O veterano: os vícios de uma sociedade corrompida e altamente hierarquizada

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas / KoreaPost)

Muitos pensadores socialistas concordam com a ideia de que o sistema capitalista utiliza da estrutura política e socioeconômica tradicional, pode-se dizer até arcaica, de um grupo social específico, ou até uma nação inteira, em favor dos seus objetivos. Isso quer dizer exatamente o que? Um bom fato histórico para exemplificar a colocação acima foi a escravidão no Brasil. Esta estrutura de exploração do trabalho a custo zero com a mão-de-obra braçal rendeu diversos benefícios ao sistema capitalista mundial.

Como diria o autor Eric Williams“foram as plantações trabalhadas por escravos que fizeram crescer o volume do comércio intercontinental, estimularam o desenvolvimento de todo um conjunto de indústrias de transformação (desde o refino de açúcar até as primeiras fábricas de tecido de algodão) e tornaram alguns portos atlânticos em prósperos comerciais”.

Na Coreia do Sul, o sistema certamente faz adaptações à cultura local, mas a sua essência não é em nada modificada: a exploração da força de trabalho, com o menor custo. Certamente, em um período mais avançado do mundo pós-moderno, os alicerces desta estrutura exploradora necessitam ser mais sofisticados e complexos, no intuito de impossibilitarem a sua mais fácil compreensão, em especial para as camadas mais pobres.

Crédito: IMDB

A Coreia é conhecida por sua sociedade com valores tradicionais, de respeito, ou quase submissão aos mais velhos, da honra adquirida pela dedicação total ao trabalho e à comunidade, ao país. Tratam-se de características seculares da sociedade coreana. De um ponto de vista ocidental, estes elementos parecem, à primeira vista, bastante nobres, e, em boa parte dos acontecimentos realmente o são. No entanto, eles escondem também um cenário bastante triste e assustador de abusos, total desrespeito ao ser humano e de exploração máxima dos que menos detêm voz para contestar qualquer situação injusta.

Mais do que isso, esta estrutura de valorização do esforço dedicado ao trabalho, do respeito aos mais velhos, ou aos mais experientes, ou de cargo superior dentro de uma empresa, na realidade, também existem, com o objetivo de não fazer com que algumas questões sejam melhoradas, ou modernizadas. Desta forma, a elite, governante do país há décadas, continua a auferir dos lucros que esta estrutura de poder rende-lhe, em uma exploração e praticamente escravista à forma moderna do trabalhador sul-coreano, legalizada e aceita pelos próprios coreanos.

Assim, criam-se ideias românticas, como a de mães heroínas que obtêm três empregos para que os filhos possam entrar para a melhor faculdade, e vai-se aprofundando a desigualdade social, sem que o trabalhador possa perceber o quanto, na realidade, é explorado. Contudo, há momentos que esta farsa toda é rompida e a realidade, por alguns segundos, vem à tona. E estas oportunidades normalmente ocorrem à partir daqueles que ousam contestar tudo e tomar atitudes concretas. E este cenário que está por traz do filme “O Veterano” (2015), dirigido por Ryoo Seung Wan.

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Certamente, não se quer afirmar neste texto que o diretor e os demais criadores desta produção cinematográfica necessariamente leram Karl Marx para contar esta história, mas o artista com uma sensibilidade acima do normal e observador do seu cotidiano, consegue compor e descrever melhor uma situação do que muitos pseudo-intelectuais, pretensamente “mestres do universo”, que existem nas universidades, mídia e outros locais… Neste enredo, o detetive Seo Do Cheol (interpretado por Hwang Jung Min) é uma espécie de policial totalmente “fora da curva”, que segue poucas regras, não obedece a superiores mas é implacável com o crime.

Um dia ele atende a ocorrência do motorista Bae, (vivido por Jung Woong In) que parece ter tentado suicídio ao perder uma reivindicação de pagamento de salário, após o encerramento de contrato com o grupo de motoristas por serem sindicalizados. Mas a sagacidade do detetive o faz desconfiar do jovem milionário, arrogante e herdeiro do poderoso conglomerado Sinjin Group Jo Tae Oh (que toma vida na pele do maravilhoso e jovem ator Yoo Ah In, um ator de personalidade já bastante polêmica e provocativa na vida real). O policial percebe que Bae provavelmente foi espancado e atirado de uma escada, em prédio com vários andores pelo filhinho do papai, sem limite algum. No entanto, não importa o quão rigorosamente a equipe de Seo o persiga, Jo sempre escapa com a ajuda de sua riqueza e conexões.

De todos os fatores que seria possível citar sobre esta obra, que passou a ser a quarta maior bilheteria da história do cinema coreano, estão as interpretações, a narrativa, o conjunto de planos filmados e a montagem que utiliza do clássico formato de contar uma história do fim para o início e explora a criação de cenas especiais para ilustrar as teorias do detetive e as mentiras do jovem riquinho, nas colocações de ambos do que venha a ter realmente ocorrido. Com um elenco secundário de primeira linha que dá toda a sustentação dramática para a trama, “O Veterano” brilha neste quesito, entretendo e provocando indignação e reflexões.

O motorista Bae, interpretado por Jung Woong In. Crédito: IMDb.
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Estão no filme atores do calibre de: Yu Hae Jin (que interpreta o diretor Choi, o responsável por encobrir tudo que ocorre, ou Jo Tae Oh faz); Oh Dal Su (vive chefe da equipe policial de Seo); Song Young Chang (é o presidente do conglomerado e pai de Jo); além de Bae Sung WooJeong Man Sik e Cheon Ho Jin. Hwang Jung Min e Yoo Ah In fazem uma dupla maravilhosa, que em situações de violência física e verbal, exploram tanto a crueldade e seriedade das situações, quanto o caráter cômico dos personagens, ambos de personalidade bastante explosiva, capazes de chegar a extremos, até ao ridículo.

Yoo Ah In lembra muito filhos de ricos brasileiros que cometem atrocidades, até matam pessoas, e jamais são presos. E Hwang Jung Min é aquele servidor público, aquele policial praticamente em extinção, que nasceu para exercer esta função e que tem o senso de perceber as situações, enquanto a maioria de seus colegas seguem caminhos tradicionais e mais fáceis. Com métodos até antiquados, o detetive faz de tudo para fazer valer a lei, mas é uma peça única em uma estrutura burocrática bastante hierarquizada e corrompida.

Em parte, as boas performances devem-se, acima de tudo, à construção narrativa de Ryoo Seung Wan, que como de costume na Coreia, tradicionalmente mistura diversos gêneros, em especial ação, situações cômicas, violentas e de um certo suspense, gerando aquela obra policial que faz o espectador acompanha-la até o final, sem pegar no sono, e consegue ao mesmo implantar uma semente de indignação importante. Nela ainda se pode observar aquela capacidade bastante peculiar do coreano de rir da própria desgraça, algo que tem em comum com o brasileiro, até certa medida. “O Veterano” está disponível na Netflix e deve contar na sua lista de filmes coreanos a assistir, se por acaso ainda não o fez.

Yu Hae Jin interpreta o diretor Choi. Crédito: IMDb.
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Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Ryoo Seung Wan | Roteiro: Ryoo Seung Wan | Elenco: Yoo Ah In, Hwang Jung Min, Yu Hae Jin, Oh Dal Su, Jung Woong In, Song Young Chang, Jeong Man Sik | Duração: 122min | Ano: 2015.

Signal: quando o passado e o presente se entrelaçam em uma complexa narrativa de perseguição

Por Mayara Araujo

Histórias nas quais as temporalidades se conectam e promovem uma série de modificações no tempo presente ou futuro não são pouco usuais. Em uma referência um pouco mais clássica da ficção científica, poderíamos citar a trilogia De volta para o futuro, dirigido por Robert Zemeckis. Em 2004, observamos o sucesso de bilheteria de Efeito Borboleta. Até mesmo dramas românticos que intercalam temporalidades foram criados, como Questão de tempo em 2013. A própria série alemã Dark é um complexo e instigante prato cheio para aqueles que se interessam pela temática. No entanto, poucas narrativas foram tão bem estruturadas e repletas de emoção como observamos no drama de televisão sul-coreano, Signal, exibido pela tvN em 2016. Antes de prosseguir, é importante deixar escrito que esse K-drama vai levar o seu sono embora ao longo dos alucinantes 16 episódios.

Nas últimas décadas, observamos o levante cultural da Coreia do Sul através de sua música pop (K-pop) e seus dramas de televisão (K-dramas), que tem conquistado uma expressiva audiência global e se tornado pauta de discursos midiáticos e trabalhos acadêmicos. Recentemente, com o estrondoso sucesso de Parasita de Bong Joon-Ho que conquistou diversos prêmios cinematográficos, dentre os quais o Oscar de melhor filme, também tem colaborado para pluralizar e complexificar as imagens que circulam da Coreia do Sul além-mar. Nesse sentido, produções televisivas como Signal, que fogem à lógica dos K-dramas com roteiros majoritariamente centrados em um romance, se destacam no catálogo da Netflix brasileira. 

A quinze anos atrás, uma criança foi sequestrada e, dias depois, foi encontrada morta. A polícia não conseguiu resolver esse crime. No entanto, Park Hae Young (Kim Hyun Bin), a versão ainda criança do protagonista, viu a mulher que havia levado sua colega de classe embora. A polícia não lhe deu ouvidos. Em paralelo, seu irmão de 18 anos é acusado de um crime que ele acredita ser impossível de ter cometido. Após cumprir sua pena, Park Seon Woo (Chani) comete suicídio. Desde então, Park Hae Young não confia nas forças policiais sul-coreanas. Quinze anos depois, em 2015, nos encontramos novamentes com Park Hae Young (Lee Je Hoon), um policial cuja especialidade é fazer um perfil psicológico dos criminosos. Um dia, ele encontra um walkie-talkie sem bateria, que possibilita que ele entre em contato com o passado (2001, 1997, 1985 e outros anos) do policial Lee Jae Han (Jo Jin Woong), que está desaparecido desde 2001, após ser acusado de corrupção. Assim, Hae Young consegue informações privilegiadas sobre o passado e, principalmente ao lado da líder de equipe Cha Soo Hyun (Kim Hye Soo), eles abrem novas investigações sobre os crimes passados que a polícia não conseguiu resolver.

Crédito: doramaworld.blogspot.com

Já no passado, a recém-contratada policial Cha So Hyun é designada para o mesmo setor de Lee Jae Han, sendo apresentada como uma “mascote” por ser a primeira mulher do departamento. Causando certo alvoroço dentre os demais policiais que ficam sem jeito de receber uma mulher no local de trabalho, Lee Jae Han se mantém intacto aos seus princípios e continua se comportando da mesma forma independentemente de uma presença feminina. Não tarda, portanto, para que os dois passem a trabalhar juntos e a desenvolverem uma forte amizade – que poderia se transformar em algo mais. Ali, os colegas de trabalho têm observado que Jae Han anda sempre apegado a um walkie-talkie velho, mas que ele alega “dar sorte”. Assim, Jae Han começa a se envolver com casos obscuros e a apontar o dedo na cara de policiais e outros representantes poderosos e, evidentemente, passa a incomodar muita gente. Em paralelo, existe uma disputa política ocorrendo e o chefe do departamento é transferido para outra cidade, abrindo espaço para a chegada do supervisor Kim Beom Joo (Jang Hyun Sung). Beom Joo é o típico caso de sucesso misterioso: ascendeu a cargos gradativamente mais poderosos rapidamente, além de nutrir relações obscuras com representantes políticos e donos de empresas multimilionárias.

Como todo clichê do gênero, ao se interferir no passado, o presente sofre modificações e isso se transforma em um grande dilema para o protagonista. Até que ponto é positivo que ele esteja em contato com Lee Jae Han? Vale a pena salvar a vida de uma vítima se outra pessoa morre em seu lugar? É prudente interferir no passado e arriscar uma mudança drástica no momento presente? Sem dúvida, as transformações ocorridas ao longo desses fluxos temporais colocam em xeque a consciência de Hae Young. No entanto, a situação se complica no momento em que o detetive Hae Young se depara com situações de seu próprio passado que ficaram pendentes.

Já Cha Soo Hyun mudou muito nos últimos quinze anos. De uma policial sem experiência e que frequentemente se assustava com os acontecimentos cotidiano, se transformou em uma mulher extremamente forte, pronta para liderar uma equipe com maestria, mesmo sob desconfiança de outros policiais homens do departamento. Cha Soo Hyun desenvolve uma certa afeição por Hae Young, embora desconfie de suas ações e sabedoria que são pouco explicadas, em virtude de estranhas conversas em um walkie-talkie. Em 2015, a detetive continua em busca de seu antigo parceiro Jae Han, desaparecido em 2001. Eventualmente, com apoio de Hae Young, ela pôde reencontrar os restos mortais de Jae Han no necrotério da polícia. O que levou Jae Han à morte? Mais uma vez, interferir no passado se torna urgente para que o presente não seja um ambiente de tanto sofrimento.

Crédito: Asianwiki.com

De volta à sua juventude, Hae Young presencia a prisão de seu irmão mais velho, Park Seon Woo, acusado de participar de um estupro coletivo de uma colega de classe. Após pegar alguns meses de detenção e sendo Seon Woo o único punido pelo crime, o rapaz retorna para casa e encontra uma família desestruturada. Dias depois Hae Young encontra seu irmão desacordado, envolto de sangue. Teria Seon Woo cometido suicídio? A polícia sul-coreana teria sido incapaz de investigar o crime corretamente, levado Seon Woo a desistir de tudo agora que seu nome fora manchado? Qual a correlação entre Jae Han e Seon Woo? O que existe escondido nesse passado injusto e turbulento?

Em uma série de reviravoltas, por vezes surpreendentes, e atuações simplesmente brilhantes, Hae Young, Lee Jae Han e Cha Soo Hyun desafiam a macroestrutura policial da Coreia do Sul, ora reescrevendo o passado e lidando com as consequências no presente e ora constatando que há situações que não devem ser revertidas. Juntos, a equipe de “cold cases” garantem que o futuro/presente de Lee Jae Han seja mais brando. Ou será que nem tanto?

Crédito: viki.com

Ficha técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Kim Won Suk | Roteiro: Kim Eun Hee | Atores: Lee Je Hoon, Kim Hye Soo, Jo Jin Woong, Kim Won Hae, Jang Hyun Sung, Chani, Kim Hyun Bin| Episódios: 16 |  Ano: 2016. 

Os Garotos de Fengkuei: Um retrato da juventude comum

Por Júlia Garcia*

Os Garotos de Fengkuei (風櫃來的人/Feng Gui lai de ren) é um filme taiwanês de 1983 dirigido por Hou Hsiao-Hsien. A história – assim como grande parte dos trabalhos do diretor, como Millenium Mambo (2001) e Três Tempos (2005) – rejeita a estrutura narrativa clássica, baseada em personagens engajados na resolução de um conflito evidente, com início, meio e fim claramente definidos. Ao invés disso, o cineasta opta pelo realismo, valorizando, através de um pequeno recorte da vivência, o comum, o cotidiano e o corriqueiro. E são justamente essas características que fazem de Os Garotos de Fengkuei um retrato tão sutil, e ao mesmo tempo acurado, da passagem da juventude à vida adulta.

O filme acompanha quatro garotos, moradores de uma pequena vila pesqueira chamada Fengkuei, localizada nas Ilhas Penghu, um arquipélago a oeste da ilha principal de Taiwan. Os meninos frequentemente se envolvem em brigas e confusões, por diversos motivos; seja porque perderam dinheiro em apostas ou porque entraram no cinema sem comprar ingressos. O comportamento violento e rebelde leva-os, inclusive, à polícia. Insatisfeitos com a vida no vilarejo, três dos garotos resolvem, então, tentar a sorte em Kaohsiung, uma das maiores cidades de Taiwan.

Apesar das atitudes agressivas, enquanto ainda estão em Fengkuei, os meninos apresentam certa inocência e aura infantil. Eles brincam, pregam peças e se divertem, como crianças. A cena que melhor exemplifica esse comportamento pueril acontece na praia: os garotos dançam, com o mar ao fundo, na frente de uma moça que acabaram de conhecer, provocando-a alegremente.

Crédito: Eureka Entertainment Limited

No entanto, com a mudança dos garotos para a cidade grande, não somente as paisagens rurais deram lugar à agitação urbana, mas a inocência de uma juventude infantil também foi sendo substituída pela necessidade do amadurecimento. Logo ao desembarcarem em Kaohsiung, os meninos já se perdem, tendo dificuldades para se orientarem na confusa paisagem da cidade, repleta de placas, rodovias e automóveis, em contraposição aos campos, praias e vielas de Fengkuei. Mais tarde, já estabelecidos há algum tempo no local, os garotos são enganados por um homem que os vende ingressos para uma exibição de cinema que, na verdade, não existe. Esse momento é simbólico. Já não são mais os meninos que enganam e trapaceiam, invadindo o cinema de Fengkuei sem pagar pela entrada; agora, na cidade grande, eles são as presas.

A desorientação no espaço urbano e a ingenuidade em relação aos modos de vida da metrópole demonstram a enorme diferença entre o viver no campo e na cidade. Mas, além disso, as hesitações e incertezas que os garotos experienciam em Kaohsiung também representam, de certa forma, a nebulosa fase entre o final da adolescência e o início da vida adulta.

Nesse processo, enquanto Ah Ching (Doze Niu) experimenta o interesse não-correspondido em Hsiao-Hsing (Lin Hsiu-Ling) e enfrenta a morte repentina do pai, que devido a um problema neurológico há muito já não se comunicava, sua família o pressiona para que se encaixe no padrão daquilo que, socialmente, é considerado o ideal de vida e conduta. Ao mesmo tempo, seus amigos buscam alternativas ao trabalho na fábrica, almejando futuros que não teriam no emprego que ocupavam. Esse tipo de preocupação passou, portanto, a sobrepor as brigas e confusões dos garotos, sem que, contudo, houvesse uma completa disrupção da juventude do modo como experienciavam em Fengkuei.

Crédito: Eureka Entertainment Limited

Não há solidez nas situações vividas pelos meninos, assim como não há na transição para a vida adulta. Nada parece preciso ou certo. Os Garotos de Fengkuei mostra um recorte, um retrato, de jovens experimentando mudanças e dúvidas, alegrias e aflições, com todos os obstáculos e sabores que essas experiências provêm. Com uma imagem do cotidiano, que retrata o comum e o ordinário, fica fácil nos identificarmos com os garotos, tão perdidos na vivência urbana quanto qualquer um de nós, em qualquer fase da vida.

Ficha técnica:

País: Taiwan | Direção: Hou Hsiao-Hsien | Roteiro: Chu T’ien-wen | Elenco: Chun-Fang Chang, Shih Chang, Grace Chen, Doze Niu, Chao P’eng-chue, Tsung-Hua To, Li-Yin Yang | Duração: 99 min | Ano: 1983.

  • Júlia Garcia é mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e jornalista pela mesma instituição. Atua como pesquisadora no Observatório da Qualidade no Audiovisual, onde participa do projeto Ásia Pop, com foco na cultura pop asiática, em especial a japonesa e sul-coreana.

Obsessão: o amor conturbado de um veterano de guerra

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas)

Amor é algo facilmente confundido por outros tipos de sentimentos, normalmente, menos altruístas, menos puros e incondicionais como a paixão, a necessidade de controle, de possuir, ou a obsessão por alguém. Esta questão é bastante explorada nas mais diversas cinematografias pelo mundo e na sul-coreana não seria diferente. No filme “Obsessão” (2014), dirigido por Kim Dae Woo, o coronel Kim Jin Pyong (Song Seung Heon), que fez parte do grupo de militares sul-coreanos levados a combater junto às tropas dos Estados Unidos no Vietnã, sofre em silêncio de Transtorno de Estresse Pós-traumático (TEPT).

Decorado herói de guerra, ele também está prestes a ser promovido a general. É casado com a filha de seu comandante, a gentil Lee Sook Jin (Cho Yeo Jeong). Uma união que, ao menos para ele, não há mais qualquer afeição e carinho real, mas um coronel deve sempre, ao menos em teoria, seguir suas obrigações. Um dia, um capitão chamado Kyung Woo Jin (On Joo Wan) é transferido para a tropa de Jin Yong, mudando-se para a casa ao lado com sua esposa, a chinesa, Ga heun (Lim Ji Yeon).

Até um período, os vizinhos não parecem ter grande contato, mas a esposa do coronel está bastante interessada nos recém-chegados. Assim, ela acaba provocando a curiosidade de coronel Kim Jin Pyong que vai a casa dos vizinhos e depara-se com a esposa de seu capitão. Percebe-se de pronto que uma atração instantânea acontece, resultando em um caso extraconjugal futuro.

Crédito: IMDB

“Obsessão” não é um filme extraordinário, nem aborda questões muito diferentes que outros já não tivessem discutido, mas tem seus encantos. Em especial pela forma como a narrativa é construída, pelas atuações, pelas críticas implícitas, quase sutis, e pela sua beleza fotográfica. É importante ainda ressaltar, perdão a indiscrição da autora, a beleza física do ator Song Seung Heon, cuja forma corpórea é bem utilizada pelo diretor, em especial nas cenas de sexo.

Os quadros e tomadas dos momentos mais íntimos do casal são bastante explícitos para os padrões sul-coreanos, mas ao mesmo tempo têm uma sensualidade e uma plasticidade interessante, não sendo nada vulgares. A atuação do par de atores atingiu o objetivo em demonstrar ter bastante química, naturalidade e desenvoltura nestas cenas em particular, algo extremamente complicado e difícil de fazer, ainda que o público geral ache que não.

A fotografia bastante clara em ambientes externos e que utiliza luzes quentes nos momentos de confraternização dos indivíduos daquela situação e em seus momentos mais íntimos também, contribui para envolver o espectador naquela atmosfera de sentimentos reprimidos, para depois serem extravasados quando os personagens permitem-se mais. As sombras durante as passagens de tensão também almejam incitar no público a sensação de perturbação, a turbulência psicológica do casal de amantes, em especial do coronel.

Lim Ji Yeon é a apática Ga Heun. Casada com o capitão Kyung Woo Jin (On Joo Wan), ele tem um caso secreto com o comandante de seu esposo. Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Por sinal, segundo o próprio Song Seung Heon, esta obra foi um divisor de águas para a sua carreira, já que ele necessitaria até então provar para si que seria capaz de participar em tal produção. O ator que até aquele momento sempre fizera papeis de mocinho com carinha bonita, ansiava por mostrar que era mais do que isso. Para muitos, este, que é um dos queridinhos da onda Hallyu, fracassou no seu objetivo, mas esta autora tende a descordar com a opinião geral.

Song Seung Heon é sim um grande ator e incarna de forma muito convincente, com a dosagem certa de emoção, o coronel introvertido, que sofre em silêncio, que mantem as aparências acima de tudo, mas que sufoca aos poucos com o contexto um tanto opressor em que está inserido. Importante ainda salientar que esta foi a primeira experiência do ator com cenas íntimas de um casal. No entanto, ele não atingiria tal resultado positivo, sem a participação conjunta de suas e seus colegas. O elenco dos personagens secundários cumpre o papel de suporte de forma bem satisfatórias. A atriz Cho Yeo Jeong faz uma esposa perfeitamente avoada, infantil, tagarela, que vive em seu pequeno mundinho de aparências e nem nota o sofrimento do marido. Ela está mais preocupada com o entorno e os demais, do que com aqueles que lhe são mais próximos, vivendo em um mundo à parte.

Um mundo feliz e bonito, criado, talvez, de forma inconsciente em consequência de ser uma mulher mimada, ou pela sua dificuldade em lidar com questão complicadas, como ser esposa de um militar, herói de guerra. Não se trata de uma pessoa ruim, mas um clássico clichê da mulher da época que é agradável com todos, não é preconceituosa, mas ao mesmo tem a cabeça enquadrada no sistema.

O capitão Kyung Woo Jin (On Joo Wan) faz de tudo para avançar na carreira militar, inclusive usar a própria esposa. Crédito: IMDb.
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Já On Joo Wan faz o típico aproveitador, carreirista, capaz de usar a própria mulher para atingir seus objetivos profissionais. O capitão Kyung Woo Jin representa bem como é um ambiente estruturado em uma hierarquia muito rígida, resultando em diversos puxas-sacos e profissionais que apresentam uma ambiguidade de caráter, tão comum a este meio, quanto a outros digamos mais liberais. Lim Ji Yeon também vive de forma crível uma mulher quase apática para a vida. Ela compreende que o marido a explora, mas aceita. Mesmo não sentindo conforto, nem felicidade ao seu lado.

Seu encontro com o coronel, ainda que contenha grande carga emocional em vários momentos, no geral, parece apenas mais um acontecimento, quase um acidente de percurso a sua existência, sendo bastante evidente em outros momentos de tensão do filme. A atriz, de repente, encarnou tanto a apatia de sua personagem, que lhe faltou uma dose maior de explosão emocional ao final, em que Ga Heun compreende que sentia amor pelo coronel afinal. Detalhe que esta foi a primeira experiência da atriz em um projeto cinematográfico comercial.

Esta atmosfera de passividade com relação ao status quo é realmente uma característica que engrandece o enredo. A sensação é de que se está sufocando em torno de pessoas tão bem-comportadas, tão aparentemente cordiais e diplomáticas. É possível compreender o coronel em vários momentos e seus conflitos internos. Contudo, nos bastidores, as fofocas espalham-se, assim como os preconceitos com a chinesa Ga Heun e a superficialidade de mulheres que parecem insistir em levar vidas normais, com uma, ou outra aventura, uma que outra atitude ousada, como dançar às segundas com um estranho chamado Lim (Yu Hae Jin), dançarino de tango. Enquanto isso, seus maridos vivem as experiências mais horríveis que um ser humano pode experienciar. A guerra está em pleno vapor ainda no Vietnã, mas parece não atingir o cotidiano daquele pequeno mundinho sul-coreano, aparentemente.O romance com Ga Heun será para o coronel Kim Jin Pyong como o ponto de explosão, em que ele extravasa suas angústias e tenta experimentar retornar a vida normal. Isso é perceptível quando ele procura aprender a dançar para uma noite especial com aquela que ele acha ser sua nova e verdadeira amada.

Cena do filme “Obsessão”. Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Talvez, o que tenha provocado no coronel estabelecer este vínculo com Ga Heun fosse a reação dela em um momento de extrema tensão, em um evento do hospital do exército, organizado pelas esposas dos oficiais comissionados, onde são voluntárias. Na ocasião, um paciente que sofre de TEPT ataca Ga Heun, e Kim Jin Pyong vem em seu auxílio.

Ela chega a ser baleada, mas age como se nada tivesse ocorrido, enquanto as demais mulheres desesperadas gritam e desmaiam. Uma atitude que chama atenção a um ex-combatente de guerra, pois ali está alguém que pode entender um pouco das suas experiências e do que significa viver a sua realidade, ser quem ele é, tendo de presenciar situações de conflito, comuns para aquele modo de vida.

Outra curiosidade do filme, e que poderia ter sido melhor explorada, é justamente o fato histórico da participação sul-coreana na Guerra do Vietnã, algo pouco comentado, talvez até por razões compreensíveis. Afinal, este evento histórico traz uma verdade um tanto vergonhosa para uma Coreia que sempre lutou por independência, acabar submetida às ordens de outro país, que almejava invadir e controlar um irmão asiático.

Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Por fim, seria amor o que o Coronel sente? Ou apenas uma consequência de sua mente perturbada? Para a maioria dos críticos na época a segunda constatação seria a certa. Esta autora acredita que o humano é sempre mais complexo e aposta que podem ser ambos. Pois mentes perturbadas também amam, de forma errada talvez, mas amam.

E anseiam, acima de tudo, buscar algo de mais real, verdadeiro e honesto que o entorno aparentemente da normalidade e da aparência não oferece.  Alguém que entenda as dificuldades e não apenas as ignore. Trata-se de uma tentativa de buscar por algo melhor, mesmo que passe de uma ilusão e que possa ter consequências mais drásticas em seu desfecho.

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Kim Dae Woo | Roteiro: Kim Dae Woo, Oh Tae Kyung | Elenco: Song Seung Heon, Lim Ji Yeon, Cho Yeo Jeong, On Joo Wan, Yu Hae Jin, Bae Sung Woo | Duração: 232mins | Ano: 2014

Felizes para sempre: uma série para a sua maratona

Por Beco da Índia

No cardápio de séries de serviços de streamings que servem como alternativa para os que estão em isolamento necessário para evitar contaminações do Covid 19, há uma opção que funciona como uma espécie de janela. Por ela, você pode observar os conflitos do velho e do novo na tradicional sociedade em uma Índia do século 21. É Felizes para Sempre (Made in Heaven), série original da Amazon Prime Video, que estreou em março de 2019, com nove episódios até agora.

Se o dito popular afirma que os casamentos são feitos no céu, a série mostra que nem sempre é assim e ousa abrir algumas portas dos armários daquela sociedade, ao mesmo tempo em que exibe as cores exuberantes, o brilho, as músicas e as danças exuberantes desses eventos. É bom lembrar que todo o Sul da Ásia, e a Índia em especial, são líderes globais do mercado de casamento.

“A realidade é bem diferente”, avisa o trailer da série, escrito e dirigido por mulheres. “Made in Heaven” é o nome da empresa de organização de casamentos dos sócios Karan (papel desempenhado por Arjun Mathur) e Tara (Sobhita Dhulipala), em Délhi. Seus dramas pessoais se cruzam com as histórias de seus clientes no país dos casamentos arranjados: negociações de dotes; quebras de tabus, como uniões de viúvos; festas ondem o  que acontecem lá, ficam lá; escândalos bollywoodianos; conflitos familiares, crenças em superstições milenares, e por aí vai.

Karan e Tara são obrigados a cumprir algumas missões paticamente insalubres, como contratar detetives particulares para investigar histórico de noiva. Karan é gay em uma sociedade tradicional que, em boa parte, não aceita essa orientação. Tara organiza casamentos, mas ela mesma vive infeliz no seu. Moça de classe média baixa, Tara casou-se com um rapaz de família rica mas enfrenta problemas sérios com o marido.

A série, a quarta original da Amazon Prime para o mercado indiano,  fez grande sucesso no Sul da Ásia e em países de outras regiões logo no seu primeiro mês após o lançamento. As críticas e resenhas positivas ressaltaram a abordagem de tópicos culturais, como homofobia.

Diferentemente de outras séries de serviços de streamings, o Felizes para Sempre conta com atores que não foram trazidos de Bollywood: são rostos novos, na maioria. Há duas exceções a essa regra, no entanto: uma é Kalki Koechlin, um talento da indústria cinematográfica do país, que atuou, por exemplo, no filme Margarida com Canudinho. Outra é Vijay Raaz, que atuou no excelente Casamento à Indiana (Moonson Wedding), um grande sucesso da diretora Mira Nair.

Crítica - Made In Heaven (1ª Temporada) | Senta Aí
Crédito: Amazon Prime

Boa parte do lado glamouroso da série é de responsabilidade de Poornamrita Singh, fashion designer que decide o figurino das noivas e noivos e dos convidados das festas. Singh explicou que decidiu vestir as noivas de forma não convencional,  com cores como beje, verde, amarelo e dourado, quando o normal na Índia é o vermelho. Como uma chef delicada, Pornamrita Singh salpica no cenário as especiarias mais saborosas aos olhos do telespectador: a beleza e a estética dos casamentos indianos, com seus saris e lehengas (saias) de tecidos brocados e jóias no estilo tradicional, totalmente diferentes para quem nunca foi àquela parte do mundo.

Ficha Técnica:

País: Índia| Direção: Nitya Mehra, Zoya Akhtar , Prashant Nair e Alankrita Shrivastava | Roteiro: Zoya, Reema Kagti, Niranjan Iyengar e Alankrita| Elenco: Arjun Mathur, Sobhita Dhulipala, Kalki Koechlin| Distribuidora: Amazon Prime| Episódios: 9| Ano: 2020.

Os 100 Adeus: entre términos e retornos

Por Mayara Araujo

Não é nenhuma novidade constatar que relacionamentos podem ser conturbados e repleto de reviravoltas. A verdade é que a sensação de êxtase do início de um amor novo passa e essa excitação vai se tornando gradativamente mais serena, até o momento em que se torna meio insossa. O tempo passa, as pessoas se transformam em outras pessoas e o brilho nos olhos que guardávamos para um alguém querido vai perdendo o impacto, na medida em que também mudamos. Ainda assim, existem casais que sobrevivem a monotonia do nosso cotidiano e reaprendem a se apaixonar de tempos em tempos. É justamente sobre tais percalços que Os 100 Adeus, comédia romântica dirigida e roteirizada por Lawrence Cheng, nos conta.

Sam (Ekin Cheng) e Barbara (Chrissie Chau) são mais um desses casais que estão juntos há tempo o suficiente para compartilhar espaço no mesmo banheiro. Eles compartilharam muito nesse tempo: um cômodo, uma casa, uma vida. Com isso, o relacionamento dos dois parece estar desgastado: as piadas de Sam não são mais tão engraçadas – se tornaram imaturas; o humor ácido de Barbara não é mais um charme – agora é meramente chato. 

Esses pequenos detalhes do dia a dia são o principal motivo de tantos términos: 99, até aqui. Foram 99 vezes que o trem saiu do trilho e os dois tiveram que se esforçar para que ele retomasse o seu devido lugar. Um pedido de desculpas por parte de Sam, uma tentativa de melhor compreensão por parte de Barbara. Nesses 99 términos eles se tornaram mais fortes, mas também mais cansados.

Crédito: Fixable.com

Depois do 99º término, Sam e Barbara decidem abrir um pequeno negócio juntos: uma cafeteria chamada “Le Je Taie”, na qual os clientes poderiam desfrutar de uma “autêntica” refeição francesa – mesmo que para atender os seus primeiros clientes eles tivessem que ligar para a cafeteria concorrente e realizar o mesmo pedido que o cliente havia feito, mas para entregar para a viagem. Em suas inocências, o que eles não haviam percebido, no entanto, é que o próprio nome do estabelecimento havia sido grafado errado. E isso não poderia ser um bom presságio.

“Sorte nos negócios e azar no amor”, esse poderia ter sido o slogan reservado para a pequena Le Je Taie. Foi justamente ali, servindo pratos, mantendo os negócios ativos e observando os clientes que vêm e vão, que eles puderam contemplar o desfecho de diversos relacionamentos. A cafeteria se tornou palco para casais que se desentendiam, brigas que corriam soltas e rompimentos definitivos de pessoas que juraram seu amor um pelo outro.

Nesses rompimentos públicos, muitos casais deixam para trás pertences de valor afetivo. Talvez por esquecimento ou talvez porque queiram esquecê-los. A partir dessa constatação que Sam tem a ideia de alugar um pequeno espaço dentro do café para que os clientes possam se desfazer de tais itens. Assim, alianças, pelúcias, fotografias são temporariamente deixadas para trás, dentro do estabelecimento, para que os corações possam ser curados.

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É a partir dessa estante do término que o Le Je Taie se transforma em um negócio de sucesso. Pouco importa o sabor da comida ou a qualidade do café, desde que tais itens possam ser deixados para trás. Pouco a pouco, a estante do término vai sendo preenchida de memórias de relacionamentos passados alheios e, em paralelo, o ego de Sam vai se tornando inflado. Depois de anos sendo considerado imaturo por sua parceira, ele finalmente surgiu com uma ideia que vingou e, agora, se sente preparado para dar o próximo passo.

Com o apoio de alguns amigos próximos e sem nenhum comunicado à Barbara, Sam decide procurar lojas no bairro para alugar, no intuito de desenvolver filiais do Le Je Taie. Acontece que ao descobrir, Barbara não só se sente traída, como não deposita nem um pouco de confiança na ideia de Sam. “Quanto tempo isso vai durar?”, questiona. De fato, Sam não se responsabiliza enfaticamente sobre a administração dos negócios e se inspira meramente na efemeridade de ter tido uma boa ideia. Com isso, pela centésima vez, Barbara decide deixá-lo.

Dessa vez, diferentemente do que ocorreu até aqui, Sam não pretende correr atrás de sua parceria para pedir desculpas. Afinal, ele também se sente traído com a falta de confiança que Barbara sente nele. Por outro lado, Barbara parece certa sobre o vindouro pedido de desculpas. E se surpreende, ao demorar para chegar. Pela primeira vez, os dois parecem precisar de tempo para organizar seus próprios sentimentos um pelo outro. 

Crédito: hk01.com

De forma agridoce, o filme se encerra com um reencontro mais do que sereno, no qual nos segundos finais podemos observar que nossos protagonistas deram as mãos. O futuro do relacionamento, entretanto, continua parecendo incerto, visto que não houve uma evolução real de ambos os personagens.

Como comédia romântica, Os 100 Adeus não tem nada de engraçado. Não existem reviravoltas emocionantes e causa até certa estranheza ao espectador o relacionamento dos protagonistas. Não há fortes motivos ou identificação o suficiente para se torcer pelo separação ou união final dos dois. Mas nos deixa a dramática reflexão acerca de nossos próprios relacionamentos amorosos e uma certa inveja da ideia de se ter um lugar equivalente a tal estante do abandono.

Ficha Técnica:

País: China (HK) | Direção: Lawrence Cheng | Roteirista: Lawrence Cheng | Elenco: Chrissie Chau, Ekin Cheng, Ivana Wong | Duração: 105 min | Ano: 2014.

Silenced: Abandono daqueles que gritam em silêncio

Por Hsu Ya Ya*

Uma escola para deficientes auditivos e intelectuais entre 7 e 22 anos. O medo refletido através dos olhos das crianças. Roxo, a cor que deveria estar estampado nos desenhos está presente nos rostos em forma de hematomas. Parece roteiro de filme de terror, não? Não deixa de ser um filme, mas o gênero não é de terror. Silenced é baseado em fatos reais que aconteceram na Coreia do Sul entre os anos 2000 a 2004, quando o caso foi exposto por um professor ao grupo de direitos humanos da cidade de Gwangju.

Em 2009, a autora Gong Ji Young lançou o livro “The Crucible”, baseado no caso “Gwangju Inhwa School”, mas a história só causou impacto na sociedade sul-coreana quando o filme foi lançado, em 2011.

Kang In Ho (Gong Yoo) é um professor de artes que fora indicado para dar aula em uma escola para deficientes auditivos na cidade de Minju a fim de ensinar e conseguir dinheiro para a sua família que passava por momentos difíceis, após o suicídio de sua esposa e a doença da filha. Logo no primeiro dia de trabalho, Kang      nota o ambiente sombrio que permeia entre os corredores da escola e os olhares distantes de seus alunos.

Crédito: viki.com

Durante a sua primeira aula, Min Su (Baek Seung Hwan) chega a aula com diversos hematomas no rosto, e quando In Ho questiona o professor Park Bo Hyun (Kim Min Sang), este relata que os machucados foram ocasionados pela sua “deficiência”, além da recente perda do seu irmão mais novo. Curioso a respeito das crianças, o professor de artes busca o histórico escolar do Min Su, Yeon Doo (Kim Hyun Soo) e Yoo Ri (Jung In Seo), reparando que essas crianças são órfãs ou foram abandonadas pelos pais.

A reviravolta começa quando In Ho encontra Yeon Doo sendo torturada pela irmã do diretor do instituto, que fora socorrida e encaminhada ao hospital com a ajuda da ativista dos direitos humanos Seo Yoo Jin (Jung Yu Mi). Ao passar a noite acompanhando a menina, a ativista recebe através de uma carta, o relato de estupros que vem acontecendo dentro da escola feito pelo diretor, o seu irmão e o professor Park. Com isso, In Ho e Yoon Jin começam a luta pelo direito dessas crianças, enquanto as autoridades locais e a própria população fechava os olhos diante do caso.

Apesar do filme ser baseado em fatos reais, alguns acontecimentos foram alterados, seja na questão da quantidade de acusados envolvidos no caso, ou as vítimas que sofreram tais abusos. Um número questionável até as últimas notícias sobre o ocorrido na vida real, mas nada se compara ao impacto da narrativa do início ao fim, com cenas fortes e tocantes sofridas pelas crianças, a indiferença dos professores que presenciavam as agressões físicas, a descrença da população para o caso.

Crédito: YouTube

A primeira impressão que se tem é que o filme parece ser de suspense ou terror pela sensação que passa ao espectador, através da ambientação do local malcuidado, pouca iluminação, olhares sem vidas e a tortura psicológica a quem assiste pelas cenas chocantes de abusos.

Silenced passa a sensação de impotência para quem assiste, mas levanta diversos questionamentos sobre o papel do ser humano diante de casos obscuros que permeiam a nossa sociedade, a conduta que devemos ter como cidadãos, em contrapartida, o poder na mão daqueles que têm mais dinheiro, o silenciamento das vítimas oprimidas pela sociedade, as brechas dentro da legislação, o papel do jornalismo a fim de expor casos que seriam acobertados por aqueles que têm poder e a importância de defender os direitos humanos.

Crédito: Tumblr

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Hwang Dong Hyuk | Roteirista: Hwang Dong Hyuk baseado no livro “The Crucible” da autora Gong Ji Young | Elenco: Gong Yoo, Jung Yu Mi, Kim Hyun Soo, Jung In Seo, Baek Seung Hwan | Duração: 125min | Ano: 2011

*Hsu Ya Ya é graduanda em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), pesquisadora no grupo Comunicação, Arte e Literacia Midiática, membro do Observatório da Qualidade no Audiovisual e bolsista de treinamento profissional no projeto #Observatório: Produção de vídeos de divulgação científica)

“Tel Aviv em Chamas”: uma visão cômica do conflito Israel-Palestina que não foge à dura realidade

Por Alessandra Scangarelli (Via Intertelas)

O cinema é um espaço bastante amplo e que contempla diversas abordagens e representações da realidade, inclusive de questões bastante delicadas como o conflito Israel-Palestina. Afinal, mesmo em uma das regiões mais problemáticas do planeta, a vida dos que ainda permanecem por lá continua. Parece difícil para muitos compreenderem como as maiores amenidades das relações sociais podem seguir em curso, ainda que uma guerra, um território ocupado e tantas outras formas de violência extrema estejam presentes no dia-a-dia dos habitantes que estão expostos a sucessivos ataques armados.

Mais, há quem não acredite, porém gêneros como a comédia podem ser a escolha perfeita para lançar um olhar mais complexo e bastante humano, com sutilezas provocantes, críticas que ficam nas entrelinhas, utilizando de ironia e sarcasmo para criar um quadro diferente e bastante interessante de um assunto que sempre é lembrado pelo drama da guerra. Estas características podem ser encontradas em “Tel Aviv em Chamas” (2018), distribuído no Brasil pela Pandora Filmes e um dos últimos trabalhos de Sameh Zoabi, nascido em Iksal, uma aldeia palestina, localizada próxima à cidade de Nazaré.

Nesta história, o personagem principal Salam (Kais Nashif), um assistente de produção palestino, conduz o espectador pelos bastidores da gravação de uma telenovela palestina que leva o mesmo nome do filme. Quem já teve alguma experiência com o cotidiano de uma produção audiovisual, sabe o quão caóticos e imersivos os dias de gravação podem ser para os envolvidos. E isso ocorre independentemente da nacionalidade e do país. É um traço comum deste ramo profissional. Ao levar isto em conta, duplique a tensão no contexto de uma novela que está sendo gravada na própria Palestina e cujo enredo central em si tem como tema o conflito local.

Crédito: Samsa Film – TS Productions – Lama F… Productions.

Assim, Salam para sair de sua casa e ir até o estúdio necessita cruzar o posto de controle entre as cidades de Jerusalém e Ramala, diariamente. São nestes momentos chaves que é possível ter uma noção do absurdo que tal situação impõe às pessoas, aos cidadãos palestinos em geral, como a limitação da liberdade de ir e vir, a desigualdade social, a desconfiança e a violência, às vezes passiva, mas não menos cruel, das autoridades e de uma elite israelense, que através de seu braço armado, despoja os palestinos da condição de cidadãos, ao desprovê-los de direitos básicos, na própria casa deles.

É no posto de controle que Salam conhece o oficial do exército israelense Assi (Yaniv Biton), que acompanha a novela “Tel Aviv em Chamas” com sua mulher, Tala (Lubna Azabal) e que ao saber do ofício de Salam começa a querer ter suas opiniões e sugestões para o desenrolar da trama levadas em conta. Ao contrário do que se espera, Salam encontra nestas conversas impostas por Assis uma oportunidade profissional.

Ele começa a se apropriar das ideias do militar e sugerí-las à equipe de produção, o que lhe proporciona aos poucos um lugar de destaque e confiança, tornando-o o roteirista principal. No entanto, o escritor novato vai precisar ter muita sabedoria para lidar com as perspectivas, com o ambiente conflituoso e dividido, mas, principalmente, com os anseios contrários dos investidores palestinos e do oficial israelense para o final da história. Será preciso muita sagacidade e criatividade para chegar a um resultado que satisfaça a todos.

Crédito: Samsa Film – TS Productions – Lama F… Productions.

“Tel Aviv em Chamas” torna-se uma produção especial ao conseguir transmitir através de sua trama e diálogos um ambiente de constante tensão, de opiniões inflamadas de ambos os lados, mas, acima de tudo, de ambições políticas e pessoais que estão presentes nas constantes falhas da personalidade humana que ao invés de auxiliar, só tornam os contextos mais difíceis para que a vida em comunidade seja possível. E tudo isso com um bom toque cômico. A cenografia e a fotografia da obra auxiliam a criar a atmosfera do humor oscilante dos personagens.

Na realidade, são elementos de extrema importância para induzir, ou transferir ao público as emoções daqueles personagens. Porém, certamente, de nada adiantaria sem a interpretação e a interação entre Kais Nashif e Yaniv Biton. Estes formam uma dupla única, capaz de transpassar diversas vezes a linha entre amizade e inimizade, entre colaboração e disputa, que acontece em um cenário repleto de manipulações que objetivam promover interesses particulares e também dos povos que os personagens ali representam. Pela sua extrema humanidade, no que há de melhor e pior, “Tel Aviv em Chamas” é uma abordagem diferenciada sobre o conflito e como opção cinematográfica promove entretenimento e reflexão.

Ficha Técnica:

País: Israel, França, Luxemburgo e Bélgica | Direção: Sameh Zoabi | Roteiro: Dan Kleinman e Sameh Zoabi | Elenco: Kais Nashif, Lubna Azabal, Yaniv Biton | Duração: 100 min. | Ano: 2018

Usagi Drop (うさぎドロップ): A vida é feita de escolhas

Por Edylene Severiano

Baseado no mangá homônimo, escrito por Yumi Unita e publicado mensalmente pela editora Shodensha, de 2005 a 2011, contado com 10 volumes, e transformado em animê em 2011, Usagi Drop (うさぎドロップ) é um longa live-action de 2011, que oferece uma narrativa sobre as vicissitudes da vida num universo em que existem crianças.

Dirigido por SABU (Hiroyuki Tanaka), com roteiro escrito por esse e pelo roteirista Tamio Hayashi, o filme poderia ser descrito por esta sentença, que, de tão clichê, chega a ser irritante: A vida é feita de escolhas. No entanto, o diretor a reinventa de maneira tão simples e suave quanto profunda, de modo a provocar um turbilhão de ressiginificações, possibilitando uma percepção mais sensível acerca da temática. Assim se desenvolve Usagi Drop, um filme sobre as dificuldades da vida diária, que traz o peso das escolhas e a descoberta da possibilidade da vida a partir da realidade da paternidade.

O filme conta a história de Daikichi (Ken’ichi Matsuyama), um trabalhador de escritório, de 30 anos, solteiro, que ao chegar no velório de seu avô se depara com uma garotinha, Rin (Mana Ashida), a quem se afeiçoa à primeira vista. Ao conversar com seus familiares, Daikichi descobre que a menina é filha ilegítima de seu avô. A interação entre eles se dá no momento de encerramento da cerimônia, quando então a Rin confirma com Daikichi que o vovô não acordará mais. Sensibilizado com a menina e a ideia de que sua família pretende enviá-la para um orfanato, Daikichi, então, vê sua vida mudar ao decidir tomar conta dela, contrariando o desejo de todos.

Crédito: 映画.com

O background de filmes yakuza de SABU parece querer evidenciar-se quando ele introduz uma pitada de humor, muito caricatural aos devaneios de Daikichi com uma modelo famosa. O drama segue assim um tom leve, com uma sutileza mantida não só pela paleta de cores como também pela trilha sonora delicada (com músicas de Takashi Mori e Shoko Suzuki).

Na reunião após o funeral de seu avô, Daikichi é confrontado por sentimentos que até aquele momento não poderia imaginar que seus familiares carregavam. Além de terem vergonha de Rin, pela idade do avô de Daikichi, mais de setenta anos, apontavam a menina como um fardo para a vida de todos; nem mesmo sua mãe, irmã da menina, dispusera-se a ficar com ela. Todos se mostravam incapazes de pensar em tomar a criança para si, num gesto de afeto para com um membro da família ou respeito pela memória do avô, inclusive sua irmã, uma professora primária, esboçava aversão a crianças, rejeitando Rin.

Na manhã seguinte à sua decisão Daikichi já sente o primeiro impacto: crianças precisam se alimentar, vestir, estudar, ter uma rotina. E com o passar dos dias manter o trabalho no escritório e Rin na creche se tornam incompatíveis. Daikichi segue fazendo ajustes, troca Rin de creche, acorda mais cedo, passa a usar tênis, para poder correr melhor durante o trajeto casa-creche-trabalho, mas a dificuldade e cansaço persistem, e as palavras de sua mãe quanto ao sacrifício que é necessário ao se escolher ter um filho continuam ecoando nele, fazendo-o questionar-se sobre sua decisão.

Crédito: 映画.com

Entretanto, certo de sua escolha, Daikichi opta por um rebaixamento de cargo, saindo do escritório de empresa e passando para o chão de fábrica. É, pois, aí que um universo novo é ofertado para Daikichi: o chão de fábrica é o lugar dos pais e mães que persistem em manter a vida profissional. Assim, SABU aprofunda-se no universo pais e filhos versus sociedade, revelando as dificuldades de adaptação dos pais em um mundo regrado para aqueles que não têm filhos; a isso soma-se o fato de Daikichi ser um pai solo.

A trama ganha mais emoção quando Yukari Nitani (Karina), a modelo por quem Daikichi delira sai de seus sonhos e entra em cena. Ela é mãe de Kōki (Ruiki Sato), de quem Rin é a amiga. As duas crianças dividem não apenas a não presença dos pais, mas também a consciência da ausência pela morte. A relação entre os pais vai sendo tecida pela dos filhos, Yukari auxilia Daikichi quando Rin fica doente e isso vai os aproximando até que os momentos a quatro, no retorno para casa, tornam-se rotina.

Enquanto tenta equilibrar suas vidas, entendendo as necessidades e sentimentos de Rin, Daikichi busca pela mãe de Rin e é confrontado por uma realidade que ele não cogitava: se ele, que não tinha nenhuma responsabilidade direta, para além dos laços sanguíneos, com Rin, decidiu abrir mão de sua vida para ficar com ela, como a própria mãe não estava disposta a fazê-lo? Masako Yoshii, essa é a única informação sobre a mãe de Rin. Daikichi então resolve procurá-la e, após contatá-la por e-mail, marca um encontro. Masako se apresenta como uma mangacá e afirma que, pensando em sua carreira, decidiu não ver Rin como sua filha e procurou não se afeiçoar à menina (o que justifica Rin ter dito a Daikichi que conhecia a Masako, mas não gostava dela, já que Masako parecia não gostar de si). Masako, por fim, pede a Daikichi que ele adote Rin, para que ela tenha o nome dele e não tenha problemas na escola, quando ficar mais velha.

Crédito: 映画.com

O pai de primeira viagem aos poucos compreende as palavras de sua mãe e segue com Rin aproximando-o de sua família, e de Yukari. No entanto, é a fuga das crianças da escola que sela o companheirismo entre quase casal, ambos recebem uma ligação da escola, em seus respectivos trabalhos, a respeito do desaparecimento de Rin e Kōki. Família e amigos partem à procura das crianças, sem sucesso. Desesperados os dois seguem para a casa de Daikichi, na esperança de que as crianças tenham ido para lá, mas, ao encontrarem a casa vazia, esmorecem diante do desespero.

Nesse ínterim, as crianças atingem seu objetivo, chegar ao túmulo do pai de Kōki. E ambos choram e se despedem de seus pais. Dor, tristeza, saudade, mas alívio. Todas essas emoções são lançadas por duas crianças de 6 anos. Ambas sentem a dor da compreensão de que um ente querido não vai mais voltar. Então as palavras do colega de chão de fábrica de Daikichi assumem o lugar central na narrativa: “Crianças são surpreendentemente sofisticadas por dentro. Elas só não têm palavras para expressar tudo que têm no coração”.

Rin e Kōki retornam, sãos e salvos. Alguns problemas são superados, outros passarão a existir, mas Daikichi segue firme em seu propósito de ter Rin em sua vida. O mundo de Daikichi parece ser dotado de vida apenas através de Rin. A própria relação de Daikichi com o pais e a irmã é avivada pela entrada de Rin em suas vidas. Usagi Drop pode, assim, ser visto como um filme que busca quebrar a esterelidade de um mundo que relega as crianças ao “punir” seus pais por elas existirem. As crianças não são uma imposição, mas sim um propósito para aqueles que as desejam em suas vidas.

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Crédito: 映画.com

Ficha técnica:

País: Japão | Direção: SABU | Roteiro: SABU e Tamio Hayashi | Elenco: Ken’ichi Matsuyama; Karina; Mana Ashida | Duração: 114 min. | Ano: 2011

REBELS OF THE NEON GOD: Juventude, divindades e chuva, muita chuva

Por Guilherme Gooda*

Tsai Ming-Liang debuta no cinema lançando o espectador dentro de uma Taipei em pleno movimento e recorta a vida de quatro jovens. O filme de 1992 Rebels of the Neon God, nome em inglês para o título 青少年哪吒 (ou Jovem Nezha em tradução literal), retrata a camada média da juventude de Taipei a partir de três personagens, vazios de objetivos e desejos enquanto vagam pelas ruas de uma noturna e chuvosa Taipei, iluminada pelo farol das motocicletas, letreiros de neon e gigantescos fliperamas. Para eles, Taipei é o começo e fim. Para onde mais iriam? O que mais eles conhecem? Sem carreiras, conexões, futuro, amor ou esperança. O filme retrata a irônica alienação e solidão que as mega-cidades proporcionam.

A começar pelo título, o nome original chinês sendo alterado para o Ocidente faz referência direta à uma divindade de cultura chinesa que por vezes é mencionada no filme. A história mitológica de Nezha (or Norzha na pronúncia taiwanesa) que é rejeitado por seu pai e se envolve em grandes problemas com outras divindades ao matar por acidente o filho de Ao Kuang, o general dragão condenando a China com chuvas e inundações, até decidir se oferecer em sacrifício para que o castigo fosse aliviado.

A narrativa do filme segue e atualiza em várias medidas o conto mitológico. Hsiao Kang (Lee Kang-sheng) estuda para as provas de vestibular mesmo sem ter muita ideia de para onde aquilo o levaria e sua falta de interesse pelos estudos gera conflito com o pai. Hsiao Kang planeja então abandonar o curso e pegar o dinheiro da rescisão sem comunicar aos pais. Enquanto isso Ah Tze (Chen Chao-jung) rouba moedas de cabines telefônicas para passar a madrugada em um fliperama junto com um amigo. 

Crédito: qelle.tumblr.com

Ah-Kuei (Wang Yu-wen), uma garota que trabalha um ringue de patinação, pede uma carona para Ah-Tze e então os dois personagens iniciam uma conversa e um relacionamento. Na primeira cena de contato entre três dos personagens centrais:  Hsiao Kang dentro de um táxi guiado por seu pai, acompanha com o olhar Ah-Tze e Ah-Kuei, passeando pelas ruas de Taipei em uma motocicleta. Hsiao Kang sente um misto de inveja e admiração por Ah Tze. 

Os dois personagens são bastante diferentes, enquanto o primeiro é mais reservado e introspectivo e mesmo infantil o segundo parece mais aventuresco, destemido e rebelde. Tais características são refletida na diferença do veículo dos dois: enquanto Hsiao Kang anda em uma scooter, Ah Tze tem um moto esportiva e uma garota na garupa,  não esconde a inspiração do diretor Tsai Ming-Liang no clássico “Rebel without a cause” (1955, Nicholas Ray), compartilhando a mesma temática de conflito de gerações e referências mais óbvias como um pôster do filme na parede da casa do protagonista, Ah Tze é um novo tipo de James Jean agora atualizado aos anos 90. 

Hsiao-Kang fica então obcecado pela vida de Ah Tze e começa a seguí-lo em toda parte sem o outro note, gerando certa atmosfera de suspense que é agravada pela sempre noturna Taipei. Os poucos diálogos do filme e a discrição de Hsiao-Kang em revelar sua motivação instigam o espectador, existe certa melancolia no personagem uma vez que Hsiao-Kang persegue os outros personagens (sentando bem em frente deles em uma cena), mas completamente invisível, mescla-se a isso um sentimento de repulsa por um personagem um tanto bizarro, que como o voyeur acompanha a vida alheia.

Crédito: http://moviemezzanine.com/rebels-of-the-neon-god

Acompanhando o personagem central, mergulhamos em regiões ocultas da cidade: vemos o interior de um shopping, restaurantes e  arcades, mas também corredores, quartos de hotel e banheiros públicos. Rebels of the Neon God é também um filme sobre a cidade de Taipei, não observando apenas a superfície, tal característica do diretor Tsai Ming-Liang se repete em outras obras familiarizando o espectador com cada canto de uma sempre viva e mutável cidade. 

 O filme é um recorte de realidade onde os personagens são  apresentados ao espectador sem que haja julgamento prévio de suas ações, abrindo a interpretação alguns podem pensar como o pai de Hsiao Kang que  pertencendo a uma geração anterior julga que o filho seja um inútil por se negar a estudar; outros podem levar a interpretação para certo fatalismo entendendo que o desfecho dos personagens não poderia ser diferente. Como Ah Tze, alguns podem ainda ter a esperança de saírem em suas motocicletas e buscarem uma vida ideal fora da cidade, um sentido de fuga jovem de quem experimenta o fracasso talvez pela primeira vez. 

As reações e os dramas da juventude são abordados na obra porém sem a alegria, o otimismo e a leve ingenuidade com a qual ela costuma ser abordada no cinema. Rebels of the Neon God é um filme cru que dialoga justamente com a ânsia do jovem que ao se perceber “inútil e fora do lugar” abraça o entretenimento como forma de rebeldia e mesmo como escape.

“Jovens sendo jovens” alguém poderia dizer, mas se tratando de uma obra oriental usaremos uma parábola oriental para descrevê-lo: “Lá estão os cavalos, com seus cascos para pisotear a neve e gelo, e sua pelagem para que se mantenham aquecidos do vento frio. Comendo grama e bebendo, saltitando e correndo – esta é a natureza dos cavalos. Mesmo grandes salões, ou elegantes terraços nada disso tem uso para eles.” 

Ficha técnica: 

País: China  | Direção: Tsai Ming-Liang | Roteirista: Tsai Ming-Liang | Elenco: Chen Chao-jung,  Jen Chang-Bin,  Lee Kang-sheng  | Duração: 106min | Ano: 1992

* Guilherme Gooda é doutorando em Comunicação pela UNESP-Bauru (2019-), onde pesquisa produções midiáticas do leste asiático em especial as chinesas, e mestre pela mesma instituição (2016-2018). Graduado em Letras (português-mandarim) na FFLCH-USP. Suas pesquisas envolvem a atualização do imaginário popular e a sobrevivências das imagens, bem como as relações Brasil-China em diversas esferas.