“A negociação”: a empatia transformadora e combatente entre um criminoso e uma policial

Por Alessandra Scangarelli (Via Intertelas e KoreaPost)

Toda sociedade tem um número de “crenças” e regras que mesmo não sendo reais no mundo concreto, continuam por serem perpetuadas na busca de manter a fé das pessoas na humanidade. A ideia de que uma pessoa somente, uma espécie de herói, ou heroína, com um poder descomunal é capaz de reverter todo mal aquece e tranquiliza o coração de muitos.

Mais profundo ainda é quando se acredita que um ser abstrato vá um dia surgir, ou ressurgir, fazer a limpeza e o dever de casa que os humanos imperfeitos assim não conseguiram, tornando o mundo e a vida justos finalmente. São as crenças e as ilusões necessárias para que, no geral, a grande maioria continue na linha e reproduza o as regras do sistema criado pelos homens, como deve ser, sem transformá-lo, sem revolucioná-lo para algo melhor.

Um sistema que tem uma estrutura bastante complexa e que apenas existe se tanto o lado “bom”, quanto o lado “ruim” coexistirem. Como o mercado ilegal e o legal que, na realidade, dependem um do outro para seguirem com suas funções. Afinal, para que seriam necessários policiais se não existissem bandidos? Para que seriam necessários exércitos se as guerras não ocorressem? E para que produzir armas se todos respeitam a vida acima de tudo? Ao ter claro que este contexto existe, sendo realista e não pessimista, encontrando soluções concretas e não fantasiosas, é possível ter em conta que as mudanças podem ser realizadas através da atitude pouco convencional e muitas vezes corajosa dos indivíduos em conjunto.

Crédito: Pinteres/Korean Drama 24/7

Isso quando estes conseguem livrar-se da “máquina” que os conduz diariamente, deixando de serem meros sobreviventes egoístas, ou parte da engrenagem sistêmica exploradora para pensar em todos e lutar por todos, ou por alguém em específico do qual acabem criando empatia, ou um certo amor humano fraternal, que os faça querer justiça e cuidar do próximo, ainda que este lhe seja um estranho, ou digamos seja inclusive uma pessoa que não tenha feito as escolhas mais certas na vida.

“A Negociação” (The Negotiation) (2018), dirigida por Jong Suk Lee traz esta mensagem em um enredo que combina de forma bastante natural entretenimento e os males mais proeminentes na sociedade sul-coreana atual. Assim, a história gira em torno de uma negociadora chamada Ha Chae Yoon (Son Ye Jin) que faz parte da equipe de negociação de crises da Agência Metropolitana de Polícia de Seul e um traficante de armas Min Tae Gu (Hyun-Bin) que sequestrou dois coreanos em Bangkok . Ha Chae Yoon é a típica servidora pública que ao trabalhar em algo tão único faz com que dificilmente possa ter uma vida cotidiana muito turbulenta, com pouco tempo usufruir dela. Seguindo uma lógica bastante comum de ocorrer nestes casos era de se esperar que ela não fosse uma pessoa muito emotiva, que tivesse uma atitude mais endurecida sentimentalmente e que encarasse a violência como algo normal.

Contudo, a personagem foge deste clichê e supreendentemente apresenta uma personalidade bastante humana, sofrendo com as vítimas, com a perda ocasional de vidas. E mais interessante é que o traficante e sequestrador Min Tae-Gu acaba seguindo esta mesma linha.

Crédito: IMDB

À primeira vista parece um criminoso frio e calculista. Contudo, ao longo da narrativa, quando se vai descobrindo as razões que o levaram a sequestrar e fazer reféns,  percebe-se que a raiz do seu problema tem como pano de fundo uma história de teor pessoal bastante emocional. E, acima de tudo, suas intenções visam, principalmente, enfrentar um sistema extremamente corrupto, comandado por uma casta de autoridades e uma elite empresarial de grande poder, envolvidas com tráfico de armas internacional. Este mercado que tanto legal, quanto ilegal é um dos mais lucrativos do mundo.

Segundo o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), uma organização que realiza pesquisas científicas em questões sobre conflitos, localizada na Suécia, o valor total do comércio de armas em 2017 gerou algo em torno de 95 bilhões de dólares e as 100 maiores empresas do campo lucraram em torno de 398.2 bilhões de dólares apenas no ano referido. Os principais países que vendem armas são exatamente nesta ordem: Estados Unidos, Rússia, França, Alemanha e China. Os alemães têm como seu principal comprador a Coreia do Sul, totalizando 19% de suas vendas. A Coreia que tem suas próprias empresas de armas e que participa deste mercado tanto legalmente, quanto ilegalmente.

“A Negociação”, infelizmente, não trabalha em sua narrativa, os bastidores deste mundo com maior profundidade, servindo este mais como um pano de fundo e para promover uma das causas que desencadeia todos os acontecimentos da trama. Contudo, esta falta não diminui a importância, nem torna esta produção cinematográfica menos atraente, pois ela acaba focando na questão humana que se almeja debater.

Crédito: IMDB

Somado a isso, as intepretações de grandes atores, em conjunto com um roteiro que explora bem as situações de tensão deixam o espectador bastante focado e esperando pelo desfecho que este drama terá. O mais interessante talvez a se apontar é que será através de Min Tae Gu que a negociadora Ha Chae Yoon vai deixar sua posição passiva para tomar uma atitude e tonar-se uma policial real. Isso porque ele enxerga nela a capacidade humana mais evoluída para tanto, como salientando acima: o de ter empatia pelo próximo, seja ele (a) quem for.

Desta forma, “A Negociação”, além de nos fazer atentar para a estrutura do sistema e suas relações dúbias e bastante esquizofrênicas entre o mundo legal e o mundo ilegal, destaca algumas temáticas importantes: criminosos também amam e podem ter causas bastante justas para defender, apesar de suas escolhas; um bandido pode ser mais humano do que aqueles que vivem aparentemente uma vida de conduta social impecável, mas que, por baixo do tapete, são os reais monstros desprovidos de qualquer humanidade; um indivíduo comum como uma servidora pública e seus colegas estão mais inclinados a poder realizar as transformações necessárias e enfrentar o sistema do que os chamados líderes, pessoas de destaque ou seus superiores já viciados, conduzidos e engolidos pela “máquina sistêmica”. Assista “A Negociação” na Netflix.

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul  | Direção: Jong Suk Lee | Roteirista: Sung Hyun Choi, Park Myeong Chan (comic) | Elenco: Ye Jin Son, Hyun Bin, Sang Ho Kim | Duração: 112 min | Ano: 2018

Entrevista com Iara Lee (Coreanos Pelo Mundo): “A vida resume-se em saber transformar algo negativo em positivo”

Por Alessandra Scangarelli (via Korea Post e Intertelas)

A cineasta Iara Lee. Crédito: Cultures of Resistance.

O trabalho de promover solidariedade entre as pessoas é árduo e requer muita energia, persistência e disposição. Mas isso é tudo que Iara Lee, cineasta brasileira de origem coreana, nascida em 1966 e hoje radicada em Nova Iorque, tem de sobra. Ela percorreu uma longa jornada como produtora de cinema e festivais da área. Hoje é diretora e ativista. Seu trabalho visa a cobertura de notícias e debate sobre questões de extrema importância para a sociedade mundial. O cinema para ela é uma ferramenta capaz de impactar e realizar mudanças no público que o consome, ainda que seja de forma bastante seletiva e vagarosa.

No seu objetivo de incitar provocações que façam o espectador refletir e ser mais proativo no seu dia-a-dia em realizar mudanças que visem melhoras a todos, ela, em conjunto com outros colegas, deu início ao projeto “Culturas da Resistência”. Uma série de trabalhos audiovisuais documentais que almejam propagar informação, conhecimento e acima de tudo ativismo. De 1984 e 1989, ela foi produtora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Crédito: Danilo Arenas/Cultures of Resistance.

Em 1989 mudou-se para Nova York, onde fundou a empresa multimídia Caipirinha Productions, no intuito de explorar múltiplas formas de expressão artística e cultural. Os temas de suas obras englobam diversas temáticas, entre elas: a influência da alta tecnologia sobre a cultura de massa “Synthetic Pleasures” (1995) e a música eletrônica “Modulations” (1998). O projeto mais recente da realizadora é uma série de dois documentários sobre Burkina Faso. Em “Burkinabé Rising: A Arte da Resistência em Burkina Faso”, a diretora expõe o dia-a-dia de uma comunidade de artistas e cidadãos engajados, que estão a incitar mudanças políticas importantes neste país de pequeno território, localizado na África Ocidental.

Lee é também militante pela paz e realizou diversas iniciativas neste sentido como a Campanha Internacional pela Eliminação de Bombas de Fragmentação e o primeiro concerto da Filarmônica de Nova Iorque na Coreia do Norte, em 2008. Ainda na sua biografia estão experiências únicas, a exemplo de testemunhar o bombardeio israelense contra o Líbano, em 2006. Desde então ela vem apoiando e colaborando com projetos que visam a disseminação de uma cultura de paz e colaboração entre as pessoas como a campanha “Faça filmes, não guerra”.

Gravando um de seus tantos trabalhos na África sobre a cultura de resistência dos povos locais. Crédito: O Tempo.

Em 2010, ela participou da “Flotilha da Liberdade”, organizada pelo movimento Free Gaza, que tinha o objetivo de enviar uma de carga 10.000 toneladas de ajuda humanitária à Faixa de Gaza e protestar contra o bloqueio imposto por israelenses e egípcios na época. A flotilha foi atacada pelas forças israelenses. Lee foi primeiramente dada como desaparecida, até ser encontrada pelas autoridades de Israel. Em entrevista ao Koreapost, ela conta um pouco de sua trajetória no cinema e compartilha um pouca da sua visão sobre questões importantes da agenda Internacional.

Como foi o início desta trajetória?

Passei nove anos trabalhando na Mostra Internacional de São Paulo. Preferi ter esta experiência, do que ficar na faculdade de cinema da Universidade de São Paulo. Na época, achei que o curso tinha muita teoria e pouca prática. Na Mostra consegui aplicar parte das teorias que tinha aprendido. Fazia todo o trabalho que ninguém queria fazer. Tomei conhecimento de tudo que era necessário saber para melhor compreender como funciona um festival, o que é preciso para que ele ocorra. Trabalhava pela manhã, tarde e noite. Atualmente a minha vida não é muito diferente. Muitas vezes eu estou participando dos festivais e realizando trabalhos puramente burocráticos e chatos, distribuindo flyers, preparando kits de imprensa, estas coisas. Às vezes, as pessoas confundem e acham que sou a assistente e não a diretora do filme.

Crédito: João Meirinhos/Cultures of Resistance.

Após adquirir bastante conhecimento sobre os bastidores e o mercado de cinema resolvi dirigir. Então, falei com os meus pais e fui para Nova Iorque. Estudei na Universidade de Nova Iorque, mas também não gostei. Todo mundo lá queria ser um Martin Scorsese, queria fazer parte deste mundo comercial de Hollywood. Então, resolvi focar e terminar o curso, antes do período determinado pelo programa da faculdade. Consegui fazer tudo em dois anos. Além disso, também estudei filosofia. Neste período, fiz dois curtas-metragens que foram para festivais como Sundance. Meus filmes, desde o início, sempre tiveram uma linha mais autoral e experimental, tanto do quesito propriamente técnico de fazer cinema, quanto no conteúdo, nas histórias, nas mensagens que queria passar.

Como uma cineasta independente, que não se identifica tanto com o cinema comercial, faz para passar conquistar espaço em um mercado cinematográfico mundial tão monopolizado?

Pois é, eu não me sinto parte deste mundo mercadológico do cinema mesmo. No começo, meus filmes até tinham certo apelo mais comercial e eu conseguia participar dos festivais principais. Mas, quando fui me afastando desta lógica e abordando temas políticos mais delicados, até estes festivais que dizem abraçar o trabalho mais experimental, mais autoral, disseram não estar mais interessados no meu trabalho. Então tive de recomeçar. Assim, procurei outros tipos de festivais que vivem mais à margem deste sistema monopolizado e que são eventos de nicho como mostras e festivais sobre os direitos humanos, contra o fascismo, focados em questões ecológicas e etc.

Mais uma vez a minha filosofia de vida que diz ser importante saber transformar algo negativo em positivo ajudou neste momento. Não fiquei chorando porque era rejeitada pelos grandes festivais. Fui procurar alternativas. E vasculhei tanto este mundo que acabei formando uma rede de contatos bastante significativa, com organizações, com ativistas e figuras importantes que apoiam causas. Hoje qualquer filme que eu faço passa em 100 países por ano. Há muitos festivais no mundo, realizando trabalhos importantes e dando espaço para temáticas mais sensíveis, só que não tem a visibilidade dos maiores e comerciais. Os meus filmes passam em tudo que é lugar que se possa imaginar: em uma sala de cinema, em escolas, em um porão de algum lugar, na rua, ou na casa de alguém que almeja fazer uma reunião e discutir um tema. É assim somos vistos em vários países e centenas de cidades.

Vou aproveitar algumas questões que você mencionou e perguntar sobre o seu projeto “Culturas da Resistência” que aborda muitos problemas sobre a desigualdade social, econômica, a crise do meio ambiente e também sobre a importância da cultura para realizar transformações reais na sociedade. Como um filme e a cultura podem provocar tais transformações?

Eu faço filmes para os jovens, porque o futuro está nas mãos deles. Então, tento incitar uma reflexão e torná-los cidadão ativos, engajados e que visem mudar o atual cenário. Por isso, faço filmes documentários mais dinâmicos, com bastante cultura, música, com muitos cortes na edição, no objetivo de falar sobre direitos humanos e política de forma menos teórica e moralista. Procuro usar uma linguagem mais leve para tratar de temas densos e importantes. Então, as pessoas vêm assistir o filme pela música e acabam aprendendo o que se passa no Saara Ocidental, na Palestina, na Caxemira, no Congo, e são tocadas ao tomar conhecimento daquelas situações.

Crédito: Danila Ilyushchenko/Cultures of Resistance.

Creio que o cineasta precisa ter consciência e ser humilde, pois a pessoa não vai necessariamente ver o seu filme e se tornar ativista. Mas a partir do momento que eu planto sementes, de repente, estes frutos podem ser colhidos em outras gerações futuras. É um trabalho de formiga e um pouco incerto, porque você não sabe muitas vezes como o filme impacta os jovens de forma geral. Contudo, às vezes, há um retorno de alguém que diz ter conhecido a situação do Saara Ocidental pelo filme e se apaixonar pelo povo. A pessoa em questão passou a realizar campanhas nas Nações Unidas em prol da libertação do Saara Ocidental. São casos assim que surpreendem e fazem que o trabalho continue, apesar das dificuldades.

É o famoso dizer que instigar uma pessoa já é o suficiente, correto?

Sim, mas é preciso ser humilde. Muitas vezes as pessoas ao final do filme vêm falar comigo e dizer que ficaram super inspiradas. Então eu digo: “não basta apenas ficar inspirada, precisa ter ação. Não desapareça, fique em contato, vamos conversar pela mídia social”. Assim, fico fazendo divulgação dos filmes por estes canais.

Crédito: Cultures of Resistance.

Então você diria que o principal objetivo do “Culturas da Resistência” é instigar as pessoas a tomarem inciativas, não apenas informá-las?

Exato! Porque ser informado e educado não é o suficiente. É preciso pôr o seu conhecimento na sua ação diária. Não é preciso viajar o mundo. Seja ativo na sua cidade, no seu bairro, no seu país. Veja um exemplo: é preciso saber o que se está comprando, quem está oferecendo aquele produto, que responsabilidade tem determinada empresa. Caso se saiba de problemas, uma alternativa é boicotar companhias que não têm compromisso algum com o meio ambiente ou que abusam de seus trabalhadores. Ou mobilizar as pessoas da sua cidade para atuarem contra coisas que você acha injustas. É um processo difícil, eu sei. Em especial esta coisa de confrontar governos e grandes empresas. As pessoas têm medo de morrer, de perder o emprego, de ir para a prisão.

É difícil mobilizar multidões. Contudo, pequenos passos, como o ativismo de consumo, é algo totalmente possível, pois o mundo é controlado por conglomerados econômicos. A partir do momento que você sabe que este chocolate delicioso é feito com o trabalho escravo de crianças da Costa do Marfim, pare de consumi-lo. Procure outro produto que não tem este problema. Não compre água mineral da Coca-Cola, ou da Nestlé que estão usando, praticamente roubam e lucram com a água de mananciais de países pobres que não têm como se defender. Então, são coisas pequenas que não há desculpa, as pessoas podem fazer, elas podem ser ativistas.

No campo de refugiados saharauis em Tindouf, Argélia. Crédito: Twitter Iara Lee

E o cinema é a melhor forma de promover esta conscientização?

Olha, eu não vou mentir, há momentos de muita frustração, nos quais eu penso que, de repente, valeria mais a pena fazer outra coisa, para conseguir um resultado mais imediato. Mas cada um faz o que pode. Uns escrevem, outros fazem música, outros cinema, outros agricultura. Acho que todos fazemos parte de um mosaico. Somos limitados, mas se unirmos todas estas forças, cada um, na sua área, consegue ter um impacto na sociedade.

Gostaria de perguntar sobre uma questão pessoal. Você desejou voltar a Coreia do Sul um dia?

Meus pais eram coreanos e vieram para o Brasil nos anos 1960. Teve a Guerra da Coreia nos anos 1950 e depois, quando o país estava em condições na época ainda muito pobres, iniciou uma imigração grande dos coreanos. Minha família pensou no Brasil como um país grande, de clima bom, solo bom, acolhedor e foram todos de navio da Coreia para o lá. Eu nasci no Brasil e, apesar de muito tempo fora, sou culturalmente muito brasileira.

Uma época tive também este interesse de procurar as minhas raízes e fui para a Coreia do Sul. Quando cheguei na lá fiquei muito desapontada. Aquilo parecia mais uma colônia dos Estados Unidos do que a Coreia. Muito americanizado, muito ocidentalizado. As pessoas vivendo naquele capitalismo exacerbado. Fiquei chocada. Não encontrei a Coreia que buscava. Então, comecei a ter maior interesse pela Coreia do Norte. E acabei trabalhando mais com eles do que com a Coreia do Sul.

Iara Lee, cineasta ativista brasileira, fala com o Korea Herald antes do EBS International Documentary Festival, no edifício da Samsung Electronics a sul de Seul. Crédito: Claire Lee / The Korea Herald.

Ajudei a levar a Orquestra Filarmônica de Nova Iorque para o país. Fiz parte da companha da diplomacia através da música. O Ministério da Cultura da Coreia do Norte convidou a orquestra para se apresentar e eles aceitaram. Foi algo histórico, pois pela primeira vez, a bandeira da Coreia do Norte e dos Estados Unidos estavam no mesmo palco. Foi a primeira vez também que a mídia internacional pode entrar no país. E antes deste projeto também realizei trabalhos de agricultura, onde fiz um programa de doação de sementes, em razão dos problemas relacionados à fome que os país passou.

Normalmente sempre falam que o problema da Coreia do Norte é o governo autoritário. Porém, é também verdade que países como a Coreia do Norte, com o fim da União Soviética, tiveram de se readaptar aos novos tempos. E eles ainda hoje sofrem bloqueios econômicos que têm um impacto significativo em suas economias. 

O bloqueio econômico que os países do ocidente fazem contra estas nações é grave. Para você ter uma ideia, os aviões no Irã caem muitas vezes, por eles não conseguirem importar peças que não tem como fabricar internamente para a construção de suas aeronaves. Outro exemplo é a tecnologia hospitalar para doentes, ou alguma matéria prima que precisa ser importada e o bloqueio não permite. Então, é um sofrimento muito grande e sem falar que estes países são constantemente ameaçados, por quererem seguir uma ideologia diferente.

As demais nações acabam querendo passar por cima e exterminar quem não segue a mesma linha. Washington não está preocupado com o cidadão comum norte-coreano e o quanto ele vai sofrer sem ter isso ou aquilo em razão do bloqueio econômico. Então, se você quer uma forma alternativa de viver é preciso resistir. E a tendência é o país fechar-se cada vez mais.

O cinema sul-coreano atualmente está em voga. E é um cinema que não pertence ao chamado “centro cultural do mundo”. Ele não é proveniente da Europa, nem nos Estados Unidos. Mas não apenas a Coreia, outros países como a China, a Índia, o próprio Japão, que mantem sua influência cultural, estão bastante presentes e ganhando fãs ao redor do mundo. Como você analisa a Ásia reemergindo com um polo político, econômico e cultural?

Eu acho algo incrível, pelo fato que nesta questão podemos ver claramente a importância da cultura, até da própria indústria cultural, mesmo a mais comercial, mas que está, ou estava à margem do sistema. Quando a Coreia do Sul estava em baixa e fazia filmes com temática menos internacionais, as pessoas menosprezavam muito o país. Contudo, muito mudou após esta onda cultural sul-coreana, que não traz apenas o cinema, mas a música etc. No próprio Japão, os coreanos que eram vistos como gente de segunda classe, era precisa deixar a sua digital na alfândega para entrar no país, estão recebendo os japoneses fascinados com a cultura sul-coreana e que estão indo para a Coreia como objetivo de experimentar mais.

A Coreia é um país que reemergiu através da cultura. Porém, outros estão chegando e acho que serão ainda mais fortes. Veja a China, e a Índia. O poder econômico delas hoje é indiscutível. Culturalmente ainda não trabalharam o suficiente para propagarem suas bagagens culturais, mas creio que virão com uma força gigantesca no futuro também nesta área. E quando isso correr, penso que realmente teremos uma febre pela Ásia mesmo. A cultura é assim, está em constante movimento e mudança. Vamos lembrar o passado mais recente, quando todos queriam ir para os EUA, em razão da imagem que o cinema dos EUA criou. As pessoas formam uma visão idealizada a partir desta indústria.

E como será este mundo na sua opinião?

Será um mundo bastante diferente. Vamos analisar a África como exemplo. Atualmente há países como a Nigéria que estão desenvolvendo fortes indústrias cinematográficas regionais e tornando-se polos econômicos de cinema influentes e importantes. Então, hoje os africanos já não querem ver filmes apenas com gente da Europa, ou dos EUA. Eles agora podem ver filmes que tenham os africanos como protagonistas. E filmes feitos por eles. Creio que neste novo mundo vai ocorrer o inverso, os estadunidenses é que vão começar a ver filmes com pessoas que tem outros rostos e outras cores, outras línguas e outras culturas.

Você acha então que o mundo será mais como ele é na realidade. A diversidade mundial estará mais em evidência nas telas?

Acho que sim e é algo super importante ter mais africano, mais asiático, os próprios indígenas do mundo inteiro serem mais representados neste mundo da cultura pop. E com isso também espero que outras coisas sejam possíveis como a eliminar visto, passaporte. Gostaria de poder ao menos testemunhar um mundo em que todos possam enxergá-lo como fazendo parte dele, como uma casa apenas e que todos devemos estar unidos para salvá-la.

O mundo atual está passando por uma crise generalizada tanto no campo econômico, quanto no político e social. Esta era asiática poderá construir um mundo diferente, com uma estrutura de poder diferente, menos exploradora e um pouco menos desigual?

Nós humanos ainda temos esta coisa bastante arraigada de querer ser mais que o outro e assim eliminar o próximo. Este instinto capitalista que está presente há séculos, creio que ainda vai persistir por muito tempo. Contudo, a questão ecológica e a crise climática vão fazer com que as pessoas sofram mais e, assim, tenham de obrigatoriamente rever valores e atitudes. Não será possível viver como espécie se continuarmos neste mesmo paradigma. Então é uma mudança sistêmica radical que é necessária.

Gravando na Noruega documentário dos povos indígenas da Europa, os Sami. Crédito: Twitter Iara Lee.

Os jovens precisam abrir os olhos. Não dá mais para continuar neste capitalismo exacerbado, onde se produz e se consome absurdamente. Se usa e joga fora. Tudo e descartável e só se objetiva fazer dinheiro. O capitalismo não funciona e todos sabem disso, mas insistem com ele. O ser humano só muda quando a coisa explode mesmo, onde já nos encontramos em nível de sobrevivência. É algo triste. E o meu trabalho de formiga vem neste sentido de tentar alertar e motivar as pessoas a saírem da sua zona de conforto e fazer algo mínimo que seja para evitar que as coisas fiquem insuportáveis. Parece que há algo autodestrutivo em todos nós.

Quais os seus planos futuros?

Acabei de filmar em Chernobyl, na Ucrânia. O local que depois de anos abandonado em razão do acidente nuclear está voltando à vida. As pessoas voltaram a frequentar a floresta e entrar em contato com os animais. Diversas atividades culturais e esportivas estão sendo realizada lá atualmente. Assim, aproveito esta situação de Chernobyl hoje para relembrar o desastre nuclear. Este foi o primeiro e deveria ter servido de lição, mas outros acidentes continuam ocorrendo, veja Fukushima e que o governo não tomou as mesmas providências que o ucraniano na época. Em Fukushima o material radiativo continua indo para o oceano.
Além deste trabalho, fiz outro documentário no Lesoto, um enclave da África do Sul, onde os jovens que não têm muitas oportunidades utilizam da criatividade para conseguir sobreviver.

Crédito: Cultures of Resistance.

Fiz outro filme sobre a agroecologia em Guine Bissau, onde as mulheres estão no comando da agroecologia. Este assunto, por sinal, é uma extensão do trabalho que fiz em Burkina Faso. Acabei de voltar do Malawi, em que fiz vários curtas sobre artistas que usam da arte e cultura para ajudar hospitais, orfanatos, a combater a malária e ajudar os refugiados das guerras. É o uso da arte e cultura como instrumento de ativismo humanitário.

Por fim, estou editando um documentário também sobre os indígenas da Europa, que são super desconhecidos. Fomos ao norte da Suécia, da Finlândia, da Noruega e uma parte da Rússia. Estes indígenas também estão lutando, pois os governos destes países estão tomando medidas muito prejudiciais ao meio ambiente.

São trabalhos que abordam diversas causas pelo mundo, mas que na essência têm o mesmo objetivo, questionar a forma individualista atual que levamos a vida. Não basta apenas pensar em mim e na minha família. É preciso dar sentido maior ás pessoas de que a solidariedade para com todos é a única forma de prolongarmos a nossa existência e evitarmos a nossa eliminação como espécie. E desta solidariedade que vem a esperança de fazer algo melhor, mais justo, mais igual, onde todos os seres, não apenas os humanos, estão inseridos.

Fonte: Texto originalmente publicado no site do Koreapost e também disponível no site da Revista Intertelas.

Kim Ji Young, nascida em 1982: o fim do super-heroísmo e o poder das mulheres reais

Por Alessandra Scangarelli (Resenha completa em InterTelas/KoreaPost)

Se formos pensar como o imaginário da sociedade atual tem das mulheres, no que se considera ideal e digno de aplauso é algo próximo ao de uma “Mulher Maravilha”, uma figura, por sinal, anglo-saxã e branca… Super-heróis, masculinos, ou femininos, ou qualquer outro gênero que queiram listar, pouco têm em comum com as pessoas reais e o seu dia-a-dia. É impossível para o humano ser um profissional, um cônjuge, pai, ou mãe, amante, modelo de beleza e saúde exemplar. Mas é justamente isso que se exige das mulheres. Como se fossemos capazes de fazer tudo sozinhas e o pior é que acreditamos nisso e seguimos este absurdo da mulher perfeita para depois apenas sofrer de ansiedade, ou depressão.

O filme “Kim Ji Young: Nascida em 1982” (2019), dirigido por Kim Do Young, baseado no livro de Jo Nam Jjoo, de forma indireta, incita tal debate. Estrelada por Jung Yu Mi que vive Kim Ji Young na trama e Gong Yoo, que interpreta seu marido Jung Dae Hyun, esta produção cinematográfica não se curva de assuntos espinhosos, ainda que o faça de forma sutil e muito sensível. A personagem principal trabalha em uma agência de relações públicas. Porém, um dia casa e tem uma filha, tendo que deixar o seu emprego. A vida segue o seu curso normalmente, até que, de repente, Kim Ji Young começa a falar como sua mãe, sua irmã mais velha. Do nada, transforma-se e passa a ser outra pessoa. Estaria ela possuída? Sofreria ela de dupla personalidade? O que teria acontecido?

Antes de mais nada é importante salientar que o interessante de um filme que aborda tal temática, de tantos que já foram feitos sobre o mesmo assunto ao redor do mundo, é a sua capacidade de levar um tema polêmico como este para situações cotidianas, para o ambiente privado e íntimo do lar, onde a correlação de forças entre marido e mulher definitivamente ocorre. Alguns diriam que tal situação na Coreia é diferente de outros países do ocidente, onde as mulheres não são necessariamente obrigadas a deixar seus empregos.

Primeiro, que tal contexto do filme pertence à década de 1980, onde tal situação ainda ocorria. Muito mudou na Coreia rapidamente em alguns poucos anos. No entanto, muito ainda dos velhos costumes permanecem. E pior, com as transformações sociais, as coreanas passaram a acumular tarefas, assim como qualquer mulher dos países no ocidente. É interessante perceber que aqui não se contempla a ideia utópica da maternidade idílica, paradisíaca, como muito afirmam por aí, mas também não temos o inferno na Terra. A personagem principal luta diariamente com as dificuldades de criar uma criança, com o trabalho exaustivo que demanda. No entanto, diferente da maioria, Kim Ji Young rebela-se de forma bastante inusitada, inconsciente, através da “incorporação”, ou no deixar falar uma voz que ela nem sabe que tem.

Fonte: IMDB

Ela enfrenta quem a julga, quem almeja dizer-lhe o que deve fazer ou não, confrontando até os mais velhos, situação complexa em uma sociedade como a coreana tão hierarquizada e tão submissa à ideia de respeito aos mais velhos, mesmo que os idosos usem disso para oprimir, ou livremente extrapolarem seus direitos sobre os mais jovens. Tal atitude dela intriga seu marido, que busca compreender e ajudá-la. Uma figura já digamos diferente, com uma mente mais aberta do que os homens da sua época. A maioria provavelmente já teria saído e abandonado a família, como até hoje, é normal.

O diferencial nos protestos desta nova persona que Kim Ji Young assume é que ela deixa claro não ser obrigada a assumir todas responsabilidades que lhe são impostas como naturais. Afinal, ela também tem anseios para além da casa e da família e assim praticamente obriga seu marido, mãe, irmão e tal a auxiliarem-na. Fica claro, por exemplo, a falta de atenção do pai, que facilita tudo para o irmão dela e o mima, enquanto Kim Ji Young para ele praticamente não existe.O interessante aqui é justamente esta atitude de não incorporar a heroína e tentar fazer tudo sozinha, mas transformar o seu ambiente e as pessoas ao seu redor. A dupla de atores principais têm atuações primorosas, de pessoas comuns que tentam lidar com seus problemas mais íntimos em meio a uma sociedade que pouco compreende, ou quer compreender. Os atores que interpretam papéis secundários fornecem o suporte necessário para que o casal de atores principal possa dar sua melhor performance. A química profissional entre Jung Yu Mi e Gong Yoo não precisa de grandes apresentações. Velhos conhecidos de outras produções como “Invasão Zumbi” (2016), de Yeon Sang Ho e “Silêncio” (2011) de Hwang Dong Hyuk, eles deixam claro que juntos na tela têm muito a dizer, a mostrar e comover o espectador.

Jung Yu Mi interpreta Kim Ji Young. Crédito: Cinema Escapist.

A direção de Kim Do Young traz a sutileza e complexidade psicológica que o enredo necessita, sustentado na escrita do roteiro adaptado que ela compartilha com Yoo Young A e com a autora do livro Jo Nam Joo. Não há falas demais, nem explicações desnecessárias, nem discurso ativista na história. A diretora deixa através das cenas e das atuações que a trama flua e por si deixe que as questões e suas polêmicas livremente sejam manifestadas ao espectador. Deste filme, pode-se pensar o quanto estamos realmente transformando o nosso cotidiano.

Os homens de nossa época estão cientes do papel que têm na criação dos filhos e nas atividades domésticas? O meio de trabalho ainda tão masculinizado e pouco preparado, até fisicamente, para as mulheres que engravidam, ou têm filhos, está sendo modificado? Mulheres grávidas têm a necessidade de alguns cuidados sim, como o meio de trabalho adaptou-se às necessidades delas? Isso não seria importante levar em conta, em especial em uma sociedade com problemas graves de natalidade? E quando as crianças nascem há creches nas empresas para os pais, ambos, trabalharem e estarem próximos dos filhos? Existem benefícios para formar uma família? São questionamentos que nem o Feminismo hoje realiza ou leva como uma bandeira integral sua. Se há falta de igualdade nos âmbitos empresariais mais sofisticados, imagina nas fábricas, na realidade das trabalhadoras braçais, de “chão de fábrica”, como diz o jargão popular. Reflexões deste tipo são necessárias. Assim, Feminismo sem consciência de classe e atenção às questões mais particulares do mundo feminino torna-se, na opinião desta autora, ineficaz para as massas.

Talvez o que muitos grupos dentro do Feminismo, não todos obviamente, estejam fazendo sem saber é apenas incorporar à estrutura masculina do sistema algumas mulheres, que acabam virando chefes com medidas praticamente iguais, ou tão opressoras como a de um chefe homem. E até isso o filme em questão salienta. A chefe de Kim Ji Young é compreensiva com ela, com seus problemas, não a descarta nem por medo de competição, nem pela sua aparente falta de produtividade e utilidade momentânea…

Crédito: Medium.

Aqui também temos um apelo à saúde não apenas física, mas mental, emocional dos empregados como algo primordial para que a estrutura do trabalho, do sistema empresarial possa funcionar melhor. Na busca da superação das várias desigualdades que o sistema atual produz, o universo feminino e suas questões particulares necessitam ser observados por todos e estarem no centro do debate. Só assim antigos padrões e injustiças serão realmente superados.

Ficha técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Kim Do Young | Roteiro: Jo Nam Joo (livro), Yoo Young A, Kim Do Young | Atores: Gong Yoo, Jung Yu Mi, Kim Mi Kyung  | Duração: 1h58 |  Ano: 2019. 

Revista Intertelas entrevista Mateus Nascimento, pesquisador do MidiÁsia

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas)

A pesquisa acadêmica e o conhecimento geral que engloba diversas áreas relacionadas ao continente asiático ainda encontra barreiras no Brasil, tendo muito espaço para avançar. Conforme diversos estudiosos das relações internacionais, estamos entrando em uma nova era, onde a Ásia terá papel preponderante. Contudo, os brasileiros e os campos de estudos sobre os paises desta região enfrentam uma cultura intelectual no país ainda muito eurocentrada. Desta forma, diversas questões históricas que se acredita conhecer como a Era Meiji (1867-1912), período histórico de modernização e industrialização do Japão, acabam sendo questionadas, pois até o momento são vistas por lentes ocidentais, Desta forma, não levam em conta o trabalho de pensadores e estudiosos nacionais destes países, ou até de pesquisadores de outras regiões do mundo, que teriam também algo a dizer sobre história do Japão, talvez até mais que qualquer estadunidense, ou europeu.

Diferentemente do que se pensa, Meiji não foi um momento histórico de submissão e ocidentalização do Japão. No entanto, o que houve foi um processo de transformação conduzida e adaptada pelo japoneses, em iniciativas independentes que almejavam a construção de um projeto de nação e de um império que aspiravam na época. É certo que no século XIX, o imperialismo europeu  e norte-americano fazia-se presente na Ásia. Porém, seria errado afirmar que os japoneses para sobreviver ao braço forte europeu e dos EUA tiveram de incorporar valores totalmente ocidentais, fugindo de suas raízes e se submetendo como bons servos locais, a partir da chegada do comodoro estadunidense Matthew C. Perry, que forçou o Japão a abrir seus portos para os EUA. Na realidade, grupos políticos do Japão aproveitaram a oportunidade para dar fim à estrutura política, dominante há séculos, do Xogunato, cuja figura política maior estava na autoridade de vários xoguns, os supremos líderes militares. E estes estavam submetidos de certa forma ao Imperador.

A revolução Meiji daria fim ao poder destas figuras e implementaria o poder supremo simbólico na pessoa do Imperador. Para tanto, os japoneses usariam da mitologia nipônica e do xintoísmo para fornecer à sociedade japonesa a ideia de que seu chefe maior era descendente de deuses e que o futuro da nação, portanto, seria glorioso. Assim, anos de guerra civil chegaram ao fim. O Japão testemunhou uma coesão nacional sólida e um desenvolvimento econômico e social sem precedentes. Contudo, a sociedade antiga japonesa constituída de classes e que tinha o poder centrado no Xogum não foi eliminada, mas adaptada para os novos tempos. Seria o fim dos conflitos bélicos domésticos, mas o início da expansão imperial e da invasão a outros países. Foi o período que os nacionais do Japão creditavam-se a certeza de serem uma nação modelo a ser seguida pelos demais asiáticos que, na visão dos líderes japoneses da época, em especial os militares, eram considerados inferiores.

Quem apresenta estas informações é Mateus Nascimento. Ele é mestrando em história social pela Universidade Federal Fluminense (PPGH-UFF) e graduado em história pela mesma universidade. Colunista da Revista Intertelas, é também pesquisador efetivo do Centro de Estudos Asiáticos (CEA) da UFF, do Núcleo de Estudos Tempo Literário do Instituto Cultural Brasil-Japão, do MidiÁsia/UFF e do Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática Contemporânea. Ainda é membro da Red Iberoamericana de Investigadores en Anime y Manga (RIIAM) e da Academia Nipo-Brasileira de Estudos de Literatura Japonesa, tendo passado pelo Grupo de Estudos Japoneses (GEHJA) da UFF. Aqui ele responde algumas questões sobre este tema, ainda tão pouco conhecido do público em geral no Brasil, e fala da trajetória de sua pesquisa, indicando material de estudo para quem se interessa pelo assunto. Acompanhe abaixo!

Quando o imperador Mutsuhito trocou seu quimono por roupas ocidentais. Apesar destas adaptações, muito da Era do Xogunato permaneceria mesmo após a restauração. Crédito: Ozy Modern Media Company.

Por que, na sua visão, a Era Meiji é descrita por muitos outros especialistas ocidentais de forma equivocada? A exemplo, há a constante explicação de que a esquadra naval de Matthew C. Perry teria sido a causa principal das transformações profundas pelas quais passou o Japão na época.

Meiji aparece no imaginário das pessoas através de um conceito que sempre me causou certo desconforto: ocidentalização. Meiji é para muitas pessoas a ocidentalização do Japão. Eu não concordo com isso por dois motivos principais. O primeiro é que nenhuma sociedade ou cultura é uma ilha, homogênea e estanque. Essa é uma das críticas àquela noção de estrutura. Toda a pactuação da cultura, que envolve a vida das pessoas, é sempre uma negociação entre o macro e o micro. Todas as pessoas só se entendem no mundo através de grupos, nos quais as diferenciações acontecem. Cultura então é ao mesmo tempo essa teia de conceitos e de prática destes conceitos, o que supõe haver improvisações eventuais na vida em sociedade que subvertem um dado cultural. Gosto muito do Clifford Geertz para pensar sobre isso, principalmente quando ele fala que um piscar de olhos pode ter vários significados, que só serão descobertos no decorrer da observação acurada do pesquisador.

O segundo é o fato de uma potência americana ter agido violentamente, abrindo portos e bombardeando uma baia japonesa e ter promovido uma submissão do Japão. Isso não significou uma postura passiva dos próprios japoneses diante daquele mundo que estava sendo desenhado. Ao contrário! A chegada inicialmente abrupta dos EUA permitiu ao Japão repensar o seu papel nas relações internacionais do séc. XIX, o que proporcionou ocorrer um dos mais amplos projetos de modernização da época. Além do fator externo, o próprio governo do Xogunato Tokugawa estava em crise desde pelo menos 1840, pois a diminuição do número de guerras e batalhas deu origem a um sistema cortesão mais desenvolvido em termos culturais.

O último Xogum, Tokugawa Yoshinobu (1837-1913), de 1866 a 1867, o 15º e último líder do Xogunato de Tokugawa no Japão. Crédito: National Diet Library, Japan.

Por outro lado, as negociações intensas com potências europeias, por exemplo, como a Holanda, auxiliaram na queda desse edifício de paz e luxo. Comerciantes desde sempre vistos como aqueles que deveriam estar fora da ritualística de poder da época, passaram a financiar as elites em troca de influência simbólica e nisso consiste a crise do poder do Xogum. Não sem razão, grupos surgem criticando esta situação e pedindo a restauração do estado anterior das coisas, do sistema passado. Portanto, “nunca foi só o Perry e sua esquadra”, como explicam os livros didáticos. Eu prefiro pensar que a crise interna somou-se à intervenção ocidental. E a resposta japonesa a isso é original e digna de lugar no estudo da história. Aqui nasceu meu objeto de pesquisa!

E como foi a sua trajetória nesta pesquisa?

Eu defendo que não houve uma ocidentalização do Japão no séc. XIX. Obviamente, que para embasar teoricamente e historicamente esta afirmação precisava antes desenvolver toda uma compreensão com mais profundidade sobre a análise destes conceitos ocidentais. Na minha busca bibliográfica encontrei vários livros sobre Meiji que abordavam o período nessa perspectiva da ocidentalização. Existem muitos livros escritos pelo José Yamashiro que reforçam essa tendência, outros mais acadêmicos como o texto de Barbosa Lima SobrinhoJapão: o capital se faz em casa” (1990), que acompanham esta linha também.

O livro  de Barrington Moore Jr, “As origens sociais da ditadura e da democracia” (1983), que no famoso capítulo nove fala do “Fascismo Asiático” e aborda as mudanças que ocorreram nos tempos finais do Xogunato aos anos iniciais do período Meiji. Também encontrei livros menos conhecidos com uma perspectiva mais crítica, os quais fundamentaram um pouco mais a minha pesquisa. Refiro-me aqui ao livro de Renato Ortiz, “O próximo e o distante: Japão e modernidade-mundo” (2000), que se tornou um ponto de partida incontornável para os interessados em estudar Japão. Também há o texto clássico de Ruth Benedict, “O crisântemo e a espada” (2009), que mesmo com todos os seus problemas, é um bom início para qualquer estudo da área. Ambos falam de Meiji como se estivessem comentando os significados da época e isso me ajudou muito a pensar que deveria escolher algum elemento social deste período para pensar.

Nesse ínterim, encontrei outros textos e fui descobrindo que, na verdade, existem muitos autores renomados que já escreveram sobre o Japão. O que acontece é que seus textos não receberam a audiência adequada em meio a um conjunto de pesquisas pouco preocupadas com a Ásia. Lévi-Strauss por exemplo, dedicou um livro inteiro ao Japão. Enfim, existem outras obras para dizer com muita propriedade que a história do Japão não se resume aos momentos em que a nação aparece no mundo contemporâneo e nem a uma ocidentalização que não dá conta da riquíssima estratégia japonesa de comentar a tradição ocidental.

Cenas da vida laboral e de comerciantes japoneses na Era Meiji. Crédito: Resobox Exibition.

A ideia do Japão imperial visava uma coesão nacional e a criação de uma nova identidade nacional. Qual a importância do xintoísmo e da mitologia nipônica, presentes na constituição da época, para a formulação desta ideia de Japão no pós-Xogunato?

Mapeados os dados cronológicos, parti em busca fontes. Para minha surpresa, fui encontrando algumas que refletiam os interesses do próprio governo em tornar o Japão conhecido. Encontrei textos da promulgação do Estado Meiji, éditos (como o édito de educação) e a própria Constituição do Império do Japão, promulgada em 1889 e lançada para o mundo todo, no ano seguinte em versão traduzida e bilíngue. Uma grande maioria já se encontra disponível na internet e eu penso que ainda há muito a ser dito cientificamente sobre esses textos.

Neles vemos um ministro muito influente, chamado Ito Hirobumi, conduzir as pesquisas e o projeto político Meiji, ancorando-o sobre a figura Imperial. De todos os símbolos, o império aparece como o mais revisitado e repaginado. Aliás, o Imperador foi posto no trono com idade juvenil justamente para autorizar esse projeto dos ministros comandados por Hirobumi. Quando notei este fato, optei por pesquisar como esse governo reformulou e reposicionou politicamente a presença simbólica do império. Fui ao texto jurídico para entender quem era esse Imperador e quais os seus poderes legais e me deparei com uma sequência de comentários do próprio ministro sobre seus pensamentos! Estava aí a minha fonte: os comentários de Hirobumi e os textos jurídicos de Meiji.

Ito Hirobumi, primeiro-ministro do Japão de 1883 a 1885. Crédito: Enciclopedia Britannica.

Basicamente, Hirobumi começou traçando um lugar mítico que justificou o império e o seu discurso. “Desde os tempos antigos” ou “herança de nossos antepassados” são duas formulações que aparecem corriqueiramente nos textos. Afinal, os políticos precisam justificar o seu projeto de modo a ter comprometimento dos novos cidadãos japoneses. Muitos desses líderes foram membros de clãs opressores e exploradores durante o governo Tokugawa, mas precisavam tirar o foco deles, enquanto ocorresse a implantação do projeto. A saída mais prática seria revisitar os textos antigos e inventar a sua autoridade perante a nação. Assim, fez-se: os pensadores retomaram textos e ideias dos textos mais antigos do Japão, sobretudo, o relato das coisas antigas, do Kojiki (o livro mais antigo sobre a história do país, nos seus primórdios como nação. As canções incluídas no texto são em japonês arcaico). Esta publicação serviu de baliza para o que se estava dizendo sobre as origens do Japão e do poder imperial. O Kojiki possui uma versão em português que é fruto de um trabalho de mestrado.

Na sua pesquisa, você afirma que os pensadores chineses tiveram certa influência nesta reformulação do que viria a ser o Japão do século XX.

Nessa retomada, um pouco do pensamento chinês também reaparece sim, com a noção de ordem (tao) e mandato do céu, os quais justificam o poder e o lugar moral dos indivíduos na China. Havia só uma diferença em sua aplicação no Japão: não havia uma formulação de meritocracia como a chinesa (a questão dos concursos públicos de admissão). Os políticos Meiji repaginaram a hierarquia, sem a abolir completamente. Novos grupos sociais surgiram e outros antigos foram desfeitos ou desmembrados.

Os samurais, por exemplo, perderam o seu papel de autoridade punitiva local. O império precisa seguir um pouco das novidades ocidentais, sem perder a originalidade japonesa. Isso significou o estabelecimento de novos conceitos para a ordem pública: honne, verdadeiro pensamento; tatemae, pensamento que segue o que está posto para manter a ordem; uchi, ser de dentro, ser aceito, insider; e soto, em síntese, outsider. Este talvez seja o maior legado dessa formulação oitocentista, visto que ainda existem muitas situações em que esses conceitos aplicam-se em espaços japoneses ou nipo-brasileiros.

Esta visão de um Japão destinado pelos deuses a ser uma raça e um povo eleito e predestinado teria contribuído para a expansão imperial a outros países e desencadeado o período de colonização, além dos genocídios durante a Segunda Guerra Mundial?

Lendo os documentos e vendo o nascimento dessa ordem pública, parece-me lógico dizer que o Japão não foi ocidentalizado. Vale considerar que esse caminho de investigação aplica-se também a outros campos. A tecnologia por exemplo. Muitos autores entendem que o desenvolvimento econômico de finais do período Meiji tem semelhança com os casos ocidentais, mas, destacamos, os grupos financeiros, zaibatsu, que financiaram e foram influenciados pelo Estado mesmo depois de Meiji.

Muitos deles tiveram suporte econômico em suas ações de expansão comercial. O Japão começa a entrar em terras de seus vizinhos com isso, e se torna uma presença na região, defendendo a especificidade japonesa. O discurso étnico¸ conhecido como nihonjinron (textos que abordam questões de identidade nacional e cultural japonesa, e compartilham a crença geral do Japão como uma nação singular), que na verdade é um campo vasto de estudos e publicações em diversas áreas que se juntam sob esta lógica, orienta a formação dos primeiros ataques e a realização das guerras. Com a vitória sobre a Rússia, o Japão tornou-se reconhecido no cenário internacional.

E como a franquia Rurouni Kenshin, Samura X como é conhecido no ocidente, ajudou a trazer conhecimento e instigar interesse em um público geral não conhecedor destes fatos históricos?

O Japão Meiji, curiosamente, está presente no imaginário da juventude, por conta do grande número de expectadores do anime Samurai X. Ele alcança o público não somente no espaço do virtual, informal, mas também do televisivo. Os episódios da franquia foram exibidos em dois momentos: de inícios de 1999 até inícios de 2000 pelo programa TV Globinho (Rede Globo) e entre 2001 e 2002 pelo bloco de animes do canal Cartoon Network.

Nobuhiro Watsuki criador de Samurai X. Crédito: geekdama.

Como já foi dito, a era Imperial japonesa objetivou pôr fim ao período violento do Xogunato, regido por matadores, e promover a coesão do país. Contudo, a violência seria transportada para o exterior com a invasão e a agressão a outras nações. Muitas das estruturas do Xogunato permaneceram e não foram transformadas realmente para melhor. Todas estas questões são claramente exibidas no anime e no manga. Como esta questão é construída no personagem Kenshin? Seria ele a personificação fictícia de um Japão, ainda visto de forma negativa e desconfiada pelos vizinho, em busca redenção? 

Eu fico pensando que realmente existe uma curiosa semelhança entre os elementos narrativos da obra e os fatos deste período histórico, pois, ficamos sabendo que em função da sua habilidade, tornada famosa por setores relacionados ao governo militar, Kenshin, recebe o título de Retalhador no período do Bakumatsu. Com a vitória do projeto imperial, seus pensamentos o fazem iniciar uma peregrinação pelo novo Japão que nascia, tendo como objetivo o apagamento desse passado. Na história do anime, conhecemos Hitokiri no Battousai, foi assim que Kenshin Himura ficou conhecido no período imediatamente anterior as intensas transformações da modernização. Durante o período de desordem que antecede a renovação da figura imperial, nosso herói vivia de vender seus serviços de espadachim.

A figura do samurai como um asceta foi dando lugar a uma progressiva capitalização do caminho da espada, pois mais e mais senhores desejavam manter o seu poder local e alcançar postos junto ao poder nacional, momentos antes do colapso do sistema. O autor Nobuhiro pensou em demonstrar uma espécie de desumanização daqueles que são vistos como símbolo da cultura japonesa justamente quando passam a desejar o poder e a autopreservação.

Crédito: fonte desconhecida.

Não há datações tão específicas na obra, mas sabemos que o contexto de 1847-1867 é decisivo para a derrota do projeto tradicionalista e Himura e outros percebem o destino eminente da figura samurai, detentora do signo da violência desde meados do séc. XI. Eles ou abandonam o caminho da espada em prol do novo governo, sendo alguns de fato reaproveitados para fins de segurança pública, ou escolhem a errância e a peregrinação ensinadas pelo budismo, em busca de iluminação em um novo contexto. Após essa sua vida militarizada e desumanizada, o protagonista começa a peregrinar. Peregrina para tentar conviver com seus atos passados. Talvez, Nobuhiro, com todos os seus próprios problemas, tenha tentado mostrar o Japão em Kenshin.

Revista Intertelas entrevista Mayara Araujo, pesquisadora do MidiÁsia

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas)

Nesta entrevista concedida à Revista Intertelas, nossa pesquisadora Mayara Araujo, também doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (PPGCOM-UFF) e Mestre em Comunicação e Cultura pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro analisa a produção audiovisual japonesa e, em específico, o impacto e os problemas atuais dos chamados doramas para a promoção do país no exterior e no Brasil.

Como a cultura japonesa entrou na sua vida e o que ela transformou?

Eu tive meu primeiro contato com a cultura japonesa a partir de Pokémon, quando foi transmitido na TV em 1999. Desde então, passei a me interessar por outros animês e, eventualmente, esse meu interesse de infância foi se transformando e amadurecendo: acabei procurando um curso de japonês, culinária, turismo e, por fim, utilizar essa afinidade como objeto de estudo no mestrado. A meu ver, ter a possibilidade de pesquisar elementos da cultura japonesa academicamente foi a maior transformação que essa preferência me proporcionou, visto que eu consegui fazer disso um trabalho.

O dorama “Long vacation”. Crédito: https://dramaswithasideofkimchi.com

Como você avalia o mercado de doramas dentro e fora do Japão?

Fora do Japão e da Ásia, o mercado é praticamente inexistente. A maior forma de consumo é através da comunidade de fãs da cultura pop japonesa que legendam e distribuem esse conteúdo por conta própria. Há algumas iniciativas de parcerias entre as redes televisivas japonesas e plataformas de streaming, como é o caso da TV Fuji com a Netflix. Além de licenciar animês, agora também é possível assistir dramas de TV japoneses pela plataforma. Mas o mais interessante, a meu ver, são os doramas co-produzidos pelas duas companhias, que gerou conteúdo de sucesso como “Good Morning Call” e “Erased”. Talvez um dos motivos de certo “apagamento” dos doramas frente aos K-dramas (dramas de TV sul-coreanos) seja uma possível necessidade japonesa em dialogar somente entre seus pares.

Enquanto a estratégia da Coreia do Sul em relação a sua indústria midiática consistiu em buscar elementos em comum entre os países de seu entorno regional ou com o ocidente, o Japão insiste em produzir conteúdo visando especificamente o mercado doméstico. O próprio Ota Toru, produtor da Fuji TV e um dos criadores dos “trendy dramas” (o formato que consumimos atualmente e que foi emulado pela Coreia do Sul, por exemplo) chegou a afirmar que a estratégia consistia em atingir o mercado interno.

O dorama “Good Morning Call”. Crédito: Amino Apps.

Qual o impacto dos doramas japoneses no Brasil, levando em conta que é o país com maior comunidade de japoneses fora do Japão?

Eu diria que bastante incipiente. Apesar de termos a maior colônia japonesa do mundo, a circulação dos doramas no Brasil acabou sendo ofuscada pelos animês e tokusatsus (filmes ou séries live-action que fazem um uso forte de efeitos especiais) que vêm preenchendo horários de nossas grades televisivas desde a década de 1970, mais ou menos. Inicialmente, os doramas acabaram ficando restritos ao circuito dos fãs dos animês, que acabavam se interessando por outros conteúdos japoneses e legendavam e distribuíam na Internet.

No início dos anos 2000 também havia o comércio pirata de doramas em alguns bairros em São Paulo (onde se concentra uma grande quantidade de descendentes de japoneses), mas, de forma geral, o circuito ficou vinculado às plataformas digitais. No Brasil, tivemos pouquíssimas oportunidades nas quais os doramas foram exibidos em nossas redes de televisão, sendo que o mais recente foi o dorama “Dear Sister”, que foi transmitido em 2017 na TV local E-Paraná. Sem dúvida, não houve esforços para popularizar o formato.

O dorama “Dear Sisters”. Crédito: Animo Apps.

Acredita que os doramas promovem ou instigam debates e transformações sociais?

Sem dúvida. Muitos dos dramas japoneses que circulam dialogam com questões delicadas, como xenofobia no Japão, a questão do trabalho x maternidade e excesso de horas extras trabalhadas. É claro que precisaria de mais pesquisas e aprofundamento nesse ponto para afirmar que essas temáticas acarretam em transformações sociais, mas me parece evidente que certos questionamentos são lançados.

O dorama “Erased”. Crédito: Netflix.

Acha que os doramas são uma ferramenta que o Japão usa para promover a cultura e a economia do país no exterior?

Quando a gente pensa na realidade brasileira ou latino-americana é perceptível o quanto sabemos poucos sobre esse formato televisivo. As estratégias de difusão de cultura e desenvolvimento do soft power japonês são completamente ancoradas nas animações e em elementos mais tradicionais de sua cultura. Há autores que afirmam que a entrada de animês em países do leste e sudeste asiático é menos problemática, pois são “inodoros”, ou seja, não são etnicamente japoneses. Como o Japão tem um passado conturbado por conta de seu imperialismo, muitos países da região restringiram a entrada de conteúdo japonês por muitos anos. No entanto, desde a década de 1990, os trendy dramas obtiveram sucesso em alguns países e se tornaram referenciais de modernidade e estilo de vida para a juventude asiática. Eu diria, então, que não são os protagonistas, mas cumprem um papel.

O que acha que precisaria melhorar neste ramo?

A experiência sul-coreana em relação a difusão dos K-dramas globalmente é digna de nota. Até pouco tempo atrás, aqui no Brasil, nós mal ouvíamos falar da Coreia do Sul e hoje ela parece perpetuar no imaginário da camada jovem da sociedade. Alguns falam de hibridização do conteúdo, ou seja, tornar os K-dramas palatáveis para qualquer audiência. Talvez tenha sido um modelo de sucesso. Os doramas acabam sendo muito centrados na lógica japonesa, na realidade japonesa e em uma suposta forma de “ser japonês”. Me parece uma espécie de criação (involuntária) de soft power a partir da exclusão, de vender a ideia do exótico, do diferente e do “venha me decifrar” para atrair o público. Não sei até que ponto isso funciona.

E o Brasil como poderia refletir a presença dos doramas em seu mercado para seus objetivos de propagação da cultura brasileira e cooperação com o Japão?

O formato dos dramas de TV tem características que lembram as telenovelas brasileiras como, por exemplo, a presença do melodrama. De certa forma, são linguagens que dialogam. Em 2005, a Rede Bandeirantes e a NHK coproduziram “Haru e Natsu”: as cartas que não chegaram, uma minissérie que conta a história da imigração japonesa para o Brasil. Ela foi transmitida em 2008 no Brasil, no ano em que se comemorou o centenário da imigração japonesa, mas não houve grande visibilidade para essa coprodução.

Ainda assim, partindo do princípio de que caminhos alternativos à maciça presença estadunidense/ocidental  vivem um momento de plena efervescência, as redes de televisão brasileiras poderiam dar mais atenção a conteúdos fora desse eixo para pensar as próprias produções televisivas e incentivar à busca por novos conteúdos. Os brasileiros são poucos representados nos doramas e são uma grande comunidade de estrangeiros no Japão. O mesmo ocorre com os japoneses e seus descendentes no Brasil.

O dorama “Haru e Natsu”. Créditos: YouTube.

É possível modificar está situação? Se sim, o que é preciso para modificar e como fazer?

De forma geral, os doramas não costumam apresentar muitos personagens estrangeiros. De fato, eu nunca assisti um dorama com um personagem brasileiro, apesar de já ter visto menções a brasileiros famosos. Em “Long Vacation”, por exemplo, o protagonista chama-se “Sena” e há diálogos em que ele é chamado de “Ayrton”. No caso das telenovelas brasileiras, há um enorme apagamento em relação aos japoneses e, quando são representados costumam ser interpretados por brasileiros sem parentesco com japoneses. Há iniciativas para promover a presença de artistas asiáticos na TV brasileira, como o coletivo Oriente-se, que pode ser uma ponte para diminuir esse apagamento. No caso japonês, desconheço iniciativas.

O Motorista de Táxi: as lições políticas do filme ao cidadão comum

Por Alessandra Scangarelli (Via KoreaPost)

Em 18 de maio de 1980, a cidade de Gwangju, na Coreia do Sul, passou por uma revolta popular que ficaria na história como a Revolta Democrática contra o Regime Militar. Em 2011, os arquivos daquela época, foram inscritos no Registro da Memória do Mundo da UNESCO. Estima-se que até 606 pessoas podem ter morrido. Tudo começou quando estudantes locais da Universidade de Chonnam protestavam contra o governo do general Chun Doo-hwan, após este ter assumido o poder através de um golpe.

Os jovens foram atacados, mortos e espancados por tropas do governo, levando os demais moradores de Gwangju a pegarem em armas (roubando arsenais e delegacias locais). No entanto, a insurreição acabou em derrota em 27 de maio de 1980. Durante a presidência de Chun Doo-hwan, as autoridades costumavam definir o incidente como uma rebelião instigada por simpatizantes e desordeiros comunistas. Com o fim das ditaduras e a instauração da democracia, em 1997, foram estabelecidos um cemitério nacional e um dia de comemoração (18 de maio), juntamente com atos para “compensar e restaurar a honra” às vítimas.

É neste contexto que o filme “O Motorista de Taxi”, do diretor Jang Hoon, lançado em 2017, exibido em vários cinemas do Brasil, conta a história real do taxista de Seoul Man-Seuob (Sang Kang-ho) e do jornalista alemão Jürgen “Peter” Hinzpeter (Thomas Kretschmann), que acabaram juntos documentando os fatos ocorridos nesta ocasião. Também se pode acompanhar a luta deles para fugir do bloqueio e perseguição governamental e policial, no intuito de que o material fosse exibido em rede internacional e a verdade fosse contada. Esta produção foi a segunda mais vista pelos sul-coreanos no ano passado, sendo um sucesso comercial e de crítica não apenas nacionalmente, mas em diversos países. Tendo sido premiado em vários festivais, a obra ainda foi indicada pela Coreia do Sul para ser seu representante na categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar de 2018.

Cena real do conflito em Gwang-ju, registrada pelo jornal americano The New York Times.
Cena real do conflito em Gwangju, registrada pelo jornal americano The New York Times.

Há diversas questões que são tratadas no filme: o controle da opinião pública através da mídia dominada pelo governo e por grupos econômicos que acabam censurando os fatos; a importância do trabalho jornalístico honesto; a violência e repressão policial-governamental, a politização da juventude, a rejeição aos golpes de Estado; a pobreza das classe médias, mas, acima de tudo, a importância da consciência do cidadão comum sobre o seu papel político-social, que ele, muitas vezes, prefere não reconhecer.

Man-seob é o típico homem de classe média baixa, ou pobre, poderíamos assim dizer. É um sobrevivente. Viúvo, trabalha horas por dia em seu táxi, percorrendo a cidade de Seul para poder sustentar a filha e pagar as contas. Deve aluguel, não tem dinheiro suficiente para fazer reparos no táxi e não tem com quem deixar a menina, que acaba realizando as tarefas de casa sozinha. Ele parece não ter muito tempo para nada, sua passividade e inocência são claros. Ele não tem opinião política alguma e, na maioria das vezes, não se posiciona sobre qualquer assunto. Contudo, quando o faz, a exemplo dos protestos que ocorrem na capital, ele se queixa dos jovens que, na sua opinião, deveriam estar estudando, além de ficar fazendo baderna por aí. Na cabeça dele tudo vai bem no país, o governo e o exercito são, na realidade, instituições confiáveis, os jovens rebeldes é que são folgados e apenas atrapalham o dia-a-dia do cidadão de bem trabalhador.

Ele deve 100.000 wons de aluguel e quando não sabe onde poderá conseguir tamanha quantia, um colega afirma que um estrangeiro o pagou para ir até Gwangju. Man-seob assume, de forma fortuita, o lugar do amigo. Mesmo tendo morado na Arábia Saudita por um tempo, o seu inglês é bem fraco, mas ele consegue comunicar-se com “Peter” e o ajuda a desviar dos bloqueios do exército à cidade, com um certo “jeitinho” coreano. Quando lá chegam, encontram um verdadeiro cenário de guerra. Protestos contínuos que são reprimidos com violência brutal levam muitas pessoas a serem hospitalizadas. A situação é de tamanha magnitude que os taxistas locais passam a atuar voluntariamente, transportando os feridos. Para tanto, os postos de abastecimento oferecem combustível de graça, e as famílias também passam a cozinhar a todos os participantes. Certa ordem continua sendo mantida graças ao senso moral dos moradores. Isso fica bem claro, quando os taxistas locais acusam Man-seob de querer levar vantagem em cima do jornalista estrangeiro. Não que ele necessariamente fosse uma pessoa corrupta, mas sua condição e a vida dura da cidade grande, onde se tem poucos reais amigos, o fazem aderir às tramoias e golpezinhos do dia-a-dia.

Créditos: KoreaPost

Quando a história começa a desenvolver-se e o espectador é levado a adentrar mais ainda nos protestos, é possível observar que pais e avós também participam das manifestações, sendo agredidos e mortos. A solidariedade entre os participantes faz com que aquele cidadão de Seul vá aos poucos modificando a sua visão e postura com relação ao que assiste. Ele já não consegue compreender tamanha brutalidade das autoridades. É inclusive chamado de comunista por um agente policial do governo. Um estudante, Gu Jae-Sik (Ryu Jun-yeol) que sabe inglês, junta-se à dupla, passando a ser um ator importante para a educação e conscientização do taxista. Ele, um jovem normal, sem quaisquer ideais políticos, participava de um concurso musical na universidade quando os protestos começaram e seus amigos foram feridos. A atuação heroica de Gu Jae-Sik que chega a dar a própria vida, para que o jornalista alemão fosse salvo e com seu material documentado poder mostrar ao mundo o que se passava naquela pequena cidade, provoca uma espécie de culpa em Man-seob e uma transformação total. Aqui há uma crítica simbólica sutil e indireta à prepotência dos moradores de Capitais, que não raramente, acham-se incumbidos de maiores e melhores códigos morais, políticos e civilizacionais que seus compatriotas do interior… Seria mesmo o caso?

No entanto, o motorista, com a ajuda do jornalista e dos colegas taxistas locais, tem a chance de voltar a Seul. No retorno, a vida corre normalmente nas demais cidades próximas. Em uma particularmente, uma celebração à Buda está ocorrendo. Ele compra sapatos novos e caros para a filha com o dinheiro que conseguira, coisa que antes nunca teve a possibilidade de fazer. Depois, entra em um restaurante para comer e escuta os clientes comentando sobre o que se passa em Gwangju. Todos parecem acreditar nas palavras da grande mídia e do governo que afirmam terem os policiais e as autoridades sido agredidos e mortos. Neste momento, o personagem principal depara-se com um espelho e sua consciência o leva a retornar e trazer o jornalista alemão a todo custo de volta para Seul. Ele, que antes insistira que era perigoso estar na cidade, agora incentiva Peter a continuar gravando os corpos de jovens mortos.

Esta produção cinematográfica traz uma importantíssima mensagem em épocas de grande recessão econômica, crise das democracias e nova ascensão da ultradireita no mundo todo, ao cidadão comum. Afinal, este é uma peça chave para a prevenção de contextos como os que se testemunhou no período entre o final dos anos 1920 e início dos anos 1930, onde o mundo encontrou-se em depressão econômica e assistiu passivamente a ascensão de governos extremistas, apoiados por suas respectivas populações, desencadeando mais tarde na Segunda Guerra Mundial. Com interpretações magistrais, “O Motorista de Taxi” é um exemplo do amadurecimento do cinema sul-coreano que parece atualmente estar vivendo seu ápice.

Os personagens principais do filme. Foto: Youtube
Os personagens principais do filme. Créditos: Youtube

País: Coreia do Sul | Direção: Hun Jang |Roteirista: Eom You-Na e Jo Seul-Ye| Elenco: Song Kang-ho, Thomas Kretschmann, Abel Ryu, Cha Soon-bae | Duração: 137min | Ano: 2017 

Parasita: Uma crítica à desigualdade sistêmica, sem pretensões revolucionárias

Por Alessandra Scangarelli (Resenha completa em KoreaPost / Intertelas)

Aqueles que durante o século XX lutaram por um mundo mais igual e sem pobreza salientariam aos líderes e intelectuais de hoje que não adianta aumentar a renda e o poder de consumo das massas, sem ao mesmo tempo, promover a sua conscientização política. E este é o quadro que encontramos em “Parasita”, onde Ki Taek (Song Kang Ho) é um pobre e desempregado pai de família. Ele mora com sua esposa Choong Sook (Jang Hye Jin), o filho Ki Woo (Choi Woo Sik) e a filha Ki Jung (Park So Dam) em um apartamento úmido e infestado de insetos, em uma área de baixa renda de Seul. Um dia Ki Woo leva seu amigo Min Hyuk (Park Seo Joon) para uma loja de bebidas nas proximidades e descobre que seu amigo (que está indo estudar no exterior) vai abandonar uma vaga de professor particular.

O amigo de Ki Woo pede para que ele assuma o cargo, enquanto estiver no exterior. Logo, Ki Woo entra na vida da rica família Park e um plano começa a ser articulado por ele e seus familiares para saírem do sufoco econômico que se encontram, custe o que custar. Mesmo que isso seja “parasitar” na renda e no estilo de vida dos abastados Parks, que por sua vez também são “parasitas” do sistema, obtendo uma fortuna que não sabemos exatamente de onde sai… Contudo, a família de Ki Woo e seu desespero faz com que se tornem praticamente desumanos e pouco civilizados a ponto mesmo de tentar destruir a vida de quem, igual a eles, sofre os mesmos problemas sociais e econômicos como a governanta Moon Gwang, interpretada pela grande atriz Lee Jung Eun. Ela que será o personagem a promover uma reviravolta radical no andamento da narrativa, trazendo resultados inesperados.

A trama criativa, com pontos de virada que trazem novas situações, tornam o conjunto do enredo intrigante e envolvente ao espectador, deixando o suspense, o drama social e psicológico presente até o fim, sem esquecer a crítica que serve de base para a formação desta história. Isso somado a uma cenografia com locações que se alternam entre o bairro pobre e o rico, e a casa pobre e rica que passam a ter uma importância tal para o desenvolver dos acontecimentos, que não seria uma inverdade classificar estas residências, em especial a da família Park como também personagens atuantes na história.

Crédito: IMDb

A fotografia com posicionamentos, enquadramentos e movimentos de câmera que não são certamente revolucionários, mas saem do comum que se pratica, dão um ritmo dinâmico ao filme, da mesma forma que auxiliam a manter a harmonia entre os momentos de tensão e de calmaria. Diversas referências de outros cineastas são possíveis de serem detectadas, mas uma que chamou atenção desta autora foi a da cena final, em que a violência lembra a do japonês Takashi Miike e de seu fã ocidental Quentin Tarantino.

Por fim, não se pode terminar sem falar da interpretação que se destaca pelo seu conjunto. Todos os personagens, principais e secundários, têm importância na medida certa para a história. Nenhum fica sem significado, ou esquecido ao longo do caminho. Esta característica lembra um pouco do norte-americano Robert Altman, cujos filmes com relação aos atores e personagens destacavam-se pelo seu conjunto, sendo difícil ressaltar um ou outro. Para que esta fórmula seja bem-sucedida é preciso contar com o trabalho de atores que saibam imprimir a interpretação ideal, sem concorrer com os demais.

Portanto, o chefe da família Park (Lee Sun Kyun), assim como sua esposa Yeon Kyo (Cho Yeo Jeong), o filho ainda criança Da Song (Jeong Hyun Jun) e a filha adolescente Da Hye (Jung Ji So) atuam como pessoas totalmente desconectadas com o mundo a sua volta, vivendo em uma bolha artificial que criaram para si, onde podem viver em um mundo seguro e perfeito. Eles praticamente desconhecem problemas maiores que apenas a saúde do filho e seu comportamento. Uma bolha em que podem adquirir e descartar pessoas facilmente e onde os faz também serem vítimas da malícia e astúcia humana, em especial de quem está fora da bolha, tentando sobreviver à guerra. A passividade desta família de ricos é tão grande que desconhecem a casa onde vivem e o que ocorre nela quando estão fora, e mesmo quando estão nela.

Já a família “parasita” pobre de Kin Woo enquadra-se perfeitamente na situação de quem está tão pressionado pelas suas dificuldades econômicas que perdeu em grande parte a capacidade civilizatória que compete à humanidade. Tornaram-se sobreviventes, desesperados pela falta de emprego, de perspectivas, fazendo bicos e tendo empregos temporários para terem “um teto”, mesmo sendo uma espelunca que os mantém abrigados. Contudo, até isso se perde com o tempo, levando as atitudes da família a serem mais impensadas ainda.

Ki Taek (Song Kang Ho) o pai de família que mora com sua esposa Choong Sook (Jang Hye Jin), o filho Ki Woo (Choi Woo Sik) e a filha Ki Jung (Park So Dam), busca sobreviver a falta de emprego custe o que custar. Crédito: IMDb.
Ki Taek (Song Kang Ho) o pai de família que mora com sua esposa Choong Sook (Jang Hye Jin), o filho Ki Woo (Choi Woo Sik) e a filha Ki Jung (Park So Dam), busca sobreviver a falta de emprego custe o que custar. Crédito: IMDb.

Pessoas que atingem uma condição assim não tem tempo para grandes reflexões políticas, por isso se tornam eternamente submissas a este sistema. Tornam-se individualistas ao extremo, ainda que atuem pelo bem de suas famílias, mas em detrimento da condição de outros. Não seria de espantar, pois os valores que aprenderam, mesmo nesta situação difícil, é de que devem preocuparem-se com os seus. A situação não é diferente para os endinheirados Park. Não existe evolução social, se não se leva em conta àqueles muitos que não têm relação sanguínea alguma com você. Todos dependemos uns dos outros.

Ainda é importante salientar que as situações apresentadas em “Parasita”, em especial quando uma chuva forte cai na cidade, lembram e muito os problemas que enfrentamos dia-a-dia nas cidades brasileiras, o que aponta para uma última questão. Existem pobres em todos os cantos do Globo, inclusive no mundo desenvolvido. A diferença está nos níveis de pobreza que são encontrados nos países e que estão relacionados ao desenvolvimento econômico e social que cada nação conseguiu atingir.

A Coreia do Sul, assim como o próprio Estados Unidos são países considerados desenvolvidos, mas que entre o grupo de nações desenvolvidas apresentam índices sociais preocupantes, podendo até em uma situação ou outra encontrar semelhanças com os problemas enfrentados no mundo emergente e subdesenvolvido. Por isso, não existe situação ideal. As mudanças de um país para melhor, assim como do mundo em geral, exigem uma reflexão política importante que levará a novas soluções econômicas e sociais. Desta forma, os que mais sofrem com as desigualdades sistêmicas, ou compreendem que elas existem são os aptos a realizar estas transformações, pois dificilmente quem vive no conforto do topo da pirâmide social vai querer modificar este contexto. “Parasita” possibilita tais reflexões e até a sua crítica não revolucionária, algo parecido que se vê em Coringa e Bacurau, pode ter um efeito interessante, pois ao não dar respostas, convidam o espectador a procurá-las.

O diretor Bong Joon-ho segura o prêmio da Palma de Ouro no 72º Festival de Cannes conquistado por seu filme “Parasite”. Crédito: France 24.

Ficha técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Bong Joon Ho |Roteirista: Bong Joon Ho | Elenco: Kang Ho Song, Sun Kyun Lee, Yeo Jeong Jo, Jang Hye-Jin, Choi Woo-Sik, Park So-Dam, Lee Jung-Eun | Duração: 2h12min