Por Murilo Machado

Snowdrop se passa durante os anos 80, mais precisamente em 1987, no fim de um período conhecido como Quinta República. O texto em questão não tem como objetivo adentrar as questões de como foi estabelecida a primeira república da Coreia e como ela se desenvolveu até o período exposto no drama, nem tem como pois o texto ficaria longo demais, mas é preciso pelo menos entender como se deu a quinta república, para compreender os fatos que levam a narrativa de Snowdrop.

Credito: K-dramath

Primeiramente, é pertinente entender que a história da Coreia é cercada por revoluções e golpes atrás de golpes políticos, onde nunca uma liderança conseguiu exercer em plenitude seu poder. Desde o estabelecimento da primeira república (1948-1960), antes da guerra da Coreia (1950-1953), já havia uma sensibilidade na região. Isso deu-se em vista de uma resolução da ONU (Organização das Nações Unidas), proposta depois da derrocada do Império japonês na Segunda Guera Mundial (1939-1945) e a perspectiva de uma Coreia livre. Mas com o território ainda nas mãos dos soldados estadunidenses, havia o reconhecimento de apenas um único governo legal na Coreia, e esse seria a parte ao sul do paralelo 38º. Syngman Rhee foi estabelecido como primeiro presidente, o que foi desgostoso na porção ao norte do paralelo, que estabeleceu a República Popular Democrática da Coreia.

O que se viu depois desse período foram constantes disputas entre o Sul e o Norte, numa península dividida, reforçando a mentalidade da Guerra Fria, em que o Estados Unidos ainda controlava o lado do Sul e o Norte possui em sua região forças da União da República Socialistas Soviéticas (URSS). Todo o ocorrido desse período culminou na Guerra das Coreia.

Crédito: Superinteressante

Em 1953, em decorrência de negociações por um armistício, foi implantado em na região de Panmunjeom (판문점), uma Zona Desmilitarizada e que continua a ser utilizada pelas Coreias como ponto de encontro. Depois da renúncia de Rhee, em junho de 1960 ocorre uma Assembleia Nacional e é estipulado outro governo, porém esse governo não conseguiu implementar reformas efetivas. Consequentemente, um grupo de jovens oficiais militares, liderados pelo Major-General Park Chung-Hee realiza um golpe de estado em 1961 e tomam para si o governo da Coreia. Assim, em 1963 começou o período da terceira república.

Mas onde se encontra o Norte nessa história? É importante salientar que entre 1971 e 1972, o então presidente Park Chung-Hee estreitava relações com o premiê norte-coreano Kim Il-Sung. Os dois até um certo ponto trabalhavam por uma Coreia unificada, porém o que se viu foi o aumento do controle político de ambas as partes e Park Chung-Hee desenvolve uma nova constituição, após ter suspendido a antiga para criar um sistema político contra os comunistas.

A constituição, promulgada pelo General Park, chamada de Yusin (“restauração”, também referida como Outubro Yusin, 시월유신) deu mais poder para ele, aumentando seu autoritarismo e assim estabelecendo as eleições indiretas da época. Em Pyongyang, na Coreia do Norte, Kim Il-Sung é estabelecido como presidente.

O período foi marcado por intenso autoritarismo do governo e eleições indiretas, onde o povo não podia participar, continuando assim na quarta república. Em 1979, as manifestações antigoverno aumentaram e Park Chung-Hee é morto por um oficial do Serviço de Inteligência Nacional, Kim Jae-Gyu. Choi Kyu-Hah assume o governo, mas logo depois é tirado do posto por mais um golpe militar, agora pelo Major Chun Doo-Hwan. Assim começando o período da quinta república.

Em 1980 os confrontos entre o governo e o povo, que pedia por reformas democráticas e maior liberdade política, se intensificaram. Em 18 de Maio ocorriam grandes manifestações em Gwangju, a capital da província na época, que chegou a ser controlada pelos rebeldes e no dia 27 daquele mês, devido a uma forte repressão, o confronto em Gwangju vira um massacre de manifestantes e estudantes, por parte do exército, dando origem ao fato conhecido hoje como ‘Massacre de Gwangju’ ou ‘Movimento pela Democracia de Gwangju’ ou ainda ‘Movimento pela Democracia de Gwangju de 18 de maio’.

Credito: Jacobin

Apesar de um governo ditatorial, o país apresentava um crescimento econômico e o desenvolvimento cultural teve investimento nesse período, com a construção do Museu Nacional da Coreia, o Museu de Arte Contemporânea e a realização dos Jogos Olímpicos de 1986.  Apesar das relações diplomáticas também serem uma força no governo de Chun, com os Estados Unidos e o Japão naquela época, não podia se dizer o mesmo com a Coreia do Norte. Em 1983 ocorre um atentado terrorista a bomba em Myanmar, matando dezessete funcionários de alto escalão, que haviam comparecido à cerimonias e a Coreia do Norte foi responsabilizada pelo ataque.

Se as relações com o Norte já eram instáveis, com o ocorrido em 1983, houve um aumento a tensão que já envolvia os lados e seus respectivos governos. Os soldados não podiam desertar tanto para um lado quanto para o outro, como bem apresentado no drama, expunham o sentimento de um povo que sofria por seus familiares, tanto para protegê-los de uma iminente guerra quanto os que desejavam vê-los novamente. Os governos também apresentavam o sintoma de tensão em suas bases, o governo de Chun Doo-Hwan que já apresentava instabilidade, precisou ceder de vez a pressão popular pelo voto direto, depois que um jovem protestante morre sob interrogatório policial. Em 1987, Roh Tae-Woo é nomeado o presidente da Coreia do Sul, empossado em fevereiro de 1988, dada a primeira eleição direta em 16 anos.    

O drama se passa em 1987, no ápice do sentimento de tensão que se demonstrava na época e que é bem exposto no drama, com o conflito entre as Coreias. Existia o preconceito com os comunistas e os soldados norte-coreanos, a forma brutal e sufocante que tanto a polícia como as forças armadas conduziam a segurança do país, retratada nos agentes anticomunistas do drama.

Outro ponto relevante está nas relações de poder, envolviam não só no governo central, como em todo o país, desenvolvidas nos relacionamentos dos personagens. Assim como a insegurança e a luta pela sobrevivência, expostas nas alunas e na diretora da Universidade de Hosu, o núcleo principal do drama. 

Em síntese, o drama retrata a história e o amor de um soldado norte-coreano que luta pela segurança de sua família, com uma jovem estudante da Coreia do Sul, filha do comandante das forças armadas, que também luta pela sua sobrevivência e a de suas colegas, quando a universidade em que estuda se torna refém de soldados do norte. Em determinado momento da narrativa, os dois se veem como reféns da situação caótica que o país vive. Mas a história não pode ser resumida no romance entre os dois jovens Soo-Ho e Yeong-Ro. É pertinente a percepção das camadas históricas e complexas que envolvem a narrativa desse drama, para compreender o sentimento da época e assim se aproximar mais da obra.  

Esteticamente, o drama não peca na ambientação dos anos 80. As roupas, os cenários e as músicas da época, todos os quesitos são perfeitamente retratados. Destaque para os vestidos de baile no episódio em que as estudantes fazem um festival na escola, a roupa dos soldados de ambos os exércitos, da Coreia do Sul e do Norte, os veículos nas cenas externas e as músicas tocadas, principalmente a música da fita dada para Yeong-Ro por Soo-Ho. Cantada pelo grupo Eruption, a música se chama One Way Ticket[i], do gênero musical popular da época, a Disco Music.

Crédito: Asianwiki

Apesar de uma ou outra barriga, até algo comum nos K-Dramas, a narrativa tem um bom ritmo, sem prender muito a história, mas também sem corrê-la. O ponto principal é que o roteiro prende a atenção do espectador nos momento-chaves, desenvolvendo assim cenas com um excelente suspense, com o propósito de tirar o fôlego de quem esteja assistindo. Além disso, o humor negro contido nos diálogos traz um alívio cômico, ainda que algumas cenas, principalmente as das esposas, se apresenta um pouco maçante no decorrer do drama. 

O ponto negativo fica por conta da falta de aprofundamento do enredo em alguns temas pertinentes para a compreensão do contexto da época, principalmente no que tange as cenas de diálogos entre os personagens políticos. Onde o espectador pode ficar um pouco perdido.   

Um fato curioso é que na época da exibição, os fãs na internet ficavam um pouco revoltados quando o foco da cena, ou capítulo, era a disputa política e consequentemente o casal principal tinha menos tempo de tela. Esse ponto é relevante para compreender a existência de críticas duras ao drama, quanto a perspectiva da história. O comentário de um espectador no site Mydramalist reflete bem esse sentimento de “gênero enganador”.

“[…]Não deixe o marketing inicial enganar você. “Snowdrop” é na verdade predominantemente um thriller de espionagem politicamente carregado com toques de humor negro satírico, que se disfarça como um conto épico de romance. Porque na verdade, as cenas de amor entre nosso casal principal provavelmente equivaleriam a um insignificante <5% do tempo total de exibição de ~ 20 horas, pois se concentra bastante em maquinações políticas e suas consequências resultantes, então leve isso em consideração se você estiver apenas olhando para uma história sobre amantes cruzados de estrelas.” (phantomlimbs, 2022, tradução nossa).[ii]

Entretanto, como bem salientado neste texto, é preciso entender primeiramente o contexto da época, para compreender toda a historicidade da narrativa e assim proporcionar mais de um olhar para o foco narrativo, ou se preferir, o ponto de vista do narrador-personagem da obra, para entender a perspectiva que é contada a história (LEITE, 1985). Pode-se pensar no narrador-personagem como o protagonista. Fica a critério pensar em quem é o narrador-personagem, já que a história não deixa claro e não é o objetivo deste texto questioná-lo, porém é interessante o exercício de olhar pelo ponto de vista de cada personagem, não só do protagonista. A maioria possui algo em comum, o ambiente de tensão e guerra iminente que os cerca. O mesmo sentimento da época.

Ficha Técnica:

Título: Snowdrop | Título Original: 설강화: snowdrop | País: Coreia do Sul | Direção: Jo Hyun-Tak| Roteirista: Yoo Hyun-Mi | Elenco: Jung Hae-In, Kim Ji-Soo, Jang Seung-Jo, Jung Eugene, Yoo In-Na, Heo Jun-Ho, Park Sung-Woong, Yoon Se-Ah, Kim Hye-Yoon, Jung Shin-Hye, Kim Min-Soo, Lee Hwa-Ryong | Episódios: 16 | Data de exibição: 18/12/2021 à 30/01/2022 | Emissora: JTBC | Distribuição: Disney+ e Netflix


Referências

CUMINGS, Bruce. Korea’s place in the sun: A Modern History. New York: W. W. Norton & Company, 1997. 546 p.

LEE, Ki-baik. A New History of Korea. Tradução: Edward W. Wagner, Edward J. Schultz. 1. ed. Cambridge, Massachussets London, England: Harvard University Press, 1984. 518 p.

LEITE, Ligia C. Moraes. O foco narrativo (ou A polêmica em torno da ilusão). São Paulo: ática, 1985. Série Princípios. p. 25-70.

NAHM, Andrew C. Korea: Tradition & Transformation. 2. ed. [S. l.]: Hollym International Corp., 1996. 631 p.

SNOWDROP: (Korean Drama). [S. l.], 2021. Disponível em: https://asianwiki.com/Snowdrop_(Korean_Drama). Acesso em: 24 maio 2022

UNZER, Emiliano. A Montanha e o Urso: Uma História da Coreia. Columbia & San Bernadino, EUA: Amazon Independent Publishing, 2018. 237 p.

[i] https://www.allmusic.com/artist/eruption-mn0000806036/songs

[ii] https://mydramalist.com/62575-snowdrop


Murilo Machado Macarroni

Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade de São Paulo (PPGCOM-USP). Formado em Publicidade e Propaganda e Pós-graduado em Cinema e Audiovisual. Servidor público municipal. Se interessa por História e Cultura Coreana, Hallyu, Hallyu Studies, Estudos Culturais e Estudos de Recepção. Pesquisador por tempo integral e dorameiro nas horas vagas (ou o contrário, já não sabe mais). Atua como redator e produtor de conteúdo no MidiÁsia.

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