Por Daniela Mazur

Nos entrelaçamentos que firmam a vida, a religião se apresenta como uma das bases fundadoras de formações individuais e suas vivências, assim como parte de culturas inteiras. Contudo, nem sempre os referenciais que utilizamos para entender as pluralidades e os significados existentes dão conta das complexidades culturais das múltiplas práticas religiosas. Os ideais ocidentais, por exemplo, não sustentam essa diversidade. Gisele Maia, pesquisadora e doutoranda do Programa de Pós-graduação em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), nos convida à sua jornada em busca de diálogos entre Brasil e Índia que sejam independentes de perspectivas eurocentradas e distantes dos orientalismos presentes na experiência brasileira. As pesquisas dela passam pelas práticas religiosas e culturais indianas, enquanto encontra vínculos entre as raízes das religiões afro-brasileiras e as convenções da yoga e da meditação. Em sua dissertação de mestrado “Hinduísmo transnacional: tradição e brasilidade no método do Caminho do Coração de Sri Prem Baba”, ela debateu o lugar dos gurus globais e as dinâmicas do hinduísmo na circunstância de transnacionalização religiosa, apontando questões potentes sobre as atuais lógicas dentro da periferia global. O MidiÁsia, então, tem uma aula com Gisele através desta entrevista excepcional cheia de reflexões preciosas para o campo dos estudos asiáticos. Aqui, ela nos apresenta os desafios e as complexidades de uma pesquisa que se esforça em ser uma ponte entre dois países de fora da lógica ocidental, como é o caso da Índia e do Brasil, passando pelos embates relacionados às nossas leituras orientalistas e limitadas sobre essas múltiplas Ásias que coexistem em um só continente.

A pesquisadora Gisele Maia. Crédito da foto: acervo pessoal da entrevistada.

Como mestre em Ciência da Religião e com pesquisa abarcando especialmente os estudos indianos, como você enxerga a religião como porta de entrada para compreendermos de forma mais aprofundada a Ásia contemporânea?

Gisele Maia (GM): Sabemos bem que a Ásia se refere a uma pluralidade de culturas, filosofias e cosmovisões com diferenças marcantes entre si, mas há algo em comum nelas que é a possibilidade de confrontar a racionalidade ocidental em sua pretensão de universalidade. A religião aqui é chave porque a racionalidade ocidental moderna representou desde sempre os interesses coloniais, capitalistas e de um cristianismo institucional, aniquilador de diferenças – e é importante ressaltar: aqui a ênfase recai sobre o institucional e o aniquilador de diferenças, não no cristianismo em si. Mergulhar nas tradições espirituais asiáticas é uma forma de constatar o quanto o Ocidente produziu apagamentos ao longo da história, construiu seu próprio mito de origem e narrativas (várias totalmente alucinadas) que inviabilizaram e seguem inviabilizando uma compreensão mais plural do mundo.

No campo dos estudos das religiões, diversos autores sinalizam que a narrativa de superação do tradicional pelo moderno é uma invenção europeia. A Índia, por exemplo, nunca rompeu com suas tradições, ao contrário: teve por característica relê-las à luz da contemporaneidade, dos problemas que se apresentavam concretamente, criando soluções e alternativas a partir desse processo. Isso aconteceu inclusive sob a opressão colonial, em meados do século XIX, quando surgiu um movimento de reformas chamado “Renascimento Hindu” para fazer frente às investidas de dominação cultural britânica e a projetos de cristianização da Índia. Estamos falando de um movimento que, embora acatasse uma série de críticas dos ingleses sobre certos costumes tradicionais, ao mesmo tempo confrontava a ideia de superioridade dos europeus, recorrendo precisamente à tradição espiritual indiana.

Gisele em Ayuttaya, na Tailândia. Crédito da imagem: acervo pessoal da entrevistada.

Um expoente desse movimento foi um monge renunciante, Swami Vivekananda, que se tornou conhecido nos Estados Unidos durante a sua participação no primeiro Parlamento Mundial das Religiões, em Chicago, no ano de 1893. A data e o evento são marcantes porque foi a primeira vez que “o ‘Oriente’ falou por si”. Trata-se de uma época, é bom lembrar, em que o imaginário sobre esse tal “Oriente” era construído por orientalistas europeus – com um viés racista, via de regra –, que transformava aqueles povos e civilizações no Outro inferior do Ocidente, como apontou Edward Said eloquentemente. Pois bem, sabe o que um dos principais jornais de Chicago disse sobre Vivekananda na época? “Hoje compreendemos como é estúpido enviar missionários para essa terra de gente instruída”. Ele era um orador brilhante, que nos seus discursos não só demonstrou a capacidade de articular a tradição indiana com o cristianismo, como afirmou que a Índia conhecia havia milênios o que a ciência ocidental só estava descobrindo naquele momento. Imagina o que isso não representou na época? Enfatizo, estamos falando aqui de um monge renunciante oriundo de uma cultura tida como inferior.

Não posso falar sobre a Ásia como um todo, mas me vem agora um comentário do Elias Jabbour sobre a falta de capacidade dos Estados Unidos em compreender a China. Isso se deve, segundo ele, porque pensam no Partido Comunista Chinês destacando o comunista, quando deveriam se debruçar sobre o que significa aí o ser chinês. Ou seja, não é possível compreender a China hoje sem entender que se trata de uma civilização confucionista de cinco mil anos.

Pensando nessa observação do Elias Jabbour – que, aliás, dialoga com o Martin Jacques, que insiste muito nessa questão das limitações ocidentais para compreender o fenômeno chinês – e feita a ressalva de que minha praia é a Índia, arrisco-me a dizer que “contemporâneo” tem um sentido diferente no contexto asiático. Faço essa afirmação pensando não só na ideia de que a substituição do tradicional pelo moderno é uma narrativa europeia, mas também pensando em um conceito do budismo mahayana, Upaya. Esse termo – traduzido como skillful means, em inglês, quer dizer “habilidade em métodos” ou “meios hábeis”, em português – refere-se à adaptabilidade dos ensinamentos do Buda de acordo com cada contexto e audiência. Trata-se da utilização de estratagemas para se atingir um objetivo – no caso, a transmissão de um ensinamento. É a ideia de que o conhecimento da tradição precisa ser sempre contemporâneo e dialogar com situações e sujeitos concretos.

Quem ilustrou bem esse conceito foi o Michael Pye, autor de um livro intitulado Skillful Means: A Concept in Mahayana Buddhism. Na introdução, ele busca dar o tom do que significa essa mentalidade de Upaya a partir de uma situação vivida no Japão, por ocasião da visita a um templo religioso. Ele descreve o ambiente como ultramoderno e tecnológico. Justamente em um lugar com essas características, conta que foi recebido por alguém que lhe disse que ali ele conheceria a verdadeira tradição budista. Acho que cabe pensar nesse conceito como uma chave interpretativa entre tantas possíveis, privilegiada em certo sentido, considerando que o budismo mahayana nasceu na Índia e se espraiou para diversos outros países asiáticos. Talvez possamos pensar nessa tradição espiritual como uma espécie de substrato comum que permeia uma pluralidade de culturas que se atravessam na Ásia.

Festival de Hemis em 2011, na região de Ladaque, na Índia. Crédito da imagem: acervo pessoal da entrevistada.

Como você chegou à sua pesquisa atual? Como foi o seu caminho de aproximação da Índia não só como um objeto de pesquisa, mas também como uma ponte ao Brasil?

GM: Os caminhos que me levaram às minhas pesquisas, do mestrado e do doutorado, foram meio acidentais, diria. Mas minha aproximação com a Índia, em certo sentido, vem desde que me entendo por gente. Eu ainda não havia nascido quando meu pai começou a frequentar as aulas do Professor Hermógenes, um dos mestres pioneiros do yoga no Brasil e grande divulgador da cultura indiana por aqui. Tenho memórias da primeira infância relacionadas a isso: o cheiro de incenso, os mantras e uns hare krishnas que foram parar lá em casa nem sei bem o porquê. Mas essas lembranças ficaram adormecidas por um bom tempo, até que resolvi ter uma primeira experiência com o hatha yoga, por sugestão do meu pai, inclusive. Isso foi em 2005.

Durante cinco anos, a relação com o yoga foi se intensificando aos poucos, entre idas e vindas, em centros de Niterói e do Rio. Em 2010 comecei a frequentar um centro em Botafogo, que nem existe mais, de uma tradição chamada Sivananda. Ali passei a praticar três vezes por semana, “religiosamente”, porque eu precisava fazer hora depois do trabalho para não pegar um engarrafamento brutal até Niterói, onde morava na época. Esse centro de yoga ficava no meio do caminho entre meu trabalho e o ponto de ônibus, então era bem conveniente. Mas acabei pegando tanto gosto pela coisa que, resumindo a história, um ano depois estava vivendo uma experiência monástica em um ashram* daquela mesma tradição Sivananda, em um vilarejo no Himalaia, às margens do Ganges. Essa experiência durou 30 dias, mas, no total, foram três meses na Índia. Dessa temporada surgiram as intuições que, depois de quatro anos de ruminação, transformaram-se no meu projeto de mestrado, sobre transnacionalização do hinduísmo. O ponto de partida foi algo que me intrigou muito quando estive em Rishikesh, uma cidade considerada a meca do yoga. Na época, um dos gurus mais badalados do momento era o Prem Baba, um brasileiro do qual nunca tinha ouvido falar, que transmitia seus ensinamentos em português, ali, no sopé do Himalaia e às margens do Ganges.

Atualmente, no doutorado, estou me dedicando a um estudo comparado entre uma vertente do tantrismo e o candomblé, explorando as práticas e cosmovisões dessas tradições como conectores possíveis entre as culturas indiana e brasileira, enquanto espaços pós-coloniais. Não há uma continuidade muito direta com o trabalho do mestrado, mas muito do que vi e ouvi nas minhas pesquisas de campo me abriu para as possibilidades da tese que desenvolvo hoje. A motivação definitiva para construir esse novo projeto veio poucos meses depois de defender a dissertação, quando li um artigo, muito causalmente, de um cientista social indiano, Aditya Malik, sobre o fenômeno da possessão na cultura indiana e suas articulações com as práticas de yoga e meditação. Fiquei super impressionada com a leitura e pensei na hora: “caramba, isso parece demais com as religiões afro-brasileiras!”.

*eremitérios hindus tradicionais voltados para as práticas espirituais, como yoga, meditação, cânticos de mantras e estudos religiosos.

Gisele Maia em 2011, durante sua passagem pela Índia. Crédito da imagem: acervo pessoal da entrevistada.

A sua pesquisa de mestrado apresentou o universo dos gurus do hinduísmo com foco em Prem Baba, o primeiro estrangeiro de uma linhagem milenar hindu. O guru se autodeclara como uma ponte “entre o Ocidente e o Oriente”. Quais são as reais pontes que a religião e o intermédio dessa figura polêmica formaram? De que forma a existência dele em meio a esse cenário reconfigurou as lógicas de poder ocidentais que se aproximam da religiosidade indiana?

GM: Na minha dissertação explorei a dinâmica dos gurus globais, que agem como divulgadores da tradição indiana desde o fim do século XIX – portanto, quando a Índia ainda vivia sob o domínio colonial britânico. O carisma desses gurus e o sucesso de sua atuação no Atlântico Norte atraiu para a Índia ocidentais “orientalizados”, tanto europeus quanto estadunidenses, e esse processo já vem de algum tempo, não é recente. O caso do Prem Baba chama a atenção não só porque ele, sendo um estrangeiro, assumiu a sucessão de uma linhagem indiana, mas também por ele ser um brasileiro, portanto do sul global, que fundou um movimento hinduísta internacional atravessado por referências a religiões populares brasileiras, como o Santo Daime e a Umbanda. A pesquisa me mostrou que uma interação assim, não mediada pelas dinâmicas e perspectivas ocidentais consagradas, estabelece um diálogo de tropicalidades que produz sínteses outras e é capaz de revelar maneiras diferentes de perceber e dialogar com a Índia.

Não diria que ele, pessoalmente, reconfigurou lógicas de poder ocidentais. Mas os gurus globais, de um modo geral, desde Vivekananda, ao disseminarem a cultura indiana e conquistarem multidões de seguidores ocidentais, invertem o fluxo de influência global historicamente estabelecido “do Ocidente para o resto do mundo” – ou melhor: “from the West to the rest”. A atuação do Prem Baba não só dialogava com a de outros gurus do subcontinente, no sentido de conferir um status global à tradição indiana, como o fazia a partir de um método próprio a que se incorporavam elementos das religiosidades amazônica e de matriz africana. O caso dele serve, por exemplo, para desconstruirmos visões essencialistas sobre a Índia. O que é consagrado ainda hoje como “alta indologia” reflete uma agenda acadêmica construída na Inglaterra do século XIX, da qual manifestações populares, presentes nas mais variadas esferas da cultura indiana, são excluídas. Mas, justamente a partir dessas manifestações invisibilizadas é possível estabelecer pontes com tradições daqui também invisibilizadas, mas que resistem pelas “frestas”, para usar uma expressão do Luiz Rufino, e que são fundamentais para compreendermos quem somos culturalmente.

Festival Tse-Chu, na região de Ladaque, na Índia. Crédito da imagem: acervo pessoal da entrevistada.

De que forma a sua experiência com a yoga e os estudos do hinduísmo te ajudaram em seus trabalhos com Políticas Públicas voltadas para o Desenvolvimento Social, Comunicação para o Desenvolvimento, Mídia e Educação e Divulgação Científica?

GM: É curiosa essa pergunta… Não sinto que, em um primeiro momento, o yoga tenha influenciado diretamente o meu trabalho. Só se eu pensar em um aspecto mais geral, considerando que a prática me proporcionava bem-estar, calma e uma maior concentração para lidar com as demandas e pressões cotidianas. Mas, de fato, nos quatro anos entre o meu retorno ao Brasil e a entrada no mestrado, como profissional de Comunicação que gerenciava projetos de Mídia e Educação para a rede pública de ensino do Rio de Janeiro, fui atravessada por uma série de questionamentos que, em boa medida, se relacionavam à minha experiência na Índia e à prática de yoga. Como o controle da mente e o cultivo da atenção são questões centrais para a tradição indiana, comecei a ficar muito desconfortável com um certo entusiasmo, na época, em relação à produção de mídia para crianças e adolescentes em linguagens e formatos cada vez mais velozes e fragmentados. Essa era uma resposta à constatação, verificável nas salas de aula, de que as novas gerações, por um lado, tinham um tempo de atenção focada cada vez mais reduzido, mas, por outro, eram capazes de fazer mil coisas ao mesmo e se relacionar com várias mídias simultaneamente.

Hoje em dia, todos aqueles meus incômodos são para lá de compreensíveis, considerando todas as pesquisas, reportagens, documentários e séries que abordam a relação entre uso excessivo de mídias e transtornos mentais, sobretudo entre os jovens. Além dos estudos recentes apontando que, pela primeira vez, as novas gerações têm um QI inferior ao da geração anterior. Mas, na época, o que embasava o meu desconforto era o que eu havia aprendido na Índia, olha que curioso. Por exemplo, vários mestres indianos estabelecem uma analogia entre a mente humana e o macaco, tendo em vista o que compreendem ser a tendência natural de ambos: pular de galho em galho, aleatória e constantemente. Diferentes técnicas de yoga e meditação têm como objetivo principal justamente assumir o controle dessas flutuações mentais e disciplinar essa tendência natural. Há um cultivo da atenção como caminho para a eliminação do sofrimento. Vale observar que essa intuição é apropriada em contextos ocidentais, seculares e capitalistas, porque diversas pesquisas relacionam a atenção plena, ou “mindfulness”, a um aprendizado mais potente e a uma maior produtividade. Naquele momento, responder às demandas de mentes inquietas em vez de discipliná-las para o cultivo da atenção me parecia uma loucura. Esse desconforto reforçou a necessidade que eu vinha sentindo de me dedicar um tempo a refletir sobre o meu fazer – tendo sido um dos principais motivos que me levaram à pós-graduação.

Gisele em Ladaque, Índia. Crédito da imagem: acervo pessoal da entrevistada.

Você viajou por quatro meses e meio pela Ásia e por parte desse tempo você conheceu a Índia. No que essa experiência te direcionou como pesquisadora? Como ela modificou suas perspectivas e até mesmo suas dúvidas?

GM: Voltei dessa temporada fora do Brasil, que durou nove meses ao todo, ainda mais cheia de dúvidas. Cheia fotos, páginas e mais páginas preenchidas em diários de viagem e muitas, muitas dúvidas. Sobretudo em relação aos países onde passei mais tempo: Índia (três meses), Tailândia (um mês e meio) e Moçambique (um mês). Não foi algo ruim, no fim das contas, porque essas dúvidas todas foram cruciais na minha decisão de voltar para o Brasil e começar a tocar o plano pós-graduação – muito embora só tenha concretizado esse projeto, como disse, quatro anos depois.

Diria que as experiências que vivi na Ásia me afetam de maneiras diferentes até hoje, porque à medida em que leio e pesquiso, mais as vivências ganham densidade, camadas, profundidade, vão sendo ressignificadas. Até porque essa viagem a que você se refere, que fiz em 2011, não foi a minha primeira experiência em outros países não-ocidentais. Em 2000, morei cinco meses em Israel e depois fiz um mochilão pelo Egito, durante um mês. Ler o Said, já no mestrado, me fez pensar muito nessa viagem e várias fichas caíram… Na época, os meus companheiros de aventura eram três ingleses. Só depois de muitos anos entendi por que, embora estivéssemos juntos vivendo aquilo tudo, numa mesma fase da vida, aos 18, 19 anos, eu via o Egito como brasileira e eles viam aquele lugar como britânicos. Lembro bem dos meus incômodos e de como sentia constantemente um misto de inadequação e irritação porque eles viviam aquilo tudo como se estivessem em um parque temático, enquanto eu era o tempo todo impactada e provocada ao limite, exposta a situações para as quais não havia sido minimamente preparada. Hoje percebo que eles traziam na bagagem toda uma herança, ainda que inconsciente, de séculos de orientalismo e, atrevo-me a dizer, um certo sentimento de que aquele mundo “exótico” existia para que eles vivessem grandes aventuras. Já eu, também influenciada, em boa medida, por relatos fantásticos, mas a partir de um lugar completamente diferente, tive muita dificuldade de ver e experimentar o Egito real, moderno – e, hoje, obviamente, acho isso incrível, me faz pensar em muitas coisas…

Então, acho que é um processo dinâmico, dialógico e inacabado: a experiência gerou dúvidas e a necessidade de me aprofundar academicamente, mas a experiência das viagens também elucida questões com as quais me deparo academicamente – e que talvez não seriam compreendidas com a mesma profundidade se não fosse algo que tivesse atravessado o meu corpo antes.  

Gisele em Chiang Mai, na Tailândia. Crédito da imagem: acervo pessoal da entrevistada.

Nós, brasileiros, quando abordamos a Índia temos a tendência orientalista de enxergamos esse país como parte de um misticismo exótico. Há quem aborde essa nação e cultura como um “museu vivo”. Quais problemáticas se apresentam nessa concepção?

GM: Você está tocando em duas questões fundamentais, diretamente relacionadas à nossa dependência de categorias do Atlântico Norte, quando seria muito mais interessante simplesmente olhar para Índia a partir de elementos presentes aqui, no Brasil, no sul do mundo. Estudos comparados que apresentem a Índia como objeto não precisam ser necessariamente mediados por categorias gestadas na Europa. Sim, países como a Inglaterra, a França e a Alemanha acumulam uma bagagem incrível depois de séculos se debruçando sobre a cultura indiana – e não vejo vantagem em simplesmente desprezar essa produção. Mas há um vício de origem, considerando que a perspectiva orientalista esteve por séculos atrelada a projetos de dominação e de inferiorização do “Oriente”. “É preciso estar atento e forte” para não reproduzir um olhar que exotiza e essencializa o outro, como você bem destacou. A questão é que temos todas as condições de nos apropriarmos desse conhecimento do nosso jeito e produzir coisas muito originais para além dele.

O campo das artes nos traz algumas intuições: acho que devemos ser antropofágicos e tropicalistas nesse sentido, devorar tudo para devolver de um jeito próprio, só nosso. O Luiz Rufino, em um texto intitulado Pedagogia das Encruzilhadas, usa uma intuição semelhante ao sugerir um caminho decolonial, mas recorrendo a referências afro-religiosas: Exu Enugbarijó é aquele que engole tudo o que existe, come o mundo, para restituir de maneira transformada.

“Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente”, de Edward Said (2007, Companhia de Bolso); “Pedagogia das Encruzilhadas”, de Luiz Rufino (2019, Editora Mórula); “Diálogos Tropicais: Brasil e Índia”, organizado por Dilip Loundo e Michel Misse (2003, Editora UFRJ).

Agora, ocorre-me o trabalho da Gisele Lemos, que apontou na literatura indiana paralelos impressionantes com a intuições postuladas pelo movimento antropofágico brasileiro. Vale lembrar também das intuições da Cecília Meirelles, exploradas em dois artigos do Dilip Loundo, publicados no livro Diálogos Tropicais: Brasil e Índia. Em 1953, a Cecília fez uma viagem à Índia e registrou em seu diário que era mais fácil entender a Índia se conhecêssemos o Brasil. Essa afirmação se baseava no que ela percebia como problemas comuns partilhados, “curiosamente semelhantes”, e foi explícita em relação a quais seriam eles: “luta pela afirmação de uma nacionalidade, urgência de adaptação às circunstâncias internacionais, aproveitamento de riquezas, contratempos raciais, consolidação da economia, planos de educação”. A Cecília só fez uma ressalva em relação às idades de um país e outro, bem como às respectivas datas de independência. Mas são dois espaços pós-coloniais, né? É o que exploro na minha tese.

Temos todas as condições de olhar para a Índia sem essencialismos e estabelecer diálogos e pontes culturais de um jeito nosso, só nosso.

Gisele em Netala, Índia. Crédito da imagem: acervo pessoal da entrevistada.

Daniela Mazur

Analista de Mídia. Doutoranda e Mestre em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (PPGCOM - UFF). Pesquisadora vinculada ao MidiÁsia (PPGCOM - UFF) e ao TeleVisões (PPGCOM - UFF). Coordenadora adjunta do projeto Série Clube (Estudos de Mídia - UFF).

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