Manifesto do MidiÁsia

O mundo contemporâneo passa por mudanças extraordinárias. Por séculos, e até muito recentemente, a superioridade da Civilização Ocidental sobre o resto do mundo foi aceita como um dado auto-evidente. Nesse contexto, a Europa e os Estados Unidos serviam como um referencial absoluto, frente ao qual todas as sociedades eram medidas, e as sociedades não-ocidentais ou situadas na periferia do Ocidente tinham pouco interesse e poucos meios para investigarem umas às outras, de modo direto. Contudo, evidências crescentes dão conta de uma acelerada mudança de eixo, no equilíbrio global, em direção aos países da Ásia.

A influência dos países asiáticos se faz sentir mundialmente através do seu crescente poder de investimento econômico, no seu poder tecnológico e, mais recentemente, o alcance global de produtos midiáticos e de cultura pop originados neles. Contudo, até o presente momento, os países asiáticos permanecem como um tópico marginal, ou mesmo totalmente ignorado pelo ensino e pesquisa universitários no Brasil. Quando ocorrem, o estudo e a pesquisa sobre esses países são geralmente mediados por referências a exemplos e literatura ocidentais.

Nesse cenário, o MidiÁsia se apresenta como um centro de pesquisa sobre temas relacionados à mídia e à cultura midiáticas do continente asiático. Para além das usuais perspectivas orientalizantes, que consideram tudo o que diz respeito à Ásia sob o ângulo do exotismo, o MidiÁsia pretende contribuir para implementar o diálogo acadêmico entre Ásia e Brasil. O primeiro passo, a este respeito, é reconhecer que não existe apenas uma Ásia, mas diversas. Igualmente, trata-se de buscar entender as realidades asiáticas tendo em vista seu presente e projetos de futuro, e não simplesmente pela referência à tradição e ao passado.

Uma atenção especial é destinada aos múltiplos fluxos de globalização que provém da Ásia. Se nas décadas de 1990 e 2000, a globalização era entendida fundamentalmente como um processo de uniformização em escala mundial, cujo centro incontestável eram os Estados Unidos, os anos recentes têm dado conta de uma diversificação das iniciativas de globalização. Muitos desses novos agentes se situam em diferentes países da Ásia. Para além dos já consolidados polos de cinema na Índia (Bollywood), Japão e Hong Kong, novos polos de alcance global emergem no mundo árabe (o jornalismo da Al Jazeera, dentre outros canais), Coreia do Sul (k-pop, k-drama) na Turquia (um dos maiores exportadores de conteúdo televisivo do mundo, atualmente).

O MidiÁsia se propõe, então, a atuar como um polo aglutinador de pesquisadores interessados em investigar a mídia e a cultura midiática dos países asiáticos e como foro de debates entre pesquisadores brasileiros e de outros países e, desse modo, ajudar a compreender os desafios e oportunidades que se apresentam, hoje, em um contexto em que a globalização se torna, cada vez mais, um processo multipolar.