A Embaixada da Coreia no Brasil participa do Lobofest com documentário sobre a produção cinematográfica do país

Via Embaixada da República da Coreia no Brasil

A Embaixada da República da Coreia no Brasil renova a parceria com Lobo Fest: Festival Internacional de Filmes e, dessa vez, participa com o documentário “Um presente de cem anos”, sobre a produção cinematográfica da Coreia, que será apresentado gratuitamente, apenas no dia 6 de dezembro, a partir das 10h da manhã.

Crédito: Embaixada da República da Coreia no Brasil .

O doc faz um resgate histórico dos desafios de artistas, diretores e produtores até a aclamação do cinema coreano, que hoje está despontando no cenário mundial. Haverá também um bate-papo online sobre a história do cinema da Coreia, com o especialista Josmar de Oliveira Reyes, no canal Looke. O #LoboFest vai de 27.11 a 6.12, com vasta programação, incluindo filmes de diversos países, além de curtas coreanos exibidos no ano passado. A programação completa está disponível em www.lobofest.com.br

The Witness: um triste retrato da indiferença

Por Mayara Araujo

Desde o merecido Oscar de Parasita e a recente pandemia de COVID-19 que tem impossibilitado o amplo acesso às salas de cinema, a plataforma de streaming norte-americana, Netflix, tem nos brindado com catálogo relativamente diverso de filmes sul-coreanos. Esse é o caso da inserção de The Witness, do estreante Jo Kyoo-Jang que entre altos e baixos traz a ácida crítica da indiferença com a qual a sociedade contemporânea lida com as relações humanas.

Com um roteiro extremamente simples, a narrativa traz o olhar de Sang Hoon (Sung-min Lee), que ao chegar do trabalho em uma madrugada, acaba testemunhando um brutal assassinato de uma moça através de sua janela. Antes que pudesse denunciar o acontecimento, sua esposa acorda no meio da noite e acende as luzes, chamando a atenção do assassino do lado de fora, que imediatamente nota Sang Hoon. Assustado ao ser percebido, Sang Hoon deixa de denunciar o crime para a polícia e passa a viver acuado com a possibilidade de ser encontrado e com o bem-estar de sua família.

Esses minutos iniciais da trama marcam o início de uma perseguição implacável que nosso protagonista passará a experienciar, na qual tudo o que parece importar é a sua própria segurança e a de seus entes-queridos. Para isso, San Hoon estará disposto a se calar, a mentir sobre a verdade e a ignorar a dor da perda dentro de sua própria vizinhança. 

Crédito: BrazilKorea.com

Na manhã seguinte, o corpo da vítima é encontrado e o detetive Jae-Yeob (Kim Sang-Ho) assume o caso. Para isso, Jae-Yeob passa a interrogar os moradores do complexo residencial para tentar localizar o criminoso. No entanto, ele se depara com a fria indiferença da maior parte dos moradores e uma preocupação exclusiva com a possível alteração no valor dos imóveis devido a má fama da região.

Enquanto isso, o assassino Tae-ho (Kwak Si-yang), sempre à espreita, atua como um verdadeiro stalker, mapeando e vigiando as testemunhas para garantir que não seja pego. Assim, intimida o protagonista, comete outro assassinato, bem como manda “mensagens” horripilantes – como matar um animal de estimação e enviar sua cabeça para os donos – no intuito de controlar a situação.

O filme se perde pelo meio do caminho ao enfatizar excessivamente na atmosfera de thriller e preterir o roteiro. A violência, típica da estética cinematográfica sul-coreana, chega a incomodar, visto que se sobrepõe à narrativa e torna o passar dos minutos um tanto quanto arrastados. 

Crédito: canaltech.com

As motivações de Tae-ho não são explicadas na trama, falta aprofundamento em sua personalidade e o seu passado não é revelado. Não há nuances em sua apresentação, tornando-o um vilão meramente vil. De fato, o roteiro carece de “nós” que deixariam a história mais envolvente e bem amarrada.

Mais para o término, Sang Hoon e detetive Jae-Yeob conseguem agir em alguma sintonia, visto que ambos possuem o objetivo em comum de impedir que o assassino continue à solta. Grotescamente, é Sang Hoon que consegue limitá-lo e levar Tae-ho para de trás das grades. Assim, nosso protagonista finalmente alcança a paz necessária para continuar vivendo com sua família – agora em outra vizinhança. 

Ainda assim, de forma irônica, o filme é encerrado da mesma forma que começa: no pátio do complexo residencial, com Sang Hoon, agora transformado por suas últimas experiências, gritando por socorro no meio da noite. Ele aguarda que as luzes acendam e que alguém venha averiguar o que está acontecendo, principalmente depois de traumáticos assassinatos ocorridos na vizinhança. E se choca, em uma brilhante atuação de Sung-min Lee, ao perceber que nada mudou e que ninguém acenderá a luz, revelando, por fim, a total indiferença com o bem-estar do outro.

Crédito: sessaosemedo.com

Sem dúvida, o que The Witness traduz não passa de um retrato triste da sociedade contemporânea, que vive os seus dias fechada dentro de suas próprias bolhas e com uma cruel falta de empatia com a vida dos outros. 

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Jo Kyoo-Jang | Roteirista: Lee Young-jong | Elenco: Lee Sung-min, Kim Sang-ho, Jin Kyung, Kwak Si-yang  | Duração: 111 min | Ano: 2018

O veterano: os vícios de uma sociedade corrompida e altamente hierarquizada

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas / KoreaPost)

Muitos pensadores socialistas concordam com a ideia de que o sistema capitalista utiliza da estrutura política e socioeconômica tradicional, pode-se dizer até arcaica, de um grupo social específico, ou até uma nação inteira, em favor dos seus objetivos. Isso quer dizer exatamente o que? Um bom fato histórico para exemplificar a colocação acima foi a escravidão no Brasil. Esta estrutura de exploração do trabalho a custo zero com a mão-de-obra braçal rendeu diversos benefícios ao sistema capitalista mundial.

Como diria o autor Eric Williams“foram as plantações trabalhadas por escravos que fizeram crescer o volume do comércio intercontinental, estimularam o desenvolvimento de todo um conjunto de indústrias de transformação (desde o refino de açúcar até as primeiras fábricas de tecido de algodão) e tornaram alguns portos atlânticos em prósperos comerciais”.

Na Coreia do Sul, o sistema certamente faz adaptações à cultura local, mas a sua essência não é em nada modificada: a exploração da força de trabalho, com o menor custo. Certamente, em um período mais avançado do mundo pós-moderno, os alicerces desta estrutura exploradora necessitam ser mais sofisticados e complexos, no intuito de impossibilitarem a sua mais fácil compreensão, em especial para as camadas mais pobres.

Crédito: IMDB

A Coreia é conhecida por sua sociedade com valores tradicionais, de respeito, ou quase submissão aos mais velhos, da honra adquirida pela dedicação total ao trabalho e à comunidade, ao país. Tratam-se de características seculares da sociedade coreana. De um ponto de vista ocidental, estes elementos parecem, à primeira vista, bastante nobres, e, em boa parte dos acontecimentos realmente o são. No entanto, eles escondem também um cenário bastante triste e assustador de abusos, total desrespeito ao ser humano e de exploração máxima dos que menos detêm voz para contestar qualquer situação injusta.

Mais do que isso, esta estrutura de valorização do esforço dedicado ao trabalho, do respeito aos mais velhos, ou aos mais experientes, ou de cargo superior dentro de uma empresa, na realidade, também existem, com o objetivo de não fazer com que algumas questões sejam melhoradas, ou modernizadas. Desta forma, a elite, governante do país há décadas, continua a auferir dos lucros que esta estrutura de poder rende-lhe, em uma exploração e praticamente escravista à forma moderna do trabalhador sul-coreano, legalizada e aceita pelos próprios coreanos.

Assim, criam-se ideias românticas, como a de mães heroínas que obtêm três empregos para que os filhos possam entrar para a melhor faculdade, e vai-se aprofundando a desigualdade social, sem que o trabalhador possa perceber o quanto, na realidade, é explorado. Contudo, há momentos que esta farsa toda é rompida e a realidade, por alguns segundos, vem à tona. E estas oportunidades normalmente ocorrem à partir daqueles que ousam contestar tudo e tomar atitudes concretas. E este cenário que está por traz do filme “O Veterano” (2015), dirigido por Ryoo Seung Wan.

Crédito: IMDB

Certamente, não se quer afirmar neste texto que o diretor e os demais criadores desta produção cinematográfica necessariamente leram Karl Marx para contar esta história, mas o artista com uma sensibilidade acima do normal e observador do seu cotidiano, consegue compor e descrever melhor uma situação do que muitos pseudo-intelectuais, pretensamente “mestres do universo”, que existem nas universidades, mídia e outros locais… Neste enredo, o detetive Seo Do Cheol (interpretado por Hwang Jung Min) é uma espécie de policial totalmente “fora da curva”, que segue poucas regras, não obedece a superiores mas é implacável com o crime.

Um dia ele atende a ocorrência do motorista Bae, (vivido por Jung Woong In) que parece ter tentado suicídio ao perder uma reivindicação de pagamento de salário, após o encerramento de contrato com o grupo de motoristas por serem sindicalizados. Mas a sagacidade do detetive o faz desconfiar do jovem milionário, arrogante e herdeiro do poderoso conglomerado Sinjin Group Jo Tae Oh (que toma vida na pele do maravilhoso e jovem ator Yoo Ah In, um ator de personalidade já bastante polêmica e provocativa na vida real). O policial percebe que Bae provavelmente foi espancado e atirado de uma escada, em prédio com vários andores pelo filhinho do papai, sem limite algum. No entanto, não importa o quão rigorosamente a equipe de Seo o persiga, Jo sempre escapa com a ajuda de sua riqueza e conexões.

De todos os fatores que seria possível citar sobre esta obra, que passou a ser a quarta maior bilheteria da história do cinema coreano, estão as interpretações, a narrativa, o conjunto de planos filmados e a montagem que utiliza do clássico formato de contar uma história do fim para o início e explora a criação de cenas especiais para ilustrar as teorias do detetive e as mentiras do jovem riquinho, nas colocações de ambos do que venha a ter realmente ocorrido. Com um elenco secundário de primeira linha que dá toda a sustentação dramática para a trama, “O Veterano” brilha neste quesito, entretendo e provocando indignação e reflexões.

O motorista Bae, interpretado por Jung Woong In. Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Estão no filme atores do calibre de: Yu Hae Jin (que interpreta o diretor Choi, o responsável por encobrir tudo que ocorre, ou Jo Tae Oh faz); Oh Dal Su (vive chefe da equipe policial de Seo); Song Young Chang (é o presidente do conglomerado e pai de Jo); além de Bae Sung WooJeong Man Sik e Cheon Ho Jin. Hwang Jung Min e Yoo Ah In fazem uma dupla maravilhosa, que em situações de violência física e verbal, exploram tanto a crueldade e seriedade das situações, quanto o caráter cômico dos personagens, ambos de personalidade bastante explosiva, capazes de chegar a extremos, até ao ridículo.

Yoo Ah In lembra muito filhos de ricos brasileiros que cometem atrocidades, até matam pessoas, e jamais são presos. E Hwang Jung Min é aquele servidor público, aquele policial praticamente em extinção, que nasceu para exercer esta função e que tem o senso de perceber as situações, enquanto a maioria de seus colegas seguem caminhos tradicionais e mais fáceis. Com métodos até antiquados, o detetive faz de tudo para fazer valer a lei, mas é uma peça única em uma estrutura burocrática bastante hierarquizada e corrompida.

Em parte, as boas performances devem-se, acima de tudo, à construção narrativa de Ryoo Seung Wan, que como de costume na Coreia, tradicionalmente mistura diversos gêneros, em especial ação, situações cômicas, violentas e de um certo suspense, gerando aquela obra policial que faz o espectador acompanha-la até o final, sem pegar no sono, e consegue ao mesmo implantar uma semente de indignação importante. Nela ainda se pode observar aquela capacidade bastante peculiar do coreano de rir da própria desgraça, algo que tem em comum com o brasileiro, até certa medida. “O Veterano” está disponível na Netflix e deve contar na sua lista de filmes coreanos a assistir, se por acaso ainda não o fez.

Yu Hae Jin interpreta o diretor Choi. Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Ryoo Seung Wan | Roteiro: Ryoo Seung Wan | Elenco: Yoo Ah In, Hwang Jung Min, Yu Hae Jin, Oh Dal Su, Jung Woong In, Song Young Chang, Jeong Man Sik | Duração: 122min | Ano: 2015.

“A negociação”: a empatia transformadora e combatente entre um criminoso e uma policial

Por Alessandra Scangarelli (Via Intertelas e KoreaPost)

Toda sociedade tem um número de “crenças” e regras que mesmo não sendo reais no mundo concreto, continuam por serem perpetuadas na busca de manter a fé das pessoas na humanidade. A ideia de que uma pessoa somente, uma espécie de herói, ou heroína, com um poder descomunal é capaz de reverter todo mal aquece e tranquiliza o coração de muitos.

Mais profundo ainda é quando se acredita que um ser abstrato vá um dia surgir, ou ressurgir, fazer a limpeza e o dever de casa que os humanos imperfeitos assim não conseguiram, tornando o mundo e a vida justos finalmente. São as crenças e as ilusões necessárias para que, no geral, a grande maioria continue na linha e reproduza o as regras do sistema criado pelos homens, como deve ser, sem transformá-lo, sem revolucioná-lo para algo melhor.

Um sistema que tem uma estrutura bastante complexa e que apenas existe se tanto o lado “bom”, quanto o lado “ruim” coexistirem. Como o mercado ilegal e o legal que, na realidade, dependem um do outro para seguirem com suas funções. Afinal, para que seriam necessários policiais se não existissem bandidos? Para que seriam necessários exércitos se as guerras não ocorressem? E para que produzir armas se todos respeitam a vida acima de tudo? Ao ter claro que este contexto existe, sendo realista e não pessimista, encontrando soluções concretas e não fantasiosas, é possível ter em conta que as mudanças podem ser realizadas através da atitude pouco convencional e muitas vezes corajosa dos indivíduos em conjunto.

Crédito: Pinteres/Korean Drama 24/7

Isso quando estes conseguem livrar-se da “máquina” que os conduz diariamente, deixando de serem meros sobreviventes egoístas, ou parte da engrenagem sistêmica exploradora para pensar em todos e lutar por todos, ou por alguém em específico do qual acabem criando empatia, ou um certo amor humano fraternal, que os faça querer justiça e cuidar do próximo, ainda que este lhe seja um estranho, ou digamos seja inclusive uma pessoa que não tenha feito as escolhas mais certas na vida.

“A Negociação” (The Negotiation) (2018), dirigida por Jong Suk Lee traz esta mensagem em um enredo que combina de forma bastante natural entretenimento e os males mais proeminentes na sociedade sul-coreana atual. Assim, a história gira em torno de uma negociadora chamada Ha Chae Yoon (Son Ye Jin) que faz parte da equipe de negociação de crises da Agência Metropolitana de Polícia de Seul e um traficante de armas Min Tae Gu (Hyun-Bin) que sequestrou dois coreanos em Bangkok . Ha Chae Yoon é a típica servidora pública que ao trabalhar em algo tão único faz com que dificilmente possa ter uma vida cotidiana muito turbulenta, com pouco tempo usufruir dela. Seguindo uma lógica bastante comum de ocorrer nestes casos era de se esperar que ela não fosse uma pessoa muito emotiva, que tivesse uma atitude mais endurecida sentimentalmente e que encarasse a violência como algo normal.

Contudo, a personagem foge deste clichê e supreendentemente apresenta uma personalidade bastante humana, sofrendo com as vítimas, com a perda ocasional de vidas. E mais interessante é que o traficante e sequestrador Min Tae-Gu acaba seguindo esta mesma linha.

Crédito: IMDB

À primeira vista parece um criminoso frio e calculista. Contudo, ao longo da narrativa, quando se vai descobrindo as razões que o levaram a sequestrar e fazer reféns,  percebe-se que a raiz do seu problema tem como pano de fundo uma história de teor pessoal bastante emocional. E, acima de tudo, suas intenções visam, principalmente, enfrentar um sistema extremamente corrupto, comandado por uma casta de autoridades e uma elite empresarial de grande poder, envolvidas com tráfico de armas internacional. Este mercado que tanto legal, quanto ilegal é um dos mais lucrativos do mundo.

Segundo o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), uma organização que realiza pesquisas científicas em questões sobre conflitos, localizada na Suécia, o valor total do comércio de armas em 2017 gerou algo em torno de 95 bilhões de dólares e as 100 maiores empresas do campo lucraram em torno de 398.2 bilhões de dólares apenas no ano referido. Os principais países que vendem armas são exatamente nesta ordem: Estados Unidos, Rússia, França, Alemanha e China. Os alemães têm como seu principal comprador a Coreia do Sul, totalizando 19% de suas vendas. A Coreia que tem suas próprias empresas de armas e que participa deste mercado tanto legalmente, quanto ilegalmente.

“A Negociação”, infelizmente, não trabalha em sua narrativa, os bastidores deste mundo com maior profundidade, servindo este mais como um pano de fundo e para promover uma das causas que desencadeia todos os acontecimentos da trama. Contudo, esta falta não diminui a importância, nem torna esta produção cinematográfica menos atraente, pois ela acaba focando na questão humana que se almeja debater.

Crédito: IMDB

Somado a isso, as intepretações de grandes atores, em conjunto com um roteiro que explora bem as situações de tensão deixam o espectador bastante focado e esperando pelo desfecho que este drama terá. O mais interessante talvez a se apontar é que será através de Min Tae Gu que a negociadora Ha Chae Yoon vai deixar sua posição passiva para tomar uma atitude e tonar-se uma policial real. Isso porque ele enxerga nela a capacidade humana mais evoluída para tanto, como salientando acima: o de ter empatia pelo próximo, seja ele (a) quem for.

Desta forma, “A Negociação”, além de nos fazer atentar para a estrutura do sistema e suas relações dúbias e bastante esquizofrênicas entre o mundo legal e o mundo ilegal, destaca algumas temáticas importantes: criminosos também amam e podem ter causas bastante justas para defender, apesar de suas escolhas; um bandido pode ser mais humano do que aqueles que vivem aparentemente uma vida de conduta social impecável, mas que, por baixo do tapete, são os reais monstros desprovidos de qualquer humanidade; um indivíduo comum como uma servidora pública e seus colegas estão mais inclinados a poder realizar as transformações necessárias e enfrentar o sistema do que os chamados líderes, pessoas de destaque ou seus superiores já viciados, conduzidos e engolidos pela “máquina sistêmica”. Assista “A Negociação” na Netflix.

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul  | Direção: Jong Suk Lee | Roteirista: Sung Hyun Choi, Park Myeong Chan (comic) | Elenco: Ye Jin Son, Hyun Bin, Sang Ho Kim | Duração: 112 min | Ano: 2018

Kim Ji Young, nascida em 1982: o fim do super-heroísmo e o poder das mulheres reais

Por Alessandra Scangarelli (Resenha completa em InterTelas/KoreaPost)

Se formos pensar como o imaginário da sociedade atual tem das mulheres, no que se considera ideal e digno de aplauso é algo próximo ao de uma “Mulher Maravilha”, uma figura, por sinal, anglo-saxã e branca… Super-heróis, masculinos, ou femininos, ou qualquer outro gênero que queiram listar, pouco têm em comum com as pessoas reais e o seu dia-a-dia. É impossível para o humano ser um profissional, um cônjuge, pai, ou mãe, amante, modelo de beleza e saúde exemplar. Mas é justamente isso que se exige das mulheres. Como se fossemos capazes de fazer tudo sozinhas e o pior é que acreditamos nisso e seguimos este absurdo da mulher perfeita para depois apenas sofrer de ansiedade, ou depressão.

O filme “Kim Ji Young: Nascida em 1982” (2019), dirigido por Kim Do Young, baseado no livro de Jo Nam Jjoo, de forma indireta, incita tal debate. Estrelada por Jung Yu Mi que vive Kim Ji Young na trama e Gong Yoo, que interpreta seu marido Jung Dae Hyun, esta produção cinematográfica não se curva de assuntos espinhosos, ainda que o faça de forma sutil e muito sensível. A personagem principal trabalha em uma agência de relações públicas. Porém, um dia casa e tem uma filha, tendo que deixar o seu emprego. A vida segue o seu curso normalmente, até que, de repente, Kim Ji Young começa a falar como sua mãe, sua irmã mais velha. Do nada, transforma-se e passa a ser outra pessoa. Estaria ela possuída? Sofreria ela de dupla personalidade? O que teria acontecido?

Antes de mais nada é importante salientar que o interessante de um filme que aborda tal temática, de tantos que já foram feitos sobre o mesmo assunto ao redor do mundo, é a sua capacidade de levar um tema polêmico como este para situações cotidianas, para o ambiente privado e íntimo do lar, onde a correlação de forças entre marido e mulher definitivamente ocorre. Alguns diriam que tal situação na Coreia é diferente de outros países do ocidente, onde as mulheres não são necessariamente obrigadas a deixar seus empregos.

Primeiro, que tal contexto do filme pertence à década de 1980, onde tal situação ainda ocorria. Muito mudou na Coreia rapidamente em alguns poucos anos. No entanto, muito ainda dos velhos costumes permanecem. E pior, com as transformações sociais, as coreanas passaram a acumular tarefas, assim como qualquer mulher dos países no ocidente. É interessante perceber que aqui não se contempla a ideia utópica da maternidade idílica, paradisíaca, como muito afirmam por aí, mas também não temos o inferno na Terra. A personagem principal luta diariamente com as dificuldades de criar uma criança, com o trabalho exaustivo que demanda. No entanto, diferente da maioria, Kim Ji Young rebela-se de forma bastante inusitada, inconsciente, através da “incorporação”, ou no deixar falar uma voz que ela nem sabe que tem.

Fonte: IMDB

Ela enfrenta quem a julga, quem almeja dizer-lhe o que deve fazer ou não, confrontando até os mais velhos, situação complexa em uma sociedade como a coreana tão hierarquizada e tão submissa à ideia de respeito aos mais velhos, mesmo que os idosos usem disso para oprimir, ou livremente extrapolarem seus direitos sobre os mais jovens. Tal atitude dela intriga seu marido, que busca compreender e ajudá-la. Uma figura já digamos diferente, com uma mente mais aberta do que os homens da sua época. A maioria provavelmente já teria saído e abandonado a família, como até hoje, é normal.

O diferencial nos protestos desta nova persona que Kim Ji Young assume é que ela deixa claro não ser obrigada a assumir todas responsabilidades que lhe são impostas como naturais. Afinal, ela também tem anseios para além da casa e da família e assim praticamente obriga seu marido, mãe, irmão e tal a auxiliarem-na. Fica claro, por exemplo, a falta de atenção do pai, que facilita tudo para o irmão dela e o mima, enquanto Kim Ji Young para ele praticamente não existe.O interessante aqui é justamente esta atitude de não incorporar a heroína e tentar fazer tudo sozinha, mas transformar o seu ambiente e as pessoas ao seu redor. A dupla de atores principais têm atuações primorosas, de pessoas comuns que tentam lidar com seus problemas mais íntimos em meio a uma sociedade que pouco compreende, ou quer compreender. Os atores que interpretam papéis secundários fornecem o suporte necessário para que o casal de atores principal possa dar sua melhor performance. A química profissional entre Jung Yu Mi e Gong Yoo não precisa de grandes apresentações. Velhos conhecidos de outras produções como “Invasão Zumbi” (2016), de Yeon Sang Ho e “Silêncio” (2011) de Hwang Dong Hyuk, eles deixam claro que juntos na tela têm muito a dizer, a mostrar e comover o espectador.

Jung Yu Mi interpreta Kim Ji Young. Crédito: Cinema Escapist.

A direção de Kim Do Young traz a sutileza e complexidade psicológica que o enredo necessita, sustentado na escrita do roteiro adaptado que ela compartilha com Yoo Young A e com a autora do livro Jo Nam Joo. Não há falas demais, nem explicações desnecessárias, nem discurso ativista na história. A diretora deixa através das cenas e das atuações que a trama flua e por si deixe que as questões e suas polêmicas livremente sejam manifestadas ao espectador. Deste filme, pode-se pensar o quanto estamos realmente transformando o nosso cotidiano.

Os homens de nossa época estão cientes do papel que têm na criação dos filhos e nas atividades domésticas? O meio de trabalho ainda tão masculinizado e pouco preparado, até fisicamente, para as mulheres que engravidam, ou têm filhos, está sendo modificado? Mulheres grávidas têm a necessidade de alguns cuidados sim, como o meio de trabalho adaptou-se às necessidades delas? Isso não seria importante levar em conta, em especial em uma sociedade com problemas graves de natalidade? E quando as crianças nascem há creches nas empresas para os pais, ambos, trabalharem e estarem próximos dos filhos? Existem benefícios para formar uma família? São questionamentos que nem o Feminismo hoje realiza ou leva como uma bandeira integral sua. Se há falta de igualdade nos âmbitos empresariais mais sofisticados, imagina nas fábricas, na realidade das trabalhadoras braçais, de “chão de fábrica”, como diz o jargão popular. Reflexões deste tipo são necessárias. Assim, Feminismo sem consciência de classe e atenção às questões mais particulares do mundo feminino torna-se, na opinião desta autora, ineficaz para as massas.

Talvez o que muitos grupos dentro do Feminismo, não todos obviamente, estejam fazendo sem saber é apenas incorporar à estrutura masculina do sistema algumas mulheres, que acabam virando chefes com medidas praticamente iguais, ou tão opressoras como a de um chefe homem. E até isso o filme em questão salienta. A chefe de Kim Ji Young é compreensiva com ela, com seus problemas, não a descarta nem por medo de competição, nem pela sua aparente falta de produtividade e utilidade momentânea…

Crédito: Medium.

Aqui também temos um apelo à saúde não apenas física, mas mental, emocional dos empregados como algo primordial para que a estrutura do trabalho, do sistema empresarial possa funcionar melhor. Na busca da superação das várias desigualdades que o sistema atual produz, o universo feminino e suas questões particulares necessitam ser observados por todos e estarem no centro do debate. Só assim antigos padrões e injustiças serão realmente superados.

Ficha técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Kim Do Young | Roteiro: Jo Nam Joo (livro), Yoo Young A, Kim Do Young | Atores: Gong Yoo, Jung Yu Mi, Kim Mi Kyung  | Duração: 1h58 |  Ano: 2019. 

Um dos filmes coreanos mais esperados do ano está disponível na Netflix

Via Koreapost

O thriller “Time to Hunt” (Tempo de Caça) foi lançado na Netflix na quinta-feira (23/04), após um controverso atraso de duas semanas. O filme foi lançado simultaneamente em cerca de 190 países, às 16h (horário de Seul).

A empresa de streaming estava originalmente programada para lançar “Time to Hunt” no dia 10 de abril. No entanto, o lançamento foi adiado quando a justiça proibiu a distribuição no exterior do filme depois que o distribuidor no exterior, Contents Panda, que estava em disputa com o distribuidor local do filme, Little Big Pictures, entrou com uma liminar contra a liberação estrangeira do mesmo.

Na sexta-feira (17), a Little Big Pictures e a Contents Panda chegaram a um acordo e que o filme seria lançado globalmente na Netflix. Um thriller de ação distópico do diretor Yoon Sung-hyun, “Time to Hunt” é um dos filmes coreanos mais esperados do ano. Esperava-se originalmente que ele fosse exibido nos cinemas locais no final de fevereiro, após sua estreia mundial na seção de gala especial do Festival Internacional de Cinema de Berlim de 2020.

“Time to Hunt” se torna o primeiro filme coreano a cancelar seu lançamento programado nos cinemas e pular direto para a Netflix depois do lançamento ter sido adiado indefinidamente devido ao surto de COVID-19. Lee Je-hoon e Park Jeong-min, que estrelaram o longa de 2011 de Yoon “Bleak Night”, juntam-se a Ahn Jae-hong, Choi Woo-shik e Park Hae-soo em “Time to Hunt”.

Assista o trailer do filme!