Por Mateus Nascimento (Via EloNihon)

Em seu filme, O Silêncio, o conhecido diretor Martin Scorsese nos transporta para o Japão no período de 1570 e 1614. Inspirado no livro homônimo O silêncio do escritor Shusaku Endo (1923-1996), ganhador do prêmio Tanizaki em 1966, o filme (2016) retrata de forma interessante e inédita a cultura e a política do período histórico de repressão ao cristianismo no Japão, iniciado por Toyotomi Hideyoshi em 1587.

Shusaku Endo, reconhecido autor no Japão do pós-guerra, nasce em Tóquio no ano de 1923 e anos depois se muda com os pais para a Manchúria. Eles viriam a separar-se dez anos depois – um trauma retomado em alguns de seus livros – e ele ainda jovem passa a morar com a mãe em Kōbe. Ela se converteu ao catolicismo quando ele era bem pequeno e ele viria a ser batizado anos depois, pois fora criado como católico, com a decisão vindo por volta dos doze anos.

Shusaku Endo (1923-2010).
Créditos: Filmow (https://filmow.com/shusaku-endo-a213388/)

Desde jovem, frequentava igrejas e pesquisava sobre a história do cristianismo e, especificamente, sobre a história de missionários cristãos pela Ásia. Por volta dos anos 30, inicia sua formação em literatura comparada, que viria a ser interrompida em virtude da segunda grande guerra (1939/1945). Tempos depois, ele retoma seus estudos conseguindo uma bolsa de estudos na Universidade de Lyon na França (1950/53) – o que lhe rendeu uma especialização em literatura francesa. Ali sofreu com a discriminação racial (antiniponismo crescente de então) e desenvolveu depressão.

Ainda na França foi diagnosticado com tuberculose e ficou internado por vários meses. O diagnóstico fez com que duvidasse de sua fé e quando obteve alta do hospital para tratamento domiciliar empreendeu uma viagem a Palestina para pesquisar sobre a vida de Jesus.

A viagem fora um momento decisivo para sua concepção de cristianismo bem como de diversos outros temas recorrentes em seus textos: dilemas entre Ocidente e Oriente, fé e descrença, tradição e modernidade, para citar os principais. Além desses assuntos, o trauma do racismo viria a ser retomado em suas obras e alguns de seus personagens tem esta doença, representando a vida do autor.

Destacamos o que o filme significa para o próprio Scorsese: “peguei este romance pela primeira vez quase 20 anos atrás. desde então, eu o reli incontáveis vezes e, agora, preparo uma adaptação cinematográfica. Ele tem me dado um tipo de amparo que eu encontrei em muito poucas obras de arte” – ele escreve para o prefácio da edição de 2011.

Capa do DVD em inglês. Créditos: Cover Box

A narrativa nos conta que dois jovens padres, Francisco Garpe e Sebastião Rodrigues iniciam uma saga pelo oriente a fim de encontrar o seu mentor espiritual, o padre Cristóvão Ferreira. De início, instalam-se em Macau, a porta comercial dos europeus na Ásia e uma região evangelizada pela igreja católica. Esta região era relativamente segura e poderia prover recursos básicos para a partida.

Ali encontram um japonês apóstata confesso chamado Kichijiro, que seria seu guia no território japonês uma vez que ele sabia minimamente a língua dos padres e o paradeiro do procurado. O trio consegue um barco e iniciam, via rota Macau-Kagoshima, a ida de fato. Pode-se dizer que objetivavam também fortalecer e expandir a fé cristã no Japão.

Desde a chegada, observamos que o silêncio no filme enquanto metáfora permite uma interpretação do contexto histórico, político e social da missão jesuíta no Japão do séc. XVII: ela nos ajuda a compreender um pouco do pensamento japonês sobre o conceito de religião.

O cristianismo representou um choque as estruturas do pensamento japonês, pois as práticas japonesas não correspondiam com os dogmas cristãos balizados pela dicotomia bem e mal. Por sua vez, este discurso somente foi usado no momento em que os governos japoneses não achavam mais os portugueses e sua cultura necessários ou úteis. Percebe-se então que a chegada do cristianismo no Japão não se dera somente pelo aspecto religioso: era sobretudo uma empreitada política!

O fluxo comercial era intenso e mesmo armas eram comercializadas entre portugueses e japoneses – os ashigaru (guerreiros a pé) eram camponeses portadores de tanegashima (nome pelo qual ficaram conhecidos os primeiros armamentos de pólvora) pelos senhores.

Portanto, a missão cristã no Japão deve ser explicada tendo em vista o conceito de circulação: ver que algo circula implica perceber (e querer investigar) de que houve um percurso entre aceitação, choque e rejeição de pensamentos ou inovações técnicas dos portugueses por parte dos japoneses entre 1549 e 1614.

Há que se destacar que o cristianismo foi aceito (junto com armas e artigos de guerra) num momento de grande descentralização do poder (Sengoku Jidai) pois Oda Nobunaga almejava vantagens no conhecimento e no uso das tecnologias militares ocidentais, e o culto só foi proibido para senhores num momento relativa estabilidade, quando Hideyoshi não mais desejava a presença e influências dos saberes portugueses sobre a população e mesmo nas elites. Por fim, foi duramente reprimido sob o xogunato dos Tokugawa quando a lógica era de se proteger o Japão das influências estrangeiras, sobretudo, do projeto colonizador do império Português, relacionado em grande medida com a igreja católica.

Scorsese e Endo, parece-nos, buscam proclamar a existência de um Japão que não seja indiferente ao cristianismo, mas que procura uma forma de cristianismo condizente com o caráter nacional.

Ficha técnica: O Silêncio (Silence) / Direção: Martins Scorsese / Ano: 2016 / Distribuidora: Imagem Filmes.

Sinopse: Ambientada no Japão no século XVI, a história trata de missionários portugueses que viajam ao país oriental para confortar convertidos locais e impedir que senhores feudais torturem padres cristãos – maneira local encontrada para tentar expulsar do Japão os catequistas europeus.


Mateus Nascimento

Historiador. Mestre em História pela Universidade Federal Fluminense (PPGHS/UFF). Pesquisador do MidiÁsia (Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática Contemporânea) e do CEA (Centro de Estudos Asiáticos), ambos na UFF. Também é colunista e apresentador na Revista Intertelas.

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