Os Garotos de Fengkuei: Um retrato da juventude comum

Por Júlia Garcia*

Os Garotos de Fengkuei (風櫃來的人/Feng Gui lai de ren) é um filme taiwanês de 1983 dirigido por Hou Hsiao-Hsien. A história – assim como grande parte dos trabalhos do diretor, como Millenium Mambo (2001) e Três Tempos (2005) – rejeita a estrutura narrativa clássica, baseada em personagens engajados na resolução de um conflito evidente, com início, meio e fim claramente definidos. Ao invés disso, o cineasta opta pelo realismo, valorizando, através de um pequeno recorte da vivência, o comum, o cotidiano e o corriqueiro. E são justamente essas características que fazem de Os Garotos de Fengkuei um retrato tão sutil, e ao mesmo tempo acurado, da passagem da juventude à vida adulta.

O filme acompanha quatro garotos, moradores de uma pequena vila pesqueira chamada Fengkuei, localizada nas Ilhas Penghu, um arquipélago a oeste da ilha principal de Taiwan. Os meninos frequentemente se envolvem em brigas e confusões, por diversos motivos; seja porque perderam dinheiro em apostas ou porque entraram no cinema sem comprar ingressos. O comportamento violento e rebelde leva-os, inclusive, à polícia. Insatisfeitos com a vida no vilarejo, três dos garotos resolvem, então, tentar a sorte em Kaohsiung, uma das maiores cidades de Taiwan.

Apesar das atitudes agressivas, enquanto ainda estão em Fengkuei, os meninos apresentam certa inocência e aura infantil. Eles brincam, pregam peças e se divertem, como crianças. A cena que melhor exemplifica esse comportamento pueril acontece na praia: os garotos dançam, com o mar ao fundo, na frente de uma moça que acabaram de conhecer, provocando-a alegremente.

Crédito: Eureka Entertainment Limited

No entanto, com a mudança dos garotos para a cidade grande, não somente as paisagens rurais deram lugar à agitação urbana, mas a inocência de uma juventude infantil também foi sendo substituída pela necessidade do amadurecimento. Logo ao desembarcarem em Kaohsiung, os meninos já se perdem, tendo dificuldades para se orientarem na confusa paisagem da cidade, repleta de placas, rodovias e automóveis, em contraposição aos campos, praias e vielas de Fengkuei. Mais tarde, já estabelecidos há algum tempo no local, os garotos são enganados por um homem que os vende ingressos para uma exibição de cinema que, na verdade, não existe. Esse momento é simbólico. Já não são mais os meninos que enganam e trapaceiam, invadindo o cinema de Fengkuei sem pagar pela entrada; agora, na cidade grande, eles são as presas.

A desorientação no espaço urbano e a ingenuidade em relação aos modos de vida da metrópole demonstram a enorme diferença entre o viver no campo e na cidade. Mas, além disso, as hesitações e incertezas que os garotos experienciam em Kaohsiung também representam, de certa forma, a nebulosa fase entre o final da adolescência e o início da vida adulta.

Nesse processo, enquanto Ah Ching (Doze Niu) experimenta o interesse não-correspondido em Hsiao-Hsing (Lin Hsiu-Ling) e enfrenta a morte repentina do pai, que devido a um problema neurológico há muito já não se comunicava, sua família o pressiona para que se encaixe no padrão daquilo que, socialmente, é considerado o ideal de vida e conduta. Ao mesmo tempo, seus amigos buscam alternativas ao trabalho na fábrica, almejando futuros que não teriam no emprego que ocupavam. Esse tipo de preocupação passou, portanto, a sobrepor as brigas e confusões dos garotos, sem que, contudo, houvesse uma completa disrupção da juventude do modo como experienciavam em Fengkuei.

Crédito: Eureka Entertainment Limited

Não há solidez nas situações vividas pelos meninos, assim como não há na transição para a vida adulta. Nada parece preciso ou certo. Os Garotos de Fengkuei mostra um recorte, um retrato, de jovens experimentando mudanças e dúvidas, alegrias e aflições, com todos os obstáculos e sabores que essas experiências provêm. Com uma imagem do cotidiano, que retrata o comum e o ordinário, fica fácil nos identificarmos com os garotos, tão perdidos na vivência urbana quanto qualquer um de nós, em qualquer fase da vida.

Ficha técnica:

País: Taiwan | Direção: Hou Hsiao-Hsien | Roteiro: Chu T’ien-wen | Elenco: Chun-Fang Chang, Shih Chang, Grace Chen, Doze Niu, Chao P’eng-chue, Tsung-Hua To, Li-Yin Yang | Duração: 99 min | Ano: 1983.

  • Júlia Garcia é mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e jornalista pela mesma instituição. Atua como pesquisadora no Observatório da Qualidade no Audiovisual, onde participa do projeto Ásia Pop, com foco na cultura pop asiática, em especial a japonesa e sul-coreana.

Os 100 Adeus: entre términos e retornos

Por Mayara Araujo

Não é nenhuma novidade constatar que relacionamentos podem ser conturbados e repleto de reviravoltas. A verdade é que a sensação de êxtase do início de um amor novo passa e essa excitação vai se tornando gradativamente mais serena, até o momento em que se torna meio insossa. O tempo passa, as pessoas se transformam em outras pessoas e o brilho nos olhos que guardávamos para um alguém querido vai perdendo o impacto, na medida em que também mudamos. Ainda assim, existem casais que sobrevivem a monotonia do nosso cotidiano e reaprendem a se apaixonar de tempos em tempos. É justamente sobre tais percalços que Os 100 Adeus, comédia romântica dirigida e roteirizada por Lawrence Cheng, nos conta.

Sam (Ekin Cheng) e Barbara (Chrissie Chau) são mais um desses casais que estão juntos há tempo o suficiente para compartilhar espaço no mesmo banheiro. Eles compartilharam muito nesse tempo: um cômodo, uma casa, uma vida. Com isso, o relacionamento dos dois parece estar desgastado: as piadas de Sam não são mais tão engraçadas – se tornaram imaturas; o humor ácido de Barbara não é mais um charme – agora é meramente chato. 

Esses pequenos detalhes do dia a dia são o principal motivo de tantos términos: 99, até aqui. Foram 99 vezes que o trem saiu do trilho e os dois tiveram que se esforçar para que ele retomasse o seu devido lugar. Um pedido de desculpas por parte de Sam, uma tentativa de melhor compreensão por parte de Barbara. Nesses 99 términos eles se tornaram mais fortes, mas também mais cansados.

Crédito: Fixable.com

Depois do 99º término, Sam e Barbara decidem abrir um pequeno negócio juntos: uma cafeteria chamada “Le Je Taie”, na qual os clientes poderiam desfrutar de uma “autêntica” refeição francesa – mesmo que para atender os seus primeiros clientes eles tivessem que ligar para a cafeteria concorrente e realizar o mesmo pedido que o cliente havia feito, mas para entregar para a viagem. Em suas inocências, o que eles não haviam percebido, no entanto, é que o próprio nome do estabelecimento havia sido grafado errado. E isso não poderia ser um bom presságio.

“Sorte nos negócios e azar no amor”, esse poderia ter sido o slogan reservado para a pequena Le Je Taie. Foi justamente ali, servindo pratos, mantendo os negócios ativos e observando os clientes que vêm e vão, que eles puderam contemplar o desfecho de diversos relacionamentos. A cafeteria se tornou palco para casais que se desentendiam, brigas que corriam soltas e rompimentos definitivos de pessoas que juraram seu amor um pelo outro.

Nesses rompimentos públicos, muitos casais deixam para trás pertences de valor afetivo. Talvez por esquecimento ou talvez porque queiram esquecê-los. A partir dessa constatação que Sam tem a ideia de alugar um pequeno espaço dentro do café para que os clientes possam se desfazer de tais itens. Assim, alianças, pelúcias, fotografias são temporariamente deixadas para trás, dentro do estabelecimento, para que os corações possam ser curados.

Crédito: Netlflix.com

É a partir dessa estante do término que o Le Je Taie se transforma em um negócio de sucesso. Pouco importa o sabor da comida ou a qualidade do café, desde que tais itens possam ser deixados para trás. Pouco a pouco, a estante do término vai sendo preenchida de memórias de relacionamentos passados alheios e, em paralelo, o ego de Sam vai se tornando inflado. Depois de anos sendo considerado imaturo por sua parceira, ele finalmente surgiu com uma ideia que vingou e, agora, se sente preparado para dar o próximo passo.

Com o apoio de alguns amigos próximos e sem nenhum comunicado à Barbara, Sam decide procurar lojas no bairro para alugar, no intuito de desenvolver filiais do Le Je Taie. Acontece que ao descobrir, Barbara não só se sente traída, como não deposita nem um pouco de confiança na ideia de Sam. “Quanto tempo isso vai durar?”, questiona. De fato, Sam não se responsabiliza enfaticamente sobre a administração dos negócios e se inspira meramente na efemeridade de ter tido uma boa ideia. Com isso, pela centésima vez, Barbara decide deixá-lo.

Dessa vez, diferentemente do que ocorreu até aqui, Sam não pretende correr atrás de sua parceria para pedir desculpas. Afinal, ele também se sente traído com a falta de confiança que Barbara sente nele. Por outro lado, Barbara parece certa sobre o vindouro pedido de desculpas. E se surpreende, ao demorar para chegar. Pela primeira vez, os dois parecem precisar de tempo para organizar seus próprios sentimentos um pelo outro. 

Crédito: hk01.com

De forma agridoce, o filme se encerra com um reencontro mais do que sereno, no qual nos segundos finais podemos observar que nossos protagonistas deram as mãos. O futuro do relacionamento, entretanto, continua parecendo incerto, visto que não houve uma evolução real de ambos os personagens.

Como comédia romântica, Os 100 Adeus não tem nada de engraçado. Não existem reviravoltas emocionantes e causa até certa estranheza ao espectador o relacionamento dos protagonistas. Não há fortes motivos ou identificação o suficiente para se torcer pelo separação ou união final dos dois. Mas nos deixa a dramática reflexão acerca de nossos próprios relacionamentos amorosos e uma certa inveja da ideia de se ter um lugar equivalente a tal estante do abandono.

Ficha Técnica:

País: China (HK) | Direção: Lawrence Cheng | Roteirista: Lawrence Cheng | Elenco: Chrissie Chau, Ekin Cheng, Ivana Wong | Duração: 105 min | Ano: 2014.

REBELS OF THE NEON GOD: Juventude, divindades e chuva, muita chuva

Por Guilherme Gooda*

Tsai Ming-Liang debuta no cinema lançando o espectador dentro de uma Taipei em pleno movimento e recorta a vida de quatro jovens. O filme de 1992 Rebels of the Neon God, nome em inglês para o título 青少年哪吒 (ou Jovem Nezha em tradução literal), retrata a camada média da juventude de Taipei a partir de três personagens, vazios de objetivos e desejos enquanto vagam pelas ruas de uma noturna e chuvosa Taipei, iluminada pelo farol das motocicletas, letreiros de neon e gigantescos fliperamas. Para eles, Taipei é o começo e fim. Para onde mais iriam? O que mais eles conhecem? Sem carreiras, conexões, futuro, amor ou esperança. O filme retrata a irônica alienação e solidão que as mega-cidades proporcionam.

A começar pelo título, o nome original chinês sendo alterado para o Ocidente faz referência direta à uma divindade de cultura chinesa que por vezes é mencionada no filme. A história mitológica de Nezha (or Norzha na pronúncia taiwanesa) que é rejeitado por seu pai e se envolve em grandes problemas com outras divindades ao matar por acidente o filho de Ao Kuang, o general dragão condenando a China com chuvas e inundações, até decidir se oferecer em sacrifício para que o castigo fosse aliviado.

A narrativa do filme segue e atualiza em várias medidas o conto mitológico. Hsiao Kang (Lee Kang-sheng) estuda para as provas de vestibular mesmo sem ter muita ideia de para onde aquilo o levaria e sua falta de interesse pelos estudos gera conflito com o pai. Hsiao Kang planeja então abandonar o curso e pegar o dinheiro da rescisão sem comunicar aos pais. Enquanto isso Ah Tze (Chen Chao-jung) rouba moedas de cabines telefônicas para passar a madrugada em um fliperama junto com um amigo. 

Crédito: qelle.tumblr.com

Ah-Kuei (Wang Yu-wen), uma garota que trabalha um ringue de patinação, pede uma carona para Ah-Tze e então os dois personagens iniciam uma conversa e um relacionamento. Na primeira cena de contato entre três dos personagens centrais:  Hsiao Kang dentro de um táxi guiado por seu pai, acompanha com o olhar Ah-Tze e Ah-Kuei, passeando pelas ruas de Taipei em uma motocicleta. Hsiao Kang sente um misto de inveja e admiração por Ah Tze. 

Os dois personagens são bastante diferentes, enquanto o primeiro é mais reservado e introspectivo e mesmo infantil o segundo parece mais aventuresco, destemido e rebelde. Tais características são refletida na diferença do veículo dos dois: enquanto Hsiao Kang anda em uma scooter, Ah Tze tem um moto esportiva e uma garota na garupa,  não esconde a inspiração do diretor Tsai Ming-Liang no clássico “Rebel without a cause” (1955, Nicholas Ray), compartilhando a mesma temática de conflito de gerações e referências mais óbvias como um pôster do filme na parede da casa do protagonista, Ah Tze é um novo tipo de James Jean agora atualizado aos anos 90. 

Hsiao-Kang fica então obcecado pela vida de Ah Tze e começa a seguí-lo em toda parte sem o outro note, gerando certa atmosfera de suspense que é agravada pela sempre noturna Taipei. Os poucos diálogos do filme e a discrição de Hsiao-Kang em revelar sua motivação instigam o espectador, existe certa melancolia no personagem uma vez que Hsiao-Kang persegue os outros personagens (sentando bem em frente deles em uma cena), mas completamente invisível, mescla-se a isso um sentimento de repulsa por um personagem um tanto bizarro, que como o voyeur acompanha a vida alheia.

Crédito: http://moviemezzanine.com/rebels-of-the-neon-god

Acompanhando o personagem central, mergulhamos em regiões ocultas da cidade: vemos o interior de um shopping, restaurantes e  arcades, mas também corredores, quartos de hotel e banheiros públicos. Rebels of the Neon God é também um filme sobre a cidade de Taipei, não observando apenas a superfície, tal característica do diretor Tsai Ming-Liang se repete em outras obras familiarizando o espectador com cada canto de uma sempre viva e mutável cidade. 

 O filme é um recorte de realidade onde os personagens são  apresentados ao espectador sem que haja julgamento prévio de suas ações, abrindo a interpretação alguns podem pensar como o pai de Hsiao Kang que  pertencendo a uma geração anterior julga que o filho seja um inútil por se negar a estudar; outros podem levar a interpretação para certo fatalismo entendendo que o desfecho dos personagens não poderia ser diferente. Como Ah Tze, alguns podem ainda ter a esperança de saírem em suas motocicletas e buscarem uma vida ideal fora da cidade, um sentido de fuga jovem de quem experimenta o fracasso talvez pela primeira vez. 

As reações e os dramas da juventude são abordados na obra porém sem a alegria, o otimismo e a leve ingenuidade com a qual ela costuma ser abordada no cinema. Rebels of the Neon God é um filme cru que dialoga justamente com a ânsia do jovem que ao se perceber “inútil e fora do lugar” abraça o entretenimento como forma de rebeldia e mesmo como escape.

“Jovens sendo jovens” alguém poderia dizer, mas se tratando de uma obra oriental usaremos uma parábola oriental para descrevê-lo: “Lá estão os cavalos, com seus cascos para pisotear a neve e gelo, e sua pelagem para que se mantenham aquecidos do vento frio. Comendo grama e bebendo, saltitando e correndo – esta é a natureza dos cavalos. Mesmo grandes salões, ou elegantes terraços nada disso tem uso para eles.” 

Ficha técnica: 

País: China  | Direção: Tsai Ming-Liang | Roteirista: Tsai Ming-Liang | Elenco: Chen Chao-jung,  Jen Chang-Bin,  Lee Kang-sheng  | Duração: 106min | Ano: 1992

* Guilherme Gooda é doutorando em Comunicação pela UNESP-Bauru (2019-), onde pesquisa produções midiáticas do leste asiático em especial as chinesas, e mestre pela mesma instituição (2016-2018). Graduado em Letras (português-mandarim) na FFLCH-USP. Suas pesquisas envolvem a atualização do imaginário popular e a sobrevivências das imagens, bem como as relações Brasil-China em diversas esferas.

JORNADA AO OESTE: A queda e ascensão do Macaco Dourado.

Por Guilherme Gooda*

Qual o preço e qual o caminho para se tornar um imortal? E qual a finalidade de se tornar eterno? Essas são as perguntas que permeiam a narrativa de “Jornada ao Oeste”.

A lenda de Sun Wukong, ou o Rei Macaco, é um patrimônio cultural chinês. Publicado como obra escrita pela primeira vez em 1592 e escrito por Wu Cheng’en por volta de 1570, a história retrata a viagem e a interação entre pelo menos três personagens – Tripitaka, Macaco e Porco. Estes dois últimos personagens são tão memoráveis quanto seus pares na literatura mundial Don Quixote e Sancho Panza. As comparações com Don Quixote, como fantasia satírica pautada em observação realista e sabedoria filosófica, são apontadas por diversos críticos considerando a importância das duas obras para o desenvolvimento da literatura Europeia e Chinesa. 

A obra se baseia em um acontecimento histórico ocorrido na China entre 629-645, em que um monge Budista conhecido como Tripitaka viajou até a Índia para recuperar textos budistas e após sua volta dedicou o restante da vida a traduzi-los.

Crédito: Journey to the West, Ilustração: Jamie Hewlett, 2004

A história factual de Tripitaka se tornou uma lenda e elementos ficcionais foram adicionados como narrativa oral, culminando na versão lendária e fantasiosa representada em “Jornada ao Oeste”.

Como obra de fantasia, “Jornada  para  o  Oeste” (西|游|记 – Xī Yóu Jì)  é prontamente  acessada  pela  imaginação  ocidental  através  da  obra  adaptada  de  Arthur  Waley, “Macaco”, sendo a adaptação preferida do grande público e principalmente do meio acadêmico. Waley escolheu apresentar apenas quarenta dos cem capítulos da obra original, visto que a tradução completa se provaria cansativa para os leitores Ocidentais, já que muitos episódios parecem repetitivos e procedurais. 

A narrativa completa de “Jornada para o Oeste” possui em sua completude cem capítulos, que podem ser divididos em 4 partes distintas. A primeira destas quatro partes, que inclui os capítulos do primeiro ao sétimo, contém a introdução a história e a apresentação do personagem Macaco, o protagonista da narrativa de viagens mais famosa no oriente. Por este ângulo, Jornada ao o Oeste já foi comparado pela crítica com a Odisséia de Homero, aproximando as soluções engenhosas de Wukong com a astúcia de Ulisses. 

Crédito: Jornada ao Oeste, 2008 pg. 141

Certamente os traços principais de Sun Wukong (孙悟空- Macaco) são sua bravura e prontidão, seu destacamento espiritual, seu humor travesso e sua grande energia, definiam seu caráter heroico. A postura desafiadora, principalmente durante a primeira fase da história, deve-se ao fato do personagem parecer invencível e imensamente poderoso. Seu único medo é a morte, o que explica toda sua jornada em busca da imortalidade.

Já na segunda metade Wukong percebe que a imortalidade só poderia ser alcançada com o cumprimento  de sua jornada através do serviço, dando início ao trajeto de viagens da China para a Índia, acompanhando o monge Tripitaka. Alegoricamente, a jornada de Wukong é uma busca por compreensão e entendimento dialogando diretamente com o Budismo chinês, enquanto o pano de fundo místico ajusta-se com um Taoísmo já de certa forma influenciado pelo Budismo que expandia na China durante a Dinastia Ming. 

A adaptação em quadrinhos do Jornada ao Oeste é classificado como um lianhuan hua, ou livro de imagens conectadas. Essa forma de quadrinho existe desde o início do século XX, quando a tecnologia de impressão barata tornou possível para as editoras a produção em massa de imagens com alta fidelidade e texto com baixíssimo custo, oferecendo uma nova forma de entretenimento para o número crescente de leitores nas cidades. Uma das características deste quadrinho é a representação de apenas um ou dois quadros por página – riquíssimos em detalhes – trazendo uma legenda que explica a cena representada.

Crédito: Jornada ao Oeste, 2008 pg. 121

Com o advento do mangá no Japão, principalmente após as obras de Osamu Tezuka, o lianhuan hua perdeu espaço para o novo quadrinho chinês, num estilo muito mais influenciado pelos quadrinhos japoneses e ocidentais, adotando o nome de manhua, para se aproximar dos mangás japoneses.

Diferente do quadrinho ocidental moderno e do mangá, onde existem, os “balões” para darem fala e indicarem os pensamentos dos personagens, aqui a legenda funciona como parte integrante da cena, sem ela a compreensão de certos quadros ficaria impossível. Hoje, o lianhuan hua é uma mídia essencialmente renegada, com sua distribuição e negociação atendendo a nichos específicos de colecionadores e adultos mais nostálgicos.

No princípio da narrativa, a personalidade quase infantil do Macaco faz com que ele pregue peças, zombe e discuta com seus opositores como uma criança que desafia os pais em frente ao castigo.

Crédito: Jornada ao Oeste, 2008 pg. 27

Nesse sentido, Wukong poderia representar o caos que perturbar a ordem celestial, principalmente por não respeitar o “protocolo e a hierarquia” estabelecida pelas divindades. Wukong é a representação de uma força da natureza, de um poder e força bruta que se mostram desapegado das convenções sociais do Céu exigindo o que acha ser o certo.

Wukong acredita que sua força era seu direito de governar e foi por sua arrogância que foi punido finalmente pelo Buda.  Sua força física é demonstrada durante as passagens de combate e de treinamento e  sua ânsia para tornar-se imortal o levou até o Céu, mas por ser insubmisso caiu novamente à Terra, onde ficou aprisionado. 

 Somente na segunda parte da narrativa, Wukong aprende que a imortalidade e iluminação não são atingidos através de força bruta, mas sim através do serviço, humildade e amizade onde o Macaco, agora na companhia de seus novos amigos finalmente  encontra ao longo de sua jornada. Parece algum shonen q você conhece? A narrativa Jornada ao Oeste serviu como inspiração para várias obras da cultura pop, adaptando o personagem Wukong e outros aspectos da narrativa, sempre atualizando os conceitos tratados na obra.

Ficha técnica: CHENG’EN, Wu – Jornada ao Oeste: o nascimento do rei dos macacos / Wu Cheng’en tradução Adam Sun. Ilustração: Ma Cheng, Wang Zhi-Xue e Hou Xi – São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2008.

 * Guilherme Gooda é doutorando em Comunicação pela UNESP-Bauru (2019-), onde pesquisa produções midiáticas do leste asiático em especial as chinesas, e mestre pela mesma instituição (2016-2018). Graduado em Letras (português-mandarim) na FFLCH-USP. Suas pesquisas envolvem a atualização do imaginário popular e a sobrevivências das imagens, bem como as relações Brasil-China em diversas esferas.

Our Shining Days: quando Ocidente e Oriente se encontram numa batalha muito mais do que musical

Por Mayara Araujo

Ao se falar sobre a China no Ocidente, os discursos e narrativas tendem a ser pejorativos, com um tom ameaçador e repleto de uma profunda falta de conhecimento sobre o gigante asiático. A verdade é que, para além de estereótipos envolvendo comidas exóticas, artes marciais e preconceitos associados a sua cultura e sistema político, a China permanece sendo um território pouco explorado no senso comum do cidadão brasileiro. Por sorte, com o apoio das facilidades promovidas pelas novas tecnologias da comunicação, nos encontramos em uma posição privilegiada para investigar um pouco melhor tal país, através de seus produtos midiáticos que podem ser encontrados em plataformas de streaming como a Netflix e outras vias não oficiais. É nesse contexto que nos deparamos com Our Shining Days, um filme musical de temática adolescente que aborda uma emocionante batalha entre instrumentos musicais tradicionais chineses e os instrumentos clássicos ocidentais. Embora muitos possam torcer o nariz para filmes teen, saiba de antemão que de bobo, Our Shining Days não tem nada.

A história acompanha dois grupos de estudantes de uma escola de música – um da orquestra chinesa e o outro da orquestra clássica – que vivem uma atmosfera de constante rivalidade, competindo sobre quais instrumentos musicais são melhores. O primeiro grupo é composto por estudantes focados em tocar os instrumentos que conhecemos no ocidente, como o piano e o violino, enquanto a orquestra chinesa é especializada em instrumentos musicais tipicamente chineses, como o yangqin e o guzheng, sobre os quais dificilmente os espectadores ocidentais detém conhecimento a respeito. Evidentemente, como todo bom filme de temática adolescente, ele trabalha com clichês do gênero e, com isso, existe uma disputa de poder entre o grupo “popular” e o grupo minoritário, que é constantemente perseguido pelos populares e pela administração da escola. Nisso, os estudantes da orquestra chinesa precisam se reafirmar e reafirmar a importância de seus instrumentos, diante de um cenário de zoações e ameaças de perda de espaço físico, o que os impediriam de praticar.

Em um primeiro momento, a protagonista Chen Jiang (Xu Lu) não se vê envolvida com essas dinâmicas conturbadas entre os grupos rivais, pois está concentrada em seu próprio cotidiano. No entanto, esse cenário rapidamente se transforma, ao se apaixonar pelo pianista Wang Wen (Luo Mingjie). Ao se declarar para Wang Wen, ele não somente a rejeita, como também exalta publicamente o seu desapreço pelos instrumentos musicais chineses, fazendo-a se sentir humilhada. Assim, Chen Jiang rapidamente assume a liderança da disputa musical e se vê determinada em provar tanto para Wang Wen quanto para a orquestra clássica – e a própria escola – o valor e a importância dos instrumentos musicais chineses.

Yangqin, erhu, guzheng, pipa, cello/violin/viola/double bass ...
Instrumentos musicais chineses. Crédito: kijiji.ca

Através da metáforada rivalidade entre dois grupos que preferem instrumentos musicais diferentes, traça-se nas entrelinhas a atual narrativa da recorrente competição por protagonismo e liderança global entre a China e o Ocidente, representado principalmente pelos Estados Unidos. De fato, a importância da China no cenário internacional tem se apresentado de forma cada vez mais proeminente, seja por conta de sua pujança econômica ou seu desenvolvimento tecnológico que vem chamando a atenção ao redor do mundo. Além disso, é perceptível os recentes e crescentes investimentos chineses em propagar a sua cultura ao redor do mundo, através de institutos culturais como o Instituto Confúcio (ICs), inserção da mídia chinesa em diversos idiomas (como a Xinhua News e o China Daily) e a busca em aperfeiçoamento de linguagem para a criação de um cinema com forte apelo internacional. O avanço da China, sem dúvida, contribui para colocar em xeque as pressuposições sobre essa nação diante do mundo ocidental.

Para desafiar a orquestra clássica de forma oficial, Chen Jiang se une com outros cinco estudantes da orquestra chinesa: Li You (Peng Yu Chang), seu melhor amigo que toca o tambor chinês; Xiao Mai (Liu Yongxi), também conhecida como “senhor dos mil dedos”, por conta de suas performances super populares nas comunidades otakus da internet; Ying Zi (Li Nuo), que toca erthu (uma espécie de flauta) e sofreu tanto bullying na escola que parou de falar; Beibei (Lu Zhaohua) e Tata (Han Zhongyu), duas meninas que se vestem no estilo lolita e que tocam ruan e pipa. Juntos, eles formam a banda 2.5 Dimension. No entanto, a falta de popularidade de Chen Jiang é tão expressa que para conseguir formar a banda, ela se compromete a comprar action figures de preço elevado para as participantes não a deixarem na mão e usarem seus talentos em conjunto, para o bem da banda.

Em uma explícita referência a cultura pop japonesa, o 2.5 Dimension é convidado para fazer uma performance ao vivo em uma convenção de animê, na qual também se deparam com olhares desconfiados do público que estava animado com apresentações musicais anteriores de grupos de C-Pop. No entanto, ao começarem a deixar o som de seus instrumentos musicais transparecer, o público geek do evento acaba se aglomerando e ampliando a audiência, aplaudindo ativamente os músicos e disponibilizando a apresentação em plataformas digitais.

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Poster promocional do filme. Crédito: Edko Films Ltd. 

Com a popularidade recém obtida, Chen Jiang, diante de uma plateia de estudantes, novamente se declara para Wang Wen, mas recebe mais um não como resposta. Em mais uma metáfora, Wang Wen, pianista clássico, rejeita a protagonista ao dizer que eles são muito diferentes e que têm objetivos distintos e pede, portanto, para que ela pare de atrapalhar a vida dele. No entanto, inesperadamente, os espectadores da cena compram o lado de nossa protagonista e a defende das humilhações recebidas. Nesse momento, Li You assume a cena, em uma brilhante atuação do jovem ator Peng Yu Chang, que ensina Wang Wen e a nós, os espectadores, as origens do yangqin, que é tocado na China há mais de 400 anos. Nessa alegoria, o roteiro ressalta o valor das tradições chinesas e exige o respeito merecido por sua História e sua cultura.

No retorno das férias de verão, a orquestra chinesa é surpreendida com o anúncio do encerramento das atividades do departamento devido a pouca popularidade obtida ao longo dos anos. Nisso, os estudantes se propõem a defender a permanência do departamento e embarcam em uma disputa musical contra os alunos da orquestra clássica. Em uma emocionante disputa sonora, a orquestra chinesa se faz vitoriosa, obrigando a orquestra clássica a reconhecer a qualidade e o valor dos instrumentos tradicionais chineses. No mais, as apresentações da orquestra chinesa em eventos oficiais e de prestígio para além do ambiente escolar, acabam por influenciar uma nova geração de estudantes de música que, inspirados nesse grupo, vão optando por aprender mais sobre os instrumentos tradicionais.

Por fim, Our Shining Days traduz uma celebração da China de uma maneira leve e ambiciosa, na qual dialoga com o público jovem ao mesmo tempo em que consegue transpor a importância de suas tradições e o orgulho pelo passado através de uma repaginada. Com o pano de fundo musical, a batalha entre oriente e ocidente se torna a veia condutora dos acontecimentos. No mais, independentemente de vitórias ou derrotas musicais, o filme traz uma abordagem revigorada sobre sua própria sociedade, quebrando estereótipos do gigante asiático e revelando uma profunda autoestima. Nisso, a China nos brinda com sua tradição musical, jamais contemplada no Ocidente, e nos apresenta uma trilha sonora repleta do empolgante som do C-Pop.

Our Shining Days - Part 1: Movie Analysis - Ignite Chinese
Crédito: ignite chinese

Ficha Técnica: 

País: China  | Direção: Wang Ran | Roteirista: Bao JingJing | Elenco: Xu Lu; Peng Yuchang; Liu Yongxi; Li Nuo; Lu Zhaohua; Luo Mingjie; Han Zhongyu | Duração: 100min | Ano: 2017