Por Mateus Nascimento

Ouça a canção do vento, de 1979, é o primeiro texto de Haruki Murakami (ou Murakami Haruki dependendo do quão imerso nos estudos japoneses você esteja), o grande autor japonês pop!

Ler este livro é fundamental para se conhecer um Murakami das primeiras ideias literárias, antes de ser o sucesso de vendagem que é hoje. De certa forma, é ter em suas mãos as primeiras experimentações do autor no campo da escrita, mesclando imagens mais contemporâneas e ocidentais (especialmente americanas), mas também outras mais clássicas, do repertório da literatura japonesa.

Ele é um dos escritores japoneses mais conhecidos justamente porque seus livros abordam desde a própria cultura japonesa até as questões mais centrais de nosso tempo, às vezes misturando as duas coisas em histórias qualificadas como pertencentes ao realismo fantástico.

Haruki Murakami. Créditos: The Star

Nascido em Quioto pouco tempo após a Segunda Guerra Mundial, em 1949, Murakami é filho de um sacerdote budista com a filha de um comerciante de Osaka, com os quais aprendeu literatura japonesa. Frequentou a Universidade de Waseda, em Tóquio, dedicando-se sobretudo aos estudos teatrais. Antes de terminar o curso, abriu um bar de jazz chamado Peter Cat, à frente do qual se manteve entre 1974 e 1982, e se casou jovem. O casal não tem filhos.

Com esse breve histórico, parece que Murakami quis ser diferente do padrão. Sua vida mostra alguém que quis ser um outsider ou crítico do estilo de vida capitalista do Japão, muito marcado pelos conceitos de produtividade, meritocracia, que compõem aquela imagem do japonês como pessoa sempre ocupada, disciplinada, educada, etc., que nós ocidentais conhecemos na mídia.

Normalmente, muitos comentadores o associam à corrente de autores do realismo fantástico, por conta da junção de elementos folclóricos, ficcionais a imagens que podemos encontrar na realidade: música clássica, música pop americana, imagens da pop art e cenas fantásticas que se inspiram em lendas japonesas ou em lendas ocidentais. Toda a mistura aparece somada a gatinhos, cervejas e bastante cenários típicos de um Japão em constante aceleração, marcado pelas dores do individualismo extremo que reina ali, apesar de quase todas as atividades dos sujeitos serem atravessadas por conceitos e formas que privilegiam o coletivo e a coletividade.

Capa do livro Ouça a canção do vento. Créditos: foto do autor.

Por sua vez, Ouça a Canção do Vento é um romance curto, mais próximo de uma novela o que de um romance, e acompanha um narrador sem nome ao longo de poucos dias de suas férias de verão da faculdade, em agosto de 1970. O livro virou filme em 1981, dirigido por Kazuki Ōmori – Hear the Wind Sing – e logo popularizou o texto murakamiano no próprio país.

Narrado em primeira pessoa com capítulos curtos, esse narrador, cujo nome não sabemos em nenhum momento da história, passa grande parte do seu tempo com seu melhor amigo, o Rato, e com J., barman e dono do J’s Bar, onde os três passam as noites bebendo e conversando.

Entre uma aparição e outra de California Girls do grupo Beach Boys ou de Return to the Sender de Elvis Presley, ao passo que a vida boêmia de Kobe se apresenta, o narrador resgata uma moça desacordada no bar e em torno desse relacionacionamento gira a história, com algumas pausas nas quais ele busca lembrar-se de relacionamentos passados e experiências da sua vida. Apesar de conhecermos pouco todos os personagens – o Rato um pouco mais pois é mencionado o fato dele ser filho de empresários – ficamos sabendo que o narrador está vivendo tudo isto por estar de férias da faculdade, entre os dias 8 e 26 de agosto de 1970.

Certamente esses personagens sugerem um apontamento murakamiano sobre os deslocados no interior da cultura do Japão, que consequentemente desenvolvem a solidão e medo de serem inadequados, o que se correlaciona com o nosso tempo atual. É curioso o fato de que Murakami tenha escrito sobre esses dramas na década de 1980 e alguns dos textos dessa fase ainda serem tão atuais.

Perceba: personagens sem nome, no meio de uma sociedade que valoriza bastante o coletivo; a quase onipresença do álcool em todos os momentos das histórias; as mortes e a crise profissional que assombra boa parte dos protagonistas, temas quase incabíveis no Japão que nos é continuamente apresentado como o país do futuro, da dedicação pessoal e do sucesso. 

Para ele, por exemplo, é ausente do mundo atual um conceito de heroísmo, muito presente no elogio do sucesso formulado pela cultura da meritocracia. Também estariam ausente as fórmulas prontas. A situação atual é o que é e nada mais e suas obras falam desse cotidiano da contemporaneidade, que mais nos oprime e desloca e mata psicossocialmente. Com vocês, Haruki Murakami.

Ficha Técnica:

Título: Ouça a canção do vento / Autor: Haruki Murakami / Tradutora: Rita Kohl / Editora Alfaguara, 2016.


Mateus Nascimento

Historiador. Mestre em História pela Universidade Federal Fluminense (PPGHS/UFF). Pesquisador do MidiÁsia (Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática Contemporânea) e do CEA (Centro de Estudos Asiáticos), ambos na UFF. Também é colunista e apresentador na Revista Intertelas.

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