“A negociação”: a empatia transformadora e combatente entre um criminoso e uma policial

Por Alessandra Scangarelli (Via Intertelas e KoreaPost)

Toda sociedade tem um número de “crenças” e regras que mesmo não sendo reais no mundo concreto, continuam por serem perpetuadas na busca de manter a fé das pessoas na humanidade. A ideia de que uma pessoa somente, uma espécie de herói, ou heroína, com um poder descomunal é capaz de reverter todo mal aquece e tranquiliza o coração de muitos.

Mais profundo ainda é quando se acredita que um ser abstrato vá um dia surgir, ou ressurgir, fazer a limpeza e o dever de casa que os humanos imperfeitos assim não conseguiram, tornando o mundo e a vida justos finalmente. São as crenças e as ilusões necessárias para que, no geral, a grande maioria continue na linha e reproduza o as regras do sistema criado pelos homens, como deve ser, sem transformá-lo, sem revolucioná-lo para algo melhor.

Um sistema que tem uma estrutura bastante complexa e que apenas existe se tanto o lado “bom”, quanto o lado “ruim” coexistirem. Como o mercado ilegal e o legal que, na realidade, dependem um do outro para seguirem com suas funções. Afinal, para que seriam necessários policiais se não existissem bandidos? Para que seriam necessários exércitos se as guerras não ocorressem? E para que produzir armas se todos respeitam a vida acima de tudo? Ao ter claro que este contexto existe, sendo realista e não pessimista, encontrando soluções concretas e não fantasiosas, é possível ter em conta que as mudanças podem ser realizadas através da atitude pouco convencional e muitas vezes corajosa dos indivíduos em conjunto.

Crédito: Pinteres/Korean Drama 24/7

Isso quando estes conseguem livrar-se da “máquina” que os conduz diariamente, deixando de serem meros sobreviventes egoístas, ou parte da engrenagem sistêmica exploradora para pensar em todos e lutar por todos, ou por alguém em específico do qual acabem criando empatia, ou um certo amor humano fraternal, que os faça querer justiça e cuidar do próximo, ainda que este lhe seja um estranho, ou digamos seja inclusive uma pessoa que não tenha feito as escolhas mais certas na vida.

“A Negociação” (The Negotiation) (2018), dirigida por Jong Suk Lee traz esta mensagem em um enredo que combina de forma bastante natural entretenimento e os males mais proeminentes na sociedade sul-coreana atual. Assim, a história gira em torno de uma negociadora chamada Ha Chae Yoon (Son Ye Jin) que faz parte da equipe de negociação de crises da Agência Metropolitana de Polícia de Seul e um traficante de armas Min Tae Gu (Hyun-Bin) que sequestrou dois coreanos em Bangkok . Ha Chae Yoon é a típica servidora pública que ao trabalhar em algo tão único faz com que dificilmente possa ter uma vida cotidiana muito turbulenta, com pouco tempo usufruir dela. Seguindo uma lógica bastante comum de ocorrer nestes casos era de se esperar que ela não fosse uma pessoa muito emotiva, que tivesse uma atitude mais endurecida sentimentalmente e que encarasse a violência como algo normal.

Contudo, a personagem foge deste clichê e supreendentemente apresenta uma personalidade bastante humana, sofrendo com as vítimas, com a perda ocasional de vidas. E mais interessante é que o traficante e sequestrador Min Tae-Gu acaba seguindo esta mesma linha.

Crédito: IMDB

À primeira vista parece um criminoso frio e calculista. Contudo, ao longo da narrativa, quando se vai descobrindo as razões que o levaram a sequestrar e fazer reféns,  percebe-se que a raiz do seu problema tem como pano de fundo uma história de teor pessoal bastante emocional. E, acima de tudo, suas intenções visam, principalmente, enfrentar um sistema extremamente corrupto, comandado por uma casta de autoridades e uma elite empresarial de grande poder, envolvidas com tráfico de armas internacional. Este mercado que tanto legal, quanto ilegal é um dos mais lucrativos do mundo.

Segundo o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), uma organização que realiza pesquisas científicas em questões sobre conflitos, localizada na Suécia, o valor total do comércio de armas em 2017 gerou algo em torno de 95 bilhões de dólares e as 100 maiores empresas do campo lucraram em torno de 398.2 bilhões de dólares apenas no ano referido. Os principais países que vendem armas são exatamente nesta ordem: Estados Unidos, Rússia, França, Alemanha e China. Os alemães têm como seu principal comprador a Coreia do Sul, totalizando 19% de suas vendas. A Coreia que tem suas próprias empresas de armas e que participa deste mercado tanto legalmente, quanto ilegalmente.

“A Negociação”, infelizmente, não trabalha em sua narrativa, os bastidores deste mundo com maior profundidade, servindo este mais como um pano de fundo e para promover uma das causas que desencadeia todos os acontecimentos da trama. Contudo, esta falta não diminui a importância, nem torna esta produção cinematográfica menos atraente, pois ela acaba focando na questão humana que se almeja debater.

Crédito: IMDB

Somado a isso, as intepretações de grandes atores, em conjunto com um roteiro que explora bem as situações de tensão deixam o espectador bastante focado e esperando pelo desfecho que este drama terá. O mais interessante talvez a se apontar é que será através de Min Tae Gu que a negociadora Ha Chae Yoon vai deixar sua posição passiva para tomar uma atitude e tonar-se uma policial real. Isso porque ele enxerga nela a capacidade humana mais evoluída para tanto, como salientando acima: o de ter empatia pelo próximo, seja ele (a) quem for.

Desta forma, “A Negociação”, além de nos fazer atentar para a estrutura do sistema e suas relações dúbias e bastante esquizofrênicas entre o mundo legal e o mundo ilegal, destaca algumas temáticas importantes: criminosos também amam e podem ter causas bastante justas para defender, apesar de suas escolhas; um bandido pode ser mais humano do que aqueles que vivem aparentemente uma vida de conduta social impecável, mas que, por baixo do tapete, são os reais monstros desprovidos de qualquer humanidade; um indivíduo comum como uma servidora pública e seus colegas estão mais inclinados a poder realizar as transformações necessárias e enfrentar o sistema do que os chamados líderes, pessoas de destaque ou seus superiores já viciados, conduzidos e engolidos pela “máquina sistêmica”. Assista “A Negociação” na Netflix.

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul  | Direção: Jong Suk Lee | Roteirista: Sung Hyun Choi, Park Myeong Chan (comic) | Elenco: Ye Jin Son, Hyun Bin, Sang Ho Kim | Duração: 112 min | Ano: 2018

An – O sabor da vida: Tudo neste mundo tem algo a nos contar, basta que estejamos dispostos a ouvir

Por Edylene Daniel Severiano

“Acredito que tudo neste mundo tem uma história para contar (…).” “Tentamos viver nossas vidas de forma irrepreensível, mas, às vezes somos esmagados pela ignorância do mundo.” Tokue

Não estivesse datado de 2015, o premiado filme nipo-franco-alemão, de roteiro de Tetsuya Akikawa e Naomi Kawase, trazido à vida no ecrã pelo habilidoso e sutil olhar de Kawase, An (Sabor da Vida), poderia ser datado de um futuro próximo, inspirado nas vicissitudes de nossos dias, agora mais longos pela incerteza que nos atravessa, melhor, inspirado na ausência que nos trouxe ao aqui-agora: a inapetência da escuta que nos atropela por todos os lados numa avalanche de ignorância. Nossa ignorância, nossa incapacidade de ouvir o mundo.

Baseado no romance homônimo de Durian Sukegawa, An oferece uma ode às relações familiares e à natureza, numa trama centrada nas histórias de três personagens: uma mulher idosa, um homem de meia idade e uma estudante. Um filme de cores e fotografias suaves, em que o signo que se afirma preponderante é o som, assim se inicia a película, com os sons estridentes das coisas no mundo: trem, vozes de transeuntes, arrastar de pés; mas no profundo quase silêncio de duas das personagens principais, a tímida Wakana e o introspectivo Sentarô.

Interpretada por Kyara Uchida, a adolescente Wakana se mostra deslocada no mundo, presa a uma relação distante com sua mãe, que não a estimula a continuar os estudos, e isolada dos colegas de escola. Seu centro de interação é a pequena loja de dorayaki onde Sentarô trabalha sozinho, para onde ela vai, faz um lanche e recebe dele as sobras de massa que “não deram certo”. O silêncio da jovem faz-se gritante pelo contraste com outras jovens na loja, efusivas, contentes, brincando entre si e até com Sentarô, enquanto Wakana apenas se limita a saudações e agradecimentos. Mesmo em casa, sua mãe e seu canário, Marvy, emitem mais sons do que a jovem. É sabido que a fala é uma expressão da dobra com a ausculta, elaborada por meio do silêncio, e é neste que Wakana está contida, sem conseguir fazer-se ouvir.

Crédito: IMDB, 2020

Como um contínuo dessa inércia está Sentarô, interpretado por Masatoshi Nagase, um homem na casa dos 40 anos que se dedica a uma pequena loja de dorayaki, sem ao menos gostar de doces. Indiferente aos clientes, em sua maioria jovens estudantes descontraídas, passa seus dias entre a pequena loja, seus cigarros e seu apartamento, inerte a todos, todos os sons ao redor, silente como Wakana. Uma das cenas iniciais do filme traz Sentarô arrastando os pés até o terraço de seu prédio, indo fumar antes de mais um dia de trabalho. O som de seu arrastar de pés revela o mais profundo que há no seu ser: o vazio. Como pacientes, ambos, Sentarô e Wakana, parecem esperar a aparição de Tokue para propagar e dar sentido às suas vidas.

Interpretada pela talentosa Kirin Kiki, logo nas primeiras cenas uma pequena e frágil senhora que conversa com as árvores, o Sol, a Lua, Tokue, que está em mais um de seus passeios, aparece na loja de dorayaki e indaga Sentarô quanto à cerejeira plantada em frente à loja. Ele se limita a responder que não era dali. A frágil senhora, então, mostra-seinteressada na oferta de trabalho que constava no letreiro em frente à loja, e, após, trocar algumas palavras com o doceiro, esse lhe pergunta sua idade e se surpreende, já que o trabalho seria pesado para uma senhora de 76 anos. Tokue insiste e pede para o futuro chefe pensar. Ele, não muito receptivo, oferece-lhe um dorayaki. Tokue se despede, agradece e parte, não sem antes cumprimentar a cerejeira. Wakana, que observava a cena, pergunta se, caso ele não contratasse Tokue, ela poderia trabalhar como sua ajudante. Sentarô menciona a escola e a menina afirma que a abandonará.

Essa cena inusitada poderia ser mais uma, mas é o mote para a narrativa de Kawase se desenvolver. Passados alguns dias, Tokue retorna à loja reiterando seu pedido de trabalho. Diante da negativa de Sentarô, comenta que provou o dorayaki e que a massa até estava boa, mas a pasta de feijão doce (an) não, deixando assim a an, que ela mesma preparara, para o doceiro experimentar. Sentarô, no fim do expediente, olha para o pote de doce e o joga no lixo, mas em um ímpeto recolhe e resolve experimentar. Nesse momento seu mundo se abre. A an, pasta de feijão azuki adocicada, que dá nome ao filme, era saborosa. Dias depois quando Tokue retorna, ele a contrata e tem início uma jornada pelo sabor do An, pelo sabor da vida. Tokue ensina as minúcias do preparo, que começa antes do raiar do “Senhor Sol” e exige horas de paciente escuta e apreciação. Em pouco tempo o dorayaki feito por eles fica famoso e cada vez mais clientes vêm à loja.

Crédito: IMDB, 2020

O tempo passa, as estações passam e tudo parece transcorrer bem, até que a proprietária aparece e exige que o doceiro demita sua ajudante. Tokue tinha as mãos defeituosas, sequela da lepra que a acometera ainda na adolescência. Apesar da insistência, fraca, de Sentarô, sua chefe afirma que, se as pessoas souberem, deixarão de frequentar a loja. Emerge assim uma face da sociedade japonesa a que o público mais geral está pouco afeito, a face da exclusão e do preconceito. O doceiro, sem coragem de demitir Tokue, que afirmava já estar curada, e estava, vê com o passar do tempo o estabelecimento se esvaziar. Não importava que Tokue estivesse curada, o medo e o estigma falaram mais alto. E um dia a frágil e determinada senhorinha não mais retorna.

No decorrer dos dias da ausência da doce Tokue, inconformado com a situação, Sentarô entrega-se à desolação. Até que um dia sua ajudante quebra o silêncio ao lhe escrever uma carta expressando o quanto era grata por ter estado ao lado dele e por ter novamente podido preparar a an, afinal esse tinha sido seu trabalho por 50 anos. Suas palavras, doces e suaves, como a pasta que fazia, tocam o coração de Sentarô: “Acredito que tudo neste mundo tem uma história para contar (…)”. Assim Tokue conta como ouvia os feijões, suas histórias desde os campos até a panela, acolhia-os com sua suavidade e os adoçava com ternura e paciência, respeitando seu tempo de preparo.

Ao lado de Wakana, Sentarô parte em busca de Tokue. O local é uma antiga área de isolamento de pessoas com hanseníase. A chegada até lá tem um quê de viagem bucólica, há uma pequena floresta e depois dela uma Tokue mais frágil e debilitada, que conta como chegara até ali, ainda muito jovem, e nunca mais vira sua mãe, tampouco pôde ter seu filho. Os laços de cuidado e afeto, até então discretos, evidenciam-se: uma mãe sem seu filho, um filho sem sua mãe e uma criança sem cuidados, assim estavam Tokue, Sentarô e Wakana antes de ouvirem juntos os feijões azuki. Sentarô, num gesto confessional, escreve uma carta a Tokue revelando porquê emudecera diante do mundo:  ao apartar uma briga acabou ferindo alguém e por isso ficara preso por três anos. Nesse ínterim, sua mãe veio a falecer e ele não pode mais ouvir o que ela tinha para contar, suas histórias: emudecera diante do silêncio. E intentando entregá-la guarda-a.

Crédito: IMDB, 2020

O doceiro, motivado pelas palavras de sua ajudante, retoma o trabalho, dedicando-se a fazer a an e com a ajuda de Wakana vê seu trabalho com entusiasmo, quando mais um empurrão os silencia: a proprietária tem planos de modernização da loja e impõe um novo ajudante, que virá a ser chefe de Sentarô. Desnorteados Sêntaro e Wakana partem de novo em busca de Tokue, mas são informados por Yoshiko, sua amiga do asilo, de que ela falecera. Ela, porém, lega a Sentarô seus instrumentos de cozinha e a Wakana um pedido de desculpas por não ter podido cuidar de Marvy, não pudera mantê-lo preso. Yoshiko conta-lhes, ainda, que, como eles não podem ser sepultados, é plantada uma árvore quando um deles falece e os leva à árvore de Tokue, uma cerejeira, em meio a uma pequena floresta, uma pequena floresta capaz de falar a quem quiser ouvir.

Kawase, assim, oferece ao espectador uma reflexão sobre as relações familiares e a natureza, e como essas entrelaçam-se pelas falas e auscultas, lembrando que todos têm algo a oferecer, não importando a idade. Não há seres descartáveis, o que deve ser isolado é o medo do diferente. Mais do que os feijões, Tokue se dedicava a ouvir o mundo, a ouvir o som, a voz, as narrativas que as pequenas coisas têm para contar, as minúcias daquilo que compõe o cotidiano. Impedida de ouvir seus entes queridos, restou a Tokue aprender a ouvir a natureza, os sentidos e sentimentos que essa expressa, inclusive os alimentos. A natureza, então, é o que passa a atá-la ao mundo. Kawase dá forma a uma pequena família, cujos membros conseguem se conectar a partir da escuta da natureza: Tokue que aprendera a ouvir o mundo, como mãe e avó, dedica-se a ensinar essa escuta motivadora da presença, do estar, da agência no mundo, da fala. Sentarô encontra a voz perdida de uma mãe a acolher seu filho e prepará-lo para o mundo. E  Wakana, que não conseguia ser ouvida por sua mãe, recebe de Tokue e Senterô o incentivo para encarar a vida. Desse modo, ela lega aos dois o aprendizado de ouvirem as vozes do mundo, da natureza, para que assim, ecoem e falem. Numa prática das ideias para adiar o fim do mundo, Tokue adia o fim de dois mundos, dos sonhos de Sentarô e Wakana. “Não há inverno que não seja seguido da primavera”, diz um provérbio japonês. Como tal, Sentarô e Wakana veem florescer suas vidas, ela seguindo seu sonho de estudar e ele finalmente deixando a doçura do dorayaki guiar sua vida.

O que faz do filme de Kawase um diálogo contemporâneo, pois, mais do que nunca, mas tanto quanto antes, todas as formas de humanidades são convocadas a ouvir o que as coisas do mundo têm a dizer, como afirma Tokue: “Viemos a este mundo para vê-lo e ouvi-lo” (tradução livre da autora).

Crédito: IMDB, 2020

Ficha técnica:

País: Japão; França; Alemanha | Direção: Naomi Kawase | Roteiro: Durian Sukegawa (livro), Tetsuya Akikawa, Naomi Kawase | Elenco: Kirin Kiki, Masatoshi Nagase, Kyara Uchida | Duração: 113 min | Ano: 2015.

Kim Ji Young, nascida em 1982: o fim do super-heroísmo e o poder das mulheres reais

Por Alessandra Scangarelli (Resenha completa em InterTelas/KoreaPost)

Se formos pensar como o imaginário da sociedade atual tem das mulheres, no que se considera ideal e digno de aplauso é algo próximo ao de uma “Mulher Maravilha”, uma figura, por sinal, anglo-saxã e branca… Super-heróis, masculinos, ou femininos, ou qualquer outro gênero que queiram listar, pouco têm em comum com as pessoas reais e o seu dia-a-dia. É impossível para o humano ser um profissional, um cônjuge, pai, ou mãe, amante, modelo de beleza e saúde exemplar. Mas é justamente isso que se exige das mulheres. Como se fossemos capazes de fazer tudo sozinhas e o pior é que acreditamos nisso e seguimos este absurdo da mulher perfeita para depois apenas sofrer de ansiedade, ou depressão.

O filme “Kim Ji Young: Nascida em 1982” (2019), dirigido por Kim Do Young, baseado no livro de Jo Nam Jjoo, de forma indireta, incita tal debate. Estrelada por Jung Yu Mi que vive Kim Ji Young na trama e Gong Yoo, que interpreta seu marido Jung Dae Hyun, esta produção cinematográfica não se curva de assuntos espinhosos, ainda que o faça de forma sutil e muito sensível. A personagem principal trabalha em uma agência de relações públicas. Porém, um dia casa e tem uma filha, tendo que deixar o seu emprego. A vida segue o seu curso normalmente, até que, de repente, Kim Ji Young começa a falar como sua mãe, sua irmã mais velha. Do nada, transforma-se e passa a ser outra pessoa. Estaria ela possuída? Sofreria ela de dupla personalidade? O que teria acontecido?

Antes de mais nada é importante salientar que o interessante de um filme que aborda tal temática, de tantos que já foram feitos sobre o mesmo assunto ao redor do mundo, é a sua capacidade de levar um tema polêmico como este para situações cotidianas, para o ambiente privado e íntimo do lar, onde a correlação de forças entre marido e mulher definitivamente ocorre. Alguns diriam que tal situação na Coreia é diferente de outros países do ocidente, onde as mulheres não são necessariamente obrigadas a deixar seus empregos.

Primeiro, que tal contexto do filme pertence à década de 1980, onde tal situação ainda ocorria. Muito mudou na Coreia rapidamente em alguns poucos anos. No entanto, muito ainda dos velhos costumes permanecem. E pior, com as transformações sociais, as coreanas passaram a acumular tarefas, assim como qualquer mulher dos países no ocidente. É interessante perceber que aqui não se contempla a ideia utópica da maternidade idílica, paradisíaca, como muito afirmam por aí, mas também não temos o inferno na Terra. A personagem principal luta diariamente com as dificuldades de criar uma criança, com o trabalho exaustivo que demanda. No entanto, diferente da maioria, Kim Ji Young rebela-se de forma bastante inusitada, inconsciente, através da “incorporação”, ou no deixar falar uma voz que ela nem sabe que tem.

Fonte: IMDB

Ela enfrenta quem a julga, quem almeja dizer-lhe o que deve fazer ou não, confrontando até os mais velhos, situação complexa em uma sociedade como a coreana tão hierarquizada e tão submissa à ideia de respeito aos mais velhos, mesmo que os idosos usem disso para oprimir, ou livremente extrapolarem seus direitos sobre os mais jovens. Tal atitude dela intriga seu marido, que busca compreender e ajudá-la. Uma figura já digamos diferente, com uma mente mais aberta do que os homens da sua época. A maioria provavelmente já teria saído e abandonado a família, como até hoje, é normal.

O diferencial nos protestos desta nova persona que Kim Ji Young assume é que ela deixa claro não ser obrigada a assumir todas responsabilidades que lhe são impostas como naturais. Afinal, ela também tem anseios para além da casa e da família e assim praticamente obriga seu marido, mãe, irmão e tal a auxiliarem-na. Fica claro, por exemplo, a falta de atenção do pai, que facilita tudo para o irmão dela e o mima, enquanto Kim Ji Young para ele praticamente não existe.O interessante aqui é justamente esta atitude de não incorporar a heroína e tentar fazer tudo sozinha, mas transformar o seu ambiente e as pessoas ao seu redor. A dupla de atores principais têm atuações primorosas, de pessoas comuns que tentam lidar com seus problemas mais íntimos em meio a uma sociedade que pouco compreende, ou quer compreender. Os atores que interpretam papéis secundários fornecem o suporte necessário para que o casal de atores principal possa dar sua melhor performance. A química profissional entre Jung Yu Mi e Gong Yoo não precisa de grandes apresentações. Velhos conhecidos de outras produções como “Invasão Zumbi” (2016), de Yeon Sang Ho e “Silêncio” (2011) de Hwang Dong Hyuk, eles deixam claro que juntos na tela têm muito a dizer, a mostrar e comover o espectador.

Jung Yu Mi interpreta Kim Ji Young. Crédito: Cinema Escapist.

A direção de Kim Do Young traz a sutileza e complexidade psicológica que o enredo necessita, sustentado na escrita do roteiro adaptado que ela compartilha com Yoo Young A e com a autora do livro Jo Nam Joo. Não há falas demais, nem explicações desnecessárias, nem discurso ativista na história. A diretora deixa através das cenas e das atuações que a trama flua e por si deixe que as questões e suas polêmicas livremente sejam manifestadas ao espectador. Deste filme, pode-se pensar o quanto estamos realmente transformando o nosso cotidiano.

Os homens de nossa época estão cientes do papel que têm na criação dos filhos e nas atividades domésticas? O meio de trabalho ainda tão masculinizado e pouco preparado, até fisicamente, para as mulheres que engravidam, ou têm filhos, está sendo modificado? Mulheres grávidas têm a necessidade de alguns cuidados sim, como o meio de trabalho adaptou-se às necessidades delas? Isso não seria importante levar em conta, em especial em uma sociedade com problemas graves de natalidade? E quando as crianças nascem há creches nas empresas para os pais, ambos, trabalharem e estarem próximos dos filhos? Existem benefícios para formar uma família? São questionamentos que nem o Feminismo hoje realiza ou leva como uma bandeira integral sua. Se há falta de igualdade nos âmbitos empresariais mais sofisticados, imagina nas fábricas, na realidade das trabalhadoras braçais, de “chão de fábrica”, como diz o jargão popular. Reflexões deste tipo são necessárias. Assim, Feminismo sem consciência de classe e atenção às questões mais particulares do mundo feminino torna-se, na opinião desta autora, ineficaz para as massas.

Talvez o que muitos grupos dentro do Feminismo, não todos obviamente, estejam fazendo sem saber é apenas incorporar à estrutura masculina do sistema algumas mulheres, que acabam virando chefes com medidas praticamente iguais, ou tão opressoras como a de um chefe homem. E até isso o filme em questão salienta. A chefe de Kim Ji Young é compreensiva com ela, com seus problemas, não a descarta nem por medo de competição, nem pela sua aparente falta de produtividade e utilidade momentânea…

Crédito: Medium.

Aqui também temos um apelo à saúde não apenas física, mas mental, emocional dos empregados como algo primordial para que a estrutura do trabalho, do sistema empresarial possa funcionar melhor. Na busca da superação das várias desigualdades que o sistema atual produz, o universo feminino e suas questões particulares necessitam ser observados por todos e estarem no centro do debate. Só assim antigos padrões e injustiças serão realmente superados.

Ficha técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Kim Do Young | Roteiro: Jo Nam Joo (livro), Yoo Young A, Kim Do Young | Atores: Gong Yoo, Jung Yu Mi, Kim Mi Kyung  | Duração: 1h58 |  Ano: 2019. 

High Score Girl I: um anime sobre videogames e amadurecimento

Por Mayara Araujo

Baseado no mangá de Rensuke Oshikiri, publicado pela desenvolvedora de jogos Square Enix em parceria com a revista Monthly Big Gangan, o animê High Score Girl hoje conta com duas temporadas completas e três episódios em OVA, foi produzido pela J.C.Staff e Shogakukan Music & Digital Entertainment durante os anos de 2018 e 2019. Os direitos de distribuição foram adquiridos pela plataforma de streaming Netflix, que colaborou para difundir internacionalmente esse animê do gênero seinen (voltado para um público predominantemente adulto e masculino). Embora o design dos personagens animados não seja particularmente apelativo para todos os gostos, o animê surpreende pela sensibilidade com que trata questões sobre amadurecimento em congruência com uma série de metáforas inspiradas em jogos clássicos de videogames e fliperamas.

A história retoma a década de 1990 em um saudosismo e tom nostálgico de um Japão que vivenciada o boom dos das lojas de jogos e fliperamas que, por sinal, continuam sendo um ambiente bastante popular até os dias de hoje. Repleto de referência aos clássicos jogos de luta, como Street Fighter e The King of Fighters, acompanhamos a jornada de nosso jovem protagonista Yaguchi Haruo (Kohei Amazaki), um ávido gamer que ainda frequentava o ensino fundamental e possuía como rotina sair da escola e passar em lojas de jogos para ampliar as suas habilidades. O que ele não esperava, no entanto, era ser humilhantemente derrotado no Street Fighter II enquanto utilizava táticas secretas para garantir sua vitória, por uma misteriosa menina cujo rosto e nome ainda se faziam desconhecidos para Haruo.

Ono Akira (Sayumi Suzushiro), por sua vez, é descendente de um zaibatsu (conglomerados industriais) e se comporta justamente da forma oposta à Haruo. Vinda de uma família rica, extremamente controladora e rígida, ela encontra seu subterfúgio nos fliperamas, nas raras oportunidade nas quais consegue fugir de casa e se distrair. Em uma dessas escapadas, Akira acaba duelando com Haruo que dificulta a sua vitória ao se valer das supracitadas técnicas secretas. Com isso, uma história de rivalidade e amizade tem início e acaba se transformando em uma intensa relação de amor e ódio entre as duas crianças.

Fonte: interprete.me

Sem nunca abandonar a rivalidade nos jogos, Haruo e Akira se tornam gradativamente mais participativos um na vida do outro, compreendendo seus dilemas e problemas familiares. No entanto, essa relação ainda incipiente de afeto entre os dois personagens acaba por ter uma interrupção abrupta, quando Haruo descobre que a família de Akira a enviará para estudar no exterior. Infelizes com o afastamento repentino, Haruo começa a aprender a lidar com seus sentimentos juvenis ao correr para o aeroporto para se despedir de sua maior rival – e primeiro amor. Como um gesto de afeto e respeito, Haruo entrega um anel obtido em gacha gacha – um tipo de máquina de venda automática muito populares no Japão, nas quais se oferece pequenas action figures e outros objetos pegos na sorte – para Akira levar de lembrança dos momentos que compartilharam juntos. 

Ainda no Japão, anos depois, Haruo estabelece como meta de vida treinar bastante nos fliperamas para que no dia em que Akira retornasse, ele estivesse preparado para derrotá-la. Entretanto, o que Haruo não esperava era encontrar nessa jornada solitária uma companhia que viria a deixar os seus dias turbulentos no decorrer de sua juventude. Uma colega de classe tímida e introvertida também se torna interessada pelos famosos jogos de fliperama ao observar rotineiramente a afeição que Haruo sente pelos arcades. Inicialmente sem se arriscar a jogar, Hidaka Koharu (Yuki Hirose) vivencia empolgação da competição através dos olhos de Haruo, que acaba a convidando para compartilhar da experiência. Assim como Akira, Hidaka tem um talento natural para os jogos e desenvolve as suas habilidades progressiva e rapidamente. Não é uma surpresa, portanto, que Haruo passe a prestar mais atenção nessa nova amizade e, consequentemente, nessa nova rivalidade.

Enquanto Haruo enxerga Hidaka meramente como uma parceira de jogos e uma desafiante em potencial, Hidaka passa a nutrir sentimentos mais complexos em relação à Haruo. Conforme o tempo passa, ela vai se dando conta de que seus sentimentos de raiva e frustração que são paulatinamente transpostos através de suas vitórias agressivas nos jogos, são decorrentes de uma emoção ainda desconhecida em seu vocabulário. Com medo de nomeá-lo, Hidaka em um primeiro momento reprime os seus sentimentos na medida em que percebe que Haruo não têm acompanhado o mesmo timing de maturidade do que ela. Entretanto, quando em uma viagem escolar um rosto conhecido retorna à cena, Hidaka percebe que sua rivalidade com Haruo em nada significa perto do que está por vir. Ao perceber que Haruo nutre sentimentos por uma misteriosa garota de cabelo roxo, ela percebe que precisa agir.

Fonte: Jbox

No ensino médio, nossos protagonistas desfrutam de um novo ambiente escolar, agora separados. Nesse sentido, o lugar propício para reencontros e o desabrochar de suas emoções fica restrito às lojas de fliperamas. Aqui, pela primeira vez, Hidaka e Akira se encontram oficialmente e se apresentam apropriadamente. Também é a primeira vez que as duas têm a possibilidade de duelar juntas em diversos jogos da loja de arcade. Hidaka não perde a oportunidade de indaga Akira sobre os sentimentos dela sobre Haruo. No entanto, como de costume, o silêncio de Akira é a resposta. Ao mesmo tempo, suas manobras nos jogos se tornam mais agressivas e violentas, deixando claro a rivalidade amorosa entre as duas, e derrotando ferozmente Hidaka. Nesse sentido, as palavras se tornam insignificante e os jogos se tornam responsáveis por transmitir, uma para a outra, os seus pensamentos. 

A vida de Akira, no entanto, se torna mais dura e mais difícil no decorrer dos episódios. Os métodos educacionais caseiros nos quais ela se encontra vão se tornando mais rígidos na medida em que ela foge para apreciar os jogos no fliperama, o que a leva a fugir para outra cidade. Haruo, então, corre desesperadamente atrás de sua principal rival e primeiro amor. Ao saber dos últimos eventos, Hidaka, por sua vez, percebe que é hora de agir e deixar suas próprias palavras expressarem os seus sentimentos, para além dos personagens dos jogos. A temporada encerra, por fim, com o lançamento do playstation I e a sua declaração de amor.

Paralelamente ao amadurecer físico e emocional, o animê se debruça sobre o lançamento de grandes ícones do mundo dos jogos, retratando a excitação da juventude da época ao se deparar com novos jogos e com as versões mais atualizadas dos melhores. Há de se ressaltar aqui a fidelidade com que o animê trata os gráficos da época e a evolução dos mesmos. Além dos supracitados títulos, o animê também conta com a aparição de jogos populares como Mortal Kombat, Samurai Shodown, Space Invaders, Final Fight, dentre outros. Assim, alguns dos personagens desses títulos aparecem recorrentemente como parte da história do animê, através de uma metalinguagem na qual os vídeo-games ajudam aos protagonistas a entenderem os seus próprios sentimentos. Trazendo, por fim, uma nova camada de complexidade para os próprios personagens do universo gamer.

Fonte: manualdosgames.com

A primeira temporada de High Score Girl é uma grata surpresa do catálogo da Netflix brasileira. Com um tom divertido e nostálgico, o animê nos teletransporta de volta para a década de 1990 de uma realidade nem tão semelhante a da juventude brasileira, mas que consegue dialogar perfeitamente com os fãs de jogos da época, através de uma série de referências que aquece e saúda os nossos corações de jogadores ao mesmo tempo em que nos remete aos percalços de nossos primeiros amores e trajetos de amadurecimento individual. 

Ficha técnica:

País: Japão | Direção: Yoshiki Yamakawa | Roteiro: Tatsuhiko Urahata | Dubladores: Kohei Amazaki, Sayumi Suzushiro e Yuki Hirose | Emissoras: TokyoMX, MBS, BS11 | Episódios: 12  Ano: 2018. 

Our Shining Days: quando Ocidente e Oriente se encontram numa batalha muito mais do que musical

Por Mayara Araujo

Ao se falar sobre a China no Ocidente, os discursos e narrativas tendem a ser pejorativos, com um tom ameaçador e repleto de uma profunda falta de conhecimento sobre o gigante asiático. A verdade é que, para além de estereótipos envolvendo comidas exóticas, artes marciais e preconceitos associados a sua cultura e sistema político, a China permanece sendo um território pouco explorado no senso comum do cidadão brasileiro. Por sorte, com o apoio das facilidades promovidas pelas novas tecnologias da comunicação, nos encontramos em uma posição privilegiada para investigar um pouco melhor tal país, através de seus produtos midiáticos que podem ser encontrados em plataformas de streaming como a Netflix e outras vias não oficiais. É nesse contexto que nos deparamos com Our Shining Days, um filme musical de temática adolescente que aborda uma emocionante batalha entre instrumentos musicais tradicionais chineses e os instrumentos clássicos ocidentais. Embora muitos possam torcer o nariz para filmes teen, saiba de antemão que de bobo, Our Shining Days não tem nada.

A história acompanha dois grupos de estudantes de uma escola de música – um da orquestra chinesa e o outro da orquestra clássica – que vivem uma atmosfera de constante rivalidade, competindo sobre quais instrumentos musicais são melhores. O primeiro grupo é composto por estudantes focados em tocar os instrumentos que conhecemos no ocidente, como o piano e o violino, enquanto a orquestra chinesa é especializada em instrumentos musicais tipicamente chineses, como o yangqin e o guzheng, sobre os quais dificilmente os espectadores ocidentais detém conhecimento a respeito. Evidentemente, como todo bom filme de temática adolescente, ele trabalha com clichês do gênero e, com isso, existe uma disputa de poder entre o grupo “popular” e o grupo minoritário, que é constantemente perseguido pelos populares e pela administração da escola. Nisso, os estudantes da orquestra chinesa precisam se reafirmar e reafirmar a importância de seus instrumentos, diante de um cenário de zoações e ameaças de perda de espaço físico, o que os impediriam de praticar.

Em um primeiro momento, a protagonista Chen Jiang (Xu Lu) não se vê envolvida com essas dinâmicas conturbadas entre os grupos rivais, pois está concentrada em seu próprio cotidiano. No entanto, esse cenário rapidamente se transforma, ao se apaixonar pelo pianista Wang Wen (Luo Mingjie). Ao se declarar para Wang Wen, ele não somente a rejeita, como também exalta publicamente o seu desapreço pelos instrumentos musicais chineses, fazendo-a se sentir humilhada. Assim, Chen Jiang rapidamente assume a liderança da disputa musical e se vê determinada em provar tanto para Wang Wen quanto para a orquestra clássica – e a própria escola – o valor e a importância dos instrumentos musicais chineses.

Yangqin, erhu, guzheng, pipa, cello/violin/viola/double bass ...
Instrumentos musicais chineses. Crédito: kijiji.ca

Através da metáforada rivalidade entre dois grupos que preferem instrumentos musicais diferentes, traça-se nas entrelinhas a atual narrativa da recorrente competição por protagonismo e liderança global entre a China e o Ocidente, representado principalmente pelos Estados Unidos. De fato, a importância da China no cenário internacional tem se apresentado de forma cada vez mais proeminente, seja por conta de sua pujança econômica ou seu desenvolvimento tecnológico que vem chamando a atenção ao redor do mundo. Além disso, é perceptível os recentes e crescentes investimentos chineses em propagar a sua cultura ao redor do mundo, através de institutos culturais como o Instituto Confúcio (ICs), inserção da mídia chinesa em diversos idiomas (como a Xinhua News e o China Daily) e a busca em aperfeiçoamento de linguagem para a criação de um cinema com forte apelo internacional. O avanço da China, sem dúvida, contribui para colocar em xeque as pressuposições sobre essa nação diante do mundo ocidental.

Para desafiar a orquestra clássica de forma oficial, Chen Jiang se une com outros cinco estudantes da orquestra chinesa: Li You (Peng Yu Chang), seu melhor amigo que toca o tambor chinês; Xiao Mai (Liu Yongxi), também conhecida como “senhor dos mil dedos”, por conta de suas performances super populares nas comunidades otakus da internet; Ying Zi (Li Nuo), que toca erthu (uma espécie de flauta) e sofreu tanto bullying na escola que parou de falar; Beibei (Lu Zhaohua) e Tata (Han Zhongyu), duas meninas que se vestem no estilo lolita e que tocam ruan e pipa. Juntos, eles formam a banda 2.5 Dimension. No entanto, a falta de popularidade de Chen Jiang é tão expressa que para conseguir formar a banda, ela se compromete a comprar action figures de preço elevado para as participantes não a deixarem na mão e usarem seus talentos em conjunto, para o bem da banda.

Em uma explícita referência a cultura pop japonesa, o 2.5 Dimension é convidado para fazer uma performance ao vivo em uma convenção de animê, na qual também se deparam com olhares desconfiados do público que estava animado com apresentações musicais anteriores de grupos de C-Pop. No entanto, ao começarem a deixar o som de seus instrumentos musicais transparecer, o público geek do evento acaba se aglomerando e ampliando a audiência, aplaudindo ativamente os músicos e disponibilizando a apresentação em plataformas digitais.

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Poster promocional do filme. Crédito: Edko Films Ltd. 

Com a popularidade recém obtida, Chen Jiang, diante de uma plateia de estudantes, novamente se declara para Wang Wen, mas recebe mais um não como resposta. Em mais uma metáfora, Wang Wen, pianista clássico, rejeita a protagonista ao dizer que eles são muito diferentes e que têm objetivos distintos e pede, portanto, para que ela pare de atrapalhar a vida dele. No entanto, inesperadamente, os espectadores da cena compram o lado de nossa protagonista e a defende das humilhações recebidas. Nesse momento, Li You assume a cena, em uma brilhante atuação do jovem ator Peng Yu Chang, que ensina Wang Wen e a nós, os espectadores, as origens do yangqin, que é tocado na China há mais de 400 anos. Nessa alegoria, o roteiro ressalta o valor das tradições chinesas e exige o respeito merecido por sua História e sua cultura.

No retorno das férias de verão, a orquestra chinesa é surpreendida com o anúncio do encerramento das atividades do departamento devido a pouca popularidade obtida ao longo dos anos. Nisso, os estudantes se propõem a defender a permanência do departamento e embarcam em uma disputa musical contra os alunos da orquestra clássica. Em uma emocionante disputa sonora, a orquestra chinesa se faz vitoriosa, obrigando a orquestra clássica a reconhecer a qualidade e o valor dos instrumentos tradicionais chineses. No mais, as apresentações da orquestra chinesa em eventos oficiais e de prestígio para além do ambiente escolar, acabam por influenciar uma nova geração de estudantes de música que, inspirados nesse grupo, vão optando por aprender mais sobre os instrumentos tradicionais.

Por fim, Our Shining Days traduz uma celebração da China de uma maneira leve e ambiciosa, na qual dialoga com o público jovem ao mesmo tempo em que consegue transpor a importância de suas tradições e o orgulho pelo passado através de uma repaginada. Com o pano de fundo musical, a batalha entre oriente e ocidente se torna a veia condutora dos acontecimentos. No mais, independentemente de vitórias ou derrotas musicais, o filme traz uma abordagem revigorada sobre sua própria sociedade, quebrando estereótipos do gigante asiático e revelando uma profunda autoestima. Nisso, a China nos brinda com sua tradição musical, jamais contemplada no Ocidente, e nos apresenta uma trilha sonora repleta do empolgante som do C-Pop.

Our Shining Days - Part 1: Movie Analysis - Ignite Chinese
Crédito: ignite chinese

Ficha Técnica: 

País: China  | Direção: Wang Ran | Roteirista: Bao JingJing | Elenco: Xu Lu; Peng Yuchang; Liu Yongxi; Li Nuo; Lu Zhaohua; Luo Mingjie; Han Zhongyu | Duração: 100min | Ano: 2017

O Motorista de Táxi: as lições políticas do filme ao cidadão comum

Por Alessandra Scangarelli (Via KoreaPost)

Em 18 de maio de 1980, a cidade de Gwangju, na Coreia do Sul, passou por uma revolta popular que ficaria na história como a Revolta Democrática contra o Regime Militar. Em 2011, os arquivos daquela época, foram inscritos no Registro da Memória do Mundo da UNESCO. Estima-se que até 606 pessoas podem ter morrido. Tudo começou quando estudantes locais da Universidade de Chonnam protestavam contra o governo do general Chun Doo-hwan, após este ter assumido o poder através de um golpe.

Os jovens foram atacados, mortos e espancados por tropas do governo, levando os demais moradores de Gwangju a pegarem em armas (roubando arsenais e delegacias locais). No entanto, a insurreição acabou em derrota em 27 de maio de 1980. Durante a presidência de Chun Doo-hwan, as autoridades costumavam definir o incidente como uma rebelião instigada por simpatizantes e desordeiros comunistas. Com o fim das ditaduras e a instauração da democracia, em 1997, foram estabelecidos um cemitério nacional e um dia de comemoração (18 de maio), juntamente com atos para “compensar e restaurar a honra” às vítimas.

É neste contexto que o filme “O Motorista de Taxi”, do diretor Jang Hoon, lançado em 2017, exibido em vários cinemas do Brasil, conta a história real do taxista de Seoul Man-Seuob (Sang Kang-ho) e do jornalista alemão Jürgen “Peter” Hinzpeter (Thomas Kretschmann), que acabaram juntos documentando os fatos ocorridos nesta ocasião. Também se pode acompanhar a luta deles para fugir do bloqueio e perseguição governamental e policial, no intuito de que o material fosse exibido em rede internacional e a verdade fosse contada. Esta produção foi a segunda mais vista pelos sul-coreanos no ano passado, sendo um sucesso comercial e de crítica não apenas nacionalmente, mas em diversos países. Tendo sido premiado em vários festivais, a obra ainda foi indicada pela Coreia do Sul para ser seu representante na categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar de 2018.

Cena real do conflito em Gwang-ju, registrada pelo jornal americano The New York Times.
Cena real do conflito em Gwangju, registrada pelo jornal americano The New York Times.

Há diversas questões que são tratadas no filme: o controle da opinião pública através da mídia dominada pelo governo e por grupos econômicos que acabam censurando os fatos; a importância do trabalho jornalístico honesto; a violência e repressão policial-governamental, a politização da juventude, a rejeição aos golpes de Estado; a pobreza das classe médias, mas, acima de tudo, a importância da consciência do cidadão comum sobre o seu papel político-social, que ele, muitas vezes, prefere não reconhecer.

Man-seob é o típico homem de classe média baixa, ou pobre, poderíamos assim dizer. É um sobrevivente. Viúvo, trabalha horas por dia em seu táxi, percorrendo a cidade de Seul para poder sustentar a filha e pagar as contas. Deve aluguel, não tem dinheiro suficiente para fazer reparos no táxi e não tem com quem deixar a menina, que acaba realizando as tarefas de casa sozinha. Ele parece não ter muito tempo para nada, sua passividade e inocência são claros. Ele não tem opinião política alguma e, na maioria das vezes, não se posiciona sobre qualquer assunto. Contudo, quando o faz, a exemplo dos protestos que ocorrem na capital, ele se queixa dos jovens que, na sua opinião, deveriam estar estudando, além de ficar fazendo baderna por aí. Na cabeça dele tudo vai bem no país, o governo e o exercito são, na realidade, instituições confiáveis, os jovens rebeldes é que são folgados e apenas atrapalham o dia-a-dia do cidadão de bem trabalhador.

Ele deve 100.000 wons de aluguel e quando não sabe onde poderá conseguir tamanha quantia, um colega afirma que um estrangeiro o pagou para ir até Gwangju. Man-seob assume, de forma fortuita, o lugar do amigo. Mesmo tendo morado na Arábia Saudita por um tempo, o seu inglês é bem fraco, mas ele consegue comunicar-se com “Peter” e o ajuda a desviar dos bloqueios do exército à cidade, com um certo “jeitinho” coreano. Quando lá chegam, encontram um verdadeiro cenário de guerra. Protestos contínuos que são reprimidos com violência brutal levam muitas pessoas a serem hospitalizadas. A situação é de tamanha magnitude que os taxistas locais passam a atuar voluntariamente, transportando os feridos. Para tanto, os postos de abastecimento oferecem combustível de graça, e as famílias também passam a cozinhar a todos os participantes. Certa ordem continua sendo mantida graças ao senso moral dos moradores. Isso fica bem claro, quando os taxistas locais acusam Man-seob de querer levar vantagem em cima do jornalista estrangeiro. Não que ele necessariamente fosse uma pessoa corrupta, mas sua condição e a vida dura da cidade grande, onde se tem poucos reais amigos, o fazem aderir às tramoias e golpezinhos do dia-a-dia.

Créditos: KoreaPost

Quando a história começa a desenvolver-se e o espectador é levado a adentrar mais ainda nos protestos, é possível observar que pais e avós também participam das manifestações, sendo agredidos e mortos. A solidariedade entre os participantes faz com que aquele cidadão de Seul vá aos poucos modificando a sua visão e postura com relação ao que assiste. Ele já não consegue compreender tamanha brutalidade das autoridades. É inclusive chamado de comunista por um agente policial do governo. Um estudante, Gu Jae-Sik (Ryu Jun-yeol) que sabe inglês, junta-se à dupla, passando a ser um ator importante para a educação e conscientização do taxista. Ele, um jovem normal, sem quaisquer ideais políticos, participava de um concurso musical na universidade quando os protestos começaram e seus amigos foram feridos. A atuação heroica de Gu Jae-Sik que chega a dar a própria vida, para que o jornalista alemão fosse salvo e com seu material documentado poder mostrar ao mundo o que se passava naquela pequena cidade, provoca uma espécie de culpa em Man-seob e uma transformação total. Aqui há uma crítica simbólica sutil e indireta à prepotência dos moradores de Capitais, que não raramente, acham-se incumbidos de maiores e melhores códigos morais, políticos e civilizacionais que seus compatriotas do interior… Seria mesmo o caso?

No entanto, o motorista, com a ajuda do jornalista e dos colegas taxistas locais, tem a chance de voltar a Seul. No retorno, a vida corre normalmente nas demais cidades próximas. Em uma particularmente, uma celebração à Buda está ocorrendo. Ele compra sapatos novos e caros para a filha com o dinheiro que conseguira, coisa que antes nunca teve a possibilidade de fazer. Depois, entra em um restaurante para comer e escuta os clientes comentando sobre o que se passa em Gwangju. Todos parecem acreditar nas palavras da grande mídia e do governo que afirmam terem os policiais e as autoridades sido agredidos e mortos. Neste momento, o personagem principal depara-se com um espelho e sua consciência o leva a retornar e trazer o jornalista alemão a todo custo de volta para Seul. Ele, que antes insistira que era perigoso estar na cidade, agora incentiva Peter a continuar gravando os corpos de jovens mortos.

Esta produção cinematográfica traz uma importantíssima mensagem em épocas de grande recessão econômica, crise das democracias e nova ascensão da ultradireita no mundo todo, ao cidadão comum. Afinal, este é uma peça chave para a prevenção de contextos como os que se testemunhou no período entre o final dos anos 1920 e início dos anos 1930, onde o mundo encontrou-se em depressão econômica e assistiu passivamente a ascensão de governos extremistas, apoiados por suas respectivas populações, desencadeando mais tarde na Segunda Guerra Mundial. Com interpretações magistrais, “O Motorista de Taxi” é um exemplo do amadurecimento do cinema sul-coreano que parece atualmente estar vivendo seu ápice.

Os personagens principais do filme. Foto: Youtube
Os personagens principais do filme. Créditos: Youtube

País: Coreia do Sul | Direção: Hun Jang |Roteirista: Eom You-Na e Jo Seul-Ye| Elenco: Song Kang-ho, Thomas Kretschmann, Abel Ryu, Cha Soon-bae | Duração: 137min | Ano: 2017 

Parasita: Uma crítica à desigualdade sistêmica, sem pretensões revolucionárias

Por Alessandra Scangarelli (Resenha completa em KoreaPost / Intertelas)

Aqueles que durante o século XX lutaram por um mundo mais igual e sem pobreza salientariam aos líderes e intelectuais de hoje que não adianta aumentar a renda e o poder de consumo das massas, sem ao mesmo tempo, promover a sua conscientização política. E este é o quadro que encontramos em “Parasita”, onde Ki Taek (Song Kang Ho) é um pobre e desempregado pai de família. Ele mora com sua esposa Choong Sook (Jang Hye Jin), o filho Ki Woo (Choi Woo Sik) e a filha Ki Jung (Park So Dam) em um apartamento úmido e infestado de insetos, em uma área de baixa renda de Seul. Um dia Ki Woo leva seu amigo Min Hyuk (Park Seo Joon) para uma loja de bebidas nas proximidades e descobre que seu amigo (que está indo estudar no exterior) vai abandonar uma vaga de professor particular.

O amigo de Ki Woo pede para que ele assuma o cargo, enquanto estiver no exterior. Logo, Ki Woo entra na vida da rica família Park e um plano começa a ser articulado por ele e seus familiares para saírem do sufoco econômico que se encontram, custe o que custar. Mesmo que isso seja “parasitar” na renda e no estilo de vida dos abastados Parks, que por sua vez também são “parasitas” do sistema, obtendo uma fortuna que não sabemos exatamente de onde sai… Contudo, a família de Ki Woo e seu desespero faz com que se tornem praticamente desumanos e pouco civilizados a ponto mesmo de tentar destruir a vida de quem, igual a eles, sofre os mesmos problemas sociais e econômicos como a governanta Moon Gwang, interpretada pela grande atriz Lee Jung Eun. Ela que será o personagem a promover uma reviravolta radical no andamento da narrativa, trazendo resultados inesperados.

A trama criativa, com pontos de virada que trazem novas situações, tornam o conjunto do enredo intrigante e envolvente ao espectador, deixando o suspense, o drama social e psicológico presente até o fim, sem esquecer a crítica que serve de base para a formação desta história. Isso somado a uma cenografia com locações que se alternam entre o bairro pobre e o rico, e a casa pobre e rica que passam a ter uma importância tal para o desenvolver dos acontecimentos, que não seria uma inverdade classificar estas residências, em especial a da família Park como também personagens atuantes na história.

Crédito: IMDb

A fotografia com posicionamentos, enquadramentos e movimentos de câmera que não são certamente revolucionários, mas saem do comum que se pratica, dão um ritmo dinâmico ao filme, da mesma forma que auxiliam a manter a harmonia entre os momentos de tensão e de calmaria. Diversas referências de outros cineastas são possíveis de serem detectadas, mas uma que chamou atenção desta autora foi a da cena final, em que a violência lembra a do japonês Takashi Miike e de seu fã ocidental Quentin Tarantino.

Por fim, não se pode terminar sem falar da interpretação que se destaca pelo seu conjunto. Todos os personagens, principais e secundários, têm importância na medida certa para a história. Nenhum fica sem significado, ou esquecido ao longo do caminho. Esta característica lembra um pouco do norte-americano Robert Altman, cujos filmes com relação aos atores e personagens destacavam-se pelo seu conjunto, sendo difícil ressaltar um ou outro. Para que esta fórmula seja bem-sucedida é preciso contar com o trabalho de atores que saibam imprimir a interpretação ideal, sem concorrer com os demais.

Portanto, o chefe da família Park (Lee Sun Kyun), assim como sua esposa Yeon Kyo (Cho Yeo Jeong), o filho ainda criança Da Song (Jeong Hyun Jun) e a filha adolescente Da Hye (Jung Ji So) atuam como pessoas totalmente desconectadas com o mundo a sua volta, vivendo em uma bolha artificial que criaram para si, onde podem viver em um mundo seguro e perfeito. Eles praticamente desconhecem problemas maiores que apenas a saúde do filho e seu comportamento. Uma bolha em que podem adquirir e descartar pessoas facilmente e onde os faz também serem vítimas da malícia e astúcia humana, em especial de quem está fora da bolha, tentando sobreviver à guerra. A passividade desta família de ricos é tão grande que desconhecem a casa onde vivem e o que ocorre nela quando estão fora, e mesmo quando estão nela.

Já a família “parasita” pobre de Kin Woo enquadra-se perfeitamente na situação de quem está tão pressionado pelas suas dificuldades econômicas que perdeu em grande parte a capacidade civilizatória que compete à humanidade. Tornaram-se sobreviventes, desesperados pela falta de emprego, de perspectivas, fazendo bicos e tendo empregos temporários para terem “um teto”, mesmo sendo uma espelunca que os mantém abrigados. Contudo, até isso se perde com o tempo, levando as atitudes da família a serem mais impensadas ainda.

Ki Taek (Song Kang Ho) o pai de família que mora com sua esposa Choong Sook (Jang Hye Jin), o filho Ki Woo (Choi Woo Sik) e a filha Ki Jung (Park So Dam), busca sobreviver a falta de emprego custe o que custar. Crédito: IMDb.
Ki Taek (Song Kang Ho) o pai de família que mora com sua esposa Choong Sook (Jang Hye Jin), o filho Ki Woo (Choi Woo Sik) e a filha Ki Jung (Park So Dam), busca sobreviver a falta de emprego custe o que custar. Crédito: IMDb.

Pessoas que atingem uma condição assim não tem tempo para grandes reflexões políticas, por isso se tornam eternamente submissas a este sistema. Tornam-se individualistas ao extremo, ainda que atuem pelo bem de suas famílias, mas em detrimento da condição de outros. Não seria de espantar, pois os valores que aprenderam, mesmo nesta situação difícil, é de que devem preocuparem-se com os seus. A situação não é diferente para os endinheirados Park. Não existe evolução social, se não se leva em conta àqueles muitos que não têm relação sanguínea alguma com você. Todos dependemos uns dos outros.

Ainda é importante salientar que as situações apresentadas em “Parasita”, em especial quando uma chuva forte cai na cidade, lembram e muito os problemas que enfrentamos dia-a-dia nas cidades brasileiras, o que aponta para uma última questão. Existem pobres em todos os cantos do Globo, inclusive no mundo desenvolvido. A diferença está nos níveis de pobreza que são encontrados nos países e que estão relacionados ao desenvolvimento econômico e social que cada nação conseguiu atingir.

A Coreia do Sul, assim como o próprio Estados Unidos são países considerados desenvolvidos, mas que entre o grupo de nações desenvolvidas apresentam índices sociais preocupantes, podendo até em uma situação ou outra encontrar semelhanças com os problemas enfrentados no mundo emergente e subdesenvolvido. Por isso, não existe situação ideal. As mudanças de um país para melhor, assim como do mundo em geral, exigem uma reflexão política importante que levará a novas soluções econômicas e sociais. Desta forma, os que mais sofrem com as desigualdades sistêmicas, ou compreendem que elas existem são os aptos a realizar estas transformações, pois dificilmente quem vive no conforto do topo da pirâmide social vai querer modificar este contexto. “Parasita” possibilita tais reflexões e até a sua crítica não revolucionária, algo parecido que se vê em Coringa e Bacurau, pode ter um efeito interessante, pois ao não dar respostas, convidam o espectador a procurá-las.

O diretor Bong Joon-ho segura o prêmio da Palma de Ouro no 72º Festival de Cannes conquistado por seu filme “Parasite”. Crédito: France 24.

Ficha técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Bong Joon Ho |Roteirista: Bong Joon Ho | Elenco: Kang Ho Song, Sun Kyun Lee, Yeo Jeong Jo, Jang Hye-Jin, Choi Woo-Sik, Park So-Dam, Lee Jung-Eun | Duração: 2h12min