“Pensei que, a essa hora, eu já estaria morto. Porém, descobri a vida e decidi voltar.” 

A partir dessa abertura poderosa, a nossa sugestão da vez é o curta Sangro, de Tiago Minamisawa, Bruno H Castro e Guto BR, vencedor de prêmios no Brasil e no exterior. Ao todo, são 7 minutos e 15 segundos em que o expectador investe atenção num cinema experimental asiático brasileiro, de tipo moderno e, ao mesmo tempo, pessoal, em que o eu e suas questões transbordam. Disponível na plataforma Vimeo, o curta mescla técnicas de composição em 2D tradicional, 2D digital e Stop Motion. Ele cativa no primeiro quadro, pois as questões individuais de um narrador tornam-se a lente através da qual vê-se o mundo real. 

Trailer de Sangro, disponível no Vimeo do diretor.

(Para que todos vejam: Imagem clicável do trailer do curta-metragem Sangro, de Tiago Minamisawa)

Em si, o curta é uma confissão. No seu desenrolar, somos conduzidos por uma voz narradora que conta uma história real. Acompanhamos a nova vida de um amigo oculto do narrador que descobre-se portador do vírus HIV, o qual lhe inspira a relatar as situações da vida e os diversos dilemas de quem porta esse vírus tão estigmatizado ainda hoje. 

O argumento é sincero e filosófico, mas parece estar sendo desenvolvido em conversa ao pé do ouvido. Se o narrador não nos contasse que o projeto nasceu de uma confissão entre amigos, poderíamos sugerir que o filme quer nos fazer imaginar um confessionário – no qual somos quem ouve a confissão. A palavra ouvir é a ideal para o tipo de relação que o curta estabelece com quem o vê: somos levados pelas percepções do narrador, que quer nos fazer pensar sobre o que acontece na vida de pessoas soropositivas. 

O argumento também se mostra sinuoso, brincando com as contradições envolvidas nas principais ideias humanas. O jogo semântico morte=paz traduz-se na presença de um elemento bastante tradicional da cultura cristã: uma serpente sibilante que persegue o narrador, querendo matá-lo. Talvez possamos falar que se trata de uma trajetória em noite escura, porque o narrador – na realidade, a voz – parece ser alguém constrangido e taciturno, que perambula sem rumo pelas noites da cidade. 

Imagem de divulgação (fonte: Festival de Cinema de Juiz de fora e Mercocidades)

(Para que todos vejam: Imagem de distribuição do curta-metragem Sangro, na qual consta a serpente pseudo-antagonista da obra)

As conexões desse material com o pensamento filosófico contemporâneo são inegáveis: há conceitos asiáticos implícitos no texto recitado pelo narrador. Um deles é o 迷惑 meiwaku, da sociedade japonesa, ou “constrangimento” (tradução nossa). Ele mostra a força de aprisionamento das regras de sociabilidade que nos regem no tempo atual. Meiwaku é o termo utilizado para explicitar o quanto uma pessoa é indelicada, imprópria ou imprudente ao causar constrangimento aos demais de seu meio social quando coloca para fora as suas questões não resolvidas. No interior da sociedade nipônica (mas não só dela), o indivíduo não é estimulado a demonstrar suas feridas e dores, e esse movimento de elogio exagerado do individualismo acaba tornando pessoas e grupos inteiros sentenciados aos mais diversos quadros depressivos por estarem “fora do padrão”. As passagens de Sangro possuem um tom de diário e mostram o quanto essa prática é real nos dias atuais. São, portanto, excelentes materiais para debates ou discussões em sala de aula. 

(Enquanto via o curta, me lembrei da tese do esgotamento de Byung-Chul Han e suspeito de que ela esteja, de propósito, nas entrelinhas do roteiro.)

À essa voz narradora se soma um conjunto estonteante de imagens, animações rabiscadas e quadros clássicos do movimento renascentista, um pano de fundo para os passos e ideias dessa persona que fala por si mesma e por um grupo de indivíduos com as mesmas questões pessoais. O curta faz do caso particular do narrador uma experiência mais ampla, passível de interpretação por parte de quem o vê. 

Eventualmente, as animações propostas e os diálogos simples avançam sobre os quadros renascentistas famosos. Assim, o cinema de Minamisawa flerta delicadamente com os saberes do público. Não somente as imagens, mas movimentos live actions nos chamam a atenção: livros, desfolhadas e movimentos de corte, conexão, separação e junção, sugerindo o conflito interno – com certa pitada de otimismo.

Imagem de divulgação do curta (Fonte: página do 23º Festival de filmes do Rio http://www.festivaldorio.com.br/br/filmes/sangro)

(Para que todos vejam: Cena da animação em que um homem rabiscado olha para si mesmo no reflexo da água)

Acerca do enredo e da narração, convém meditar um pouco sobre o tema da doença, que, no entanto, não é novo. De fato, diversas pessoas já elaboraram grandes reflexões sobre a AIDS e seu aspecto social. Diversos artistas renomados já colocaram suas vidas pessoais em suas obras, com motivos diversos em mente. 

A título de exemplo, Susan Sontag, famosa intelectual norte-americana, abordando os Estados Unidos dos anos 60, 70 e 80, ponderou que algumas doenças tinham uma força desumanizadora maior que outras, muito em função dos estigmas religiosos e culturais que pesavam sobre elas. De acordo com as conclusões de Susan em A doença como metáfora, a AIDS e o câncer foram escolhidas por setores obscurantistas e conservadores norte-americanos para justificar suas visões acerca de grupos revolucionários da época. A aparição dessas doenças seria consequência direta da prática do pecado – a AIDS, sobretudo, seria a punição divina máxima para o pecado da sodomia e, logicamente, isso descambou para uma homofobia dessa parcela conservadora da sociedade que, até hoje, tem seu lugar no imaginário social. 

Por sua vez, o curta não se propõe a grandes divagações e nem a um exame desse tamanho. Essa é a sua maior vantagem, do nosso ponto de vista. Ele faz provocações discretas e acessíveis sobre como o HIV é visto socialmente. O mérito de Sangro é trazer os debates sobre a doença por meio de um formato de mais fácil acesso e numa linguagem cada vez mais comum em nossos dias: o curta-metragem. A experiência de consumir esse curta, portanto, é possível onde quer que estejamos, o que atende aos anseios atuais por tempo e praticidade. 

Sangro também atende aos debates contemporâneos, pois lança luz sobre o quão forte são os estigmas a pessoas portadoras de doenças como essa, independentemente se quem assiste ao curta conhece ou não dados técnicos. Os diretores projetaram elementos simbólicos bastante conhecidos a fim de que a obra se sustentasse e cativasse a atenção de qualquer público. Portanto, Minamisawa e seus amigos têm o mérito de incentivar o debate sobre estigmatização, condição metafórica da doença e preconceito – tudo isso ao longo do tempo de curta duração. 

Ficha técnica 

Nome: Sangro

Direção: Tiago Minamisawa, Bruno H Castro e Guto BR.

Ano: 2019.

Duração: 7 min e 15 seg


Mateus Nascimento

Historiador, doutorando em História pela UFF, com mestrado e graduação na mesma área, todos no âmbito no Instituto de História (IHT) da Universidade Federal Fluminense. É pesquisador do MidiÁsia (Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática Contemporânea) e do CEA (Centro de Estudos Asiáticos), ambos na UFF, além de pesquisador associado do Instituto Cultural Brasil-Japão e colunista na Revista Intertelas. Ao longo de sua formação, tem se dedicado a estudar as histórias e culturas da Ásia, com interesse especial na cultura japonesa, na cultura nipo-brasileira, e nos fluxos culturais contemporâneos entre Ásia e Brasil.

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