Qual foi o filme que deu o pontapé inicial no cinema masala musical de Bollywood?

Via Beco da Índia

A estreia de Alam Ara, em 1931, em Bombaim (atual Mumbai), causou comoção, os ingressos acabaram e a polícia foi chamada para conter a multidão na porta do cinema

Qual foi o primeiro filme sonoro na terra dos musicais? Alam Ara, lançado em 1931, dirigido por Ardeshir Irani, abriu o caminho para os filmes masala musicais de Bollywood, como é conhecida mundialmente a indústria de cinema na língua Hindi.  A estreia de Alam Ara foi no cinema Majestic, de Mumbai, na época chamada de Bombaim (ou Bombay em inglês). O filme fez tanto sucesso que a polícia foi acionada para controlar multidão diante do cinema. Os ingressos se esgotavam rapidamente, segundo o historiador de cinema B.D. Gaga, autor do livro “Art of Cinema”.  

A língua do filme era Hindustani (mistura do Hindi com o Urdu). Ao contrário dos primeiros filmes mudos indianos, que recontavam histórias da mitologia, a trama de Alam Ara foi uma adaptação de uma popular peça do autor Joseph David, da comunidade indiana de judeus Bhagdadi.

Crédito: Wikipedia.

Mas infelizmente não restou uma cópia do filme. Quando se comemorou os 80 anos de lançamento de Alama Ara, a Google postou uma homenagem à obra com um doodle. Alam Ara conta uma história de amor entre um príncipe do reino fictício de Kumarpur e uma garota cigana. O Sultão Saleem Khan tem duas esposas: Dilbahar Begum  e Navbahar Begum, que disputam espaço e poder. Um dia, um faquir faz uma premonição que acirra a briga: ele diz que Navbahar vai ser a mãe do herdeiro do trono. Dilbahar procura ter um caso com o ministro-chefe do rei, mas ele não a corresponde.

Ela, em vingança, o aprisiona e manda a esposa grávida para o exílio. Nasce a menina Alam Ara, que é criada por nômades. Já moça, ao retornar para o palácio de Kumarpur, Alam Ara apaixona-se pelo jovem príncipe Jahangir Khan. No final, os dois conseguem se casar.

Shyam Benegal, um dos diretores mais famosos do cinema indiano, explicou a a Mihir Bose, autor do livro “Bollywood” (Roli Books, 2006) que havia uma época, nos anos 30, em que os filmes de Bollywood eram como os de Hollywood. Mas com a chegada do som, Bollywood adotou um caminho totalmente diferente, provocando um divórcio entre as duas culturas.

Anos depois, o diretor Ardeshir Irani fez história novamente ao realizar o primeiro filme colorido da história do cinema indiano : Kisan Kanya. Assim, o filme Alam Ara foi um divisor de águas, com algo em torno de 30 músicas. Depois disso, segundo Benegal, os filmes de seu país passaram a ter 16 ou 17 músicas cada, refletindo o modo como os indianos pensam esse tipo de arte, sem as divisões rígidas  entre comédia, drama e musical, como ocorre no Ocidente. Uma outra curiosidade sobre o primeiro filme falado da Índia:  um dos atores de Alam Ara foi Prithviraj Kapoor, o patriarca do clã Kapoor, a família mais importante de Bollywood, hoje representada por Kareena Kapoor.

A superprodução do cinema indiano inspirada nos épicos que conquistou audiências estrangeiras

Via Beco da Índia

O grande épico Mahabhárata inspirou uma das maiores superproduções da história do cinema indiano: “Baahubali”, um sucesso estrondoso que custou US$ 70 milhões e ultrapassou as fronteiras da Índia, ganhando audiências externas, como a russa, onde o filme foi dublado e transmitido para a TV Russa nesse ano.

A trama passa no antigo reino de Mahishmati, na Índia, e é sobre dois irmãos guerreiros que disputam o poder, como ocorre no Mahabhárata. No Brasil, o Mahabhárata é mais conhecido pelo seu capítulo Bhagava Gita, um diálogo no campo de batalha sobre a importância do dharma (o dever de cada um), uma alegoria sobre as lutas morais e éticas da vida humana.

Assim como no épico, o personagem principal do filme segue o seu dharma.  O Mahabhárata conta a sangrenta guerra por poder entre os Pandavas e Kauravas. Produtos culturais (como séries de TV, novelas, livros e filmes) que inspiram-se nos épicos (além do Mahabhárata há o Ramayana), são sucesso imediato na Índia.

Crédito: YouTube.

“Baahubali, o começo” foi filmado originalmente em duas línguas do Sul da Índia: telugu e tâmil, com atores populares nessas duas indústrias cinematográficas. Logo em seguida foi dublado em Malaialam, também do Sul da Índia, e em Hindi (a principal língua do país, falada por 40% da população principalmente no norte). O lançamento ocorreu há cinco anos e seu diretor é S. S Rajamouli.

Ele explicou que em um país multilíngue como a Índia, seria impossível recuperar o custo do filme se ele fosse lançado somente em uma língua. A sua sequência chama-se “Baahubali, a conclusão”. Neste ano, os dois filmes foram dublado em russo e exibidos na TV daquele país. Prabhas, que faz o papel do protagonista dos filmes, tornou-se o segundo ator indiano a ganhar a o coração da audiência russa.

Há 60 anos, Raj Kapoor, uma grande estrela de Bolywood, conquistou os russos, juntamente com a atriz indiana Nargis, que contracenou com ele em vários filmes.  Filmes indianos dublados em russo eram assistidos pela audiência na época da antiga URSS e havia até mesmo uma publicação local dedicada ao cinema indiano, chamada “Prem”.

 

Site Beco da Índia aborda o cinema de Bollywood em sua primeira live

No dia 8 de agosto, sábado, às 14h, começa a primeira live do site Beco da Índia, parceiro do MidiÁsia, especializado na divulgação da cultura indiana. Nesta ocasião, o tema será a indústria de cinema Bollywood. Participarão da iniciativa a especialista em audiovisual Juily Malani e a editora do Beco da Índia, autora do livro “Os Indianos” (2012), publicado pela editora Contexto, Florência Costa. Acompanhe o evento pelo Instagram do Beco da Índia.

Crédito: Facebook Beco da Índia.

Filme indiano sobre um vírus mortal foi lançado seis meses antes da pandemia da Covid 19

Via Beco da Índia

Em tempos de pandemia de Coronavirus, muita gente procurou assistir o filme “Contágio” (2011), do americano Steven Soderbergh. Mas há um outro filme, lançado seis meses antes do primeiro caso da Covid 19, que também parece ser uma premonição: “Vírus”. Foi um grande sucesso na Índia, que agora voltou a chamar a atenção do público.

Trata-se de um thriller médico no idioma malaiala, falado no estado de Kerala, onde vivem 35 milhões de pessoas, no Sul da Índia. O filme é  baseado em eventos reais: a epidemia do vírus Nipah em maio de 2018 nos distritos de Kozhikode e Malappuram, em Kerala. O estado indiano adotou medidas enérgicas e teve sucesso: evitou a disseminação da doença. Nipah é uma doença transmitida de animais para humanos, tendo os morcegos como hospedeiros.

Crédito: OPM Records

Um meme que circulou nas redes sociais da Índia nas últimas semanas dizia: “todos os teatros permanecerão fechados até que a vida real pare de se parecer com a de filmes”. No filme, um homem, Zakariya, é infectado por um víruos então desconhecido e é levado para a Faculdade de Medicina governamental com febre, vômito e dor de cabeça. Ele morre algumas horas depois, mas havia contaminado 18 pessoas e destas 16 morrem.

Entre as infectadas está uma enfermeira, Akhila, que tomou conta do rapaz. Ela acaba com problemas respiratórios, pede para ser intumbada, mas não resiste e morre sem conseguir se despedir do marido. O filme mostra justamente o drama das famílias que não podem visitar seus parentes doentes, nem para se despedir, como tem acontecido agora com a pandemia. O luto ocorre em silêncio e solidão.

 O filme, dirigido por Aashiq Abu,  mostra que uma equipe liderada pelo Ministério da Saúde detecta a disseminação do Nipah utilizando circuito de TV, entrevistas com pessoas e arquivos médicos sobre pacientes. Como aconteceu em alguns lugares agora na pandemia do Coronavírus, o filme já mostrava o estigma social em torno do pessoal médico e dos familiares de mortos.  Pânico, preconceito, que tomam conta da sociedade com a epidemia.