MidiÁsia entrevista Douglas Passos, produtor do Hallyu Rio, maior evento de cultura sul-coreana no RJ

Por Daniela Mazur

Sem dúvidas, o Rio de Janeiro é um polo cultural brasileiro de grande reconhecimento, mas quando o assunto é cultura pop sul-coreana, o estado ainda está se estruturando para ser um espaço pulsante desse consumo. A Hallyu, ou Onda Coreana, possui uma grande comunidade de fãs cariocas, que se organiza em favor de se expandir e atrair eventos culturais e shows de K-pop para a cidade, mas sem grandes apoios institucionais. Apesar disso, nos últimos anos festas noturnas, exposições, competições de covers e eventos especializados na Hallyu começaram a se destacar por aqui, assim como surgiram cursos de coreano especializados em diferentes partes do estado, tamanha a demanda dos fãs. O coordenador do curso Escola de Coreano e produtor de eventos Douglas Passos está envolvido diretamente no processo de ascensão carioca dessa cena cultural e é o grande responsável pelo maior evento de cultura sul-coreana no estado, o Hallyu Rio, e da comunidade Meet Kpop Rio. Com a quarta edição do Hallyu Rio marcada para ainda este ano, desta vez em formato online por causa da pandemia de COVID-19, Douglas conversa com o MidiÁsia sobre a construção da cena K-popper no Rio de Janeiro, as dificuldades de legitimação da cultura pop sul-coreana no estado e a importância de pensar o consumo brasileiro da Hallyu para além de São Paulo, que é atualmente o grande epicentro dessa experiência cultural no país.

O entrevistado Douglas Passos. Fonte: Acervo pessoal.

Como foi o seu processo pessoal de conhecer e compreender a Hallyu? Em que momento percebeu que este setor de consumo cultural precisava de atenção profissional e começou a organizar seus próprios eventos relacionados?

Douglas Passos (DP): Entrei no mundo da Hallyu como fã, então, quando me percebi assim, quis buscar locais e formas de me conectar mais com essa cultura, conhecer pessoas, enfim, saber mais sobre esse entretenimento. O meio principal da época era a internet, especialmente grupos de Facebook, que foi por onde eu conheci esse mundo. Contudo, faltavam espaços físicos ou eventos onde a gente pudesse ir aqui no Rio, que é onde eu cresci e moro. Então, nesse momento em que eu percebi que não haviam locais suficientes ou até mesmo agradáveis para podermos ir, resolvi reunir alguns amigos que conheci pela internet, que compartilhavam comigo dos mesmos gostos. A ideia surgiu de uma página que promovia encontros de fãs de K-pop, mas no Rio de Janeiro não havia nenhuma comoção para realiza-lo, então eu me voluntariei a juntar essas pessoas. Convoquei amigos, que convocaram outros, e, com a ajuda dessa página, a gente divulgou o evento do Rio de Janeiro. Assim, realizamos o primeiro encontro K-pop do Rio, do qual eu fui o organizador. Nesse primeiro momento, então, foi uma questão muito pessoal, eu queria esse espaço e por ele não existir, resolvi participar e ajudar de alguma forma a fazer isso acontecer. Desde o primeiro evento percebi que tinha um público bem consistente interessado no assunto no Rio de Janeiro e que eu poderia repetir a dose, uma vez que a primeira tinha sido um sucesso.

Encontro na Quinta da Boa Vista em 2015 realizado pelo Meet Kpop, grupo de encontro de k-poppers organizado pelo Douglas. Crédito: Amanda Cotrim e página Meet Kpop.

Esse primeiro encontro, em 2013, reuniu em torno de 50 pessoas, que foi o maior até então. As pessoas se juntaram para socializar, ouvir música, conversar sobre K-pop, mas em um espaço público. Essas 50 pessoas falaram com outras, que se mostraram também interessadas, foi assim que percebi a demanda grande que tínhamos por aqui. Fãs do Rio de Janeiro que queriam e procuravam espaços de convivência, mas faltava uma liderança para organizar esses eventos. Com isso, um mês depois, realizamos o segundo encontro que teve o dobro de pessoas. Foi dessa forma que percebi que esse público estava crescendo e esses fãs se encontravam em locais diferentes no Rio, em grupos menores e isolados, demandando um espaço único para socializar e alimentar essa comunidade para que ela pudesse crescer, porque o potencial já existia para isso.

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Palco do Hallyu Rio 2018 com os participantes do concursos cover de dança e canto. Fonte: Sou Méier.

Como você enxerga o consumo da Hallyu no Rio de Janeiro em comparação ao resto do Brasil?

DP: Eu vejo que o Rio de Janeiro é um estado que cresceu muito em relação a isso e o principal fator de crescimento foram os próprios fãs, fomentando eventos, atividades, comunidades na internet. O Rio nunca teve muitas organizações oficiais viradas para a cultura da Coreia do Sul, até mesmo para o entretenimento em geral, foram poucas as vezes que tivemos alguma ajuda de centros culturais, da embaixada ou de outra instituição do tipo. Sempre foi um estado meio invisível em relação a isso, então o consumo da Hallyu foi crescendo graças a própria comunidade, muito foi feito dentro da lógica fã-para-fã. Esse é um fato interessante porque mostra a dedicação dessas pessoas, que, mesmo sem um espaço oficial ou contato com a comunidade coreana aqui do Rio de Janeiro para trocar informações em geral, os fãs se esforçam em buscar outras fontes através de pesquisas. A comunidade carioca de K-poppers é parecida com as de outros estados, como Fortaleza, Espírito Santo e Curitiba, que possuem grandes comunidades de fãs de K-pop, mas não têm muito respaldo oficial para esse consumo, diferente de São Paulo, que sempre teve apoio intenso do Centro Cultural Coreano e outras entidades culturais do tipo.

Apresentação cover no Hallyu Rio 2019. Crédito: Bruno Antonucci.

Em meio a sua vivência da cena, como o Rio de Janeiro se estruturou como um espaço focal da experiência brasileira da Onda Coreana? Entre erros e acertos, podemos considerar o Rio um campo em ascensão para a Coreia do Sul em termos culturais?

DP: A Onda Coreana cresceu no Rio de Janeiro a partir do fã-para-fã, onde muitos deles procuraram fomentar, divulgar e atrair novos fãs para a comunidade, tanto em espaços públicos, quanto na própria internet, esta última especialmente com sites e grupos virados apenas para o Rio de Janeiro. E, de dez anos pra cá, que foi quando a Onda realmente se expandiu, diversos shows de K-pop, atividades coreanas e eventos foram realizados no estado, porque os fãs conseguiram mostrar o grande potencial e número de interessados que existe aqui. Muitas das vezes de forma não-oficial, se utilizando apenas de páginas na internet ou de pequenas pesquisas locais, especialmente com votos e concursos para criar esse burburinho. Os primeiros shows realizados aqui no estado provaram o interesse do público, já que, mesmo quando eram apresentações de grupos muito pouco conhecidos no K-pop (alguns destes que às vezes não tinham grande reconhecimento nem mesmo na Coreia do Sul),realizavam apresentações aqui no Rio com um público bem bacana. É um esforço direto da comunidade carioca para esquentar esse circuito.

Público do Hallyu Rio 2019 durante uma atividade sobre dramas sul-coreanos. Crédito: Bruno Antonucci.

A cada atividade, a cada show, a cada recorde de público em eventos que era batido, os produtores de evento, tanto da Coreia quanto de outros estados brasileiros, começaram a ficar mais atentos ao Rio. Até mesmo o Centro Cultural Coreano no Brasil e a própria Embaixada da Coreia começaram a reconhecer o Rio de Janeiro como um estado em potencial para eventos culturais sul-coreanos. Contudo, ainda estamos em um processo de ascensão, eu diria que o Rio de Janeiro ainda não é um polo para quem ama cultura coreana, a gente ainda não tem atividades consolidadas a esse ponto. Obviamente, hoje temos muito mais eventos do que tínhamos antes, mas eu acredito que ainda não sejam o suficiente em comparação a extensão da cultura sul-coreana em si.

Apresentação de cover de canto. Crédito: Bruno Antonucci.

Acho que ainda faltam espaços ligados a isso, talvez um calendário mais organizado de eventos oficiais, não que os que já acontecem não possam ser considerados oficiais, porém é necessário algo mais estruturado na cultura. O Rio de Janeiro possui apenas um evento voltado totalmente para a cultura sul-coreana, que é o Hallyu Rio. Podemos também ver o aumento de cursos de coreano na cidade e no estado como um todo, coisa que a alguns anos atrás nem existia. Então, em resumo, acredito que o Rio de Janeiro já tem alguns espaços para o consumo da cultura coreana, mas ainda precisa melhorar. E, como produtor de evento, não tenho dúvidas que, para esse tipo de evento, o Rio de Janeiro é um lugar que vale a pena ser explorado.

O Meet Kpop Rio virou um espaço online reconhecido na cena carioca de cultura pop sul-coreana, como foi a concepção e desenvolvimento desse projeto?

DP: O Meet Kpop Rio nasceu com o objetivo de juntar pessoas com um mesmo interesse e cresceu graças aos fãs. Eu sempre fui muito fã e dessa forma tentei me conectar com outros fãs, algo natural, além disso foi graças ao K-pop que descobri minha vocação profissional que é a de trabalhar com cultura, pessoas e eventos, o que ajudou nesse processo. Então, o Meet Kpop surgiu dessa união de interesses. Aproveitamos das trocas com os fãs e nos focamos em aumentar essa comunidade aqui no Rio de Janeiro, assim o Meet Kpop se formou,como um espaço online de troca com os fãs cariocas e também um lugar para organização de eventos físicos virados para essas mesmas pessoas. Hoje são mais de 14 mil fãs na página, além de grupos no Facebook.

FlashMob Viva Coreia realizado pela Meet Kpop RJ em parceria com o Centro Cultural Coreano para as Olimpíadas Rio 2016. Crédito: Meet Kpop.

Quais são as demandas, obstáculos e recompensas de produzir um evento que tenta dar conta de tantas vertentes da cultura pop sul-coreana, especialmente sendo o único de grande porte no Rio de Janeiro? Como se configura o público que participa do Hallyu Rio?

DP: Pra começar, aqui no Rio de Janeiro nós temos poucos lugares oficiais para pesquisar informações sobre a Coreia do Sul. Então, fazer um evento sobre a cultura sul-coreana sem ter nunca ido até o país ou até mesmo sem ser um coreano-brasileiro, como é o meu caso, foi uma tarefa bem difícil. Elaborar um evento sobre uma cultura que não é a nossa demandou muita responsabilidade, por isso convidamos pessoas que tinham grande conhecimento a respeito da cultura sul-coreana e fizemos muitas pesquisas, tanto através de trocas em reuniões, quanto através de contatos com o Centro Cultural Coreano e a Embaixada da Coreia, até mesmo para confirmar informações a fim de não pisarmos em falso. Sempre tivemos essa grande preocupação, mesmo em meio a dificuldade de conseguir informações concretas. E, sendo o único evento sobre cultura sul-coreana no Rio de Janeiro, o público sempre nos confirma o grande interesse existente em nosso estado na Onda Coreana e na cultura da Coreia do Sul. Então, pra gente é um prazer pesquisar e disponibilizar a essas pessoas mais conhecimentos sobre uma cultura que os fãs amam tanto.

Apresentação de Taekwondo pelo Grupo Crescer no Hallyu Rio. Crédito: Bruno Antonucci.

O público do Hallyu Rio muitas da vezes nunca vivenciou a cultura sul-coreana para além do entretenimento, já que, aqui no Brasil, para você experienciar uma parte da Coreia do Sul você precisa ir até São Paulo, onde há restaurantes e centros culturais, ou, para quem pode, ir para a própria Coreia. Por isso, o público do evento é carente e sedento por esses conteúdos. Então, a gente (eu, Monica Velozo e Sergio Menezes, criadores e produtores do evento) tenta trazer um pedacinho da Coreia do Sul especialmente através das vertentes que temos menos contato aqui no estado, como as roupas tradicionais (hanboks) e a culinária, já que aqui no Rio temos poucos restaurantes de comida coreana, até hoje são apenas dois e ficam localizados em locais distante e de acesso restrito para boa parte desse público.  

O Hallyu Rio já estaria em sua quarta edição presencial este ano se não tivesse acontecido a pandemia de COVID-19. Desde 2015, quando aconteceu o primeiro evento, quanto e como o evento e seu público mudaram? Existem também mudanças no reconhecimento e credibilidade do Hallyu Rio no cenário cultural do Rio de Janeiro?

DP: De 2015 a 2020 mudou bastante coisa. Aqui no Rio sempre tivemos uma grande dificuldade de encontrar espaços para eventos, especialmente os de K-pop, porque é comum as casas de show pedirem informações sobre o conteúdo do evento e a gente depende que eles confiem no potencial do evento dar certo. Além da questão da precificação, já que, quanto mais duvidoso o público de um evento é, mais caro pode ser o aluguel daquele espaço. Então, de 2015 pra cá, a gente conseguiu provar a força da Onda Coreana no Rio e do próprio evento Hallyu Rio, como o público é forte e crescente, então isso repercutiu junto às casas de show, facilitando que conseguíssemos espaços para a realização desses eventos. Tanto que, hoje, nós realizamos o Hallyu Rio em um dos maiores espaços culturais do Rio de Janeiro, que é o Imperator, uma casa completa em relação a espetáculos e isso foi graças ao portfólio do Hallyu Rio, que comprova grande crescimento de público. Nossa primeira edição contou com público de 500 pessoas, já a última, realizada em 2019, contou com mil. Nosso público dobrou, então precisamos de um espaço duas vezes maior para comportar todos esses fãs.

Covers e produção do Hallyu Rio 2019. Crédito: Bruno Antonucci.

E o público do evento muda sempre, é bastante cíclico, seguem as tendências do K-pop. Normalmente os fãs começam interessados apenas nos K-dramas e no K-pop, depois passam por um processo de amadurecimento para a expansão de seus interesses para todo o universo cultural da Coreia do Sul. Então, é comum um K-popper começar interessado apenas na música, mas com o aumento no interesse cultural, começar a assistir os programas televisivos, estudar o idioma, provar a culinária do país. Então, o Hallyu Rio acaba abraçando interessados na Onda Coreana que estão em diferentes estágios: desde os que estão aficionados apenas no K-pop, quanto aqueles que já estão mergulhados em todo o contexto da cultura sul-coreana que recebemos aqui no Brasil. Há muitas pessoas também que vão ao evento com o objetivo de aprender sobre como fazer intercâmbio estudantil na Coreia ou até mesmo como conseguir entrar no mercado de trabalho do país. Como o Hallyu Rio é um evento anual, a gente percebe como de um ano para o outro as tendências de interesse vão mudando e como a Onda Coreana está sempre conquistando novos adeptos, porque o público se renova, com novos rostos participando em cada edição.

Sobre a credibilidade do evento no cenário cultural do Rio de Janeiro, hoje é inegável o fato que os produtores de evento e as próprias casas de show já têm consciência da força do K-pop no nosso estado e em todo o país. Festas noturnas, por exemplo, atualmente buscam DJs especializados em música pop sul-coreana, porque sabem que existe essa demanda muito forte do público jovem. Sem dúvidas, o reconhecimento dessa cena e da força da Hallyu é bem expressiva e bem vista hoje em dia.  

Espaço no evento Hallyu Rio para provar a vestimenta tradicional coreana, o hanbok. Crédito: Bruno Antonucci.

Os concursos de cover de dança e canto são expoentes entre os fãs de K-pop no Rio de Janeiro, como se estrutura esse recorte de fãs por aqui? Os covers continuam sendo a grande base dos eventos de K-pop?

DP: O K-pop continua sendo a grande força da Onda Coreana e essa vertente carrega muita coisa com ela, como o estilo e as coreografias. Os fãs tentam interagir com o K-pop de todas as forças possíveis e a dança é a que mais os conecta com essa música. Além disso é uma arte, atraindo até mesmo pessoas de fora do fandom, que se atraem pela qualidade dessas coreografias e expressões. O que acaba, é claro, sendo um chamariz para a Onda Coreana. Os covers agregam muitos fãs brasileiros e até por isso que os concursos de cover nos eventos sobre cultura sul-coreana aqui no Rio acabam sendo pontos altos e importantes para o público.  

Você é coordenador da Escola de Coreano, como você tem percebido a demanda pelo idioma sul-coreano no estado?

DP: O interesse desses alunos começa normalmente pelo consumo de K-pop e K-dramas e a partir disso surge o interesse em estudar o idioma. A faixa etária abrange desde os mais jovens, com 13 anos, até os mais velhos, que na terceira idade se interessam nos dramas coreanos e querem aprender esse novo idioma. Em geral, os alunos mais jovens querem aprender o coreano para expandir seus conhecimentos para poder consumir melhor a Hallyu, até mesmo para tentar fazer um intercâmbio na Coreia do Sul ou tentar trabalhar em uma empresa sul-coreana no Brasil. A Onda Coreana intensificou o interesse pelo idioma no estado, sem dúvidas.

Os eventos de K-pop nos últimos anos têm se distanciado dos bairros da Zona Sul e se aproximado especialmente da Baixada Fluminense, Zona Norte e São Gonçalo. Como você enxerga esse deslocamento e o próprio consumo da Hallyu nesses espaços? Você acredita que o subúrbio é um espaço plural que abraçou o K-pop aqui no estado?

DP: Esse distanciamento da Zona Sul tem acontecido aqui no Rio de Janeiro de forma natural, uma vez que os eventos vão ao encontro dos fãs e suas demandas. Antes os eventos eram realizados em bairros mais “reconhecidos” no Rio de Janeiro, como os da Zona Sul, por uma simples falta de pesquisa sobre onde a maioria desses fãs se encontravam aqui na cidade. Então, com o levantamento desse público, percebemos que ele se encontrava no subúrbio do que na Zona Sul. Por esse motivo, os eventos começaram a se enraizar nesses espaços, que claramente abraçaram o K-pop no Rio de Janeiro.

Você acredita que o consumo carioca da cultura pop sul-coreana esteja se desligando dos espaços da cultura pop japonesa, como, por exemplo, os eventos de anime?

DP: O grande divisor de águas para o desligamento mais concreto entre os consumos cariocas de cultura pop sul-coreana e o de japonesa foi exatamente a criação do Hallyu Rio. Antes dele não existia nenhum grande evento de cultura pop sul-coreana que não fosse interligado à cultura pop japonesa, porque antes existia uma descrença dos produtores, e até mesmo do público, se um evento só de cultura pop sul-coreana se sustentaria aqui no Rio de Janeiro. O Hallyu Rio, então, veio para comprovar esse potencial e consolidou essa divisão. É claro que ainda existem vários outros eventos pelo estado que continuam mesclando esses dois universos, especialmente eventos de anime que possuem espaços especiais para a Hallyu, já que os produtores desses eventos percebem o potencial lucrativo dessa fusão. Contudo, hoje, os kpoppers cariocas não são mais dependentes desses espaços, já que o Hallyu Rio, o Meet Kpop e outros eventos de cultura sul-coreana são realizados periodicamente por aqui.

Quais serão os próximos passos para que a cena do K-pop no Rio de Janeiro possa se aproximar desse epicentro cultural no país, que é o estado de São Paulo? Existe diferença de apoios da embaixada e consulado da Coreia do Sul no Brasil em relação aos eventos de cultura sul-coreana no Rio de Janeiro em relação a outros estados?

DP: A diferença é enorme. Desde a primeira edição do Hallyu Rio, em 2015, que a gente busca contato e apoio com centros culturais do governo da Coreia aqui no Brasil, mas ainda é um processo muito difícil. Sem um órgão oficial da Coreia do Sul no Rio de Janeiro, fica difícil provar a eles a força do público carioca. É claro que já realizamos diferentes eventos ligados à Embaixada e ao Centro Cultural Coreano aqui, mas ainda não temos uma intermediação mais fixa para esses assuntos. Acredito que o Rio de Janeiro tem grande potencial de sediar espaços oficiais de cultura sul-coreana, assim como eventos de grande porte, o que falta é atenção desses órgãos. A verdade é que todos os outros estados, excetuando apenas São Paulo, passam pelos mesmos problemas que a gente. A cidade paulista recebe a grande parte e atenção desses eventos oficiais por causa da concentração de coreanos-brasileiros no estado e dos próprios espaços culturais especializados em Coreia do Sul, assim como Brasília, que também tem destaque, uma vez que a embaixada da Coreia do Sul se encontra lá. Os outros estados, como o Rio de Janeiro, ficam à mercê dos produtores locais, que dependem de conquistar reconhecimento a fim de serem ouvidos por essas organizações coreanas aqui no país. Então, os próximos passos estão em fortalecer a comunidade carioca para apresentar ao resto do país o potencial do Rio de Janeiro como um polo de consumo da Hallyu, só assim a gente poderá criar um espaço deslocado de São Paulo.

Encontro Kpop realizado pelo Meet Kpop e pelo Shopping Nova América em 2019. Crédito: Meet Kpop.

Entrevista com Tetsuya Otsuru, o Cônsul-Geral do Japão no Rio de Janeiro: “A China é um dos parceiros mais importantes para o Japão”

Por Alessandra Scangarelli e Mateus Nascimento (via Revista Intertelas)

O cônsul-geral do Japão Tetsuya Otsuro. Crédito: Facebook do Consulado Geral do Japão.

Nos últimos anos, o continente asiático passou por diversas mudanças com a ascensão econômica e política de países como Japão, Coreia do Sul e mais recentemente, a China. A Ásia Oriental é a região central em torno dessas mudanças. O Japão, uma das nações pioneiras em tais mudanças é um ator estratégico para compreendermos melhor como ocorrem as relações políticas e econômicas desta parte do mundo, em especial sua cooperação com países como China, as Coreias e Rússia.

Levando em conta este cenário, a Revista Intertelas solicitou ao cônsul-geral do Japão no Rio de Janeiro Tetsuya Otsuru, que respondesse algumas perguntas. Aqui o diplomata esclarece questões sobre as relações entre Japão e seus vizinhos, sobre os desafios que a sociedade japonesa enfrenta hoje, como o fato do país estar adaptando-se à pandemia do coronavírus e ele ainda conta sobre sua atuação nas redes sociais, promovendo uma aproximação inédita do consulado com o público local. Confira a entrevista abaixo.

O evento “Impressões do Japão”, parte do “Mês do Japão”, contou com a participação do cônsul geral da China no Rio de Janeiro Li Yang. Crédito: Alessandra S. Brites/Revista Intertelas.

Hoje países como China e Coreia têm maior destaque no cenário internacional, como acha que o Japão poderia colaborar com ambos, para uma maior estabilidade no Leste da Ásia?

A China é um dos parceiros mais importantes para o Japão. Antes da pandemia eclodir, houve contatos de alto nível entre os chefes de governo e ministros das relações exteriores. Além disso, havia iniciativas conjuntas em desenvolvimento nas áreas de esporte e cultura.

Nossas relações econômicas com a China são muito fortes, especialmente em comércio e investimento. Nossos países são interdependentes. O caminho é seguir construindo uma relação ainda mais sólida e madura, além de ampliar e aprofundar os contatos nas mais diversas áreas, contribuindo para a prosperidade na Ásia e no mundo.

Na relação com a Coreia do Norte, assinamos em 2002 a Declaração de Pyongyang, onde concordamos em resolver de forma abrangente os temas pendentes, como os sequestros, o programa nuclear e os misseis balísticos, visando normalizar as relações diplomáticas. Porém, sem solucionar a situação dos sequestros, não será possível alcançar a normalização das relações com a Coreia do Norte.

A Rússia é outro país estratégico para a Ásia Oriental, vizinha do Japão e que nos últimos anos retorna a fortalecer a sua posição no cenário internacional. As pessoas em geral pensam que a relação Japão-Rússia é marcada somente por conflitos. Sabemos que não é. Que exemplos de cooperação entre os dois países o senhor destacaria? 

 É verdade que existem algumas questões abertas com a Rússia como a de território. Por outro lado, é frequente a comunicação de alto nível, entre chefes de governo e ministros das relações exteriores. Isso faz as relações avançarem em áreas importantes como segurança e intercâmbio de profissionais e jovens.

Como exemplo do objetivo de ampliar as trocas entre os países, e como consequência de acordo bilateral com a Rússia, em 2018 e 2019 ocorreram o “O ano do Japão na Rússia” e “O ano da Rússia no Japão”. Foram mais de 600 eventos relacionados a esse calendário e 1,6 milhões de pessoas participaram.

Em 2018 e 2019, Rússia e Japão realizaram a iniciativa de cooperação cultural “O ano do Japão na Rússia” e “O ano da Rússia no Japão”. Em 2018, o presidente russo Vladimir Putin e o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe lançaram o ano transcultural russo-japonês em uma cerimônia no Teatro Bolshoi em Moscou. Crédito: Prime Minister´s Office of Japan.

A Ásia vem tornando-se um polo econômico bastante forte, o que países como o Brasil, localizados em outras regiões distantes do continente asiático, poderiam aproveitar desta nova realidade que o continente está apresentando ao mundo?

Existe um fórum inter-regional para promover o intercâmbios entre os países dos dois continentes, o Fórum Para a Cooperação do Leste da Ásia e da América Latina (FEALAC). No âmbito da FEALAC são discutidos diversos temas como as experiências de desenvolvimento econômico da Ásia e projetos de cooperação.

A FEALAC é um fórum que não trata só de economia, mas também de programas de intercâmbio cultural e projetos relacionados à mudança climática, em um esforço para aumentar os benefícios mútuos. Queremos seguir utilizando esse foro como um mecanismo para alcançar prosperidade para as duas regiões.

Como o senhor avalia o impacto do grupo BRICS para o mundo? E como o Japão poderia colaborar com eles?

Os países dos BRICS conseguiram desenvolver suas economias empregando seus recursos naturais e mão-de-obra abundantes. Para o Japão, onde temos o fenômeno da baixa taxa de natalidade e do envelhecimento populacional, a força que os BRICS demonstram é muito atraente. Daqui em diante, queremos aprofundar a relação tanto nos canais econômicos, quanto na diplomacia cultural e nas iniciativas de intercâmbio de estudantes e jovens líderes destes países.

O Brasil participou em Santo Domingo da “XX Reunião de Altos Funcionários do Foro de Cooperação América Latina- Ásia do Leste. que celebra os 20 anos do Foro. Crédito: Facebook da Embaixada do Brasil em São Domingos.

Sobre as relações Brasil e Japão, o que o senhor apontaria como bons resultados e o que poderia ser aprimorado?

Como foram realizadas três reuniões entre os chefes de governo no ano de 2019, a relação do Japão e o Brasil está consolidada como nunca antes. Desde 2014, nos baseamos na premissa dos “Três Juntos (Progredir Juntos, Liderar Juntos, Inspirar Juntos)”, com cooperação ativa nas áreas de economia e de programas de intercâmbio. No futuro, queremos desenvolver ainda mais essa relação e ao mesmo tempo, queremos focar em fortalecer os laços com a comunidade Nikkei, descendentes de japoneses, no Brasil, que é maior fora do Japão.

Com o advento do coronavírus, infelizmente, vemos uma onda de preconceito contra asiáticos no ocidente, como o Japão vem respondendo a este desafio?

Antes de surgir na Europa ou América Latina, a expansão de novo coronavírus ocorreu na Ásia. Porém, lamento que isso tenha instigado a discriminação e o preconceito contra os asiáticos, incluindo os japoneses. Aqui no Rio de Janeiro, houve o caso de um estudante asiático que foi agredido com palavras discriminatórias no Metrô. Fiquei muito triste com isso.

 Ao mesmo tempo, vemos o movimento “Black Lives Matter” espalhando-se dos EUA para todo o mundo. O Japão está empenhado em criar um mundo sem discriminação. Acredito que a comunidade internacional pode atuar em conjunto para vencermos esse desafio sem precedentes, da pandemia combinada com a discriminação.

Como o Japão está adaptando-se à realidade do coronavírus, ao mesmo tempo que é a sede das olimpíadas?

Nesse momento em que ainda não temos uma vacina para o coronavírus, a cidade de Tóquio está se adaptando a um novo estilo da vida. No Japão, cada um de nós deve tomar as medidas básicas para não se contaminar, como por exemplo usar máscara e lavar as mãos. O governo também recomenda evitar as aglomerações no dia-a-dia.

Além disso, muitas empresas passaram para os regimes de “home-office” e de reuniões virtuais, como parte deste “Novo Normal”. Infelizmente tivemos essa pandemia em nosso planeta e por isso os Jogos Olímpicos de Tóquio foram adiados para o ano que vem. Contudo, nós estamos trabalhando arduamente para criar um ambiente seguro para realizar os Jogos Olímpicos. Creio que em 2021 os Jogos terão um papel de reconfortar a humanidade que este ano está enfrentando esta imensa dificuldade.

Se o senhor pudesse listar, quais seriam os desafios principais que a sociedade japonesa enfrenta neste início de século XXI e como poderia superá-los?

 Um grande desafio que a sociedade japonesa enfrenta é o demográfico, com baixa taxa de natalidade e envelhecimento populacional. Nossa população jovem está diminuindo. Há previsões que mostram que em 50 anos, os idosos com mais de 65 anos de idade serão 40% da população.

Olhando para esse desafio, devemos pensar em alternativas. Há opções possíveis: ampliar a mão-de-obra estrangeira e aprofundar a automação na produção com o uso da inteligência artificial por exemplo.

Por sua vez, essas alternativas nos levam à novas demandas, para alcançar a sociedade da coexistência intercultural e para ter a infraestrutura necessária para a privacidade e a segurança tecnológica. Tomar essas medidas que eu mencionei, de forma simultânea, requer um tratamento cuidadoso desses assuntos, porque eles são complexos.

Crédito: National Institute of Population and Social Security Research.

Você já expressou nas suas postagens que futuramente o Japão pode tornar-se uma sociedade multicultural, em razão do número cada vez maior de imigrantes e seus descendentes que vivem no país. A questão da imigração e do multiculturalismo estão no centro do debate político mundial atualmente, qual a sua visão sobre eles?

A vasta experiência que temos com o Brasil serve de referência para a criação de uma sociedade multicultural no Japão. Cerca de 200 mil brasileiros vivem no Japão, e este é um ano a ser celebrado, pois comemoramos 30 anos da comunidade brasileira no Japão. A cidade anfitriã do Time Brasil durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Tóquio será Hamamatsu, na província de Shizuoka, que irá receber o maior número de atletas da delegação brasileira.

Lá tem uma grande comunidade brasileira, com escolas que lecionam língua portuguesa e podemos ver pela cidade placas escritas em português. Podemos desfrutar de churrascarias, eventos de samba com quase o mesmo nível do Brasil. Espero que, tendo como modelo para o governo local a cidade de Hamamatsu, com seu longo histórico em acolher estrangeiros, possamos construir uma sociedade multicultural. Mas ao mesmo tempo, talvez possamos usar como referência a iniciativa do Brasil, que por tanto tempo veio acolhendo os descendentes japoneses.

Normalmente, as pessoas têm uma visão ainda bastante estereotipada sobre o Japão. Isso ocorre tanto no Brasil, quanto em outros países. O Brasil também acaba sofrendo com o mesmo problema. Acreditamos que quando nos conhecemos melhor, menos conflitos são gerados. Como a diplomacia cultural, ou até outras medidas governamentais, poderiam auxiliar a um conhecimento mais profundo sobre os países e suas culturas?

O Brasil possui a maior comunidade japonesa do mundo, e é um país com muitas pessoas aficionadas e conhecedoras do Japão. Por outro lado, dentre os brasileiros comuns, devem ter ainda muitos que confundem as culturas japonesa, chinesa e coreana, não é mesmo?

Uma das nossas funções é a propagação da verdadeira cultura japonesa e regularmente realizamos eventos para apresentar esta cultura. Em fevereiro e março deste ano, realizamos no Centro Cultural Correios do Rio de Janeiro um evento chamado Mês do Japão (veja a reportagem que a Intertelas realizou na abertura do evento). Além da exposição de pôsteres, calendários e peças de origami, fizemos um concerto musical, mostra de filmes japoneses, e workshops de mangá, origami e ikebana, e recebemos muitos visitantes. Depois que passar a pandemia do coronavírus, gostaria de retomar este tipo de evento. Além disso, no momento estamos planejando eventos culturais online.

Ao mesmo tempo, o Consulado-Geral tem como uma de suas importantes funções transmitir corretamente a todas as camadas da sociedade japonesa notícias e informações relacionadas ao Brasil. Acredito que isso contribuirá para corrigir as imagens possivelmente estereotipadas entre os japoneses. Todos os funcionários deste Consulado Geral estão trabalhando nisso, juntos, todos os dias.

Discurso do Cônsul-Geral do Japão no Rio de Janeiro Tetsuya Otsuru durante a cerimônia de abertura do Mês do Japão no Centro Cultural Correios (clique na imagem para ser direcionado para o vídeo no Facebook). Crédito: Facebook Consulado Geral do Japão no Rio de Janeiro.

O Brasil, assim como outros países da América do Sul, tem uma forte influência da cultura europeia e dos Estados Unidos. A Ásia e suas culturas estão também presentes há séculos na região, porém não com a mesma intensidade. Como o senhor avalia o futuro da presença cultural do Japão e da Ásia como um todo no Brasil e na América do Sul?

Como o Brasil tem o histórico de ter acolhido imigrantes de diversos países, recebeu fortes influências culturais de muitos deles, principalmente da Europa. A imigração japonesa começou em 1908, e atualmente há no Brasil uma comunidade japonesa de dois milhões de pessoas. Além disso, também temos o trabalho da comunidade Nikkei que se esforçou para espalhar a culinária japonesa, suas verduras e legumes. Sinto que a presença cultural japonesa aqui não é pequena.

Por outro lado, agora está nascendo a sexta geração de descendentes de japoneses, e a medida que avança a mudança de gerações, o governo japonês busca aprofundar a compreensão do Japão atual, através do programa de convite a nipo-brasileiros na América do Sul. Além disso, nosso Consulado divulga a cultura japonesa através das mídias sociais e eventos culturais.

O senhor gosta um pouco da cultura brasileira. Qual aspecto parece-lhe mais interessante? Tem algum hábito brasileiro que o senhor adquiriu desde que chegou aqui?

Não é um pouco, é muitíssimo! Acho que tem aspectos diferentes e parecidos entre brasileiros e japoneses. Tenho a impressão de que os brasileiros sabem aproveitar a vida muito mais que os japoneses. Pelo menos eu sinto que meu coração se enriquece mais quando estou dançando com todo mundo no Carnaval, ou vendo o sol se pôr na praia de Ipanema, do que se eu estivesse dentro de um trem lotado em Tóquio. No entanto, talvez no que diz respeito à profundidade do “pensar no próximo”, tanto os brasileiros como os japoneses tenham excelência em comparação a outros povos do mundo. Além do mais, nas danças tipo samba, ou então nos dribles de futebol, vocês brasileiros são dezenas de vezes melhores que nós japoneses, sem nenhuma dúvida.

Apesar da pandemia, quais têm sido as ações do Consulado para incentivar o gosto pela cultura japonesa?

O Consulado já costumava postar conteúdos sobre a cultura japonesa ativamente nas redes sociais como o Instagram e o Facebook. Porém com a disseminação da infecção do coronavírus, não foi mais possível realizar eventos com aglomeração e com isso a importância do uso das redes sociais ficou ainda maior. Desde que comecei a trabalhar aqui, comecei a usar o Instagram pela primeira vez. Apresento não só a cultura japonesa, mas também os encantos do Rio e coisas que eu sinto na vida cotidiana. Ficaria feliz que pudessem seguir as nossas redes e aprofundar o interesse pela cultura japonesa.

O senhor é bem articulado nas redes sociais. Como percebe essa relação de um consular com o público mais amplo que lhe acompanha?

Eu comecei a usar o Instagram em novembro do ano passado e estamos com mais de 2.500 seguidores. Tem um limite de pessoas com quem eu posso conversar realmente. É um grande prazer poder interagir através do Instagram com tanta gente e eu ficaria muito feliz se as pessoas que veem as minhas postagens, possam ficar mais alegres na difícil situação que encontramos hoje. Na verdade, se alguém tiver pedido com sugestão de assunto para eu falar a respeito, vou adorar receber comentários. 

“O Cônsul Geral do Japão no Rio de Janeiro no Instagram, o sr. Tetsuya Otsuru, tem cedido o espaço para o chef de sua residência, o sr. Takeo Shingu, para ensinar aos seus seguidores várias receitas de comida japonesa” (clique na foto para acompanhar o Instagram do Consulado Geral do Japão no Rio). Crédito: Facebook Consulado Geral do Japão no Rio de Janeiro.

Quando as pessoas encontram com autoridades japonesas, normalmente acontece de valorizarem muitos aspectos do Japão, comparando-os com a cultura brasileira. Mas, se o senhor pudesse falar de hábitos parecidos entre brasileiros e japoneses, qual ou quais o senhor destacaria?

Aqueles que já visitaram o Japão, talvez possam ter tido a experiência de excelentes recepções e serviços. A esse respeito, acho que a maioria dos turistas que visitam o Rio de Janeiro, um dos principais destinos turísticos do Brasil, são atraídos não somente pelas belas praias e paisagens, mas também pelo sorriso alegre e a gentileza carioca. Penso que como mencionei anteriormente, o termo em comum de “pensar no próximo” existe no fundo tanto para o brasileiro quanto para o japonês.

Entrevistadores:

Alessandra Scangarelli Brites
Editora-chefe da Revista Intertelas, jornalista (PUCRS), escritora, tradutora e pesquisadora vinculada ao MidiÁsia (Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática e Contemporânea da UFF) e ao Grupo de Estudos 9 de Maio. Especialista em Política Internacional (PUCRS) e Mestre em Estudos Estratégicos Internacionais (UFRGS). Além de jornalista, trabalhou como assistente de produção e conteúdo em algumas empresas de cinema do Rio de Janeiro

Mateus Nascimento
Colunista da Revista Intertelas, mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense (PPGH-UFF). Graduado em História pela mesma universidade. Pesquisador efetivo do Centro de Estudos Asiáticos (CEA-UFF), do Núcleo de Estudos Tempo Literário do Instituto Cultural Brasil-Japão e do MidiÁsia/UFF – Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática Contemporânea. Membro da Red Iberoamericana de Investigadores en Anime y Manga (RIIAM) e da Academia Nipo-Brasileira de Estudos de Literatura Japonesa (atuando como seu vice coordenador no triênio 2019-2021)

Edição e pesquisa de vídeos/imagens: Alessandra Scangarelli Brites.

MidiÁsia entrevista Luis Girão, coordenador do Grupo de Tradução de Literatura Infantil Coreana da USP

Por Daniela Mazur

O pesquisador Luis Girão. Crédito: Acervo pessoal.

Hoje em dia é difícil pensar em Coreia do Sul e não remeter diretamente à sua cultura pop. A Onda Coreana tem presença cativa nos fluxos culturais da arena global contemporânea e seus grandes pilares, o K-pop e os dramas de TV, se apresentam de forma contundente no mercado internacional e aqui no Brasil. Contudo, uma das vertentes desse fenômeno cultural ainda pouco comentada em terras brasileiras, mas de grande reconhecimento no cenário mundial, é a Literatura sul-coreana. Por esse e outros motivos, é essencial que as pesquisas que abordam esse pilar estejam em destaque, especialmente nesse momento de aprofundamento da experiência da cultura coreana no cotidiano brasileiro. Para isso, convidamos o estimado pesquisador acadêmico Luis Girão para uma conversa sobre o lugar da Coreia do Sul nos fluxos literários globais e o destaque da literatura infantil nesse movimento. Ele, que é doutorando e mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP e graduado em Design de Moda pela Faculdade Católica do Ceará, coordena atualmente o Grupo de Tradução de Literatura Infantil Coreana e Contos Folclóricos Coreanos no Departamento de Letras Orientais da USP, junto a professora e principal tradutora de livros sul-coreanos para o português brasileiro, Yun Jung Im Park. Ele também faz parte do grupo de pesquisa “A voz escrita infantil e juvenil: práticas discursivas” (PUC-SP) e ministrou, em fevereiro de 2020, o curso Literatura Infantojuvenil Coreana: Histórias e Horizontes na USP. Com toda sua experiência e bagagem de pesquisa, Luis fala ao MidiÁsia um pouco sobre o universo fascinante da literatura, com foco acurado nos livros infantis da Coreia do Sul que, até mesmo aqui no Brasil, já fazem parte do dia a dia das crianças.

Ilustração do livro “Espelho” de Suzy Lee. Crédito: Suzy Lee.

Apesar da força da Onda Coreana no Brasil na última década, o mercado da literatura sul-coreana ainda se apresenta incipiente por aqui, diferente do cenário internacional. Existem previsões de que o mercado de romances literários sul-coreanos se concretize de forma mais efetiva no nosso país?

Luis Girão (LG): O mercado de livros no Brasil, de maneira geral, vem sofrendo há algum tempo e, nos últimos 3 anos, a situação tem ficado visível aos olhos todos, já que grandes redes de livrarias e editoras estão fechando as portas. Isso não deixa de ser um sinal dos tempos e reflexo socioeconômico, mesmo cultural, do brasileiro. Fora o caráter político, uma vez que um dos maiores compradores de livros no Brasil é o próprio governo. No entanto, em paralelo a essa série de constatações que não deixam de ser lamentáveis, testemunhamos um surgimento pulsante, ainda que localizado nas capitais, de pequenas iniciativas movidas por livreiros cujo foco está nas editoras menores, mesmo independentes. Ou seja, há uma queda massiva na presença de livros à disposição para leitores habituais e leitores em potencial, ainda que uma “nova” alternativa à sobrevivência na circulação de livros se apresente no horizonte e venha demonstrando recepção positiva de um público mais seleto e consumidor de gêneros específicos – o que tem resultado em mudanças comportamentais na relação de leitores com a leitura e o consumo de literatura. Além disso, destaco alguns dados do Instituto Coreano de Tradução Literária (LTI Korea) referentes à queda drástica no número de obras traduzidas do coreano para outras línguas entre os anos de 2014 e 2015 (de 3899 títulos traduzidos em 2014 para 466 em 2015), queda esta que estabeleceu um patamar menor nesses números até hoje (360 títulos traduzidos em 2016, 475 em 2017, 277 em 2018 e 349 em 2019).

Dados do Instituto Coreano de Tradução Literária que abrangem a queda da tradução de livros sul-coreanos entre os anos de 2014 e 2019. Fonte: LTI Korea.

Coloco esse quadro antes de responder diretamente à pergunta, pois é bastante pertinente apontar as possibilidades que vão surgindo com essa mudança comportamental da sociedade na sua relação com a leitura. Isso posto, tomo como dados oficiais um estudo recente da professora Yun Jung Im Park, principal tradutora de literatura coreana para o português no Brasil hoje, onde ela reflete sobre a falta de tradutores literários capacitados para a execução dessa tarefa crítica e criadora que é tornar acessível um texto de partida em uma língua, para um texto de chegada, em uma outra. Ela aponta nosso olhar para alguns horizontes prováveis, caso seja investido um maior esforço na mudança desse contexto carente de tradutores e acredito que, atrelada à realidade que comentei inicialmente (sobre as mudanças comportamentais ligadas à leitura do brasileiro), há aí uma oportunidade de ouro – tanto para as editores nacionais, quanto para os projetos de fomento internacionais – para obras literárias coreanas na pluralidade significativa que a Coreia do Sul vem produzindo nas últimas décadas, em especial, após a fundação do LTI Korea.

Entrevista com a professora Yun Jung Im Park em 2017 pelo canal do Itaú Cultural.

O mercado editorial no Brasil é movido, em parte, pela tradução de livros que entraram na categoria best-seller em cenário internacional, o que segue como uma das portas de entrada de títulos coreanos cada vez mais premiados no exterior (romances, em sua maioria). Porém, nem só de prosa longa é formado esse cenário literário: há muitos contistas e poetas coreanos cujas vozes precisam ser ouvidas para além de limites geográficos e alcançar ouvidos de humanos que vivem sensações semelhantes às suas e que estão espalhados pelo mundo – eu destacaria, com certa segurança, muitos deles no Brasil. O consumo de coletâneas de contos é uma realidade ao leitor adulto brasileiro, o que já aponta aí uma investida possível e profícua paralela à recorrente tradução de romances coreanos.

A autora Han Kang e seu livro de grande sucesso internacional, A Vegetariana. Crédito: Jean Chung do The New York Times.

Como pesquisador da área, você acredita na possibilidade de engajamento do público global que consome a cultura pop sul-coreana com as histórias apresentadas pelos grandes sucessos literários que a Coreia do Sul está exportando para o mundo?

LG: Se tomarmos como verdadeira a hipótese de que maior parte do público consumidor da cultura pop sul-coreana são pessoas que assistem e curtem dramas de TV, eu acredito que sim, há uma probabilidade palpável de que esse público consuma a literatura coreana reconhecida internacionalmente. Estamos falando de uma forma narrativa que é milenar: a poesia dramática. Se os dramas coreanos, desde que despontaram como uma das bases da Hallyu, conseguem capturar telespectadores por seu incessante desenvolver de relatos humanos ficcionalizados, não diferente seria o impacto da leitura de uma prosa, longa e/ou curta, coreana no leitor de hoje. A leitura de romances coreanos, como os de Han Kang ou Bae Su-ah, não muito se difere da materialização sensível de um humano estilhaçado em múltiplas camadas de complexidade na leitura de uma coletânea de poesias como a de Kim Ki-Taek.

A autora Bae Su-ah e sua obra “Sukiyaki de domingo”. Crédito: arttv.ch e Estação Liberdade.

Os elementos que constituem uma identidade nacional coreana – hoje presentes, inclusive, nas letras mais conscientes dessa construção identitária no k-pop, como as escritas pelo Suga do BTS –, sempre marcantes nos dramas coreanos, aparecem de maneira mais aprofundada nas personagens literárias, o que acaba por ampliar o raio de alcance do “estar em contato” com essa subjetividade coreana no contemporâneo. Esse acesso à diferença de alteridades por meio da literatura, de maneira diversa à do drama e à da música, mesmo à do cinema, em muito embasa minha crença de que, sim, o público que consome a cultura pop sul-coreana se engajaria quando diante da leitura de um romance ou uma poesia. Mas eu acrescentaria um ponto: o leitor jovem (adolescentes entre 12 e 18 anos) é consumidor voraz de ficção em prosa, dados os números de vendas dos best-sellers identificados como juvenis, ou YA (Young Adults). Essa faixa de público é aquela que consome músicas e dramas, mesmo os manhwa, coreanos. Fica a questão: por que não investir mais nesse público juvenil?

Agust D, ato solo do Suga (BTS), na sua música lançada mais recentemente, onde o artista critica o universo da indústria do K-pop enquanto faz referência à símbolos e personagens da Dinastia Joseon.

Além de ser um especialista em literatura sul-coreana, você acabou se encontrando junto à especificidade dos livros infantis. Como foi sua jornada de descoberta desse universo em particular?

LG: Sou uma pessoa intimamente relacionada com o livro infantil desde a infância. Essa relação moldou muito o meu sentir o mundo e o meu expressar. Fui para a faculdade de Moda por ser apaixonado por desenhar desde essa época, quando um livro narrando um conto de fadas tradicional sequestrava minha atenção pelo colorido das ilustrações e pelas músicas que tocavam enquanto a página estava aberta em minhas mãos. Após o meu primeiro contato com a música coreana, entre 2003 e 2004, acabei indo trabalhar como ilustrador para uma gravadora coreana por 2 anos, entre 2010 e 2012, período em que eu realizava, paralelamente, minha especialização em design gráfico (agora reunindo a paixão por ilustrações e palavras num mesmo espaço de criação – o livro) e auxiliava na tradução do coreano para português (comecei a estudar a língua coreana, como autodidata, em 2006) de notícias, letras de músicas, falas de dramas, blogs sobre filmes e gêneros musicais para um portal especializado em cultura coreana – fundado por Natália Pak e eu, em 2008: o SarangInGayo. Nesse período, tive contato com a obra de Suzy Lee.

Suzy Lee é autora e ilustradora de livros infantis, como “Onda” e “Espelho”, lançados no Brasil em 2009. Crédito: site Crescer.

Esse contato foi um “divisor de águas” na minha história pessoal, pois, cheio de indagações pela leitura da obra dessa autora enquanto ilustrador, tradutor e entusiasta da cultura coreana, tomei a decisão de me dedicar exclusivamente aos estudos em âmbito acadêmico daquilo que eu não conseguia explicar às pessoas que me perguntavam “Mas o que é isso que você está estudando? Um livro de uma autora coreana? Um livro sem palavras? Não tem em português?”. Eram perguntas que me inflavam para buscar formas de respondê-las, já que eu não vinha das Letras, mas do Design. O período em que comecei a estudar exclusivamente sobre esses “livros sem palavras” (os livros-imagem) foi também o período que me aprofundei na obra de Suzy Lee – autora que começou a publicar livros em 2002, fora da Coreia do Sul. Hoje, com quase 20 anos de carreira e reconhecida internacionalmente por ter levado a literatura infantil sul-coreana para lugares inimagináveis exatamente pela linguagem universal das imagens (“sem palavras”), posso dizer que ela “abriu caminhos” para a imensa, e de extrema qualidade, produção de livros ilustrados coreanos (o geu-rim-chaek) que, por sinal, vem ditando tendências a nível internacional nos mercados dessa literatura endereçada à infância.

Animação de um dos livros de Suzy Lee, “Onda”. Crédito: Danilo Pasa; Cosac Naify.

Estudei Suzy Lee como uma das autoras analisadas em minha dissertação de mestrado (2015-2017) – em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP –, e ela segue como um dos objetos de investigação em minha tese de doutorado (2018-), exatamente como exemplar desses livros infantis que deixam o leitor atônito e sem respostas precisas às perguntas que me faziam quase 10 anos atrás. De lá pra cá, fui descobrindo e lendo as obras de outros autores sul-coreanos que publicam livros ilustrados infantis e, mais recentemente, venho investigando também a produção em prosa juvenil. Se antes, entre 2003 e 2012, eu já era um entusiasta da cultura coreana, hoje, de 2013 até agora, o ânimo de seguir promovendo essa produção cultural riquíssima em qualidade formal e de conteúdo parece reforçada e sem limitações de horizonte.

Alguns dos livros já lançados por Suzy Lee. Crédito: site The Picture Book Lab.

No contexto atual, quais são as principais tendências na literatura infantil sul-coreana que você poderia nos apontar?

LG: Em outubro de 2018, participei do VII Encontro de Estudos Coreanos da USP, a convite da professora Yun Jung Im Park. Para a ocasião, propus uma fala sobre a pesquisa que venho realizando em paralelo ao meu doutorado: a literatura infantil coreana e os livros ilustrados coreanos. Após um breve histórico sobre a recente história da literatura infantil na Coreia (iniciada na década de 1920, por Bang Jung-hwan), apresentei algumas tendências dessa produção literária hoje, nas explorações de linguagens múltiplas que ela se utiliza – verbal, visual, sonora, tátil, incluindo o objeto livro.

Capas brasileiras dos livros “Flora Hen: Uma fábula de amor e esperança” de Sun-mi Hwang (Editora Geração) e “Esperando Mamãe” de Lee Tae-jun (Editora SM).

Como se passaram 2 anos dessa fala, atualizo esses dados afirmando que os livros infantis coreanos se debruçam acerca de temáticas essencialmente humanas, como: o universo familiar (caso de Esperando mamãe/엄마 마중, de 2012, escrito por Lee Tae-jun e ilustrado por Kim Dong-seong); as amizades que nos mantêm vivos (caso de A meninada convidada/초대받은 아이들, de 2001, escrito por Hwang Sun-mi e ilustrado por Kim Jin-yi); o revisitar histórias de animais (como Flora Hen: Uma fábula de amor e esperança/마당을 나온 암탉, de 2014, escrito por Hwang Sun-mi e ilustrado por Yasmin Mundaca); o explorar dos passados recente e longínquo (como A casa onde os livros zanzam/책과 노니는 집, de 2009, escrito por Lee Young-seo e ilustrado por Kim Dong-seong); espíritos/monstros/fantasmas já nem tão escondidos assim (como Gelato de lua/달 샤베트, de 2010, escrito e ilustrado por Baek Heena); os prazeres de aproveitar a vida (como Onda/파도야 놀자, de 2008, escrito e ilustrado por Suzy Lee); a diáspora de coreanos nos EUA (como Where’s Halmoni?, de 2018, escrito e ilustrado por Julie Kim); jogos sonoros e de descobertas (como KongKongKong/콩콩콩, de 2018, escrito e ilustrado por Lee Hee-eun); além dos percursos de autoconhecimento (como Fruta vermelha/빨간 열매, de 2018, escrito e ilustrado por Lee Ji-eun).

Entrevista de Hwang Sun-mi sobre o livro “Flora Hen”, para a Arirang, em 2014.
Leitura e visualização do livro ilustrado 달 샤베트 (Gelato de Lua), de Baek Heena.
Leitura e visualização mediada de 빨간 열매 (Fruta Vermelha), de Lee Ji-eun.

A despeito da baixa penetração de romances da literatura da Coreia do Sul no Brasil, um ramo da literatura que está em rápido crescimento de importação e circulação no país são os livros infantis sul-coreanos. Segundo a professora Yun Jung Im Park, na última década mais de 70 livros foram traduzidos e publicados para o mercado brasileiro até o ano passado, alguns até mesmo incluídos no Programa Nacional Biblioteca nas Escolas do Governo Federal Brasileiro. Quais, na sua opinião, foram os diferenciais para o sucesso no Brasil desse ramo específico?

LG: A linguagem universal da imagem facilitou, de maneira significativa, uma ampliação no campo de circulação de obras como Onda (2008), livro-imagem de Suzy Lee, publicado pela extinta Cosac Naify (hoje pela Cia. das Letrinhas) e que integrou um dos editais do também extinto PNBE (descontinuado em 2016 e substituído pelo atual Programa Nacional do Livro e do Material Didático – PNLD). Como especialista na obra de Lee e pesquisador na área de Literatura Infantil, tive a chance de trocar com outros colegas pesquisadores que relataram as relações das crianças com Onda: enquanto algumas, mais velhas, acabavam por deixar o livro de lado à constatação de que só havia palavra no título (hábito comum no Brasil e resultado de uma educação precária e majoritariamente conservadora, que vê o objeto literário como objeto de ensino, acima de tudo, e que reproduz métodos tradicionais, e já ultrapassados, de ensinar o texto verbal como principal meio de formar leitores), as crianças mais novas criavam elos sensíveis com aqueles brincar e descobrir propostos na narrativa pictórica de Lee, exatamente pela possibilidade de elas lerem a linguagem que dominam enquanto sujeitos ainda não alfabetizados, a linguagem visual. Isso me faz pontuar que uma das principais características que distinguem os coreanos dos demais autores em feiras internacionais de livros infantis – como é o caso da tradicional Bologna Children’s Book Fair, que ocorre anualmente na Itália – é a ilustração. É bem comum encontrarmos livros escritos por autores de língua inglesa, hispânica, italiana e francesa e ilustrados por coreanos. Prova desse renome que a ilustração coreana carrega hoje é o recente reconhecimento de Baek Heena pelo Astrid Lindgren Memorial Award (ALMA) – um dos maiores prêmios mundiais de Literatura Infantil.

Baek Heena ganhou o Prêmio Memorial Astrid Lindgren de 2020. Crédito: Publishers Weekly.

Por sua vez, no Brasil, sendo as escolas o maior consumidor de livros literários infantis (para a composição de acervos de bibliotecas e professores, bem como para a disposição de títulos aos alunos), os editais dos programas de fomento governamentais delimitam alguns temas para a seleção de novos títulos a serem distribuídos. Essa delimitação por tema nos editais influencia grande parte das editoras maiores, focadas em livros didáticos e detentoras dos direitos de títulos ficcionais mais conhecidos. E aqui pontuamos o caso de Esperando mamãe (2012), livro ilustrado de Lee Tae-jun e Kim Dong-seong, publicado pela SM (grande conglomerado editorial especializado em livros didáticos de língua portuguesa) e que também integrou um dos editais do PNBE. Temas relacionados à família são um carro-chefe comum na produção literária endereçada a crianças, ainda mais quando esse tema é explorado de maneira sensível em construções que fogem do padrão, como é o caso de Esperando mamãe. A fragilidade da criança que espera por uma mãe que não retorna, imersa em um mundo repleto de adultos indiferentes à sua presença e circundada por intempéries naturais, transmite sensações de uma falta que em muito dialoga com as faltas sentidas pela criança que vai à escola pela primeira vez, ou que fica maior parte do dia na escola (longe da família), ou ainda das crianças que vivem distanciadas da família por questões alheias a elas e à família.

Contracapa de “Esperando Mamãe”. Fonte: site da Amazon.

São muitas as configurações temáticas que atraem a criança para uma obra literária, e no caso da literatura infantil coreana contemporânea, ainda que criada por autores localizados em um contexto sociocultural particularmente distinto do nosso, por tratarem o conteúdo de maneira excepcionalmente aguda (como acontece também com a literatura coreana adulta), que corta bem onde o sentir pulsa, ela chega ao leitor brasileiro por um caminho distinto ao comumente estereotipado e ainda promove uma chance de acessar a diferença que é uma criança de um outro país em uma história que, em muitos aspectos, é universal. Eu pontuaria, em essência, essas duas características da literatura infantil coreana em seu contato diferenciado com o público brasileiro: a ilustração e o narrar sensível e agudo.

Anúncio da maior premiação da literatura infantil do mundo, o Prêmio Memorial Astrid Lindgren de 2020, que foi concedido à Baek Heena.

Você também coordena o Grupo de Tradução de Literatura Infantil Coreana e Contos Folclóricos Coreanos da USP, como foi a formação desse projeto e quais objetivos vocês pretendem alcançar nesse momento de crescimento do consumo de cultura sul-coreana no nosso país?

LG: A professora Yun Jung Im Park me convidou para formar um grupo de tradução literária com alguns alunos da graduação (tanto aqueles em formação quanto já formados), como uma maneira de seguirem exercitando a prática tradutória em outro campo de atuação, a literatura infantil – esses alunos compuseram, em anos anteriores, grupos de aprendizes nos workshops de tradução literária que a professora Yun realiza desde 2017 com apoio do LTI Korea. São tradutores em formação que costumam ter acesso à literatura coreana adulta em suas práticas e estudos, mas que não costumam ler ou acompanhar a produção literária infantil do país. Sendo assim, como projeto extraoficial às atividades de cada um, nosso objetivo desde a formação, em fevereiro de 2019, é experimentar modos operacionais da prática tradutória e tirar resultados qualitativos para o exercício particular de todos a partir de encontros quinzenais ou mensais – que costumam ocorrer aos domingos, trazendo à tona outra particularidade desse grupo: seguir se aperfeiçoando, mesmo nos finais de semana, movidos pelo desejo de trabalhar com a tradução literária. Atualmente, o grupo é composto por 6 integrantes (Camila Camargo, Jennifer Murari, Laura Torelli, Mariane Brito, Natália Tae e Virginia Lazzari), todas com histórico de alguma experiência de trocas diretas com a Coreia do Sul, seja no contato com autores e professores coreanos na realização de eventos aqui no Brasil, seja na realização de viagens para intercâmbio estudantil.

Capas dos livros de Baek Heena. Crédito: Korea.net.

Aproveito para registrar meu agradecimento e meus parabéns a todas elas pelo trabalho dedicado e primoroso, posso dizer que um objetivo maior do grupo seja traduzir obras de literatura infantil coreana para a publicação no mercado brasileiro, dada a enorme oferta de obras coreanas nas feiras internacionais (foram 55 editoras coreanas expondo títulos diversos apenas na edição 2019 da Bologna Children’s Book Fair, por exemplo), ocasião onde as editoras nacionais negociam os direitos autorais de títulos estrangeiros, que acabam sendo traduzidos para idiomas que já vêm estabelecendo um histórico com essa produção pela existência de tradutores do coreano para essas línguas (inglesa, hispânica, italiana, francesa). No momento, estamos trabalhando remotamente na tradução de uma coletânea de contos folclóricos coreanos, não necessariamente infantis, mas que dialogam com as infâncias de todos os leitores (do bebê ao vovô), e que trazem muito da tradição narrativa da Coreia, seja pelos elementos e figuras místicas (partindo das lendas fundantes do país), seja no trabalho delicado com a oralidade e a musicalidade da língua. Nosso objetivo com esse projeto, feito em etapas de tradução e revisão coletivas, é publicar uma coletânea inédita em língua portuguesa, que traga o conteúdo essencialmente coreano (as histórias breves) em um exercício experimental com a oralidade da nossa língua (com uma sonoridade do Brasil), ou seja, que forma e conteúdo sejam mantidos, no limite do possível, na tradução que chegará aos leitores daqui, ao mesmo tempo que apresenta algo que eles nunca haviam lido. Claro, todo esse trabalho é coordenado por mim, mas sob a supervisão da professora Yun, que é nossa guia no elaborar hipóteses criativas que solucionem as traduções sem correlatos diretos do coreano para o português.

Estande dos autores sul-coreanos na edição de 2019 da Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha. Crédito: site do Seoul International Book Fair.

Existem particularidades no processo de tradução que mudaram sua percepção da pesquisa sobre literatura infantil?

LG: Sem dúvidas. Como mestre e doutorando em Crítica Literária, meu trabalho é olhar para as obras que leio como quem desconfia, como alguém que busca charadas ocultas na construção poética, que levanta questões relacionadas ao fazer artístico diante daquilo que me está dado, impresso nas páginas do livro. O trabalho de tradução literária é, antes de tudo, um trabalho de re-criação, de trans-figuração, ou seja, de dar corpo outro a algo que ainda não existe na língua de chegada, mas que existe no imaginário a partir da leitura atenta de cada palavra escrita na língua de partida. No processo do tradutor, muitas perguntas são direcionadas ao texto em coreano, o que não difere tanto das indagações levantadas pelo crítico literário diante de qualquer texto poético. Logo, consigo dizer que o trabalho de tradução que realizo no grupo, tanto em minhas próprias traduções quanto na troca de traduções com as integrantes, tem deixado cada vez mais “afiada” minha capacidade de ler questionando, de questionar lendo, sempre no sentido de ampliar possibilidades de leitura intencionadas na própria escritura.

Suzy Lee se tornou um grande destaque dos livros ilustrados para crianças no contexto global e também se apresenta com notoriedade nas suas pesquisas. Poderia nos falar sobre a importância da obra dessa autora no cenário contemporâneo?

LG: Em 2019 fui convidado pelo Blog da Letrinhas (do selo Cia. das Letrinhas, que atualmente detém os direitos de publicação da obra de Suzy Lee no Brasil) para realizar um comentário geral sobre alguns aspectos que considero relevantes destacar acerca da obra dessa artista tão notória. Elenquei cinco olhares (O narrar abissalmente simples; O drama plástico/gráfico; Cotidiano e infância; O livro infantil para todas as idades; A sinestesia) que entendo como basilares nas produções exclusivas dela (nas quais ela escreve e ilustra). Porém, em 2020, ela causou um rebuliço nas minhas percepções críticas ao acrescentar novas potencialidades em sua já plural capacidade artística: além de estrear como tradutora literária (sua tradução para o clássico da literatura infantil norte-americana Our Snowman, de 1986, escrito e ilustrado por M. B. Goffstein, chegou aos leitores coreanos pela renomada Changbi Publishers – selo responsável pela publicação de obras endereçadas às crianças desde 1966 na Coreia do Sul), ela ilustrou outros 3 livros escritos por artistas distintos, dentre eles o cantor sul-coreano Lucid Fall, num livro-sanfona que coloca em diálogo a letra da música Sonho de me tornar água/물이 되는 꿈 e o já famoso jogo de traçados em carvão e pinceladas de aquarela que são “marca registrada” na produção literária de Suzy Lee.

“Sonho de me tornar água” com ilustrações de Suzy Lee e canção de Lucid Fall.

Suzy realizou mestrado em artes do livro na Inglaterra (entre 2000 e 2001), sendo assim, o experimentar com as formas de narrar diretamente ligadas às dobras das páginas, aos tipos de papel são assunto que não deixa de estar presente em toda e qualquer proposta artística sua. Sobre esse tópico em específico, gostaria de mencionar uma breve entrevista que realizei com Suzy Lee, também em 2019, e que resultou em um belo depoimento dela sobre a arte de trabalhar com o objeto livro infantil. Já sobre a importância de sua obra, eu começaria pontuando que Suzy Lee ficou famosa no mundo inteiro quando ela estava morando fora da Coreia do Sul (entre 2000 e 2010, ela viveu na Inglaterra, nos Estados Unidos e em Cingapura) e tendo publicado seus principais títulos primeiramente em editoras europeias e norte-americanas, exatamente por não haver, à época, um lugar reconhecido para o tipo de arte literária que ela faz – reunindo a plasticidade da palavra, o movimentar das imagens e a presença narrativa do objeto livro na composição – em sua terra natal.

Suzy Lee, em 2020, com o livro-sanfona ilustrado a partir da letra de Lucid Fall. Crédito: Portal Dong-A Ilbo.

Desde que retornou à Coreia do Sul, vem produzindo algo como 1 livro (escrito e ilustrado por ela) por ano, fora as parcerias como ilustradora de textos escritos por autores coreanos, chineses, estadunidenses. Hoje, em 2020, muitas das características que encontramos na obra de Suzy Lee podem ser também encontradas, com outras perspectivas, em livros publicados por outros autores sul-coreanos, mas todos diretamente influenciados por Lee em alguma medida – ela está sempre envolvida com oficinas de escrita e ilustração para livros infantis promovidas por centros de estudos especializados no geu-rim-chaek. Sempre lembrada pela sensibilidade que investe no experimentar com os sentidos do seu leitor nas materialidades que constituem o objeto livro, Suzy Lee é hoje, dentre alguns nomes internacionais, uma fonte de iluminação e imaginação para o que se faz de mais inovador, ainda que de uma simplicidade no narrar, na literatura infantil contemporânea.

O livro-sanfona ilustrado de Suzy Lee e Lucid Fall, quando aberto, chega a medir 5m70cm. Crédito: Chungaram Media

O apoio do Instituto Coreano de Tradução Literária e a criação do primeiro bacharelado em Língua e Literatura Coreana do Brasil com foco na formação de novos tradutores, estabelecido na USP desde 2013, se apresentam como peças recentes no jogo da introdução literária sul-coreana no mercado brasileiro. Partindo desse cenário, onde ainda estamos apenas no início da circulação, disponibilidade e consumo da literatura sul-coreana no Brasil, você acredita que novos laços culturais entre nosso país e a Coreia do Sul possam ser desenvolvidos para além daqueles já estruturados pela cultura pop e a favor de um alcance ainda maior do público brasileiro? Qual poderia ser o papel da literatura no aprofundamento das sensibilidades culturais entre os dois países, especialmente do ponto de vista brasileiro, que é profundamente imerso em orientalismos?

LG: Gostaria de iniciar minha resposta trazendo o recente e marcante Oscar 2020, cujas estatuetas das duas principais categorias – Melhor Direção e Melhor Filme – foram para as mãos do responsável pelo rasgante e denunciador filme Parasita: Bong Joon-ho. Como pessoas envolvidas com a cultura pop sul-coreana, além de consumidores dos produtos culturais diversos da Coreia do Sul, sabemos que a arte de Bong vem de uma trajetória marcada por filmes-denúncias que são lembrados pela aspereza (no apontar das injustiças) que se constrói na delicadeza e na fragilidade das relações humanas – como o foram as narrativas críticas ao comportamento antropocêntrico em O Hospedeiro e Okja. Partindo desse ponto, eu arrisco afirmar que há uma consciência humana vindo à tona, a passos lentos mas sem retroceder, em plano mundial; logo, o reconhecer-se na realidade injusta e de exploração humana pelo capital representada no filme coreano é sinal de nossos tempos, onde nossa capacidade de estabelecer relações de semelhanças e diferenças parece mais elaborada e, como consequência positiva, essencial para o estabelecimento das bases de um pensamento crítico sobre o si no social a partir da arte (o cinema, no caso). Essa aspereza no narrar sul-coreano, envolto pelas camadas frágeis do contato entre humanos e o mundo que os cerca, é uma das marcas registradas tanto na prosa quanto na poesia da Coreia do Sul, e não apenas hoje. Em suma, temos aqui uma porta que se abriu para não se fechar: o cinema coreano atingiu uma universalidade que, como disse Bong Joon-ho, “superou a barreira das legendas”.

Imagem de divulgação do aclamado “Parasita”, filme de Bong Joon-ho. Crédito: Pandora Filmes.

Como o filme é uma narrativa longa, roteirizada e constituída por uma série de linguagens, chamo a atenção para o fato de, em essência, ser um contar história. Ainda nessa arte narrativa audiovisual, temos o sucesso internacional dos silêncios cortantes que marcam os filmes de Kim Ki-duk, como Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera, Casa Vazia e Time – O amor contra a passagem do tempo, onde a linguagem corporal comunica o interior humano na complexidade que isso impõe. Veja quantas características essencialmente humanas sustentam a construção dessas narrativas sul-coreanas, mas que, de uma forma ou de outra, são narrativas nossas, algo que corre por baixo de nossas línguas e que bate similar no corpo de cada um de nós, numa comunicação subterrânea, quase de placas tectônicas, e que chegam à superfície como expressões, no caso, verbais em língua coreana e língua portuguesa – mas que não deixam de ser língua humana. Acredito que um investimento concentrado nessas narrativas – sejam elas expressas na literatura, no teatro, no cinema, na dança, na música (que deslumbrante é acompanhar, nas entonações da voz, as ações do narrador em sua jornada cantada numa performance de pansori) –, de maneira mais equilibrada e, claro, realizando-se uma pesquisa de público aprofundada e direcionadora, pode resultar em novos olhares brasileiros para essa arte que se produz na Coreia do Sul com tamanha qualidade.

Cartazes de divulgação dos filmes Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera, Casa Vazia e Time – O amor contra a passagem do tempo, respectivamente. Fonte: IMDB.

Não digo que a música pop sul-coreana já não atraia um público numeroso, porém, como alguém que trabalhou na divulgação do k-pop de 2005 até 2012, posso dizer que o material que temos hoje, de modo geral, é mais focado no conjunto audiovisual da coisa do que na qualidade musical, do que no trabalho maior com as letras. Sem polêmicas, hein?! Apenas digo que há uma ponta dessa produção cultural sul-coreana fortemente exposta, enquanto outras pontas tão potentes e ricas em tradições, histórias, heranças e estruturas do sujeito coreano seguem colocadas embaixo do guarda-chuva que representa o tema “cultura coreana”, e que, por sua vez, seguem encontrando resistências em sua expansão para além dos muros do lugar exótico (o orientalismo estereotipado). Penso que isso seja um trabalho a ser realizado tanto pela Coreia do Sul quanto pelo Brasil, em uma troca mútua de interesses, onde a oferta de artefatos culturais seja um atrativo real ao interessado em experimentar essas outras possibilidades de estar em contato com a cultura sul-coreana. Há editais, programas de intercâmbio e oportunidades de acesso a essa riqueza humana que é a cultura, em grande medida, por parte da Coreia do Sul (o LTI Korea abre chamadas anuais para o seu curso de imersão e formação de tradutores literários em língua coreana), mas será que temos pessoas interessadas o suficiente para mergulhar nessas águas (turbulentas pela dificuldade no seguir aprendendo a língua coreana) e trazer algo daí? É uma pergunta que faço genuinamente. Se há quem esteja interessado, e você está me lendo: não desista e tente! E eu ainda acrescentaria ao questionar: por que não investir em projetos de tradução de prosas juvenis como o romance Vou cruzar o mundo até você/세계를 건너 너에게 갈게, de 2018, escrito por Lee Kkot-nim? Ou o relato visceral de Derivado/번외, também de 2018, escrito por Park Ji-ri? Ou mesmo a coletânea de contos Abismo/벼랑, de 2008, escrito por Lee Geum-yi – indicada pela Coreia do Sul à edição 2020 do Hans Christian Andersen Awards (considerado o Prêmio Nobel da Literatura Infantil)? São histórias de juventudes humanas que travam diálogo íntimo com a realidade contemporânea da Coreia do Sul e do Brasil.

Capa do livro Vou cruzar o mundo até você/세계를 건너 너에게 갈게 de Lee Kkot-nim (2018). Fonte: yes24

Para encerrar, quais livros e autores sul-coreanos você recomendaria aos leitores do MidiÁsia?

LG: Eu teria uma lista imensa de títulos para compartilhar, mas irei focar naquilo que podemos ter acesso por meio de livrarias virtuais internacionais, já que dificilmente conseguiríamos adquirir livros infantis coreanos a partir de sites especializados da Coreia do Sul. Já existentes em língua portuguesa, eu recomendaria: todos os livros de Suzy Lee, Espelho (2009), Onda (2008), Sombra (2010) e Abra este pequeno livro (2013), assim como as traduções realizadas pela professora Yun para os livros ilustrados O guarda-chuva verde (2011), de Yun Dong-jae e Kim Jae-hong, e Esperando mamãe (2012), de Lee Tae-jun e Kim Dong-seong, além do recém-lançado Azul, Vermelho, Transpareço… (2020), escrito e ilustrado por Hwang Seong-hye. Levados para os países de língua inglesa, ainda que se tratem de livros-imagem, destacaria a ludicidade visual de Pool (2015) e Doors (2018), ambos criados pela talentosa ilustradora Lee Ji-hyeon; ou a países de língua hispânica e francesa, mesmo falantes do alemão e do mandarim, apontaria a potência surrealista dos livros ilustrados Promenade (2016) e Tempus (2019), ambos pelo incrível artista plástico Lee Jung-ho. Por fim, acho que seria interessante ler na perspectiva de uma voz coreana que se constrói fora da Coreia do Sul, no caso, em língua inglesa, como os livros escritos e ilustrados pela autora da diáspora Yangsook Choi: New Cat (1999), The Name Jar (2000) e Behind The Mask (2006). Não poderia finalizar sem dar espaço ao recomendadíssimo (nas feiras internacionais de livros infantis, mas improvável de obter por aqui) Coça-Coça/간질간질, de 2017, escrito e ilustrado pela irônica Seo-hyun.

Book trailer do livro ilustrado Azul, Vermelho, Transpareço…, pela Editora do Brasil

Entrevista com Iara Lee (Coreanos Pelo Mundo): “A vida resume-se em saber transformar algo negativo em positivo”

Por Alessandra Scangarelli (via Korea Post e Intertelas)

A cineasta Iara Lee. Crédito: Cultures of Resistance.

O trabalho de promover solidariedade entre as pessoas é árduo e requer muita energia, persistência e disposição. Mas isso é tudo que Iara Lee, cineasta brasileira de origem coreana, nascida em 1966 e hoje radicada em Nova Iorque, tem de sobra. Ela percorreu uma longa jornada como produtora de cinema e festivais da área. Hoje é diretora e ativista. Seu trabalho visa a cobertura de notícias e debate sobre questões de extrema importância para a sociedade mundial. O cinema para ela é uma ferramenta capaz de impactar e realizar mudanças no público que o consome, ainda que seja de forma bastante seletiva e vagarosa.

No seu objetivo de incitar provocações que façam o espectador refletir e ser mais proativo no seu dia-a-dia em realizar mudanças que visem melhoras a todos, ela, em conjunto com outros colegas, deu início ao projeto “Culturas da Resistência”. Uma série de trabalhos audiovisuais documentais que almejam propagar informação, conhecimento e acima de tudo ativismo. De 1984 e 1989, ela foi produtora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Crédito: Danilo Arenas/Cultures of Resistance.

Em 1989 mudou-se para Nova York, onde fundou a empresa multimídia Caipirinha Productions, no intuito de explorar múltiplas formas de expressão artística e cultural. Os temas de suas obras englobam diversas temáticas, entre elas: a influência da alta tecnologia sobre a cultura de massa “Synthetic Pleasures” (1995) e a música eletrônica “Modulations” (1998). O projeto mais recente da realizadora é uma série de dois documentários sobre Burkina Faso. Em “Burkinabé Rising: A Arte da Resistência em Burkina Faso”, a diretora expõe o dia-a-dia de uma comunidade de artistas e cidadãos engajados, que estão a incitar mudanças políticas importantes neste país de pequeno território, localizado na África Ocidental.

Lee é também militante pela paz e realizou diversas iniciativas neste sentido como a Campanha Internacional pela Eliminação de Bombas de Fragmentação e o primeiro concerto da Filarmônica de Nova Iorque na Coreia do Norte, em 2008. Ainda na sua biografia estão experiências únicas, a exemplo de testemunhar o bombardeio israelense contra o Líbano, em 2006. Desde então ela vem apoiando e colaborando com projetos que visam a disseminação de uma cultura de paz e colaboração entre as pessoas como a campanha “Faça filmes, não guerra”.

Gravando um de seus tantos trabalhos na África sobre a cultura de resistência dos povos locais. Crédito: O Tempo.

Em 2010, ela participou da “Flotilha da Liberdade”, organizada pelo movimento Free Gaza, que tinha o objetivo de enviar uma de carga 10.000 toneladas de ajuda humanitária à Faixa de Gaza e protestar contra o bloqueio imposto por israelenses e egípcios na época. A flotilha foi atacada pelas forças israelenses. Lee foi primeiramente dada como desaparecida, até ser encontrada pelas autoridades de Israel. Em entrevista ao Koreapost, ela conta um pouco de sua trajetória no cinema e compartilha um pouca da sua visão sobre questões importantes da agenda Internacional.

Como foi o início desta trajetória?

Passei nove anos trabalhando na Mostra Internacional de São Paulo. Preferi ter esta experiência, do que ficar na faculdade de cinema da Universidade de São Paulo. Na época, achei que o curso tinha muita teoria e pouca prática. Na Mostra consegui aplicar parte das teorias que tinha aprendido. Fazia todo o trabalho que ninguém queria fazer. Tomei conhecimento de tudo que era necessário saber para melhor compreender como funciona um festival, o que é preciso para que ele ocorra. Trabalhava pela manhã, tarde e noite. Atualmente a minha vida não é muito diferente. Muitas vezes eu estou participando dos festivais e realizando trabalhos puramente burocráticos e chatos, distribuindo flyers, preparando kits de imprensa, estas coisas. Às vezes, as pessoas confundem e acham que sou a assistente e não a diretora do filme.

Crédito: João Meirinhos/Cultures of Resistance.

Após adquirir bastante conhecimento sobre os bastidores e o mercado de cinema resolvi dirigir. Então, falei com os meus pais e fui para Nova Iorque. Estudei na Universidade de Nova Iorque, mas também não gostei. Todo mundo lá queria ser um Martin Scorsese, queria fazer parte deste mundo comercial de Hollywood. Então, resolvi focar e terminar o curso, antes do período determinado pelo programa da faculdade. Consegui fazer tudo em dois anos. Além disso, também estudei filosofia. Neste período, fiz dois curtas-metragens que foram para festivais como Sundance. Meus filmes, desde o início, sempre tiveram uma linha mais autoral e experimental, tanto do quesito propriamente técnico de fazer cinema, quanto no conteúdo, nas histórias, nas mensagens que queria passar.

Como uma cineasta independente, que não se identifica tanto com o cinema comercial, faz para passar conquistar espaço em um mercado cinematográfico mundial tão monopolizado?

Pois é, eu não me sinto parte deste mundo mercadológico do cinema mesmo. No começo, meus filmes até tinham certo apelo mais comercial e eu conseguia participar dos festivais principais. Mas, quando fui me afastando desta lógica e abordando temas políticos mais delicados, até estes festivais que dizem abraçar o trabalho mais experimental, mais autoral, disseram não estar mais interessados no meu trabalho. Então tive de recomeçar. Assim, procurei outros tipos de festivais que vivem mais à margem deste sistema monopolizado e que são eventos de nicho como mostras e festivais sobre os direitos humanos, contra o fascismo, focados em questões ecológicas e etc.

Mais uma vez a minha filosofia de vida que diz ser importante saber transformar algo negativo em positivo ajudou neste momento. Não fiquei chorando porque era rejeitada pelos grandes festivais. Fui procurar alternativas. E vasculhei tanto este mundo que acabei formando uma rede de contatos bastante significativa, com organizações, com ativistas e figuras importantes que apoiam causas. Hoje qualquer filme que eu faço passa em 100 países por ano. Há muitos festivais no mundo, realizando trabalhos importantes e dando espaço para temáticas mais sensíveis, só que não tem a visibilidade dos maiores e comerciais. Os meus filmes passam em tudo que é lugar que se possa imaginar: em uma sala de cinema, em escolas, em um porão de algum lugar, na rua, ou na casa de alguém que almeja fazer uma reunião e discutir um tema. É assim somos vistos em vários países e centenas de cidades.

Vou aproveitar algumas questões que você mencionou e perguntar sobre o seu projeto “Culturas da Resistência” que aborda muitos problemas sobre a desigualdade social, econômica, a crise do meio ambiente e também sobre a importância da cultura para realizar transformações reais na sociedade. Como um filme e a cultura podem provocar tais transformações?

Eu faço filmes para os jovens, porque o futuro está nas mãos deles. Então, tento incitar uma reflexão e torná-los cidadão ativos, engajados e que visem mudar o atual cenário. Por isso, faço filmes documentários mais dinâmicos, com bastante cultura, música, com muitos cortes na edição, no objetivo de falar sobre direitos humanos e política de forma menos teórica e moralista. Procuro usar uma linguagem mais leve para tratar de temas densos e importantes. Então, as pessoas vêm assistir o filme pela música e acabam aprendendo o que se passa no Saara Ocidental, na Palestina, na Caxemira, no Congo, e são tocadas ao tomar conhecimento daquelas situações.

Crédito: Danila Ilyushchenko/Cultures of Resistance.

Creio que o cineasta precisa ter consciência e ser humilde, pois a pessoa não vai necessariamente ver o seu filme e se tornar ativista. Mas a partir do momento que eu planto sementes, de repente, estes frutos podem ser colhidos em outras gerações futuras. É um trabalho de formiga e um pouco incerto, porque você não sabe muitas vezes como o filme impacta os jovens de forma geral. Contudo, às vezes, há um retorno de alguém que diz ter conhecido a situação do Saara Ocidental pelo filme e se apaixonar pelo povo. A pessoa em questão passou a realizar campanhas nas Nações Unidas em prol da libertação do Saara Ocidental. São casos assim que surpreendem e fazem que o trabalho continue, apesar das dificuldades.

É o famoso dizer que instigar uma pessoa já é o suficiente, correto?

Sim, mas é preciso ser humilde. Muitas vezes as pessoas ao final do filme vêm falar comigo e dizer que ficaram super inspiradas. Então eu digo: “não basta apenas ficar inspirada, precisa ter ação. Não desapareça, fique em contato, vamos conversar pela mídia social”. Assim, fico fazendo divulgação dos filmes por estes canais.

Crédito: Cultures of Resistance.

Então você diria que o principal objetivo do “Culturas da Resistência” é instigar as pessoas a tomarem inciativas, não apenas informá-las?

Exato! Porque ser informado e educado não é o suficiente. É preciso pôr o seu conhecimento na sua ação diária. Não é preciso viajar o mundo. Seja ativo na sua cidade, no seu bairro, no seu país. Veja um exemplo: é preciso saber o que se está comprando, quem está oferecendo aquele produto, que responsabilidade tem determinada empresa. Caso se saiba de problemas, uma alternativa é boicotar companhias que não têm compromisso algum com o meio ambiente ou que abusam de seus trabalhadores. Ou mobilizar as pessoas da sua cidade para atuarem contra coisas que você acha injustas. É um processo difícil, eu sei. Em especial esta coisa de confrontar governos e grandes empresas. As pessoas têm medo de morrer, de perder o emprego, de ir para a prisão.

É difícil mobilizar multidões. Contudo, pequenos passos, como o ativismo de consumo, é algo totalmente possível, pois o mundo é controlado por conglomerados econômicos. A partir do momento que você sabe que este chocolate delicioso é feito com o trabalho escravo de crianças da Costa do Marfim, pare de consumi-lo. Procure outro produto que não tem este problema. Não compre água mineral da Coca-Cola, ou da Nestlé que estão usando, praticamente roubam e lucram com a água de mananciais de países pobres que não têm como se defender. Então, são coisas pequenas que não há desculpa, as pessoas podem fazer, elas podem ser ativistas.

No campo de refugiados saharauis em Tindouf, Argélia. Crédito: Twitter Iara Lee

E o cinema é a melhor forma de promover esta conscientização?

Olha, eu não vou mentir, há momentos de muita frustração, nos quais eu penso que, de repente, valeria mais a pena fazer outra coisa, para conseguir um resultado mais imediato. Mas cada um faz o que pode. Uns escrevem, outros fazem música, outros cinema, outros agricultura. Acho que todos fazemos parte de um mosaico. Somos limitados, mas se unirmos todas estas forças, cada um, na sua área, consegue ter um impacto na sociedade.

Gostaria de perguntar sobre uma questão pessoal. Você desejou voltar a Coreia do Sul um dia?

Meus pais eram coreanos e vieram para o Brasil nos anos 1960. Teve a Guerra da Coreia nos anos 1950 e depois, quando o país estava em condições na época ainda muito pobres, iniciou uma imigração grande dos coreanos. Minha família pensou no Brasil como um país grande, de clima bom, solo bom, acolhedor e foram todos de navio da Coreia para o lá. Eu nasci no Brasil e, apesar de muito tempo fora, sou culturalmente muito brasileira.

Uma época tive também este interesse de procurar as minhas raízes e fui para a Coreia do Sul. Quando cheguei na lá fiquei muito desapontada. Aquilo parecia mais uma colônia dos Estados Unidos do que a Coreia. Muito americanizado, muito ocidentalizado. As pessoas vivendo naquele capitalismo exacerbado. Fiquei chocada. Não encontrei a Coreia que buscava. Então, comecei a ter maior interesse pela Coreia do Norte. E acabei trabalhando mais com eles do que com a Coreia do Sul.

Iara Lee, cineasta ativista brasileira, fala com o Korea Herald antes do EBS International Documentary Festival, no edifício da Samsung Electronics a sul de Seul. Crédito: Claire Lee / The Korea Herald.

Ajudei a levar a Orquestra Filarmônica de Nova Iorque para o país. Fiz parte da companha da diplomacia através da música. O Ministério da Cultura da Coreia do Norte convidou a orquestra para se apresentar e eles aceitaram. Foi algo histórico, pois pela primeira vez, a bandeira da Coreia do Norte e dos Estados Unidos estavam no mesmo palco. Foi a primeira vez também que a mídia internacional pode entrar no país. E antes deste projeto também realizei trabalhos de agricultura, onde fiz um programa de doação de sementes, em razão dos problemas relacionados à fome que os país passou.

Normalmente sempre falam que o problema da Coreia do Norte é o governo autoritário. Porém, é também verdade que países como a Coreia do Norte, com o fim da União Soviética, tiveram de se readaptar aos novos tempos. E eles ainda hoje sofrem bloqueios econômicos que têm um impacto significativo em suas economias. 

O bloqueio econômico que os países do ocidente fazem contra estas nações é grave. Para você ter uma ideia, os aviões no Irã caem muitas vezes, por eles não conseguirem importar peças que não tem como fabricar internamente para a construção de suas aeronaves. Outro exemplo é a tecnologia hospitalar para doentes, ou alguma matéria prima que precisa ser importada e o bloqueio não permite. Então, é um sofrimento muito grande e sem falar que estes países são constantemente ameaçados, por quererem seguir uma ideologia diferente.

As demais nações acabam querendo passar por cima e exterminar quem não segue a mesma linha. Washington não está preocupado com o cidadão comum norte-coreano e o quanto ele vai sofrer sem ter isso ou aquilo em razão do bloqueio econômico. Então, se você quer uma forma alternativa de viver é preciso resistir. E a tendência é o país fechar-se cada vez mais.

O cinema sul-coreano atualmente está em voga. E é um cinema que não pertence ao chamado “centro cultural do mundo”. Ele não é proveniente da Europa, nem nos Estados Unidos. Mas não apenas a Coreia, outros países como a China, a Índia, o próprio Japão, que mantem sua influência cultural, estão bastante presentes e ganhando fãs ao redor do mundo. Como você analisa a Ásia reemergindo com um polo político, econômico e cultural?

Eu acho algo incrível, pelo fato que nesta questão podemos ver claramente a importância da cultura, até da própria indústria cultural, mesmo a mais comercial, mas que está, ou estava à margem do sistema. Quando a Coreia do Sul estava em baixa e fazia filmes com temática menos internacionais, as pessoas menosprezavam muito o país. Contudo, muito mudou após esta onda cultural sul-coreana, que não traz apenas o cinema, mas a música etc. No próprio Japão, os coreanos que eram vistos como gente de segunda classe, era precisa deixar a sua digital na alfândega para entrar no país, estão recebendo os japoneses fascinados com a cultura sul-coreana e que estão indo para a Coreia como objetivo de experimentar mais.

A Coreia é um país que reemergiu através da cultura. Porém, outros estão chegando e acho que serão ainda mais fortes. Veja a China, e a Índia. O poder econômico delas hoje é indiscutível. Culturalmente ainda não trabalharam o suficiente para propagarem suas bagagens culturais, mas creio que virão com uma força gigantesca no futuro também nesta área. E quando isso correr, penso que realmente teremos uma febre pela Ásia mesmo. A cultura é assim, está em constante movimento e mudança. Vamos lembrar o passado mais recente, quando todos queriam ir para os EUA, em razão da imagem que o cinema dos EUA criou. As pessoas formam uma visão idealizada a partir desta indústria.

E como será este mundo na sua opinião?

Será um mundo bastante diferente. Vamos analisar a África como exemplo. Atualmente há países como a Nigéria que estão desenvolvendo fortes indústrias cinematográficas regionais e tornando-se polos econômicos de cinema influentes e importantes. Então, hoje os africanos já não querem ver filmes apenas com gente da Europa, ou dos EUA. Eles agora podem ver filmes que tenham os africanos como protagonistas. E filmes feitos por eles. Creio que neste novo mundo vai ocorrer o inverso, os estadunidenses é que vão começar a ver filmes com pessoas que tem outros rostos e outras cores, outras línguas e outras culturas.

Você acha então que o mundo será mais como ele é na realidade. A diversidade mundial estará mais em evidência nas telas?

Acho que sim e é algo super importante ter mais africano, mais asiático, os próprios indígenas do mundo inteiro serem mais representados neste mundo da cultura pop. E com isso também espero que outras coisas sejam possíveis como a eliminar visto, passaporte. Gostaria de poder ao menos testemunhar um mundo em que todos possam enxergá-lo como fazendo parte dele, como uma casa apenas e que todos devemos estar unidos para salvá-la.

O mundo atual está passando por uma crise generalizada tanto no campo econômico, quanto no político e social. Esta era asiática poderá construir um mundo diferente, com uma estrutura de poder diferente, menos exploradora e um pouco menos desigual?

Nós humanos ainda temos esta coisa bastante arraigada de querer ser mais que o outro e assim eliminar o próximo. Este instinto capitalista que está presente há séculos, creio que ainda vai persistir por muito tempo. Contudo, a questão ecológica e a crise climática vão fazer com que as pessoas sofram mais e, assim, tenham de obrigatoriamente rever valores e atitudes. Não será possível viver como espécie se continuarmos neste mesmo paradigma. Então é uma mudança sistêmica radical que é necessária.

Gravando na Noruega documentário dos povos indígenas da Europa, os Sami. Crédito: Twitter Iara Lee.

Os jovens precisam abrir os olhos. Não dá mais para continuar neste capitalismo exacerbado, onde se produz e se consome absurdamente. Se usa e joga fora. Tudo e descartável e só se objetiva fazer dinheiro. O capitalismo não funciona e todos sabem disso, mas insistem com ele. O ser humano só muda quando a coisa explode mesmo, onde já nos encontramos em nível de sobrevivência. É algo triste. E o meu trabalho de formiga vem neste sentido de tentar alertar e motivar as pessoas a saírem da sua zona de conforto e fazer algo mínimo que seja para evitar que as coisas fiquem insuportáveis. Parece que há algo autodestrutivo em todos nós.

Quais os seus planos futuros?

Acabei de filmar em Chernobyl, na Ucrânia. O local que depois de anos abandonado em razão do acidente nuclear está voltando à vida. As pessoas voltaram a frequentar a floresta e entrar em contato com os animais. Diversas atividades culturais e esportivas estão sendo realizada lá atualmente. Assim, aproveito esta situação de Chernobyl hoje para relembrar o desastre nuclear. Este foi o primeiro e deveria ter servido de lição, mas outros acidentes continuam ocorrendo, veja Fukushima e que o governo não tomou as mesmas providências que o ucraniano na época. Em Fukushima o material radiativo continua indo para o oceano.
Além deste trabalho, fiz outro documentário no Lesoto, um enclave da África do Sul, onde os jovens que não têm muitas oportunidades utilizam da criatividade para conseguir sobreviver.

Crédito: Cultures of Resistance.

Fiz outro filme sobre a agroecologia em Guine Bissau, onde as mulheres estão no comando da agroecologia. Este assunto, por sinal, é uma extensão do trabalho que fiz em Burkina Faso. Acabei de voltar do Malawi, em que fiz vários curtas sobre artistas que usam da arte e cultura para ajudar hospitais, orfanatos, a combater a malária e ajudar os refugiados das guerras. É o uso da arte e cultura como instrumento de ativismo humanitário.

Por fim, estou editando um documentário também sobre os indígenas da Europa, que são super desconhecidos. Fomos ao norte da Suécia, da Finlândia, da Noruega e uma parte da Rússia. Estes indígenas também estão lutando, pois os governos destes países estão tomando medidas muito prejudiciais ao meio ambiente.

São trabalhos que abordam diversas causas pelo mundo, mas que na essência têm o mesmo objetivo, questionar a forma individualista atual que levamos a vida. Não basta apenas pensar em mim e na minha família. É preciso dar sentido maior ás pessoas de que a solidariedade para com todos é a única forma de prolongarmos a nossa existência e evitarmos a nossa eliminação como espécie. E desta solidariedade que vem a esperança de fazer algo melhor, mais justo, mais igual, onde todos os seres, não apenas os humanos, estão inseridos.

Fonte: Texto originalmente publicado no site do Koreapost e também disponível no site da Revista Intertelas.

Revista Intertelas entrevista Mateus Nascimento, pesquisador do MidiÁsia

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas)

A pesquisa acadêmica e o conhecimento geral que engloba diversas áreas relacionadas ao continente asiático ainda encontra barreiras no Brasil, tendo muito espaço para avançar. Conforme diversos estudiosos das relações internacionais, estamos entrando em uma nova era, onde a Ásia terá papel preponderante. Contudo, os brasileiros e os campos de estudos sobre os paises desta região enfrentam uma cultura intelectual no país ainda muito eurocentrada. Desta forma, diversas questões históricas que se acredita conhecer como a Era Meiji (1867-1912), período histórico de modernização e industrialização do Japão, acabam sendo questionadas, pois até o momento são vistas por lentes ocidentais, Desta forma, não levam em conta o trabalho de pensadores e estudiosos nacionais destes países, ou até de pesquisadores de outras regiões do mundo, que teriam também algo a dizer sobre história do Japão, talvez até mais que qualquer estadunidense, ou europeu.

Diferentemente do que se pensa, Meiji não foi um momento histórico de submissão e ocidentalização do Japão. No entanto, o que houve foi um processo de transformação conduzida e adaptada pelo japoneses, em iniciativas independentes que almejavam a construção de um projeto de nação e de um império que aspiravam na época. É certo que no século XIX, o imperialismo europeu  e norte-americano fazia-se presente na Ásia. Porém, seria errado afirmar que os japoneses para sobreviver ao braço forte europeu e dos EUA tiveram de incorporar valores totalmente ocidentais, fugindo de suas raízes e se submetendo como bons servos locais, a partir da chegada do comodoro estadunidense Matthew C. Perry, que forçou o Japão a abrir seus portos para os EUA. Na realidade, grupos políticos do Japão aproveitaram a oportunidade para dar fim à estrutura política, dominante há séculos, do Xogunato, cuja figura política maior estava na autoridade de vários xoguns, os supremos líderes militares. E estes estavam submetidos de certa forma ao Imperador.

A revolução Meiji daria fim ao poder destas figuras e implementaria o poder supremo simbólico na pessoa do Imperador. Para tanto, os japoneses usariam da mitologia nipônica e do xintoísmo para fornecer à sociedade japonesa a ideia de que seu chefe maior era descendente de deuses e que o futuro da nação, portanto, seria glorioso. Assim, anos de guerra civil chegaram ao fim. O Japão testemunhou uma coesão nacional sólida e um desenvolvimento econômico e social sem precedentes. Contudo, a sociedade antiga japonesa constituída de classes e que tinha o poder centrado no Xogum não foi eliminada, mas adaptada para os novos tempos. Seria o fim dos conflitos bélicos domésticos, mas o início da expansão imperial e da invasão a outros países. Foi o período que os nacionais do Japão creditavam-se a certeza de serem uma nação modelo a ser seguida pelos demais asiáticos que, na visão dos líderes japoneses da época, em especial os militares, eram considerados inferiores.

Quem apresenta estas informações é Mateus Nascimento. Ele é mestrando em história social pela Universidade Federal Fluminense (PPGH-UFF) e graduado em história pela mesma universidade. Colunista da Revista Intertelas, é também pesquisador efetivo do Centro de Estudos Asiáticos (CEA) da UFF, do Núcleo de Estudos Tempo Literário do Instituto Cultural Brasil-Japão, do MidiÁsia/UFF e do Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática Contemporânea. Ainda é membro da Red Iberoamericana de Investigadores en Anime y Manga (RIIAM) e da Academia Nipo-Brasileira de Estudos de Literatura Japonesa, tendo passado pelo Grupo de Estudos Japoneses (GEHJA) da UFF. Aqui ele responde algumas questões sobre este tema, ainda tão pouco conhecido do público em geral no Brasil, e fala da trajetória de sua pesquisa, indicando material de estudo para quem se interessa pelo assunto. Acompanhe abaixo!

Quando o imperador Mutsuhito trocou seu quimono por roupas ocidentais. Apesar destas adaptações, muito da Era do Xogunato permaneceria mesmo após a restauração. Crédito: Ozy Modern Media Company.

Por que, na sua visão, a Era Meiji é descrita por muitos outros especialistas ocidentais de forma equivocada? A exemplo, há a constante explicação de que a esquadra naval de Matthew C. Perry teria sido a causa principal das transformações profundas pelas quais passou o Japão na época.

Meiji aparece no imaginário das pessoas através de um conceito que sempre me causou certo desconforto: ocidentalização. Meiji é para muitas pessoas a ocidentalização do Japão. Eu não concordo com isso por dois motivos principais. O primeiro é que nenhuma sociedade ou cultura é uma ilha, homogênea e estanque. Essa é uma das críticas àquela noção de estrutura. Toda a pactuação da cultura, que envolve a vida das pessoas, é sempre uma negociação entre o macro e o micro. Todas as pessoas só se entendem no mundo através de grupos, nos quais as diferenciações acontecem. Cultura então é ao mesmo tempo essa teia de conceitos e de prática destes conceitos, o que supõe haver improvisações eventuais na vida em sociedade que subvertem um dado cultural. Gosto muito do Clifford Geertz para pensar sobre isso, principalmente quando ele fala que um piscar de olhos pode ter vários significados, que só serão descobertos no decorrer da observação acurada do pesquisador.

O segundo é o fato de uma potência americana ter agido violentamente, abrindo portos e bombardeando uma baia japonesa e ter promovido uma submissão do Japão. Isso não significou uma postura passiva dos próprios japoneses diante daquele mundo que estava sendo desenhado. Ao contrário! A chegada inicialmente abrupta dos EUA permitiu ao Japão repensar o seu papel nas relações internacionais do séc. XIX, o que proporcionou ocorrer um dos mais amplos projetos de modernização da época. Além do fator externo, o próprio governo do Xogunato Tokugawa estava em crise desde pelo menos 1840, pois a diminuição do número de guerras e batalhas deu origem a um sistema cortesão mais desenvolvido em termos culturais.

O último Xogum, Tokugawa Yoshinobu (1837-1913), de 1866 a 1867, o 15º e último líder do Xogunato de Tokugawa no Japão. Crédito: National Diet Library, Japan.

Por outro lado, as negociações intensas com potências europeias, por exemplo, como a Holanda, auxiliaram na queda desse edifício de paz e luxo. Comerciantes desde sempre vistos como aqueles que deveriam estar fora da ritualística de poder da época, passaram a financiar as elites em troca de influência simbólica e nisso consiste a crise do poder do Xogum. Não sem razão, grupos surgem criticando esta situação e pedindo a restauração do estado anterior das coisas, do sistema passado. Portanto, “nunca foi só o Perry e sua esquadra”, como explicam os livros didáticos. Eu prefiro pensar que a crise interna somou-se à intervenção ocidental. E a resposta japonesa a isso é original e digna de lugar no estudo da história. Aqui nasceu meu objeto de pesquisa!

E como foi a sua trajetória nesta pesquisa?

Eu defendo que não houve uma ocidentalização do Japão no séc. XIX. Obviamente, que para embasar teoricamente e historicamente esta afirmação precisava antes desenvolver toda uma compreensão com mais profundidade sobre a análise destes conceitos ocidentais. Na minha busca bibliográfica encontrei vários livros sobre Meiji que abordavam o período nessa perspectiva da ocidentalização. Existem muitos livros escritos pelo José Yamashiro que reforçam essa tendência, outros mais acadêmicos como o texto de Barbosa Lima SobrinhoJapão: o capital se faz em casa” (1990), que acompanham esta linha também.

O livro  de Barrington Moore Jr, “As origens sociais da ditadura e da democracia” (1983), que no famoso capítulo nove fala do “Fascismo Asiático” e aborda as mudanças que ocorreram nos tempos finais do Xogunato aos anos iniciais do período Meiji. Também encontrei livros menos conhecidos com uma perspectiva mais crítica, os quais fundamentaram um pouco mais a minha pesquisa. Refiro-me aqui ao livro de Renato Ortiz, “O próximo e o distante: Japão e modernidade-mundo” (2000), que se tornou um ponto de partida incontornável para os interessados em estudar Japão. Também há o texto clássico de Ruth Benedict, “O crisântemo e a espada” (2009), que mesmo com todos os seus problemas, é um bom início para qualquer estudo da área. Ambos falam de Meiji como se estivessem comentando os significados da época e isso me ajudou muito a pensar que deveria escolher algum elemento social deste período para pensar.

Nesse ínterim, encontrei outros textos e fui descobrindo que, na verdade, existem muitos autores renomados que já escreveram sobre o Japão. O que acontece é que seus textos não receberam a audiência adequada em meio a um conjunto de pesquisas pouco preocupadas com a Ásia. Lévi-Strauss por exemplo, dedicou um livro inteiro ao Japão. Enfim, existem outras obras para dizer com muita propriedade que a história do Japão não se resume aos momentos em que a nação aparece no mundo contemporâneo e nem a uma ocidentalização que não dá conta da riquíssima estratégia japonesa de comentar a tradição ocidental.

Cenas da vida laboral e de comerciantes japoneses na Era Meiji. Crédito: Resobox Exibition.

A ideia do Japão imperial visava uma coesão nacional e a criação de uma nova identidade nacional. Qual a importância do xintoísmo e da mitologia nipônica, presentes na constituição da época, para a formulação desta ideia de Japão no pós-Xogunato?

Mapeados os dados cronológicos, parti em busca fontes. Para minha surpresa, fui encontrando algumas que refletiam os interesses do próprio governo em tornar o Japão conhecido. Encontrei textos da promulgação do Estado Meiji, éditos (como o édito de educação) e a própria Constituição do Império do Japão, promulgada em 1889 e lançada para o mundo todo, no ano seguinte em versão traduzida e bilíngue. Uma grande maioria já se encontra disponível na internet e eu penso que ainda há muito a ser dito cientificamente sobre esses textos.

Neles vemos um ministro muito influente, chamado Ito Hirobumi, conduzir as pesquisas e o projeto político Meiji, ancorando-o sobre a figura Imperial. De todos os símbolos, o império aparece como o mais revisitado e repaginado. Aliás, o Imperador foi posto no trono com idade juvenil justamente para autorizar esse projeto dos ministros comandados por Hirobumi. Quando notei este fato, optei por pesquisar como esse governo reformulou e reposicionou politicamente a presença simbólica do império. Fui ao texto jurídico para entender quem era esse Imperador e quais os seus poderes legais e me deparei com uma sequência de comentários do próprio ministro sobre seus pensamentos! Estava aí a minha fonte: os comentários de Hirobumi e os textos jurídicos de Meiji.

Ito Hirobumi, primeiro-ministro do Japão de 1883 a 1885. Crédito: Enciclopedia Britannica.

Basicamente, Hirobumi começou traçando um lugar mítico que justificou o império e o seu discurso. “Desde os tempos antigos” ou “herança de nossos antepassados” são duas formulações que aparecem corriqueiramente nos textos. Afinal, os políticos precisam justificar o seu projeto de modo a ter comprometimento dos novos cidadãos japoneses. Muitos desses líderes foram membros de clãs opressores e exploradores durante o governo Tokugawa, mas precisavam tirar o foco deles, enquanto ocorresse a implantação do projeto. A saída mais prática seria revisitar os textos antigos e inventar a sua autoridade perante a nação. Assim, fez-se: os pensadores retomaram textos e ideias dos textos mais antigos do Japão, sobretudo, o relato das coisas antigas, do Kojiki (o livro mais antigo sobre a história do país, nos seus primórdios como nação. As canções incluídas no texto são em japonês arcaico). Esta publicação serviu de baliza para o que se estava dizendo sobre as origens do Japão e do poder imperial. O Kojiki possui uma versão em português que é fruto de um trabalho de mestrado.

Na sua pesquisa, você afirma que os pensadores chineses tiveram certa influência nesta reformulação do que viria a ser o Japão do século XX.

Nessa retomada, um pouco do pensamento chinês também reaparece sim, com a noção de ordem (tao) e mandato do céu, os quais justificam o poder e o lugar moral dos indivíduos na China. Havia só uma diferença em sua aplicação no Japão: não havia uma formulação de meritocracia como a chinesa (a questão dos concursos públicos de admissão). Os políticos Meiji repaginaram a hierarquia, sem a abolir completamente. Novos grupos sociais surgiram e outros antigos foram desfeitos ou desmembrados.

Os samurais, por exemplo, perderam o seu papel de autoridade punitiva local. O império precisa seguir um pouco das novidades ocidentais, sem perder a originalidade japonesa. Isso significou o estabelecimento de novos conceitos para a ordem pública: honne, verdadeiro pensamento; tatemae, pensamento que segue o que está posto para manter a ordem; uchi, ser de dentro, ser aceito, insider; e soto, em síntese, outsider. Este talvez seja o maior legado dessa formulação oitocentista, visto que ainda existem muitas situações em que esses conceitos aplicam-se em espaços japoneses ou nipo-brasileiros.

Esta visão de um Japão destinado pelos deuses a ser uma raça e um povo eleito e predestinado teria contribuído para a expansão imperial a outros países e desencadeado o período de colonização, além dos genocídios durante a Segunda Guerra Mundial?

Lendo os documentos e vendo o nascimento dessa ordem pública, parece-me lógico dizer que o Japão não foi ocidentalizado. Vale considerar que esse caminho de investigação aplica-se também a outros campos. A tecnologia por exemplo. Muitos autores entendem que o desenvolvimento econômico de finais do período Meiji tem semelhança com os casos ocidentais, mas, destacamos, os grupos financeiros, zaibatsu, que financiaram e foram influenciados pelo Estado mesmo depois de Meiji.

Muitos deles tiveram suporte econômico em suas ações de expansão comercial. O Japão começa a entrar em terras de seus vizinhos com isso, e se torna uma presença na região, defendendo a especificidade japonesa. O discurso étnico¸ conhecido como nihonjinron (textos que abordam questões de identidade nacional e cultural japonesa, e compartilham a crença geral do Japão como uma nação singular), que na verdade é um campo vasto de estudos e publicações em diversas áreas que se juntam sob esta lógica, orienta a formação dos primeiros ataques e a realização das guerras. Com a vitória sobre a Rússia, o Japão tornou-se reconhecido no cenário internacional.

E como a franquia Rurouni Kenshin, Samura X como é conhecido no ocidente, ajudou a trazer conhecimento e instigar interesse em um público geral não conhecedor destes fatos históricos?

O Japão Meiji, curiosamente, está presente no imaginário da juventude, por conta do grande número de expectadores do anime Samurai X. Ele alcança o público não somente no espaço do virtual, informal, mas também do televisivo. Os episódios da franquia foram exibidos em dois momentos: de inícios de 1999 até inícios de 2000 pelo programa TV Globinho (Rede Globo) e entre 2001 e 2002 pelo bloco de animes do canal Cartoon Network.

Nobuhiro Watsuki criador de Samurai X. Crédito: geekdama.

Como já foi dito, a era Imperial japonesa objetivou pôr fim ao período violento do Xogunato, regido por matadores, e promover a coesão do país. Contudo, a violência seria transportada para o exterior com a invasão e a agressão a outras nações. Muitas das estruturas do Xogunato permaneceram e não foram transformadas realmente para melhor. Todas estas questões são claramente exibidas no anime e no manga. Como esta questão é construída no personagem Kenshin? Seria ele a personificação fictícia de um Japão, ainda visto de forma negativa e desconfiada pelos vizinho, em busca redenção? 

Eu fico pensando que realmente existe uma curiosa semelhança entre os elementos narrativos da obra e os fatos deste período histórico, pois, ficamos sabendo que em função da sua habilidade, tornada famosa por setores relacionados ao governo militar, Kenshin, recebe o título de Retalhador no período do Bakumatsu. Com a vitória do projeto imperial, seus pensamentos o fazem iniciar uma peregrinação pelo novo Japão que nascia, tendo como objetivo o apagamento desse passado. Na história do anime, conhecemos Hitokiri no Battousai, foi assim que Kenshin Himura ficou conhecido no período imediatamente anterior as intensas transformações da modernização. Durante o período de desordem que antecede a renovação da figura imperial, nosso herói vivia de vender seus serviços de espadachim.

A figura do samurai como um asceta foi dando lugar a uma progressiva capitalização do caminho da espada, pois mais e mais senhores desejavam manter o seu poder local e alcançar postos junto ao poder nacional, momentos antes do colapso do sistema. O autor Nobuhiro pensou em demonstrar uma espécie de desumanização daqueles que são vistos como símbolo da cultura japonesa justamente quando passam a desejar o poder e a autopreservação.

Crédito: fonte desconhecida.

Não há datações tão específicas na obra, mas sabemos que o contexto de 1847-1867 é decisivo para a derrota do projeto tradicionalista e Himura e outros percebem o destino eminente da figura samurai, detentora do signo da violência desde meados do séc. XI. Eles ou abandonam o caminho da espada em prol do novo governo, sendo alguns de fato reaproveitados para fins de segurança pública, ou escolhem a errância e a peregrinação ensinadas pelo budismo, em busca de iluminação em um novo contexto. Após essa sua vida militarizada e desumanizada, o protagonista começa a peregrinar. Peregrina para tentar conviver com seus atos passados. Talvez, Nobuhiro, com todos os seus próprios problemas, tenha tentado mostrar o Japão em Kenshin.

MidiÁsia entrevista Hugo Katsuo, diretor de “O Perigo Amarelo nos Dias Atuais” e “Batchan”

Por Daniela Mazur

Em meio ao debate sobre a população amarela brasileira nesse momento em que o coronavírus está em voga, é necessário, mais do que nunca, abordar representações e ideias concretas sobre a pauta brasileiro-asiática aqui. Em entrevista concedida ao MidiÁsia, o graduando em Cinema&Audiovisual da UFF e diretor e criador dos documentários “O Perigo Amarelo nos Dias Atuais” (2018) e “Batchan” (2020), Hugo Katsuo fala sobre questões relacionadas ao universo de discriminação contra amarelos no Brasil, a concepção da ideia de “minoria modelo” e a construção do perigo amarelo como parte essencial para entendermos as conotações racistas sofridas por essa parcela de brasileiros, especialmente dentro do contexto atual em que há a tentativa de racializar o Covid-19 como um “vírus chinês”.

Hugo Katsuo, diretor de O Perigo Amarelo nos Dias Atuais e Batchan. Crédito: Mariana de Lima.

“O Perigo Amarelo nos Dias Atuais” e “Batchan” falam muito sobre a experiência do amarelo no Brasil, mas também apresentam nuances de diferentes perspectivas de brasilidade. Como essas duas obras dialogam? O que você acredita que elas apontam na nossa sociedade?

Hugo Katsuo: Ambos falam sobre a vivência amarela no Brasil, mas trilham caminhos bastante diferentes. Acredito ser mais fácil descrever as diferenças entre eles do que as semelhanças. Quando dirigi “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais”, eu estava pensando em um documentário que fosse quase como um guia didático sobre o que seria essa tal de “militância amarela” e, portanto, a linguagem dele foi feita somente a partir de entrevistas que abarcavam desde reflexões teóricas, acadêmicas, até o relato de experiências individuais. Em outras palavras, este filme foi feito para auxiliar a divulgação do movimento amarelo e servir de material para pesquisas, auxiliando pesquisadores dos estudos asiáticos e/ou asiático-brasileiros. “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais” foi idealizado como um documentário explicitamente militante.

Cartaz oficial de “O Perigo Amarelo nos dias atuais” (2018). Crédito: Ing Lee.

O “Batchan”, por outro lado, não teve essa pretensão. Eu pensei no filme, inicialmente, como uma forma de me aproximar da minha avó, que é a minha principal referência de ancestralidade, e, sobretudo, como forma de preservar a sua memória. É claro que acredito na preservação da memória como uma forma de militância, mas não foi no intuito de fazer um cinema com uma militância explícita que eu dirigi este curta-metragem. E isso influenciou muito a linguagem que eu utilizei nele. “Batchan” é um filme muito mais pessoal e fala não somente sobre o percurso da minha avó em relação à sua espiritualidade, mas também o meu percurso em busca de uma ancestralidade. Ambos os filmes, entretanto, buscam um pertencimento, ainda que partindo de percursos bem distintos.

Cartaz oficial de “Batchan”. Crédito: Mariana de Lima.

Mesmo sendo ainda graduando, você já produziu obras de destaque que estão circulando nos circuitos de debates raciais, especialmente dentro dos espaços asiáticos-brasileiros. Como foi a construção da sua maturidade profissional e de indivíduo para chegar a produção desses conteúdos?

HK: Comecei a estudar sobre questões amarelas um pouco antes de entrar para a graduação e já ingressei no curso de Cinema & Audiovisual com a pretensão de dirigir “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais”, mesmo que, na época, eu pensasse esse documentário de outra forma. Inicialmente, queria que o filme fosse sobre imigração japonesa e, depois de entrar em contato com o tema da representatividade, queria que fosse feito a partir de relatos de artistas amarelos no Brasil. Em 2017, entretanto, fui a São Paulo e participei de uma reunião entre os membros do Perigo Amarelo, do Asiáticos Pela Diversidade e da Plataforma Lótus. Conversamos sobre diversas questões, entre elas, sobre como havia um entendimento muito superficial do que essa militância propunha e reivindicava. Foi nesse momento que mudei radicalmente a proposta do documentário e ele se tornou um filme sobre a militância amarela no Brasil.

Trecho da entrevista de Felipe Higa no filme “O Perigo Amarelo nos dias atuais”.

Dirigi “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais” no começo de 2018, eu tinha 18 anos na época. Tenho 20 anos agora e estou para fazer 21 no final do mês. E muita coisa mudou. Atualmente, eu delimitaria outros recortes temáticos e talvez focasse menos em questões como representatividades, mas sem excluí-las. Amadureci muito ao mesmo tempo em que a própria militância amarela também amadureceu. No final de 2018, quando exibi pela primeira vez o filme, ele já estava, de certa forma, datado. Em termos de amadurecimento profissional, acho que estou no processo de encontrar minha própria linguagem cinematográfica e acredito que “Batchan” foi um filme que me proporcionou muito aprendizado nesse sentido. Com uma equipe muito reduzida e querida, tive a oportunidade de brincar esteticamente com o documentário, apesar de já achar que eu poderia ter arriscado mais.

Dentro da perspectiva de raça, como foi a sua trajetória de compreensão pessoal como brasileiro amarelo? Como o racismo se apresentou para você nesse processo?

HK: Lembro até hoje que estava conversando com a minha avó materna, que não é nipo-brasileira, sobre o meu avô (nipo-brasileiro) que faleceu antes de eu nascer. Ela comentou comigo sobre algumas perseguições que ele sofreu durante a infância e adolescência. Não entendi muito bem quando ela disse que o Estado confiscou os bens da família do meu avô e, por isso, comecei a estudar sobre imigração japonesa. Descobri, então, sobre as perseguições que esses imigrantes e filhos de imigrantes passaram e sobre o debate em torno da entrada ou não dos asiáticos amarelos no país. Mas, até então, eu ainda não tinha adentrado na dimensão racial e acreditava que, por eu não ser negro, eu era branco.

Frame de “Batchan” (2020), documentário de Hugo Katsuo.

Em uma aula de História, no ensino médio, estávamos estudando as políticas imigratórias no governo Vargas e o professor comentou que elas eram contra a entrada de imigrantes “não-brancos” no país. Lembro de ter levantado a mão e falado: “e contra a dos japoneses também”. O professor, então, respondeu: “todos os não-brancos”. Foi ali que comecei a pesquisar sobre racismo contra amarelos no Brasil e achei pouquíssimo material. Posteriormente, conheci, através do Hugo Noguchi, a página do Perigo Amarelo e descobri que tinham outras pessoas pautando essas questões também. Acho que vale ressaltar que, por mais que eu achasse que era branco, eu já tinha consciência de que eu era diferente e que não me tratavam da mesma forma que os meus amigos que eram, de fato, brancos. As piadas e os estereótipos raciais sempre me incomodaram, mas até então eu não sabia dar nome a esse incômodo. Lembro que durante a minha infância e adolescência essas piadas racistas vinham não só de outros alunos como também de alguns professores. Entender os processos pelos quais passei e ainda passo foi muito importante para aprender a me impor em situações como essas.

O fato de ser asiático-brasileiro tá inscrito nos seus trabalhos, como você define hoje a presença dos corpos amarelos na mídia brasileira? Como a representação é importante para essa parcela da sociedade?

HK: Acredito que há escassez de representações amarelas no audiovisual brasileiro. Admito que tenho, atualmente, um pouco de preguiça dos debates em torno de representatividade porque acho que eles tomam um viés muito superficial e, por vezes, flertando com o neoliberalismo. Não acho que a representatividade por si só mude as coisas. Mas acho que pensar em novas práticas representacionais é extremamente importante no processo de humanizar corpos racializados. Precisamos urgentemente criar novos repertórios imagéticos, novas narrativas, que tirem grupos não-hegemônicos do lugar que foi imposto a eles. Acredito que trazer à tona novas representações, mais humanas e menos estereotipadas, potencializa mudanças. Temos, entretanto, que tomar cuidado em achar que a mudança termina aí. Meu trabalho parte muito de tentar afastar essas narrativas racializadas de contextos brancos, despir elas de estereótipos, criar espaços de pertencimento e preservar memórias.

Captura de “Batchan” (2020) com foco em Luiza Okabayashi, avó de Hugo.

O que é ser amarelo no Brasil nos dias de hoje? Quais elementos da sua realidade como homem racializado mudaram ou se mantiveram nos últimos anos no nosso país?

HK: A minha perspectiva em relação às mudanças que ocorreram nos últimos anos em relação a ser um homem amarelo no Brasil está muito relacionada às minhas pesquisas acadêmicas nas quais estou procurando investigar de que forma a entrada do soft-power sul-coreano mudou a percepção, em relação às dinâmicas de desejo e desejabilidade, sobre nossos corpos. Até pouco tempo atrás, eu era visto como indesejável e, de uma hora para outra, comecei a perceber pessoas me fetichizando racialmente. Não sei ainda se os estereótipos em torno do corpo do homem amarelo mudaram, mas, se não mudaram, com certeza o olhar sobre eles mudou. Inicialmente, isso parece inofensivo ou, até mesmo, uma mudança positiva. Mas, se entendermos o fetiche racial como um desejo baseado na objetificação da raça, ele causa danos aos corpos que são fetichizados porque desumaniza eles.

Existe certa invisibilidade da presença amarela no Brasil? Pela sua perspectiva, como os debates sobre raça, racismo e xenofobia estão se apresentando hoje dentro da comunidade asiática-brasileira e na mídia?

HK: Até pouco tempo atrás, acredito que existia uma grande invisibilidade dessa parcela da população brasileira. Atualmente, por mais que o debate ainda esteja muito centralizado em São Paulo e em certas bolhas da internet, percebo que a temática da discriminação contra amarelos cresceu bastante. Isso diz muito, a meu ver, sobre privilégios de classe também. O movimento asiático-brasileiro se configura, até onde eu sei, em 2015, com a criação da página do Perigo Amarelo. Em cinco anos já conseguimos trazer esse debate para muitos espaços midiáticos. Isso se dá, sobretudo, porque foi permitido que nós ocupássemos esses espaços, graças à nossa rápida ascensão social e econômica – que é um privilégio da minoria modelo.

Ilustração de Ing Lee para o filme “O Perigo Amarelo nos dias atuais”.

O asiático-brasileiro considerado como “minoria modelo” é percebido também como perigo amarelo ou isso muda dentro da perspectiva do contexto político-social? Quais são as peças que ditam esse jogo?

HK: Podemos ser percebidos como a minoria modelo, mas, às vezes, somos lidos como o Perigo Amarelo. Isso está muito em evidência nos últimos dias, com a racialização do coronavírus enquanto um “vírus chinês”. Mas antes disso já podíamos perceber um pouco dessa dinâmica. Por mais que sejamos vistos como uma minoria inteligente, esforçada e trabalhadora, também somos vistos como perigosa. Por exemplo, justamente pelo estereótipo da minoria modelo somos entendidos como uma ameaça em relação a “roubar” empregos ou vagas nas universidades. Se vamos ser lidos como o perigo amarelo ou como a minoria modelo, depende muito do contexto em que estamos inseridos e isso vai ditar as violências que vamos sofrer. Mariana Akemi, no documentário “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais”, comenta que ela é tratada de uma forma quando está na faculdade e de outra completamente diferente quando está na barraca de pastel dos pais. Acredito que haja aí também uma dimensão de classe.

Trecho da entrevista de Mariana Akemi no filme “O Perigo Amarelo nos dias atuais”.

É óbvio, por exemplo, que, na maior parte do tempo, serei tratado como a minoria modelo por ser um nipo-brasileiro de classe média alta inserido num contexto artístico e acadêmico. Em contrapartida, um imigrante chinês que trabalha numa lanchonete vai ser tratado como o perigo amarelo e sofrer muito mais agressões do que eu. É importante, portanto, que a gente comece a olhar cada vez menos para o próprio umbigo e começarmos a construir, de fato, pontes de solidariedade antirracista. Isso, entretanto, só vai acontecer se nos dispusermos a perder alguns privilégios que nos foram concedidos. Só vai acontecer se abandonarmos a minoria modelo e assumirmos o papel de perigo amarelo.

Quais são os seus planos para próximos trabalhos? Quais perspectivas da presença amarela no Brasil você ainda tem interesse de abordar e colocar em voga nos debates de raça no país?

HK: Estou com dois projetos audiovisuais para serem feitos. O primeiro é uma ficção LGBTQ, que será protagonizada por Nícolas Tadashi e Ciana Lopes. Nele, não entro muito nas dimensões raciais, penso mais a partir de questões de sexualidade e gênero. A minha ideia é mostrar esses corpos LGBTQ+ a partir da dor de um término, deixando a dor das violências cotidianas causadas pela LGBTQfobia em segundo plano. Os dois personagens que acabaram de terminar seus respectivos namoros começam um extenso diálogo sobre a experiência amorosa, a morte e a linguagem. A morte tem um viés mais simbólico, mas ganha também, por vezes, uma dimensão literal a partir do momento em que dialogam também com a morte das vítimas de LGBTQfobia. Mesmo este não sendo o foco do roteiro, resolvi não ignorar essa realidade. O meu outro projeto, que acredito que vá demorar mais tempo para ser feito por motivos financeiros, também é LGBTQ, mas é um documentário experimental, muito influenciado pelo filme “NEGRUM3”, de Diego Paulino, que vai trazer à tona o debate sobre LGBTQs amarelos no Brasil. Já no âmbito acadêmico, pretendo continuar minha pesquisa sobre pornografia e relações raciais no mestrado.

Para encerrar, quais canais, páginas, coletivos você recomenda para aqueles que se interessam em aprofundar seu entendimento sobre questões amarelas no Brasil?

HK: Recomendo muito o blog OutraColuna no qual são postados vários textos produzidos pela militância asiático-brasileira. No youtube, não tenho como não citar o canal do Leo Hwan. Para além disso, recomendo a leitura de pesquisadoras como Lais Miwa Higa e Marcia Yumi Takeuchi. 

Vídeo do canal Leo Hwan. Crédito: Leo Hwan.

Revista Intertelas entrevista Mayara Araujo, pesquisadora do MidiÁsia

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas)

Nesta entrevista concedida à Revista Intertelas, nossa pesquisadora Mayara Araujo, também doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (PPGCOM-UFF) e Mestre em Comunicação e Cultura pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro analisa a produção audiovisual japonesa e, em específico, o impacto e os problemas atuais dos chamados doramas para a promoção do país no exterior e no Brasil.

Como a cultura japonesa entrou na sua vida e o que ela transformou?

Eu tive meu primeiro contato com a cultura japonesa a partir de Pokémon, quando foi transmitido na TV em 1999. Desde então, passei a me interessar por outros animês e, eventualmente, esse meu interesse de infância foi se transformando e amadurecendo: acabei procurando um curso de japonês, culinária, turismo e, por fim, utilizar essa afinidade como objeto de estudo no mestrado. A meu ver, ter a possibilidade de pesquisar elementos da cultura japonesa academicamente foi a maior transformação que essa preferência me proporcionou, visto que eu consegui fazer disso um trabalho.

O dorama “Long vacation”. Crédito: https://dramaswithasideofkimchi.com

Como você avalia o mercado de doramas dentro e fora do Japão?

Fora do Japão e da Ásia, o mercado é praticamente inexistente. A maior forma de consumo é através da comunidade de fãs da cultura pop japonesa que legendam e distribuem esse conteúdo por conta própria. Há algumas iniciativas de parcerias entre as redes televisivas japonesas e plataformas de streaming, como é o caso da TV Fuji com a Netflix. Além de licenciar animês, agora também é possível assistir dramas de TV japoneses pela plataforma. Mas o mais interessante, a meu ver, são os doramas co-produzidos pelas duas companhias, que gerou conteúdo de sucesso como “Good Morning Call” e “Erased”. Talvez um dos motivos de certo “apagamento” dos doramas frente aos K-dramas (dramas de TV sul-coreanos) seja uma possível necessidade japonesa em dialogar somente entre seus pares.

Enquanto a estratégia da Coreia do Sul em relação a sua indústria midiática consistiu em buscar elementos em comum entre os países de seu entorno regional ou com o ocidente, o Japão insiste em produzir conteúdo visando especificamente o mercado doméstico. O próprio Ota Toru, produtor da Fuji TV e um dos criadores dos “trendy dramas” (o formato que consumimos atualmente e que foi emulado pela Coreia do Sul, por exemplo) chegou a afirmar que a estratégia consistia em atingir o mercado interno.

O dorama “Good Morning Call”. Crédito: Amino Apps.

Qual o impacto dos doramas japoneses no Brasil, levando em conta que é o país com maior comunidade de japoneses fora do Japão?

Eu diria que bastante incipiente. Apesar de termos a maior colônia japonesa do mundo, a circulação dos doramas no Brasil acabou sendo ofuscada pelos animês e tokusatsus (filmes ou séries live-action que fazem um uso forte de efeitos especiais) que vêm preenchendo horários de nossas grades televisivas desde a década de 1970, mais ou menos. Inicialmente, os doramas acabaram ficando restritos ao circuito dos fãs dos animês, que acabavam se interessando por outros conteúdos japoneses e legendavam e distribuíam na Internet.

No início dos anos 2000 também havia o comércio pirata de doramas em alguns bairros em São Paulo (onde se concentra uma grande quantidade de descendentes de japoneses), mas, de forma geral, o circuito ficou vinculado às plataformas digitais. No Brasil, tivemos pouquíssimas oportunidades nas quais os doramas foram exibidos em nossas redes de televisão, sendo que o mais recente foi o dorama “Dear Sister”, que foi transmitido em 2017 na TV local E-Paraná. Sem dúvida, não houve esforços para popularizar o formato.

O dorama “Dear Sisters”. Crédito: Animo Apps.

Acredita que os doramas promovem ou instigam debates e transformações sociais?

Sem dúvida. Muitos dos dramas japoneses que circulam dialogam com questões delicadas, como xenofobia no Japão, a questão do trabalho x maternidade e excesso de horas extras trabalhadas. É claro que precisaria de mais pesquisas e aprofundamento nesse ponto para afirmar que essas temáticas acarretam em transformações sociais, mas me parece evidente que certos questionamentos são lançados.

O dorama “Erased”. Crédito: Netflix.

Acha que os doramas são uma ferramenta que o Japão usa para promover a cultura e a economia do país no exterior?

Quando a gente pensa na realidade brasileira ou latino-americana é perceptível o quanto sabemos poucos sobre esse formato televisivo. As estratégias de difusão de cultura e desenvolvimento do soft power japonês são completamente ancoradas nas animações e em elementos mais tradicionais de sua cultura. Há autores que afirmam que a entrada de animês em países do leste e sudeste asiático é menos problemática, pois são “inodoros”, ou seja, não são etnicamente japoneses. Como o Japão tem um passado conturbado por conta de seu imperialismo, muitos países da região restringiram a entrada de conteúdo japonês por muitos anos. No entanto, desde a década de 1990, os trendy dramas obtiveram sucesso em alguns países e se tornaram referenciais de modernidade e estilo de vida para a juventude asiática. Eu diria, então, que não são os protagonistas, mas cumprem um papel.

O que acha que precisaria melhorar neste ramo?

A experiência sul-coreana em relação a difusão dos K-dramas globalmente é digna de nota. Até pouco tempo atrás, aqui no Brasil, nós mal ouvíamos falar da Coreia do Sul e hoje ela parece perpetuar no imaginário da camada jovem da sociedade. Alguns falam de hibridização do conteúdo, ou seja, tornar os K-dramas palatáveis para qualquer audiência. Talvez tenha sido um modelo de sucesso. Os doramas acabam sendo muito centrados na lógica japonesa, na realidade japonesa e em uma suposta forma de “ser japonês”. Me parece uma espécie de criação (involuntária) de soft power a partir da exclusão, de vender a ideia do exótico, do diferente e do “venha me decifrar” para atrair o público. Não sei até que ponto isso funciona.

E o Brasil como poderia refletir a presença dos doramas em seu mercado para seus objetivos de propagação da cultura brasileira e cooperação com o Japão?

O formato dos dramas de TV tem características que lembram as telenovelas brasileiras como, por exemplo, a presença do melodrama. De certa forma, são linguagens que dialogam. Em 2005, a Rede Bandeirantes e a NHK coproduziram “Haru e Natsu”: as cartas que não chegaram, uma minissérie que conta a história da imigração japonesa para o Brasil. Ela foi transmitida em 2008 no Brasil, no ano em que se comemorou o centenário da imigração japonesa, mas não houve grande visibilidade para essa coprodução.

Ainda assim, partindo do princípio de que caminhos alternativos à maciça presença estadunidense/ocidental  vivem um momento de plena efervescência, as redes de televisão brasileiras poderiam dar mais atenção a conteúdos fora desse eixo para pensar as próprias produções televisivas e incentivar à busca por novos conteúdos. Os brasileiros são poucos representados nos doramas e são uma grande comunidade de estrangeiros no Japão. O mesmo ocorre com os japoneses e seus descendentes no Brasil.

O dorama “Haru e Natsu”. Créditos: YouTube.

É possível modificar está situação? Se sim, o que é preciso para modificar e como fazer?

De forma geral, os doramas não costumam apresentar muitos personagens estrangeiros. De fato, eu nunca assisti um dorama com um personagem brasileiro, apesar de já ter visto menções a brasileiros famosos. Em “Long Vacation”, por exemplo, o protagonista chama-se “Sena” e há diálogos em que ele é chamado de “Ayrton”. No caso das telenovelas brasileiras, há um enorme apagamento em relação aos japoneses e, quando são representados costumam ser interpretados por brasileiros sem parentesco com japoneses. Há iniciativas para promover a presença de artistas asiáticos na TV brasileira, como o coletivo Oriente-se, que pode ser uma ponte para diminuir esse apagamento. No caso japonês, desconheço iniciativas.