Covid-19 e capacidade cultural: a lição sul-coreana

Por Yun Jung Im (professora e coordenadora do curso de Língua e Literatura Coreana do Departamento de Letras Orientais da USP – Universidade de São Paulo)

Cidade que foi epicentro de Covid-19 na Coreia do Sul não tem ...
Profissionais do hospital Dongsang, de Daegu, em abril de 2020. Foto: Yonhap News.

Cronologia da pandemia na Coreia do Sul

No último dia 30 de abril, a Coreia do Sul anunciou ter zerado o número de novos infectados locais de Covid-19 ao cabo de 72 dias, excluídos os quatro detectados no aeroporto. O feito foi noticiado com entusiasmo na primeira página do BBC.com com o título “South Korea records no new local vírus cases”, e também na BBC World News em primeira manchete.

Ainda que no dia seguinte o número já não fosse mais zero, o número total de infectados vinha se mantendo em um dígito por duas semanas, e os coreanos começaram a retomar seu cotidiano com “medidas de rotina anti-pandemia” a partir de 03 de maio. Já com as escolas funcionando, mas também enfrentando a segunda onda de contaminação, os coreanos agora são alvo dos olhares do mundo todo, devidamente alçados ao posto de referência mundial em vigilância epidêmica: em 18 de maio último, o presidente Moon foi convidado para fazer o discurso de abertura da Assembleia Mundial da Saúde da OMS, e a Coreia do Sul foi convidada por Trump a participar da próxima conferência do G-7.

Até 14 de junho, a Coreia do Sul registrou um total de 12.085 infectados (incluindo cerca de 10% daqueles detectados no aeroporto) e 277 mortos. Se excluirmos Daegu, a terceira maior cidade coreana, epicentro secundário e considerada ponto fora da curva, com 6.892 infectados (57%) e 189 mortos (68%) até essa data, os números sul-coreanos causam espanto, diante da situação que temos presenciado em vários países pelo mundo, incluindo o Brasil.  

안철수, 의료복은 땀으로
Ahn Chul-soo, membro da Assembleia Nacional, trabalhando voluntariamente no combate à Covid-19 em Daegu no mês de março de 2020. Foto: Yonhap News.

Explico: o paciente número 31 (reportado em 18 de fevereiro), seguidor de uma seita nada ordinária chamada Sincheonji (Novo Céu e Nova Terra), teria participado de um culto, visitado uma sauna e ainda encontrado vários outros seguidores que estavam reunidos na cidade para o velório de três dias (31 de janeiro a 02 de fevereiro) do irmão do fundador da seita. O caráter “aglomeratório extremo” da seita, com quase 250 mil fiéis no país, teria puxado o gatilho para a propagação fulminante em Daegu a partir de 15 de fevereiro. Até 31 de janeiro eram apenas sete infectados (acumulados), mas um mês depois, em 1º de março, atingia o pico de 1.063 novos infectados.

Eleições em meio a pandemia e louros para o presidente

O zero do dia 30 de abril foi especialmente caro aos sul-coreanos, que haviam ido às urnas 15 dias antes para eleger seus 300 parlamentares. Alívio a todos que acompanhavam a evolução dos números receosos de que a eleição pudesse puxar um novo gatilho, a despeito dos cuidados: uso obrigatório de máscaras, filas com distanciamento, temperatura medida e luvas descartáveis fornecidas na entrada, além da hora final destinada somente para os que estavam em isolamento.

Eleitora vota em eleições legislativas na Coreia do Sul com máscaras e luvas nesta quarta-feira (15) — Foto: Ahn Young-joon/AP Photo
Eleitores precisaram, obrigatoriamente, usar luvas e máscaras para as eleições legislativas na Coreia do Sul. Foto: Ahn Youngjoon/AP Photo.

O bom desempenho do executivo em gerir a pandemia rendeu 180 assentos para o Partido Democrático, feito inédito num cenário político que foi sempre sentido como um “campo inclinado” pendendo para a ala conservadora. A vitória foi obviamente atribuída ao presidente Moon, e a superlua do dia 7 de abril lhe valeu o título de Super Moon.

A pandemia não impediu que se registrasse o recorde de 66,2% de eleitores (o voto não é obrigatório) votantes, quase 30 milhões, que deram um enorme voto de confiança ao presidente, garantindo-lhe os dois anos finais do mandato sem empecilhos políticos. A perspectiva agora é de que as reformas pretendidas pela situação, e que vinham patinando no congresso, desencalhem.

A luta de resistência da situação

Uma das reformas apregoadas pela situação é, certamente, a reforma da mídia. No dia 30 de abril, nenhum dos três jornais mais importantes sul-coreanos, ou até cinco numa lista estendida, haviam dado a notícia do zero com destaque em primeira página. Apenas um deles deu uma nota, em uma posição desprivilegiada. A principal agência de notícias Yonhap, que noticiou o fato com destaque, preferiu o título de “Não houve transmissão do Corona durante as eleições com 29 milhões de votantes”, em vez do “Zero”. Mesmo quando Trump telefonou para o presidente pedindo kits de teste com a promessa de aprovação emergencial pelo FDA (24 de março), ou quando Bill Gates telefonou convidando-o para pesquisas conjuntas em vacina contra o vírus (10 de abril), a imprensa fez pouco caso. Quando a ministra das Relações Exteriores deu entrevista ao vivo no programa Andrew Marr da BBC (15 de março) deixando o mundo de olhos arregalados, a imprensa acusou o governo de “jogar confetes em si próprio”, e finalmente quando o governador do estado de Maryland conseguiu importar kits para 500 mil testes (18 de abril), uma das emissoras coreanas propagou a notícia falsa de que 70-80% dos kits coreanos seriam defeituosos e que os americanos não estavam conseguindo usá-los. No momento, essa mesma agência está sendo investigada por tentar fabricar uma notícia falsa mediante ameaça a um suposto informante, além de conluio com um procurador, com o objetivo de denigrir a imagem da situação e do presidente. A tentativa de busca e apreensão impetrada pelo Ministério Público em 30 de abril à emissora resultou numa barricada humana de dois dias alegando perseguição à imprensa livre.

Seoul National University students hold a rally on their campus, Aug. 23, to urge justice minister nominee Cho Kuk to step down due to multiple allegations surrounding his family. / Yonhap
Estudantes da Seoul National University se manifestam contra Jo Guk em 23 de agosto de 2019. Foto: Yonhap News.

Entretanto, outra reforma ainda mais grave é a do próprio Ministério Público, com poderes para investigar e indiciar, além de abrir investigações sem que haja denúncia. O homem indicado pelo presidente no ano passado para conduzir a reforma do judiciário, o professor de Direito da Universidade Seul, Jo Guk (uma combinação rara em que o sobrenome Jo e o nome Guk formam a palavra homófona de Pátria), entregou o cargo em 45 dias, com sua filha e esposa sendo implacavelmente investigadas pelo Ministério Público, por um suposto Certificado de Honra ao Mérito do ensino médio supostamente falsificado(!). A esposa, presa preventivamente, está sendo julgada, acusada ainda por um empréstimo dado a um primo investidor financeiro. Segundo o Ministério Público, aquilo teria sido na verdade um investimento financeiro travestido, ato proibido para Jo Guk que ocupava o cargo de chefe da Casa Civil – ainda que, rigorosamente falando, Jo Guk era ainda professor universitário à época.

E a economia vai mal, só que não

O crescimento econômico sul-coreano previsto para 2020, que era de 2,2%, foi ajustado para 0,2% pelo Korea Development Institute (20 de maio). A previsão do FMI foi um pouco mais pessimista: 3,2% negativos para a Coreia (14 de abril). Mas o mesmo FMI previu um crescimento de 6,1% negativos para os países desenvolvidos, G7+Eurozone, o que coloca a Coreia com o “maior” crescimento entre os países do OCDE em 2020.

Moon Jaein, presidente da Coreia do Sul, fala à mídia sobre medidas de combate ao impacto econômico do surto de coronavírus no dia 30 de março, anunciando verba direcionada à população mais necessitada. Foto: TheStar.

Até início de maio, os Estados Unidos haviam liberado recursos correspondentes a 13,3% do seu PIB para socorrer a população e as empresas – sem contar a emissão de dólares –, enquanto que o governo coreano havia conseguido liberar apenas 0,7% do PIB em verba emergencial, sob protesto da ala conservadora – coro engrossado pelo próprio Ministério da Economia – que exige salvaguardar a saúde financeira do Estado. Um dos pontos acirradamente discutidos foi a distribuição da verba emergencial excluindo os 30% da população mais abastada, medida que causaria inclusive atraso nos pagamentos. A solução sugerida pela presidência foi de conclamar o povo “mais abastado” a doar o valor recebido, o que poderia diminuir o montante de títulos públicos a serem emitidos, com resposta calorosa e participativa dos internautas.

Se tal discussão colaborou para atrasar a ajuda do governo central, algumas administrações regionais (províncias e municípios) agiram mais rápido, na maioria com cartão de vale-compras que só pode ser usado localmente, com o intuito de salvar os comerciantes do bairro. Com uma dívida pública baixa (38% do PIB), mas também com alto endividamento familiar (94%) e baixo índice de poupança, abaixo dos 40%, a conclusão era clara, nas palavras do governador da Província de Gyeongnam (Kim Gyeongsu): “Se o governo não se endividar, a população irá”.

Cultura a serviço do combate ao Covid-19

 23일 대구시 달성군 구지면 중앙119구조본부에서 119 구급대 앰뷸런스들이 신종 코로나바이러스 감염증(코로나19) 확진자 이송을 위해 확진자가 있는 대구 시내 각 지역으로 출동하고 있다. 중앙119구조본부는 대구에서 확진자가 무더기로 늘어남에 따라 전날부터 전국 시·도에서 18대의 앰뷸런스를 차출해 환자이송에 나서고 있다. 대구 시내 확진자들은 중구 계명대학교 대구동산병원과 서구 평리동 대구의료원으로 이송된다.
Ambulâncias de diferentes lugares da Coreia do Sul se direcionam à Daegu. Foto: Ohmynews.

Segundo o professor de economia Choi Pae Kun, da Universidade Geonguk, o sucesso coreano no combate contra o Covid-19 é resultado de uma “capacidade cultural” coletiva dos coreanos pela mobilização civil, espontânea e desperta, permitindo o governo a manter as fronteiras abertas para China – sob insistentes protestos da ala conservadora –, de onde vem, entre outras coisas, o MB (Melt-Blown), matéria prima para produção das máscaras. De fato, ficaram famosas as fotos do comboio de ambulâncias do país todo se dirigindo para Daegu, das máscaras costuradas à mão por uma senhora idosa entregues no PS do principal hospital de Daegu, milhares de marmitas e guloseimas doadas por empresas para as equipes médicas, além de centenas de voluntários que se dirigiram para a cidade, incluindo o presidente do Partido do Povo, ex-médico, e também as barracas de teste drive-thru, invenção coreana em meio à pandemia.

É verdade que a mobilização civil dos coreanos sempre foi merecedora de atenção dos olhares internacionais: na Crise Financeira Coreana de 1997, três e meio milhões de coreanos participaram da campanha civil para arrecadar ouro guardado nos armários com o fim de pagar a dívida do Estado para com o FMI, sendo arrecadadas 227 toneladas de ouro. Em 2007, uma colisão entre um navio da Samsung e um de Hong Kong provocou o vazamento de quase 80 mil barris de óleo, quando foram registrados um total de 1 milhão e 230 mil voluntários para limpar o óleo impregnado nas pedras em pleno inverno.

Sul-coreanos participam da campanha de arrecadação de ouro no início do 1998 para ajudar o Estado a pagar o FMI. Foto: JoongAng Ilbo.

Mas foi em 2016 que a mobilização civil ganhou definitivamente a política – isto é, os rumos do país – quando milhões de sul-coreanos empreenderam o que ficou conhecido como a Revolução das Velas. Com a então presidente Park Geunhye envolvida em escândalos, o povo foi às ruas segurando velas exigindo seu afastamento. De 26 de outubro de 2016 a 29 de abril de 2017, foram 23 passeatas de velas enfrentando os 15 graus negativos do rigoroso inverno de Seul. A maior delas, em 3 de dezembro, teria reunido 2,3 milhões de manifestantes, segundo os organizadores. Ainda segundo eles, um total de 17 milhões de cidadãos participaram das 23 passeatas, resultando no primeiro impeachment presidencial da história da Coreia do Sul. Sucessor de Geunhye, o presidente Moon é chamado, por esse motivo, de Presidente das Velas.

Vídeo do canal Choi Baegeun TV sobre a Revolução das Velas.

O professor Choi vê na Revolução das Velas o início de uma nova era para os coreanos, em que a sua capacidade cultural se traduz numa democracia popular ativa: em nenhuma das passeatas foi reportado qualquer incidente como roubo ou furto, os prédios liberaram seus banheiros, voluntários distribuíam cafés e lanches, e, ao final, limparam todo o lixo deixado. O economista vai além, afirmando que agora a Coreia estaria prestes a se tornar uma líder global, exercendo um soft leadership – e não soft power, bem entendido, pois nessa nova era o mundo não mais giraria em torno de forças hegemônicas de qualquer tipo.

Para ele, essa consciência democrática ativa da população civil e a liderança transparente do presidente Moon foram a chave do sucesso no combate do Covid-19. Afinal, não houve na Coreia do Sul uma corrida para estocar alimentos ou inflação no preço das máscaras. Além, é claro, da cooperação cívica massiva no distanciamento social, um marco no combate à Covid-19 no país. 

A Revolução das Velas, em 3 de dezembro de 2016, na Praça Gwanghwamun, Seul. Foto: Hankyoreh.

K-culture, K-nóias

Já há pelo menos duas décadas que a Coreia vem ensaiando passos de um emergente soft power, como não deixam dúvidas o K-pop, os K-dramas, o K-cinema, o K-food etc., mas a somatória desses fenômenos não redunda no que chamaríamos de K-culture, pois a verdadeira força desta está no ethos coreano, da corrente pró-ativa pela coletividade, conhecido apagadamente por nacionalismo.

Aproveitando o alcance global do K-pop, os grupos Dreamcatcher, AleXa e IN2IT divulgam os cuidados contra o Covid-19 em um clipe musical.

Enquanto os coreanos assistem estatelados ao que acontece na Itália, França, Inglaterra e Estados Unidos, e se perguntam o que há de errado com esses países que sempre foram fonte de admiração, inveja e sentimento de inferioridade para os coreanos, o professor Choi aponta para o paradoxo em que a civilização ocidental se funda na demarcação e liberdade individuais, e assim busca se manter, mesmo após todas as provas, por diversos meios e experiências, de que tudo está interligado até a garganta. Segundo ele, a fulminante interconectividade do Covid-19, que não distingue pobres e ricos, raças e fronteiras, animais e seres humanos, é uma afronta a uma ordem mundial estabelecida pela civilização ocidental que gira em torno das distinções eu/outro, centro/periferia etc., e tem como premissa básica a liberdade individual. Por outro lado, essa interconectividade letal do vírus rompe a corrente econômica humanamente construída da produção-comércio-consumo.

Se o nacionalismo tem como outro lado a xenofobia, o individualismo tem como efeito colateral a maldosa indiferença quando desprovido de forte lastro religioso. A falência da civilização ocidental decretada pelo professor Choi, por exagerado que possa parecer, busca resposta no colapso da cultura individualista e não invalida o seu raciocínio de que é preciso uma conscientização de uma oni-interconectividade (e por que não oninterconectividade?) necessária em nível global. Seria então a hora de negociar os limites da solidariedade/individualismo, vigilância/liberdade, governantes/governados, pois agora, todos são elos de uma rede interconectada, e cada um tem que segurar sua bola para que toda a corrente não se rompa.

Se o K-qualquer coisa tem assolado o mundo nos últimos vinte anos, o episódio do Covid-19 fez aparecer uma outra onda, desta vez interna, de coreanos inebriados e orgulhosos de seu próprio país. Muitos, incluindo o professor Choi, engrossam a massa dos chamados Gukppong, que ora traduzo, com licença nada poética por K-nóias, e apresento mais um incorporado à massa, o Joseh Juhn, advogado novaiorquino coreano-americano, que chegou à Coreia no último dia 30 de abril e publicou um depoimento no Facebook (nota: Joseh Juhn dirigiu e produziu o aclamado documentário Jeronimo, lançado em novembro do ano passado, sobre filho de um imigrante coreano em Cuba que lutou ao lado de Fidel Castro pela revolução, tornando-se seu ministro):

Cheguei na Coreia. Sabia que teria de cumprir 14 dias de isolamento. Tinha tido sintomas em Nova Iorque desde meados de março. Não eram graves, mas me castigou por semanas deixando-me emocionalmente abalado. Busquei ajuda governamental, mas meus sintomas não eram graves o suficiente para merecer atenção, e deixei meu nome na lista de espera do teste. Seis semanas depois, continuava sem contato. Não pude esconder o meu choque e desapontamento perante a impotência geral do país mais rico e da cidade mais rica do mundo. Com todo o sistema colapsado e lideranças apagadas, a consciência civil também deixou a desejar. O direito soberano da liberdade individual havia sido deturpado, lesando o bem público, produzindo um fenômeno irracional (grifos meus).

1. Passamos por consulta médica e fomos testados ali mesmo. Soltei uma risadinha vazia, sentindo-me bobo. Seis semanas angustiantes de espera em Nova Iorque dissolviam-se de forma absolutamente trivial;

2. Durante a espera, nos deram uma marmita. Aquilo me emocionou profundamente. Como o resultado sairia na madrugada, fomos levados a um hotel próximo e tudo isso nas mãos diligentes de bombeiros, policiais e funcionários do aeroporto e sem qualquer custo;

3. Na manhã seguinte, recebemos a marmita da manhã e cada um foi levado para o seu destino final, por veículos destinados para esse fim. Senti-me como um VIP;

4. Já em isolamento, recebi telefonemas do agente que ficaria responsável por me rastrear por duas semanas e recebi instruções de como utilizar o aplicativo de rastreio;

5. No dia seguinte, recebi uma caixa grande, contendo álcool em gel, termômetro, spray antisséptico, várias máscaras, sacos de lixo, além de alimentos prontos para duas semanas e produtos de higiene;

6.  Alguns chamam isso de “vigilância estatal”, mas me senti tão bem cuidado nos mínimos detalhes, a ponto de pensar se eu merecia aquilo. Na verdade, ainda não consigo acreditar que todos que chegam do exterior recebem esse tipo de “gerenciamento”. A capacidade de gestão pormenorizada e sistemática sul-coreana contrasta gritantemente com os países que chamamos de desenvolvidos, onde até os mais graves são barrados na porta do hospital. Não é simplesmente uma questão de aparelhamento, mas é possível sentir “o interesse humanizado” permeado em todas as etapas, ao qual só posso expressar gratidão (grifos meus).

Os cuidados e os procedimentos aos quais fui submetido ultrapassam qualquer imaginação. Sempre tive alguma ressalva contra iniciativas estatais, mas desta vez gritei várias vezes ‘Viva Coreia!’ por dentro. Tenho inveja daqueles que leem isso que escrevo em coreano. Experiencio o que podemos chamar de padrão global que ainda inexiste em qualquer lugar do mundo, aqui na Coreia.

Remova o óleo colando nas rochas
Voluntários se unem em Mohang-ri para retirar o óleo derramado no Mar Ocidental que ficou preso em pedras do litoral. Foto: Yonhap News.

Conectados, venceremos

Se o senso de coletividade dos coreanos tem como seu lado negativo a xenofobia, talvez essa seja uma oportunidade de, ao exercer tal soft leadership, expandir as fronteiras do “nós” coreano. E, por outro lado, talvez essa seja uma oportunidade para a civilização ocidental olhar com outros olhos para as bases fundantes do seu modo de organizar o mundo e seus possíveis efeitos nefastos. Isso seria mais urgente do que exigir indenização à China, fechar fronteiras e buscar salvar seus lucros em detrimento de quem quer que seja. O momento seria de não deixar cair nenhum elo, civil e global.

Segundo Choi, K-democracia é uma democracia fundada não sobre a liberdade individual, mas sobre a consciência de que ela é construída coletivamente e assim mantida quando cada um desempenha o seu papel de forma auto-regulada. Alguns atribuem o sucesso coreano à uma alegada obediência natural dos coreanos, fruto de uma cultura confucionista, ou ainda, a uma longa experiência por ditaduras militares. Outros ainda podem dizer que Choi generaliza apressadamente um sucesso pontual. Entretanto, a resposta pode ser encontrada mais no sistema público de saúde (não necessariamente gratuito) sul-coreano invejado por Obama, quem idealizou o Obama Care nos moldes coreanos, abortado por Trump, no parque industrial célere e flexível e uma coletividade desperta.

Samguk Yusa, um dos dois livros que formam o cânone do registro histórico da Coreia antiga, compilado em 1281 por um monge budista, traz a lenda do fundador do primeiro reino coreano Dangun. Nela, Dangun teria fundado o primeiro reino coreano sob o lema de “Trazer o bem amplo e geral a todos”, que numa tradução mais livre e oportuna, diria “Promover o ganha-ganha a todos”, devidamente conectados.

Samguk Yusa: Yonsei's First National Treasure
Livro “Samguk Yusa”, onde se encontra o trecho original da tradução “Promover o ganha-ganha a todos” . Foto: site da Yonsei University.

Yun Jung Im