Life: Love On The Line (ou Das impossibilidades amorosas)

Por Hugo Katsuo

[Contém Spoiler]

Em seu belíssimo trabalho intitulado Camões, Inês Dias, Esfinge: o homem como insuficiente resposta ao desejo da poesia e apresentado no colóquio Um dia de Camões 5, Nícolas Tadashi escreveu: “A poesia não é para os fracos. E os poemas talvez ensinem a morrer.”. Da mesma forma, acredito que talvez exista um cinema que nos ensine que tudo é instante e que a vida, de certa forma, é marcada por suas impossibilidades — impossibilidade, inclusive, da própria realização amorosa. É nessa direção que o filme Life: Love on The Line (Director’s Cut) (2020), dirigido por Ninomiya Takashi, pode nos levar, ainda que ele não radicalize essas mortes (simbólicas ou não) no seu percurso e que nele os fins não precisem ser, de fato, definitivos. Ao narrar a relação romântica entre Akira (Shirasu Jin) e Yuki (Raiku) desde os seus 17 anos até o fim de suas vidas —  relação que se inicia em um encontro marcado pelo acaso (ou não), passando pela excitação da juventude e as turbulências da vida adulta — o filme abre espaço para as morte, mas também (e não menos importante) para os regressos. 

Akira é um jovem rapaz que cresceu em um contexto familiar que o pressiona a seguir uma vida considerada normal e bem-sucedida na qual deve terminar a escola, ingressar na universidade, arranjar um bom emprego e, sobretudo, construir uma família. Ao mesmo tempo em que é considerado o filho exemplar, ele é obrigado a assistir às brigas entre sua mãe e sua irmã mais velha (Doi Shiori), devido ao fato de que esta última não correspondeu às expectativas maternas e decidiu viver da maneira que entendeu como correta – intensamente. Em meio a esse caos, Akira tem sua imaginação como um refúgio e, ao voltar da escola, sempre caminha sobre uma mesma linha, fantasiando que, caso pise fora dela, irá correr algum perigo. Um dia, retornando à casa, conhece Yuki — um menino sonhador que, coincidentemente, nutre o mesmo hábito de caminhar sobre aquela linha. Esse encontro repentino passa a se tornar cotidiano e os dois começam a desenvolver uma relação única confundido os sentimentos de Akira que, em um ato impulsivo, rouba um beijo de Yuki. 

A partir desse momento, os dois iniciam um namoro duradouro que, na vida adulta, começa a se desgastar culminando em um término no qual Akira abandona Yuki para seguir os desejos da mãe de construir uma família dentro dos moldes tradicionais, casando-se com uma mulher (Kojima Fujiko) que, desde a época do colégio, foi apaixonada por ele. Vivendo uma mentira, seu casamento termina em um divórcio e Akira encontra-se sozinho e arrependido por ter escolhido esse caminho até que, ao confrontar sua família e se assumir enquanto gay para defender sua irmã que escolheu se casar com um estrangeiro contra a vontade da mãe, ele decide procurar por Yuki. Quando fracassa em sua busca, Akira viaja para o Alaska — lugar que planejava visitar com seu ex-namorado — e lá o reencontra. O casal conversa e se reconcilia, conseguindo até a aprovação da família de modo que vivem juntos até o final de suas vidas. 

(Créditos: Viki)

Por mais que a pressão de uma sociedade heteronormativa tenha sido um fator fundamental para a decisão de Akira em terminar com Yuki, o grande “vilão” que permeia o desgaste do relacionamento entre os protagonistas não foi sua vontade de construir um futuro nos moldes heterossexuais para agradar sua mãe — o grande “vilão” que impede a realização amorosa é o trabalho e o ritmo capitalista da vida adulta. Em uma sequência do filme, Yuki desabafa sobre sua falta de perspectiva de futuro em relação a uma carreira profissional e Akira responde que sua meta é se tornar um adulto trabalhador porque, dessa forma, os dois poderão viver juntos para sempre. Ironicamente, logo em seguida, é ao entrarem na dinâmica de trabalho da vida adulta que o namoro começa a sofrer abalos: Yuki se revela infeliz com a carreira que escolheu enquanto Akira se mostra cada vez mais cansado com o ritmo de seu trabalho. As cenas amorosas que permeavam o início do filme vão se tornando cada vez mais escassas e acabam por perder espaço para uma rotina de trabalho na qual não há tempo para o amor.   

Em Life: Love On The Line, Akira e Yuki encontram-se de forma inesperada e, mesmo após se separarem, há um reencontro e um final feliz — mas se houve uma ruptura com a impossibilidade de realização amorosa, houve também uma tentativa de fugir da própria morte. No poema Troubador, Inês dias escreveu: “O único dia em que lá regressei sem ti/ foi como saber outra vez que ia morrer. (…) Era apenas questão de evitar o jardim/ do mesmo modo que pago para fugir/ à morte, escolhendo trajectos que me façam doer/ todos os músculos, excepto o do coração”. Quando Yuki, em uma das últimas sequências, revela ter tentado esquecer Akira de todas as formas possíveis e que viajou para o Alaska sozinho, ainda preso ao último plano que havia idealizado antes do rompimento, ele opta por um trajeto específico que o livra da aceitação da morte, fazendo “doer todos os músculos, excepto o do coração”. Mesmo trilhando percursos distintos, os dois se reencontram no regresso e aceitam, de uma maneira ou de outra, a morte — para que algo novo possa nascer. 

Recupero, novamente, Inês Dias agora em seu poema Adamastor: “Regressámos à praia,/ esgotada essa série de acidentes/ em que o menor foi o amor,/ ao contrário do que se previa. (…)// E escrevemos como vivemos,/ na espuma ou nos vidros embaciados/ da cidade, com a teimosa certeza de que/ nada ficará — nós não ficaremos”. E, ainda que o filme não radicalize as mortes, resta-nos aprender com os poemas — e com o cinema — a morrer.

Créditos: Viki

Ficha Técnica:


País: Japão | Direção: Ninomiya Takashi | Roteiristas: Tokokura Miya (autora do mangá) | Elenco: Shirasu Jin, Raiku, Kojima Fujiko, Doi Shiori | Duração: 113 min | Ano: 2020

Um homem e uma mulher – a família em crise e o amor impossível

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas e KoreaPost)

O conservadorismo da sociedade coreana é um prato cheio para o impulso criativo da indústria cinematográfica deste país. Talvez seja uma das razões que expliquem a existência de diversos filmes com histórias sobre amores impossíveis. “Um Homem e Uma Mulher” (2016), de Lee Yoon Ki, é mais uma produção que trata de um tema já retratado em outras obras ao redor do mundo, mas que continua polêmico: a paixão extraconjugal, ou, para muitos, a traição.

Contudo, a forma como Lee Yoon Ki desenvolveu o seu enredo não torna a abordagem da questão como algo clichê, do estilo “mais do mesmo”. A sensibilidade e a sutileza que percorrem toda a trama, dando um toque de cotidiano da vida real, auxiliam a conduzir o espectador ao universo de personagens tão parecidos aos indivíduos que encontramos no dia-a-dia. Todos nós podemos ter passado por uma situação semelhante, ou podemos conhecer alguém que tenha vivenciado algo parecido com o que Sang Min (Jeon Do Yeon) e Ki Hong (Gong Yoo) experimentaram.

Sendo sua primeira parte filmada em locações na Finlândia, durante o inverno, o filme conta com uma fotografia encantadora em seu início, que dialoga perfeitamente com os aspectos psicológicos que o diretor deseja transmitir. Da mesma forma, a trilha sonora também é um aspecto importante, tornando-se não um elemento a mais, mas uma peça essencial para indicar a intensidade dos sentimentos do casal que em instante sai de um estágio de recém conhecidos para o sexo casual.

Todos estes itens são uma complementação para a peça chave do filme que é a interpretação introspectiva e extremamente emocional que Jeon Do Yeon e Gong Yoo disponibilizam ao público. A química entre eles é vibrante, e mesmo Gong Yoo sendo bem mais novo que Jeon Do Yeon, eles equilibram-se de tal forma que nem esta diferença pode ser percebida. Ambos são ótimos atores, muito expressivos e que normalmente conseguem dar a carga emocional adequada para seus diferentes trabalhos no cinema.

Ela, nesta história, vive Sang Min, uma mulher casada que está na Finlândia para acompanhar o filho autista, matriculado em uma escola especial para alunos que apresentam tal condição. O vínculo entre mãe e filho é muito forte, ao ponto de tornar-se um pouco doentio. Um exemplo desta condição ocorre quando Sang Min permite que o filho participe de um passeio na escola, mas permanece preocupada se ele ficará bem. Assim, ela chega ao ponto de pedir aos coordenadores da instituição que a deixem participar da viagem. Obviamente, ela é persuadida a deixar o filho sob os cuidados da escola. Desta forma, um pouco contrariada ela afasta-se, andando um pouco sem rumo, e encontra Ki Hong, um arquiteto coreano que está na Finlândia a trabalho e cuja filha, que sofre de depressão profunda, também estuda na mesma escola.

Ela pede um cigarro a ele e que a leve até o local do acampamento. Após ver onde o filho estava, Sang Min decide voltar, mas uma nevasca bloqueia a estrada, fazendo com que ambos tenham de passar a noite em um hotel. A sequência de acontecimentos nesta parte do filme é bastante interessante, pois é possível sentir a atração de ambos despertando aos poucos, através de fatos extremamente banais, como jantar e socializar.

Crédito:  Han Cinema.

O ápice deste “encontro” ocorre quando eles, no dia seguinte, em um passeio antes de seguirem viagem, encontram uma sauna finlandesa, no meio da floresta, onde param para descansar e acabam transando. As cenas íntimas também são interessantes, pois apresentam muita sensualidade, não possuindo nudez, nem sexo gratuitos, ou que vise apenas atrair, ou chocar o espectador. Todas as tomadas dos corpos dos atores estão em consonância com o romantismo e a delicadeza destes dois personagens que parecem poder viver uma certa liberdade, e uma certa felicidade no exterior que não é possível em seu país de origem, local onde se passa a segunda parte da história.

Após uma despedida fria de Sang Min na Finlândia, vamos saber mais sobre ela e sua vida cotidiana na Coreia do Sul. Trata-se de uma outra pessoa. Uma profissional bem-sucedida, nada frágil, que organiza espaços para eventos e lojas de moda. Contudo, sua relação com o marido é fria, já que ele não se mostra nem um pouco carinhoso, ou atencioso com ela e o filho. Ki Hong, por sua vez, também tem sérios problemas com sua esposa, uma pessoa emocionalmente muito instável, o que nos leva a compreender um pouco do porquê de ele visivelmente não ser uma pessoa feliz e decidir reencontrar Sang Min. O filme percorre toda esta problemática que os personagens constantemente perguntam-se: devemos seguir em frente, ou sacrificar a relação pela família?

A resposta é fornecida no desfecho do filme, de forma simples e sutil, praticamente sem diálogos e com alta carga dramática. Trata-se de uma obra cinematográfica que, na realidade, também está lidando com questões de família, as “prisões” que elas acabam tornando-se para os personagens principais e como esta instituição social encontra-se em crise, ou pode permanecer em constante estado crítico, a ponto de desmoronar. Em outras palavras – não existem pessoas perfeitas, como amam apresentar os comerciais de margarina…

Crédito: Han cinema.

Poderiam os filhos de Sang Min e Ki Hong terem uma vida melhor, se ambos decidissem ficar juntos? Às vezes, não é possível ter tudo nesta vida, em razão de algumas das muitas responsabilidades que nos são impostas ao longo de nossa trajetória. A exemplo do que demonstra este filme, crianças com problemas de saúde e conjugues com uma estrutura psicológica e emocional frágil acabam por induzir escolhas conservadoras, porém compreensíveis.

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Lee Yoon-Ki | Roteirista: Lee Yoon-ki, Sin Eun-yeong | Elenco: Jeon Do-yeon, Gong Yoo e Bang Jun-seok | Duração: 55 min | Ano: 2016

“Um destino forjado pelo céu: A História de Hong Gildong”, o ensaio vencedor do VI Concurso de Literatura Coreana

Capa do livro “A História de Hong Gildong”, de Heo Gyun, com tradução e notas de Yun Jung Im (Estação Liberdade, 2020). Fonte da imagem: Editora Estação Liberdade.

Um destino forjado pelo céu: A História de Hong Gildong

Por Claudia Bitti Leal Vieira

Resumo: A presente resenha da obra A História de Hong Gildong (Heo Gyun, trad. Yun Jung Im, Editora Estação Liberdade, 2020) objetiva descrevê-la para um público não familiarizado com a produção cultural sul-coreana, refletindo criticamente sobre o enredo. Ademais, busca contextualizar sua importância cultural e histórica na Coreia, bem como discorrer, brevemente, acerca das controvérsias que cercam o texto. Ressalta-se o status de clássico da obra, bem como a importância de sua leitura para os que desejam conhecer mais a fundo a cultura coreana.

Um dos aspectos mais interessantes da chamada “Onda Coreana” ou “Hallyu” – a crescente popularidade dos produtos culturais coreanos em diversas regiões do mundo – é a difusão da literatura coreana. Antes praticamente desconhecida no Ocidente, na última década a produção literária da Coreia tornou-se parte inescapável do panorama cultural contemporâneo. Publicações recentes figuram nas listas de mais vendidos e ganham prêmios literários; autores coreanos são aclamados nos mais distintos gêneros, desde a ficção literária à literatura infantil, passando por horror e ficção científica.

Diante do sucesso da produção literária contemporânea sul-coreana, é natural que tenha surgido um interesse de editoras estrangeiras também pela literatura clássica do país. Isso é boa notícia para quem deseja conhecer outras facetas do país asiático. Afinal, nem só de modernidade vive a Coreia: é uma terra de longa história e antigas tradições.

Em 2016, o selo Penguin Classics publicou A História de Hong Gildong em inglês, com tradução e introdução do historiador Minsoo Kang; a primeira vez que uma obra coreana era incluída na lista de clássicos mais famosa do mundo. A tradução da Penguin é a da versão manuscrita (pilsaKim Donguk 89, a mais longa entre as 34 versões sobreviventes do clássico, que se diferenciam em tamanho, estilo e detalhes como nomes das personagens.

O estadista Heo Gyun (1569-1618), tradicionalmente considerado o autor de “A História de Hong Gildong”. Fonte da imagem: BBS News.

Agora, A História de Hong Gildong chega a prateleiras brasileiras graças à editora Estação Liberdade, com tradução e introdução de Yun Jung Im, professora do Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo. A versão é a wanpan 36, texto impresso produzido em Wanju (atual Jeonju), com 36 folhas.

Que Hong Gildong tenha sido o primeiro clássico coreano a “ganhar o mundo” não é surpreendente. Considerada a mais importante obra clássica de ficção em prosa da Coreia, tradicionalmente é atribuída ao nobre estadista Heo Gyun (1569-1618) e caracterizada como um texto antifeudalista, de matizes revolucionárias. O livro teria sido também o primeiro escrito em hangeul, o alfabeto coreano, criado pelo rei Sejong, o Grande e mais acessível para a população que os ideogramas chineses. Recentes pesquisas, porém, rejeitam essas premissas. A principal diferença entre as versões da Estação Liberdade e da Penguin Classics, aliás, reside nas posições que os respectivos tradutores adotam. Yun Jung Im defende o campo tradicionalista com detalhadas anotações sobre a obra e o autor, reafirmando a importância da obra como artefato literário de meados da dinastia Joseon, escrito por um ministro idealista e igualitário. Já Minsoo Kang está entre os pesquisadores que afirmam que é mais provável que A História de Hong Gildong tenha sido escrita no final do século XIX (portanto, alguns séculos mais tarde do que geralmente aceito), por um autor desconhecido ou anônimo, não como texto político ou ideológico, mas como entretenimento para as massas. Ademais, teria sido escrito em hangeul, mas não seria pioneiro. Além de defender suas conclusões resumidamente na introdução para a Penguin, publicou o livro Invincible and Righteous Outlaw: the Korean Hero Hong Gildong (2018, University of Hawaii Press).

The Story of Hong Gildong | Amazon.com.br
Versão em inglês lançada pela Penguin Classics e traduzida por Minsoo Kang. Fonte da imagem: Amazon.

É fato que existem estudiosos respeitados em ambos os lados da contenda literária. O leitor só tem a ganhar se desejar se aprofundar na estimulante controvérsia histórica, que envolve até mesmo a biografia de Heo Gyun e a trama palaciana que levou à sua execução (um complô digno de Game of Thrones), e quem teria sido o verdadeiro Hong Gildong. De qualquer modo, nada disso diminui a estatura do clássico, e é inegável que grande parte de sua relevância reside também na persistência de seu enredo e personagens no imaginário coletivo coreano.

Situada durante a dinastia Joseon (1392-1897), a história de Hong Gildong começa com sua concepção. O ministro Hong Mun tem um sonho auspicioso e busca conceber um filho com sua esposa, mas, como ela se recusa a deitar-se com ele, o frustrado ministro então satisfaz seu desejo com uma jovem criada, Chun Sim (nota-se certa ambiguidade textual ou talvez ironia autoral quanto à caracterização do nobre ministro: elogiado como “um verdadeiro herói moral de seu tempo”, uma de suas primeiras atitudes na história é violar a criada). Consciente do seu limitado horizonte de possibilidades como membro de classe inferior, Chun Sim se submete. O ministro Hong, impressionado com a discrição da serva, a eleva para o posto de sua concubina, e ela se torna mãe do menino Hong Gildong. 

Ilustração de Shin Dong-wu, autor dos quadrinhos “Hong Gildong, o Herói”, cuja publicação se iniciou em 1965. O visual criado pelo artista para a personagem, com o colete azul, pequeno chapéu amarelo, mangas arregaçadas e uma espada na cintura, tornou-se icônico. Fonte da imagem: Asian American Writers’ Workshop.

Apesar de naturalmente talentoso, o menino Gildong, por ser filho de uma concubina e, consequentemente, ter status secundário na sociedade, cresce se lamentando por saber que nunca poderá se dedicar aos dois caminhos de prestígio abertos aos varões de nascimento nobre (yangban): o serviço público ou o militar. Sua outra grande tristeza é a de nunca poder chamar a seu próprio pai de Pai, nem a seu irmão (legítimo) de Irmão, pelo costume da época.

Os muitos dotes de Gildong despertam a inveja da concubina sênior, Chonang, que não tem filhos. Ela conspira para causar a morte do jovem. Em uma das passagens mais interessantes do livro, uma adivinha a serviço de Chonang se dirige ao ministro Hong e finge que viu em Gildong a face de um rei, alertando que se o menino fracassar em suas ambições, será a causa de grandes infortúnios. Naquela época, a traição ao rei poderia ser punida com o extermínio de três gerações da família. Como, oficialmente, Gildong nunca poderia exercer suas ambições, o ministro pensa exatamente como sua concubina esperava, e considera que o melhor seria que seu filho morresse, para evitar uma tragédia maior na família. Mais uma vez notamos certa ironia autoral em relação ao ministro, tão elogiado como capaz e erudito, caindo facilmente em uma artimanha combinada por mulheres das mais baixas origens. Ainda melhor, a profecia fajuta acerta, pois a eventual rebeldia de Gildong, derivada dos obstáculos a suas ambições legítimas, de fato traz sofrimentos para a família (ainda que de forma temporária), e afinal ele se torna, incrivelmente, um rei.

Pôster do filme de animação “A História de Hong Gildong”, de Shin Dong-heon (1967), com roteiro de seu irmão Shin Dong-wu. Este foi o primeiro longa-metragem de animação da Coreia. Fonte da imagem: Asian American Writers’ Workshop.

Como Laio em Édipo Rei, o ministro, temeroso, busca impedir a concretização da profecia, e acaba por criar melhores condições para que ela venha a fruição. Sem coragem de ordenar a morte do filho ilegítimo, obriga o jovem Gildong a viver isolado em um anexo e o proíbe de sair da propriedade. Com tanto tempo livre e nenhuma distração, o menino se dedica a estudos esotéricos e às artes marciais, chegando a dominar poderes sobrenaturais e controlar os elementos. Tão mágico quanto Harry Potter, mais poderoso que o Super-Homem (pois, ao contrário deste, Gildong não possui uma fraqueza), e com a mente militar de um César, Hong Gildong se torna invencível. Logo se vê por que Hong Gildong hoje é visto como um símbolo da masculinidade perfeita na Coreia.

Após Chonang contratar um assassino, com a concordância da esposa do ministro e de seu filho legítimo, Gildong derrota os conspiradores. Seu pai lhe concede a graça de chamá-lo de Pai, mas Gildong, consciente da precariedade de sua situação, deixa a casa paterna. Em sua nova vida, torna-se o líder de um bando de foras da lei, lamentando, ainda, o fato de não poder ter uma carreira legítima e honrada servindo ao rei. Daqui advêm as comparações com Robin Hood, pois o bando de Gildong rouba de ricos para dar aos pobres, e pune oficiais corruptos que infernizam a vida da população humilde. Adaptações modernas da história costumam aumentar ou sanitizar as ações de Gildong com seu bando, e mesmo a tardia versão wanpan 36 busca justificar o saque de um tempo budista, ocasião em que os monges são enganados e amarrados, com uma adição ao texto, uma longa passagem antibudista, possível referência à repressão do budismo durante o período Joseon, quando prevaleceu o neo-confucionismo. Nas versões pilsa e gyeongpan da história, não há qualquer justificativa para o crime; as ações de Hong Gildong são menos evidentemente “puras”.

Muitos são os feitos de Gildong, de forma que logo sua reputação chega aos ouvidos do rei. A família de Gildong inevitavelmente sofre com a punição real: o ministro Hong, idoso, é preso, e a família tem a grande vergonha de ser relacionada a um fora da lei. Porém, o rei age com benevolência e lhes oferece uma chance, desde que o irmão legítimo de Gildong o prenda. Gildong se deixa capturar, apenas para demonstrar espetacularmente que força humana nenhuma pode detê-lo. Suplica ao rei que o nomeie ministro da guerra, mas quando, milagrosamente, alcança esta grande ambição, imediatamente rejeita o convite e anuncia que partirá do reino para sempre. O que explica a repentina mudança de ideia do jovem herói? Talvez fosse apenas um desejo de provar que poderia conseguir o cargo; talvez o mero posto de ministro fosse realmente pouco para quem tem o poder de invocar divindades para cumprir seu comando.

Imagem do filme norte-coreano “Hong Kil-dong” (1986). O filme foi distribuído em países comunistas, como Cuba e Angola. Nele, Hong Kil-dong (de branco) luta contra ninjas japoneses invasores.

Juntamente com seu bando, vai viver em uma ilha. No caminho, luta contra monstros e assim conquista não só uma bela esposa, como duas concubinas, que eram reféns das criaturas. Após alguns anos de prosperidade, o talvez já não tão benevolente Gildong decide exercitar seu poderio militar para subjugar um outro reino, próspero e pacífico. A vitória do mais forte, Hong argumenta com lógica quase darwiniana em carta exigindo a rendição do rei legítimo, é nada menos que “o mando do céu”. Não deixa de ser irônico que a história de Hong Gildong hoje simbolize tão fortemente a rebelião dos oprimidos contra os fortes em um país que já foi colonizado como a Coreia, quando a história louva a tomada de um reino independente. E assim, Hong Gildong, de menino de status secundário, torna-se rei. Décadas depois, já em idade avançada, transfere a regência para seu filho legítimo mais velho, e ascende aos céus com sua esposa, tornando-se uma divindade.

A História de Hong Gildong possui forte apelo simbólico e grande popularidade na Coreia (aqui nos referimos às duas Coreias, pois a história data de muito antes da divisão da península), principalmente pelo seu tema de talento pessoal que eleva a grandes posições um indivíduo oprimido por uma sociedade que lhe desfavorece. A ideia de um jovem herói que pune opressores e auxilia os humildes também é muito atraente para um povo que foi dominado em diferentes eras. É a parte da história que mais recebe destaque nas muitas “reencarnações” em filmes, séries de televisão, quadrinhos, etc, e os “vilões” podem ser facilmente modificados de funcionários públicos corruptos ou nobres opressores para japoneses colonizadores e mesmo grandes empresários corruptos, dependendo do zeitgeist.

Material promocional do drama “Hong Gildong, the Hero” (KBS, 2008). Adaptação feita com o público Hallyu em mente, o drama inclui deliberadamente elementos modernos (de penteados estilosos e óculos escuros a K-pop) como forma de atualização da história. Fonte da imagem: Viki.

É interessante verificar, entretanto, que o Hong Gildong textual é um herói com mais zonas cinzentas do que a versão simplificada que é mais conhecida. Que ele considera as leis de Joseon injustas no tocante a ele próprio, por obstaculizarem sua devoção filial e ascensão social, é certo. Embora muitos atribuam à personagem zelo reformista ou revolucionário, essa leitura não é evidente, uma vez que em nenhum momento ele peleja para transformar o sistema, as leis, no que se aplicam à sociedade em geral. Sua temporada causando caos no reino com seu bando pode ser interpretada como uma forma de chamar a atenção do rei para suas habilidades. Sua atitude em invadir e colonizar um reino pacífico, com governantes justos, é frequentemente vista como a criação de uma utopia, mas, longe de criar uma sociedade em novos moldes, sem discriminação de status, Hong simplesmente replica a sociedade hierárquica de Joseon, desta vez com ele no topo. As diferentes leituras a que o texto dá azo até os dias de hoje são parte do que o faz um clássico.

Conhecer a literatura clássica de um país é uma das melhores formas de entrar em contato com o núcleo de sua cultura compartilhada. Se um clássico é “um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, nas palavras de Italo Calvino, nada mais apto para descrever A história de Hong Gildong, que atravessou os séculos na Coreia divertindo e inspirando. Enquanto houver a aspiração por uma sociedade mais justa e o sonho de um herói que aja com bravura para proteger os oprimidos, a lenda de Hong Gildong permanecerá viva.

Ensaio por Claudia Vieira

O MidiÁsia agradece a disponibilidade da autora em conceder o texto para publicação, assim como a professora Yun Jung Im que confiou no nosso site para ser um espaço de extensão do VI Concurso de Literatura Coreana.

Para saber mais sobre a autora do ensaio e o VI Concurso de Literatura Coreana, acesse aqui a notícia no MidiÁsia.

“Mãe”: vingança e busca por justiça em uma Índia tolerante com a cultura do estupro

Por Alessandra Scangarelli (Via InterTelas)

É uma inverdade afirmar que todas as mulheres podem ser mães. Da mesma forma, também não é uma realidade que os laços profundos entre mães e filhos são possíveis apenas entre os que compartilham uma origem consanguinea. O chamado amor incondicional é para poucos, fazendo com que os que nutrem por alguém tamanho e complexo sentimento, sejam capazes de tudo. Aos que se encontram em tal situação, é simplesmente insuportável ver o sofrimento e a injustiça ser perpetuada àqueles que amam e podem, sim, chegar a cometer atos extremos, no intuito de proteger, ou restaurar a honra e a vida de seus amados.

O filme “Mãe” (2017), dirigido por Ravi Udyawar traz esta questão como a energia impulsionadora de sua trama. Apresenta a crueldade de uma Índia, cuja sociedade e sistema jurídico permanecem tolerantes ao crime de estupro e à violência de gênero. Assim, em um contexto injusto e desigual, só restam às reais mães tomar certas atitudes e fazer justiça com as próprias mãos. Trata-se de um real levantar-se contra o mal maior, mesmo que isso seja utilizar de métodos considerados moralmente errados.

Baseado no roteiro escrito por Girish Kohli e produzido por Sunil ManchandaMukesh TalrejaNaresh Agarwal e Gautam Jain, este suspense policial foi estrelado pela já falecida Sridevi, atriz e produtora indiana, conhecida como a primeira superestrela da indústria cinematográfica da Índia, ganhadora e indicada a muitos prêmios nacionais. Uma grande artista que ficou conhecida por interpretar mulheres fortes, dispostas a enfrentar situações desafiadoras. Neste filme, a personagem de Sridevi persegue os estupradores de sua enteada Aarya Sabarwal, vivida pela atriz paquistanesa Sajal Ali.

Crédito: Netflix.

A obra também conta com a presença de nomes como Nawazuddin SiddiquiAkshaye Khanna e o ator paquistanês Adnan Siddiqui em papéis coadjuvantes. Lançado em 7 de julho de 2017, em quatro idiomas, a produção tornou-se um sucesso de crítica e comercial, recebendo dois prêmios no 65º National Film Awards e seis indicações no 63º Filmfare Awards. O filme ganhou certa audiência mundial, em especial na China. Entre as diversas razões para o seu sucesso pode-se destacar um enredo bem construído que consegue abordar uma temática delicada sem ativismos, mas de forma envolvente, realista, sem moralismos e, assim, torna-se uma poderosa ferramenta para impulsionar reflexão e impacto no público sobre um problema tão urgente.

Já nos primeiros momentos, o espectador conhece a professora de biologia Devki Sabarwal, uma figura caridosa e popular entre seus alunos. De imeadiato ela precisa lidar com alunos problemático como Mohit Chadda (Adarsh Gourav) que envia à enteada Aarya Sabarwal(Sajal Ali) e aos colegas um vídeo ofensivo. A professora não pensa duas vezes e joga o telefone do rapaz pela janela. Logo após, é possível conhecer o ambiente descontraído da casa de Devki. Porém, apesar de sua insistência em abordar carinhosamente à enteada, esta permanece fria e distante, rejeitando uma aproximação com a madastra, tentando preservar a memória da mãe, suposta falecida, ainda muito recente.

Uma festa do dia dos namorados ocorre em uma fazenda distante e Aarya tenta persuadir Devki e o pai Anand Sabarwal (Adnan Siddiqui) de que o local é seguro, convencendo o casal hesitante a permitir a sua saída. Durante o evento, Aarya encontra seus colegas de aula abusadores e, particularmente, rejeita as investidas de Mohit e do primo dele Charles Deewan (Vikas Verma). Estes, inconformados, resolvem, junto com o criminoso Jagan Singh(Abhimanyu Singh) e o segurança da casa da fazenda Babu Ram Yadav (Pitobash Tripathy), sequestrar Aarya. Assim, estupram brutalmente a menina e jogam seu corpo em um córreo à beira de uma estrada, quase sem vida. Devki, assim que percebe a demora da enteada em ar notícias, vai ao seu encontro, porém sua busca é em vão.

Crédito: India TV News.

Logo, a madrasta recorre à polícia, porém policiais descrentes em suas afirmações apenas contribuem para o seu desespero. Neste meio tempo, Daya Shankar “DK” Kapoor(Nawazuddin Siddiqui), detetive particular, a observa e decide abordá-la, oferecendo ajuda e entregando o seu cartão de visita, mas Devki suspeita dele. O tempo passa e já é dia quando Aarya é encontrada e levada para o hospital em estado deplorável. Ao recuperar a consciência, a jovem denuncia seus agressores ao policial Matthew Francis (Akshaye Khanna) que inicia uma busca e prende os criminosos.

No julgamento, uma corte comprada diz não haver provas suficientes e os réus são inocentados. Devki e Anand estão arrasados. Aarya entra em depressão. Sem ter outra solução, a madastra busca auxílio com o detetive DK. Juntos, eles iniciam uma caçada impiedosa aos culpados, ao mesmo tempo, que são observados pelo policial e oficial Francis, também obstinado a fazer com que a lei seja cumprida.

A interação entre a professora, o detetive particular e o policial promove transformações chaves no enredo da trama, criando momentos de suspense, ação, introspecção, que crescem no enredo com o auxílio de atuações memoráveis. Especialmente os olhares vão para Sridevi, que presenteia o espectador com uma interpretação sóbria e repleta de nuances, onde se testemunha a mudança paulatina de uma simples professora e dona de casa em uma obstinada, calculista, fria e atroz justiceira, porém não menos amorosa, capaz de sentir com a mesma intensidade a dor e o sofrimento da enteada.

Crédito: Mango Bollywood.

“Mãe” suscita reflexões, questionamentos, em sua narrativa bem construída, sem procurar por soluções exageradas aos acontecimentos. Desta forma, o espectador tem o desenvolver de uma história crível, que fluí com toques característicos e típicos do cinema indiano. Apesar de se tratar de ficção, a trama é bastante caucada na realidade de uma Índia que teve, somente no ano de 2019, 88 estupros registrados diariamente, conforme o National Crime Records Bureau, agência do governo responsável por coletar dados de crimes como estipulado pelo código penal indiano.

É preciso ainda salientar as falas impactantes da trama, como a que acontece entre Devki e DK em uma estação de metrô. Pensativo e cheio de dúvidas sobre a natureza de suas ações, se o que ambos estão fazendo é certo, professora replica: “É errado, mas pior ainda é não fazer nada. Se tiver de escolher entre o errado e o muito errado, qual escolherá?“.

DK não responde e segue com o plano. Quando está para ir embora, DK pede à Devki que confie no poder do Deus Shiva, pois ele tudo resolverá. Devki retruca dizendo que o Deus Shiva não pode estar em todos os lugares. Assim, DK é tácito em sua tréplica: “Eu sei, por isso ele criou as mães“. “Mãe” é um filme poderoso e que pode, agora, ser assistido no Brasil através da plataforma Netflix.

Crédito: divulgação.

Ficha Técnica:

País: Índia | Diretor: Ravi Udyawar | Roteirista: Kona Venkat, Girish Kohli, Ravi Udyawar | Elenco: Sridevi, Akshaye Khanna, Sajal Ali | Ano: 2017 | Duração: 2h26min

Bungee Jumping of their own: as diversas faces de almas gêmeas

Por Mayara Araujo

Até que ponto iríamos para estar com a nossa alma gêmea? Será que o amor pode ser um sentimento que ultrapasse as barreiras do corpo físico? O quanto estamos dispostos a arriscar para estar com a pessoa amada? Essas e outras importantes questões são introduzidas na mente do espectador na obra Bungee Jumping of their own, longa lançado em 2001, do diretor Kim Dae-Sung. O filme poderia recorrer aos clichês do gênero melodrama, mas acaba por trilhar caminhos mais obscuros ao enfrentar os tabus sociais a respeito da homossexualidade na Coreia do Sul.

O enredo parece simples: In-woo (Lee Byung-hun) e Tae-hee (Lee Eun-ju) acabaram de entrar na faculdade e ambos não acreditam na ideia de amor à primeira vista. No entanto, acabam se apaixonando dessa forma e se envolvendo em uma relação profunda e verdadeira que pareceria ser capaz de durar para sempre. No experienciar da juventude do casal, eles prometem selar esse amor eterno com um salto de bungee jump em um famoso pico da Nova Zelândia. Enquanto isso, nós, como espectadores, também somos levados a acreditar que esse amor – comum e heterossexual – sobreviveria às mazelas do tempo e poderia se tornar duradouro.

Acontece que sem nenhuma espécie de aviso prévio para o público, somos transportados até o futuro. Dezessete anos mais tarde, nos encontramos mais uma vez com In-woo, agora mais velho, formado e professor de uma escola de ensino médio. Ele tem uma filha ainda pequena e está casado – com uma mulher que não é Tae-hee. 

Crédito: theeast.org

Essa nova realidade nos leva inevitavelmente ao seguinte questionamento: o que aconteceu com Tae-hee? Rapidamente, a narrativa do filme tenta nos ajudar a respondê-la, quando um dos estudantes de In-woo, Im Hyun-bin (Yeo Hyun-soo), indaga o professor sobre o seu primeiro amor. Com as memórias ainda vívidas, In-woo percebe que ainda tem sentimentos por Tae-hee, mesmo depois de tantos anos, e passa a investigar o paradeiro de sua amada. Renasce, assim, a sutil esperança de reencontrá-la.

A partir desse ponto que a graça e as nuances do filme de Kim Dae-seung se apresentam sob o desenrolar de um estranho mistério que, por vezes, poderia até mesmo ser considerado sobrenatural. Na medida em que a trama se desenvolve, estranhas situações envolvendo o estudante Im Hyun-bin, de dezessete anos, acontecem. Itens outrora pertencentes à Tae-hee reaparecem nas mãos do rapaz. Observar essas inusitadas situações, impotente e sem entender o que está acontecendo, vai levando In-woo ao limite do bem-estar emocional e da confusão mental.

Afinal, quem é o jovem Hyun-bin e por que ele parece estar diretamente conectado ao seu professor? Nesse momento, Hyun-bin também parece estar sendo levado para uma trama que ele não entende, a partir do descobrir de seus próprios sentimentos. Assim, o rapaz encerra o seu relacionamento com sua namorada de outra classe e, cada vez mais, se vê envolvido com In-woo, mesmo sem entender as razões e tendo que lidar com o desconforto da desconfiança e olhares jocosos advindos dos colegas de classe e do corpo docente.

Crédito: Buena Vista International Korea

Por outro lado, In-woo passa a questionar a própria vida. Ele ainda amava sua esposa? Ou melhor, ele ainda a desejava? O que estaria havendo, afinal, com a sua própria identidade sexual? Desesperado, In-woo chega até mesmo a buscar ajuda médica no intuito de descobrir se existe algum desvio. É nesse ínterim que o filme apresenta a sua verdadeira face: aquela que lida e desafia os preconceitos com a comunidade LGBT na Coreia do Sul. Para além do drama e do romance existentes na trama, sua verdadeira mensagem diz respeito a uma contundente crítica social à discriminação que permeia as diversas camadas da sociedade sul-coreana. 

Cabe aqui ressaltar que a Coreia do Sul é um dos países que nem sequer reconhece casamentos ou união estável de pessoas do mesmo gênero. Em 2014, alguns membros do Partido Democrata chegaram a apresentar à Assembleia Nacional um projeto de lei que legalizaria o relacionamento LGBT, no entanto, isso nem sequer foi levado a votação até os dias atuais. O máximo da conquista dessa comunidade aconteceu em 2019, quando o governo sul-coreano anunciou que reconheceria cônjuges do mesmo gênero de diplomatas estrangeiros que fossem para a Coreia do Sul, mas que não reconheceria o casamento entre diplomatas homossexuais sul-coreanos, ainda que residam e trabalhem no exterior.

Após a situação se tornar caótica e repleta de rechaços, In-woo é finalmente demitido da instituição. Confuso sobre a situação, ele decide ir embora para a Nova Zelândia para realizar o sonho que construiu com sua amada Tae-hee. Imediatamente em seguida, ele é acompanhado pelo estudante Hyun-bin até a estação de trem, onde sua verdadeira face finalmente se revela. No reflexo do trem, vemos a imagem de Tae-hee se aproximando de In-woo. 

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Crédito: gayhf.com

De volta ao passado, o paradeiro de Tae-hee é revelado. Em uma noite, indo ao encontro de In-woo, Tae-hee sofre um terrível acidente e morre no ato. Dezessete anos mais tarde, em um lindo e sensível diálogo entre Tae-hee, agora no corpo de Hyun-bin, e In-woo o mistério é resolvido. “Eu demorei muito para chegar”, diz Hyun-bin. “Você chegou no momento certo”, responde In-woo. Assim, os dois se encaminham para o destino final na Nova Zelândia.

Ao término do filme, In-woo e Tae-hee vivendo sob a carcaça de Hyun-bin, cometem o seu ato dramático de amor final, ao pularem sem nenhum equipamento de Bungee Jump. Agora, quem se comunica são apenas almas que vagam sobre um riacho: “eu prometo voltar mulher na próxima vida”, diz Tae-hee. “E se eu voltar mulher também?”, Indaga In-woo. “A gente tenta de novo”, responde. 

Crédito:  moviefit.me

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Kim Dae Seung | Roteiristas: Ko Eun Nim | Elenco: Lee Byung Hun, Yeo Hyeon Soo, Lee Eun Ju, Hong Su Hyeon, Jeon Mi Seon, Chang Suk Won | Duração: 100 min | Ano: 2001

A crítica poética em “Eungyo – A Musa”, de Jung Ji Woo

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas / KoreaPost)

Atualmente é difícil encontrar produções cinematográficas coreanas que tenham uma conexão com a literatura, no que diz respeito a sua trama e os demais elementos de um filme como a fotografia, figurino e locações. “Eungyo – A Musa”, do diretor e roteirista Jung Ji Woo, baseado no romance de Park Bum Shin, lançado em 2012, é um exemplo de um filme que discorre sua narrativa, e até sua mensagem, de forma poética; quem sabe até visando tornar-se uma poesia.

Junto a esta beleza cinematográfica/literária, temos uma crítica à atual sociedade movida pela tecnologia e todas as facilidades que ela proporciona. Esta mesma que faz questão de criar uma juventude sequiosa por fama e sucesso, fazendo o que tiver de ser feito para alcança-los. Afinal, ser famoso e bem-sucedido é sinônimo de status e respeito, que devem ser obtidos sem grande esforço e à “toque de caixa”. Desta forma, pode-se resumir as ambições que traçam as características negativas do jovem do início do século XXI.

A criação e a inspiração genuínas já fazem parte de um passado não muito longínquo, onde estas podiam existir, pois tinham artistas, escritores e etc. que basearam suas vidas perseguindo-as, no intuito de criar uma nova obra prima. Hoje tudo se copia, como também se rouba, no objetivo de se chegar a condição de grande escritor de forma rápida, como muito bem é apresentado em mais esta produção coreana.

Crédito: AsianWiki

“Eungyo – A Musa”, como todo bom filme sul-coreano, não foge de uma temática polêmica e apresenta um triangulo amoroso entre um escritor idoso e famoso, de 70 anos, Lee Juk Yo (Park Hae Il), uma jovem (sua musa e inspiração) de 17 anos Han Eungyo (Kim Go Eun) e seu jovem discípulo/assistente Seo Ji Woo (Kim Moo Yul). No entanto, este amor proibido serve apenas de fachada para as verdadeiras intenções do diretor. Em uma época repleta de guardiões da boa moral e dos bons costumes, é importante frisar que apenas focar sua atenção na pretensa imoralidade desta “relação” pode-se perder a essência de um filme que tem muito a dizer e promove diversos momentos cinematográficos inesquecíveis.

Nosso trio romântico é formado por indivíduos extremamente solitários e, provavelmente, carentes. O escritor Lee Juk Yo, imerso em uma vida enfadonha, morando em uma casa distante dos grandes centros urbanos, tem a companhia do seu aprendiz Seo Ji Woo. Este é um aspirante a escritor, formado em engenharia, sem talento algum para a escrita. Ele se dedica inteiramente ao seu mestre, a quem diz considerar como pai, mas, logo se percebe, que o tutor não passa de uma fonte de criação, em que o jovem busca absorver todo o talento que lhe falta e finalmente lançar-se à fama.

Ele assim consegue, já que seu mestre concorda em ser um escritor fantasma para a obra que terá grande reconhecimento e torna conhecido o nome de Seo Ji Woo. O verdadeiro autor não se importa e espera que seu discípulo possa, depois desta primeira “conquista”, seguir sozinho e criar suas próprias histórias. É interessante perceber que o aprendiz nunca retribui todo o esforço do mestre, inclusive contribui para a condição de peça antiga, pertencente ao passado que a sociedade quer impor-lhe, e que o tutor tanto odeia.

Crédito: divulgação

É ele que auxilia um grupo a conseguir uma reunião com seu mentor para construírem um museu sobre sua vida. Obviamente que a oferta é recusada e com uma fala, o personagem deixa explicito que nunca tinha visto um museu ser construído para pessoas ainda vivas.

Um dia a jovem Han Eungyo aparece do nada na casa de Lee Juk Yo, e é contratada pelo assistente para limpar a casa do escritor. Ela visivelmente é uma típica musa Lolita, que, de primeira, conquista os sentimentos do mestre, tornando-se a sua inspiração para elaborar uma obra prima. Um conto poético, em que o escritor idoso busca retornar à juventude perdida e viver um amor não proibido com Eungyo.

Na figura dela, o grande escritor deposita toda uma fantasia de pureza e inocência. Tais características estão representadas através das vestimentas que a personagem feminina usa ao longo do filme, que vão de tons claros a brancos; além de uma fotografia onde a luz sempre incide sobre ela, dando-lhe um aspecto, em alguns momentos, de figura sagrada, de uma jovem intocada. A forte relação estabelecida entre ela e o escritor, cujo grau de intimidade vai aumentando aos poucos, leva o discípulo a criar um sentimento de apreensão e raiva por Eungyo.

Crédito: divulgação

As passagens íntimas entre o escritor idoso e a menina dão-se através de enquadramentos de câmera que revelam detalhes, como o momento em que Lee Juk Yo olha dentro de suas cobertas e a encontra dormindo, encostada em suas coxas. São duas figuras extremamente solitárias e que desejam intensamente convivência e carinho. As ótimas interpretações dos três atores transmitem muito bem estes sentimentos de sentir-se só e de tristeza. Kim Go-eun foi bastante premiada por este trabalho, fazendo de “Eungyo- A Musa”, o filme que impulsionou a sua carreira e a tornou uma atriz digna de produções intelectualmente mais sofisticadas.

Seo Ji Woo encontra o conto no baú de madeira do escritor e publica-o em seu nome. Com isso, ele acaba conquistando o grande prêmio literário da Coreia e provoca a ira de Lee Juk Yo. Finalmente o mestre consegue enxergar o discípulo como ele realmente é: um parasita. Assim, Seo Ji Woo é proibido de conviver com o escritor, mas em seguida é perdoado.

Contudo, o aprendiz não vai deixar de cometer novos atos de traição. Ele seduz a jovem solitária no escritório de seu mentor, que assiste ao ato sexual pela janela, do lado de fora da casa, suspenso em uma escada. A raiva do escritor é tal que ele fura o pneu do carro de Seo Ji Woo e estraga as engrenagens do seu próprio veículo, almejando com isso que o assistente sofra um acidente mortal.

VDMovie] Eungyo: A Musa - Resenha | Vida de Dorameiro Amino
Crédito: filmow.com

Tal reação deve-se ao rancor que Lee Juk Yo sente pela perda da inocência de sua musa, que teve sua pureza roubada por alguém tão vil. Eungyo por fim percebe que foi enganada e, em uma cena emocionante, agradece o amor recebido em um conto que a descreve de uma forma que ela nunca tinha considerado poder ser anteriormente. Por um momento, a solidão de ambos é aplacada e o carinho afaga temporariamente a tristeza e a carência de duas figuras puras e genuínas. “Eungyo – A Musa” é uma crítica poética à juventude que perdeu a habilidade de criar e sentir e vale o seu tempo para assisti-lo.

Ficha técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Jung Ji Woo | Roteiristas: Park Bum Shin (novela), Jung Ji Woo | Elenco: Park Hae Il, Kim Go Eun, Kim Moo Yul | Duração: 129 min | Ano: 2012

A Sun: os (in)visíveis laços do amor familiar

Por Mayara Araujo

Dramas familiares são sempre plots com grande potencial de conquistar o envolvimento emocional do público. É com a premissa de uma família transformada após a prisão de seu caçula e sucessivas pequenas tragédias cotidianas que A Sun, de Chung Mong-Hong, nos convida de forma cálida a refletir sobre os laços e o amor que nos une.

Chocante em sua primeira cena, o filme é aberto com o acontecimento de um crime: dois jovens entram em um restaurante e cortam a mão de um dos clientes. Logo em seguida, somos transportados para as consequências de tal ato, no julgamento dos rapazes: o adolescente A-ho (Wu Chien-Ho) e o jovem-adulto Raddish (Liu Kuan-Ting). Antes de decretar a pena, o juiz solicita a opinião do pai de A-ho sobre a punição. No entanto, A-wen (Chen Yi-wen) não comparece ao julgamento para ir trabalhar, causando constrangimento a família. Ao finalmente comparecer, A-Wen surpreende mais uma vez, ao pedir que a pena de seu filho seja dura e que o filho fique no reformatório por muitos anos. 

A dureza com que o pai condena o próprio filho, apesar das súplicas da mãe, a sra. Qin (Samantha Ko), revela a natureza ainda mais brutal do que qualquer cena de violência explícita poderia ilustrar. De fato, a naturalidade com que os membros da família tentam levar a vida após esse evento é incômoda. No entanto, situações externas os impedem de viver em total normalidade: o pai da vítima de A-ho e Raddish passa a frequentar o ambiente de trabalho de A-wen para cobrar uma indenização, a Sra. Qin é surpreendida com a visita de uma mãe desesperada e de sua filha de 15 anos que alega estar grávida de A-ho, e A-hao (Hsu Greg), o filho mais velho e visivelmente o preferido, ao invés de continuar os seus estudos para prestar o vestibular de medicina e ser o responsável por ‘prover’ sua família de alguma forma, passa a ter uma rotina pouco clara. 

Crédito: devotudoaocinema.com.br

Com um céu que gradativamente vai se enchendo de nuvens em uma noite, trazendo as sombras como um eixo que guiarão o filme daqui por diante, o segundo ato é demarcado com mais um acontecimento desestruturador para a família Wen: o inexplicável e surpreendente suicídio de seu primogênito. Em jogadas de luz sempre luminosas para conduzir os passos de A-Hao, a vida parece ter se tornado mais pesada do que ele pôde suportar, impulsionando-o para um escape pela penumbra. 

Ironicamente, foi a vida do filho “perfeito” que se encerrou de forma dramática. Por outro lado, A-ho, o filho “imperfeito”, que mal consegue se comunicar com o próprio pai, se torna, então, responsável por sua própria existência e com a difícil missão de “ser melhor”. Ao sair do reformatório, agora casado com a adolescente que decidiu dar à luz ao seu filho, o personagem amadurece e até mesmo “embrutece”, ao ter que dar conta da dura realidade de alguém que saiu de uma prisão e todos os preconceitos que isso implica.

Embora A-ho tenha conseguido um emprego em um lava-jato e, para complementar a renda, em uma loja de conveniência nas madrugadas, isso parece ser insuficiente para aproximá-lo do próprio pai. A falta de comunicação entre os dois personagens é brilhantemente representada por atuações muito sensíveis, causando empatia imediata com o espectador, acompanhada de certo desconforto ao observá-los.

Crédito: jornalcruzeiro.com.br

No entanto, para o infortúnio de A-hao, seu passado parece não dar sossego ao cotidiano presente. Nisso, Raddish ressurge em cena, convocando-o para trabalhos criminosos. Sua insistência e constantes ameaças leva A-Hao ao limite do não ter escolha. Embora tente desviar desse caminho, o caminho desviante parece retornar para deixá-lo encurralado. 

É justamente no “retorno” involuntário ao crime que direciona o ato final do filme. De maneira surpreendente, é seu pai, A-Wen, que assume a heroica liderança de “salvar” o seu filho imperfeito. Para isso, ele está disposto a também desviar do caminho da legalidade e cometer o maior de todos os crimes. Assim, em uma noite, A-Wen segue Raddish e o filho e se incumbe de proteger seu amado e imperfeito filho na penumbra. Ao vislumbrar a possibilidade de estar com Raddish sozinho, A-Wen comete o crime, garantindo que A-Hao se liberte da terrível situação em que se encontrava e possa, finalmente, viver com sua nova família em paz.

Indicado a 11 categorias no 56th Golden Horse Awards – uma espécie de Oscar para filmes falados em chinês, da província de Taiwan –  e levando as premiações de melhor filme e de melhor diretor. Ainda assim, a narrativa parece se alongar demais em seus 156 minutos de duração, tornando a experiência cinematográfica um pouco arrastada ao demorar a entregar o desfecho da trama. O que nos segura, no entanto, é uma certa cumplicidade velada com a qual o espectador se encontra envolvido com os personagens. Imperfeitos em sua natureza, a família nos emociona justamente por seus laços completamente falhos e tremendamente humanos. 

A Sun - 24 de Janeiro de 2020 | Filmow
Crédito: filmow.com

Ficha Técnica:

País: China (Taiwan) | Direção: Mong-Hong Chung | Roteiristas: Chung Mong-hong, Chang Yao-sheng | Elenco: Wu Chien-Ho; Wen Chen-Lin; Samantha Ko; Chen Yi-Wen; Liu Kuan-Ting; Hsu Greg | Duração: 156 min | Ano: 2019

The Witness: um triste retrato da indiferença

Por Mayara Araujo

Desde o merecido Oscar de Parasita e a recente pandemia de COVID-19 que tem impossibilitado o amplo acesso às salas de cinema, a plataforma de streaming norte-americana, Netflix, tem nos brindado com catálogo relativamente diverso de filmes sul-coreanos. Esse é o caso da inserção de The Witness, do estreante Jo Kyoo-Jang que entre altos e baixos traz a ácida crítica da indiferença com a qual a sociedade contemporânea lida com as relações humanas.

Com um roteiro extremamente simples, a narrativa traz o olhar de Sang Hoon (Sung-min Lee), que ao chegar do trabalho em uma madrugada, acaba testemunhando um brutal assassinato de uma moça através de sua janela. Antes que pudesse denunciar o acontecimento, sua esposa acorda no meio da noite e acende as luzes, chamando a atenção do assassino do lado de fora, que imediatamente nota Sang Hoon. Assustado ao ser percebido, Sang Hoon deixa de denunciar o crime para a polícia e passa a viver acuado com a possibilidade de ser encontrado e com o bem-estar de sua família.

Esses minutos iniciais da trama marcam o início de uma perseguição implacável que nosso protagonista passará a experienciar, na qual tudo o que parece importar é a sua própria segurança e a de seus entes-queridos. Para isso, San Hoon estará disposto a se calar, a mentir sobre a verdade e a ignorar a dor da perda dentro de sua própria vizinhança. 

Crédito: BrazilKorea.com

Na manhã seguinte, o corpo da vítima é encontrado e o detetive Jae-Yeob (Kim Sang-Ho) assume o caso. Para isso, Jae-Yeob passa a interrogar os moradores do complexo residencial para tentar localizar o criminoso. No entanto, ele se depara com a fria indiferença da maior parte dos moradores e uma preocupação exclusiva com a possível alteração no valor dos imóveis devido a má fama da região.

Enquanto isso, o assassino Tae-ho (Kwak Si-yang), sempre à espreita, atua como um verdadeiro stalker, mapeando e vigiando as testemunhas para garantir que não seja pego. Assim, intimida o protagonista, comete outro assassinato, bem como manda “mensagens” horripilantes – como matar um animal de estimação e enviar sua cabeça para os donos – no intuito de controlar a situação.

O filme se perde pelo meio do caminho ao enfatizar excessivamente na atmosfera de thriller e preterir o roteiro. A violência, típica da estética cinematográfica sul-coreana, chega a incomodar, visto que se sobrepõe à narrativa e torna o passar dos minutos um tanto quanto arrastados. 

Crédito: canaltech.com

As motivações de Tae-ho não são explicadas na trama, falta aprofundamento em sua personalidade e o seu passado não é revelado. Não há nuances em sua apresentação, tornando-o um vilão meramente vil. De fato, o roteiro carece de “nós” que deixariam a história mais envolvente e bem amarrada.

Mais para o término, Sang Hoon e detetive Jae-Yeob conseguem agir em alguma sintonia, visto que ambos possuem o objetivo em comum de impedir que o assassino continue à solta. Grotescamente, é Sang Hoon que consegue limitá-lo e levar Tae-ho para de trás das grades. Assim, nosso protagonista finalmente alcança a paz necessária para continuar vivendo com sua família – agora em outra vizinhança. 

Ainda assim, de forma irônica, o filme é encerrado da mesma forma que começa: no pátio do complexo residencial, com Sang Hoon, agora transformado por suas últimas experiências, gritando por socorro no meio da noite. Ele aguarda que as luzes acendam e que alguém venha averiguar o que está acontecendo, principalmente depois de traumáticos assassinatos ocorridos na vizinhança. E se choca, em uma brilhante atuação de Sung-min Lee, ao perceber que nada mudou e que ninguém acenderá a luz, revelando, por fim, a total indiferença com o bem-estar do outro.

Crédito: sessaosemedo.com

Sem dúvida, o que The Witness traduz não passa de um retrato triste da sociedade contemporânea, que vive os seus dias fechada dentro de suas próprias bolhas e com uma cruel falta de empatia com a vida dos outros. 

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Jo Kyoo-Jang | Roteirista: Lee Young-jong | Elenco: Lee Sung-min, Kim Sang-ho, Jin Kyung, Kwak Si-yang  | Duração: 111 min | Ano: 2018

O veterano: os vícios de uma sociedade corrompida e altamente hierarquizada

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas / KoreaPost)

Muitos pensadores socialistas concordam com a ideia de que o sistema capitalista utiliza da estrutura política e socioeconômica tradicional, pode-se dizer até arcaica, de um grupo social específico, ou até uma nação inteira, em favor dos seus objetivos. Isso quer dizer exatamente o que? Um bom fato histórico para exemplificar a colocação acima foi a escravidão no Brasil. Esta estrutura de exploração do trabalho a custo zero com a mão-de-obra braçal rendeu diversos benefícios ao sistema capitalista mundial.

Como diria o autor Eric Williams“foram as plantações trabalhadas por escravos que fizeram crescer o volume do comércio intercontinental, estimularam o desenvolvimento de todo um conjunto de indústrias de transformação (desde o refino de açúcar até as primeiras fábricas de tecido de algodão) e tornaram alguns portos atlânticos em prósperos comerciais”.

Na Coreia do Sul, o sistema certamente faz adaptações à cultura local, mas a sua essência não é em nada modificada: a exploração da força de trabalho, com o menor custo. Certamente, em um período mais avançado do mundo pós-moderno, os alicerces desta estrutura exploradora necessitam ser mais sofisticados e complexos, no intuito de impossibilitarem a sua mais fácil compreensão, em especial para as camadas mais pobres.

Crédito: IMDB

A Coreia é conhecida por sua sociedade com valores tradicionais, de respeito, ou quase submissão aos mais velhos, da honra adquirida pela dedicação total ao trabalho e à comunidade, ao país. Tratam-se de características seculares da sociedade coreana. De um ponto de vista ocidental, estes elementos parecem, à primeira vista, bastante nobres, e, em boa parte dos acontecimentos realmente o são. No entanto, eles escondem também um cenário bastante triste e assustador de abusos, total desrespeito ao ser humano e de exploração máxima dos que menos detêm voz para contestar qualquer situação injusta.

Mais do que isso, esta estrutura de valorização do esforço dedicado ao trabalho, do respeito aos mais velhos, ou aos mais experientes, ou de cargo superior dentro de uma empresa, na realidade, também existem, com o objetivo de não fazer com que algumas questões sejam melhoradas, ou modernizadas. Desta forma, a elite, governante do país há décadas, continua a auferir dos lucros que esta estrutura de poder rende-lhe, em uma exploração e praticamente escravista à forma moderna do trabalhador sul-coreano, legalizada e aceita pelos próprios coreanos.

Assim, criam-se ideias românticas, como a de mães heroínas que obtêm três empregos para que os filhos possam entrar para a melhor faculdade, e vai-se aprofundando a desigualdade social, sem que o trabalhador possa perceber o quanto, na realidade, é explorado. Contudo, há momentos que esta farsa toda é rompida e a realidade, por alguns segundos, vem à tona. E estas oportunidades normalmente ocorrem à partir daqueles que ousam contestar tudo e tomar atitudes concretas. E este cenário que está por traz do filme “O Veterano” (2015), dirigido por Ryoo Seung Wan.

Crédito: IMDB

Certamente, não se quer afirmar neste texto que o diretor e os demais criadores desta produção cinematográfica necessariamente leram Karl Marx para contar esta história, mas o artista com uma sensibilidade acima do normal e observador do seu cotidiano, consegue compor e descrever melhor uma situação do que muitos pseudo-intelectuais, pretensamente “mestres do universo”, que existem nas universidades, mídia e outros locais… Neste enredo, o detetive Seo Do Cheol (interpretado por Hwang Jung Min) é uma espécie de policial totalmente “fora da curva”, que segue poucas regras, não obedece a superiores mas é implacável com o crime.

Um dia ele atende a ocorrência do motorista Bae, (vivido por Jung Woong In) que parece ter tentado suicídio ao perder uma reivindicação de pagamento de salário, após o encerramento de contrato com o grupo de motoristas por serem sindicalizados. Mas a sagacidade do detetive o faz desconfiar do jovem milionário, arrogante e herdeiro do poderoso conglomerado Sinjin Group Jo Tae Oh (que toma vida na pele do maravilhoso e jovem ator Yoo Ah In, um ator de personalidade já bastante polêmica e provocativa na vida real). O policial percebe que Bae provavelmente foi espancado e atirado de uma escada, em prédio com vários andores pelo filhinho do papai, sem limite algum. No entanto, não importa o quão rigorosamente a equipe de Seo o persiga, Jo sempre escapa com a ajuda de sua riqueza e conexões.

De todos os fatores que seria possível citar sobre esta obra, que passou a ser a quarta maior bilheteria da história do cinema coreano, estão as interpretações, a narrativa, o conjunto de planos filmados e a montagem que utiliza do clássico formato de contar uma história do fim para o início e explora a criação de cenas especiais para ilustrar as teorias do detetive e as mentiras do jovem riquinho, nas colocações de ambos do que venha a ter realmente ocorrido. Com um elenco secundário de primeira linha que dá toda a sustentação dramática para a trama, “O Veterano” brilha neste quesito, entretendo e provocando indignação e reflexões.

O motorista Bae, interpretado por Jung Woong In. Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Estão no filme atores do calibre de: Yu Hae Jin (que interpreta o diretor Choi, o responsável por encobrir tudo que ocorre, ou Jo Tae Oh faz); Oh Dal Su (vive chefe da equipe policial de Seo); Song Young Chang (é o presidente do conglomerado e pai de Jo); além de Bae Sung WooJeong Man Sik e Cheon Ho Jin. Hwang Jung Min e Yoo Ah In fazem uma dupla maravilhosa, que em situações de violência física e verbal, exploram tanto a crueldade e seriedade das situações, quanto o caráter cômico dos personagens, ambos de personalidade bastante explosiva, capazes de chegar a extremos, até ao ridículo.

Yoo Ah In lembra muito filhos de ricos brasileiros que cometem atrocidades, até matam pessoas, e jamais são presos. E Hwang Jung Min é aquele servidor público, aquele policial praticamente em extinção, que nasceu para exercer esta função e que tem o senso de perceber as situações, enquanto a maioria de seus colegas seguem caminhos tradicionais e mais fáceis. Com métodos até antiquados, o detetive faz de tudo para fazer valer a lei, mas é uma peça única em uma estrutura burocrática bastante hierarquizada e corrompida.

Em parte, as boas performances devem-se, acima de tudo, à construção narrativa de Ryoo Seung Wan, que como de costume na Coreia, tradicionalmente mistura diversos gêneros, em especial ação, situações cômicas, violentas e de um certo suspense, gerando aquela obra policial que faz o espectador acompanha-la até o final, sem pegar no sono, e consegue ao mesmo implantar uma semente de indignação importante. Nela ainda se pode observar aquela capacidade bastante peculiar do coreano de rir da própria desgraça, algo que tem em comum com o brasileiro, até certa medida. “O Veterano” está disponível na Netflix e deve contar na sua lista de filmes coreanos a assistir, se por acaso ainda não o fez.

Yu Hae Jin interpreta o diretor Choi. Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Ryoo Seung Wan | Roteiro: Ryoo Seung Wan | Elenco: Yoo Ah In, Hwang Jung Min, Yu Hae Jin, Oh Dal Su, Jung Woong In, Song Young Chang, Jeong Man Sik | Duração: 122min | Ano: 2015.

Signal: quando o passado e o presente se entrelaçam em uma complexa narrativa de perseguição

Por Mayara Araujo

Histórias nas quais as temporalidades se conectam e promovem uma série de modificações no tempo presente ou futuro não são pouco usuais. Em uma referência um pouco mais clássica da ficção científica, poderíamos citar a trilogia De volta para o futuro, dirigido por Robert Zemeckis. Em 2004, observamos o sucesso de bilheteria de Efeito Borboleta. Até mesmo dramas românticos que intercalam temporalidades foram criados, como Questão de tempo em 2013. A própria série alemã Dark é um complexo e instigante prato cheio para aqueles que se interessam pela temática. No entanto, poucas narrativas foram tão bem estruturadas e repletas de emoção como observamos no drama de televisão sul-coreano, Signal, exibido pela tvN em 2016. Antes de prosseguir, é importante deixar escrito que esse K-drama vai levar o seu sono embora ao longo dos alucinantes 16 episódios.

Nas últimas décadas, observamos o levante cultural da Coreia do Sul através de sua música pop (K-pop) e seus dramas de televisão (K-dramas), que tem conquistado uma expressiva audiência global e se tornado pauta de discursos midiáticos e trabalhos acadêmicos. Recentemente, com o estrondoso sucesso de Parasita de Bong Joon-Ho que conquistou diversos prêmios cinematográficos, dentre os quais o Oscar de melhor filme, também tem colaborado para pluralizar e complexificar as imagens que circulam da Coreia do Sul além-mar. Nesse sentido, produções televisivas como Signal, que fogem à lógica dos K-dramas com roteiros majoritariamente centrados em um romance, se destacam no catálogo da Netflix brasileira. 

A quinze anos atrás, uma criança foi sequestrada e, dias depois, foi encontrada morta. A polícia não conseguiu resolver esse crime. No entanto, Park Hae Young (Kim Hyun Bin), a versão ainda criança do protagonista, viu a mulher que havia levado sua colega de classe embora. A polícia não lhe deu ouvidos. Em paralelo, seu irmão de 18 anos é acusado de um crime que ele acredita ser impossível de ter cometido. Após cumprir sua pena, Park Seon Woo (Chani) comete suicídio. Desde então, Park Hae Young não confia nas forças policiais sul-coreanas. Quinze anos depois, em 2015, nos encontramos novamentes com Park Hae Young (Lee Je Hoon), um policial cuja especialidade é fazer um perfil psicológico dos criminosos. Um dia, ele encontra um walkie-talkie sem bateria, que possibilita que ele entre em contato com o passado (2001, 1997, 1985 e outros anos) do policial Lee Jae Han (Jo Jin Woong), que está desaparecido desde 2001, após ser acusado de corrupção. Assim, Hae Young consegue informações privilegiadas sobre o passado e, principalmente ao lado da líder de equipe Cha Soo Hyun (Kim Hye Soo), eles abrem novas investigações sobre os crimes passados que a polícia não conseguiu resolver.

Crédito: doramaworld.blogspot.com

Já no passado, a recém-contratada policial Cha So Hyun é designada para o mesmo setor de Lee Jae Han, sendo apresentada como uma “mascote” por ser a primeira mulher do departamento. Causando certo alvoroço dentre os demais policiais que ficam sem jeito de receber uma mulher no local de trabalho, Lee Jae Han se mantém intacto aos seus princípios e continua se comportando da mesma forma independentemente de uma presença feminina. Não tarda, portanto, para que os dois passem a trabalhar juntos e a desenvolverem uma forte amizade – que poderia se transformar em algo mais. Ali, os colegas de trabalho têm observado que Jae Han anda sempre apegado a um walkie-talkie velho, mas que ele alega “dar sorte”. Assim, Jae Han começa a se envolver com casos obscuros e a apontar o dedo na cara de policiais e outros representantes poderosos e, evidentemente, passa a incomodar muita gente. Em paralelo, existe uma disputa política ocorrendo e o chefe do departamento é transferido para outra cidade, abrindo espaço para a chegada do supervisor Kim Beom Joo (Jang Hyun Sung). Beom Joo é o típico caso de sucesso misterioso: ascendeu a cargos gradativamente mais poderosos rapidamente, além de nutrir relações obscuras com representantes políticos e donos de empresas multimilionárias.

Como todo clichê do gênero, ao se interferir no passado, o presente sofre modificações e isso se transforma em um grande dilema para o protagonista. Até que ponto é positivo que ele esteja em contato com Lee Jae Han? Vale a pena salvar a vida de uma vítima se outra pessoa morre em seu lugar? É prudente interferir no passado e arriscar uma mudança drástica no momento presente? Sem dúvida, as transformações ocorridas ao longo desses fluxos temporais colocam em xeque a consciência de Hae Young. No entanto, a situação se complica no momento em que o detetive Hae Young se depara com situações de seu próprio passado que ficaram pendentes.

Já Cha Soo Hyun mudou muito nos últimos quinze anos. De uma policial sem experiência e que frequentemente se assustava com os acontecimentos cotidiano, se transformou em uma mulher extremamente forte, pronta para liderar uma equipe com maestria, mesmo sob desconfiança de outros policiais homens do departamento. Cha Soo Hyun desenvolve uma certa afeição por Hae Young, embora desconfie de suas ações e sabedoria que são pouco explicadas, em virtude de estranhas conversas em um walkie-talkie. Em 2015, a detetive continua em busca de seu antigo parceiro Jae Han, desaparecido em 2001. Eventualmente, com apoio de Hae Young, ela pôde reencontrar os restos mortais de Jae Han no necrotério da polícia. O que levou Jae Han à morte? Mais uma vez, interferir no passado se torna urgente para que o presente não seja um ambiente de tanto sofrimento.

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De volta à sua juventude, Hae Young presencia a prisão de seu irmão mais velho, Park Seon Woo, acusado de participar de um estupro coletivo de uma colega de classe. Após pegar alguns meses de detenção e sendo Seon Woo o único punido pelo crime, o rapaz retorna para casa e encontra uma família desestruturada. Dias depois Hae Young encontra seu irmão desacordado, envolto de sangue. Teria Seon Woo cometido suicídio? A polícia sul-coreana teria sido incapaz de investigar o crime corretamente, levado Seon Woo a desistir de tudo agora que seu nome fora manchado? Qual a correlação entre Jae Han e Seon Woo? O que existe escondido nesse passado injusto e turbulento?

Em uma série de reviravoltas, por vezes surpreendentes, e atuações simplesmente brilhantes, Hae Young, Lee Jae Han e Cha Soo Hyun desafiam a macroestrutura policial da Coreia do Sul, ora reescrevendo o passado e lidando com as consequências no presente e ora constatando que há situações que não devem ser revertidas. Juntos, a equipe de “cold cases” garantem que o futuro/presente de Lee Jae Han seja mais brando. Ou será que nem tanto?

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Ficha técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Kim Won Suk | Roteiro: Kim Eun Hee | Atores: Lee Je Hoon, Kim Hye Soo, Jo Jin Woong, Kim Won Hae, Jang Hyun Sung, Chani, Kim Hyun Bin| Episódios: 16 |  Ano: 2016.