“Um destino forjado pelo céu: A História de Hong Gildong”, o ensaio vencedor do VI Concurso de Literatura Coreana

Capa do livro “A História de Hong Gildong”, de Heo Gyun, com tradução e notas de Yun Jung Im (Estação Liberdade, 2020). Fonte da imagem: Editora Estação Liberdade.

Um destino forjado pelo céu: A História de Hong Gildong

Por Claudia Bitti Leal Vieira

Resumo: A presente resenha da obra A História de Hong Gildong (Heo Gyun, trad. Yun Jung Im, Editora Estação Liberdade, 2020) objetiva descrevê-la para um público não familiarizado com a produção cultural sul-coreana, refletindo criticamente sobre o enredo. Ademais, busca contextualizar sua importância cultural e histórica na Coreia, bem como discorrer, brevemente, acerca das controvérsias que cercam o texto. Ressalta-se o status de clássico da obra, bem como a importância de sua leitura para os que desejam conhecer mais a fundo a cultura coreana.

Um dos aspectos mais interessantes da chamada “Onda Coreana” ou “Hallyu” – a crescente popularidade dos produtos culturais coreanos em diversas regiões do mundo – é a difusão da literatura coreana. Antes praticamente desconhecida no Ocidente, na última década a produção literária da Coreia tornou-se parte inescapável do panorama cultural contemporâneo. Publicações recentes figuram nas listas de mais vendidos e ganham prêmios literários; autores coreanos são aclamados nos mais distintos gêneros, desde a ficção literária à literatura infantil, passando por horror e ficção científica.

Diante do sucesso da produção literária contemporânea sul-coreana, é natural que tenha surgido um interesse de editoras estrangeiras também pela literatura clássica do país. Isso é boa notícia para quem deseja conhecer outras facetas do país asiático. Afinal, nem só de modernidade vive a Coreia: é uma terra de longa história e antigas tradições.

Em 2016, o selo Penguin Classics publicou A História de Hong Gildong em inglês, com tradução e introdução do historiador Minsoo Kang; a primeira vez que uma obra coreana era incluída na lista de clássicos mais famosa do mundo. A tradução da Penguin é a da versão manuscrita (pilsaKim Donguk 89, a mais longa entre as 34 versões sobreviventes do clássico, que se diferenciam em tamanho, estilo e detalhes como nomes das personagens.

O estadista Heo Gyun (1569-1618), tradicionalmente considerado o autor de “A História de Hong Gildong”. Fonte da imagem: BBS News.

Agora, A História de Hong Gildong chega a prateleiras brasileiras graças à editora Estação Liberdade, com tradução e introdução de Yun Jung Im, professora do Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo. A versão é a wanpan 36, texto impresso produzido em Wanju (atual Jeonju), com 36 folhas.

Que Hong Gildong tenha sido o primeiro clássico coreano a “ganhar o mundo” não é surpreendente. Considerada a mais importante obra clássica de ficção em prosa da Coreia, tradicionalmente é atribuída ao nobre estadista Heo Gyun (1569-1618) e caracterizada como um texto antifeudalista, de matizes revolucionárias. O livro teria sido também o primeiro escrito em hangeul, o alfabeto coreano, criado pelo rei Sejong, o Grande e mais acessível para a população que os ideogramas chineses. Recentes pesquisas, porém, rejeitam essas premissas. A principal diferença entre as versões da Estação Liberdade e da Penguin Classics, aliás, reside nas posições que os respectivos tradutores adotam. Yun Jung Im defende o campo tradicionalista com detalhadas anotações sobre a obra e o autor, reafirmando a importância da obra como artefato literário de meados da dinastia Joseon, escrito por um ministro idealista e igualitário. Já Minsoo Kang está entre os pesquisadores que afirmam que é mais provável que A História de Hong Gildong tenha sido escrita no final do século XIX (portanto, alguns séculos mais tarde do que geralmente aceito), por um autor desconhecido ou anônimo, não como texto político ou ideológico, mas como entretenimento para as massas. Ademais, teria sido escrito em hangeul, mas não seria pioneiro. Além de defender suas conclusões resumidamente na introdução para a Penguin, publicou o livro Invincible and Righteous Outlaw: the Korean Hero Hong Gildong (2018, University of Hawaii Press).

The Story of Hong Gildong | Amazon.com.br
Versão em inglês lançada pela Penguin Classics e traduzida por Minsoo Kang. Fonte da imagem: Amazon.

É fato que existem estudiosos respeitados em ambos os lados da contenda literária. O leitor só tem a ganhar se desejar se aprofundar na estimulante controvérsia histórica, que envolve até mesmo a biografia de Heo Gyun e a trama palaciana que levou à sua execução (um complô digno de Game of Thrones), e quem teria sido o verdadeiro Hong Gildong. De qualquer modo, nada disso diminui a estatura do clássico, e é inegável que grande parte de sua relevância reside também na persistência de seu enredo e personagens no imaginário coletivo coreano.

Situada durante a dinastia Joseon (1392-1897), a história de Hong Gildong começa com sua concepção. O ministro Hong Mun tem um sonho auspicioso e busca conceber um filho com sua esposa, mas, como ela se recusa a deitar-se com ele, o frustrado ministro então satisfaz seu desejo com uma jovem criada, Chun Sim (nota-se certa ambiguidade textual ou talvez ironia autoral quanto à caracterização do nobre ministro: elogiado como “um verdadeiro herói moral de seu tempo”, uma de suas primeiras atitudes na história é violar a criada). Consciente do seu limitado horizonte de possibilidades como membro de classe inferior, Chun Sim se submete. O ministro Hong, impressionado com a discrição da serva, a eleva para o posto de sua concubina, e ela se torna mãe do menino Hong Gildong. 

Ilustração de Shin Dong-wu, autor dos quadrinhos “Hong Gildong, o Herói”, cuja publicação se iniciou em 1965. O visual criado pelo artista para a personagem, com o colete azul, pequeno chapéu amarelo, mangas arregaçadas e uma espada na cintura, tornou-se icônico. Fonte da imagem: Asian American Writers’ Workshop.

Apesar de naturalmente talentoso, o menino Gildong, por ser filho de uma concubina e, consequentemente, ter status secundário na sociedade, cresce se lamentando por saber que nunca poderá se dedicar aos dois caminhos de prestígio abertos aos varões de nascimento nobre (yangban): o serviço público ou o militar. Sua outra grande tristeza é a de nunca poder chamar a seu próprio pai de Pai, nem a seu irmão (legítimo) de Irmão, pelo costume da época.

Os muitos dotes de Gildong despertam a inveja da concubina sênior, Chonang, que não tem filhos. Ela conspira para causar a morte do jovem. Em uma das passagens mais interessantes do livro, uma adivinha a serviço de Chonang se dirige ao ministro Hong e finge que viu em Gildong a face de um rei, alertando que se o menino fracassar em suas ambições, será a causa de grandes infortúnios. Naquela época, a traição ao rei poderia ser punida com o extermínio de três gerações da família. Como, oficialmente, Gildong nunca poderia exercer suas ambições, o ministro pensa exatamente como sua concubina esperava, e considera que o melhor seria que seu filho morresse, para evitar uma tragédia maior na família. Mais uma vez notamos certa ironia autoral em relação ao ministro, tão elogiado como capaz e erudito, caindo facilmente em uma artimanha combinada por mulheres das mais baixas origens. Ainda melhor, a profecia fajuta acerta, pois a eventual rebeldia de Gildong, derivada dos obstáculos a suas ambições legítimas, de fato traz sofrimentos para a família (ainda que de forma temporária), e afinal ele se torna, incrivelmente, um rei.

Pôster do filme de animação “A História de Hong Gildong”, de Shin Dong-heon (1967), com roteiro de seu irmão Shin Dong-wu. Este foi o primeiro longa-metragem de animação da Coreia. Fonte da imagem: Asian American Writers’ Workshop.

Como Laio em Édipo Rei, o ministro, temeroso, busca impedir a concretização da profecia, e acaba por criar melhores condições para que ela venha a fruição. Sem coragem de ordenar a morte do filho ilegítimo, obriga o jovem Gildong a viver isolado em um anexo e o proíbe de sair da propriedade. Com tanto tempo livre e nenhuma distração, o menino se dedica a estudos esotéricos e às artes marciais, chegando a dominar poderes sobrenaturais e controlar os elementos. Tão mágico quanto Harry Potter, mais poderoso que o Super-Homem (pois, ao contrário deste, Gildong não possui uma fraqueza), e com a mente militar de um César, Hong Gildong se torna invencível. Logo se vê por que Hong Gildong hoje é visto como um símbolo da masculinidade perfeita na Coreia.

Após Chonang contratar um assassino, com a concordância da esposa do ministro e de seu filho legítimo, Gildong derrota os conspiradores. Seu pai lhe concede a graça de chamá-lo de Pai, mas Gildong, consciente da precariedade de sua situação, deixa a casa paterna. Em sua nova vida, torna-se o líder de um bando de foras da lei, lamentando, ainda, o fato de não poder ter uma carreira legítima e honrada servindo ao rei. Daqui advêm as comparações com Robin Hood, pois o bando de Gildong rouba de ricos para dar aos pobres, e pune oficiais corruptos que infernizam a vida da população humilde. Adaptações modernas da história costumam aumentar ou sanitizar as ações de Gildong com seu bando, e mesmo a tardia versão wanpan 36 busca justificar o saque de um tempo budista, ocasião em que os monges são enganados e amarrados, com uma adição ao texto, uma longa passagem antibudista, possível referência à repressão do budismo durante o período Joseon, quando prevaleceu o neo-confucionismo. Nas versões pilsa e gyeongpan da história, não há qualquer justificativa para o crime; as ações de Hong Gildong são menos evidentemente “puras”.

Muitos são os feitos de Gildong, de forma que logo sua reputação chega aos ouvidos do rei. A família de Gildong inevitavelmente sofre com a punição real: o ministro Hong, idoso, é preso, e a família tem a grande vergonha de ser relacionada a um fora da lei. Porém, o rei age com benevolência e lhes oferece uma chance, desde que o irmão legítimo de Gildong o prenda. Gildong se deixa capturar, apenas para demonstrar espetacularmente que força humana nenhuma pode detê-lo. Suplica ao rei que o nomeie ministro da guerra, mas quando, milagrosamente, alcança esta grande ambição, imediatamente rejeita o convite e anuncia que partirá do reino para sempre. O que explica a repentina mudança de ideia do jovem herói? Talvez fosse apenas um desejo de provar que poderia conseguir o cargo; talvez o mero posto de ministro fosse realmente pouco para quem tem o poder de invocar divindades para cumprir seu comando.

Imagem do filme norte-coreano “Hong Kil-dong” (1986). O filme foi distribuído em países comunistas, como Cuba e Angola. Nele, Hong Kil-dong (de branco) luta contra ninjas japoneses invasores.

Juntamente com seu bando, vai viver em uma ilha. No caminho, luta contra monstros e assim conquista não só uma bela esposa, como duas concubinas, que eram reféns das criaturas. Após alguns anos de prosperidade, o talvez já não tão benevolente Gildong decide exercitar seu poderio militar para subjugar um outro reino, próspero e pacífico. A vitória do mais forte, Hong argumenta com lógica quase darwiniana em carta exigindo a rendição do rei legítimo, é nada menos que “o mando do céu”. Não deixa de ser irônico que a história de Hong Gildong hoje simbolize tão fortemente a rebelião dos oprimidos contra os fortes em um país que já foi colonizado como a Coreia, quando a história louva a tomada de um reino independente. E assim, Hong Gildong, de menino de status secundário, torna-se rei. Décadas depois, já em idade avançada, transfere a regência para seu filho legítimo mais velho, e ascende aos céus com sua esposa, tornando-se uma divindade.

A História de Hong Gildong possui forte apelo simbólico e grande popularidade na Coreia (aqui nos referimos às duas Coreias, pois a história data de muito antes da divisão da península), principalmente pelo seu tema de talento pessoal que eleva a grandes posições um indivíduo oprimido por uma sociedade que lhe desfavorece. A ideia de um jovem herói que pune opressores e auxilia os humildes também é muito atraente para um povo que foi dominado em diferentes eras. É a parte da história que mais recebe destaque nas muitas “reencarnações” em filmes, séries de televisão, quadrinhos, etc, e os “vilões” podem ser facilmente modificados de funcionários públicos corruptos ou nobres opressores para japoneses colonizadores e mesmo grandes empresários corruptos, dependendo do zeitgeist.

Material promocional do drama “Hong Gildong, the Hero” (KBS, 2008). Adaptação feita com o público Hallyu em mente, o drama inclui deliberadamente elementos modernos (de penteados estilosos e óculos escuros a K-pop) como forma de atualização da história. Fonte da imagem: Viki.

É interessante verificar, entretanto, que o Hong Gildong textual é um herói com mais zonas cinzentas do que a versão simplificada que é mais conhecida. Que ele considera as leis de Joseon injustas no tocante a ele próprio, por obstaculizarem sua devoção filial e ascensão social, é certo. Embora muitos atribuam à personagem zelo reformista ou revolucionário, essa leitura não é evidente, uma vez que em nenhum momento ele peleja para transformar o sistema, as leis, no que se aplicam à sociedade em geral. Sua temporada causando caos no reino com seu bando pode ser interpretada como uma forma de chamar a atenção do rei para suas habilidades. Sua atitude em invadir e colonizar um reino pacífico, com governantes justos, é frequentemente vista como a criação de uma utopia, mas, longe de criar uma sociedade em novos moldes, sem discriminação de status, Hong simplesmente replica a sociedade hierárquica de Joseon, desta vez com ele no topo. As diferentes leituras a que o texto dá azo até os dias de hoje são parte do que o faz um clássico.

Conhecer a literatura clássica de um país é uma das melhores formas de entrar em contato com o núcleo de sua cultura compartilhada. Se um clássico é “um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, nas palavras de Italo Calvino, nada mais apto para descrever A história de Hong Gildong, que atravessou os séculos na Coreia divertindo e inspirando. Enquanto houver a aspiração por uma sociedade mais justa e o sonho de um herói que aja com bravura para proteger os oprimidos, a lenda de Hong Gildong permanecerá viva.

Ensaio por Claudia Vieira

O MidiÁsia agradece a disponibilidade da autora em conceder o texto para publicação, assim como a professora Yun Jung Im que confiou no nosso site para ser um espaço de extensão do VI Concurso de Literatura Coreana.

Para saber mais sobre a autora do ensaio e o VI Concurso de Literatura Coreana, acesse aqui a notícia no MidiÁsia.

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