Entrevista com Iara Lee (Coreanos Pelo Mundo): “A vida resume-se em saber transformar algo negativo em positivo”

Por Alessandra Scangarelli (via Korea Post e Intertelas)

A cineasta Iara Lee. Crédito: Cultures of Resistance.

O trabalho de promover solidariedade entre as pessoas é árduo e requer muita energia, persistência e disposição. Mas isso é tudo que Iara Lee, cineasta brasileira de origem coreana, nascida em 1966 e hoje radicada em Nova Iorque, tem de sobra. Ela percorreu uma longa jornada como produtora de cinema e festivais da área. Hoje é diretora e ativista. Seu trabalho visa a cobertura de notícias e debate sobre questões de extrema importância para a sociedade mundial. O cinema para ela é uma ferramenta capaz de impactar e realizar mudanças no público que o consome, ainda que seja de forma bastante seletiva e vagarosa.

No seu objetivo de incitar provocações que façam o espectador refletir e ser mais proativo no seu dia-a-dia em realizar mudanças que visem melhoras a todos, ela, em conjunto com outros colegas, deu início ao projeto “Culturas da Resistência”. Uma série de trabalhos audiovisuais documentais que almejam propagar informação, conhecimento e acima de tudo ativismo. De 1984 e 1989, ela foi produtora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Crédito: Danilo Arenas/Cultures of Resistance.

Em 1989 mudou-se para Nova York, onde fundou a empresa multimídia Caipirinha Productions, no intuito de explorar múltiplas formas de expressão artística e cultural. Os temas de suas obras englobam diversas temáticas, entre elas: a influência da alta tecnologia sobre a cultura de massa “Synthetic Pleasures” (1995) e a música eletrônica “Modulations” (1998). O projeto mais recente da realizadora é uma série de dois documentários sobre Burkina Faso. Em “Burkinabé Rising: A Arte da Resistência em Burkina Faso”, a diretora expõe o dia-a-dia de uma comunidade de artistas e cidadãos engajados, que estão a incitar mudanças políticas importantes neste país de pequeno território, localizado na África Ocidental.

Lee é também militante pela paz e realizou diversas iniciativas neste sentido como a Campanha Internacional pela Eliminação de Bombas de Fragmentação e o primeiro concerto da Filarmônica de Nova Iorque na Coreia do Norte, em 2008. Ainda na sua biografia estão experiências únicas, a exemplo de testemunhar o bombardeio israelense contra o Líbano, em 2006. Desde então ela vem apoiando e colaborando com projetos que visam a disseminação de uma cultura de paz e colaboração entre as pessoas como a campanha “Faça filmes, não guerra”.

Gravando um de seus tantos trabalhos na África sobre a cultura de resistência dos povos locais. Crédito: O Tempo.

Em 2010, ela participou da “Flotilha da Liberdade”, organizada pelo movimento Free Gaza, que tinha o objetivo de enviar uma de carga 10.000 toneladas de ajuda humanitária à Faixa de Gaza e protestar contra o bloqueio imposto por israelenses e egípcios na época. A flotilha foi atacada pelas forças israelenses. Lee foi primeiramente dada como desaparecida, até ser encontrada pelas autoridades de Israel. Em entrevista ao Koreapost, ela conta um pouco de sua trajetória no cinema e compartilha um pouca da sua visão sobre questões importantes da agenda Internacional.

Como foi o início desta trajetória?

Passei nove anos trabalhando na Mostra Internacional de São Paulo. Preferi ter esta experiência, do que ficar na faculdade de cinema da Universidade de São Paulo. Na época, achei que o curso tinha muita teoria e pouca prática. Na Mostra consegui aplicar parte das teorias que tinha aprendido. Fazia todo o trabalho que ninguém queria fazer. Tomei conhecimento de tudo que era necessário saber para melhor compreender como funciona um festival, o que é preciso para que ele ocorra. Trabalhava pela manhã, tarde e noite. Atualmente a minha vida não é muito diferente. Muitas vezes eu estou participando dos festivais e realizando trabalhos puramente burocráticos e chatos, distribuindo flyers, preparando kits de imprensa, estas coisas. Às vezes, as pessoas confundem e acham que sou a assistente e não a diretora do filme.

Crédito: João Meirinhos/Cultures of Resistance.

Após adquirir bastante conhecimento sobre os bastidores e o mercado de cinema resolvi dirigir. Então, falei com os meus pais e fui para Nova Iorque. Estudei na Universidade de Nova Iorque, mas também não gostei. Todo mundo lá queria ser um Martin Scorsese, queria fazer parte deste mundo comercial de Hollywood. Então, resolvi focar e terminar o curso, antes do período determinado pelo programa da faculdade. Consegui fazer tudo em dois anos. Além disso, também estudei filosofia. Neste período, fiz dois curtas-metragens que foram para festivais como Sundance. Meus filmes, desde o início, sempre tiveram uma linha mais autoral e experimental, tanto do quesito propriamente técnico de fazer cinema, quanto no conteúdo, nas histórias, nas mensagens que queria passar.

Como uma cineasta independente, que não se identifica tanto com o cinema comercial, faz para passar conquistar espaço em um mercado cinematográfico mundial tão monopolizado?

Pois é, eu não me sinto parte deste mundo mercadológico do cinema mesmo. No começo, meus filmes até tinham certo apelo mais comercial e eu conseguia participar dos festivais principais. Mas, quando fui me afastando desta lógica e abordando temas políticos mais delicados, até estes festivais que dizem abraçar o trabalho mais experimental, mais autoral, disseram não estar mais interessados no meu trabalho. Então tive de recomeçar. Assim, procurei outros tipos de festivais que vivem mais à margem deste sistema monopolizado e que são eventos de nicho como mostras e festivais sobre os direitos humanos, contra o fascismo, focados em questões ecológicas e etc.

Mais uma vez a minha filosofia de vida que diz ser importante saber transformar algo negativo em positivo ajudou neste momento. Não fiquei chorando porque era rejeitada pelos grandes festivais. Fui procurar alternativas. E vasculhei tanto este mundo que acabei formando uma rede de contatos bastante significativa, com organizações, com ativistas e figuras importantes que apoiam causas. Hoje qualquer filme que eu faço passa em 100 países por ano. Há muitos festivais no mundo, realizando trabalhos importantes e dando espaço para temáticas mais sensíveis, só que não tem a visibilidade dos maiores e comerciais. Os meus filmes passam em tudo que é lugar que se possa imaginar: em uma sala de cinema, em escolas, em um porão de algum lugar, na rua, ou na casa de alguém que almeja fazer uma reunião e discutir um tema. É assim somos vistos em vários países e centenas de cidades.

Vou aproveitar algumas questões que você mencionou e perguntar sobre o seu projeto “Culturas da Resistência” que aborda muitos problemas sobre a desigualdade social, econômica, a crise do meio ambiente e também sobre a importância da cultura para realizar transformações reais na sociedade. Como um filme e a cultura podem provocar tais transformações?

Eu faço filmes para os jovens, porque o futuro está nas mãos deles. Então, tento incitar uma reflexão e torná-los cidadão ativos, engajados e que visem mudar o atual cenário. Por isso, faço filmes documentários mais dinâmicos, com bastante cultura, música, com muitos cortes na edição, no objetivo de falar sobre direitos humanos e política de forma menos teórica e moralista. Procuro usar uma linguagem mais leve para tratar de temas densos e importantes. Então, as pessoas vêm assistir o filme pela música e acabam aprendendo o que se passa no Saara Ocidental, na Palestina, na Caxemira, no Congo, e são tocadas ao tomar conhecimento daquelas situações.

Crédito: Danila Ilyushchenko/Cultures of Resistance.

Creio que o cineasta precisa ter consciência e ser humilde, pois a pessoa não vai necessariamente ver o seu filme e se tornar ativista. Mas a partir do momento que eu planto sementes, de repente, estes frutos podem ser colhidos em outras gerações futuras. É um trabalho de formiga e um pouco incerto, porque você não sabe muitas vezes como o filme impacta os jovens de forma geral. Contudo, às vezes, há um retorno de alguém que diz ter conhecido a situação do Saara Ocidental pelo filme e se apaixonar pelo povo. A pessoa em questão passou a realizar campanhas nas Nações Unidas em prol da libertação do Saara Ocidental. São casos assim que surpreendem e fazem que o trabalho continue, apesar das dificuldades.

É o famoso dizer que instigar uma pessoa já é o suficiente, correto?

Sim, mas é preciso ser humilde. Muitas vezes as pessoas ao final do filme vêm falar comigo e dizer que ficaram super inspiradas. Então eu digo: “não basta apenas ficar inspirada, precisa ter ação. Não desapareça, fique em contato, vamos conversar pela mídia social”. Assim, fico fazendo divulgação dos filmes por estes canais.

Crédito: Cultures of Resistance.

Então você diria que o principal objetivo do “Culturas da Resistência” é instigar as pessoas a tomarem inciativas, não apenas informá-las?

Exato! Porque ser informado e educado não é o suficiente. É preciso pôr o seu conhecimento na sua ação diária. Não é preciso viajar o mundo. Seja ativo na sua cidade, no seu bairro, no seu país. Veja um exemplo: é preciso saber o que se está comprando, quem está oferecendo aquele produto, que responsabilidade tem determinada empresa. Caso se saiba de problemas, uma alternativa é boicotar companhias que não têm compromisso algum com o meio ambiente ou que abusam de seus trabalhadores. Ou mobilizar as pessoas da sua cidade para atuarem contra coisas que você acha injustas. É um processo difícil, eu sei. Em especial esta coisa de confrontar governos e grandes empresas. As pessoas têm medo de morrer, de perder o emprego, de ir para a prisão.

É difícil mobilizar multidões. Contudo, pequenos passos, como o ativismo de consumo, é algo totalmente possível, pois o mundo é controlado por conglomerados econômicos. A partir do momento que você sabe que este chocolate delicioso é feito com o trabalho escravo de crianças da Costa do Marfim, pare de consumi-lo. Procure outro produto que não tem este problema. Não compre água mineral da Coca-Cola, ou da Nestlé que estão usando, praticamente roubam e lucram com a água de mananciais de países pobres que não têm como se defender. Então, são coisas pequenas que não há desculpa, as pessoas podem fazer, elas podem ser ativistas.

No campo de refugiados saharauis em Tindouf, Argélia. Crédito: Twitter Iara Lee

E o cinema é a melhor forma de promover esta conscientização?

Olha, eu não vou mentir, há momentos de muita frustração, nos quais eu penso que, de repente, valeria mais a pena fazer outra coisa, para conseguir um resultado mais imediato. Mas cada um faz o que pode. Uns escrevem, outros fazem música, outros cinema, outros agricultura. Acho que todos fazemos parte de um mosaico. Somos limitados, mas se unirmos todas estas forças, cada um, na sua área, consegue ter um impacto na sociedade.

Gostaria de perguntar sobre uma questão pessoal. Você desejou voltar a Coreia do Sul um dia?

Meus pais eram coreanos e vieram para o Brasil nos anos 1960. Teve a Guerra da Coreia nos anos 1950 e depois, quando o país estava em condições na época ainda muito pobres, iniciou uma imigração grande dos coreanos. Minha família pensou no Brasil como um país grande, de clima bom, solo bom, acolhedor e foram todos de navio da Coreia para o lá. Eu nasci no Brasil e, apesar de muito tempo fora, sou culturalmente muito brasileira.

Uma época tive também este interesse de procurar as minhas raízes e fui para a Coreia do Sul. Quando cheguei na lá fiquei muito desapontada. Aquilo parecia mais uma colônia dos Estados Unidos do que a Coreia. Muito americanizado, muito ocidentalizado. As pessoas vivendo naquele capitalismo exacerbado. Fiquei chocada. Não encontrei a Coreia que buscava. Então, comecei a ter maior interesse pela Coreia do Norte. E acabei trabalhando mais com eles do que com a Coreia do Sul.

Iara Lee, cineasta ativista brasileira, fala com o Korea Herald antes do EBS International Documentary Festival, no edifício da Samsung Electronics a sul de Seul. Crédito: Claire Lee / The Korea Herald.

Ajudei a levar a Orquestra Filarmônica de Nova Iorque para o país. Fiz parte da companha da diplomacia através da música. O Ministério da Cultura da Coreia do Norte convidou a orquestra para se apresentar e eles aceitaram. Foi algo histórico, pois pela primeira vez, a bandeira da Coreia do Norte e dos Estados Unidos estavam no mesmo palco. Foi a primeira vez também que a mídia internacional pode entrar no país. E antes deste projeto também realizei trabalhos de agricultura, onde fiz um programa de doação de sementes, em razão dos problemas relacionados à fome que os país passou.

Normalmente sempre falam que o problema da Coreia do Norte é o governo autoritário. Porém, é também verdade que países como a Coreia do Norte, com o fim da União Soviética, tiveram de se readaptar aos novos tempos. E eles ainda hoje sofrem bloqueios econômicos que têm um impacto significativo em suas economias. 

O bloqueio econômico que os países do ocidente fazem contra estas nações é grave. Para você ter uma ideia, os aviões no Irã caem muitas vezes, por eles não conseguirem importar peças que não tem como fabricar internamente para a construção de suas aeronaves. Outro exemplo é a tecnologia hospitalar para doentes, ou alguma matéria prima que precisa ser importada e o bloqueio não permite. Então, é um sofrimento muito grande e sem falar que estes países são constantemente ameaçados, por quererem seguir uma ideologia diferente.

As demais nações acabam querendo passar por cima e exterminar quem não segue a mesma linha. Washington não está preocupado com o cidadão comum norte-coreano e o quanto ele vai sofrer sem ter isso ou aquilo em razão do bloqueio econômico. Então, se você quer uma forma alternativa de viver é preciso resistir. E a tendência é o país fechar-se cada vez mais.

O cinema sul-coreano atualmente está em voga. E é um cinema que não pertence ao chamado “centro cultural do mundo”. Ele não é proveniente da Europa, nem nos Estados Unidos. Mas não apenas a Coreia, outros países como a China, a Índia, o próprio Japão, que mantem sua influência cultural, estão bastante presentes e ganhando fãs ao redor do mundo. Como você analisa a Ásia reemergindo com um polo político, econômico e cultural?

Eu acho algo incrível, pelo fato que nesta questão podemos ver claramente a importância da cultura, até da própria indústria cultural, mesmo a mais comercial, mas que está, ou estava à margem do sistema. Quando a Coreia do Sul estava em baixa e fazia filmes com temática menos internacionais, as pessoas menosprezavam muito o país. Contudo, muito mudou após esta onda cultural sul-coreana, que não traz apenas o cinema, mas a música etc. No próprio Japão, os coreanos que eram vistos como gente de segunda classe, era precisa deixar a sua digital na alfândega para entrar no país, estão recebendo os japoneses fascinados com a cultura sul-coreana e que estão indo para a Coreia como objetivo de experimentar mais.

A Coreia é um país que reemergiu através da cultura. Porém, outros estão chegando e acho que serão ainda mais fortes. Veja a China, e a Índia. O poder econômico delas hoje é indiscutível. Culturalmente ainda não trabalharam o suficiente para propagarem suas bagagens culturais, mas creio que virão com uma força gigantesca no futuro também nesta área. E quando isso correr, penso que realmente teremos uma febre pela Ásia mesmo. A cultura é assim, está em constante movimento e mudança. Vamos lembrar o passado mais recente, quando todos queriam ir para os EUA, em razão da imagem que o cinema dos EUA criou. As pessoas formam uma visão idealizada a partir desta indústria.

E como será este mundo na sua opinião?

Será um mundo bastante diferente. Vamos analisar a África como exemplo. Atualmente há países como a Nigéria que estão desenvolvendo fortes indústrias cinematográficas regionais e tornando-se polos econômicos de cinema influentes e importantes. Então, hoje os africanos já não querem ver filmes apenas com gente da Europa, ou dos EUA. Eles agora podem ver filmes que tenham os africanos como protagonistas. E filmes feitos por eles. Creio que neste novo mundo vai ocorrer o inverso, os estadunidenses é que vão começar a ver filmes com pessoas que tem outros rostos e outras cores, outras línguas e outras culturas.

Você acha então que o mundo será mais como ele é na realidade. A diversidade mundial estará mais em evidência nas telas?

Acho que sim e é algo super importante ter mais africano, mais asiático, os próprios indígenas do mundo inteiro serem mais representados neste mundo da cultura pop. E com isso também espero que outras coisas sejam possíveis como a eliminar visto, passaporte. Gostaria de poder ao menos testemunhar um mundo em que todos possam enxergá-lo como fazendo parte dele, como uma casa apenas e que todos devemos estar unidos para salvá-la.

O mundo atual está passando por uma crise generalizada tanto no campo econômico, quanto no político e social. Esta era asiática poderá construir um mundo diferente, com uma estrutura de poder diferente, menos exploradora e um pouco menos desigual?

Nós humanos ainda temos esta coisa bastante arraigada de querer ser mais que o outro e assim eliminar o próximo. Este instinto capitalista que está presente há séculos, creio que ainda vai persistir por muito tempo. Contudo, a questão ecológica e a crise climática vão fazer com que as pessoas sofram mais e, assim, tenham de obrigatoriamente rever valores e atitudes. Não será possível viver como espécie se continuarmos neste mesmo paradigma. Então é uma mudança sistêmica radical que é necessária.

Gravando na Noruega documentário dos povos indígenas da Europa, os Sami. Crédito: Twitter Iara Lee.

Os jovens precisam abrir os olhos. Não dá mais para continuar neste capitalismo exacerbado, onde se produz e se consome absurdamente. Se usa e joga fora. Tudo e descartável e só se objetiva fazer dinheiro. O capitalismo não funciona e todos sabem disso, mas insistem com ele. O ser humano só muda quando a coisa explode mesmo, onde já nos encontramos em nível de sobrevivência. É algo triste. E o meu trabalho de formiga vem neste sentido de tentar alertar e motivar as pessoas a saírem da sua zona de conforto e fazer algo mínimo que seja para evitar que as coisas fiquem insuportáveis. Parece que há algo autodestrutivo em todos nós.

Quais os seus planos futuros?

Acabei de filmar em Chernobyl, na Ucrânia. O local que depois de anos abandonado em razão do acidente nuclear está voltando à vida. As pessoas voltaram a frequentar a floresta e entrar em contato com os animais. Diversas atividades culturais e esportivas estão sendo realizada lá atualmente. Assim, aproveito esta situação de Chernobyl hoje para relembrar o desastre nuclear. Este foi o primeiro e deveria ter servido de lição, mas outros acidentes continuam ocorrendo, veja Fukushima e que o governo não tomou as mesmas providências que o ucraniano na época. Em Fukushima o material radiativo continua indo para o oceano.
Além deste trabalho, fiz outro documentário no Lesoto, um enclave da África do Sul, onde os jovens que não têm muitas oportunidades utilizam da criatividade para conseguir sobreviver.

Crédito: Cultures of Resistance.

Fiz outro filme sobre a agroecologia em Guine Bissau, onde as mulheres estão no comando da agroecologia. Este assunto, por sinal, é uma extensão do trabalho que fiz em Burkina Faso. Acabei de voltar do Malawi, em que fiz vários curtas sobre artistas que usam da arte e cultura para ajudar hospitais, orfanatos, a combater a malária e ajudar os refugiados das guerras. É o uso da arte e cultura como instrumento de ativismo humanitário.

Por fim, estou editando um documentário também sobre os indígenas da Europa, que são super desconhecidos. Fomos ao norte da Suécia, da Finlândia, da Noruega e uma parte da Rússia. Estes indígenas também estão lutando, pois os governos destes países estão tomando medidas muito prejudiciais ao meio ambiente.

São trabalhos que abordam diversas causas pelo mundo, mas que na essência têm o mesmo objetivo, questionar a forma individualista atual que levamos a vida. Não basta apenas pensar em mim e na minha família. É preciso dar sentido maior ás pessoas de que a solidariedade para com todos é a única forma de prolongarmos a nossa existência e evitarmos a nossa eliminação como espécie. E desta solidariedade que vem a esperança de fazer algo melhor, mais justo, mais igual, onde todos os seres, não apenas os humanos, estão inseridos.

Fonte: Texto originalmente publicado no site do Koreapost e também disponível no site da Revista Intertelas.

Revista Intertelas entrevista Mateus Nascimento, pesquisador do MidiÁsia

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas)

A pesquisa acadêmica e o conhecimento geral que engloba diversas áreas relacionadas ao continente asiático ainda encontra barreiras no Brasil, tendo muito espaço para avançar. Conforme diversos estudiosos das relações internacionais, estamos entrando em uma nova era, onde a Ásia terá papel preponderante. Contudo, os brasileiros e os campos de estudos sobre os paises desta região enfrentam uma cultura intelectual no país ainda muito eurocentrada. Desta forma, diversas questões históricas que se acredita conhecer como a Era Meiji (1867-1912), período histórico de modernização e industrialização do Japão, acabam sendo questionadas, pois até o momento são vistas por lentes ocidentais, Desta forma, não levam em conta o trabalho de pensadores e estudiosos nacionais destes países, ou até de pesquisadores de outras regiões do mundo, que teriam também algo a dizer sobre história do Japão, talvez até mais que qualquer estadunidense, ou europeu.

Diferentemente do que se pensa, Meiji não foi um momento histórico de submissão e ocidentalização do Japão. No entanto, o que houve foi um processo de transformação conduzida e adaptada pelo japoneses, em iniciativas independentes que almejavam a construção de um projeto de nação e de um império que aspiravam na época. É certo que no século XIX, o imperialismo europeu  e norte-americano fazia-se presente na Ásia. Porém, seria errado afirmar que os japoneses para sobreviver ao braço forte europeu e dos EUA tiveram de incorporar valores totalmente ocidentais, fugindo de suas raízes e se submetendo como bons servos locais, a partir da chegada do comodoro estadunidense Matthew C. Perry, que forçou o Japão a abrir seus portos para os EUA. Na realidade, grupos políticos do Japão aproveitaram a oportunidade para dar fim à estrutura política, dominante há séculos, do Xogunato, cuja figura política maior estava na autoridade de vários xoguns, os supremos líderes militares. E estes estavam submetidos de certa forma ao Imperador.

A revolução Meiji daria fim ao poder destas figuras e implementaria o poder supremo simbólico na pessoa do Imperador. Para tanto, os japoneses usariam da mitologia nipônica e do xintoísmo para fornecer à sociedade japonesa a ideia de que seu chefe maior era descendente de deuses e que o futuro da nação, portanto, seria glorioso. Assim, anos de guerra civil chegaram ao fim. O Japão testemunhou uma coesão nacional sólida e um desenvolvimento econômico e social sem precedentes. Contudo, a sociedade antiga japonesa constituída de classes e que tinha o poder centrado no Xogum não foi eliminada, mas adaptada para os novos tempos. Seria o fim dos conflitos bélicos domésticos, mas o início da expansão imperial e da invasão a outros países. Foi o período que os nacionais do Japão creditavam-se a certeza de serem uma nação modelo a ser seguida pelos demais asiáticos que, na visão dos líderes japoneses da época, em especial os militares, eram considerados inferiores.

Quem apresenta estas informações é Mateus Nascimento. Ele é mestrando em história social pela Universidade Federal Fluminense (PPGH-UFF) e graduado em história pela mesma universidade. Colunista da Revista Intertelas, é também pesquisador efetivo do Centro de Estudos Asiáticos (CEA) da UFF, do Núcleo de Estudos Tempo Literário do Instituto Cultural Brasil-Japão, do MidiÁsia/UFF e do Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática Contemporânea. Ainda é membro da Red Iberoamericana de Investigadores en Anime y Manga (RIIAM) e da Academia Nipo-Brasileira de Estudos de Literatura Japonesa, tendo passado pelo Grupo de Estudos Japoneses (GEHJA) da UFF. Aqui ele responde algumas questões sobre este tema, ainda tão pouco conhecido do público em geral no Brasil, e fala da trajetória de sua pesquisa, indicando material de estudo para quem se interessa pelo assunto. Acompanhe abaixo!

Quando o imperador Mutsuhito trocou seu quimono por roupas ocidentais. Apesar destas adaptações, muito da Era do Xogunato permaneceria mesmo após a restauração. Crédito: Ozy Modern Media Company.

Por que, na sua visão, a Era Meiji é descrita por muitos outros especialistas ocidentais de forma equivocada? A exemplo, há a constante explicação de que a esquadra naval de Matthew C. Perry teria sido a causa principal das transformações profundas pelas quais passou o Japão na época.

Meiji aparece no imaginário das pessoas através de um conceito que sempre me causou certo desconforto: ocidentalização. Meiji é para muitas pessoas a ocidentalização do Japão. Eu não concordo com isso por dois motivos principais. O primeiro é que nenhuma sociedade ou cultura é uma ilha, homogênea e estanque. Essa é uma das críticas àquela noção de estrutura. Toda a pactuação da cultura, que envolve a vida das pessoas, é sempre uma negociação entre o macro e o micro. Todas as pessoas só se entendem no mundo através de grupos, nos quais as diferenciações acontecem. Cultura então é ao mesmo tempo essa teia de conceitos e de prática destes conceitos, o que supõe haver improvisações eventuais na vida em sociedade que subvertem um dado cultural. Gosto muito do Clifford Geertz para pensar sobre isso, principalmente quando ele fala que um piscar de olhos pode ter vários significados, que só serão descobertos no decorrer da observação acurada do pesquisador.

O segundo é o fato de uma potência americana ter agido violentamente, abrindo portos e bombardeando uma baia japonesa e ter promovido uma submissão do Japão. Isso não significou uma postura passiva dos próprios japoneses diante daquele mundo que estava sendo desenhado. Ao contrário! A chegada inicialmente abrupta dos EUA permitiu ao Japão repensar o seu papel nas relações internacionais do séc. XIX, o que proporcionou ocorrer um dos mais amplos projetos de modernização da época. Além do fator externo, o próprio governo do Xogunato Tokugawa estava em crise desde pelo menos 1840, pois a diminuição do número de guerras e batalhas deu origem a um sistema cortesão mais desenvolvido em termos culturais.

O último Xogum, Tokugawa Yoshinobu (1837-1913), de 1866 a 1867, o 15º e último líder do Xogunato de Tokugawa no Japão. Crédito: National Diet Library, Japan.

Por outro lado, as negociações intensas com potências europeias, por exemplo, como a Holanda, auxiliaram na queda desse edifício de paz e luxo. Comerciantes desde sempre vistos como aqueles que deveriam estar fora da ritualística de poder da época, passaram a financiar as elites em troca de influência simbólica e nisso consiste a crise do poder do Xogum. Não sem razão, grupos surgem criticando esta situação e pedindo a restauração do estado anterior das coisas, do sistema passado. Portanto, “nunca foi só o Perry e sua esquadra”, como explicam os livros didáticos. Eu prefiro pensar que a crise interna somou-se à intervenção ocidental. E a resposta japonesa a isso é original e digna de lugar no estudo da história. Aqui nasceu meu objeto de pesquisa!

E como foi a sua trajetória nesta pesquisa?

Eu defendo que não houve uma ocidentalização do Japão no séc. XIX. Obviamente, que para embasar teoricamente e historicamente esta afirmação precisava antes desenvolver toda uma compreensão com mais profundidade sobre a análise destes conceitos ocidentais. Na minha busca bibliográfica encontrei vários livros sobre Meiji que abordavam o período nessa perspectiva da ocidentalização. Existem muitos livros escritos pelo José Yamashiro que reforçam essa tendência, outros mais acadêmicos como o texto de Barbosa Lima SobrinhoJapão: o capital se faz em casa” (1990), que acompanham esta linha também.

O livro  de Barrington Moore Jr, “As origens sociais da ditadura e da democracia” (1983), que no famoso capítulo nove fala do “Fascismo Asiático” e aborda as mudanças que ocorreram nos tempos finais do Xogunato aos anos iniciais do período Meiji. Também encontrei livros menos conhecidos com uma perspectiva mais crítica, os quais fundamentaram um pouco mais a minha pesquisa. Refiro-me aqui ao livro de Renato Ortiz, “O próximo e o distante: Japão e modernidade-mundo” (2000), que se tornou um ponto de partida incontornável para os interessados em estudar Japão. Também há o texto clássico de Ruth Benedict, “O crisântemo e a espada” (2009), que mesmo com todos os seus problemas, é um bom início para qualquer estudo da área. Ambos falam de Meiji como se estivessem comentando os significados da época e isso me ajudou muito a pensar que deveria escolher algum elemento social deste período para pensar.

Nesse ínterim, encontrei outros textos e fui descobrindo que, na verdade, existem muitos autores renomados que já escreveram sobre o Japão. O que acontece é que seus textos não receberam a audiência adequada em meio a um conjunto de pesquisas pouco preocupadas com a Ásia. Lévi-Strauss por exemplo, dedicou um livro inteiro ao Japão. Enfim, existem outras obras para dizer com muita propriedade que a história do Japão não se resume aos momentos em que a nação aparece no mundo contemporâneo e nem a uma ocidentalização que não dá conta da riquíssima estratégia japonesa de comentar a tradição ocidental.

Cenas da vida laboral e de comerciantes japoneses na Era Meiji. Crédito: Resobox Exibition.

A ideia do Japão imperial visava uma coesão nacional e a criação de uma nova identidade nacional. Qual a importância do xintoísmo e da mitologia nipônica, presentes na constituição da época, para a formulação desta ideia de Japão no pós-Xogunato?

Mapeados os dados cronológicos, parti em busca fontes. Para minha surpresa, fui encontrando algumas que refletiam os interesses do próprio governo em tornar o Japão conhecido. Encontrei textos da promulgação do Estado Meiji, éditos (como o édito de educação) e a própria Constituição do Império do Japão, promulgada em 1889 e lançada para o mundo todo, no ano seguinte em versão traduzida e bilíngue. Uma grande maioria já se encontra disponível na internet e eu penso que ainda há muito a ser dito cientificamente sobre esses textos.

Neles vemos um ministro muito influente, chamado Ito Hirobumi, conduzir as pesquisas e o projeto político Meiji, ancorando-o sobre a figura Imperial. De todos os símbolos, o império aparece como o mais revisitado e repaginado. Aliás, o Imperador foi posto no trono com idade juvenil justamente para autorizar esse projeto dos ministros comandados por Hirobumi. Quando notei este fato, optei por pesquisar como esse governo reformulou e reposicionou politicamente a presença simbólica do império. Fui ao texto jurídico para entender quem era esse Imperador e quais os seus poderes legais e me deparei com uma sequência de comentários do próprio ministro sobre seus pensamentos! Estava aí a minha fonte: os comentários de Hirobumi e os textos jurídicos de Meiji.

Ito Hirobumi, primeiro-ministro do Japão de 1883 a 1885. Crédito: Enciclopedia Britannica.

Basicamente, Hirobumi começou traçando um lugar mítico que justificou o império e o seu discurso. “Desde os tempos antigos” ou “herança de nossos antepassados” são duas formulações que aparecem corriqueiramente nos textos. Afinal, os políticos precisam justificar o seu projeto de modo a ter comprometimento dos novos cidadãos japoneses. Muitos desses líderes foram membros de clãs opressores e exploradores durante o governo Tokugawa, mas precisavam tirar o foco deles, enquanto ocorresse a implantação do projeto. A saída mais prática seria revisitar os textos antigos e inventar a sua autoridade perante a nação. Assim, fez-se: os pensadores retomaram textos e ideias dos textos mais antigos do Japão, sobretudo, o relato das coisas antigas, do Kojiki (o livro mais antigo sobre a história do país, nos seus primórdios como nação. As canções incluídas no texto são em japonês arcaico). Esta publicação serviu de baliza para o que se estava dizendo sobre as origens do Japão e do poder imperial. O Kojiki possui uma versão em português que é fruto de um trabalho de mestrado.

Na sua pesquisa, você afirma que os pensadores chineses tiveram certa influência nesta reformulação do que viria a ser o Japão do século XX.

Nessa retomada, um pouco do pensamento chinês também reaparece sim, com a noção de ordem (tao) e mandato do céu, os quais justificam o poder e o lugar moral dos indivíduos na China. Havia só uma diferença em sua aplicação no Japão: não havia uma formulação de meritocracia como a chinesa (a questão dos concursos públicos de admissão). Os políticos Meiji repaginaram a hierarquia, sem a abolir completamente. Novos grupos sociais surgiram e outros antigos foram desfeitos ou desmembrados.

Os samurais, por exemplo, perderam o seu papel de autoridade punitiva local. O império precisa seguir um pouco das novidades ocidentais, sem perder a originalidade japonesa. Isso significou o estabelecimento de novos conceitos para a ordem pública: honne, verdadeiro pensamento; tatemae, pensamento que segue o que está posto para manter a ordem; uchi, ser de dentro, ser aceito, insider; e soto, em síntese, outsider. Este talvez seja o maior legado dessa formulação oitocentista, visto que ainda existem muitas situações em que esses conceitos aplicam-se em espaços japoneses ou nipo-brasileiros.

Esta visão de um Japão destinado pelos deuses a ser uma raça e um povo eleito e predestinado teria contribuído para a expansão imperial a outros países e desencadeado o período de colonização, além dos genocídios durante a Segunda Guerra Mundial?

Lendo os documentos e vendo o nascimento dessa ordem pública, parece-me lógico dizer que o Japão não foi ocidentalizado. Vale considerar que esse caminho de investigação aplica-se também a outros campos. A tecnologia por exemplo. Muitos autores entendem que o desenvolvimento econômico de finais do período Meiji tem semelhança com os casos ocidentais, mas, destacamos, os grupos financeiros, zaibatsu, que financiaram e foram influenciados pelo Estado mesmo depois de Meiji.

Muitos deles tiveram suporte econômico em suas ações de expansão comercial. O Japão começa a entrar em terras de seus vizinhos com isso, e se torna uma presença na região, defendendo a especificidade japonesa. O discurso étnico¸ conhecido como nihonjinron (textos que abordam questões de identidade nacional e cultural japonesa, e compartilham a crença geral do Japão como uma nação singular), que na verdade é um campo vasto de estudos e publicações em diversas áreas que se juntam sob esta lógica, orienta a formação dos primeiros ataques e a realização das guerras. Com a vitória sobre a Rússia, o Japão tornou-se reconhecido no cenário internacional.

E como a franquia Rurouni Kenshin, Samura X como é conhecido no ocidente, ajudou a trazer conhecimento e instigar interesse em um público geral não conhecedor destes fatos históricos?

O Japão Meiji, curiosamente, está presente no imaginário da juventude, por conta do grande número de expectadores do anime Samurai X. Ele alcança o público não somente no espaço do virtual, informal, mas também do televisivo. Os episódios da franquia foram exibidos em dois momentos: de inícios de 1999 até inícios de 2000 pelo programa TV Globinho (Rede Globo) e entre 2001 e 2002 pelo bloco de animes do canal Cartoon Network.

Nobuhiro Watsuki criador de Samurai X. Crédito: geekdama.

Como já foi dito, a era Imperial japonesa objetivou pôr fim ao período violento do Xogunato, regido por matadores, e promover a coesão do país. Contudo, a violência seria transportada para o exterior com a invasão e a agressão a outras nações. Muitas das estruturas do Xogunato permaneceram e não foram transformadas realmente para melhor. Todas estas questões são claramente exibidas no anime e no manga. Como esta questão é construída no personagem Kenshin? Seria ele a personificação fictícia de um Japão, ainda visto de forma negativa e desconfiada pelos vizinho, em busca redenção? 

Eu fico pensando que realmente existe uma curiosa semelhança entre os elementos narrativos da obra e os fatos deste período histórico, pois, ficamos sabendo que em função da sua habilidade, tornada famosa por setores relacionados ao governo militar, Kenshin, recebe o título de Retalhador no período do Bakumatsu. Com a vitória do projeto imperial, seus pensamentos o fazem iniciar uma peregrinação pelo novo Japão que nascia, tendo como objetivo o apagamento desse passado. Na história do anime, conhecemos Hitokiri no Battousai, foi assim que Kenshin Himura ficou conhecido no período imediatamente anterior as intensas transformações da modernização. Durante o período de desordem que antecede a renovação da figura imperial, nosso herói vivia de vender seus serviços de espadachim.

A figura do samurai como um asceta foi dando lugar a uma progressiva capitalização do caminho da espada, pois mais e mais senhores desejavam manter o seu poder local e alcançar postos junto ao poder nacional, momentos antes do colapso do sistema. O autor Nobuhiro pensou em demonstrar uma espécie de desumanização daqueles que são vistos como símbolo da cultura japonesa justamente quando passam a desejar o poder e a autopreservação.

Crédito: fonte desconhecida.

Não há datações tão específicas na obra, mas sabemos que o contexto de 1847-1867 é decisivo para a derrota do projeto tradicionalista e Himura e outros percebem o destino eminente da figura samurai, detentora do signo da violência desde meados do séc. XI. Eles ou abandonam o caminho da espada em prol do novo governo, sendo alguns de fato reaproveitados para fins de segurança pública, ou escolhem a errância e a peregrinação ensinadas pelo budismo, em busca de iluminação em um novo contexto. Após essa sua vida militarizada e desumanizada, o protagonista começa a peregrinar. Peregrina para tentar conviver com seus atos passados. Talvez, Nobuhiro, com todos os seus próprios problemas, tenha tentado mostrar o Japão em Kenshin.

MidiÁsia entrevista Hugo Katsuo, diretor de “O Perigo Amarelo nos Dias Atuais” e “Batchan”

Por Daniela Mazur

Em meio ao debate sobre a população amarela brasileira nesse momento em que o coronavírus está em voga, é necessário, mais do que nunca, abordar representações e ideias concretas sobre a pauta brasileiro-asiática aqui. Em entrevista concedida ao MidiÁsia, o graduando em Cinema&Audiovisual da UFF e diretor e criador dos documentários “O Perigo Amarelo nos Dias Atuais” (2018) e “Batchan” (2020), Hugo Katsuo fala sobre questões relacionadas ao universo de discriminação contra amarelos no Brasil, a concepção da ideia de “minoria modelo” e a construção do perigo amarelo como parte essencial para entendermos as conotações racistas sofridas por essa parcela de brasileiros, especialmente dentro do contexto atual em que há a tentativa de racializar o Covid-19 como um “vírus chinês”.

Hugo Katsuo, diretor de O Perigo Amarelo nos Dias Atuais e Batchan. Crédito: Mariana de Lima.

“O Perigo Amarelo nos Dias Atuais” e “Batchan” falam muito sobre a experiência do amarelo no Brasil, mas também apresentam nuances de diferentes perspectivas de brasilidade. Como essas duas obras dialogam? O que você acredita que elas apontam na nossa sociedade?

Hugo Katsuo: Ambos falam sobre a vivência amarela no Brasil, mas trilham caminhos bastante diferentes. Acredito ser mais fácil descrever as diferenças entre eles do que as semelhanças. Quando dirigi “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais”, eu estava pensando em um documentário que fosse quase como um guia didático sobre o que seria essa tal de “militância amarela” e, portanto, a linguagem dele foi feita somente a partir de entrevistas que abarcavam desde reflexões teóricas, acadêmicas, até o relato de experiências individuais. Em outras palavras, este filme foi feito para auxiliar a divulgação do movimento amarelo e servir de material para pesquisas, auxiliando pesquisadores dos estudos asiáticos e/ou asiático-brasileiros. “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais” foi idealizado como um documentário explicitamente militante.

Cartaz oficial de “O Perigo Amarelo nos dias atuais” (2018). Crédito: Ing Lee.

O “Batchan”, por outro lado, não teve essa pretensão. Eu pensei no filme, inicialmente, como uma forma de me aproximar da minha avó, que é a minha principal referência de ancestralidade, e, sobretudo, como forma de preservar a sua memória. É claro que acredito na preservação da memória como uma forma de militância, mas não foi no intuito de fazer um cinema com uma militância explícita que eu dirigi este curta-metragem. E isso influenciou muito a linguagem que eu utilizei nele. “Batchan” é um filme muito mais pessoal e fala não somente sobre o percurso da minha avó em relação à sua espiritualidade, mas também o meu percurso em busca de uma ancestralidade. Ambos os filmes, entretanto, buscam um pertencimento, ainda que partindo de percursos bem distintos.

Cartaz oficial de “Batchan”. Crédito: Mariana de Lima.

Mesmo sendo ainda graduando, você já produziu obras de destaque que estão circulando nos circuitos de debates raciais, especialmente dentro dos espaços asiáticos-brasileiros. Como foi a construção da sua maturidade profissional e de indivíduo para chegar a produção desses conteúdos?

HK: Comecei a estudar sobre questões amarelas um pouco antes de entrar para a graduação e já ingressei no curso de Cinema & Audiovisual com a pretensão de dirigir “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais”, mesmo que, na época, eu pensasse esse documentário de outra forma. Inicialmente, queria que o filme fosse sobre imigração japonesa e, depois de entrar em contato com o tema da representatividade, queria que fosse feito a partir de relatos de artistas amarelos no Brasil. Em 2017, entretanto, fui a São Paulo e participei de uma reunião entre os membros do Perigo Amarelo, do Asiáticos Pela Diversidade e da Plataforma Lótus. Conversamos sobre diversas questões, entre elas, sobre como havia um entendimento muito superficial do que essa militância propunha e reivindicava. Foi nesse momento que mudei radicalmente a proposta do documentário e ele se tornou um filme sobre a militância amarela no Brasil.

Trecho da entrevista de Felipe Higa no filme “O Perigo Amarelo nos dias atuais”.

Dirigi “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais” no começo de 2018, eu tinha 18 anos na época. Tenho 20 anos agora e estou para fazer 21 no final do mês. E muita coisa mudou. Atualmente, eu delimitaria outros recortes temáticos e talvez focasse menos em questões como representatividades, mas sem excluí-las. Amadureci muito ao mesmo tempo em que a própria militância amarela também amadureceu. No final de 2018, quando exibi pela primeira vez o filme, ele já estava, de certa forma, datado. Em termos de amadurecimento profissional, acho que estou no processo de encontrar minha própria linguagem cinematográfica e acredito que “Batchan” foi um filme que me proporcionou muito aprendizado nesse sentido. Com uma equipe muito reduzida e querida, tive a oportunidade de brincar esteticamente com o documentário, apesar de já achar que eu poderia ter arriscado mais.

Dentro da perspectiva de raça, como foi a sua trajetória de compreensão pessoal como brasileiro amarelo? Como o racismo se apresentou para você nesse processo?

HK: Lembro até hoje que estava conversando com a minha avó materna, que não é nipo-brasileira, sobre o meu avô (nipo-brasileiro) que faleceu antes de eu nascer. Ela comentou comigo sobre algumas perseguições que ele sofreu durante a infância e adolescência. Não entendi muito bem quando ela disse que o Estado confiscou os bens da família do meu avô e, por isso, comecei a estudar sobre imigração japonesa. Descobri, então, sobre as perseguições que esses imigrantes e filhos de imigrantes passaram e sobre o debate em torno da entrada ou não dos asiáticos amarelos no país. Mas, até então, eu ainda não tinha adentrado na dimensão racial e acreditava que, por eu não ser negro, eu era branco.

Frame de “Batchan” (2020), documentário de Hugo Katsuo.

Em uma aula de História, no ensino médio, estávamos estudando as políticas imigratórias no governo Vargas e o professor comentou que elas eram contra a entrada de imigrantes “não-brancos” no país. Lembro de ter levantado a mão e falado: “e contra a dos japoneses também”. O professor, então, respondeu: “todos os não-brancos”. Foi ali que comecei a pesquisar sobre racismo contra amarelos no Brasil e achei pouquíssimo material. Posteriormente, conheci, através do Hugo Noguchi, a página do Perigo Amarelo e descobri que tinham outras pessoas pautando essas questões também. Acho que vale ressaltar que, por mais que eu achasse que era branco, eu já tinha consciência de que eu era diferente e que não me tratavam da mesma forma que os meus amigos que eram, de fato, brancos. As piadas e os estereótipos raciais sempre me incomodaram, mas até então eu não sabia dar nome a esse incômodo. Lembro que durante a minha infância e adolescência essas piadas racistas vinham não só de outros alunos como também de alguns professores. Entender os processos pelos quais passei e ainda passo foi muito importante para aprender a me impor em situações como essas.

O fato de ser asiático-brasileiro tá inscrito nos seus trabalhos, como você define hoje a presença dos corpos amarelos na mídia brasileira? Como a representação é importante para essa parcela da sociedade?

HK: Acredito que há escassez de representações amarelas no audiovisual brasileiro. Admito que tenho, atualmente, um pouco de preguiça dos debates em torno de representatividade porque acho que eles tomam um viés muito superficial e, por vezes, flertando com o neoliberalismo. Não acho que a representatividade por si só mude as coisas. Mas acho que pensar em novas práticas representacionais é extremamente importante no processo de humanizar corpos racializados. Precisamos urgentemente criar novos repertórios imagéticos, novas narrativas, que tirem grupos não-hegemônicos do lugar que foi imposto a eles. Acredito que trazer à tona novas representações, mais humanas e menos estereotipadas, potencializa mudanças. Temos, entretanto, que tomar cuidado em achar que a mudança termina aí. Meu trabalho parte muito de tentar afastar essas narrativas racializadas de contextos brancos, despir elas de estereótipos, criar espaços de pertencimento e preservar memórias.

Captura de “Batchan” (2020) com foco em Luiza Okabayashi, avó de Hugo.

O que é ser amarelo no Brasil nos dias de hoje? Quais elementos da sua realidade como homem racializado mudaram ou se mantiveram nos últimos anos no nosso país?

HK: A minha perspectiva em relação às mudanças que ocorreram nos últimos anos em relação a ser um homem amarelo no Brasil está muito relacionada às minhas pesquisas acadêmicas nas quais estou procurando investigar de que forma a entrada do soft-power sul-coreano mudou a percepção, em relação às dinâmicas de desejo e desejabilidade, sobre nossos corpos. Até pouco tempo atrás, eu era visto como indesejável e, de uma hora para outra, comecei a perceber pessoas me fetichizando racialmente. Não sei ainda se os estereótipos em torno do corpo do homem amarelo mudaram, mas, se não mudaram, com certeza o olhar sobre eles mudou. Inicialmente, isso parece inofensivo ou, até mesmo, uma mudança positiva. Mas, se entendermos o fetiche racial como um desejo baseado na objetificação da raça, ele causa danos aos corpos que são fetichizados porque desumaniza eles.

Existe certa invisibilidade da presença amarela no Brasil? Pela sua perspectiva, como os debates sobre raça, racismo e xenofobia estão se apresentando hoje dentro da comunidade asiática-brasileira e na mídia?

HK: Até pouco tempo atrás, acredito que existia uma grande invisibilidade dessa parcela da população brasileira. Atualmente, por mais que o debate ainda esteja muito centralizado em São Paulo e em certas bolhas da internet, percebo que a temática da discriminação contra amarelos cresceu bastante. Isso diz muito, a meu ver, sobre privilégios de classe também. O movimento asiático-brasileiro se configura, até onde eu sei, em 2015, com a criação da página do Perigo Amarelo. Em cinco anos já conseguimos trazer esse debate para muitos espaços midiáticos. Isso se dá, sobretudo, porque foi permitido que nós ocupássemos esses espaços, graças à nossa rápida ascensão social e econômica – que é um privilégio da minoria modelo.

Ilustração de Ing Lee para o filme “O Perigo Amarelo nos dias atuais”.

O asiático-brasileiro considerado como “minoria modelo” é percebido também como perigo amarelo ou isso muda dentro da perspectiva do contexto político-social? Quais são as peças que ditam esse jogo?

HK: Podemos ser percebidos como a minoria modelo, mas, às vezes, somos lidos como o Perigo Amarelo. Isso está muito em evidência nos últimos dias, com a racialização do coronavírus enquanto um “vírus chinês”. Mas antes disso já podíamos perceber um pouco dessa dinâmica. Por mais que sejamos vistos como uma minoria inteligente, esforçada e trabalhadora, também somos vistos como perigosa. Por exemplo, justamente pelo estereótipo da minoria modelo somos entendidos como uma ameaça em relação a “roubar” empregos ou vagas nas universidades. Se vamos ser lidos como o perigo amarelo ou como a minoria modelo, depende muito do contexto em que estamos inseridos e isso vai ditar as violências que vamos sofrer. Mariana Akemi, no documentário “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais”, comenta que ela é tratada de uma forma quando está na faculdade e de outra completamente diferente quando está na barraca de pastel dos pais. Acredito que haja aí também uma dimensão de classe.

Trecho da entrevista de Mariana Akemi no filme “O Perigo Amarelo nos dias atuais”.

É óbvio, por exemplo, que, na maior parte do tempo, serei tratado como a minoria modelo por ser um nipo-brasileiro de classe média alta inserido num contexto artístico e acadêmico. Em contrapartida, um imigrante chinês que trabalha numa lanchonete vai ser tratado como o perigo amarelo e sofrer muito mais agressões do que eu. É importante, portanto, que a gente comece a olhar cada vez menos para o próprio umbigo e começarmos a construir, de fato, pontes de solidariedade antirracista. Isso, entretanto, só vai acontecer se nos dispusermos a perder alguns privilégios que nos foram concedidos. Só vai acontecer se abandonarmos a minoria modelo e assumirmos o papel de perigo amarelo.

Quais são os seus planos para próximos trabalhos? Quais perspectivas da presença amarela no Brasil você ainda tem interesse de abordar e colocar em voga nos debates de raça no país?

HK: Estou com dois projetos audiovisuais para serem feitos. O primeiro é uma ficção LGBTQ, que será protagonizada por Nícolas Tadashi e Ciana Lopes. Nele, não entro muito nas dimensões raciais, penso mais a partir de questões de sexualidade e gênero. A minha ideia é mostrar esses corpos LGBTQ+ a partir da dor de um término, deixando a dor das violências cotidianas causadas pela LGBTQfobia em segundo plano. Os dois personagens que acabaram de terminar seus respectivos namoros começam um extenso diálogo sobre a experiência amorosa, a morte e a linguagem. A morte tem um viés mais simbólico, mas ganha também, por vezes, uma dimensão literal a partir do momento em que dialogam também com a morte das vítimas de LGBTQfobia. Mesmo este não sendo o foco do roteiro, resolvi não ignorar essa realidade. O meu outro projeto, que acredito que vá demorar mais tempo para ser feito por motivos financeiros, também é LGBTQ, mas é um documentário experimental, muito influenciado pelo filme “NEGRUM3”, de Diego Paulino, que vai trazer à tona o debate sobre LGBTQs amarelos no Brasil. Já no âmbito acadêmico, pretendo continuar minha pesquisa sobre pornografia e relações raciais no mestrado.

Para encerrar, quais canais, páginas, coletivos você recomenda para aqueles que se interessam em aprofundar seu entendimento sobre questões amarelas no Brasil?

HK: Recomendo muito o blog OutraColuna no qual são postados vários textos produzidos pela militância asiático-brasileira. No youtube, não tenho como não citar o canal do Leo Hwan. Para além disso, recomendo a leitura de pesquisadoras como Lais Miwa Higa e Marcia Yumi Takeuchi. 

Vídeo do canal Leo Hwan. Crédito: Leo Hwan.

Revista Intertelas entrevista Mayara Araujo, pesquisadora do MidiÁsia

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas)

Nesta entrevista concedida à Revista Intertelas, nossa pesquisadora Mayara Araujo, também doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (PPGCOM-UFF) e Mestre em Comunicação e Cultura pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro analisa a produção audiovisual japonesa e, em específico, o impacto e os problemas atuais dos chamados doramas para a promoção do país no exterior e no Brasil.

Como a cultura japonesa entrou na sua vida e o que ela transformou?

Eu tive meu primeiro contato com a cultura japonesa a partir de Pokémon, quando foi transmitido na TV em 1999. Desde então, passei a me interessar por outros animês e, eventualmente, esse meu interesse de infância foi se transformando e amadurecendo: acabei procurando um curso de japonês, culinária, turismo e, por fim, utilizar essa afinidade como objeto de estudo no mestrado. A meu ver, ter a possibilidade de pesquisar elementos da cultura japonesa academicamente foi a maior transformação que essa preferência me proporcionou, visto que eu consegui fazer disso um trabalho.

O dorama “Long vacation”. Crédito: https://dramaswithasideofkimchi.com

Como você avalia o mercado de doramas dentro e fora do Japão?

Fora do Japão e da Ásia, o mercado é praticamente inexistente. A maior forma de consumo é através da comunidade de fãs da cultura pop japonesa que legendam e distribuem esse conteúdo por conta própria. Há algumas iniciativas de parcerias entre as redes televisivas japonesas e plataformas de streaming, como é o caso da TV Fuji com a Netflix. Além de licenciar animês, agora também é possível assistir dramas de TV japoneses pela plataforma. Mas o mais interessante, a meu ver, são os doramas co-produzidos pelas duas companhias, que gerou conteúdo de sucesso como “Good Morning Call” e “Erased”. Talvez um dos motivos de certo “apagamento” dos doramas frente aos K-dramas (dramas de TV sul-coreanos) seja uma possível necessidade japonesa em dialogar somente entre seus pares.

Enquanto a estratégia da Coreia do Sul em relação a sua indústria midiática consistiu em buscar elementos em comum entre os países de seu entorno regional ou com o ocidente, o Japão insiste em produzir conteúdo visando especificamente o mercado doméstico. O próprio Ota Toru, produtor da Fuji TV e um dos criadores dos “trendy dramas” (o formato que consumimos atualmente e que foi emulado pela Coreia do Sul, por exemplo) chegou a afirmar que a estratégia consistia em atingir o mercado interno.

O dorama “Good Morning Call”. Crédito: Amino Apps.

Qual o impacto dos doramas japoneses no Brasil, levando em conta que é o país com maior comunidade de japoneses fora do Japão?

Eu diria que bastante incipiente. Apesar de termos a maior colônia japonesa do mundo, a circulação dos doramas no Brasil acabou sendo ofuscada pelos animês e tokusatsus (filmes ou séries live-action que fazem um uso forte de efeitos especiais) que vêm preenchendo horários de nossas grades televisivas desde a década de 1970, mais ou menos. Inicialmente, os doramas acabaram ficando restritos ao circuito dos fãs dos animês, que acabavam se interessando por outros conteúdos japoneses e legendavam e distribuíam na Internet.

No início dos anos 2000 também havia o comércio pirata de doramas em alguns bairros em São Paulo (onde se concentra uma grande quantidade de descendentes de japoneses), mas, de forma geral, o circuito ficou vinculado às plataformas digitais. No Brasil, tivemos pouquíssimas oportunidades nas quais os doramas foram exibidos em nossas redes de televisão, sendo que o mais recente foi o dorama “Dear Sister”, que foi transmitido em 2017 na TV local E-Paraná. Sem dúvida, não houve esforços para popularizar o formato.

O dorama “Dear Sisters”. Crédito: Animo Apps.

Acredita que os doramas promovem ou instigam debates e transformações sociais?

Sem dúvida. Muitos dos dramas japoneses que circulam dialogam com questões delicadas, como xenofobia no Japão, a questão do trabalho x maternidade e excesso de horas extras trabalhadas. É claro que precisaria de mais pesquisas e aprofundamento nesse ponto para afirmar que essas temáticas acarretam em transformações sociais, mas me parece evidente que certos questionamentos são lançados.

O dorama “Erased”. Crédito: Netflix.

Acha que os doramas são uma ferramenta que o Japão usa para promover a cultura e a economia do país no exterior?

Quando a gente pensa na realidade brasileira ou latino-americana é perceptível o quanto sabemos poucos sobre esse formato televisivo. As estratégias de difusão de cultura e desenvolvimento do soft power japonês são completamente ancoradas nas animações e em elementos mais tradicionais de sua cultura. Há autores que afirmam que a entrada de animês em países do leste e sudeste asiático é menos problemática, pois são “inodoros”, ou seja, não são etnicamente japoneses. Como o Japão tem um passado conturbado por conta de seu imperialismo, muitos países da região restringiram a entrada de conteúdo japonês por muitos anos. No entanto, desde a década de 1990, os trendy dramas obtiveram sucesso em alguns países e se tornaram referenciais de modernidade e estilo de vida para a juventude asiática. Eu diria, então, que não são os protagonistas, mas cumprem um papel.

O que acha que precisaria melhorar neste ramo?

A experiência sul-coreana em relação a difusão dos K-dramas globalmente é digna de nota. Até pouco tempo atrás, aqui no Brasil, nós mal ouvíamos falar da Coreia do Sul e hoje ela parece perpetuar no imaginário da camada jovem da sociedade. Alguns falam de hibridização do conteúdo, ou seja, tornar os K-dramas palatáveis para qualquer audiência. Talvez tenha sido um modelo de sucesso. Os doramas acabam sendo muito centrados na lógica japonesa, na realidade japonesa e em uma suposta forma de “ser japonês”. Me parece uma espécie de criação (involuntária) de soft power a partir da exclusão, de vender a ideia do exótico, do diferente e do “venha me decifrar” para atrair o público. Não sei até que ponto isso funciona.

E o Brasil como poderia refletir a presença dos doramas em seu mercado para seus objetivos de propagação da cultura brasileira e cooperação com o Japão?

O formato dos dramas de TV tem características que lembram as telenovelas brasileiras como, por exemplo, a presença do melodrama. De certa forma, são linguagens que dialogam. Em 2005, a Rede Bandeirantes e a NHK coproduziram “Haru e Natsu”: as cartas que não chegaram, uma minissérie que conta a história da imigração japonesa para o Brasil. Ela foi transmitida em 2008 no Brasil, no ano em que se comemorou o centenário da imigração japonesa, mas não houve grande visibilidade para essa coprodução.

Ainda assim, partindo do princípio de que caminhos alternativos à maciça presença estadunidense/ocidental  vivem um momento de plena efervescência, as redes de televisão brasileiras poderiam dar mais atenção a conteúdos fora desse eixo para pensar as próprias produções televisivas e incentivar à busca por novos conteúdos. Os brasileiros são poucos representados nos doramas e são uma grande comunidade de estrangeiros no Japão. O mesmo ocorre com os japoneses e seus descendentes no Brasil.

O dorama “Haru e Natsu”. Créditos: YouTube.

É possível modificar está situação? Se sim, o que é preciso para modificar e como fazer?

De forma geral, os doramas não costumam apresentar muitos personagens estrangeiros. De fato, eu nunca assisti um dorama com um personagem brasileiro, apesar de já ter visto menções a brasileiros famosos. Em “Long Vacation”, por exemplo, o protagonista chama-se “Sena” e há diálogos em que ele é chamado de “Ayrton”. No caso das telenovelas brasileiras, há um enorme apagamento em relação aos japoneses e, quando são representados costumam ser interpretados por brasileiros sem parentesco com japoneses. Há iniciativas para promover a presença de artistas asiáticos na TV brasileira, como o coletivo Oriente-se, que pode ser uma ponte para diminuir esse apagamento. No caso japonês, desconheço iniciativas.