situação ainda ocorria. Muito mudou na Coreia rapidamente em alguns poucos anos. No entanto, muito ainda dos velhos costumes permanecem. E pior, com as transformações sociais, as coreanas passaram a acumular tarefas, assim como qualquer mulher dos países no ocidente. É interessante perceber que aqui não se contempla a ideia utópica da maternidade idílica, paradisíaca, como muito afirmam por aí, mas também não temos o inferno na Terra. A personagem principal luta diariamente com as dificuldades de criar uma criança, com o trabalho exaustivo que demanda. No entanto, diferente da maioria, Kim Ji Young rebela-se de forma bastante inusitada, inconsciente, através da “incorporação”, ou no deixar falar uma voz que ela nem sabe que tem.

Fonte: IMDB

Ela enfrenta quem a julga, quem almeja dizer-lhe o que deve fazer ou não, confrontando até os mais velhos, situação complexa em uma sociedade como a coreana tão hierarquizada e tão submissa à ideia de respeito aos mais velhos, mesmo que os idosos usem disso para oprimir, ou livremente extrapolarem seus direitos sobre os mais jovens. Tal atitude dela intriga seu marido, que busca compreender e ajudá-la. Uma figura já digamos diferente, com uma mente mais aberta do que os homens da sua época. A maioria provavelmente já teria saído e abandonado a família, como até hoje, é normal.

O diferencial nos protestos desta nova persona que Kim Ji Young assume é que ela deixa claro não ser obrigada a assumir todas responsabilidades que lhe são impostas como naturais. Afinal, ela também tem anseios para além da casa e da família e assim praticamente obriga seu marido, mãe, irmão e tal a auxiliarem-na. Fica claro, por exemplo, a falta de atenção do pai, que facilita tudo para o irmão dela e o mima, enquanto Kim Ji Young para ele praticamente não existe.O interessante aqui é justamente esta atitude de não incorporar a heroína e tentar fazer tudo sozinha, mas transformar o seu ambiente e as pessoas ao seu redor. A dupla de atores principais têm atuações primorosas, de pessoas comuns que tentam lidar com seus problemas mais íntimos em meio a uma sociedade que pouco compreende, ou quer compreender. Os atores que interpretam papéis secundários fornecem o suporte necessário para que o casal de atores principal possa dar sua melhor performance. A química profissional entre Jung Yu Mi e Gong Yoo não precisa de grandes apresentações. Velhos conhecidos de outras produções como “Invasão Zumbi” (2016), de Yeon Sang Ho e “Silêncio” (2011) de Hwang Dong Hyuk, eles deixam claro que juntos na tela têm muito a dizer, a mostrar e comover o espectador.

Jung Yu Mi interpreta Kim Ji Young. Crédito: Cinema Escapist.

A direção de Kim Do Young traz a sutileza e complexidade psicológica que o enredo necessita, sustentado na escrita do roteiro adaptado que ela compartilha com Yoo Young A e com a autora do livro Jo Nam Joo. Não há falas demais, nem explicações desnecessárias, nem discurso ativista na história. A diretora deixa através das cenas e das atuações que a trama flua e por si deixe que as questões e suas polêmicas livremente sejam manifestadas ao espectador. Deste filme, pode-se pensar o quanto estamos realmente transformando o nosso cotidiano.

Os homens de nossa época estão cientes do papel que têm na criação dos filhos e nas atividades domésticas? O meio de trabalho ainda tão masculinizado e pouco preparado, até fisicamente, para as mulheres que engravidam, ou têm filhos, está sendo modificado? Mulheres grávidas têm a necessidade de alguns cuidados sim, como o meio de trabalho adaptou-se às necessidades delas? Isso não seria importante levar em conta, em especial em uma sociedade com problemas graves de natalidade? E quando as crianças nascem há creches nas empresas para os pais, ambos, trabalharem e estarem próximos dos filhos? Existem benefícios para formar uma família? São questionamentos que nem o Feminismo hoje realiza ou leva como uma bandeira integral sua. Se há falta de igualdade nos âmbitos empresariais mais sofisticados, imagina nas fábricas, na realidade das trabalhadoras braçais, de “chão de fábrica”, como diz o jargão popular. Reflexões deste tipo são necessárias. Assim, Feminismo sem consciência de classe e atenção às questões mais particulares do mundo feminino torna-se, na opinião desta autora, ineficaz para as massas.

Talvez o que muitos grupos dentro do Feminismo, não todos obviamente, estejam fazendo sem saber é apenas incorporar à estrutura masculina do sistema algumas mulheres, que acabam virando chefes com medidas praticamente iguais, ou tão opressoras como a de um chefe homem. E até isso o filme em questão salienta. A chefe de Kim Ji Young é compreensiva com ela, com seus problemas, não a descarta nem por medo de competição, nem pela sua aparente falta de produtividade e utilidade momentânea…

Crédito: Medium.

Aqui também temos um apelo à saúde não apenas física, mas mental, emocional dos empregados como algo primordial para que a estrutura do trabalho, do sistema empresarial possa funcionar melhor. Na busca da superação das várias desigualdades que o sistema atual produz, o universo feminino e suas questões particulares necessitam ser observados por todos e estarem no centro do debate. Só assim antigos padrões e injustiças serão realmente superados.

Ficha técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Kim Do Young | Roteiro: Jo Nam Joo (livro), Yoo Young A, Kim Do Young | Atores: Gong Yoo, Jung Yu Mi, Kim Mi Kyung  | Duração: 1h58 |  Ano: 2019. 

MidiÁsia entrevista Hugo Katsuo, diretor de “O Perigo Amarelo nos Dias Atuais” e “Batchan”

Por Daniela Mazur

Em meio ao debate sobre a população amarela brasileira nesse momento em que o coronavírus está em voga, é necessário, mais do que nunca, abordar representações e ideias concretas sobre a pauta brasileiro-asiática aqui. Em entrevista concedida ao MidiÁsia, o graduando em Cinema&Audiovisual da UFF e diretor e criador dos documentários “O Perigo Amarelo nos Dias Atuais” (2018) e “Batchan” (2020), Hugo Katsuo fala sobre questões relacionadas ao universo de discriminação contra amarelos no Brasil, a concepção da ideia de “minoria modelo” e a construção do perigo amarelo como parte essencial para entendermos as conotações racistas sofridas por essa parcela de brasileiros, especialmente dentro do contexto atual em que há a tentativa de racializar o Covid-19 como um “vírus chinês”.

Hugo Katsuo, diretor de O Perigo Amarelo nos Dias Atuais e Batchan. Crédito: Mariana de Lima.

“O Perigo Amarelo nos Dias Atuais” e “Batchan” falam muito sobre a experiência do amarelo no Brasil, mas também apresentam nuances de diferentes perspectivas de brasilidade. Como essas duas obras dialogam? O que você acredita que elas apontam na nossa sociedade?

Hugo Katsuo: Ambos falam sobre a vivência amarela no Brasil, mas trilham caminhos bastante diferentes. Acredito ser mais fácil descrever as diferenças entre eles do que as semelhanças. Quando dirigi “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais”, eu estava pensando em um documentário que fosse quase como um guia didático sobre o que seria essa tal de “militância amarela” e, portanto, a linguagem dele foi feita somente a partir de entrevistas que abarcavam desde reflexões teóricas, acadêmicas, até o relato de experiências individuais. Em outras palavras, este filme foi feito para auxiliar a divulgação do movimento amarelo e servir de material para pesquisas, auxiliando pesquisadores dos estudos asiáticos e/ou asiático-brasileiros. “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais” foi idealizado como um documentário explicitamente militante.

Cartaz oficial de “O Perigo Amarelo nos dias atuais” (2018). Crédito: Ing Lee.

O “Batchan”, por outro lado, não teve essa pretensão. Eu pensei no filme, inicialmente, como uma forma de me aproximar da minha avó, que é a minha principal referência de ancestralidade, e, sobretudo, como forma de preservar a sua memória. É claro que acredito na preservação da memória como uma forma de militância, mas não foi no intuito de fazer um cinema com uma militância explícita que eu dirigi este curta-metragem. E isso influenciou muito a linguagem que eu utilizei nele. “Batchan” é um filme muito mais pessoal e fala não somente sobre o percurso da minha avó em relação à sua espiritualidade, mas também o meu percurso em busca de uma ancestralidade. Ambos os filmes, entretanto, buscam um pertencimento, ainda que partindo de percursos bem distintos.

Cartaz oficial de “Batchan”. Crédito: Mariana de Lima.

Mesmo sendo ainda graduando, você já produziu obras de destaque que estão circulando nos circuitos de debates raciais, especialmente dentro dos espaços asiáticos-brasileiros. Como foi a construção da sua maturidade profissional e de indivíduo para chegar a produção desses conteúdos?

HK: Comecei a estudar sobre questões amarelas um pouco antes de entrar para a graduação e já ingressei no curso de Cinema & Audiovisual com a pretensão de dirigir “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais”, mesmo que, na época, eu pensasse esse documentário de outra forma. Inicialmente, queria que o filme fosse sobre imigração japonesa e, depois de entrar em contato com o tema da representatividade, queria que fosse feito a partir de relatos de artistas amarelos no Brasil. Em 2017, entretanto, fui a São Paulo e participei de uma reunião entre os membros do Perigo Amarelo, do Asiáticos Pela Diversidade e da Plataforma Lótus. Conversamos sobre diversas questões, entre elas, sobre como havia um entendimento muito superficial do que essa militância propunha e reivindicava. Foi nesse momento que mudei radicalmente a proposta do documentário e ele se tornou um filme sobre a militância amarela no Brasil.

Trecho da entrevista de Felipe Higa no filme “O Perigo Amarelo nos dias atuais”.

Dirigi “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais” no começo de 2018, eu tinha 18 anos na época. Tenho 20 anos agora e estou para fazer 21 no final do mês. E muita coisa mudou. Atualmente, eu delimitaria outros recortes temáticos e talvez focasse menos em questões como representatividades, mas sem excluí-las. Amadureci muito ao mesmo tempo em que a própria militância amarela também amadureceu. No final de 2018, quando exibi pela primeira vez o filme, ele já estava, de certa forma, datado. Em termos de amadurecimento profissional, acho que estou no processo de encontrar minha própria linguagem cinematográfica e acredito que “Batchan” foi um filme que me proporcionou muito aprendizado nesse sentido. Com uma equipe muito reduzida e querida, tive a oportunidade de brincar esteticamente com o documentário, apesar de já achar que eu poderia ter arriscado mais.

Dentro da perspectiva de raça, como foi a sua trajetória de compreensão pessoal como brasileiro amarelo? Como o racismo se apresentou para você nesse processo?

HK: Lembro até hoje que estava conversando com a minha avó materna, que não é nipo-brasileira, sobre o meu avô (nipo-brasileiro) que faleceu antes de eu nascer. Ela comentou comigo sobre algumas perseguições que ele sofreu durante a infância e adolescência. Não entendi muito bem quando ela disse que o Estado confiscou os bens da família do meu avô e, por isso, comecei a estudar sobre imigração japonesa. Descobri, então, sobre as perseguições que esses imigrantes e filhos de imigrantes passaram e sobre o debate em torno da entrada ou não dos asiáticos amarelos no país. Mas, até então, eu ainda não tinha adentrado na dimensão racial e acreditava que, por eu não ser negro, eu era branco.

Frame de “Batchan” (2020), documentário de Hugo Katsuo.

Em uma aula de História, no ensino médio, estávamos estudando as políticas imigratórias no governo Vargas e o professor comentou que elas eram contra a entrada de imigrantes “não-brancos” no país. Lembro de ter levantado a mão e falado: “e contra a dos japoneses também”. O professor, então, respondeu: “todos os não-brancos”. Foi ali que comecei a pesquisar sobre racismo contra amarelos no Brasil e achei pouquíssimo material. Posteriormente, conheci, através do Hugo Noguchi, a página do Perigo Amarelo e descobri que tinham outras pessoas pautando essas questões também. Acho que vale ressaltar que, por mais que eu achasse que era branco, eu já tinha consciência de que eu era diferente e que não me tratavam da mesma forma que os meus amigos que eram, de fato, brancos. As piadas e os estereótipos raciais sempre me incomodaram, mas até então eu não sabia dar nome a esse incômodo. Lembro que durante a minha infância e adolescência essas piadas racistas vinham não só de outros alunos como também de alguns professores. Entender os processos pelos quais passei e ainda passo foi muito importante para aprender a me impor em situações como essas.

O fato de ser asiático-brasileiro tá inscrito nos seus trabalhos, como você define hoje a presença dos corpos amarelos na mídia brasileira? Como a representação é importante para essa parcela da sociedade?

HK: Acredito que há escassez de representações amarelas no audiovisual brasileiro. Admito que tenho, atualmente, um pouco de preguiça dos debates em torno de representatividade porque acho que eles tomam um viés muito superficial e, por vezes, flertando com o neoliberalismo. Não acho que a representatividade por si só mude as coisas. Mas acho que pensar em novas práticas representacionais é extremamente importante no processo de humanizar corpos racializados. Precisamos urgentemente criar novos repertórios imagéticos, novas narrativas, que tirem grupos não-hegemônicos do lugar que foi imposto a eles. Acredito que trazer à tona novas representações, mais humanas e menos estereotipadas, potencializa mudanças. Temos, entretanto, que tomar cuidado em achar que a mudança termina aí. Meu trabalho parte muito de tentar afastar essas narrativas racializadas de contextos brancos, despir elas de estereótipos, criar espaços de pertencimento e preservar memórias.

Captura de “Batchan” (2020) com foco em Luiza Okabayashi, avó de Hugo.

O que é ser amarelo no Brasil nos dias de hoje? Quais elementos da sua realidade como homem racializado mudaram ou se mantiveram nos últimos anos no nosso país?

HK: A minha perspectiva em relação às mudanças que ocorreram nos últimos anos em relação a ser um homem amarelo no Brasil está muito relacionada às minhas pesquisas acadêmicas nas quais estou procurando investigar de que forma a entrada do soft-power sul-coreano mudou a percepção, em relação às dinâmicas de desejo e desejabilidade, sobre nossos corpos. Até pouco tempo atrás, eu era visto como indesejável e, de uma hora para outra, comecei a perceber pessoas me fetichizando racialmente. Não sei ainda se os estereótipos em torno do corpo do homem amarelo mudaram, mas, se não mudaram, com certeza o olhar sobre eles mudou. Inicialmente, isso parece inofensivo ou, até mesmo, uma mudança positiva. Mas, se entendermos o fetiche racial como um desejo baseado na objetificação da raça, ele causa danos aos corpos que são fetichizados porque desumaniza eles.

Existe certa invisibilidade da presença amarela no Brasil? Pela sua perspectiva, como os debates sobre raça, racismo e xenofobia estão se apresentando hoje dentro da comunidade asiática-brasileira e na mídia?

HK: Até pouco tempo atrás, acredito que existia uma grande invisibilidade dessa parcela da população brasileira. Atualmente, por mais que o debate ainda esteja muito centralizado em São Paulo e em certas bolhas da internet, percebo que a temática da discriminação contra amarelos cresceu bastante. Isso diz muito, a meu ver, sobre privilégios de classe também. O movimento asiático-brasileiro se configura, até onde eu sei, em 2015, com a criação da página do Perigo Amarelo. Em cinco anos já conseguimos trazer esse debate para muitos espaços midiáticos. Isso se dá, sobretudo, porque foi permitido que nós ocupássemos esses espaços, graças à nossa rápida ascensão social e econômica – que é um privilégio da minoria modelo.

Ilustração de Ing Lee para o filme “O Perigo Amarelo nos dias atuais”.

O asiático-brasileiro considerado como “minoria modelo” é percebido também como perigo amarelo ou isso muda dentro da perspectiva do contexto político-social? Quais são as peças que ditam esse jogo?

HK: Podemos ser percebidos como a minoria modelo, mas, às vezes, somos lidos como o Perigo Amarelo. Isso está muito em evidência nos últimos dias, com a racialização do coronavírus enquanto um “vírus chinês”. Mas antes disso já podíamos perceber um pouco dessa dinâmica. Por mais que sejamos vistos como uma minoria inteligente, esforçada e trabalhadora, também somos vistos como perigosa. Por exemplo, justamente pelo estereótipo da minoria modelo somos entendidos como uma ameaça em relação a “roubar” empregos ou vagas nas universidades. Se vamos ser lidos como o perigo amarelo ou como a minoria modelo, depende muito do contexto em que estamos inseridos e isso vai ditar as violências que vamos sofrer. Mariana Akemi, no documentário “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais”, comenta que ela é tratada de uma forma quando está na faculdade e de outra completamente diferente quando está na barraca de pastel dos pais. Acredito que haja aí também uma dimensão de classe.

Trecho da entrevista de Mariana Akemi no filme “O Perigo Amarelo nos dias atuais”.

É óbvio, por exemplo, que, na maior parte do tempo, serei tratado como a minoria modelo por ser um nipo-brasileiro de classe média alta inserido num contexto artístico e acadêmico. Em contrapartida, um imigrante chinês que trabalha numa lanchonete vai ser tratado como o perigo amarelo e sofrer muito mais agressões do que eu. É importante, portanto, que a gente comece a olhar cada vez menos para o próprio umbigo e começarmos a construir, de fato, pontes de solidariedade antirracista. Isso, entretanto, só vai acontecer se nos dispusermos a perder alguns privilégios que nos foram concedidos. Só vai acontecer se abandonarmos a minoria modelo e assumirmos o papel de perigo amarelo.

Quais são os seus planos para próximos trabalhos? Quais perspectivas da presença amarela no Brasil você ainda tem interesse de abordar e colocar em voga nos debates de raça no país?

HK: Estou com dois projetos audiovisuais para serem feitos. O primeiro é uma ficção LGBTQ, que será protagonizada por Nícolas Tadashi e Ciana Lopes. Nele, não entro muito nas dimensões raciais, penso mais a partir de questões de sexualidade e gênero. A minha ideia é mostrar esses corpos LGBTQ+ a partir da dor de um término, deixando a dor das violências cotidianas causadas pela LGBTQfobia em segundo plano. Os dois personagens que acabaram de terminar seus respectivos namoros começam um extenso diálogo sobre a experiência amorosa, a morte e a linguagem. A morte tem um viés mais simbólico, mas ganha também, por vezes, uma dimensão literal a partir do momento em que dialogam também com a morte das vítimas de LGBTQfobia. Mesmo este não sendo o foco do roteiro, resolvi não ignorar essa realidade. O meu outro projeto, que acredito que vá demorar mais tempo para ser feito por motivos financeiros, também é LGBTQ, mas é um documentário experimental, muito influenciado pelo filme “NEGRUM3”, de Diego Paulino, que vai trazer à tona o debate sobre LGBTQs amarelos no Brasil. Já no âmbito acadêmico, pretendo continuar minha pesquisa sobre pornografia e relações raciais no mestrado.

Para encerrar, quais canais, páginas, coletivos você recomenda para aqueles que se interessam em aprofundar seu entendimento sobre questões amarelas no Brasil?

HK: Recomendo muito o blog OutraColuna no qual são postados vários textos produzidos pela militância asiático-brasileira. No youtube, não tenho como não citar o canal do Leo Hwan. Para além disso, recomendo a leitura de pesquisadoras como Lais Miwa Higa e Marcia Yumi Takeuchi. 

Vídeo do canal Leo Hwan. Crédito: Leo Hwan.