Por Daniela Mazur

Já não é mais uma novidade o fato da Onda Coreana ser um fenômeno da atualidade. Contudo, essa concretização e reconhecimento da cultura pop sul-coreana na arena global demanda não só o aprofundamento no que entendemos sobre o fenômeno, mas também uma cobertura da imprensa mais próxima e específica dessa indústria e seus artistas. Todos os anos novos grupo de K-pop são lançados no mercado, assim como novas músicas, álbuns e projetos de artistas veteranos e novatos são compartilhados com o grande público. Segundo os dados de 2020 da Korea Foundation, já são mais de 100 milhões de fãs da Hallyu no mundo, presentes em 109 países. São esses e tantos outros que consomem a infinidade de produtos que a indústria do K-pop planeja, arquiteta, prepara e vende para os mercados local, regional e global. A imprensa tem papel essencial para que esses artistas cheguem a novos públicos e também dialoguem de forma mais direta com seus fãs de diferentes nacionalidades. Jornalistas e escritores de veículos internacionais noticiam, resenham e entrevistam esses que movimentam e são a cara do K-pop para o mundo. E entre eles está a brasileira radicada em Portugal, Tássia Assis.

Tássia é escritora freelancer especializada em abordar o K-pop nos seus textos. Ela escreve em inglês para grandes veículos da imprensa internacional, especialmente aqueles baseados nos Estados Unidos, como MTV, GRAMMYs e Teen Vogue. No currículo estão entrevistas com artistas de grande porte do K-pop: SuperM, TWICE, NCT Dream, Taemin, Baekhyun, Chung Ha, Golden Child e Pentagon são alguns dos nomes, além de resenhas e matérias sobre o universo do K-pop em geral. Tássia acabou, então, se tornando uma ponte entre o universo da cultura pop sul-coreana e o Brasil. Conversamos com a escritora, que nos explicou um pouco sobre como é o processo profissional de diálogo com os artistas, o papel da imprensa nessa mediação, o lugar do K-pop no mercado global e também a importância de termos uma voz brasileira e potente cobrindo o cenário da Hallyu (Onda Coreana), que está sempre em constante expansão.

Você é uma jovem escritora freelancer brasileira vivendo em Portugal e seu trabalho já chegou a um estágio de reconhecimento internacional bastante relevante, com destaque para veículos como TeenVogue, GRAMMYs, MTV News, CLASH Magazine e Seoulbeats. Como foi o seu processo de iniciação e estabelecimento como uma escritora de nicho musical? E porque resolveu se especializar em cobrir o universo do K-pop?

Tássia Assis (TA): Obrigada pelas palavras! Foi um processo que aconteceu meio que naturalmente. Não digo que não teve planejamento, porque teve, mas não foi algo com o qual eu sonhava. Na verdade, eu sequer imaginava que era possível. Não sabia mesmo que dava para fazer o que eu faço atualmente. Eu sempre escrevia bastante, mas nunca tinha pensado em trabalhar na área ­— tanto é que me formei em design, e não em jornalismo ou algo do tipo. Mas quando eu descobri o K-pop, descobri também um universo que me instigava a escrever de uma forma que eu nunca tinha sentido antes. Então eu comecei como a maioria dos fãs, escrevendo em blog pessoal, que depois evoluiu para uma newsletter, até eu descobrir que ser escritora freelancer era algo que existia e que eu poderia experimentar. Felizmente, os editores maravilhosos com quem eu trabalho até hoje aceitam meus pitches (propostas de trabalho) e, por conta disso, posso compartilhar meu trabalho com o mundo. Em resumo, decidi escrever porque acho que é o que eu sei fazer de melhor, e decidi cobrir o K-pop porque é que eu amo. Simples assim.

Tássia Assis e NCT 127 em 2019. Crédito: Instagram pessoal da entrevistada.

Quais foram e são as demandas, preparos e requisitos para essa especialização, uma vez que se trata da cobertura de um cenário cultural que se estrutura para além das lógicas ocidentais ao mesmo tempo em que participa do mercado global da música?

TA: Acredito que ler e se informar é a base para tudo, então diria que esse é o passo mais essencial quando você vai produzir qualquer tipo de conteúdo. Tento sempre estar atualizada não só nos lançamentos musicais, mas também no contexto cultural, pesquisando sobre pontos de vista diferentes, e aprendendo com a comunidade de fãs e profissionais da área. Acho também importante saber separar o lado fã do lado profissional. Existem certas regras e códigos éticos e morais que devem ser respeitados nessa profissão. Ser fã é um momento de descontração, mas escrever para veículos que serão lidos por milhares de pessoas é um trabalho que deve ser levado a sério. É muita responsabilidade.

Como foram as suas primeiras entrevistas com artistas sul-coreanos? Quais foram as dificuldades para conquistar esse espaço de diálogo especialmente nesse início de carreira?

TA: Como minha formação não é em jornalismo, essas primeiras entrevistas foram bastante na cara e na coragem. Eu nunca tinha entrevistado alguém de verdade na vida, muito menos uma celebridade, mas foi uma experiência que me senti bastante preparada para fazer desde a primeira vez — provavelmente porque era algo que eu queria muito. Foi um caminho trilhado à pura tentativa e erro. Eu não tive mentor ou ajuda específica além do Google, fui abrindo as portas e me conectando com as pessoas por conta própria. O mais difícil até hoje é conseguir um veículo que publique o seu texto, alinhar as expectativas deles com as das companhias de K-pop e, então, acertar no timing de tudo. São vários pequenos detalhes que dependem um do outro, e você, como freelancer, é quem vai conectando as peças. Mas, depois de passar por todas essas dificuldades, conversar com o idol é quase natural.

Print da entrevista com o cantor Taemin. Crédito: Instagram pessoal da entrevistada.

De que forma você normalmente conduz, se inspira e se prepara para as suas entrevistas? Você passa por um processo de recorte e seleção de temas dependendo dos interesses do veículo e do artista, ou você também se baseia no contexto industrial do momento para pensar a sua abordagem?

TA: Tudo isso e mais um pouco! Eu começo a pensar na história que o artigo vai contar assim que entro em contato com os editores, pois é através dessa ideia inicial que eles decidem se querem publicar ou não (isso quando não acontecem problemas de dinheiro ou tempo, o que acontece bastante). Quando confirmo a publicação e a entrevista, eu mergulho no conteúdo, tento ler e assistir tudo que posso sobre o artista (ou pelo menos tudo desde o último comeback [quando um grupo lança uma nova música ou álbum]) para elaborar as perguntas e a direção geral do artigo. O contexto industrial às vezes não cabe por restrições das empresas de K-pop, que vetam muitos assuntos que eles consideram “controversos”. Porém, sempre que possível, tento inserir informações importantes de alguma forma e, assim, criar um equilíbrio entre a história do artista naquele momento e o que isso significa para o mundo em geral.

Quais foram os momentos mais marcantes da sua carreira como escritora especializada na cobertura do K-pop até hoje? Existiram trocas com esses artistas que te fizeram aprofundar ou até mesmo repensar seus próprios entendimentos sobre a Hallyu e os elementos e agentes relacionados a ela?

TA: Difícil escolher! Todas as entrevistas foram e são muito marcantes para mim, muitas estão no território surreal da vida! Cada pessoa que eu entrevisto tem uma cor muito própria e me ensina algo novo. Às vezes é um entendimento muito sutil, muito pessoal, sobre mim ou sobre o mundo, mas sempre aprendo algo. Às vezes a gente pensa “ah, mas esse artista/grupo não tem nada demais”, só que isso muda quando você conversa e pensa sobre tudo o que existe por trás das aparências. Essas experiências me fazem refletir sobre o meu papel como escritora, e sobre a responsabilidade que eu tenho por ser o meio através do qual a audiência vai enxergá-los. É uma posição que eu me sinto constantemente agradecida e honrada de ter. Eu guardo um carinho especial pela minha entrevista com o Baekhyun por ter acontecido em um momento muito importante para mim e para ele também. Se não me engano, foi a única entrevista escrita para veículo internacional que ele deu na época. E em termos de entender a Hallyu, o Taemin, o Woodz e a Sorn me surpreenderam com a visão que têm sobre o próprio trabalho. Eles sabem exatamente o que estão fazendo, para onde querem ir, o que querem expressar. É incrível quando o artista possui essa liberdade de se articular e dividir um pouco do mundo deles com a gente.

Print da capa da entrevista com o cantor Baekhyun. Crédito: Instagram pessoal da entrevistada.

Hoje em dia vemos um número relevante de jornalistas e escritores especializados em cultura pop sul-coreana nos grandes veículos internacionais, especialmente aqueles sediados nos Estados Unidos. Quando você começou a enxergar o K-pop e a Hallyu sendo levados a sério pela cobertura da imprensa além-Ásia, especialmente a ocidental?

TA: Acredito que houve mesmo um boom após a performance do BTS no American Music Awards (AMAs) em 2017, isso é inegável. Muitos veículos finalmente reconheceram o poder do K-pop depois dessa apresentação, e muitas pessoas também entraram em contato com a cultura sul-coreana através do fenômeno que o BTS é. Porém, a mídia internacional e ocidental já cobria o K-pop há anos, antes mesmo até de eu saber do que se tratava. Era mais difícil, menos reconhecido, mas sempre existiu. E sobre levar a Hallyu a sério… Até hoje encontramos problemas com isso, então continua a ser um esforço para combater a desinformação.

As barreiras linguísticas são um fator relevante na abordagem do K-pop pela mídia internacional. Como você lida com essa questão central, que é a idiomática, na comunicação com os artistas e suas empresas?

TA: Essa realmente é uma das questões mais complexas de navegar. Começando pelo fato de o inglês não ser a minha língua nativa — e nem a da maioria dos idols (ídolos da música pop sul-coreana). Apesar dos managers (empresários), tradutores, e PRs (profissional de relações públicas) falarem inglês e a comunicação ser perfeita na maioria dos casos, tem sempre alguma nuance que pode se perder nessa troca. Eu estou estudando coreano (ainda começando) e espero conseguir quebrar um pouco dessa barreira um dia. Mas, de fato, nós como escritores dependemos muito de um bom tradutor. Um profissional que seja sensível e capaz de transmitir os detalhes de ambos os lados. Certamente há ocasiões em que isso funciona melhor do que em outras, mas é um trabalho bem difícil e que admiro muito.

Print da capa da entrevista com o grupo TWICE. Crédito: Instagram pessoal da entrevistada.

Atualmente, quais os maiores problemas que você enxerga na cobertura internacional do K-pop? E, de forma mais específica, existem questões que você percebe especialmente na imprensa brasileira quanto a isso?

TA: Acho que a desinformação e o preconceito são os maiores problemas, em qualquer lugar do mundo. Muito sensacionalismo também. Todo mundo quer cobrir o K-pop porque traz cliques, mas quase ninguém quer tratar os fãs e os artistas com o respeito e a seriedade que eles merecem. Sem falar no tal “lado obscuro do K-pop”, como se qualquer outra indústria também não tivesse problemas iguais ou até piores. Uma questão que percebo mais na imprensa brasileira, porém, é o fato de o brasileiro não ter tanto entusiasmo pela leitura como tem por assistir vídeos. No Brasil, o conteúdo sobre K-pop é muito dominado pelo YouTube, Instagram Reels e TikTok. Uma entrevista escrita com um idol em um veículo brasileiro raramente recebe muita atenção, enquanto nos países de língua inglesa o interesse e a valorização são bem maiores.

Você acredita que o seu ponto de vista brasileiro, mediado também pela atual residência em Lisboa, traz uma perspectiva diferenciada para as suas peças textuais? Especialmente no caso da Hallyu, existem obstáculos e/ou privilégios de falar sobre esse assunto para um público ocidental a partir da perspectiva brasileira?

TA: Acredito que sim. Por ser brasileira, meu entendimento do mundo é muito diferente de uma pessoa americana, por exemplo. Há uma tendência em veículos de língua inglesa a analisar o mundo sob a ótica única e exclusiva deles, o que faz sentido, mas para todos nós que não nascemos lá (e principalmente quando somos de algum país de fora do eixo considerado como o “primeiro mundo”), esse ângulo é bem aparente. Acho que ser brasileira me faz ter mais facilidade para entender que o mundo é muito maior do que a minha cultura e os problemas dela. E morar em Lisboa me faz ter mais empatia com o sentimento de ser “estrangeira”. Embora eu não destoe fisicamente e fale a mesma língua, eu sou brasileira. Nunca serei portuguesa e nunca serei percebida totalmente como uma. Acho que essa posição me traz um pouco mais de compreensão pelas dificuldades que os artistas sul-coreanos passam quando vistos pelo resto do mundo.

Print da capa da entrevista com o grupo SuperM. Crédito: Instagram pessoal da entrevistada.

Você acabou se tornando uma ponte entre os fãs brasileiros e os artistas do K-pop. Como você lida e entende esse lugar de mediação entre o Brasil e a Coreia do Sul através das suas entrevistas com esses agentes da indústria da Hallyu?

TA: Me sinto honrada em ser considerada uma ponte, apesar de não me achar nada disso. Eu diria que sou bem anônima, na realidade. As vezes vejo brasileiros que leem meu trabalho, curtem, compartilham, mas nunca se dão conta de que eu sou brasileira também, é uma sensação engraçada. Porém, para os brasileiros que de fato me conhecem e apoiam meu trabalho, eu agradeço muito. É um privilégio enorme poder fazer o que amo e poder de alguma forma conectar o meu país com o K-pop. Poder dizer “uma brasileira fez isso” é reconfortante, ainda mais na situação em que estamos, onde o Brasil nos traz tanta decepção. Espero que o meu trabalho seja reconfortante e encorajador para os brasileiros.

Para finalizar, existem escritores, fontes e canais que você gostaria de recomendar aos leitores do MidiÁsia para que possam estender de forma mais responsável o entendimento sobre o K-pop?

TA: Pergunta difícil porque tem tanta gente incrível e eu não quero esquecer ninguém! Acho que um bom começo são os episódios do podcast K-papo com a Babi Dewet e a Érica Imenes no Spotify. Tem também o trabalho de Gus Balducci (Revistas Capricho e Elle), Gio Orlando (Portal R7), Louise Queiroga (Jornais Extra e O Globo), Fefo Caires (canal de Youtube), e muitos outros. Além do próprio site do MidiÁsia e pesquisadores nas redes sociais (inclusive você, Dani!). Em inglês, a CedarBough Saeji  no Twitter tem muito conhecimento sobre a Coreia do Sul como um todo, além de divulgar várias palestras, aulas e textos essenciais. Gosto muito da cobertura da Teen Vogue sobre K-pop e como eles exploram diversos aspectos do fandom sempre com muito cuidado. E para quem quiser mais, é só dar uma olhada no meu Twitter porque eu tento sempre divulgar trabalhos legais e pessoas que admiro.

Tássia e o grupo NCT 127 em 2019 Crédito: Instagram pessoal da entrevistada.


Daniela Mazur

Analista de Mídia. Doutoranda e Mestre em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (PPGCOM - UFF). Pesquisadora vinculada ao MidiÁsia (PPGCOM - UFF) e ao TeleVisões (PPGCOM - UFF). Coordenadora adjunta do projeto Série Clube (Estudos de Mídia - UFF).

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