REBELS OF THE NEON GOD: Juventude, divindades e chuva, muita chuva

Por Guilherme Gooda*

Tsai Ming-Liang debuta no cinema lançando o espectador dentro de uma Taipei em pleno movimento e recorta a vida de quatro jovens. O filme de 1992 Rebels of the Neon God, nome em inglês para o título 青少年哪吒 (ou Jovem Nezha em tradução literal), retrata a camada média da juventude de Taipei a partir de três personagens, vazios de objetivos e desejos enquanto vagam pelas ruas de uma noturna e chuvosa Taipei, iluminada pelo farol das motocicletas, letreiros de neon e gigantescos fliperamas. Para eles, Taipei é o começo e fim. Para onde mais iriam? O que mais eles conhecem? Sem carreiras, conexões, futuro, amor ou esperança. O filme retrata a irônica alienação e solidão que as mega-cidades proporcionam.

A começar pelo título, o nome original chinês sendo alterado para o Ocidente faz referência direta à uma divindade de cultura chinesa que por vezes é mencionada no filme. A história mitológica de Nezha (or Norzha na pronúncia taiwanesa) que é rejeitado por seu pai e se envolve em grandes problemas com outras divindades ao matar por acidente o filho de Ao Kuang, o general dragão condenando a China com chuvas e inundações, até decidir se oferecer em sacrifício para que o castigo fosse aliviado.

A narrativa do filme segue e atualiza em várias medidas o conto mitológico. Hsiao Kang (Lee Kang-sheng) estuda para as provas de vestibular mesmo sem ter muita ideia de para onde aquilo o levaria e sua falta de interesse pelos estudos gera conflito com o pai. Hsiao Kang planeja então abandonar o curso e pegar o dinheiro da rescisão sem comunicar aos pais. Enquanto isso Ah Tze (Chen Chao-jung) rouba moedas de cabines telefônicas para passar a madrugada em um fliperama junto com um amigo. 

Crédito: qelle.tumblr.com

Ah-Kuei (Wang Yu-wen), uma garota que trabalha um ringue de patinação, pede uma carona para Ah-Tze e então os dois personagens iniciam uma conversa e um relacionamento. Na primeira cena de contato entre três dos personagens centrais:  Hsiao Kang dentro de um táxi guiado por seu pai, acompanha com o olhar Ah-Tze e Ah-Kuei, passeando pelas ruas de Taipei em uma motocicleta. Hsiao Kang sente um misto de inveja e admiração por Ah Tze. 

Os dois personagens são bastante diferentes, enquanto o primeiro é mais reservado e introspectivo e mesmo infantil o segundo parece mais aventuresco, destemido e rebelde. Tais características são refletida na diferença do veículo dos dois: enquanto Hsiao Kang anda em uma scooter, Ah Tze tem um moto esportiva e uma garota na garupa,  não esconde a inspiração do diretor Tsai Ming-Liang no clássico “Rebel without a cause” (1955, Nicholas Ray), compartilhando a mesma temática de conflito de gerações e referências mais óbvias como um pôster do filme na parede da casa do protagonista, Ah Tze é um novo tipo de James Jean agora atualizado aos anos 90. 

Hsiao-Kang fica então obcecado pela vida de Ah Tze e começa a seguí-lo em toda parte sem o outro note, gerando certa atmosfera de suspense que é agravada pela sempre noturna Taipei. Os poucos diálogos do filme e a discrição de Hsiao-Kang em revelar sua motivação instigam o espectador, existe certa melancolia no personagem uma vez que Hsiao-Kang persegue os outros personagens (sentando bem em frente deles em uma cena), mas completamente invisível, mescla-se a isso um sentimento de repulsa por um personagem um tanto bizarro, que como o voyeur acompanha a vida alheia.

Crédito: http://moviemezzanine.com/rebels-of-the-neon-god

Acompanhando o personagem central, mergulhamos em regiões ocultas da cidade: vemos o interior de um shopping, restaurantes e  arcades, mas também corredores, quartos de hotel e banheiros públicos. Rebels of the Neon God é também um filme sobre a cidade de Taipei, não observando apenas a superfície, tal característica do diretor Tsai Ming-Liang se repete em outras obras familiarizando o espectador com cada canto de uma sempre viva e mutável cidade. 

 O filme é um recorte de realidade onde os personagens são  apresentados ao espectador sem que haja julgamento prévio de suas ações, abrindo a interpretação alguns podem pensar como o pai de Hsiao Kang que  pertencendo a uma geração anterior julga que o filho seja um inútil por se negar a estudar; outros podem levar a interpretação para certo fatalismo entendendo que o desfecho dos personagens não poderia ser diferente. Como Ah Tze, alguns podem ainda ter a esperança de saírem em suas motocicletas e buscarem uma vida ideal fora da cidade, um sentido de fuga jovem de quem experimenta o fracasso talvez pela primeira vez. 

As reações e os dramas da juventude são abordados na obra porém sem a alegria, o otimismo e a leve ingenuidade com a qual ela costuma ser abordada no cinema. Rebels of the Neon God é um filme cru que dialoga justamente com a ânsia do jovem que ao se perceber “inútil e fora do lugar” abraça o entretenimento como forma de rebeldia e mesmo como escape.

“Jovens sendo jovens” alguém poderia dizer, mas se tratando de uma obra oriental usaremos uma parábola oriental para descrevê-lo: “Lá estão os cavalos, com seus cascos para pisotear a neve e gelo, e sua pelagem para que se mantenham aquecidos do vento frio. Comendo grama e bebendo, saltitando e correndo – esta é a natureza dos cavalos. Mesmo grandes salões, ou elegantes terraços nada disso tem uso para eles.” 

Ficha técnica: 

País: China  | Direção: Tsai Ming-Liang | Roteirista: Tsai Ming-Liang | Elenco: Chen Chao-jung,  Jen Chang-Bin,  Lee Kang-sheng  | Duração: 106min | Ano: 1992

* Guilherme Gooda é doutorando em Comunicação pela UNESP-Bauru (2019-), onde pesquisa produções midiáticas do leste asiático em especial as chinesas, e mestre pela mesma instituição (2016-2018). Graduado em Letras (português-mandarim) na FFLCH-USP. Suas pesquisas envolvem a atualização do imaginário popular e a sobrevivências das imagens, bem como as relações Brasil-China em diversas esferas.

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