Via Koreapost / Korea JoongAng Daily

Por favor, punam os usuários RPS que desvalorizam a imagem de idols menores de idade como se fossem seus brinquedinhos sexuais“. Uma petição endereçada a Blue House (sede do governo coreano) com esse título, havia conquistado cerca de 212 mil assinaturas até janeiro, quando foi publicada na internet.

RPS, sigla para Real Person Slash, é um subgênero dentro das fanfics que é categorizada com qualquer tipo de conteúdo que fantasia uma relação homoafetiva entre pessoas, mesmo que não tenha relação com a verdadeira orientação sexual ou relações que elas tenham na vida real. Um exemplo entre as produções do gênero é uma história centrada no par entre Kames T. Kirk e Spock, do filme “Star Trek: The Motion Picture” (1979), também conhecido por Kirk/Spock ou Spirk.

Apesar que não ter sido algo pretendido pelo escritor original, alguns fãs especularam uma relação homoafetiva entre os dois personagens masculinos por causa de suas cenas juntos. Muitos contos fictícios começaram a ser produzidos, tendo como foco os elementos românticos e sexuais que eram anteriormente interpretados apenas como uma ‘camaradagem‘ dos personagens.

Crédito: YouTube.

Na Coreia, o termo RPS, ou de acordo com o que foi definido pela petição, parece explicitamente referir-se ao conteúdo que descreve relações extremamente eróticas entre dois homens, geralmente integrantes de grupos de K-pop. Este tipo de conteúdo, no entanto, veio a tona pela primeira vez em razão de um rapper chamado Son Simba, que se deparou com os RPS quando um de seus fãs escreveu sobre ele. Chocado com o que viu, ele reportou a situação publicamente para seus seguidores do Instagram, e uma batalha iniciou.

Os debates online sobre os RPS transformaram-se em algo fora da internet em 19 de janeiro, quando dois políticos do Partido do Poder do Povo — Ha Tae-keung e Lee Jun-seok, um ex-integrante do Conselho Supremo do partido — entrou com um pedido de investigação sobre os criadores e distribuidores de RPS na delegacia de polícia de Yeongdeungpo, no oeste de Seul. Lee inclusive foi além e admitiu publicamente ter sido vítima de RPS quando apareceu no programa televisivo “The Genius” da tvN, em 2015.

Ha iguala o crime ao mesmo nível do caso Nth Room (Enésimo Quarto), o qual chocou a nação no ano passado, quando foi descoberto que o serviço de mensagens Telegram estava sendo usado como uma ferramenta por criminosos para produzir, vender e distribuir vídeos sexualmente expositivos, alguns com menores de idade envolvidos. Outro crime sexual digital comparado aos RPS é a pornografia “falsa” (deepfake). Uma petição similar, que pedia pela punição daqueles que criavam e distribuíam pornografia deepfake ilegalmente, fazendo montagens com mulheres famosas, já reunia 380 mil assinaturas no site da Blue House em janeiro.

Deepfake realizado entre a foto original à direito, de jennifer lawrence, e a deepfake à esquerda, com o rosto de steve buscemi. Crédito: https://appinventiv.com/

Deepfake, uma união das palavras “deep leaning” e “fake”, usa tecnologias artificiais e sofisticadas para trocar alguém em um vídeo ou imagem por outra pessoa. Muitas celebridades mulheres tem passado por essa situação, tendo seus rostos editados e colocados em vídeos de pornografia.

Desde que a pornografia deepfake vem causando essa polêmica, muitos estão argumentando que os RPS são tão imorais quanto e que os idols de K-pop estão sendo usados como objetos de exploração sexual. A batalha, que inicialmente era sobre defender os direitos dos idols, se transformou em algo diferente: um lado diz que os RPS são um aspecto inofensivo da cultura pop, que sempre esteve presente nos fandoms de K-pop, enquanto outros categorizam os RPS como um crime.

É uma cultura?

Ao contrário do que alguns podem acreditar, RPS, ou fanfic como chamam, se tornou uma sub cultura da indústria do K-pop desde o início. Fãs fervorosos da primeira geração de grupos como H.O.T e G.O.D gostavam de escrever e ler histórias deste tipo sobre seus integrantes favoritos.

No início dos anos 2000s, comunidades online de fãs de grupos populares possuíam um espaço próprio para suas fanfics, onde podiam compartilhar as histórias em conjunto. Alguns desses trabalhos se tornaram tão populares que foram publicados fisicamente. O nível de erotismo variava muito, desde histórias com foco apenas na amizade até aqueles em que se imagina um par romântico, que descreve cenas íntimas de forma muito detalhada.

Embora nunca reconhecido publicamente, a indústria do K-pop parece admitir que os RPS eram algo muito próprio dos fandoms. Agências de K-pop até mesmo usavam esse conteúdo como uma forma de estratégia de marketing para promover seus grupos. Em 2006, a SM Entertainment realizou seu primeiro concurso de fanfic para a boy band TVXQ. “Nós queremos passar tempo interagindo com nossos fãs e encorajando criatividade saudável entre eles”, explicou a agência. “Esperamos estimular uma cultura de fãs de forma positiva”.

Integrantes do tvxq. Crédito: twitter

“Especialmente nos anos 90s, o conceitos de ‘preatty boys’ (homens bonitões) primeiro veio a tona e depois se tornou uma tendência”, explicou o cítico de cultura pop Mimyo em relação ao porquê os fãs gostam de criar fantasias com relações homoafetivas entre idols. “Os fãs gostam desse conceito porque são capazes de escapar de suas realidades e conforme isso de tornou parte de uma cultura, as fanfics homoafetivas se tornaram populares”.

O professor Jang Min-gi do Departamento de Mídia e Comunicação da Universidade Kyungman, o qual pesquisa a cultura fandom, também sugeriu a ideia de homossexualidade como uma forma de amor verdadeiro. “É algo que aparece com frequência nas pesquisas no psicológico feminino que consomem conteúdo de narrativas homoafetivas de idols masculinos, que elas simpatizam muito com o processo de superar taboos ou construções sociais, encontrando amor em apenas ser você mesmo”, avaliou Jang.

“Mesmo que o gênero de alguém não seja relevante — eles inclusive preferem esse estilo para escapar de suas realidades, não para se lembrarem delas. Por um momento, narrativas heterossexuais podem levar a tantas complicações relacionadas à vida real como gravidez indesejada, abuso, estupro ou molka (filmagem ilegal) — eles querem se esquecer disso e no lugar usam histórias homossexuais como narrativas principais”.

É crime?

Desde que os RPS ganharam atenção do público pela primeira vez, uma onde de críticos de cultura e experts se apresentaram para retaliar as alegações de que ela é tão famosa quanto a Nth Room. “Não vejo problema em dizer que pode haver problemas éticos [com RPS] e podemos precisar examinar o assunto novamente, independente do fato de que foi um fator importante da cultura de fandom e forneceu uma estímulo que impulsionou essa comunidade ”, escreveu o colunista e crítico cultural Wi Geun-woo em sua conta no Instagram em 14 de janeiro.

“Eu acredito que a maioria atual que argumenta que RPS [é um crime] incluindo Ha, não está colocando essa discussão na mesa para melhorar a cultura K-pop, mas querem equipará-la a crimes contra vítimas femininas cometidos por homens e sua cultura de objetificar sexualmente as mulheres ”, escreveu ele. “Em outras palavras, eles não querem resolver problemas como RPS e Nth Room. [Ao invez disso], eles querem colocá-los juntos para que possam evitar a responsabilidade sobre a solidariedade masculina no caso Nth Room.

Jang acha que essas chamadas vítimas do RPS e os defensores da punição não sabem realmente o significado da exploração sexual. “Nenhum idol de K-pop feminino ou pessoa real quer admitir publicamente que suas fotos estão espalhadas nas salas de chat ou que seus rostos são manipulados em pornografia deepfake”, disse ela.

“O próprio fato de que eles [personagens RPS] podem sair por aí falando que são as vítimas significa que não é um problema sério para eles. Se eles realmente foram humilhados ou explorados sexualmente ou se essa prática [RPS] deve ser definida como um crime sexual, então é muito importante que eles superem seu constrangimento — embora possa ser atormentador e difícil — e se apresentem para dizer que eles são as vítimas … A narrativa por si só não pode dizer que são vítimas e que vão processar. Podemos dizer que eles não sabem realmente o que significa RPS, ou mesmo a definição de RPS que eles definiram”.

Ilustração de dois rapazes representando as relações homoafetivas das polêmicas rps. Crédito: korea joongang daily

A questão permanece – o RPS é punível pela legislação criminal atual? De acordo com a advogada Kim Young-mi, porta-voz da Ordem dos Advogados da Coreia, depende do grau de descrição erótica da história para ela poder ser rotulada como crime sexual. “Mas simplesmente descrever ou escrever que eles tiveram um relacionamento sexual não pode ser aceito como obsceno – precisa ser descrito de forma muito direta e obscena”, disse Lee. O advogado Lee Eun-ui, especialista em casos de crimes sexuais, afirma que certos RPS podem ser processados ​​de acordo com o Artigo 13 da Lei sobre Casos Especiais de Punição de Crimes Sexuais.

De acordo com o artigo, “uma pessoa que envia a outra pessoa quaisquer palavras, sons, escritos, imagens, imagens ou outras coisas que possam causar uma sensação de vergonha ou aversão sexual por telefone, correio, computador ou outro meio de comunicação, com a intenção de despertar ou satisfazer seus próprios impulsos sexuais ou de outra pessoa, será punido com prisão com trabalho por não mais de dois anos ou com uma multa não superior a cinco milhões de won [$ 4.520]”.

“Então [RPS] pode ser fundamentado como um ato obsceno, mas quando entra em conflito com a liberdade de expressão, há uma possibilidade maior de o tribunal ficar do lado deste último do que do destinatário”, disse Lee. “Mas se a parte diretamente envolvida, em suma a pessoa que foi sexualmente objetificada, argumentar que sua reputação foi prejudicada e ela foi insultada nos termos do Artigo 13, o tribunal pode decidir em favor dos direitos pessoais do indivíduo [em vez da liberdade de expressão ] e [RPS] seriam julgados como um crime e um ato ilegal”.

Integrantes do bts. Crédito: pop line

“Sim, as celebridades ganham fama e riqueza com a atenção e o amor do público”, disse Lee. “Mas estamos consumindo seu talento e carisma. Vê-los como um objeto de provocação é uma questão totalmente diferente … E eu acredito que pode haver um método diferente de restrição em relação aos idols e celebridades, porque eles ganham a vida com a atenção do público, então é claro que é extremamente difícil tomar medidas decisivas contra o assunto. Antes de podermos legislar leis, precisamos discutir por que precisamos criar essa regra. E para que isso aconteça, precisamos de dinheiro para fornecer uma esfera ativa de discussão sobre se é ou não certo colocar indivíduos existentes como os personagens principais de [RPS] e obscenidade”.

“Em vez disso, no entanto, é sempre sobre o mostrar e debater”, Lee continuou. “Não apenas sobre RPS, mas para todas as outras controvérsias sociais que as pessoas ficam entusiasmadas – seu propósito [dos políticos] é ‘mostrar’ que estão lidando com o problema em questão, em vez de realmente localizar a raiz do problema. Depois que tudo foi filmado e exposto, no final das contas não conseguimos atingir o alvoou criar uma mudança que valha a pena”.



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