Byung-Chul Han é um dos dos mais renomados críticos do capitalismo sentimental e um dos mais importantes intérpretes da sociedade contemporânea. A partir de uma acurada reflexão, que mistura diversos conceitos de campos diferentes do saber, tais como filosofia, ciência política, estudos de mídia e história, Han se identifica como um desconstrutor, que desmonta peças e engrenagens, vendo-as uma a uma com atenção. 

Fonte da imagem: El país

Desse exercício nasceram diversas obras (no Brasil, algumas traduzidas pela editora Vozes), das quais destacamos o livro Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder, publicado pela editora Âyiné, em 2018. São 109 páginas eletrizantes, provocativas e que causam inquietação em quem as lê. (Aumente a força desses adjetivos se você estiver lendo o livro enquanto volta do trabalho, por exemplo). 

O livro se utiliza da técnica do ensaio, consagrada nos escritos do autor. De fato, a escolha é acertada. O ensaio tradicional não cansa quem o lê e quem gosta da polêmica. No caso do livro citado, a polêmica já se mostra desde cedo, pois os capítulos, em ordem, visam a apresentar a “Crise da liberdade” e as novas formas usadas pelo “Poder inteligente”; a dividir todos nós em “A toupeira e a serpente”; a chamar-nos a compreender a “Biopolítica” e a questionar se existe “O dilema de Foucault?”; a falar-nos sobre como morrer em tempos tão virtuais, dizendo haver “A cura como assassinato”; a trazer a crise do indivíduo contemporâneo que, por meio de um “Choque”, passa por uma cegueira que lhe faz reconhecer “O amável grande irmão” e “O capitalismo da emoção”, envolto em “Gamificação” da vida e em “Big Data” – causas do “Idiotismo”, lançando o sujeito “Para além do sujeito”.  

Tendo na bagagem um doutorado sobre a obra do filósofo alemão Martin Heidegger, Han escreve sobre muitos temas: Psicopolítica, Amor, Cansaço (Exploração), zen-budismo e inúmeros outros, por meio dos quais propõe uma série de, digamos, atitudes saudáveis para uma vida mais consciente e crítica em relação ao capitalismo.

Livro Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Foto de Mateus Nascimento.

Do alto de uma cátedra de Estudos Culturais em Universität der Künste (na Alemanha que o acolheu, após estudos realizados na famosa Universidade de Seul), aos 63 anos, Han empenha-se em desconstruir, sobretudo, a beleza da meritocracia defendida por muitos atualmente, e joga ao chão esse elogio do sucesso e da meritocracia que tem se avolumado, principalmente, no campo extremo liberal, com a ascensão da prática coach

A pertinência de sua reflexão mistura-se com um estilo deveras autoral de falar acidamente sobre as questões humanas atuais. A partir de comparações e exemplificações materiais conhecidas do leitor, ele visa a despertar-nos sobre o que está ocorrendo “atrás da cortina” da atualidade, qual seja uma intensa reconfiguração das forças opressivas do neoliberalismo, que desenvolveu uma perversa ferramenta de dominação no mundo: o capitalismo sentimental. 

O que é o capitalismo sentimental? Como ele opera dominações? Han define:

“a psicopolítica neoliberal se ocupa da emoção para influenciar ações sobre o nível pré-reflexivo. Através da emoção, as pessoas são profundamente atingidas. Assim, ela representa um meio muito eficiente de controle psicopolítico do indivíduo.”

(extraído do livro Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder, pág. 68). 

Embora o trecho seja auto explicativo, seria interessante enfatizar o dado apresentado pelo autor: estamos sujeitos a um novo conceito de dominação que opera com a imaterialidade das relações de consumo. Em primeiro lugar, não consumimos somente pela necessidade. Antes, consumimos o que necessitamos do ponto de vista material, mas esse não é o único sentido das relações de consumo. 

Consumimos, também, aquilo que gostamos – e esse “gostar” está na mira dos projetos dos ideólogos do capitalismo sentimental. Note que, nesse questionamento, Han parece dialogar com antropólogos culturais que já apontavam como a globalização nos afeta nesse campo ao propiciar uma nova disponibilidade de produtos culturais, reavaliados e atravessados por ações estratégicas do Mercado. É como se sentimentos vinculados aos produtos culturais fossem a substância essencial das dinâmicas de valor, compra e poder na atualidade. Metaforicamente, a vida privada se despedaçou no view da rotina, de modo que estamos des-interiorizados e des-territorializados nesse campo virtual, onde somos alvos de uma estratégia perversa de convencimento que visa pautar na psique o que precisamos ter e empreender para alcançar o sucesso e a notoriedade.

Byung-Chul Han, face ao mundo. Crédito da imagem: Geledés.

Convém lembrar que Byung-Chul Han não fala sozinho sobre isso, apesar do sucesso que lhe ronda. Existem pesquisas anteriores à sua: as teses marxistas tradicionais e seus adeptos mais conhecidos (Gramsci, Althusser, E. Thompson, Raymond Williams, etc.); as percepções inovadoras de Marshall McLuhan, que soma a isto o problema da utilização das mídias novas (oriundas da globalização); e o recente empenho brasileiro de Mayka Castellano em seu livro Vencedores e fracassados: o imperativo do sucesso na cultura da autoajuda (2018)

Enfim, poderíamos somar muitas outras vozes à questão dos impactos psicológicos do capitalismo sentimental e seus instrumentos de dominação. No entanto, Han tem certo destaque muito em função da forma utilizada para empreender a problematização e a elegância de sua escrita. Essas duas características impactam e dão um bom fundamento à sua proposta pedagógica: seus livros “falam” com leitores à medida que apontam os problemas por eles vividos – a uberização, por exemplo, que coloca sobre os ombros do trabalhador médio responsabilidades sem quase nenhum ou, muitas vezes, nenhum amparo legal. Dessa forma, seus livros fisgam os trabalhadores por mostrarem aquilo que eles vivem. Se essas leituras puderem fomentar a crítica da psicopolítica neoliberal, seguiremos adiante e seremos melhores.  

Ficha Técnica:

Título: Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder

Autor: Byung-CHul Han (Tradutor: Maurício Liesen)

Editora Âyiné, 2018.


Mateus Nascimento

Historiador, doutorando em História pela UFF, com mestrado e graduação na mesma área, todos no âmbito no Instituto de História (IHT) da Universidade Federal Fluminense. É pesquisador do MidiÁsia (Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática Contemporânea) e do CEA (Centro de Estudos Asiáticos), ambos na UFF, além de pesquisador associado do Instituto Cultural Brasil-Japão e colunista na Revista Intertelas. Ao longo de sua formação, tem se dedicado a estudar as histórias e culturas da Ásia, com interesse especial na cultura japonesa, na cultura nipo-brasileira, e nos fluxos culturais contemporâneos entre Ásia e Brasil.

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