A Onda Coreana, tradução do termo coreano Hallyu (한류), vem se tornando mais presente no cotidiano das pesquisas acadêmicas no Brasil, o que demonstra tanto o alcance dos produtos culturais que partem da mesma quanto um consumo no contrafluxo de ideias do eixo Estados Unidos-Europa. De dramas televisivos a jogos, vários são os elementos da Onda. Mas o que tem tomado destaque no Brasil desde 2010 é o lado musical: o K-pop. E é a comunidade de fãs, ou K-poppers, a responsável pela disseminação dos vários artistas dessa indústria e pelas articulações nas redes sociais, desde as comemorações de aniversário até o ativismo de causas sociais que sejam de seu interesse.

A entrevistada, Virgine Sacoman, pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Cultura Pop (Cultpop) e mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale dos Sinos (UNISINOS), também colaboradora do Centro de Estudos Asiáticos (CEA) da Universidade Federal Fluminense (UFF), vem produzindo pesquisas sobre cultura pop desde sua graduação em História. Em sua dissertação de mestrado, intitulada “Da Hallyu ao ativismo Kpopper: apropriações táticas na plataforma twitter“, desenvolveu um estudo exploratório sobre o ativismo social por K-poppers brasileiros na plataforma Twitter, com um enfoque no movimento Vidas Pretas Importam (VPI), em inglês Black Lives Matter (BLM).

Nessa entrevista cedida ao MidiÁsia, Virgine discorre um pouco sobre suas pesquisas, sua visão pessoal sobre a Onda Coreana, a importância dos estudos coreanos no Brasil, alguns dos elementos que permeiam o ativismo de fãs e abre um espaço para falar de suas possíveis investigações futuras.

Crédito: Revista Teen Vogue

1. Quais são os principais assuntos que você aborda em sua produção científica e por quê?

De maneira geral, eu abordo mais sobre a Hallyu e seus produtos culturais, considerando a historicidade do fenômeno e a relação com os fãs. Primeiro, eu busquei especificar sobre esse assunto academicamente por questão pessoal mesmo, já que faz um tempo que eu tenho afeição pela Onda Coreana. E, depois, eu notei que havia pouca produção científica no idioma português sobre esse assunto ou que até mesmo contasse as origens desse fenômeno no Brasil, então percebi que poderia trazer alguma contribuição. Hoje, o cenário é diferente: nós já temos grandes pesquisadores da área e grupos de pesquisa focados, como o MidiÁsia e, também, o CEA.

2. O que é a Onda Coreana e seus aspectos, no seu ponto de vista?

Para mim, a Onda Coreana é um fenômeno sobre a popularidade crescente dos produtos culturais sul-coreanos, que começou primeiramente entre os países vizinhos da Coreia do Sul e que se expandiu em aspectos globais com a colaboração do desenvolvimento de tecnologias de comunicação, embora também por meio de estratégias do governo sul-coreano e principalmente através de agências, produtores e artistas.

Crédito: acervo pessoal da entrevistada

3. Por que pesquisar a Onda Coreana no Brasil?

Creio que seja necessário o estudo sobre a Onda Coreana no Brasil porque é algo que já faz parte da rotina de muitas pessoas brasileiras e que as mobiliza cada vez mais a conhecerem a cultura coreana e, consequentemente, a consumirem esses produtos culturais. Ainda que seja um fenômeno de escala global, a Hallyu no Brasil tem as suas peculiaridades que se encaixam ao contexto brasileiro, o que notamos em sua recepção.

4. Na dissertação, você explorou o ativismo de fãs de K-pop/K-poppers. O que seriam essas articulações? Como elas se dão e quais as suas consequências?

As articulações às quais me refiro na dissertação são as táticas utilizadas por fãs de K-pop em plataformas online para realizar o ativismo em rede. No meu trabalho, utilizei a plataforma Twitter para mostrar as ações mobilizadoras de fãs a favor do movimento BLM. Eu poderia ter usado outras plataformas, mas eu precisava fazer delimitações. E, diante dos movimentos exploratórios da pesquisa, constatei que essa plataforma seria a mais adequada para trazer essas táticas à luz. De maneira resumida, posso dizer que essas táticas acontecem em ações rápidas e costumeiras, já realizadas normalmente por fãs no seu dia a dia ou no fan labor. Então, quando movimentos assim de grande repercussão midiática acontecem, esses fãs já sabem quais táticas devem ser utilizadas para trazer visibilidade à causa e, consequentemente, alcançar o topo das métricas – ou atrapalhar forças contrárias. Um exemplo notório foi o uso de fancams por fãs de K-pop durante o movimento BLM. A questão é que o grande diferencial neste caso foi o uso dessas fancams como spams, uma forma de atrapalhar o lado contrário ao movimento – a ferramenta por si só, sem a colaboração em massa, em nada poderia resultar nesse sentido de apoio. Em outras palavras, fãs têm total consciência de suas táticas em rede e as utilizam para promover seus ídolos favoritos e para alcançar visibilidade a causas ativistas.

Crédito: acervo pessoal da entrevistada

5. Ainda sobre a dissertação, você deu enfoque aos fãs brasileiros e ao movimento Vidas Pretas Importam, em inglês Black Lives Matter (#BLM). Por quê?

Devido ao prazo de pesquisa da minha dissertação, eu tive que escolher apenas um caso de ativismo de fãs de K-pop. No início, eu tinha a impressão de que eu poderia abordar vários casos ou mais de um, mas abordar apenas o movimento Black Lives Matter foi o mais adequado, pois consegui especificar e dar atenção merecida ao movimento. Eu escolhi fãs brasileiros (as) porque notei que o movimento aqui no Brasil foi secundarizado pela questão do antifascismo, o que se deve ao nosso contexto político. Para mim, foi interessante notar esse desvio geral da recepção do movimento como uma percepção, na prática mesmo. Além disso, achei que também seria interessante trazer o posicionamento de fãs de K-pop em questões raciais, que é algo polêmico, mas existente dentro do fandom, e, sobretudo, a percepção desses fãs sobre a indústria cultural sul-coreana de forma geral.

6. Quais são seus prospectos de pesquisa? Continuar com o ativismo de fãs de K-pop ou focar em outro aspecto da Onda Coreana? Ou modificar para um objeto ainda dentro dos estudos da cultura pop?

Eu pretendo continuar no aspecto da Onda Coreana, mas ainda não tenho um enfoque, ou seja, se continuo abordando sobre fãs de K-pop ou ativismo desses fãs, enfim. Por agora, arrisco dizer que continuarei abordando essa relação do fenômeno Hallyu com fãs, pois me parece que a minha vida acadêmica segue nesse direcionamento mesmo não sendo esse meu propósito inicial. Meu projeto de pesquisa para o mestrado era relacionado apenas à representação da Hallyu. Com o tempo, fui percebendo outras questões e achei pertinente ir para esse trajeto sobre estudos de fãs. Assim também foi com o meu TCC: segui a linha sobre fãs, mas com a perspectiva sobre a história, não sobre o comunicacional, fora que também meu trabalho foi sobre otakus, que aparentemente não têm nenhuma relação com fãs de K-pop. No entanto, conhecer esse fandom foi importante para a minha compreensão sobre as origens da Onda Coreana no Brasil.


Helmer Marra

Mestrando (2021-2022) do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e Relações Internacionais (PPGCPRI) na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Bacharel em Direito pela Universidade Evangélica de Anápolis - UniEvangélica, Campus Ceres (2020). Pesquisador vinculado ao MidiÁsia (Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática Contemporânea - PPGCOM | UFF). Legendador, revisor e tradutor autônomo.

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