Bungee Jumping of their own: as diversas faces de almas gêmeas

Por Mayara Araujo

Até que ponto iríamos para estar com a nossa alma gêmea? Será que o amor pode ser um sentimento que ultrapasse as barreiras do corpo físico? O quanto estamos dispostos a arriscar para estar com a pessoa amada? Essas e outras importantes questões são introduzidas na mente do espectador na obra Bungee Jumping of their own, longa lançado em 2001, do diretor Kim Dae-Sung. O filme poderia recorrer aos clichês do gênero melodrama, mas acaba por trilhar caminhos mais obscuros ao enfrentar os tabus sociais a respeito da homossexualidade na Coreia do Sul.

O enredo parece simples: In-woo (Lee Byung-hun) e Tae-hee (Lee Eun-ju) acabaram de entrar na faculdade e ambos não acreditam na ideia de amor à primeira vista. No entanto, acabam se apaixonando dessa forma e se envolvendo em uma relação profunda e verdadeira que pareceria ser capaz de durar para sempre. No experienciar da juventude do casal, eles prometem selar esse amor eterno com um salto de bungee jump em um famoso pico da Nova Zelândia. Enquanto isso, nós, como espectadores, também somos levados a acreditar que esse amor – comum e heterossexual – sobreviveria às mazelas do tempo e poderia se tornar duradouro.

Acontece que sem nenhuma espécie de aviso prévio para o público, somos transportados até o futuro. Dezessete anos mais tarde, nos encontramos mais uma vez com In-woo, agora mais velho, formado e professor de uma escola de ensino médio. Ele tem uma filha ainda pequena e está casado – com uma mulher que não é Tae-hee. 

Crédito: theeast.org

Essa nova realidade nos leva inevitavelmente ao seguinte questionamento: o que aconteceu com Tae-hee? Rapidamente, a narrativa do filme tenta nos ajudar a respondê-la, quando um dos estudantes de In-woo, Im Hyun-bin (Yeo Hyun-soo), indaga o professor sobre o seu primeiro amor. Com as memórias ainda vívidas, In-woo percebe que ainda tem sentimentos por Tae-hee, mesmo depois de tantos anos, e passa a investigar o paradeiro de sua amada. Renasce, assim, a sutil esperança de reencontrá-la.

A partir desse ponto que a graça e as nuances do filme de Kim Dae-seung se apresentam sob o desenrolar de um estranho mistério que, por vezes, poderia até mesmo ser considerado sobrenatural. Na medida em que a trama se desenvolve, estranhas situações envolvendo o estudante Im Hyun-bin, de dezessete anos, acontecem. Itens outrora pertencentes à Tae-hee reaparecem nas mãos do rapaz. Observar essas inusitadas situações, impotente e sem entender o que está acontecendo, vai levando In-woo ao limite do bem-estar emocional e da confusão mental.

Afinal, quem é o jovem Hyun-bin e por que ele parece estar diretamente conectado ao seu professor? Nesse momento, Hyun-bin também parece estar sendo levado para uma trama que ele não entende, a partir do descobrir de seus próprios sentimentos. Assim, o rapaz encerra o seu relacionamento com sua namorada de outra classe e, cada vez mais, se vê envolvido com In-woo, mesmo sem entender as razões e tendo que lidar com o desconforto da desconfiança e olhares jocosos advindos dos colegas de classe e do corpo docente.

Crédito: Buena Vista International Korea

Por outro lado, In-woo passa a questionar a própria vida. Ele ainda amava sua esposa? Ou melhor, ele ainda a desejava? O que estaria havendo, afinal, com a sua própria identidade sexual? Desesperado, In-woo chega até mesmo a buscar ajuda médica no intuito de descobrir se existe algum desvio. É nesse ínterim que o filme apresenta a sua verdadeira face: aquela que lida e desafia os preconceitos com a comunidade LGBT na Coreia do Sul. Para além do drama e do romance existentes na trama, sua verdadeira mensagem diz respeito a uma contundente crítica social à discriminação que permeia as diversas camadas da sociedade sul-coreana. 

Cabe aqui ressaltar que a Coreia do Sul é um dos países que nem sequer reconhece casamentos ou união estável de pessoas do mesmo gênero. Em 2014, alguns membros do Partido Democrata chegaram a apresentar à Assembleia Nacional um projeto de lei que legalizaria o relacionamento LGBT, no entanto, isso nem sequer foi levado a votação até os dias atuais. O máximo da conquista dessa comunidade aconteceu em 2019, quando o governo sul-coreano anunciou que reconheceria cônjuges do mesmo gênero de diplomatas estrangeiros que fossem para a Coreia do Sul, mas que não reconheceria o casamento entre diplomatas homossexuais sul-coreanos, ainda que residam e trabalhem no exterior.

Após a situação se tornar caótica e repleta de rechaços, In-woo é finalmente demitido da instituição. Confuso sobre a situação, ele decide ir embora para a Nova Zelândia para realizar o sonho que construiu com sua amada Tae-hee. Imediatamente em seguida, ele é acompanhado pelo estudante Hyun-bin até a estação de trem, onde sua verdadeira face finalmente se revela. No reflexo do trem, vemos a imagem de Tae-hee se aproximando de In-woo. 

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Crédito: gayhf.com

De volta ao passado, o paradeiro de Tae-hee é revelado. Em uma noite, indo ao encontro de In-woo, Tae-hee sofre um terrível acidente e morre no ato. Dezessete anos mais tarde, em um lindo e sensível diálogo entre Tae-hee, agora no corpo de Hyun-bin, e In-woo o mistério é resolvido. “Eu demorei muito para chegar”, diz Hyun-bin. “Você chegou no momento certo”, responde In-woo. Assim, os dois se encaminham para o destino final na Nova Zelândia.

Ao término do filme, In-woo e Tae-hee vivendo sob a carcaça de Hyun-bin, cometem o seu ato dramático de amor final, ao pularem sem nenhum equipamento de Bungee Jump. Agora, quem se comunica são apenas almas que vagam sobre um riacho: “eu prometo voltar mulher na próxima vida”, diz Tae-hee. “E se eu voltar mulher também?”, Indaga In-woo. “A gente tenta de novo”, responde. 

Crédito:  moviefit.me

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Kim Dae Seung | Roteiristas: Ko Eun Nim | Elenco: Lee Byung Hun, Yeo Hyeon Soo, Lee Eun Ju, Hong Su Hyeon, Jeon Mi Seon, Chang Suk Won | Duração: 100 min | Ano: 2001

A crítica poética em “Eungyo – A Musa”, de Jung Ji Woo

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas / KoreaPost)

Atualmente é difícil encontrar produções cinematográficas coreanas que tenham uma conexão com a literatura, no que diz respeito a sua trama e os demais elementos de um filme como a fotografia, figurino e locações. “Eungyo – A Musa”, do diretor e roteirista Jung Ji Woo, baseado no romance de Park Bum Shin, lançado em 2012, é um exemplo de um filme que discorre sua narrativa, e até sua mensagem, de forma poética; quem sabe até visando tornar-se uma poesia.

Junto a esta beleza cinematográfica/literária, temos uma crítica à atual sociedade movida pela tecnologia e todas as facilidades que ela proporciona. Esta mesma que faz questão de criar uma juventude sequiosa por fama e sucesso, fazendo o que tiver de ser feito para alcança-los. Afinal, ser famoso e bem-sucedido é sinônimo de status e respeito, que devem ser obtidos sem grande esforço e à “toque de caixa”. Desta forma, pode-se resumir as ambições que traçam as características negativas do jovem do início do século XXI.

A criação e a inspiração genuínas já fazem parte de um passado não muito longínquo, onde estas podiam existir, pois tinham artistas, escritores e etc. que basearam suas vidas perseguindo-as, no intuito de criar uma nova obra prima. Hoje tudo se copia, como também se rouba, no objetivo de se chegar a condição de grande escritor de forma rápida, como muito bem é apresentado em mais esta produção coreana.

Crédito: AsianWiki

“Eungyo – A Musa”, como todo bom filme sul-coreano, não foge de uma temática polêmica e apresenta um triangulo amoroso entre um escritor idoso e famoso, de 70 anos, Lee Juk Yo (Park Hae Il), uma jovem (sua musa e inspiração) de 17 anos Han Eungyo (Kim Go Eun) e seu jovem discípulo/assistente Seo Ji Woo (Kim Moo Yul). No entanto, este amor proibido serve apenas de fachada para as verdadeiras intenções do diretor. Em uma época repleta de guardiões da boa moral e dos bons costumes, é importante frisar que apenas focar sua atenção na pretensa imoralidade desta “relação” pode-se perder a essência de um filme que tem muito a dizer e promove diversos momentos cinematográficos inesquecíveis.

Nosso trio romântico é formado por indivíduos extremamente solitários e, provavelmente, carentes. O escritor Lee Juk Yo, imerso em uma vida enfadonha, morando em uma casa distante dos grandes centros urbanos, tem a companhia do seu aprendiz Seo Ji Woo. Este é um aspirante a escritor, formado em engenharia, sem talento algum para a escrita. Ele se dedica inteiramente ao seu mestre, a quem diz considerar como pai, mas, logo se percebe, que o tutor não passa de uma fonte de criação, em que o jovem busca absorver todo o talento que lhe falta e finalmente lançar-se à fama.

Ele assim consegue, já que seu mestre concorda em ser um escritor fantasma para a obra que terá grande reconhecimento e torna conhecido o nome de Seo Ji Woo. O verdadeiro autor não se importa e espera que seu discípulo possa, depois desta primeira “conquista”, seguir sozinho e criar suas próprias histórias. É interessante perceber que o aprendiz nunca retribui todo o esforço do mestre, inclusive contribui para a condição de peça antiga, pertencente ao passado que a sociedade quer impor-lhe, e que o tutor tanto odeia.

Crédito: divulgação

É ele que auxilia um grupo a conseguir uma reunião com seu mentor para construírem um museu sobre sua vida. Obviamente que a oferta é recusada e com uma fala, o personagem deixa explicito que nunca tinha visto um museu ser construído para pessoas ainda vivas.

Um dia a jovem Han Eungyo aparece do nada na casa de Lee Juk Yo, e é contratada pelo assistente para limpar a casa do escritor. Ela visivelmente é uma típica musa Lolita, que, de primeira, conquista os sentimentos do mestre, tornando-se a sua inspiração para elaborar uma obra prima. Um conto poético, em que o escritor idoso busca retornar à juventude perdida e viver um amor não proibido com Eungyo.

Na figura dela, o grande escritor deposita toda uma fantasia de pureza e inocência. Tais características estão representadas através das vestimentas que a personagem feminina usa ao longo do filme, que vão de tons claros a brancos; além de uma fotografia onde a luz sempre incide sobre ela, dando-lhe um aspecto, em alguns momentos, de figura sagrada, de uma jovem intocada. A forte relação estabelecida entre ela e o escritor, cujo grau de intimidade vai aumentando aos poucos, leva o discípulo a criar um sentimento de apreensão e raiva por Eungyo.

Crédito: divulgação

As passagens íntimas entre o escritor idoso e a menina dão-se através de enquadramentos de câmera que revelam detalhes, como o momento em que Lee Juk Yo olha dentro de suas cobertas e a encontra dormindo, encostada em suas coxas. São duas figuras extremamente solitárias e que desejam intensamente convivência e carinho. As ótimas interpretações dos três atores transmitem muito bem estes sentimentos de sentir-se só e de tristeza. Kim Go-eun foi bastante premiada por este trabalho, fazendo de “Eungyo- A Musa”, o filme que impulsionou a sua carreira e a tornou uma atriz digna de produções intelectualmente mais sofisticadas.

Seo Ji Woo encontra o conto no baú de madeira do escritor e publica-o em seu nome. Com isso, ele acaba conquistando o grande prêmio literário da Coreia e provoca a ira de Lee Juk Yo. Finalmente o mestre consegue enxergar o discípulo como ele realmente é: um parasita. Assim, Seo Ji Woo é proibido de conviver com o escritor, mas em seguida é perdoado.

Contudo, o aprendiz não vai deixar de cometer novos atos de traição. Ele seduz a jovem solitária no escritório de seu mentor, que assiste ao ato sexual pela janela, do lado de fora da casa, suspenso em uma escada. A raiva do escritor é tal que ele fura o pneu do carro de Seo Ji Woo e estraga as engrenagens do seu próprio veículo, almejando com isso que o assistente sofra um acidente mortal.

VDMovie] Eungyo: A Musa - Resenha | Vida de Dorameiro Amino
Crédito: filmow.com

Tal reação deve-se ao rancor que Lee Juk Yo sente pela perda da inocência de sua musa, que teve sua pureza roubada por alguém tão vil. Eungyo por fim percebe que foi enganada e, em uma cena emocionante, agradece o amor recebido em um conto que a descreve de uma forma que ela nunca tinha considerado poder ser anteriormente. Por um momento, a solidão de ambos é aplacada e o carinho afaga temporariamente a tristeza e a carência de duas figuras puras e genuínas. “Eungyo – A Musa” é uma crítica poética à juventude que perdeu a habilidade de criar e sentir e vale o seu tempo para assisti-lo.

Ficha técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Jung Ji Woo | Roteiristas: Park Bum Shin (novela), Jung Ji Woo | Elenco: Park Hae Il, Kim Go Eun, Kim Moo Yul | Duração: 129 min | Ano: 2012

A Sun: os (in)visíveis laços do amor familiar

Por Mayara Araujo

Dramas familiares são sempre plots com grande potencial de conquistar o envolvimento emocional do público. É com a premissa de uma família transformada após a prisão de seu caçula e sucessivas pequenas tragédias cotidianas que A Sun, de Chung Mong-Hong, nos convida de forma cálida a refletir sobre os laços e o amor que nos une.

Chocante em sua primeira cena, o filme é aberto com o acontecimento de um crime: dois jovens entram em um restaurante e cortam a mão de um dos clientes. Logo em seguida, somos transportados para as consequências de tal ato, no julgamento dos rapazes: o adolescente A-ho (Wu Chien-Ho) e o jovem-adulto Raddish (Liu Kuan-Ting). Antes de decretar a pena, o juiz solicita a opinião do pai de A-ho sobre a punição. No entanto, A-wen (Chen Yi-wen) não comparece ao julgamento para ir trabalhar, causando constrangimento a família. Ao finalmente comparecer, A-Wen surpreende mais uma vez, ao pedir que a pena de seu filho seja dura e que o filho fique no reformatório por muitos anos. 

A dureza com que o pai condena o próprio filho, apesar das súplicas da mãe, a sra. Qin (Samantha Ko), revela a natureza ainda mais brutal do que qualquer cena de violência explícita poderia ilustrar. De fato, a naturalidade com que os membros da família tentam levar a vida após esse evento é incômoda. No entanto, situações externas os impedem de viver em total normalidade: o pai da vítima de A-ho e Raddish passa a frequentar o ambiente de trabalho de A-wen para cobrar uma indenização, a Sra. Qin é surpreendida com a visita de uma mãe desesperada e de sua filha de 15 anos que alega estar grávida de A-ho, e A-hao (Hsu Greg), o filho mais velho e visivelmente o preferido, ao invés de continuar os seus estudos para prestar o vestibular de medicina e ser o responsável por ‘prover’ sua família de alguma forma, passa a ter uma rotina pouco clara. 

Crédito: devotudoaocinema.com.br

Com um céu que gradativamente vai se enchendo de nuvens em uma noite, trazendo as sombras como um eixo que guiarão o filme daqui por diante, o segundo ato é demarcado com mais um acontecimento desestruturador para a família Wen: o inexplicável e surpreendente suicídio de seu primogênito. Em jogadas de luz sempre luminosas para conduzir os passos de A-Hao, a vida parece ter se tornado mais pesada do que ele pôde suportar, impulsionando-o para um escape pela penumbra. 

Ironicamente, foi a vida do filho “perfeito” que se encerrou de forma dramática. Por outro lado, A-ho, o filho “imperfeito”, que mal consegue se comunicar com o próprio pai, se torna, então, responsável por sua própria existência e com a difícil missão de “ser melhor”. Ao sair do reformatório, agora casado com a adolescente que decidiu dar à luz ao seu filho, o personagem amadurece e até mesmo “embrutece”, ao ter que dar conta da dura realidade de alguém que saiu de uma prisão e todos os preconceitos que isso implica.

Embora A-ho tenha conseguido um emprego em um lava-jato e, para complementar a renda, em uma loja de conveniência nas madrugadas, isso parece ser insuficiente para aproximá-lo do próprio pai. A falta de comunicação entre os dois personagens é brilhantemente representada por atuações muito sensíveis, causando empatia imediata com o espectador, acompanhada de certo desconforto ao observá-los.

Crédito: jornalcruzeiro.com.br

No entanto, para o infortúnio de A-hao, seu passado parece não dar sossego ao cotidiano presente. Nisso, Raddish ressurge em cena, convocando-o para trabalhos criminosos. Sua insistência e constantes ameaças leva A-Hao ao limite do não ter escolha. Embora tente desviar desse caminho, o caminho desviante parece retornar para deixá-lo encurralado. 

É justamente no “retorno” involuntário ao crime que direciona o ato final do filme. De maneira surpreendente, é seu pai, A-Wen, que assume a heroica liderança de “salvar” o seu filho imperfeito. Para isso, ele está disposto a também desviar do caminho da legalidade e cometer o maior de todos os crimes. Assim, em uma noite, A-Wen segue Raddish e o filho e se incumbe de proteger seu amado e imperfeito filho na penumbra. Ao vislumbrar a possibilidade de estar com Raddish sozinho, A-Wen comete o crime, garantindo que A-Hao se liberte da terrível situação em que se encontrava e possa, finalmente, viver com sua nova família em paz.

Indicado a 11 categorias no 56th Golden Horse Awards – uma espécie de Oscar para filmes falados em chinês, da província de Taiwan –  e levando as premiações de melhor filme e de melhor diretor. Ainda assim, a narrativa parece se alongar demais em seus 156 minutos de duração, tornando a experiência cinematográfica um pouco arrastada ao demorar a entregar o desfecho da trama. O que nos segura, no entanto, é uma certa cumplicidade velada com a qual o espectador se encontra envolvido com os personagens. Imperfeitos em sua natureza, a família nos emociona justamente por seus laços completamente falhos e tremendamente humanos. 

A Sun - 24 de Janeiro de 2020 | Filmow
Crédito: filmow.com

Ficha Técnica:

País: China (Taiwan) | Direção: Mong-Hong Chung | Roteiristas: Chung Mong-hong, Chang Yao-sheng | Elenco: Wu Chien-Ho; Wen Chen-Lin; Samantha Ko; Chen Yi-Wen; Liu Kuan-Ting; Hsu Greg | Duração: 156 min | Ano: 2019

The Witness: um triste retrato da indiferença

Por Mayara Araujo

Desde o merecido Oscar de Parasita e a recente pandemia de COVID-19 que tem impossibilitado o amplo acesso às salas de cinema, a plataforma de streaming norte-americana, Netflix, tem nos brindado com catálogo relativamente diverso de filmes sul-coreanos. Esse é o caso da inserção de The Witness, do estreante Jo Kyoo-Jang que entre altos e baixos traz a ácida crítica da indiferença com a qual a sociedade contemporânea lida com as relações humanas.

Com um roteiro extremamente simples, a narrativa traz o olhar de Sang Hoon (Sung-min Lee), que ao chegar do trabalho em uma madrugada, acaba testemunhando um brutal assassinato de uma moça através de sua janela. Antes que pudesse denunciar o acontecimento, sua esposa acorda no meio da noite e acende as luzes, chamando a atenção do assassino do lado de fora, que imediatamente nota Sang Hoon. Assustado ao ser percebido, Sang Hoon deixa de denunciar o crime para a polícia e passa a viver acuado com a possibilidade de ser encontrado e com o bem-estar de sua família.

Esses minutos iniciais da trama marcam o início de uma perseguição implacável que nosso protagonista passará a experienciar, na qual tudo o que parece importar é a sua própria segurança e a de seus entes-queridos. Para isso, San Hoon estará disposto a se calar, a mentir sobre a verdade e a ignorar a dor da perda dentro de sua própria vizinhança. 

Crédito: BrazilKorea.com

Na manhã seguinte, o corpo da vítima é encontrado e o detetive Jae-Yeob (Kim Sang-Ho) assume o caso. Para isso, Jae-Yeob passa a interrogar os moradores do complexo residencial para tentar localizar o criminoso. No entanto, ele se depara com a fria indiferença da maior parte dos moradores e uma preocupação exclusiva com a possível alteração no valor dos imóveis devido a má fama da região.

Enquanto isso, o assassino Tae-ho (Kwak Si-yang), sempre à espreita, atua como um verdadeiro stalker, mapeando e vigiando as testemunhas para garantir que não seja pego. Assim, intimida o protagonista, comete outro assassinato, bem como manda “mensagens” horripilantes – como matar um animal de estimação e enviar sua cabeça para os donos – no intuito de controlar a situação.

O filme se perde pelo meio do caminho ao enfatizar excessivamente na atmosfera de thriller e preterir o roteiro. A violência, típica da estética cinematográfica sul-coreana, chega a incomodar, visto que se sobrepõe à narrativa e torna o passar dos minutos um tanto quanto arrastados. 

Crédito: canaltech.com

As motivações de Tae-ho não são explicadas na trama, falta aprofundamento em sua personalidade e o seu passado não é revelado. Não há nuances em sua apresentação, tornando-o um vilão meramente vil. De fato, o roteiro carece de “nós” que deixariam a história mais envolvente e bem amarrada.

Mais para o término, Sang Hoon e detetive Jae-Yeob conseguem agir em alguma sintonia, visto que ambos possuem o objetivo em comum de impedir que o assassino continue à solta. Grotescamente, é Sang Hoon que consegue limitá-lo e levar Tae-ho para de trás das grades. Assim, nosso protagonista finalmente alcança a paz necessária para continuar vivendo com sua família – agora em outra vizinhança. 

Ainda assim, de forma irônica, o filme é encerrado da mesma forma que começa: no pátio do complexo residencial, com Sang Hoon, agora transformado por suas últimas experiências, gritando por socorro no meio da noite. Ele aguarda que as luzes acendam e que alguém venha averiguar o que está acontecendo, principalmente depois de traumáticos assassinatos ocorridos na vizinhança. E se choca, em uma brilhante atuação de Sung-min Lee, ao perceber que nada mudou e que ninguém acenderá a luz, revelando, por fim, a total indiferença com o bem-estar do outro.

Crédito: sessaosemedo.com

Sem dúvida, o que The Witness traduz não passa de um retrato triste da sociedade contemporânea, que vive os seus dias fechada dentro de suas próprias bolhas e com uma cruel falta de empatia com a vida dos outros. 

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Jo Kyoo-Jang | Roteirista: Lee Young-jong | Elenco: Lee Sung-min, Kim Sang-ho, Jin Kyung, Kwak Si-yang  | Duração: 111 min | Ano: 2018

O veterano: os vícios de uma sociedade corrompida e altamente hierarquizada

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas / KoreaPost)

Muitos pensadores socialistas concordam com a ideia de que o sistema capitalista utiliza da estrutura política e socioeconômica tradicional, pode-se dizer até arcaica, de um grupo social específico, ou até uma nação inteira, em favor dos seus objetivos. Isso quer dizer exatamente o que? Um bom fato histórico para exemplificar a colocação acima foi a escravidão no Brasil. Esta estrutura de exploração do trabalho a custo zero com a mão-de-obra braçal rendeu diversos benefícios ao sistema capitalista mundial.

Como diria o autor Eric Williams“foram as plantações trabalhadas por escravos que fizeram crescer o volume do comércio intercontinental, estimularam o desenvolvimento de todo um conjunto de indústrias de transformação (desde o refino de açúcar até as primeiras fábricas de tecido de algodão) e tornaram alguns portos atlânticos em prósperos comerciais”.

Na Coreia do Sul, o sistema certamente faz adaptações à cultura local, mas a sua essência não é em nada modificada: a exploração da força de trabalho, com o menor custo. Certamente, em um período mais avançado do mundo pós-moderno, os alicerces desta estrutura exploradora necessitam ser mais sofisticados e complexos, no intuito de impossibilitarem a sua mais fácil compreensão, em especial para as camadas mais pobres.

Crédito: IMDB

A Coreia é conhecida por sua sociedade com valores tradicionais, de respeito, ou quase submissão aos mais velhos, da honra adquirida pela dedicação total ao trabalho e à comunidade, ao país. Tratam-se de características seculares da sociedade coreana. De um ponto de vista ocidental, estes elementos parecem, à primeira vista, bastante nobres, e, em boa parte dos acontecimentos realmente o são. No entanto, eles escondem também um cenário bastante triste e assustador de abusos, total desrespeito ao ser humano e de exploração máxima dos que menos detêm voz para contestar qualquer situação injusta.

Mais do que isso, esta estrutura de valorização do esforço dedicado ao trabalho, do respeito aos mais velhos, ou aos mais experientes, ou de cargo superior dentro de uma empresa, na realidade, também existem, com o objetivo de não fazer com que algumas questões sejam melhoradas, ou modernizadas. Desta forma, a elite, governante do país há décadas, continua a auferir dos lucros que esta estrutura de poder rende-lhe, em uma exploração e praticamente escravista à forma moderna do trabalhador sul-coreano, legalizada e aceita pelos próprios coreanos.

Assim, criam-se ideias românticas, como a de mães heroínas que obtêm três empregos para que os filhos possam entrar para a melhor faculdade, e vai-se aprofundando a desigualdade social, sem que o trabalhador possa perceber o quanto, na realidade, é explorado. Contudo, há momentos que esta farsa toda é rompida e a realidade, por alguns segundos, vem à tona. E estas oportunidades normalmente ocorrem à partir daqueles que ousam contestar tudo e tomar atitudes concretas. E este cenário que está por traz do filme “O Veterano” (2015), dirigido por Ryoo Seung Wan.

Crédito: IMDB

Certamente, não se quer afirmar neste texto que o diretor e os demais criadores desta produção cinematográfica necessariamente leram Karl Marx para contar esta história, mas o artista com uma sensibilidade acima do normal e observador do seu cotidiano, consegue compor e descrever melhor uma situação do que muitos pseudo-intelectuais, pretensamente “mestres do universo”, que existem nas universidades, mídia e outros locais… Neste enredo, o detetive Seo Do Cheol (interpretado por Hwang Jung Min) é uma espécie de policial totalmente “fora da curva”, que segue poucas regras, não obedece a superiores mas é implacável com o crime.

Um dia ele atende a ocorrência do motorista Bae, (vivido por Jung Woong In) que parece ter tentado suicídio ao perder uma reivindicação de pagamento de salário, após o encerramento de contrato com o grupo de motoristas por serem sindicalizados. Mas a sagacidade do detetive o faz desconfiar do jovem milionário, arrogante e herdeiro do poderoso conglomerado Sinjin Group Jo Tae Oh (que toma vida na pele do maravilhoso e jovem ator Yoo Ah In, um ator de personalidade já bastante polêmica e provocativa na vida real). O policial percebe que Bae provavelmente foi espancado e atirado de uma escada, em prédio com vários andores pelo filhinho do papai, sem limite algum. No entanto, não importa o quão rigorosamente a equipe de Seo o persiga, Jo sempre escapa com a ajuda de sua riqueza e conexões.

De todos os fatores que seria possível citar sobre esta obra, que passou a ser a quarta maior bilheteria da história do cinema coreano, estão as interpretações, a narrativa, o conjunto de planos filmados e a montagem que utiliza do clássico formato de contar uma história do fim para o início e explora a criação de cenas especiais para ilustrar as teorias do detetive e as mentiras do jovem riquinho, nas colocações de ambos do que venha a ter realmente ocorrido. Com um elenco secundário de primeira linha que dá toda a sustentação dramática para a trama, “O Veterano” brilha neste quesito, entretendo e provocando indignação e reflexões.

O motorista Bae, interpretado por Jung Woong In. Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Estão no filme atores do calibre de: Yu Hae Jin (que interpreta o diretor Choi, o responsável por encobrir tudo que ocorre, ou Jo Tae Oh faz); Oh Dal Su (vive chefe da equipe policial de Seo); Song Young Chang (é o presidente do conglomerado e pai de Jo); além de Bae Sung WooJeong Man Sik e Cheon Ho Jin. Hwang Jung Min e Yoo Ah In fazem uma dupla maravilhosa, que em situações de violência física e verbal, exploram tanto a crueldade e seriedade das situações, quanto o caráter cômico dos personagens, ambos de personalidade bastante explosiva, capazes de chegar a extremos, até ao ridículo.

Yoo Ah In lembra muito filhos de ricos brasileiros que cometem atrocidades, até matam pessoas, e jamais são presos. E Hwang Jung Min é aquele servidor público, aquele policial praticamente em extinção, que nasceu para exercer esta função e que tem o senso de perceber as situações, enquanto a maioria de seus colegas seguem caminhos tradicionais e mais fáceis. Com métodos até antiquados, o detetive faz de tudo para fazer valer a lei, mas é uma peça única em uma estrutura burocrática bastante hierarquizada e corrompida.

Em parte, as boas performances devem-se, acima de tudo, à construção narrativa de Ryoo Seung Wan, que como de costume na Coreia, tradicionalmente mistura diversos gêneros, em especial ação, situações cômicas, violentas e de um certo suspense, gerando aquela obra policial que faz o espectador acompanha-la até o final, sem pegar no sono, e consegue ao mesmo implantar uma semente de indignação importante. Nela ainda se pode observar aquela capacidade bastante peculiar do coreano de rir da própria desgraça, algo que tem em comum com o brasileiro, até certa medida. “O Veterano” está disponível na Netflix e deve contar na sua lista de filmes coreanos a assistir, se por acaso ainda não o fez.

Yu Hae Jin interpreta o diretor Choi. Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Ryoo Seung Wan | Roteiro: Ryoo Seung Wan | Elenco: Yoo Ah In, Hwang Jung Min, Yu Hae Jin, Oh Dal Su, Jung Woong In, Song Young Chang, Jeong Man Sik | Duração: 122min | Ano: 2015.

Signal: quando o passado e o presente se entrelaçam em uma complexa narrativa de perseguição

Por Mayara Araujo

Histórias nas quais as temporalidades se conectam e promovem uma série de modificações no tempo presente ou futuro não são pouco usuais. Em uma referência um pouco mais clássica da ficção científica, poderíamos citar a trilogia De volta para o futuro, dirigido por Robert Zemeckis. Em 2004, observamos o sucesso de bilheteria de Efeito Borboleta. Até mesmo dramas românticos que intercalam temporalidades foram criados, como Questão de tempo em 2013. A própria série alemã Dark é um complexo e instigante prato cheio para aqueles que se interessam pela temática. No entanto, poucas narrativas foram tão bem estruturadas e repletas de emoção como observamos no drama de televisão sul-coreano, Signal, exibido pela tvN em 2016. Antes de prosseguir, é importante deixar escrito que esse K-drama vai levar o seu sono embora ao longo dos alucinantes 16 episódios.

Nas últimas décadas, observamos o levante cultural da Coreia do Sul através de sua música pop (K-pop) e seus dramas de televisão (K-dramas), que tem conquistado uma expressiva audiência global e se tornado pauta de discursos midiáticos e trabalhos acadêmicos. Recentemente, com o estrondoso sucesso de Parasita de Bong Joon-Ho que conquistou diversos prêmios cinematográficos, dentre os quais o Oscar de melhor filme, também tem colaborado para pluralizar e complexificar as imagens que circulam da Coreia do Sul além-mar. Nesse sentido, produções televisivas como Signal, que fogem à lógica dos K-dramas com roteiros majoritariamente centrados em um romance, se destacam no catálogo da Netflix brasileira. 

A quinze anos atrás, uma criança foi sequestrada e, dias depois, foi encontrada morta. A polícia não conseguiu resolver esse crime. No entanto, Park Hae Young (Kim Hyun Bin), a versão ainda criança do protagonista, viu a mulher que havia levado sua colega de classe embora. A polícia não lhe deu ouvidos. Em paralelo, seu irmão de 18 anos é acusado de um crime que ele acredita ser impossível de ter cometido. Após cumprir sua pena, Park Seon Woo (Chani) comete suicídio. Desde então, Park Hae Young não confia nas forças policiais sul-coreanas. Quinze anos depois, em 2015, nos encontramos novamentes com Park Hae Young (Lee Je Hoon), um policial cuja especialidade é fazer um perfil psicológico dos criminosos. Um dia, ele encontra um walkie-talkie sem bateria, que possibilita que ele entre em contato com o passado (2001, 1997, 1985 e outros anos) do policial Lee Jae Han (Jo Jin Woong), que está desaparecido desde 2001, após ser acusado de corrupção. Assim, Hae Young consegue informações privilegiadas sobre o passado e, principalmente ao lado da líder de equipe Cha Soo Hyun (Kim Hye Soo), eles abrem novas investigações sobre os crimes passados que a polícia não conseguiu resolver.

Crédito: doramaworld.blogspot.com

Já no passado, a recém-contratada policial Cha So Hyun é designada para o mesmo setor de Lee Jae Han, sendo apresentada como uma “mascote” por ser a primeira mulher do departamento. Causando certo alvoroço dentre os demais policiais que ficam sem jeito de receber uma mulher no local de trabalho, Lee Jae Han se mantém intacto aos seus princípios e continua se comportando da mesma forma independentemente de uma presença feminina. Não tarda, portanto, para que os dois passem a trabalhar juntos e a desenvolverem uma forte amizade – que poderia se transformar em algo mais. Ali, os colegas de trabalho têm observado que Jae Han anda sempre apegado a um walkie-talkie velho, mas que ele alega “dar sorte”. Assim, Jae Han começa a se envolver com casos obscuros e a apontar o dedo na cara de policiais e outros representantes poderosos e, evidentemente, passa a incomodar muita gente. Em paralelo, existe uma disputa política ocorrendo e o chefe do departamento é transferido para outra cidade, abrindo espaço para a chegada do supervisor Kim Beom Joo (Jang Hyun Sung). Beom Joo é o típico caso de sucesso misterioso: ascendeu a cargos gradativamente mais poderosos rapidamente, além de nutrir relações obscuras com representantes políticos e donos de empresas multimilionárias.

Como todo clichê do gênero, ao se interferir no passado, o presente sofre modificações e isso se transforma em um grande dilema para o protagonista. Até que ponto é positivo que ele esteja em contato com Lee Jae Han? Vale a pena salvar a vida de uma vítima se outra pessoa morre em seu lugar? É prudente interferir no passado e arriscar uma mudança drástica no momento presente? Sem dúvida, as transformações ocorridas ao longo desses fluxos temporais colocam em xeque a consciência de Hae Young. No entanto, a situação se complica no momento em que o detetive Hae Young se depara com situações de seu próprio passado que ficaram pendentes.

Já Cha Soo Hyun mudou muito nos últimos quinze anos. De uma policial sem experiência e que frequentemente se assustava com os acontecimentos cotidiano, se transformou em uma mulher extremamente forte, pronta para liderar uma equipe com maestria, mesmo sob desconfiança de outros policiais homens do departamento. Cha Soo Hyun desenvolve uma certa afeição por Hae Young, embora desconfie de suas ações e sabedoria que são pouco explicadas, em virtude de estranhas conversas em um walkie-talkie. Em 2015, a detetive continua em busca de seu antigo parceiro Jae Han, desaparecido em 2001. Eventualmente, com apoio de Hae Young, ela pôde reencontrar os restos mortais de Jae Han no necrotério da polícia. O que levou Jae Han à morte? Mais uma vez, interferir no passado se torna urgente para que o presente não seja um ambiente de tanto sofrimento.

Crédito: Asianwiki.com

De volta à sua juventude, Hae Young presencia a prisão de seu irmão mais velho, Park Seon Woo, acusado de participar de um estupro coletivo de uma colega de classe. Após pegar alguns meses de detenção e sendo Seon Woo o único punido pelo crime, o rapaz retorna para casa e encontra uma família desestruturada. Dias depois Hae Young encontra seu irmão desacordado, envolto de sangue. Teria Seon Woo cometido suicídio? A polícia sul-coreana teria sido incapaz de investigar o crime corretamente, levado Seon Woo a desistir de tudo agora que seu nome fora manchado? Qual a correlação entre Jae Han e Seon Woo? O que existe escondido nesse passado injusto e turbulento?

Em uma série de reviravoltas, por vezes surpreendentes, e atuações simplesmente brilhantes, Hae Young, Lee Jae Han e Cha Soo Hyun desafiam a macroestrutura policial da Coreia do Sul, ora reescrevendo o passado e lidando com as consequências no presente e ora constatando que há situações que não devem ser revertidas. Juntos, a equipe de “cold cases” garantem que o futuro/presente de Lee Jae Han seja mais brando. Ou será que nem tanto?

Crédito: viki.com

Ficha técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Kim Won Suk | Roteiro: Kim Eun Hee | Atores: Lee Je Hoon, Kim Hye Soo, Jo Jin Woong, Kim Won Hae, Jang Hyun Sung, Chani, Kim Hyun Bin| Episódios: 16 |  Ano: 2016. 

Os Garotos de Fengkuei: Um retrato da juventude comum

Por Júlia Garcia*

Os Garotos de Fengkuei (風櫃來的人/Feng Gui lai de ren) é um filme taiwanês de 1983 dirigido por Hou Hsiao-Hsien. A história – assim como grande parte dos trabalhos do diretor, como Millenium Mambo (2001) e Três Tempos (2005) – rejeita a estrutura narrativa clássica, baseada em personagens engajados na resolução de um conflito evidente, com início, meio e fim claramente definidos. Ao invés disso, o cineasta opta pelo realismo, valorizando, através de um pequeno recorte da vivência, o comum, o cotidiano e o corriqueiro. E são justamente essas características que fazem de Os Garotos de Fengkuei um retrato tão sutil, e ao mesmo tempo acurado, da passagem da juventude à vida adulta.

O filme acompanha quatro garotos, moradores de uma pequena vila pesqueira chamada Fengkuei, localizada nas Ilhas Penghu, um arquipélago a oeste da ilha principal de Taiwan. Os meninos frequentemente se envolvem em brigas e confusões, por diversos motivos; seja porque perderam dinheiro em apostas ou porque entraram no cinema sem comprar ingressos. O comportamento violento e rebelde leva-os, inclusive, à polícia. Insatisfeitos com a vida no vilarejo, três dos garotos resolvem, então, tentar a sorte em Kaohsiung, uma das maiores cidades de Taiwan.

Apesar das atitudes agressivas, enquanto ainda estão em Fengkuei, os meninos apresentam certa inocência e aura infantil. Eles brincam, pregam peças e se divertem, como crianças. A cena que melhor exemplifica esse comportamento pueril acontece na praia: os garotos dançam, com o mar ao fundo, na frente de uma moça que acabaram de conhecer, provocando-a alegremente.

Crédito: Eureka Entertainment Limited

No entanto, com a mudança dos garotos para a cidade grande, não somente as paisagens rurais deram lugar à agitação urbana, mas a inocência de uma juventude infantil também foi sendo substituída pela necessidade do amadurecimento. Logo ao desembarcarem em Kaohsiung, os meninos já se perdem, tendo dificuldades para se orientarem na confusa paisagem da cidade, repleta de placas, rodovias e automóveis, em contraposição aos campos, praias e vielas de Fengkuei. Mais tarde, já estabelecidos há algum tempo no local, os garotos são enganados por um homem que os vende ingressos para uma exibição de cinema que, na verdade, não existe. Esse momento é simbólico. Já não são mais os meninos que enganam e trapaceiam, invadindo o cinema de Fengkuei sem pagar pela entrada; agora, na cidade grande, eles são as presas.

A desorientação no espaço urbano e a ingenuidade em relação aos modos de vida da metrópole demonstram a enorme diferença entre o viver no campo e na cidade. Mas, além disso, as hesitações e incertezas que os garotos experienciam em Kaohsiung também representam, de certa forma, a nebulosa fase entre o final da adolescência e o início da vida adulta.

Nesse processo, enquanto Ah Ching (Doze Niu) experimenta o interesse não-correspondido em Hsiao-Hsing (Lin Hsiu-Ling) e enfrenta a morte repentina do pai, que devido a um problema neurológico há muito já não se comunicava, sua família o pressiona para que se encaixe no padrão daquilo que, socialmente, é considerado o ideal de vida e conduta. Ao mesmo tempo, seus amigos buscam alternativas ao trabalho na fábrica, almejando futuros que não teriam no emprego que ocupavam. Esse tipo de preocupação passou, portanto, a sobrepor as brigas e confusões dos garotos, sem que, contudo, houvesse uma completa disrupção da juventude do modo como experienciavam em Fengkuei.

Crédito: Eureka Entertainment Limited

Não há solidez nas situações vividas pelos meninos, assim como não há na transição para a vida adulta. Nada parece preciso ou certo. Os Garotos de Fengkuei mostra um recorte, um retrato, de jovens experimentando mudanças e dúvidas, alegrias e aflições, com todos os obstáculos e sabores que essas experiências provêm. Com uma imagem do cotidiano, que retrata o comum e o ordinário, fica fácil nos identificarmos com os garotos, tão perdidos na vivência urbana quanto qualquer um de nós, em qualquer fase da vida.

Ficha técnica:

País: Taiwan | Direção: Hou Hsiao-Hsien | Roteiro: Chu T’ien-wen | Elenco: Chun-Fang Chang, Shih Chang, Grace Chen, Doze Niu, Chao P’eng-chue, Tsung-Hua To, Li-Yin Yang | Duração: 99 min | Ano: 1983.

  • Júlia Garcia é mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e jornalista pela mesma instituição. Atua como pesquisadora no Observatório da Qualidade no Audiovisual, onde participa do projeto Ásia Pop, com foco na cultura pop asiática, em especial a japonesa e sul-coreana.

Obsessão: o amor conturbado de um veterano de guerra

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas)

Amor é algo facilmente confundido por outros tipos de sentimentos, normalmente, menos altruístas, menos puros e incondicionais como a paixão, a necessidade de controle, de possuir, ou a obsessão por alguém. Esta questão é bastante explorada nas mais diversas cinematografias pelo mundo e na sul-coreana não seria diferente. No filme “Obsessão” (2014), dirigido por Kim Dae Woo, o coronel Kim Jin Pyong (Song Seung Heon), que fez parte do grupo de militares sul-coreanos levados a combater junto às tropas dos Estados Unidos no Vietnã, sofre em silêncio de Transtorno de Estresse Pós-traumático (TEPT).

Decorado herói de guerra, ele também está prestes a ser promovido a general. É casado com a filha de seu comandante, a gentil Lee Sook Jin (Cho Yeo Jeong). Uma união que, ao menos para ele, não há mais qualquer afeição e carinho real, mas um coronel deve sempre, ao menos em teoria, seguir suas obrigações. Um dia, um capitão chamado Kyung Woo Jin (On Joo Wan) é transferido para a tropa de Jin Yong, mudando-se para a casa ao lado com sua esposa, a chinesa, Ga heun (Lim Ji Yeon).

Até um período, os vizinhos não parecem ter grande contato, mas a esposa do coronel está bastante interessada nos recém-chegados. Assim, ela acaba provocando a curiosidade de coronel Kim Jin Pyong que vai a casa dos vizinhos e depara-se com a esposa de seu capitão. Percebe-se de pronto que uma atração instantânea acontece, resultando em um caso extraconjugal futuro.

Crédito: IMDB

“Obsessão” não é um filme extraordinário, nem aborda questões muito diferentes que outros já não tivessem discutido, mas tem seus encantos. Em especial pela forma como a narrativa é construída, pelas atuações, pelas críticas implícitas, quase sutis, e pela sua beleza fotográfica. É importante ainda ressaltar, perdão a indiscrição da autora, a beleza física do ator Song Seung Heon, cuja forma corpórea é bem utilizada pelo diretor, em especial nas cenas de sexo.

Os quadros e tomadas dos momentos mais íntimos do casal são bastante explícitos para os padrões sul-coreanos, mas ao mesmo tempo têm uma sensualidade e uma plasticidade interessante, não sendo nada vulgares. A atuação do par de atores atingiu o objetivo em demonstrar ter bastante química, naturalidade e desenvoltura nestas cenas em particular, algo extremamente complicado e difícil de fazer, ainda que o público geral ache que não.

A fotografia bastante clara em ambientes externos e que utiliza luzes quentes nos momentos de confraternização dos indivíduos daquela situação e em seus momentos mais íntimos também, contribui para envolver o espectador naquela atmosfera de sentimentos reprimidos, para depois serem extravasados quando os personagens permitem-se mais. As sombras durante as passagens de tensão também almejam incitar no público a sensação de perturbação, a turbulência psicológica do casal de amantes, em especial do coronel.

Lim Ji Yeon é a apática Ga Heun. Casada com o capitão Kyung Woo Jin (On Joo Wan), ele tem um caso secreto com o comandante de seu esposo. Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Por sinal, segundo o próprio Song Seung Heon, esta obra foi um divisor de águas para a sua carreira, já que ele necessitaria até então provar para si que seria capaz de participar em tal produção. O ator que até aquele momento sempre fizera papeis de mocinho com carinha bonita, ansiava por mostrar que era mais do que isso. Para muitos, este, que é um dos queridinhos da onda Hallyu, fracassou no seu objetivo, mas esta autora tende a descordar com a opinião geral.

Song Seung Heon é sim um grande ator e incarna de forma muito convincente, com a dosagem certa de emoção, o coronel introvertido, que sofre em silêncio, que mantem as aparências acima de tudo, mas que sufoca aos poucos com o contexto um tanto opressor em que está inserido. Importante ainda salientar que esta foi a primeira experiência do ator com cenas íntimas de um casal. No entanto, ele não atingiria tal resultado positivo, sem a participação conjunta de suas e seus colegas. O elenco dos personagens secundários cumpre o papel de suporte de forma bem satisfatórias. A atriz Cho Yeo Jeong faz uma esposa perfeitamente avoada, infantil, tagarela, que vive em seu pequeno mundinho de aparências e nem nota o sofrimento do marido. Ela está mais preocupada com o entorno e os demais, do que com aqueles que lhe são mais próximos, vivendo em um mundo à parte.

Um mundo feliz e bonito, criado, talvez, de forma inconsciente em consequência de ser uma mulher mimada, ou pela sua dificuldade em lidar com questão complicadas, como ser esposa de um militar, herói de guerra. Não se trata de uma pessoa ruim, mas um clássico clichê da mulher da época que é agradável com todos, não é preconceituosa, mas ao mesmo tem a cabeça enquadrada no sistema.

O capitão Kyung Woo Jin (On Joo Wan) faz de tudo para avançar na carreira militar, inclusive usar a própria esposa. Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Já On Joo Wan faz o típico aproveitador, carreirista, capaz de usar a própria mulher para atingir seus objetivos profissionais. O capitão Kyung Woo Jin representa bem como é um ambiente estruturado em uma hierarquia muito rígida, resultando em diversos puxas-sacos e profissionais que apresentam uma ambiguidade de caráter, tão comum a este meio, quanto a outros digamos mais liberais. Lim Ji Yeon também vive de forma crível uma mulher quase apática para a vida. Ela compreende que o marido a explora, mas aceita. Mesmo não sentindo conforto, nem felicidade ao seu lado.

Seu encontro com o coronel, ainda que contenha grande carga emocional em vários momentos, no geral, parece apenas mais um acontecimento, quase um acidente de percurso a sua existência, sendo bastante evidente em outros momentos de tensão do filme. A atriz, de repente, encarnou tanto a apatia de sua personagem, que lhe faltou uma dose maior de explosão emocional ao final, em que Ga Heun compreende que sentia amor pelo coronel afinal. Detalhe que esta foi a primeira experiência da atriz em um projeto cinematográfico comercial.

Esta atmosfera de passividade com relação ao status quo é realmente uma característica que engrandece o enredo. A sensação é de que se está sufocando em torno de pessoas tão bem-comportadas, tão aparentemente cordiais e diplomáticas. É possível compreender o coronel em vários momentos e seus conflitos internos. Contudo, nos bastidores, as fofocas espalham-se, assim como os preconceitos com a chinesa Ga Heun e a superficialidade de mulheres que parecem insistir em levar vidas normais, com uma, ou outra aventura, uma que outra atitude ousada, como dançar às segundas com um estranho chamado Lim (Yu Hae Jin), dançarino de tango. Enquanto isso, seus maridos vivem as experiências mais horríveis que um ser humano pode experienciar. A guerra está em pleno vapor ainda no Vietnã, mas parece não atingir o cotidiano daquele pequeno mundinho sul-coreano, aparentemente.O romance com Ga Heun será para o coronel Kim Jin Pyong como o ponto de explosão, em que ele extravasa suas angústias e tenta experimentar retornar a vida normal. Isso é perceptível quando ele procura aprender a dançar para uma noite especial com aquela que ele acha ser sua nova e verdadeira amada.

Cena do filme “Obsessão”. Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Talvez, o que tenha provocado no coronel estabelecer este vínculo com Ga Heun fosse a reação dela em um momento de extrema tensão, em um evento do hospital do exército, organizado pelas esposas dos oficiais comissionados, onde são voluntárias. Na ocasião, um paciente que sofre de TEPT ataca Ga Heun, e Kim Jin Pyong vem em seu auxílio.

Ela chega a ser baleada, mas age como se nada tivesse ocorrido, enquanto as demais mulheres desesperadas gritam e desmaiam. Uma atitude que chama atenção a um ex-combatente de guerra, pois ali está alguém que pode entender um pouco das suas experiências e do que significa viver a sua realidade, ser quem ele é, tendo de presenciar situações de conflito, comuns para aquele modo de vida.

Outra curiosidade do filme, e que poderia ter sido melhor explorada, é justamente o fato histórico da participação sul-coreana na Guerra do Vietnã, algo pouco comentado, talvez até por razões compreensíveis. Afinal, este evento histórico traz uma verdade um tanto vergonhosa para uma Coreia que sempre lutou por independência, acabar submetida às ordens de outro país, que almejava invadir e controlar um irmão asiático.

Crédito: IMDb.
Crédito: IMDB

Por fim, seria amor o que o Coronel sente? Ou apenas uma consequência de sua mente perturbada? Para a maioria dos críticos na época a segunda constatação seria a certa. Esta autora acredita que o humano é sempre mais complexo e aposta que podem ser ambos. Pois mentes perturbadas também amam, de forma errada talvez, mas amam.

E anseiam, acima de tudo, buscar algo de mais real, verdadeiro e honesto que o entorno aparentemente da normalidade e da aparência não oferece.  Alguém que entenda as dificuldades e não apenas as ignore. Trata-se de uma tentativa de buscar por algo melhor, mesmo que passe de uma ilusão e que possa ter consequências mais drásticas em seu desfecho.

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Kim Dae Woo | Roteiro: Kim Dae Woo, Oh Tae Kyung | Elenco: Song Seung Heon, Lim Ji Yeon, Cho Yeo Jeong, On Joo Wan, Yu Hae Jin, Bae Sung Woo | Duração: 232mins | Ano: 2014

Felizes para sempre: uma série para a sua maratona

Por Beco da Índia

No cardápio de séries de serviços de streamings que servem como alternativa para os que estão em isolamento necessário para evitar contaminações do Covid 19, há uma opção que funciona como uma espécie de janela. Por ela, você pode observar os conflitos do velho e do novo na tradicional sociedade em uma Índia do século 21. É Felizes para Sempre (Made in Heaven), série original da Amazon Prime Video, que estreou em março de 2019, com nove episódios até agora.

Se o dito popular afirma que os casamentos são feitos no céu, a série mostra que nem sempre é assim e ousa abrir algumas portas dos armários daquela sociedade, ao mesmo tempo em que exibe as cores exuberantes, o brilho, as músicas e as danças exuberantes desses eventos. É bom lembrar que todo o Sul da Ásia, e a Índia em especial, são líderes globais do mercado de casamento.

“A realidade é bem diferente”, avisa o trailer da série, escrito e dirigido por mulheres. “Made in Heaven” é o nome da empresa de organização de casamentos dos sócios Karan (papel desempenhado por Arjun Mathur) e Tara (Sobhita Dhulipala), em Délhi. Seus dramas pessoais se cruzam com as histórias de seus clientes no país dos casamentos arranjados: negociações de dotes; quebras de tabus, como uniões de viúvos; festas ondem o  que acontecem lá, ficam lá; escândalos bollywoodianos; conflitos familiares, crenças em superstições milenares, e por aí vai.

Karan e Tara são obrigados a cumprir algumas missões paticamente insalubres, como contratar detetives particulares para investigar histórico de noiva. Karan é gay em uma sociedade tradicional que, em boa parte, não aceita essa orientação. Tara organiza casamentos, mas ela mesma vive infeliz no seu. Moça de classe média baixa, Tara casou-se com um rapaz de família rica mas enfrenta problemas sérios com o marido.

A série, a quarta original da Amazon Prime para o mercado indiano,  fez grande sucesso no Sul da Ásia e em países de outras regiões logo no seu primeiro mês após o lançamento. As críticas e resenhas positivas ressaltaram a abordagem de tópicos culturais, como homofobia.

Diferentemente de outras séries de serviços de streamings, o Felizes para Sempre conta com atores que não foram trazidos de Bollywood: são rostos novos, na maioria. Há duas exceções a essa regra, no entanto: uma é Kalki Koechlin, um talento da indústria cinematográfica do país, que atuou, por exemplo, no filme Margarida com Canudinho. Outra é Vijay Raaz, que atuou no excelente Casamento à Indiana (Moonson Wedding), um grande sucesso da diretora Mira Nair.

Crítica - Made In Heaven (1ª Temporada) | Senta Aí
Crédito: Amazon Prime

Boa parte do lado glamouroso da série é de responsabilidade de Poornamrita Singh, fashion designer que decide o figurino das noivas e noivos e dos convidados das festas. Singh explicou que decidiu vestir as noivas de forma não convencional,  com cores como beje, verde, amarelo e dourado, quando o normal na Índia é o vermelho. Como uma chef delicada, Pornamrita Singh salpica no cenário as especiarias mais saborosas aos olhos do telespectador: a beleza e a estética dos casamentos indianos, com seus saris e lehengas (saias) de tecidos brocados e jóias no estilo tradicional, totalmente diferentes para quem nunca foi àquela parte do mundo.

Ficha Técnica:

País: Índia| Direção: Nitya Mehra, Zoya Akhtar , Prashant Nair e Alankrita Shrivastava | Roteiro: Zoya, Reema Kagti, Niranjan Iyengar e Alankrita| Elenco: Arjun Mathur, Sobhita Dhulipala, Kalki Koechlin| Distribuidora: Amazon Prime| Episódios: 9| Ano: 2020.

Os 100 Adeus: entre términos e retornos

Por Mayara Araujo

Não é nenhuma novidade constatar que relacionamentos podem ser conturbados e repleto de reviravoltas. A verdade é que a sensação de êxtase do início de um amor novo passa e essa excitação vai se tornando gradativamente mais serena, até o momento em que se torna meio insossa. O tempo passa, as pessoas se transformam em outras pessoas e o brilho nos olhos que guardávamos para um alguém querido vai perdendo o impacto, na medida em que também mudamos. Ainda assim, existem casais que sobrevivem a monotonia do nosso cotidiano e reaprendem a se apaixonar de tempos em tempos. É justamente sobre tais percalços que Os 100 Adeus, comédia romântica dirigida e roteirizada por Lawrence Cheng, nos conta.

Sam (Ekin Cheng) e Barbara (Chrissie Chau) são mais um desses casais que estão juntos há tempo o suficiente para compartilhar espaço no mesmo banheiro. Eles compartilharam muito nesse tempo: um cômodo, uma casa, uma vida. Com isso, o relacionamento dos dois parece estar desgastado: as piadas de Sam não são mais tão engraçadas – se tornaram imaturas; o humor ácido de Barbara não é mais um charme – agora é meramente chato. 

Esses pequenos detalhes do dia a dia são o principal motivo de tantos términos: 99, até aqui. Foram 99 vezes que o trem saiu do trilho e os dois tiveram que se esforçar para que ele retomasse o seu devido lugar. Um pedido de desculpas por parte de Sam, uma tentativa de melhor compreensão por parte de Barbara. Nesses 99 términos eles se tornaram mais fortes, mas também mais cansados.

Crédito: Fixable.com

Depois do 99º término, Sam e Barbara decidem abrir um pequeno negócio juntos: uma cafeteria chamada “Le Je Taie”, na qual os clientes poderiam desfrutar de uma “autêntica” refeição francesa – mesmo que para atender os seus primeiros clientes eles tivessem que ligar para a cafeteria concorrente e realizar o mesmo pedido que o cliente havia feito, mas para entregar para a viagem. Em suas inocências, o que eles não haviam percebido, no entanto, é que o próprio nome do estabelecimento havia sido grafado errado. E isso não poderia ser um bom presságio.

“Sorte nos negócios e azar no amor”, esse poderia ter sido o slogan reservado para a pequena Le Je Taie. Foi justamente ali, servindo pratos, mantendo os negócios ativos e observando os clientes que vêm e vão, que eles puderam contemplar o desfecho de diversos relacionamentos. A cafeteria se tornou palco para casais que se desentendiam, brigas que corriam soltas e rompimentos definitivos de pessoas que juraram seu amor um pelo outro.

Nesses rompimentos públicos, muitos casais deixam para trás pertences de valor afetivo. Talvez por esquecimento ou talvez porque queiram esquecê-los. A partir dessa constatação que Sam tem a ideia de alugar um pequeno espaço dentro do café para que os clientes possam se desfazer de tais itens. Assim, alianças, pelúcias, fotografias são temporariamente deixadas para trás, dentro do estabelecimento, para que os corações possam ser curados.

Crédito: Netlflix.com

É a partir dessa estante do término que o Le Je Taie se transforma em um negócio de sucesso. Pouco importa o sabor da comida ou a qualidade do café, desde que tais itens possam ser deixados para trás. Pouco a pouco, a estante do término vai sendo preenchida de memórias de relacionamentos passados alheios e, em paralelo, o ego de Sam vai se tornando inflado. Depois de anos sendo considerado imaturo por sua parceira, ele finalmente surgiu com uma ideia que vingou e, agora, se sente preparado para dar o próximo passo.

Com o apoio de alguns amigos próximos e sem nenhum comunicado à Barbara, Sam decide procurar lojas no bairro para alugar, no intuito de desenvolver filiais do Le Je Taie. Acontece que ao descobrir, Barbara não só se sente traída, como não deposita nem um pouco de confiança na ideia de Sam. “Quanto tempo isso vai durar?”, questiona. De fato, Sam não se responsabiliza enfaticamente sobre a administração dos negócios e se inspira meramente na efemeridade de ter tido uma boa ideia. Com isso, pela centésima vez, Barbara decide deixá-lo.

Dessa vez, diferentemente do que ocorreu até aqui, Sam não pretende correr atrás de sua parceria para pedir desculpas. Afinal, ele também se sente traído com a falta de confiança que Barbara sente nele. Por outro lado, Barbara parece certa sobre o vindouro pedido de desculpas. E se surpreende, ao demorar para chegar. Pela primeira vez, os dois parecem precisar de tempo para organizar seus próprios sentimentos um pelo outro. 

Crédito: hk01.com

De forma agridoce, o filme se encerra com um reencontro mais do que sereno, no qual nos segundos finais podemos observar que nossos protagonistas deram as mãos. O futuro do relacionamento, entretanto, continua parecendo incerto, visto que não houve uma evolução real de ambos os personagens.

Como comédia romântica, Os 100 Adeus não tem nada de engraçado. Não existem reviravoltas emocionantes e causa até certa estranheza ao espectador o relacionamento dos protagonistas. Não há fortes motivos ou identificação o suficiente para se torcer pelo separação ou união final dos dois. Mas nos deixa a dramática reflexão acerca de nossos próprios relacionamentos amorosos e uma certa inveja da ideia de se ter um lugar equivalente a tal estante do abandono.

Ficha Técnica:

País: China (HK) | Direção: Lawrence Cheng | Roteirista: Lawrence Cheng | Elenco: Chrissie Chau, Ekin Cheng, Ivana Wong | Duração: 105 min | Ano: 2014.