Por Hugo Katsuo

[Contém Spoiler]

Em um universo onde a atmosfera onírica é composta por personagens excêntricos, o filme Pastoral: To Die In The Country (1974), dirigido por Shuji Terayama, traz como história inicial a difícil relação entre um adolescente de vilarejo e sua mãe. Percebe-se, na construção narrativa, uma tentativa de fabular o passado através do cinema (inclusive, por meio da metalinguagem), de modo que o (re)encontro com a infância se configura por meio de experimentações visuais, que moldam uma dinâmica afetivo-sensorial singular dentro da experiência do cinema. O espaço e o tempo da memória não parecem seguir um sentido lógico, dado que as fronteiras entre passado, presente e futuro se dissolvem em meio a encontros – possíveis, somente, a partir da criação ficcional dos mesmos. O próprio filme, talvez, coloque para si o enigma que o permeia em relação às temporalidades: “Se você voltar ao passado e matar sua bisavó, você ainda seria seu eu presente?”.

O protagonista se apaixona por uma vizinha mais velha e, na tentativa de escapar da mãe superprotetora, decide realizar uma fuga noturna com sua amada. O plano, aparentemente realizado com sucesso, sofre um corte brusco na imagem, levando-nos, em seguida, à uma sessão de montagem do filme que, até então, estávamos assistindo. Nosso protagonista, agora mais velho, é um cineasta que está dirigindo uma obra sobre a sua infância. Os primeiros quarenta minutos de PastoralTo Die In The Country revelam-se, portanto, um filme dentro de um filme — em outras palavras, a ficcionalização da infância dentro da própria ficção.

O cineasta, no entanto, parece inseguro em relação à feitura de sua autobiografia: além do bloqueio criativo, sente-se explorando e objetificando a própria infância ao construir o filme. Por outro lado, um pequeno e denso diálogo com seu produtor revela a necessidade de se libertar da própria infância a partir do ato de ficcionalizar o passado, que, residindo na memória, já é uma ficção por si só. O mencionado enigma, então, é posto ao diretor, levando-o a vagar, imerso em questionamentos, pelas ruas à procura de uma resposta — a encontra quando alcança sua criança passada e adentra na própria infância. Descobrimos, assim, que não houve fuga noturna bem-sucedida: sua amada o abandona para fugir e cometer duplo suicídio com outro amante.

Crédito: Imbd

A veracidade da memória é posta em xeque dentro de um cinema que se permite ao engano a partir de uma relação distinta com a temporalidade e com o espaço: não há fronteiras entre a realidade e a ficção, tal como o passado, o presente e o futuro se confundem numa dinâmica contraditória. O cineasta é ele mesmo criador da linha do tempo da sua própria vida — pois a constrói a partir da fabulação —, como também é produto dela. Não há possibilidade, portanto, de haver um começo, um meio e um fim dentro de uma narrativa que se estabelece justamente na ausência de uma linearidade, na recusa de qualquer regime de verdade. A lógica da causa e do efeito, inserida no grande enigma que permeia o filme, parece não encontrar lugar nem mesmo no encontro literal entre a criança e o adulto, ocasionado pelo regresso à infância.

Crédito:Imbd

Na sequência final, o cineasta do presente — se for possível falar em um presente — encontra-se com a sua mãe na intenção de, enfim, matá-la. Não há, entretanto, assassinato ou qualquer resquício de desfecho. Os dois sentam-se para comer, em silêncio, enquanto a voz do cineasta, em off, denuncia os próprios mecanismos do filme: tanto ele quanto a mãe seriam personagens inventados por ele mesmo e, portanto, ele não poderia assassiná-la. Assim, revela-se o óbvio: tudo o que assistimos até então era apenas um filme. “Quem sou, então?”, ele pergunta. As fronteiras entre os espaços da realidade e da ficção, por fim, se diluem ao extremo. E eu reformulo a pergunta com outras palavras: como existir na ficção cinematográfica?   

Ficha Técnica:

País: Japão | Direção: Shûji Terayama | Roteirista: Shûji Terayama | Elenco: Kantarô Suga, Izumi Hara, Yoshio Harada, Masumi Harukawa, Isao Kimura, Kan Mikami, Keiko Niitaka, Yoko Ran, J.A. Seazer, Kaoru Yachigusa, Chigusa Takayama | Duração: 101 min | Ano: 1974

Categorias: Resenhas

Hugo Katsuo

Cineasta. Graduado em Cinema e Audiovisual pela UFF. Mestrando pelo PPGCine-UFF. Pesquisador vinculado ao MidiÁsia (Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática Contemporânea|UFF) e ao NEX (Núcleo de Estudos do Excesso nas Narrativas Audiovisuais | PPGCine-UFF).

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