Por Krystal Urbano

É consensual que a expansão e popularidade crescente das plataformas de streaming de filmes e séries no cenário audiovisual global vem ilustrando uma paisagem midiática mais diversificada em termos de representatividade regional e local. Por conta do desenvolvimento de novos meios de consumo do audiovisual surgidos no último decênio no mercado global, podemos observar mudanças significativas no cenário do audiovisual, sobretudo o aumento da diversidade de nacionalidades de origem nos fluxos da cultura televisiva contemporânea.

Especialmente, a emergência da plataforma de séries e filmes Netflix, com expressada diversidade linguística em seu catálogo brasileiro, apresenta-se como um excelente exemplo dessa mudança, uma vez que demonstra como formatos e gêneros televisivos produzidos fora do eixo EUA-Europa cada vez mais adquirem visibilidade, alcançando o interesse de um público global.

Durante muito tempo considerados produtos culturais de segunda classe, as séries televisivas produzidas nos países do Leste e Sudeste Asiático – doramas, k-dramas, tw-dramas, tai-dramas etc. – cada vez mais ganham em status e notabilidade como espaço de desenvolvimento de narrativas complexas, bastante sofisticadas e com grande poder de mobilização da audiência.

Fonte: Google

O drama televisivo tailandês #NãoMeJulgue (The Judgement), lançado e distribuído ainda em 2018 com o selo Original Netflix, ilustra de forma bastante contundente como narrativas produzidas num contexto não-ocidental pode atingir os públicos globais ao dar enfoque a temas complexos e a questões bastante contemporâneas de diversas sociedades, como o bullying, estupro, suicídio e homofobia. A série também ilustra, de maneira geral, o grande boom de séries adolescentes, observado na referida plataforma nos últimos anos.

A narrativa de #NãoMeJulgue, distribuída em apenas 1 temporada de 13 episódios, traz como temática central a discussão em torno da cultura do estupro e seus desdobramentos, através de uma abordagem cuidadosa e responsável a respeito da relativização da violência sexual entre os jovens. Ao mesmo tempo em que a série promove uma reflexão densa sobre esses temas, expondo aspectos problemáticos da sociedade tailandesa, embora também universais, deixa uma mensagem de apoio, sem funcionar como um gatilho psicológico tal qual o encontrado em séries ocidentais – 13 Reasons Why, por exemplo.

Fonte: Google

A história começa a se desenrolar depois que um vídeo íntimo de Lookkaew (Mild Lapassalan Jiravechsoontornkul), uma universitária de 20 anos, com o garoto com quem tem saído, Aud (Kacha Nontanun Anchuleepradit), cai na web. Ao aceitar o convite de Aud para ir a uma festa na casa dele, ela acaba se embriagando e vai descansar no quarto dele. Aud insiste para que transem, mas Lookkaew recusa. Porém, ao desmaiar, é estuprada e fotografada por Aud, e filmada por alguém do lado de fora do quarto. A partir daí, acompanhamos toda a saga de Lookkaew e como o fatídico acontecimento se reflete em sua vida pessoal e social, até o ponto de ela não conseguir mais lidar com o sentimento de horror e repulsa pela violência que sofrera e, em particular, por Aud.

A normalização e relativização da violência sexual contra a mulher na sociedade, que se manifesta através da culpabilização da mulher pela violência sofrida, é bastante explorada no decorrer dos 13 episódios. Paralelamente a isso, a série também consegue, de maneira louvável, discutir a homofobia presente na sociedade tailandesa. Portanto, trata-se de uma produção que, além de fugir do contexto ocidental, consiste numa ótima indicação para aqueles que não abrem mão de narrativas relevantes e de urgência na sociedade – sobretudo, a brasileira.

Fonte: Netflix.

Ficha Técnica:

País: Tailândia | Elenco: Mild Lapassalan Jiravechsoontornkul; Thanabordee Jaiyen; Kacha Nontanun Anchuleepradit; Nara Thepnupha; Mond Tanutchai Vijitvongthong | Emissora: GMM 25 | Distribuidora: Netflix | Ano: 2018 | Episódios: 13.


Krystal Urbano

Jornalista. Doutora e Mestre em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (PPGCOM | UFF). Especialista em Epistemologias do Sul (CLACSO | Argentina). Coordenadora Adjunta do MidiÁsia (Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática Contemporânea – PPGCOM | UFF) e membro da RIIAM (Red Iberoamericana de Investigadores en Anime y Manga).

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