Os cem poemas dos cem poetas

Por Roberto Schmitt-Prym

Cem poemas de cem poetas (Ogura Hyakunin Isshu) é uma coletânea organizada pelo poeta e crítico literário Fujiwara no Teika (1162–1241). É ainda hoje a mais querida e conhecida antologia poética japonesa, ocupando esse status desde que foi composta, quase oitocentos anos atrás. Teve um papel decisivo na formação do senso estético japonês: seus poemas são tema de incontáveis pinturas, peças teatrais, objetos de decoração, canções, filmes, padrões têxteis, xilogravuras, ilustrações e muitas outras manifestações artísticas. No século XX, seus poetas foram representados em anime e manga. No século XXI, surgem em games e aplicativos. Um conhecimento mesmo superficial desse conteúdo artístico e histórico é passaporte para uma fruição muito mais rica de inúmeros artefatos culturais japoneses — e até mesmo brasileiros.

Capa do livro Cem poemas e cem poetas. Créditos: Editora Bestiário.

No fim da vida, recluso em sua casa de campo na colina de Ogura, Teika escolheu cem poemas, cada um de um autor diferente, e escreveu cada um deles em papel acartonado para caligrafia. Em seguida, afixou esses quadros às divisórias de correr, criando uma exposição poética. Os cem poemas waka (5 versos de 5-7-5-7-7 sílabas) estão dispostos em sequência mais ou menos cronológica, cobrindo um período que vai do século VII ao XIII, como que representando o desenvolvimento da poesia japonesa até aquele momento.

No Japão, os poemas contidos em Cem poemas de cem poetas fazem parte do currículo do ensino médio. Há um baralho de cartas baseado na coletânea, e o jogo de karuta é, até hoje, uma brincadeira que faz parte das festividades do ano-novo. Existe também uma versão competitiva do mesmo jogo, com campeonatos nacionais no Japão e em diversos países do mundo, incluindo o Brasil.

A presente tradução não tem por objetivo ser uma “versão brasileira” do jogo de cartas pois, para isso, eu precisaria ter dado prioridade à métrica dos poemas, com perda de outros elementos poéticos que eu considero mais importantes (e que eu explico mais adiante nesta Introdução). Ainda assim, este livro pode ser útil para quem se interessa por karuta, pois fiz questão de incluir os poemas em japonês e em transcrição, assim como as diferentes versões do nome de cada poeta — tal como é conhecido no mundo da literatura e no contexto do jogo de cartas.

Exemplo da paginação, com ilustrações de Arakawa Kamejirô. Créditos: Editora Bestiário.

Acompanham cada poema uma breve biografia dos autores e algumas notas para auxiliar na interpretação do poema — como se encontra, no Japão, em qualquer livro de bolso dedicado à coletânea. As ilustrações são de Arakawa Kamejirô, de uma edição da antologia de 1903 (vide Referências no final do livro). Para evitar que os paratextos sufoquem os poemas, deixei as explicações, ilustrações e biografias do lado esquerdo, nas páginas pares. Os poemas ficam em destaque, com tipografia maior, nas páginas ímpares. Alguém que prefira ler os poemas sem “instruções de uso” pode focar apenas nas páginas ímpares, e os que gostam de explicações mais detalhadas não vão precisar ir até o fim do livro atrás de notas desconfortavelmente entrincheiradas longe dos poemas a que se referem.

Por um lado, a fruição de poesia traduzida sem guias de leitura tem muitos defensores no Brasil, e pode servir como um teste bastante rigoroso da autonomia do texto poético em português. Por outro lado, “autonomia do texto” é um conceito extremamente problemático e, no Japão, o uso mais comum que se faz de literatura clássica envolve necessariamente notas, explicações e biografias. Os próprios poemas, na época em que foram compostos, eram anotados com títulos, prólogos e outros textos auxiliares. Em tradução, as notas e biografias compõem um retrato da época e dos autores dos poemas, funcionando como uma espécie de “almanaque da Antiguidade japonesa”.

Ficha técnica: Cem poemas de cem poetas. Tradutor: Andrei Cunha (UFRGS). Publicação: Bestiário/Class. Ano: 2018, p. 266.

As entrelinhas do jogo: o caso de Ghost of Tsushima

Por Mateus Nascimento e Douglas Almeida*

Chegou a hora e a vez de falarmos de videogames, Ásia e as possíveis utilizações desse material para além do ludicidade! Faz muito tempo que o público dos games vem aguardando um título de mundo aberto baseado na Ásia e as utilizações possíveis destes produtos eu estão chegando cada vez se torna mais evidente: não são só jogos, são produtos que armazenam espaços de construção de conhecimento.

Nesta modalidade, o chamado mundo aberto, as decisões do jogo e a forma de desenvolvimento dos personagens é mais livre do que num jogo tradicional com etapas e trajetórias pré-definidas. Estamos falando de jogos que permitem a cada jogador a liberdade de explorar as terras e vivenciá-las do seu jeito e no seu tempo, quase que como entrando na telinha (leia o livro Homo Ludens de Johan Huizinga, para compreender o papel do jogo e dos seus elementos formadores na sociedade, ok?).

Some-se a isso o fato de que essas terras e história são as de países asiáticos tradicionalmente envoltos em mistérios, lendas e narrativas e personalidades icônicas – o que torna a diversão ainda mais emocionante. No que diz respeito ao Japão, a espera de alguns finalmente acabou: com vocês o recém lançado Ghost of Tsushima!

Versão física do jogo Ghost of Tsushima. Créditos: Amazon.

Na verdade, os desenvolvedores da Sucker Punch Productions (1997 – atualmente) reinauguraram esta que já era uma área consolidada na indústria dos games de console. Alguns games já trouxeram cultura japonesa em suas narrativas. Exemplos não faltam: a série Yakuza (2005-2020), Ōkami (2006), Way of the Samurai (2002), Samurai Warriors (a “eterna franquia” iniciada em 2004 constantemente atualizada), o especial componente da franquia Total War, Total War Shogun e suas atualizações (2000) para citarmos alguns dos mais conhecidos mundialmente. Contudo, o destaque a Ghost of Tsushima, lançado em 17/07/2020 reside na sua tecnologia de simulação histórica, precisão dos elementos dessa simulação e no design em modo aberto (modo de mundo aberto, ou openworld).

Um dos maiores espaços de exibição de tecnologia de jogos, a Paris Game Week, apresentou o jogo em 2017, empolgando todo um público, com a proposta do enredo: o jogador assume o controle de um samurai, Jin Sakai, participante de um dos eventos mais controversos da história do Japão, as invasão mongólicas de 1274. O jogo se passa em Tsushima, a ilha do arquipélago japonês mais próxima da península coreana, de onde os navios da primeira invasão teriam partido.  

Vemos a preparação dos samurais locais que deverão fazer frente aos primeiros movimentos do exército mongol. A partir dali assumimos o papel do protagonista Jin Sakai, samurai cabeça de seu clã e servo de seu tio Lorde Shimura, que terá como objetivo sobreviver ao ataque e resistir a invasão. Um dos pontos altos de seu enredo é sua construção do personagem principal, que inicia como um samurai submetido a um código de conduta guerreiro extremamente rígido que aos poucos passa a questionar seus próprios princípios, para ser capaz de derrotar a horda inimiga que se usa de artifícios de guerra pouco convencionais e menos honrados do que normalmente se imagina.

Cena do jogo. Créditos: Playstation Store

A inserção desse personagem samurai, suas dúvidas e a forma de sua evolução remete as obras do cinema japonês especializado nesse grupo social histórico, samurai. Especialmente famoso é o diretor Akira Kurosawa (1910-1998), o qual é homenageado no jogo através de um modo de câmera do jogo que busca repetir os traços nostálgicos das suas películas cinematográficas, de quando produzia cinema tradicional em preto e branco.

Os duelos entre samurais, o questionamento da honra, a busca pela benção sagrada dos santuários e o constante embate contra as hordas mongóis proporcionam uma narrativa e aventuras que estruturam a expectativa de 50-60 horas de gameplay, considerado o tempo mínimo para realizar esta história.

Além disso, a ambientação, com detalhes e repleto de referências a diversos lugares reais da história japonesa, chama a atenção pelo seu poder de convencimento. Figuras históricas reais aparecem na história, com trechos que contam fatos dessa história da cultura do Japão para o jogador, que, supomos, pode ser influenciado por elas mesmo sabendo se tratar de um jogo.

Mais ainda: no imaginário coletivo, a cultura dos mongóis e da Mongólia é permeada de orientalismos e enquadramentos pejorativos. Por um lado, Gêngis Khan (1162-1227) o grande líder mongol é representado como bárbaro, ameaçador e perigo em potencial para a cristandade medieval, como um outro não exemplar que precisa ser combatido por não fazer parte do mundo cristão. Contudo, na outra face dessa relação basta considerar que o termo mongol durante anos foi usado como chacota, uma espécie de ofensa quando se chama alguém como mongol para destacar pouca inteligência ou deficiência psiquiátrica qualquer. Fica aqui o alerta e o manifesto em prol do abandono desse uso das palavras.

Nesse sentido, é o jogo – de novo: é o jogo – que vai nos apresentar esses excluídos das narrativas históricas que são apagados no momento em que o “Grande Khan” é usado como sua representação no ensino de história mundial. Longe de serem representados como meros bárbaros sádicos, estes nos são apresentados como um povo poderoso, civilizado, que tem práticas políticas e diplomáticas em meio a herança de tradições de seu.

Gameplay em 18 minutos. Fonte: Youtube

Diversos itens colecionáveis pelo cenário do game nos permitem conhecer mais pormenorizado essa cultura mongólica, através de objetos tradicionais ou mesmo vasos romanos, máscaras de deidades de terras distantes ou porcelana chinesa de outras dinastias conquistadas, os quais são acrescidos de comentários ou explicações em cards inseridos com menção, inclusive, a livros e fontes consultáveis.

No exato momento que essa busca extra (consulta externa ao jogo) se materializar, não teríamos aí uma outra utilização do jogo em tempos de mediação midiática tão acentuada? Eis uma boa questão para pesquisas, pois as representações e a forma como as interpretamos e mobilizamos são excelentes objetos de pesquisa dos estudos de mídia. 

Nas entrelinhas do jogar, a visão sobre o passado e cultura mongólica nos Games nunca teve tanto destaque ou foi tão bem feita quanto em Ghost of Tsushima, que, portanto, nos apresenta o Japão feudal na visão de um samurai ambientado e ao mesmo tempo o intenso jogo das relações entre Japão e continente pelo elemento histórico da guerra. Isso conduz o jogador por uma série de representações dignas de estudos futuros.

Review de Ghost of Tsuhima. Fonte: Youtube

Esperamos que aproveitem a dica e divirtam-se!

* Douglas Almeida é Historiador formado pela Universidade Federal Fluminense, com especialização em História Militar pela UNIRIO, ambas com pesquisas acerca da História dos Samurais. Também atua como 2º Coordenador do Grupo de Estudos Japoneses da UFF (GEHJA-UFF), Coordenador Geral da Academia Nipo Brasileira de Estudos de História & Cultura Japonesa do Instituto Cultural Brasil-Japão (ANBEHCJA-ICBJ), membro pesquisador do Grupo de Estudos de Diplomacia Multidimensional do Oriente (GEDIMO-UFF), do Núcleo de Estudos Japoneses da Federal de Santa Catarina (NEJAP-UFSC), do Grupo de Estudos de História Militar (GEHM-CEIA/UFF) e pesquisador colaborador do Centro de Estudos Asiáticos (CEA-UFF) e Midiásia-UFF.

Admirável Poesia de Mi-ja

Por Mateus Nascimento

Se você gosta de cinema coreano para pensar as questões sociais de nosso tempo, gostaríamos de sugerir para você ver o filme Poesia de Lee Chang-Dong.

Lançado em 2010, Poesia, 시 (Si na língua original), desponta como uma das obras mais filosóficas do diretor, recentemente reconhecido pelo filme Burning, Em chamas em português, inspirado num conto de Haruki Murakami (Queimar Celeiros). Por sua vez, Poesia conta a história da sofrida dona Mi-ja, uma avó na casa dos 66 anos que descobre princípios de da doença de Alzheimer após diagnóstico de seus esquecimentos leves.

A interpretação brilhante de Yoon Jeong-hee (1944–), uma das atrizes mais reconhecidas da Coreia do Sul desde pelo menos 1967, com variados prêmios de interpretação de papéis dramáticos, é composta ainda de um drama paralelo a esse: ela cuida de um neto em tempo integral, sozinha sem ajuda dos progenitores, e descobre as ações dele, dentre elas um estupro de uma estudante da mesma escola.

Cartaz do filme. Créditos: Amazon.

A história é impactante por vários motivos. Vemos na tela o que seria um drama do envelhecimento na Coreia do Sul, questionando todas as nossas expectativas e estereótipos do sucesso das políticas sociais das sociedades asiáticas. Some-se a isso a questão social do abandono parental pela qual podem passar os filhos de toda uma geração orientada para o sucesso profissional acima de tudo e todos, o impacto de doenças degenerativas ainda sem cura no planeta apesar de alguns países estarem melhor preparados do que outros etc. São muitos dramas e questões e dona Mi-ja brilha na tela por representar um questionamento que aparece nas entrelinhas da narrativa: a possibilidade de nós nos encontrarmos conosco mesmos no exato momento da crise, do trauma, da estafa ou da situação limite.

Afinal, como seria possível para alguém como ela, abandonada e abraçada a própria determinação de viver se reinventar diante de algo que a corrói por dentro? Nisso entra a poesia, a poética e o ponto central, mais provocante: uma senhora sem quaisquer condições decide ser poeta e praticar aquilo que muitos poetas apregoam, uma observação cuidadosa e paciente do mundo ao redor.

Voltando a dona Mi-ja, ficamos sabendo que mesmo com a idade avançada ainda trabalha ocasionalmente para complementar a renda, a ponto de se submeter aos serviços em casa de famílias para conseguir resolver suas contas e necessidades e as do neto também.

Yoon Jeong-hee é dona Mi-ja no filme Poesia de Lee Chang-Dong (2010). Créditos: Pinterest.

Concomitante, quando alguns pais envolvidos descobrem as atrocidades cometidas por ele e seu grupo da escola, ela é inserida em uma grande negociação indenizatória, para que todos os envolvidos saiam ilesos, sem registros criminais que afetariam os negócios de família. Uma condenação ou uma exposição exagerada poderia prejudicar eternamente o futuro do negócio dos pais (que devem continuar na vida dos seus filhos, roboticamente destacados para a tarefa) e o desenvolvimento social deles, embora a primeira preocupação seja mais forte.

Certamente, a querida dona Mi-ja já é uma vencedora por suportar tamanhas demandas sendo quem é, materialmente falando.

Nesse somatório de absurdos, de coisas que nos constrangem e irritam (traço típico das construções fílmicas do diretor) reside a poética de Lee Chang-Dong: como um conhecedor da cultura coreana (ele foi funcionário do ministério da Cultura deste país), ele aponta com o dedo em riste sem pudor para dentro da comunidade sul coreana e nos lança as mesmas questões, mostrando através das imagens que essa situação dramática da humanidade tem haver com todos os participantes da comunidade humana, sobretudo, por nos calarmos diante de situações como essas. Todos temos alguma culpa e deveríamos ter o ímpeto de procurar alguma resposta diante da dor dos outros. 

Ao propor um enredo com uma senhora que se descobre poeta após (repito: após!) saber ser portadora de Alzheimer, Lee está sugerindo, pelo menos, uma tomada de posição. Perceba-se desde já que cada plano carrega pelo menos duas exclamações: a situação de Mi-ja não é inverossímil! A situação de Mi-ja deveria ser inaceitável! Contudo, Mi-ja mora na Coreia, no Brasil e em toda parte do mundo que não se permita refletir sobre envelhecimento. Bom filme.

Trailer do filme no Youtube

Ficha técnica: Poesia (Si), de Lee Chang-dong (Coréia do Sul, 2010).

Corpo e voz: conheça o artista japonês Daichi Miura

Por Sérgio Menezes*

Satoshi Hiroshi Miura, ou Daichi Miura para os fãs, é um dos artistas mais completos que já vi em toda a minha vida. Um artista completo, que começou sua jornada aos nove anos de idade, em 1997, no grupo Folder, e desde aquela época já se mostrava um artista nato, bem diferenciado, e chamando a atenção dentro do grupo.

O grupo era da escola de atores de Okinawa, com cinco meninas e dois meninos, sendo Daichi, o vocalista principal do grupo, e chamado de “O menor Soulman do Japão” pelo público que os acompanhavam. No seu repertório tinham músicas originais, mas também algumas músicas dos Jackson Five, como” “ABC” e “I want You Back”. Daichi também era muito reconhecido como um dançarino extremamente talentoso e dedicado, e quando sua voz começou a mudar, ele se afastou dos palcos e de seu grupo, que no ano 2000 se tornou o grupo Folder 5, com as cinco meninas. Depois de um hiato de cinco anos na carreira, em 2005, Daichi começou sua carreira solo. Lançou o single “Keep it Going’ On” e em 2006 o primeiro Álbum, “D-ROCK with U”, gravando seu primeiro DVD logo em seguida.

Crédito: universo japonês.

O primeiro contato que tive com sua música foi entre 2008 e 2009, com o single “Inside your head” que, além de um videoclipe completo no Youtube, ainda tinha vídeos tutoriais exclusivos do próprio Daichi com os dançarinos ensinando a coreografia. Como um artista completo e preocupado com stages sempre mostrando muita dança, Daichi chamou os quatro dançarinos que formam, até hoje, o grupo S**T Kingz. O grupo consiste nos quatro melhores dançarinos japoneses mais conhecidos mundialmente, que além de performances incríveis, já ganharam duas vezes o campeonato Body Rock, nos EUA, um dos campeonatos de danças urbanas mais respeitados do mundo e um feito inédito, já que o evento recebe grupos de 30 a 50 integrantes.

A trajetória de Daichi Miura também revela um Collab com BoA, uma cantora e dançarina coreana extraordinária, que quebrou todos os recordes e tem uma história marcante na indústria do entretenimento asiático, e que hoje é uma das acionistas da SM Entertainment, a maior empresa da Coreia do sul. O single “Collab Possibility” foi lançado em 2010 e conta com mais de 9 milhões de views no Youtube. De lá pra cá sua sequência de singles não parou mais. Singles como “The Answer” em 2010, “Right now” em 2012, “Go for” it em 2013, “Unlock” em 2015, “Cry & Fight” e “(RE)PLAY” em 2016, “Excite” em 2017 e “Blizzard” em 2018, mostram uma carreira consistente e repleta de músicas marcantes. “Colorless” é seu último single, lançado em 2020, um pouco antes da pandemia do novo Corona vírus.

Crédito: Arama! Japan

Daichi tem um ritmo de treinamento intenso e chegou a ir até Los Angeles treinar em um dos estúdios mais famosos de Hip Hop dos Estados Unidos, chamado Moviment Lifestyle. Lá, ele contratou o coreógrafo Keone Madrid, conhecido, dentre uma carreira prolífera, por coreografias do BTS, BIGBANG e outros artistas da música, tanto asiática quanto americana. Desta parceria, nasceu a coreografia do Single “Right Now’, mas as coreografias de suas produções, sempre, são assinadas pelo próprio Daichi em conjunto com os coreógrafos contratados por ele, o que dá aos trabalhos não só uma originalidade, como o seu toque final.

Em (RE)PLAY não foi diferente, mas ele chamou um time de peso de dançarinos consagrados e mostrou uma versatilidade a mais, entre estilos de danças urbanas diversos, como Popping, Locking, Break e Hip hop. Outras de suas performances, como a de “Cry& Fight” ao vivo, mostram não só a dança, mas um potencial vocal diferenciado, sem perder o fôlego e sem desafinar. Buscando sempre se reinventar e alcançar novos mercados, cantou também dois singles que se tornaram temas de animês, sendo esses “Excite” em “Kamen Rider Ex-Aid” e “Blizzard” em “Dragon Ball Super Broly”.

Videoclipe de Blizzard

A Avex, empresa que gerencia a carreira de Daichi, liberou nessa quarentena um Show completo, mas infelizmente o vídeo já foi privado. Daichi ainda está criando apresentações em casa com seus músicos e dançarinos, e fazendo performances muito interessantes, se valendo de uma edição por vezes inventiva e atrativa, nunca parando completamente de performar, ainda que não em um palco, propriamente dito.

Ademais, o que poderemos esperar no próximo ano desse “Soulman” é uma incógnita. A única garantia é que será algo de qualidade, como tudo o que ele se propõe.

* Sérgio Menezes é dançarino e coreógrafo há 13 anos e produtor de eventos há 7 anos na cidade do Rio de Janeiro.

Ouvindo os sons do vento com Haruki Murakami

Por Mateus Nascimento

Ouça a canção do vento, de 1979, é o primeiro texto de Haruki Murakami (ou Murakami Haruki dependendo do quão imerso nos estudos japoneses você esteja), o grande autor japonês pop!

Ler este livro é fundamental para se conhecer um Murakami das primeiras ideias literárias, antes de ser o sucesso de vendagem que é hoje. De certa forma, é ter em suas mãos as primeiras experimentações do autor no campo da escrita, mesclando imagens mais contemporâneas e ocidentais (especialmente americanas), mas também outras mais clássicas, do repertório da literatura japonesa.

Ele é um dos escritores japoneses mais conhecidos justamente porque seus livros abordam desde a própria cultura japonesa até as questões mais centrais de nosso tempo, às vezes misturando as duas coisas em histórias qualificadas como pertencentes ao realismo fantástico.

Haruki Murakami. Créditos: The Star

Nascido em Quioto pouco tempo após a Segunda Guerra Mundial, em 1949, Murakami é filho de um sacerdote budista com a filha de um comerciante de Osaka, com os quais aprendeu literatura japonesa. Frequentou a Universidade de Waseda, em Tóquio, dedicando-se sobretudo aos estudos teatrais. Antes de terminar o curso, abriu um bar de jazz chamado Peter Cat, à frente do qual se manteve entre 1974 e 1982, e se casou jovem. O casal não tem filhos.

Com esse breve histórico, parece que Murakami quis ser diferente do padrão. Sua vida mostra alguém que quis ser um outsider ou crítico do estilo de vida capitalista do Japão, muito marcado pelos conceitos de produtividade, meritocracia, que compõem aquela imagem do japonês como pessoa sempre ocupada, disciplinada, educada, etc., que nós ocidentais conhecemos na mídia.

Normalmente, muitos comentadores o associam à corrente de autores do realismo fantástico, por conta da junção de elementos folclóricos, ficcionais a imagens que podemos encontrar na realidade: música clássica, música pop americana, imagens da pop art e cenas fantásticas que se inspiram em lendas japonesas ou em lendas ocidentais. Toda a mistura aparece somada a gatinhos, cervejas e bastante cenários típicos de um Japão em constante aceleração, marcado pelas dores do individualismo extremo que reina ali, apesar de quase todas as atividades dos sujeitos serem atravessadas por conceitos e formas que privilegiam o coletivo e a coletividade.

Capa do livro Ouça a canção do vento. Créditos: foto do autor.

Por sua vez, Ouça a Canção do Vento é um romance curto, mais próximo de uma novela o que de um romance, e acompanha um narrador sem nome ao longo de poucos dias de suas férias de verão da faculdade, em agosto de 1970. O livro virou filme em 1981, dirigido por Kazuki Ōmori – Hear the Wind Sing – e logo popularizou o texto murakamiano no próprio país.

Narrado em primeira pessoa com capítulos curtos, esse narrador, cujo nome não sabemos em nenhum momento da história, passa grande parte do seu tempo com seu melhor amigo, o Rato, e com J., barman e dono do J’s Bar, onde os três passam as noites bebendo e conversando.

Entre uma aparição e outra de California Girls do grupo Beach Boys ou de Return to the Sender de Elvis Presley, ao passo que a vida boêmia de Kobe se apresenta, o narrador resgata uma moça desacordada no bar e em torno desse relacionacionamento gira a história, com algumas pausas nas quais ele busca lembrar-se de relacionamentos passados e experiências da sua vida. Apesar de conhecermos pouco todos os personagens – o Rato um pouco mais pois é mencionado o fato dele ser filho de empresários – ficamos sabendo que o narrador está vivendo tudo isto por estar de férias da faculdade, entre os dias 8 e 26 de agosto de 1970.

Certamente esses personagens sugerem um apontamento murakamiano sobre os deslocados no interior da cultura do Japão, que consequentemente desenvolvem a solidão e medo de serem inadequados, o que se correlaciona com o nosso tempo atual. É curioso o fato de que Murakami tenha escrito sobre esses dramas na década de 1980 e alguns dos textos dessa fase ainda serem tão atuais.

Perceba: personagens sem nome, no meio de uma sociedade que valoriza bastante o coletivo; a quase onipresença do álcool em todos os momentos das histórias; as mortes e a crise profissional que assombra boa parte dos protagonistas, temas quase incabíveis no Japão que nos é continuamente apresentado como o país do futuro, da dedicação pessoal e do sucesso. 

Para ele, por exemplo, é ausente do mundo atual um conceito de heroísmo, muito presente no elogio do sucesso formulado pela cultura da meritocracia. Também estariam ausente as fórmulas prontas. A situação atual é o que é e nada mais e suas obras falam desse cotidiano da contemporaneidade, que mais nos oprime e desloca e mata psicossocialmente. Com vocês, Haruki Murakami.

Ficha Técnica:

Título: Ouça a canção do vento / Autor: Haruki Murakami / Tradutora: Rita Kohl / Editora Alfaguara, 2016.

“Isso não é arte” de Kobayashi Issa

Por Roberto Schmitt-Prym e Andrei Cunha (Editora Bestiário)

Kobayashi Issa (1763–1827) é um daqueles grandes da literatura que pagaram um preço alto por darem prazer ao seu público: como Mario Quintana, Alexandre Dumas, Anton Tchekhov, Jacques Prévert, ou ainda seus conterrâneos Miyazawa Kenji e Murakami Haruki, o impacto de Issa é tão acessível, mesmo para quem “não gosta de literatura”, que suscita desconfiança em críticos mais sisudos — o tipo que imagina que, para ser arte, precisa dar trabalho ao leitor.

Estátua de Kobayashi Issa em Kashiwabara. Créditos: Green shinto

Isso não é arte? É um clichê dizer que é muito difícil ser simples, que a leveza do artista esconde um fazer cheio de gravidade. Os haicais de Issa abrigam muitos níveis interpretativos, tanto como representantes da sua cultura, quanto como peças discretas que funcionam em diversos contextos. Ele é herdeiro de uma tradição japonesa, literalmente milenar, de desprezo pela distinção entre o confessional e a ficção: seus comoventes diários e poemas são, ao mesmo tempo, “baseados em fatos reais” e sínteses daquilo que Ricardo Silvestrin chama, em sua Introdução, de “um eu que se dissolve, um eu mínimo, no limite do não-eu”.

Por outro lado, mesmo sem o melodrama pessoal, extirpados de seus habitat linguístico, social, moral, os poemas continuam vivos, desafiando o equívoco, bastante comum, de que Issa não merece ser mencionado com os outros dois da tríade — Bashô e Buson —, por não ser “suficientemente sério, suficientemente profundo”.

Imagem do livro “Isso não é arte”. Créditos: Mateus Nascimento.

Assim como há quem ache simples ser simples, vai ter gente que vai dizer que o trabalho de Silvestrin foi pequeno. Afinal, que mistério pode haver em repetir, em português do Brasil, as frases diretas e descomplicadas de um poeta de fácil comunicação? O sentimentalismo dos haicais de Issa, que ele herdou da tradição do waka da Antiguidade, mais do que do haicai da Idade Média, já é tão pungente, que bastaria, seguindo esse raciocínio, repetir a mesma história em nossa língua. De novo, há aí engano. Silvestrin consegue fazer um trabalho difícil sem permitir que ele pareça difícil: os poemas — que ele escolheu claramente por afinidade, por ressonância — se apresentam a cada folha deste precioso livro como que recém-chegados a um mundo que é uma fusão de brevidade nipônica com uma sensibilidade linguística nossa, e isso é para poucos.

Eis aí a mágica, que nem todos veem: ser arte tão leve que desafia a mesma ideia do que seja arte.

Ficha técnica:

Título: ISSO NÃO É ARTE. Autor: Kobayashi Issa. Tradução: Ricardo Silvestrin. Publicação: Bestiário/Class, 2019.

Todos os Haicais de Ryōkan Taigu!

Por Roberto Schmitt-Prym (Editora Bestiário)

Esta é a coleção completa dos haicais do monge budista Ryōkan Taigu, em edição bilíngue.

A produção poética de Ryôkan se encontra dispersa em diários, cartas, anotações, leques, biombos, trabalhos de caligrafia, desenhos e outras obras que ele produziu ao longo da vida e que foram preservadas pelas pessoas que conviveram com ele. Assim, os haicais desta antologia se apresentam numa ordem não cronológica, baseada na forma tradicional das coletâneas de poesia do Japão, que agrupa poemas em torno de temas sazonais.

Foto do livro. Créditos: Mateus Nascimento

Como figura humana, a posteridade se encarregou de disseminar anedotas, muitas das quais apócrifas, sobre o suposto caráter excêntrico de Ryôkan. Ele é visto como um mendigo, um velho louco, uma personagem um pouco patética — um eremita que vivia isolado do mundo dos homens, na mais abjeta miséria. Os poemas desta antologia ajudarão talvez a compreender a profunda visão humana que havia por trás dessa figura considerada por muitos como “digna de pena”. A sua vida ascética foi um poderoso instrumento espiritual, permitindo que ele visse as coisas e as pessoas com mais liberdade — e que as descrevesse com maior franqueza.

Estátua do poeta em Niigata. Crédito: Enciclopédia Britannica (https://www.britannica.com/biography/Ryokan)

Ryôkan Taigu (良寛大愚) (Izumozaki, na atual Fukushima, 1758-1831) foi um poeta, caligrafista e monge zen-budista que viveu grande parte de sua vida como um eremita. É lembrado como o grande poeta do zen-budismo e comparado a Francisco de Assis em seu significado como religioso para os budistas.

Os nomes religiosos com os quais se intitulou significam “Vasta Tolerância” (Ryōkan) e “Grande Louco” (Taigu), mas os relatos dos seus contemporâneos também falam do seu calor humano e compaixão. Aos dezoito anos, decidiu entrar em um mosteiro. Estudou com o famoso professor Kokusen Roshi da escola Sotō. Após a morte de seu mestre, Ryōkan passou os próximos vinte anos em um eremitério nas montanhas. Embora não tenha escrito em um único estilo, por possuir um espírito inovador, grande parte dos seus mais de 1.400 poemas foram compilados por pesquisadores (Ryokan somente distribuía poemas a amigos). O poeta praticou largamente o haicai.

Em 1826, Ryōkan ficou doente e não pôde continuar vivendo como eremita. Ele se mudou para a casa de um dos seus patronos, Kimura Motouemon, e foi cuidado por Teishin, pela qual se apaixona e, embora raramente estivessem juntos, nos próximos três anos escreveu o que, aparentemente, são alguns dos mais belos poemas de amor da literatura japonesa.

Ficha técnica:

Título: TODOS OS HAICAIS. Autor: Ryōkan Taigu. Tradução: Roberto Schmitt-Prym. Ensaio: Andrei Cunha. Publicação: Bestiário/Class, 2020.

O Orientalismo

Por Mateus Nascimento

Chegou a vez de falarmos de Edward Said!

Para a maioria dos pesquisadores que se identificam com o campo dos estudos asiáticos, Said é uma leitura dessas que fundam questões e se tornam expoentes no tempo. Para outros, no entanto, a obra de Said é polêmica.  Aijaz Ahmad (1932 –), teórico marxista indiano, é um dos que dirigem críticas bastante interessantes ao nosso autor sugerido. Ele o faz através de seu livro Linhagens do presente que conta com um capítulo todo dedicado as contradições que vê na composição discursiva saidiana. O capítulo fortíssimo se chama: Orientalismo e depois: ambivalências e posição metropolitana na obra de Edward Said, mas, talvez, o conjunto de comentários, críticas, resenhas e utilizações do texto de Said, mais reforce seu poder teórico do que de fato o desabone, como acontece com alguns textos muito criticados.

Edward Wadie Said nasceu em 1935, em Jerusalém no tempo do mandato britânico sobre a Palestina, e veio a falecer em 2003, estabelecido em Nova York. Sua obra é constituída de suas experimentações teóricas, bem concentradas no campo da literatura e da crítica literária, mas também considera de forma bastante viva a sua própria trajetória e ainda uma percepção crítica da história das relações coloniais e pós-coloniais.

Edward W. Said. Crédito da foto: Instituto de Cultura Árabe

Filho de uma família de cristãos (árabes cristãos), Said teve sua formação atravessada pela necessidade de movimentação. Por exemplo, precisou partir de Jerusalém quando houve a criação do Estado de Israel (ele e muitos) e por isso viveu no Egito, no Líbano e nos Estados Unidos, onde se baseou. Said se tornou professor da prestigiada Universidade de Columbia, sempre discutindo a questão palestina e propondo interessantes reflexões, muitas delas já publicadas no Brasil. Por exemplo, o livro Fora do lugar apresenta um pouco de sua vida e dos impactos psicológicos dessa conjuntura tensa entre Israel e Palestina e é recomendadíssimo nesse momento em que parece reacender o tópico sensível das guerras na região árabe-israelense, com as recentes notícias sobre o projeto de anexação.

Contudo, a obra que destacamos no início dessa sugestão é o famoso Orientalismo, publicado inicialmente em 1978.

Orientalismo de Said. Foto do autor.

Gostaríamos de deixar você com água na boca para ler com uma citação que fala muito daquilo que o livro examina:

“O orientalista examina o Oriente a partir de uma posição superior, com o objetivo de tomar conta de todo o panorama que se espraia à sua frente – cultura, religião, mentalidade, história, sociedade. Para tal fim, ele deve ver todo detalhe por meio do estratagema de um conjunto de categorias redutoras (os semitas, a mentalidade muçulmana, o Oriente, e assim por diante).” Diz Said na página 322 de seu livro.

Por essa pequena passagem vemos a dupla intenção saidiana de, por um lado, criticar uma determinada forma de ver e compreender a alteridades que estão no mundo – e ele critica o reducionismo que há em qualificarmos grupos distantes ou diferentes de nós segundo nossos próprios critérios de classificação, e, em segundo lugar, o impacto da agenda do imperialismo nesta explicação tradicional, quase que alertando sobre a violência das classificações tradicionais que conhecemos. Said passa todo o tempo de Orientalismo mapeando o surgimento e a manutenção de uma agenda que ele chama de projeto de invenção do Oriente pelo Ocidente, ou seja, ele está preocupado sobre como o colonialismo e o imperialismo trouxeram consigo formas de conceber o outro para fins de dominá-lo. Esse outro é o mundo, ou, os mundos que estavam entre os alvos do projeto imperialista das potências dos séculos XVIII e XIX, embora Said se permita uma tese de que essa forma de narrar já existisse no séc. XVII. Para esta empreitada ele vai aos clássicos da literatura ocidental, aos nomes mais significativos (como o de Ernest Renan, um dos primeiros a mapear a história de Israel com o viés do orientalismo) e a alguns eventos históricos marcantes, como o processo de construção e utilização do canal de Suez, por exemplo.  

Assim, a obra saidiana é importante por vários aspectos, mas principalmente, por nos possibilitar uma crítica daquilo que damos como natural. Não é incomum aprendermos conteúdos de história e geografia com essa forma criticada por ele. Talvez você mesmo se pegue pensando sobre como a história mundial parece só dar conta das experiências europeias e americana e, quando muito, outras realidades são apresentadas num jogo de comparações que visam reforçar o Ocidente. Veja: a democracia e o iluminismo vs. o despotismo oriental; as cruzadas contra o mundo islâmico (juntando numa mesma classificação uma multiplicidade de experiências sociais e culturais); ou mesmo a história japonesa que só começa nos livros didáticos a partir do séc. XIX, para dizer que o Japão foi ocidentalizado no período Meiji da sua história. 

Esses e outros exemplos que agora você vai poder questionar e a partir da leitura de Said tomar como objeto! Sugerimos a leitura de Orientalismo e esperamos que você seja frutífero nas suas aplicações da teoria que Edward Said propõe.

Ficha técnica:

Título: Orientalismo. Autor: Edward W. Said. Tradução: Rosaura Eichenberg. Publicação: Companhia das Letras (selo Companhia de Bolso). Ano: 2017.

ÜBERSEEZUNGEN: Retrato de uma língua e outras criações de Yoko Tawada

Por Roberto Schmitt-Prym (Editora Bestiário)

Um livro ousado, repleto de graça e inspiração.

Lê-se no título de “Überseezungen” – entre outros significados – as “traduções” que levam a protagonista a viajar ao sul da África, aos Estados Unidos, ao Canadá e de volta ao Japão e à Alemanha (Tawada, nascida e criada no Japão, mora desde 1979 na Alemanha).

O leitor aprende muito sobre países, sobre povos e sobre os traços das palavras quando a escritora, em sua perspicácia benjaminiana, expressa a perplexidade e o maravilhamento proporcionados pelas diferentes formas e barreiras linguísticas, as quais investiga espirituosamente em frases simples, ao mesmo tempo vivazes e despreocupadas, que respiram os ares da poesia e da filosofia.

Überseezungen é, ao mesmo tempo, uma palavra, uma criação; uma tradução, uma transcriação.

O título de Tawada é um entrelaçamento de formas e significados. Em um primeiro momento, sua fisionomia mostra a expressão central do livro: Übersetzungen, em alemão, significa “traduções”.

Um segundo olhar traz ao leitor os desdobramentos atribuídos ao conceito: See é traduzível por “mar”; Übersee, por sua vez, pode ser traduzido em português como “além-mar”, aquilo que cruza os oceanos, que está para além do horizonte marítimo; Zungen traz o significado de “línguas”, as línguas que falam, a língua física; e Seezunge é a tradução de “linguado”, peixe cujo aspecto morfológico oval e achatado lembra o formato de uma língua.

O linguado caracteriza-se, ainda, por sofrer uma metamorfose ao longo de seu ciclo de vida: seus olhos migram e seu rosto se transforma, literalmente, no momento em que passa a viver a maior parte do tempo no fundo de seu ambiente aquático. O título evoca os aspectos relativos à língua e à tradução e os associa intrinsecamente ao aspecto físico do órgão responsável pela articulação da fala. Mostra ainda a fisicalidade do movimento, mesmo que muitas vezes não seja necessário um efetivo deslocamento para que esse movimento ocorra.

A partir de tais leituras, pode-se observar a relação da tradução com a linguagem e com o corpo, a metáfora do viajar por entre continentes, do assumir metafisicamente a forma e a essência de ser uma língua — do sentir-se como língua em constante transformação.

Em Überseezungen, Tawada explora o viajar pelos idiomas, de modo que o trânsito linguístico se sobrepõe ao deslocamento físico e geográfico. Do duplo foco nos movimentos linguísticos e geográficos emergem amplas interpretações sobre a natureza da comunicação e do ato de viajar, resultando em uma fascinante reflexão que integra mobilidade, geografia, linguagem e identidade.

A ideia de movimento já se apresenta ao leitor desde o título, cuja marcação em itálico evoca o ondular da água em sua visualidade gráfica dentro da palavra. Ao lado das considerações sobre o deslocamento linguístico, a autora oferece reflexões sobre as muitas formas de tradução que se implicam e se revelam em cada uma das aventuras. Em alemão, o verbo übersetzen, além de significar “traduzir”, possui ainda o significado de transpor, passar para outro lado. Esse duplo sentido também aparece no seu jogo de significados, posto que traduzir envolve muito mais do que passar palavras de um idioma para outro — envolve um deslocamento efetivo de quem fala e transita entre margens linguísticas.

Entre essas margens, Tawada imagina um espaço fluido, no qual se dissolvem as palavras e as letras, e onde a comunicação volta a fazer parte de um todo cósmico e transcendental ao qual pertenceriam originalmente. A fluidez associada a esse espaço de formas livres que não pertencem a nenhum lugar é simbolizada pela água e, por isso, a imagem da água encontra grande relevância no trabalho da autora.

Sobre a autora:
Yoko Tawada nasceu em Tóquio em 1960. Em 1979 fez sua primeira viagem à Alemanha pela ferrovia Transiberiana. De 1982 até 2006 morou em Hamburgo; desde então, vive em Berlim. Tawada é autora de contos, romances, ensaios, poesias e peças de teatro, obras que escreve tanto em japonês como em alemão. Seus trabalhos recebem grande atenção e reconhecimento nos círculos literários e acadêmicos de todo o mundo devido ao grande valor literário que possuem bem como de suas características multilíngues e interculturais. Dentre inúmeros prêmios de literatura recebidos pela autora, destacam-se o Prêmio Kleist, recebido na Alemanha em 2016 e o Prêmio Fundação Japão, recebido no Japão em 2018.

Ficha técnica:

Título: ÜBERSEEZUNGEN: Retrato de uma língua e outras criações de Yoko Tawada – Tradução: Marianna Ilgenfritz Daudt e Gerson Roberto NeumannPublicação: Bestiário/Class, 2019.

Entre a distopia e a realidade brasileira: a música do artista afro asiático Yannick Hara

Por Mateus Nascimento

A sugestão de obra de hoje sai do cenário literário e adentra o âmbito musical! Estamos nos referindo a música do artista afro asiático Yannick Hara.

De acordo com a suas falas registradas na página O inimigo do no médium, ficamos sabendo que ele é filho de pai negro e mãe japonesa, a primeira mistura. Yannick mescla a cultura oriental e ocidental, fundindo o universo dos mangás e animes com o do hip hop. Sempre em busca de quebrar paradigmas, agora o rapper volta imerso na cultura do cyberpunk e da ficção científica.

Ficamos na torcida para que seja um som novo e provocante na quarentena para os leitores do MidiÁsia, pois o artista conversou com nossa equipe e topou dar uma palavra mais autoral sobre seus novos projetos:

Com capa de Thiago Hara e foto de Tiago Santana, eis o disco O caçador de andróides. *Todas as fotos deste texto são de Tiago Santana.*

Mateus Nascimento: Quem é Yannick Hara?

Yannick Hara: Sou um artista afro-asiático filho de mãe japonesa e pai negro. Desde do berço fui fortemente influenciado pelas culturas asiática e africana. Exemplo disso foi o hábito de ler mangás e assistir animes, além de ouvir muita música negra como o jazz, o blues, o soul, o rock e o rap. O sobrenome Hara vem da mãe, a Dona Nair, Yannick também tem um nome japonês que é Seiji, Dias é meu sobrenome paterno, meu pai Seu Francisco.

MN: Quando e porque nasceu O Caçador de Andróides?

YH: O Caçador de Andróides nasceu da influência musical herdada do meu pai, pois quando pequeno, me mostrou a trilha sonora de Vangelis[1]. Me apaixonei por aquela estética sonora, em seguida assisti ao filme Blade Runner (filme de 1982, dirigido por Ridley Scott) e fiquei impressionado como na década de 90 (nasci em 1984 e tive essa experiência 7 anos depois em 91) alguém poderia imaginar como seria o ano de 2019. Na adolescência fui conhecendo mais sobre ficção científica e na vida adulta sobre a cultura cyberpunk, em 2018 iniciei a produção deste disco. Foi como se eu voltasse a infância e realizasse uma idéia que ficou fixa em meu subconsciente, além de ser uma ótima oportunidade em falar tudo aquilo que eu gostaria de dizer, politicamente, socialmente e espiritualmente. 

MN: Quais os elementos dessa estética? Ele é cyberpunk, distópico, mas o que é isso para você?

YH: Sim, o disco é cyberpunk e sim, é distópico. Cyberpunk para mim é a valorização da tecnologia em detrimento da qualidade de vida. Distopia é o mundo em que vivemos, corrupto, desigual, alienado, manipulado, sociopata, escravizado, controlado, enfim nada mais que o hoje, nada mais que a atualidade em que vivemos no Brasil e no mundo. A distopia é real.

MN: O que ou quem Yannick Hara quer ser?

YH: Como artista eu busco viver plenamente da arte e o que a arte possa me proporcionar em sua totalidade e completude. Como ser humano busco o amor e ser livre.

MN: O que você espera que as pessoas que ouçam sintam e vejam em suas mentes?

YH: Espero que elas sintam, vejam o que elas quiserem em suas mentes. Ao ouvir a obra, essa obra não me pertence mais, proponho sempre aos ouvintes que se apropriem do trabalho e realizem suas próprias conclusões, reflexões, narrativas e conceitos . Para mim isso é arte, entregar e compartilhar o todo.

MN: O disco está em um canal, mas ele se pretende algo maior? Tem em mente ser produzido e distribuído como normalmente é feito – gravadora e tal – ou ele é militante nesse sentido de estar acessível de cara?

YH: O disco é totalmente acessível está disponível hoje no que o mercado dispõe, porém ele será também distribuído na forma de CD físico e em breve em vinil pela Unleashed Noise Records, selo e gravadora punk de São Paulo.

Link para ouvir o disco:


[1] Vangelis é um músico grego dos estilos neoclássico, progressivo, música eletrônica e ambiente. Suas composições mais conhecidas são o tema vencedor do Oscar de 1981, com o filme Chariots of Fire (Carruagens de Fogo no Brasil). Dados da Wikipedia.