Por Mateus Nascimento

Você já leu poesia coreana? Como acha que ela é? Quais seriam os elementos de seus estilos? Hoje vamos falar um pouco de um dos mais importantes ícones dela: o poeta coreano Kim Ji-ha.

Ele nasceu em fevereiro de 1941, com o nome Kim Yeongil, mas passou a adotar o pseudônimo Kim Ji-ha logo após o sucesso de seu primeiro poema publicado, História Noturna (no original, Jeonyeok iyagi, ainda sem tradução para o português). Formou-se em Estética pela Universidade Nacional de Seul por volta de 1966.

Sua obra é marcada por essa estética que busca mostrar uma profunda consciência política dissidente. Essa formação aparece muito em sua obra através do uso de palavras e imagens bastante simples para contar os horrores do setor político. Muitos dos elementos de seu texto remetem à sua vida política: o autor questionou o autoritário governo de Park Chung-hee, marcado pelo autoritarismo de inspiração militar e pela industrialização sul coreana. O próprio sobrenome que escolheu para si, Ji-ha, está relacionado com a palavra “subterrâneo”.

Kim Ji-ha, 79 anos, é um autor de destaque da poesia coreana (foto da Wikipedia).

Mas não encontramos só os temas políticos. O seu registro na Biblioteca Digital da Literatura Coreana conta com 39 títulos traduzidos para várias línguas mundiais (e algumas participações em eventos internacionais), os quais tratam do pensamento coreano, a religião desde a nativa as presenças católicas, passando ainda pelo credo coreano donghak, pelo budismo e pelo zen. Infelizmente, temos notícia de somente um de seus livros traduzido para o português: Os Cinco Bandidos, lançado pela editora 7 Letras e traduzido por Joon Moon, em 2018.

Os Cinco Bandidos, na verdade, é uma coletânea com 5 poemas do autor, sendo um deles homônimo do título do livro. Os demais são: Os cinco elementos, A canção da cerejeira bandida, Camicase e O mar de merda.

Logo na primeira página, os editores retomaram uma frase do próprio autor para explicar os seus objetivos com a escrita politicamente engajada, pois diz Kim: “O poeta deve dar esperança e a visão de um futuro melhor aos pobres”. Kim Ji-ha usa as suas palavras para contar ao leitor um pouco sobre esse tempo na Coreia. Ele fala de um período de muita brutalidade, pois viveu na Guerra da Coreia, aos nove anos de idade, cenas dramáticas que certamente lhe marcaram.

Capa do livro (foto do autor)

O livro também representa uma vida de engajamento: os conteúdos do livro fazem sátira ao governo militar, à participação dos empresários e à própria estrutura governamental sul-coreana. Kim se utiliza do estilo tamsi, que privilegia o uso de oralidade na escrita dos poemas. Essa junção da crítica ao poder com oralidade na escrita tornou o seu texto bastante conhecido entre os anos 1960 e 1980, o que lhe rendeu uma perseguição insana: prisão, tortura, segundo conta, sentenças de prisão perpétua e uma condenação à morte, contando 8 anos na prisão.

No período em que esteve preso, sua obra tornou-se notória no país que ele mais criticou, o Japão (o poema Camicase é dedicado a Yukio Mishima!), e ganhou um prêmio bastante significativo que lhe rendeu apoio internacional: o Prêmio Lótus (em 1975).

Kim foi solto em 1980 após o assassinato do presidente alvo de suas críticas. Interessante destacar que, por esses motivos factuais, a obra de Kim Ji-ha é rica em imagens da história da Coreia.

E agora, vamos conhecer a poesia sul-coreana?

Ficha técnica:

Título: Os Cinco bandidos

Autor: Kim Ji-ha

Editora: 7 Letras

Ano: 2018

116 páginas


Mateus Nascimento

Historiador, doutorando em História pela UFF, com mestrado e graduação na mesma área, todos no âmbito no Instituto de História (IHT) da Universidade Federal Fluminense. É pesquisador do MidiÁsia (Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática Contemporânea) e do CEA (Centro de Estudos Asiáticos), ambos na UFF, além de pesquisador associado do Instituto Cultural Brasil-Japão e colunista na Revista Intertelas. Ao longo de sua formação, tem se dedicado a estudar as histórias e culturas da Ásia, com interesse especial na cultura japonesa, na cultura nipo-brasileira, e nos fluxos culturais contemporâneos entre Ásia e Brasil.

0 comentário

Deixe um comentário

Avatar placeholder

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *