Por Mateus M. Nascimento

A sugestão de hoje deseja recomendar um livro tanto cético, tanto ácido, mas também muito consciente e bem embasado no que propõe discutir nas entrelinhas. Seu tema é a saga da imigração japonesa, ou para ser mais preciso, 114 anos de histórias e experiências no contexto da vinda das famílias japonesas.

Segundo a tradição, o navio Kasato Maru aporta em Santos no dia 18 de junho de 1908, trazendo consigo aproximadamente 65 famílias e alguns agregados, além de todo um pessoal especializado no serviço diplomático. O cartaz a seguir ficou famoso na época por expressar a campanha promovida pelo governo japonês, em que se bastaria ir ao Brasil, honrando ao Japão, para enriquecer e retornar com os frutos do penoso trabalho.


Cartaz de época, incentivando a migração para o Brasil. Fonte: Acervo Bunkyo-SP

Se considerarmos as vicissitudes conhecidas na literatura especializada e os fatos marcantes dessa história emocionante, recheada de monumentos e relatos registrados, podemos dizer parafraseando o ditado que 114 anos não são 114 dias! Por outro lado, a proposta da sugestão de hoje é dizer que “114 anos são 163 páginas”, nas quais podemos antever outros 18 de junho.

O livro da vez é Nihonjin, escrito pelo professor e escritor maringaense Oscar Nakasato, que reuniu nesse texto todos os principais aspectos e fatos históricos envolvendo a imigração japonesa para o Brasil. Oscar é dono de uma escrita apaixonante. Propositalmente ácido, direto, faz com que vejamos “a carne e o sangue” da imigração japonesa expostos na sua realidade. O autor não fora um imigrante, mas sim um acadêmico que pesquisou, a nível de doutorado, a ausência de personagens nipo-brasileiras na literatura brasileira.

Capa do livro Nihonjin, de Oscar Nakasato. Reprodução: Editora Benvirá

Em Nihonjin, Oscar discute a imigração e o seu desenvolvimento, por meio de uma série de experiências vividas pelos seus personagens. Hideo Inabata é o chefe da família Inabata que correspondendo ao espírito japonês, o yamato damashi, se lança ao mar junto com alguns outros japoneses e suas famílias, para tentar a vida no Brasil: a terra do “ouro verde”. A partir daí, ficamos conhecendo Inabata Kimie, a primeira esposa do protagonista, e Jintaro, um amigo da família que se agregou ao grupo para poder seguir viagem e servir de mais um braço para o trabalho.

O livro conta tudo na perspectiva de um narrador personagem que, nas palavras de Samuel Porfírio Ramos (pesquisador da Academia Nipo-Brasileira de Estudos de Literatura Japonesa do Rio de Janeiro), conta com muita base na realidade histórica. Toda a narrativa é focada, principalmente, no patriarca da família, o imigrante japonês chamado Hideo Inabata. Um homem de personalidade forte, convicto de suas opiniões, pensamentos, do seu sentimento de supremacia japonesa, fiel ao imperador.

Imagem canônica do Kasato Maru em Santos. Fonte: Acervo Bunkyo-SP

Através da vida deste personagem e sua relação com os outros ao seu redor observamos a dificuldade que os primeiros imigrantes sofreram no Brasil, o trabalho exaustivo, a esperança de retornar ao seu país, a confiança cega no imperador, a negação que o Japão perdeu a guerra, conflitos dentro da população imigrante assim como problemas familiares.

Esse núcleo dura pouco, com o falecimento da Kimie-chan, que não suportou as condições climáticas e sanitárias do Brasil miscigenado, enquanto que Jintaro, por brigas com Hideo, decide ir embora e não voltar mais. Logo após, Hideo assume uma nova família e conhecemos aos poucos seus filhos (Hanashiro, Haruo e Sanae), seu envolvimento com o nacionalismo e o quanto o Brasil lhe afetaria em muitos aspectos.

Still da websérie NipoBrasileiros, na qual Oscar Nakasato é entrevistado pelo Pedro Tinen. Fonte: Site do projeto em NipoBrasileiros

Nakasato ganhou diversos prêmios ao longo da carreira, mas esta obra lhe rendeu o prêmio Jabuti na categoria de melhor romance de 2012 e a vitória no concurso Benvirá de Literatura. Cabe finalizar essa recomendação apontando que o livro faz o leitor refletir sobre questões de identidade como, por exemplo, o que é ser um japonês? O que é ser um brasileiro? Deveria eu continuar com os costumes trazidos do Japão mesmo estando em solo brasileiro? Todas essas questões lançam o curioso ao livro e regam a última questão que o torna tão especial: afinal, seria o Brasil um mosaico de quantas cores? Ficam para serem respondidas em nosso futuro.

Ficha técnica:

Nihonjin,

Oscar Nakasato

Editora Benvirá

Ano de publicação: 2011


Mateus Nascimento

Historiador, doutorando em História pela UFF, com mestrado e graduação na mesma área, todos no âmbito no Instituto de História (IHT) da Universidade Federal Fluminense. É pesquisador do MidiÁsia (Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática Contemporânea) e do CEA (Centro de Estudos Asiáticos), ambos na UFF, além de pesquisador associado do Instituto Cultural Brasil-Japão e colunista na Revista Intertelas. Ao longo de sua formação, tem se dedicado a estudar as histórias e culturas da Ásia, com interesse especial na cultura japonesa, na cultura nipo-brasileira, e nos fluxos culturais contemporâneos entre Ásia e Brasil.

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