Por Mateus Nascimento

Se você gosta de cinema coreano para pensar em questões sociais de nosso tempo, gostaríamos de te sugerir o filme Poesia, de Lee Chang-Dong.

Lançado em 2010, Poesia (ou 시, com pronúncia original “Shi”) desponta como uma das obras mais filosóficas do diretor, recentemente reconhecido pelo filme Burning (Em chamas, em português), inspirado no conto Queimar Celeiros, de Haruki Murakami. Por sua vez, Poesia conta a história da sofrida dona Mi-ja, uma avó na casa dos 66 anos que descobre princípios da doença de Alzheimer após diagnóstico de seus esquecimentos leves. É brilhantemente interpretada por Yoon Jeong-hee (1944-), uma das atrizes mais reconhecidas da Coreia do Sul desde, pelo menos, 1967, com variados prêmios de interpretação de papéis dramáticos.

O drama principal é acompanhado por outro em paralelo: Mi-ja cuida de um neto em tempo integral. Sozinha e sem ajuda dos progenitores, ela descobre, entre as ações de seu neto, o estupro coletivo de uma estudante da mesma escola.

Cartaz do filme. Créditos: Amazon.

A história é impactante por vários motivos. Vemos na tela o que seria um drama do envelhecimento na Coreia do Sul, questionando todas as nossas expectativas e estereótipos do sucesso das políticas sociais das sociedades asiáticas. Soma-se a isso a questão social do abandono parental pela qual podem passar os filhos de toda uma geração orientada para o sucesso profissional acima de tudo e todos, o impacto de doenças degenerativas ainda sem cura no planeta, embora alguns países estejam melhor preparados do que outros etc. São muitos dramas e questões, mas dona Mi-ja brilha na tela por representar um questionamento que aparece nas entrelinhas da narrativa: a possibilidade de nos encontrarmos conosco mesmos no exato momento da crise, do trauma, da estafa ou da situação limite.

Afinal, como seria possível para alguém como ela, abandonada e abraçada à própria determinação de viver, reinventar-se diante de algo que a corrói por dentro? Nisso, entra a poesia, a poética e o ponto central, mais provocante: uma senhora sem quaisquer condições decide ser poeta e praticar aquilo que muitos poetas apregoam, isto é, uma observação cuidadosa e paciente do mundo ao redor.

Mesmo com a idade avançada, Mi-ja ainda trabalha ocasionalmente para complementar a renda, a ponto de se submeter a serviços em casa de famílias para conseguir resolver suas necessidades e as do neto.

Yoon Jeong-hee é dona Mi-ja no filme Poesia, de Lee Chang-Dong (2010). Créditos: Pinterest.

Quando os pais dos estupradores descobrem as atrocidades cometidas por seus filhos e pelo neto de Mi-ja, a protagonista é inserida em uma grande negociação indenizatória para que todos os envolvidos saíssem ilesos, sem registros criminais que pudessem afetar os negócios de suas famílias. Uma condenação ou uma exposição exagerada poderia prejudicar eternamente o futuro do negócio dos pais (negócio a ser destinado aos filhos, roboticamente destacados para a tarefa) e, também, o desenvolvimento social dos meninos, embora a primeira preocupação fosse mais forte.

Certamente, a querida dona Mi-ja já é uma vencedora por suportar tamanhas demandas sendo quem é, materialmente falando.

Nesse somatório de absurdos, de coisas que nos constrangem e irritam (traço típico das construções fílmicas do diretor), reside a poética de Lee Chang-Dong: como um conhecedor da cultura coreana (ele foi funcionário do Ministério da Cultura do país), ele aponta com o dedo em riste, sem pudor, para dentro da comunidade sul coreana, e nos lança as mesmas questões, mostrando através das imagens que essa situação dramática da humanidade tem a ver com todos os participantes da comunidade humana, sobretudo por nos calarmos diante de situações como essas. Todos temos alguma culpa e deveríamos ter o ímpeto de procurar alguma resposta diante da dor dos outros. 

Ao propor um enredo com uma senhora que se descobre poeta após (repito: após!) saber ser portadora de Alzheimer, Lee está sugerindo, pelo menos, uma tomada de posição. Perceba desde já que cada plano carrega, pelo menos, duas exclamações: a situação de Mi-ja não é inverossímil! A situação de Mi-ja deveria ser inaceitável! Contudo, Mi-ja mora na Coreia, no Brasil e em toda parte do mundo que não se permite refletir sobre envelhecimento. Bom filme.

Trailer do filme no Youtube

Ficha técnica: Poesia (Shi), de Lee Chang-dong (Coreia do Sul, 2010).


Mateus Nascimento

Historiador, doutorando em História pela UFF, com mestrado e graduação na mesma área, todos no âmbito no Instituto de História (IHT) da Universidade Federal Fluminense. É pesquisador do MidiÁsia (Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática Contemporânea) e do CEA (Centro de Estudos Asiáticos), ambos na UFF, além de pesquisador associado do Instituto Cultural Brasil-Japão e colunista na Revista Intertelas. Ao longo de sua formação, tem se dedicado a estudar as histórias e culturas da Ásia, com interesse especial na cultura japonesa, na cultura nipo-brasileira, e nos fluxos culturais contemporâneos entre Ásia e Brasil.

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