O consumo do audiovisual japonês foi o centro de debate em live do MidiÁsia, em parceria com a ANBEHCJA-ICBJ

Ontem, 1 de julho, o Grupo de Estudos MidiÁsia da Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com a Academia Nipo-Brasileira de Estudos da História e Cultura Japonesa do Instituto Cultural Brasil-Japão (ANBEHCJA-ICBJ) realizou a live “O consumo do audiovisual japonês em tempos de pandemia” pelo Facebook do MidiÁsia. A iniciativa contou com a participação das pesquisadores Krystal Urbano, Mayara Araujo e Mateus Nascimento. A live teve o objetivo de divulgar a área de estudos do pop midiático japonês.

Durante o debate foram analisados os animes Akira, Aggretsuko e Dorohedoro, doramas e o cinema japonês. Em específico sobre Akira, os especialistas enfatizaram o caráter distópico e apocalíptico desta produção e destacaram os contrastes na forma de consumo deste anime no anos 1980 com as atuais, que ocorre via Netflix, fazendo referência à ideia de nostalgia.

Sobre Aggretsuko, os debatedores realizaram um vinculo entre o anime e a identificação com o cotidiano. Sobre os filmes, salientaram a associação do cinema japonês com a ideia de um cinema clássico, em razão dos cineastas deste país terem conquistado espaço no ocidente, em especial: Akira Kurosawa e Yasujiro Ozu. Produções atuais como Linking Love (que trata de uma viagem no tempo para os anos 1990 e traz elementos do pop japonês da época como idols da moda e doramas da época) e Tokyo Monogatari (disponível pra ser visto no youtube até semana que vem) foram também, brevemente, analisados pelos pesquisadores.

Sobre doramas, abordaram o consumo das séries japonesas no Brasil que abriu portas para outros países asiáticos com formatos diferentes como a Coreia, que tem um catálogo mais expressivo em plataformas como o Netflix. Tokyo Love Story, segundo os participantes da live, desenvolveu o gênero trendy drama, já as emulações dos outros países asiáticos saíram desse gênero. Por fim, os reality japoneses também tiveram destaque, em especial os produzidos pela Netflix (Real Love, Ainori e Terrace House) que fornecem ideias mais plurais sobre o Japão enquanto nação, para além de um Japão imaginado. Para assistir a live na integra, acesse o link abaixo.

live O audiovisual japonês em tempos de pandemia

O MidiÁsia, em parceria com a Academia de estudos da História e Cultura japonesa do ICBJ, convida para essa live na quarta-feira, aqui na página do MidiÁsia! Nossas pesquisadoras Mayara Araujo e Krystal Urbano vão conversar um pouquinho sobre o consumo do audiovisual japonês durante a pandemia de COVID-19! 🙂 A mediação será realizada por Mateus Nascimento, também pesquisador da casa!Marquem na agenda e venham participar!!

Posted by MidiÁsia on Wednesday, 1 July 2020

Tokyo Monogatari: Sim, às vezes a vida é decepcionante mesmo

Por Mayara Araujo

Em 1953, o cineasta japonês Yasujiro Ozu encerrava a “trilogia Noriko” com a aclamada atriz Setsuko Hara – uma espécie de “princesinha do Japão”, cujo legado continua sendo reconhecido até a atualidade – com a sutil e fascinante história de Tokyo Monogatari. No Brasil, o filme ficou conhecido como “Era uma vez em Tóquio”, que é facilmente encontrado para assistir online com legenda em português, inglês ou sem legenda em plataformas de streaming como o Youtube. Com poucos cenários e nem tantos diálogos assim, Tokyo Monogatari nos brinda com um emaranhado de emoções tenras e que, sem dúvida, nos colocam para questionar o quão satisfeitos estamos com a vida dinâmica e atarefada dos séculos XX e XXI. 

Tokyo Monogatari conta a história de um casal de idosos que viajam para a efervescente Tóquio do pós-guerra para reencontrar seus filhos adultos. Ao chegar lá, percebemos que esses filhos se tornaram ocupados demais com suas próprias vidas e rotinas de trabalho para que reservassem um pouco de seu tempo para receber os pais de forma apropriada. Esse suposto descaso é brutalmente contrastado com o carinho afetuoso de sua noras e seu genro, causando um certo incômodo desgostoso no espectador. 

É curioso que em tempos de pandemia e incertezas como estamos enfrentando agora, procuraremos apreciar um filme que nos traz um sentimento conflitante, um pouco amargo e um pouco doce, mas que inevitavelmente nos arranca um suspiro pesaroso acompanhado, mais ao término da narrativa, de um sorriso triste. Tokyo Monogatari não arrancará lágrimas do espectador, pois não se trata de uma narrativa embrulhada em uma dose considerável de melodrama e do desgastante palpitar causado por reviravoltas típicas de diversas histórias. Esse filme nos convida a refletir sobre nossas relações com nossos pais e não nos deixará mais tristes, mas certamente finalizamos essa experiência nos sentindo menos felizes. Como a filha mais jovem desse casal de idosos, Kyoko (Kyoko Kagawa) bem sintetiza mais ao final da trama: não é decepcionante a vida? Sim, Kyoko. Eu acho que ela é.

Tokyo Story (1963) | Tokyo story
Legenda: Diálogo em Kyoko e Noriko. Crédito: Pinterest

Embora possa ser um pouco datada, a premissa só parece fazer sentido por ser justamente ambientada na década de 1950. Esse é também o ponto mais alto do filme. Como espectadores brasileiros, acostumados a associar o Japão a um país vibrante e repleto de tecnologia, ver as breves cenas da Tóquio de 1953 nos direciona para um retorno a um tempo irrecuperável. O próprio preto-e-branco das imagens reforçam essa ideia de um passado que hoje poderia até mesmo ser ficcional. A frieza com que interpretamos as relações humanas do filme também me parecem ser características de um distanciamento físico e desprendimento emocional que somente um retorno ao passado poderiam justificar. Mas seriam, de fato, frias as relações? Talvez a gente precise de um pouco mais do que o nosso olhar ocidentalizado para compreender que embora pareça incompreensível, as relações sustentadas no filme parecem ser baseadas em um afeto melancólico.

Shukichi (Chisu Ryuu) e Tomi Hirayama (Chieko Higashiyama) moram na cidade de Onomichi com sua filha mais nova, Kyoko Hirayama. Em dado dia, o casal faz uma longa viagem de trem para visitar os seus outros filhos: Koichi Hirayama (So Yamamura) – médico – e Shige Kaneko (Haruko Sugimura) – dona de um salão de beleza -, além de sua nora Noriko (Setsuko Hara), esposa de seu filho Shoji, falecido durante a segunda guerra. Existe também um quinto filho, Keizo (Shiro Osaka), que mora na cidade de Osaka. 

Ao chegarem em Tóquio, Shukichi e Tomi se sentem como um incômodo, visto que acabam dependendo exclusivamente do apreço de Noriko, a nora, para conhecer Tóquio e conversar com eles. Seus filhos de sangue, no entanto, não parecem estar muito felizes com a chegada dos pais. Para remediar a situação conturbada, Shige e Koichi usam suas economias para enviar os pais em uma viagem para Atami, uma cidade não muito distante de Tóquio, conhecida por suas fontes termais. Assim, o casal poderia descansar e passear na praia, o que os deixariam mais entretidos e ocupados. Entretanto, a situação não é tão relaxante em Atami quanto se esperava.

Tokyo Story (1953) | The Criterion Collection
Legenda: Tomi e Shukichi em Atami. Crédito: criterion.com

Cansados da barulheira do hotel, Shukichi e Tomi retornam para a casa da filha Shige, que agora se encontra ocupada com uma pequena reunião “de negócios”. Tendo em vista que não havia mais espaço para eles naquele lar, Tomi decide se hospedar uma noite na casa da nora e Shukichi sai para beber com um antigo conhecido que havia se mudado para a capital anos atrás. Nessa situação desconfortável, Tomi aproveita para conversar com Noriko e sugerir que a nora deveria encontrar um novo marido e Shukichi passa mais tempo do que o desejável em um bar e volta para o salão/casa de Shige arrastado pela polícia, completamente bêbado, intensificando a sensação de que os pais estão deslocados.

Percebendo que não há muito espaço para os dois em Tóquio, o casal decide voltar para sua cidade natal. Já na estação de trem, Tomi percebe que essa será a última vez que encontrará sua família, visto que a viagem é longa e cansativa, e eles não têm mais idade para ficar indo e vindo. Assim, a despedida dos filhos é repleta de melancolia. Não por menos, os dois precisam parar abruptamente em Osaka durante o retorno para a casa, uma vez que Tomi não se sentiu muito bem durante a viagem. Ao chegar em Onomichi seu estado de saúde já se encontra bastante debilitado, o que leva Shukichi a enviar telegramas para os filhos, avisando que a mãe poderia falecer em breve.

Koichi, Shige e Noriko vão imediatamente para Onomichi, chegando a tempo de se despedir da mãe, embora estivesse em coma. Keizo, no entanto, não consegue chegar a tempo. Amarrando a lógica do filme, Keizo estava incomunicável quando o telegrama foi enviado, pois estava em uma viagem de trabalho e não havia como receber a informação. “Eu não fui um bom filho”, sintetiza os sentimentos de Keizo durante o funeral da mãe. Em seguida, Shige, Keizo e Koichi decidem ir embora, deixando novamente para trás o seu passado e seu pai, agora sozinho. No entanto, a nora Noriko decide ficar mais um tempo e ajudá-lo no que for preciso. 

Tokyo Story (1953) directed by Yasujirō Ozu • Reviews, film + cast •  Letterboxd
Legenda: Noriko e Shukichi. Crédito: letterbox.com

A filha caçula, Kyoko, conta para Noriko que se sente frustrada e indignada com o egoísmo de seus irmãos. Aqui, talvez pela primeira vez na narrativa inteira, Noriko expressa sua opinião verdadeiramente, ao dizer para Kyoko que ela entenderá quando for mais velha e que não se trata de falta de consideração ou egoísmo. É simplesmente normal que os filhos se tornem ocupados e se distanciem de seus próprios pais. “Não é decepcionante a vida?”, questiona Kyoko, antes de partir para o trabalho, trazendo um sentimento definitivamente agridoce para as complexas relações humanas.

Ao fim, antes de Noriko voltar para Tóquio, Shukichi revela que sua esposa andava preocupada com o fato de Noriko não ter casado de novo e que a considerava uma “filha” muito boa. Também compartilha que a gentileza de Noriko foi, inclusive, superior à de seus próprios filhos, mesmo sem ter o mesmo sangue. Ele a incentiva a não viver a vida de forma solitária e casar novamente, deixando o sogro – e seu passado – para trás.

Talvez minhas palavras não capazes de refletir sutileza o suficiente para retratar o pesar ironicamente leve que essa obra de arte dirigida e co-roteirizada por Ozu nos apresenta. Como a vida nos obriga a moldar as nossas relações interpessoais? O quanto as dinâmicas da vida são capazes de nos afastar de nossos berços para que persigamos objetivos próprios e nos ceguem para o que fica para trás? Tokyo Monogatari traduz brilhantemente um sentimento agridoce de obrigação e abandono que nem sequer tem um nome.

Setsuko Hara and Chishû Ryû in Tôkyô monogatari (1953)
Crédito: IMDB

Ficha técnica:

País: Japão | Direção: Yasujiro Ozu | Roteiro: Yasujiro Ozu e Kogo Noda | Atores: Setsuko Hara, Chieko Hagashiyama, Chisu Ryuu, Haruko Sugimura, Kyoko Kagawa, Shiro Osaka, So Yamamura | Duração: 136min |  Ano: 1953. 

An – O sabor da vida: Tudo neste mundo tem algo a nos contar, basta que estejamos dispostos a ouvir

Por Edylene Daniel Severiano

“Acredito que tudo neste mundo tem uma história para contar (…).” “Tentamos viver nossas vidas de forma irrepreensível, mas, às vezes somos esmagados pela ignorância do mundo.” Tokue

Não estivesse datado de 2015, o premiado filme nipo-franco-alemão, de roteiro de Tetsuya Akikawa e Naomi Kawase, trazido à vida no ecrã pelo habilidoso e sutil olhar de Kawase, An (Sabor da Vida), poderia ser datado de um futuro próximo, inspirado nas vicissitudes de nossos dias, agora mais longos pela incerteza que nos atravessa, melhor, inspirado na ausência que nos trouxe ao aqui-agora: a inapetência da escuta que nos atropela por todos os lados numa avalanche de ignorância. Nossa ignorância, nossa incapacidade de ouvir o mundo.

Baseado no romance homônimo de Durian Sukegawa, An oferece uma ode às relações familiares e à natureza, numa trama centrada nas histórias de três personagens: uma mulher idosa, um homem de meia idade e uma estudante. Um filme de cores e fotografias suaves, em que o signo que se afirma preponderante é o som, assim se inicia a película, com os sons estridentes das coisas no mundo: trem, vozes de transeuntes, arrastar de pés; mas no profundo quase silêncio de duas das personagens principais, a tímida Wakana e o introspectivo Sentarô.

Interpretada por Kyara Uchida, a adolescente Wakana se mostra deslocada no mundo, presa a uma relação distante com sua mãe, que não a estimula a continuar os estudos, e isolada dos colegas de escola. Seu centro de interação é a pequena loja de dorayaki onde Sentarô trabalha sozinho, para onde ela vai, faz um lanche e recebe dele as sobras de massa que “não deram certo”. O silêncio da jovem faz-se gritante pelo contraste com outras jovens na loja, efusivas, contentes, brincando entre si e até com Sentarô, enquanto Wakana apenas se limita a saudações e agradecimentos. Mesmo em casa, sua mãe e seu canário, Marvy, emitem mais sons do que a jovem. É sabido que a fala é uma expressão da dobra com a ausculta, elaborada por meio do silêncio, e é neste que Wakana está contida, sem conseguir fazer-se ouvir.

Crédito: IMDB, 2020

Como um contínuo dessa inércia está Sentarô, interpretado por Masatoshi Nagase, um homem na casa dos 40 anos que se dedica a uma pequena loja de dorayaki, sem ao menos gostar de doces. Indiferente aos clientes, em sua maioria jovens estudantes descontraídas, passa seus dias entre a pequena loja, seus cigarros e seu apartamento, inerte a todos, todos os sons ao redor, silente como Wakana. Uma das cenas iniciais do filme traz Sentarô arrastando os pés até o terraço de seu prédio, indo fumar antes de mais um dia de trabalho. O som de seu arrastar de pés revela o mais profundo que há no seu ser: o vazio. Como pacientes, ambos, Sentarô e Wakana, parecem esperar a aparição de Tokue para propagar e dar sentido às suas vidas.

Interpretada pela talentosa Kirin Kiki, logo nas primeiras cenas uma pequena e frágil senhora que conversa com as árvores, o Sol, a Lua, Tokue, que está em mais um de seus passeios, aparece na loja de dorayaki e indaga Sentarô quanto à cerejeira plantada em frente à loja. Ele se limita a responder que não era dali. A frágil senhora, então, mostra-seinteressada na oferta de trabalho que constava no letreiro em frente à loja, e, após, trocar algumas palavras com o doceiro, esse lhe pergunta sua idade e se surpreende, já que o trabalho seria pesado para uma senhora de 76 anos. Tokue insiste e pede para o futuro chefe pensar. Ele, não muito receptivo, oferece-lhe um dorayaki. Tokue se despede, agradece e parte, não sem antes cumprimentar a cerejeira. Wakana, que observava a cena, pergunta se, caso ele não contratasse Tokue, ela poderia trabalhar como sua ajudante. Sentarô menciona a escola e a menina afirma que a abandonará.

Essa cena inusitada poderia ser mais uma, mas é o mote para a narrativa de Kawase se desenvolver. Passados alguns dias, Tokue retorna à loja reiterando seu pedido de trabalho. Diante da negativa de Sentarô, comenta que provou o dorayaki e que a massa até estava boa, mas a pasta de feijão doce (an) não, deixando assim a an, que ela mesma preparara, para o doceiro experimentar. Sentarô, no fim do expediente, olha para o pote de doce e o joga no lixo, mas em um ímpeto recolhe e resolve experimentar. Nesse momento seu mundo se abre. A an, pasta de feijão azuki adocicada, que dá nome ao filme, era saborosa. Dias depois quando Tokue retorna, ele a contrata e tem início uma jornada pelo sabor do An, pelo sabor da vida. Tokue ensina as minúcias do preparo, que começa antes do raiar do “Senhor Sol” e exige horas de paciente escuta e apreciação. Em pouco tempo o dorayaki feito por eles fica famoso e cada vez mais clientes vêm à loja.

Crédito: IMDB, 2020

O tempo passa, as estações passam e tudo parece transcorrer bem, até que a proprietária aparece e exige que o doceiro demita sua ajudante. Tokue tinha as mãos defeituosas, sequela da lepra que a acometera ainda na adolescência. Apesar da insistência, fraca, de Sentarô, sua chefe afirma que, se as pessoas souberem, deixarão de frequentar a loja. Emerge assim uma face da sociedade japonesa a que o público mais geral está pouco afeito, a face da exclusão e do preconceito. O doceiro, sem coragem de demitir Tokue, que afirmava já estar curada, e estava, vê com o passar do tempo o estabelecimento se esvaziar. Não importava que Tokue estivesse curada, o medo e o estigma falaram mais alto. E um dia a frágil e determinada senhorinha não mais retorna.

No decorrer dos dias da ausência da doce Tokue, inconformado com a situação, Sentarô entrega-se à desolação. Até que um dia sua ajudante quebra o silêncio ao lhe escrever uma carta expressando o quanto era grata por ter estado ao lado dele e por ter novamente podido preparar a an, afinal esse tinha sido seu trabalho por 50 anos. Suas palavras, doces e suaves, como a pasta que fazia, tocam o coração de Sentarô: “Acredito que tudo neste mundo tem uma história para contar (…)”. Assim Tokue conta como ouvia os feijões, suas histórias desde os campos até a panela, acolhia-os com sua suavidade e os adoçava com ternura e paciência, respeitando seu tempo de preparo.

Ao lado de Wakana, Sentarô parte em busca de Tokue. O local é uma antiga área de isolamento de pessoas com hanseníase. A chegada até lá tem um quê de viagem bucólica, há uma pequena floresta e depois dela uma Tokue mais frágil e debilitada, que conta como chegara até ali, ainda muito jovem, e nunca mais vira sua mãe, tampouco pôde ter seu filho. Os laços de cuidado e afeto, até então discretos, evidenciam-se: uma mãe sem seu filho, um filho sem sua mãe e uma criança sem cuidados, assim estavam Tokue, Sentarô e Wakana antes de ouvirem juntos os feijões azuki. Sentarô, num gesto confessional, escreve uma carta a Tokue revelando porquê emudecera diante do mundo:  ao apartar uma briga acabou ferindo alguém e por isso ficara preso por três anos. Nesse ínterim, sua mãe veio a falecer e ele não pode mais ouvir o que ela tinha para contar, suas histórias: emudecera diante do silêncio. E intentando entregá-la guarda-a.

Crédito: IMDB, 2020

O doceiro, motivado pelas palavras de sua ajudante, retoma o trabalho, dedicando-se a fazer a an e com a ajuda de Wakana vê seu trabalho com entusiasmo, quando mais um empurrão os silencia: a proprietária tem planos de modernização da loja e impõe um novo ajudante, que virá a ser chefe de Sentarô. Desnorteados Sêntaro e Wakana partem de novo em busca de Tokue, mas são informados por Yoshiko, sua amiga do asilo, de que ela falecera. Ela, porém, lega a Sentarô seus instrumentos de cozinha e a Wakana um pedido de desculpas por não ter podido cuidar de Marvy, não pudera mantê-lo preso. Yoshiko conta-lhes, ainda, que, como eles não podem ser sepultados, é plantada uma árvore quando um deles falece e os leva à árvore de Tokue, uma cerejeira, em meio a uma pequena floresta, uma pequena floresta capaz de falar a quem quiser ouvir.

Kawase, assim, oferece ao espectador uma reflexão sobre as relações familiares e a natureza, e como essas entrelaçam-se pelas falas e auscultas, lembrando que todos têm algo a oferecer, não importando a idade. Não há seres descartáveis, o que deve ser isolado é o medo do diferente. Mais do que os feijões, Tokue se dedicava a ouvir o mundo, a ouvir o som, a voz, as narrativas que as pequenas coisas têm para contar, as minúcias daquilo que compõe o cotidiano. Impedida de ouvir seus entes queridos, restou a Tokue aprender a ouvir a natureza, os sentidos e sentimentos que essa expressa, inclusive os alimentos. A natureza, então, é o que passa a atá-la ao mundo. Kawase dá forma a uma pequena família, cujos membros conseguem se conectar a partir da escuta da natureza: Tokue que aprendera a ouvir o mundo, como mãe e avó, dedica-se a ensinar essa escuta motivadora da presença, do estar, da agência no mundo, da fala. Sentarô encontra a voz perdida de uma mãe a acolher seu filho e prepará-lo para o mundo. E  Wakana, que não conseguia ser ouvida por sua mãe, recebe de Tokue e Senterô o incentivo para encarar a vida. Desse modo, ela lega aos dois o aprendizado de ouvirem as vozes do mundo, da natureza, para que assim, ecoem e falem. Numa prática das ideias para adiar o fim do mundo, Tokue adia o fim de dois mundos, dos sonhos de Sentarô e Wakana. “Não há inverno que não seja seguido da primavera”, diz um provérbio japonês. Como tal, Sentarô e Wakana veem florescer suas vidas, ela seguindo seu sonho de estudar e ele finalmente deixando a doçura do dorayaki guiar sua vida.

O que faz do filme de Kawase um diálogo contemporâneo, pois, mais do que nunca, mas tanto quanto antes, todas as formas de humanidades são convocadas a ouvir o que as coisas do mundo têm a dizer, como afirma Tokue: “Viemos a este mundo para vê-lo e ouvi-lo” (tradução livre da autora).

Crédito: IMDB, 2020

Ficha técnica:

País: Japão; França; Alemanha | Direção: Naomi Kawase | Roteiro: Durian Sukegawa (livro), Tetsuya Akikawa, Naomi Kawase | Elenco: Kirin Kiki, Masatoshi Nagase, Kyara Uchida | Duração: 113 min | Ano: 2015.

Fundação Japão promove festival de filmes japoneses online

Via Jornal Nippak

Já estão disponíveis online, gratuitamente, 12 filmes independentes criados por jovens diretores japoneses, em um projeto denominado Japanese Film Festival Online (JFF Online). Trata-se de uma iniciativa da Fundação Japão para promover filmes japoneses no exterior, disponibilizada agora, gratuitamente no Brasil. Os filmes podem ser acessados com facilidade tanto em computadores, como em celulares ou tablets.

Cena de “Made in Japan”. Crédito: divulgação/Jornal NIppak.

A iniciativa já existe em outros países desde 2016, denominada JFF Network. Em 2018, os filmes já haviam sido acessados por mais de 18 mil pessoas de países como Filipinas, Malásia, Indonésia, Vietnã, Camboja, Mianmar, Tailândia, Laos, Cingapura, Brunei, Austrália, China, Rússia e Índia.
Em 2019, o projeto passou a se chamar JFF Magazine, e lançou um novo serviço de streaming de filmes japoneses, o JFF Online. Com a colaboração do “MOOSIC LAB”, novos filmes foram disponibilizados online, gratuitamente.

A iniciativa estará disponível inicialmente até o início de junho em todo o mundo, com exceção de alguns países, como o Japão. Os filmes são todos em língua japonesa, com legendas em inglês. Para assistir, basta acessar o site https://www.japanesefilmfest.org/streaming.