Por Mayara Araujo

Produzido pela J.C.Staff Shogakukan Music & Digital Entertainment durante os anos de 2018 e 2019, o animê High Score Girl é baseado no mangá de Rensuke Oshikiri, publicado pela desenvolvedora de jogos Square Enix em parceria com a revista Monthly Big Gangan. Hoje conta com duas temporadas completas e três episódios em OVA. Os direitos de distribuição foram adquiridos pela plataforma de streaming Netflix, que colaborou para difundir internacionalmente esse animê do gênero seinen (voltado para um público predominantemente adulto e masculino). Embora o design dos personagens animados não seja particularmente apelativo para todos os gostos, o anime surpreende pela sensibilidade com que trata questões sobre amadurecimento em congruência com uma série de metáforas inspiradas em jogos clássicos de videogames e fliperamas.

Repleta de referência aos clássicos jogos de luta, como Street Fighter e The King of Fighters, a história retoma a década de 1990 em um saudosismo e tom nostálgico de um Japão que vivenciava o boom das lojas de jogos e fliperamas que, por sinal, continuam sendo um ambiente bastante popular no país. Acompanhamos a jornada de nosso jovem protagonista Yaguchi Haruo (Kohei Amazaki), um ávido gamer que ainda frequenta o ensino fundamental e possui como rotina sair da escola e passar em lojas de jogos para ampliar as suas habilidades. O que ele não esperava, no entanto, era ser humilhantemente derrotado no Street Fighter II, enquanto utilizava táticas secretas para garantir sua vitória, por uma misteriosa menina cujo rosto e nome ainda se faziam desconhecidos para Haruo.

Ono Akira (Sayumi Suzushiro), por sua vez, é descendente de um zaibatsu (conglomerados industriais) e se comporta justamente da forma oposta a Haruo. Vinda de uma família rica, extremamente controladora e rígida, ela encontra seu subterfúgio nos fliperamas, nas raras oportunidade em que consegue fugir de casa e se distrair. Em uma dessas escapadas, Akira acaba duelando com Haruo, o qual dificulta a sua vitória ao se valer das supracitadas técnicas secretas. Com isso, uma história de rivalidade e amizade tem início e acaba se transformando em uma intensa relação de amor e ódio entre as duas crianças.

Créditos: interprete.me

Sem nunca abandonar a rivalidade nos jogos, Haruo e Akira se tornam gradativamente mais participativos um na vida do outro, compreendendo seus dilemas e problemas familiares. No entanto, essa relação ainda incipiente de afeto entre os dois personagens acaba por ter uma interrupção abrupta quando Haruo descobre que a família de Akira a enviará para estudar no exterior. Infelizes com o afastamento repentino, Haruo começa a aprender a lidar com seus sentimentos juvenis ao correr para o aeroporto para se despedir de sua maior rival – e primeiro amor. Como um gesto de afeto e respeito, Haruo entrega um anel obtido em gacha gacha – um tipo de máquina de venda automática muito popular no Japão, nas quais se oferece pequenas action figures e outros objetos pegos na sorte – para Akira levar como lembrança dos momentos que compartilharam juntos. 

Ainda no Japão, anos depois, Haruo estabelece como meta de vida treinar bastante nos fliperamas para que, no dia em que Akira retornasse, ele estivesse preparado para derrotá-la. Entretanto, o que Haruo não esperava era encontrar nessa jornada solitária uma companhia que viria a deixar os seus dias turbulentos no decorrer de sua juventude. Uma colega de classe tímida e introvertida também se torna interessada pelos famosos jogos de fliperama ao observar rotineiramente a afeição que Haruo sente pelos arcades. Inicialmente sem se arriscar a jogar, Hidaka Koharu (Yuki Hirose) vivencia empolgação da competição através dos olhos de Haruo, que acaba a convidando para compartilhar da experiência. Assim como Akira, Hidaka tem um talento natural para os jogos e desenvolve as suas habilidades progressiva e rapidamente. Não é uma surpresa, portanto, que Haruo passe a prestar mais atenção nessa nova amizade e, consequentemente, nessa nova rivalidade.

Enquanto Haruo enxerga Hidaka meramente como uma parceira de jogos e uma desafiante em potencial, Hidaka passa a nutrir sentimentos mais complexos em relação a Haruo. Conforme o tempo passa, ela vai se dando conta de que seus sentimentos de raiva e frustração, paulatinamente transpostos através de suas vitórias agressivas nos jogos, são decorrentes de uma emoção ainda desconhecida em seu vocabulário. Com medo de nomeá-lo, Hidaka, em um primeiro momento, reprime os seus sentimentos à medida que percebe que Haruo não têm acompanhado o mesmo timing de maturidade que ela. Entretanto, quando em uma viagem escolar um rosto conhecido retorna à cena, Hidaka percebe que sua rivalidade com Haruo nada significa perto do que está por vir. Vendo que Haruo nutre sentimentos por uma misteriosa garota de cabelo roxo, ela percebe que precisa agir.

Créditos: Jbox

No ensino médio, nossos protagonistas desfrutam de um novo ambiente escolar, agora separados. Nesse sentido, o lugar propício para reencontros e o desabrochar de suas emoções fica restrito às lojas de fliperamas. Aqui, pela primeira vez, Hidaka e Akira se encontram oficialmente e se apresentam apropriadamente. Também é a primeira vez que as duas têm a possibilidade de duelar juntas em diversos jogos da loja de arcade. Hidaka não perde a oportunidade de indagar Akira sobre os sentimentos dela sobre Haruo. No entanto, como de costume, o silêncio de Akira é a resposta. Ao mesmo tempo, suas manobras nos jogos se tornam mais agressivas e violentas – ela derrota ferozmente Hidaka –, deixando clara a rivalidade amorosa entre as duas. Nesse sentido, as palavras se tornam insignificantes. e os jogos se tornam responsáveis por transmitir, de uma para a outra, os seus pensamentos. 

A vida de Akira, no entanto, se torna mais dura e mais difícil no decorrer dos episódios. Os métodos educacionais caseiros nos quais ela se encontra vão se tornando mais rígidos à medida que ela foge para apreciar os jogos no fliperama, o que a leva a fugir para outra cidade. Haruo, então, corre desesperadamente atrás de sua principal rival e primeiro amor. Ao saber dos últimos eventos, Hidaka, por sua vez, percebe que é hora de agir e deixar suas próprias palavras expressarem os seus sentimentos, para além dos personagens dos jogos. A temporada encerra, por fim, com o lançamento do Playstation I e a sua declaração de amor.

Paralelamente ao amadurecer físico e emocional, o animê se debruça sobre o lançamento de grandes ícones do mundo dos jogos, retratando a excitação da juventude da época ao se deparar com novos jogos e com as versões mais atualizadas dos melhores. Há de se ressaltar aqui a fidelidade com que o animê trata os gráficos da época e a evolução dos mesmos. Além dos supracitados títulos, o animê também conta com a aparição de jogos populares como Mortal Kombat, Samurai Shodown, Space Invaders, Final Fight, entre outros. Assim, alguns personagens desses títulos aparecem recorrentemente como parte da história do animê através de uma metalinguagem na qual os videogames ajudam os protagonistas a entenderem os seus próprios sentimentos. Trazem, por fim, uma nova camada de complexidade para os próprios personagens do universo gamer.

A primeira temporada de High Score Girl é uma grata surpresa do catálogo da Netflix brasileira. Com um tom divertido e nostálgico, o animê nos teletransporta para uma realidade da década de 1990 nem tão semelhante à da juventude brasileira, mas que consegue dialogar perfeitamente com os fãs de jogos da época por meio de uma série de referências que aquece e saúda os nossos corações de jogadores, ao mesmo tempo em que nos remete aos percalços de nossos primeiros amores e trajetos de amadurecimento individual. 

Créditos: manualdosgames.com

Ficha técnica:

País: Japão | Direção: Yoshiki Yamakawa | Roteiro: Tatsuhiko Urahata | Dubladores: Kohei Amazaki, Sayumi Suzushiro e Yuki Hirose | Emissoras: TokyoMX, MBS, BS11 | Episódios: 12  Ano: 2018. 

Categorias: Resenhas

Mayara Araujo

Doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense. Mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisadora vinculada ao MidiÁsia.

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