Estão abertas as inscrições para 1ª oficina online de Haikai na quarentena

No próximo dia 21 de setembro, segunda-feira, com início às 14 horas, o professor Mateus Nascimento, mestre em história pela Universidade Federal Fluminense e praticante do haikai/haicai pelo Instituto Cultural Brasil-Japão/ICBJ-RJ, ministrará uma oficina abordando um pouco da história dessa poesia, conceitos da cultura japonesa e ensinará você a começar a prática do haikai como terapia nesse tempo de pandemia. As vagas são limitadas

haikai (ou haicai como é conhecido no Brasil) é uma poesia japonesa caracterizada pela simplicidade e pela concisão, cujo principal expoente é Matsuo Bashô (1644-1694). Tradicionalmente, o poema haikai divide-se em três linhas de 5-7-5 sílabas e é composto a partir de uma observação do/da praticante sobre as coisas que acontecem à sua volta, com destaque para os elementos da natureza.

Nessa oficina serão abordados os seguinte tópicos: 1) a prática do haikai como terapia à moda japonesa; 2) alguns exemplos de haikai e seus praticantes na história do Japão; 3) os elementos do haikai tradicional: kigo, sattori e kireji; 4) o haikai no Brasil. Após essa explanação os participantes serão convidados a tentar praticar o haikai com alguns elementos direcionados pelo professor. O valor da oficina é de R$ 30,00. Para realizar a sua inscrição, acesse o site do Sympla.

NC Curadorias oferece curso sobre “A Cultura Pop no Mundo Multipolar: lições do Japão e da Coreia do Sul”

Via Revista Intertelas

De 9 de setembro a 11 de novembro, a Nélida Capela Curadorias realiza o curso de extensão “A Cultura Pop no Mundo Multipolar: lições do Japão e da Coreia do Sul”, que será ministrado pela especialista Krystal Urbano (Krystal Cortez). A iniciativa tem o apoio do Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática Contemporânea (MidiÁsia) e do Centro de Estudos Asiáticos (CEA) da Universidade Federal Fluminense (UFF).

O valor do curso está em R$ 300, 00. As aulas serão online e ao vivo. O link de acesso será enviado no email de confirmação da inscrição – e será o mesmo para todos os encontros. Guarde seu email com essa informação. Material parcial das aulas e gravações serão disponibilizadas no Google Drive – alunos terão acesso por link. O minicurso terá emissão de certificado. As vagas são limitadas.

Clique no folder para realizar a sua inscrição. Crédito: NC Curadorias.

Segundo informações dos organizadores, o curso visa discutir o fenômeno da cultura pop, a partir de um olhar ancorado no Japão e Coreia do Sul e suas expressões pop midiáticas – tais como os mangás, animês, dramas de TV, reality e talk shows, games, música pop e seus idols com estilo e moda associados. O curso promove, portanto, uma reflexão teórica-metodológica acerca dos desafios e oportunidades que se apresentam no âmbito dos estudos do Pop, no contexto de um mundo pós-ocidental, bem como seus reflexos e desdobramentos no Brasil.

Krystal Urbano é doutora (2014-2018) e mestre (2011-2013) em comunicação pela Universidade Federal Fluminense (PPGCOM|UFF). Jornalista (2002-2006) e especialista em Epistemologias do Sul (2017-2018) pelo Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO|Argentina). Fundadora do Asian Club (Estudos de Mídia|UFF), coordenadora adjunta do MidiÁsia-UFF e integrante da Red Iberoamericana de investigadores en Anime y Manga (RIIAM), além de coordenar a área de Estudos do Pop Midiático como membro do colegiado da Academia Nipo-Brasileira de Estudos da História e Cultura Japonesa do Instituto Cultural Brasil-Japão (ANBEHCJA-ICBJ). Atualmente, realiza pós-doutorado no Programa da Pós Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (PPGCOM|UFF). Para mais informações sobre a ementa do curso, inscrições e valores, acesse o site do Sympla.

Os cem poemas dos cem poetas

Por Roberto Schmitt-Prym

Cem poemas de cem poetas (Ogura Hyakunin Isshu) é uma coletânea organizada pelo poeta e crítico literário Fujiwara no Teika (1162–1241). É ainda hoje a mais querida e conhecida antologia poética japonesa, ocupando esse status desde que foi composta, quase oitocentos anos atrás. Teve um papel decisivo na formação do senso estético japonês: seus poemas são tema de incontáveis pinturas, peças teatrais, objetos de decoração, canções, filmes, padrões têxteis, xilogravuras, ilustrações e muitas outras manifestações artísticas. No século XX, seus poetas foram representados em anime e manga. No século XXI, surgem em games e aplicativos. Um conhecimento mesmo superficial desse conteúdo artístico e histórico é passaporte para uma fruição muito mais rica de inúmeros artefatos culturais japoneses — e até mesmo brasileiros.

Capa do livro Cem poemas e cem poetas. Créditos: Editora Bestiário.

No fim da vida, recluso em sua casa de campo na colina de Ogura, Teika escolheu cem poemas, cada um de um autor diferente, e escreveu cada um deles em papel acartonado para caligrafia. Em seguida, afixou esses quadros às divisórias de correr, criando uma exposição poética. Os cem poemas waka (5 versos de 5-7-5-7-7 sílabas) estão dispostos em sequência mais ou menos cronológica, cobrindo um período que vai do século VII ao XIII, como que representando o desenvolvimento da poesia japonesa até aquele momento.

No Japão, os poemas contidos em Cem poemas de cem poetas fazem parte do currículo do ensino médio. Há um baralho de cartas baseado na coletânea, e o jogo de karuta é, até hoje, uma brincadeira que faz parte das festividades do ano-novo. Existe também uma versão competitiva do mesmo jogo, com campeonatos nacionais no Japão e em diversos países do mundo, incluindo o Brasil.

A presente tradução não tem por objetivo ser uma “versão brasileira” do jogo de cartas pois, para isso, eu precisaria ter dado prioridade à métrica dos poemas, com perda de outros elementos poéticos que eu considero mais importantes (e que eu explico mais adiante nesta Introdução). Ainda assim, este livro pode ser útil para quem se interessa por karuta, pois fiz questão de incluir os poemas em japonês e em transcrição, assim como as diferentes versões do nome de cada poeta — tal como é conhecido no mundo da literatura e no contexto do jogo de cartas.

Exemplo da paginação, com ilustrações de Arakawa Kamejirô. Créditos: Editora Bestiário.

Acompanham cada poema uma breve biografia dos autores e algumas notas para auxiliar na interpretação do poema — como se encontra, no Japão, em qualquer livro de bolso dedicado à coletânea. As ilustrações são de Arakawa Kamejirô, de uma edição da antologia de 1903 (vide Referências no final do livro). Para evitar que os paratextos sufoquem os poemas, deixei as explicações, ilustrações e biografias do lado esquerdo, nas páginas pares. Os poemas ficam em destaque, com tipografia maior, nas páginas ímpares. Alguém que prefira ler os poemas sem “instruções de uso” pode focar apenas nas páginas ímpares, e os que gostam de explicações mais detalhadas não vão precisar ir até o fim do livro atrás de notas desconfortavelmente entrincheiradas longe dos poemas a que se referem.

Por um lado, a fruição de poesia traduzida sem guias de leitura tem muitos defensores no Brasil, e pode servir como um teste bastante rigoroso da autonomia do texto poético em português. Por outro lado, “autonomia do texto” é um conceito extremamente problemático e, no Japão, o uso mais comum que se faz de literatura clássica envolve necessariamente notas, explicações e biografias. Os próprios poemas, na época em que foram compostos, eram anotados com títulos, prólogos e outros textos auxiliares. Em tradução, as notas e biografias compõem um retrato da época e dos autores dos poemas, funcionando como uma espécie de “almanaque da Antiguidade japonesa”.

Ficha técnica: Cem poemas de cem poetas. Tradutor: Andrei Cunha (UFRGS). Publicação: Bestiário/Class. Ano: 2018, p. 266.

As entrelinhas do jogo: o caso de Ghost of Tsushima

Por Mateus Nascimento e Douglas Almeida*

Chegou a hora e a vez de falarmos de videogames, Ásia e as possíveis utilizações desse material para além do ludicidade! Faz muito tempo que o público dos games vem aguardando um título de mundo aberto baseado na Ásia e as utilizações possíveis destes produtos eu estão chegando cada vez se torna mais evidente: não são só jogos, são produtos que armazenam espaços de construção de conhecimento.

Nesta modalidade, o chamado mundo aberto, as decisões do jogo e a forma de desenvolvimento dos personagens é mais livre do que num jogo tradicional com etapas e trajetórias pré-definidas. Estamos falando de jogos que permitem a cada jogador a liberdade de explorar as terras e vivenciá-las do seu jeito e no seu tempo, quase que como entrando na telinha (leia o livro Homo Ludens de Johan Huizinga, para compreender o papel do jogo e dos seus elementos formadores na sociedade, ok?).

Some-se a isso o fato de que essas terras e história são as de países asiáticos tradicionalmente envoltos em mistérios, lendas e narrativas e personalidades icônicas – o que torna a diversão ainda mais emocionante. No que diz respeito ao Japão, a espera de alguns finalmente acabou: com vocês o recém lançado Ghost of Tsushima!

Versão física do jogo Ghost of Tsushima. Créditos: Amazon.

Na verdade, os desenvolvedores da Sucker Punch Productions (1997 – atualmente) reinauguraram esta que já era uma área consolidada na indústria dos games de console. Alguns games já trouxeram cultura japonesa em suas narrativas. Exemplos não faltam: a série Yakuza (2005-2020), Ōkami (2006), Way of the Samurai (2002), Samurai Warriors (a “eterna franquia” iniciada em 2004 constantemente atualizada), o especial componente da franquia Total War, Total War Shogun e suas atualizações (2000) para citarmos alguns dos mais conhecidos mundialmente. Contudo, o destaque a Ghost of Tsushima, lançado em 17/07/2020 reside na sua tecnologia de simulação histórica, precisão dos elementos dessa simulação e no design em modo aberto (modo de mundo aberto, ou openworld).

Um dos maiores espaços de exibição de tecnologia de jogos, a Paris Game Week, apresentou o jogo em 2017, empolgando todo um público, com a proposta do enredo: o jogador assume o controle de um samurai, Jin Sakai, participante de um dos eventos mais controversos da história do Japão, as invasão mongólicas de 1274. O jogo se passa em Tsushima, a ilha do arquipélago japonês mais próxima da península coreana, de onde os navios da primeira invasão teriam partido.  

Vemos a preparação dos samurais locais que deverão fazer frente aos primeiros movimentos do exército mongol. A partir dali assumimos o papel do protagonista Jin Sakai, samurai cabeça de seu clã e servo de seu tio Lorde Shimura, que terá como objetivo sobreviver ao ataque e resistir a invasão. Um dos pontos altos de seu enredo é sua construção do personagem principal, que inicia como um samurai submetido a um código de conduta guerreiro extremamente rígido que aos poucos passa a questionar seus próprios princípios, para ser capaz de derrotar a horda inimiga que se usa de artifícios de guerra pouco convencionais e menos honrados do que normalmente se imagina.

Cena do jogo. Créditos: Playstation Store

A inserção desse personagem samurai, suas dúvidas e a forma de sua evolução remete as obras do cinema japonês especializado nesse grupo social histórico, samurai. Especialmente famoso é o diretor Akira Kurosawa (1910-1998), o qual é homenageado no jogo através de um modo de câmera do jogo que busca repetir os traços nostálgicos das suas películas cinematográficas, de quando produzia cinema tradicional em preto e branco.

Os duelos entre samurais, o questionamento da honra, a busca pela benção sagrada dos santuários e o constante embate contra as hordas mongóis proporcionam uma narrativa e aventuras que estruturam a expectativa de 50-60 horas de gameplay, considerado o tempo mínimo para realizar esta história.

Além disso, a ambientação, com detalhes e repleto de referências a diversos lugares reais da história japonesa, chama a atenção pelo seu poder de convencimento. Figuras históricas reais aparecem na história, com trechos que contam fatos dessa história da cultura do Japão para o jogador, que, supomos, pode ser influenciado por elas mesmo sabendo se tratar de um jogo.

Mais ainda: no imaginário coletivo, a cultura dos mongóis e da Mongólia é permeada de orientalismos e enquadramentos pejorativos. Por um lado, Gêngis Khan (1162-1227) o grande líder mongol é representado como bárbaro, ameaçador e perigo em potencial para a cristandade medieval, como um outro não exemplar que precisa ser combatido por não fazer parte do mundo cristão. Contudo, na outra face dessa relação basta considerar que o termo mongol durante anos foi usado como chacota, uma espécie de ofensa quando se chama alguém como mongol para destacar pouca inteligência ou deficiência psiquiátrica qualquer. Fica aqui o alerta e o manifesto em prol do abandono desse uso das palavras.

Nesse sentido, é o jogo – de novo: é o jogo – que vai nos apresentar esses excluídos das narrativas históricas que são apagados no momento em que o “Grande Khan” é usado como sua representação no ensino de história mundial. Longe de serem representados como meros bárbaros sádicos, estes nos são apresentados como um povo poderoso, civilizado, que tem práticas políticas e diplomáticas em meio a herança de tradições de seu.

Gameplay em 18 minutos. Fonte: Youtube

Diversos itens colecionáveis pelo cenário do game nos permitem conhecer mais pormenorizado essa cultura mongólica, através de objetos tradicionais ou mesmo vasos romanos, máscaras de deidades de terras distantes ou porcelana chinesa de outras dinastias conquistadas, os quais são acrescidos de comentários ou explicações em cards inseridos com menção, inclusive, a livros e fontes consultáveis.

No exato momento que essa busca extra (consulta externa ao jogo) se materializar, não teríamos aí uma outra utilização do jogo em tempos de mediação midiática tão acentuada? Eis uma boa questão para pesquisas, pois as representações e a forma como as interpretamos e mobilizamos são excelentes objetos de pesquisa dos estudos de mídia. 

Nas entrelinhas do jogar, a visão sobre o passado e cultura mongólica nos Games nunca teve tanto destaque ou foi tão bem feita quanto em Ghost of Tsushima, que, portanto, nos apresenta o Japão feudal na visão de um samurai ambientado e ao mesmo tempo o intenso jogo das relações entre Japão e continente pelo elemento histórico da guerra. Isso conduz o jogador por uma série de representações dignas de estudos futuros.

Review de Ghost of Tsuhima. Fonte: Youtube

Esperamos que aproveitem a dica e divirtam-se!

* Douglas Almeida é Historiador formado pela Universidade Federal Fluminense, com especialização em História Militar pela UNIRIO, ambas com pesquisas acerca da História dos Samurais. Também atua como 2º Coordenador do Grupo de Estudos Japoneses da UFF (GEHJA-UFF), Coordenador Geral da Academia Nipo Brasileira de Estudos de História & Cultura Japonesa do Instituto Cultural Brasil-Japão (ANBEHCJA-ICBJ), membro pesquisador do Grupo de Estudos de Diplomacia Multidimensional do Oriente (GEDIMO-UFF), do Núcleo de Estudos Japoneses da Federal de Santa Catarina (NEJAP-UFSC), do Grupo de Estudos de História Militar (GEHM-CEIA/UFF) e pesquisador colaborador do Centro de Estudos Asiáticos (CEA-UFF) e Midiásia-UFF.

MidiÁsia entrevista editora-chefe do site Beco da Índia

No dia 31 de agosto, segunda-feira, o Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (MidiÁsia-UFF) vai realizar, às 18h, live com a editora-chefe do site Beco da Índia, parceiro do grupo, Florência Costa. O tema do evento vai abordar a trajetória do site especializado na divulgação da cultura indiana no Brasil, a importância do país e sua atuação no cenário internacional, a promoção de seu soft power e cultura milenar no mundo e o histórico das relações entre Brasil, Índia e outros parceiros do grupo BRICS.

Para mediar e entrevistar a convidada estarão presentes a jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), especialista em Politíca Internacional pela mesma universidade, mestre em Estudos Estratégicos Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), editora-chefe da Revista Intertelas, também parceiro do MidiÁsia-UFF e pesquisadora do MidiÁsia Alessandra Scangarelli Brites e a doutora e mestre em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (PPGCOM|UFF), jornalista e especialista em Epistemologias do Sul pelo Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO|Argentina), fundadora do Asian Club (Estudos de Mídia|UFF) e coordenadora Adjunta do MidiÁsia-UFF Krystal Urbano. A live ocorre através do Facebook do MidiÁsia e estará aberta ao público em geral.

Crédito: MidiÁsia.

Inscrições abertas para o II Encontro de Ficção Científica e Ensino de Ciências (IOC-FIOCRUZ)

Nos dias 3, 10, 17, 24 setembro e 1 de outubro ocorre o II Encontro de Ficção Científica e Ensino de Ciências (IOC-FIOCRUZ), sempre das 19h às 20h. O evento será totalmente on-line e a programação pode ser acessada no Campus Virtual Fiocruz. A transmissão do evento será no canal Youtube Rede Ciência, Arte e Cidadania. Para solicitar a certificação como ouvinte, realize a inscrição na plataforma Campus Virtual Fiocruz. Para participar deste encontro, não precisa ter vínculo institucional ou algum curso de formação. Só precisa fazer o cadastro no Campus Virtual.

PROGRAMAÇÃO

Horário: 19h às 20h

Dia 03/09 Gerson Lodi-Ribeiro: Representações da Ciência em Narrativas de Ficção CientíficaFrancisco Rômulo Monte Ferreira: Ficção científica e a contemporaneidade

Dia 10/09 Octavio Carvalho Aragão Júnior: Construindo o Futuro Página a Página: como a Ficção Científica ajudou a formatar a contemporaneidade Marcelo Simão de Vasconcellos: Imersão e Ciência: os Jogos de Ficção Científica

Dia 17/09 Erika Mac Knight: A representação da mulher cientista em filmes de ficção científica Juliana Berlim: Clube de leitura Neuromancers: relato de experiência pedagógica com o gênero ficção científica no Colégio Pedro II

Dia 24/09 Lucia de La Rocque : Ficção científica: arte, diversidade e interdisciplinaridade Luís Paulo Piassi: 100 anos de Isaac Asimov: Ciência, Ficção e Direitos Humanos

Dia 01/10 Madalena Mello: Cinema de Ficção Científica no “Chão da Escola”Bruna Navarone Santos: Representações de Ciência e Tecnologia no Animê e Mangá Maxwell Barreto & Nayla Freire Martins: PROVOC: Ficção científica na educação básica e na pré iniciação científica – motriz para engajamento científico de jovens

Crédito: divulgação.

Signal: quando o passado e o presente se entrelaçam em uma complexa narrativa de perseguição

Por Mayara Araujo

Histórias nas quais as temporalidades se conectam e promovem uma série de modificações no tempo presente ou futuro não são pouco usuais. Em uma referência um pouco mais clássica da ficção científica, poderíamos citar a trilogia De volta para o futuro, dirigido por Robert Zemeckis. Em 2004, observamos o sucesso de bilheteria de Efeito Borboleta. Até mesmo dramas românticos que intercalam temporalidades foram criados, como Questão de tempo em 2013. A própria série alemã Dark é um complexo e instigante prato cheio para aqueles que se interessam pela temática. No entanto, poucas narrativas foram tão bem estruturadas e repletas de emoção como observamos no drama de televisão sul-coreano, Signal, exibido pela tvN em 2016. Antes de prosseguir, é importante deixar escrito que esse K-drama vai levar o seu sono embora ao longo dos alucinantes 16 episódios.

Nas últimas décadas, observamos o levante cultural da Coreia do Sul através de sua música pop (K-pop) e seus dramas de televisão (K-dramas), que tem conquistado uma expressiva audiência global e se tornado pauta de discursos midiáticos e trabalhos acadêmicos. Recentemente, com o estrondoso sucesso de Parasita de Bong Joon-Ho que conquistou diversos prêmios cinematográficos, dentre os quais o Oscar de melhor filme, também tem colaborado para pluralizar e complexificar as imagens que circulam da Coreia do Sul além-mar. Nesse sentido, produções televisivas como Signal, que fogem à lógica dos K-dramas com roteiros majoritariamente centrados em um romance, se destacam no catálogo da Netflix brasileira. 

A quinze anos atrás, uma criança foi sequestrada e, dias depois, foi encontrada morta. A polícia não conseguiu resolver esse crime. No entanto, Park Hae Young (Kim Hyun Bin), a versão ainda criança do protagonista, viu a mulher que havia levado sua colega de classe embora. A polícia não lhe deu ouvidos. Em paralelo, seu irmão de 18 anos é acusado de um crime que ele acredita ser impossível de ter cometido. Após cumprir sua pena, Park Seon Woo (Chani) comete suicídio. Desde então, Park Hae Young não confia nas forças policiais sul-coreanas. Quinze anos depois, em 2015, nos encontramos novamentes com Park Hae Young (Lee Je Hoon), um policial cuja especialidade é fazer um perfil psicológico dos criminosos. Um dia, ele encontra um walkie-talkie sem bateria, que possibilita que ele entre em contato com o passado (2001, 1997, 1985 e outros anos) do policial Lee Jae Han (Jo Jin Woong), que está desaparecido desde 2001, após ser acusado de corrupção. Assim, Hae Young consegue informações privilegiadas sobre o passado e, principalmente ao lado da líder de equipe Cha Soo Hyun (Kim Hye Soo), eles abrem novas investigações sobre os crimes passados que a polícia não conseguiu resolver.

Crédito: doramaworld.blogspot.com

Já no passado, a recém-contratada policial Cha So Hyun é designada para o mesmo setor de Lee Jae Han, sendo apresentada como uma “mascote” por ser a primeira mulher do departamento. Causando certo alvoroço dentre os demais policiais que ficam sem jeito de receber uma mulher no local de trabalho, Lee Jae Han se mantém intacto aos seus princípios e continua se comportando da mesma forma independentemente de uma presença feminina. Não tarda, portanto, para que os dois passem a trabalhar juntos e a desenvolverem uma forte amizade – que poderia se transformar em algo mais. Ali, os colegas de trabalho têm observado que Jae Han anda sempre apegado a um walkie-talkie velho, mas que ele alega “dar sorte”. Assim, Jae Han começa a se envolver com casos obscuros e a apontar o dedo na cara de policiais e outros representantes poderosos e, evidentemente, passa a incomodar muita gente. Em paralelo, existe uma disputa política ocorrendo e o chefe do departamento é transferido para outra cidade, abrindo espaço para a chegada do supervisor Kim Beom Joo (Jang Hyun Sung). Beom Joo é o típico caso de sucesso misterioso: ascendeu a cargos gradativamente mais poderosos rapidamente, além de nutrir relações obscuras com representantes políticos e donos de empresas multimilionárias.

Como todo clichê do gênero, ao se interferir no passado, o presente sofre modificações e isso se transforma em um grande dilema para o protagonista. Até que ponto é positivo que ele esteja em contato com Lee Jae Han? Vale a pena salvar a vida de uma vítima se outra pessoa morre em seu lugar? É prudente interferir no passado e arriscar uma mudança drástica no momento presente? Sem dúvida, as transformações ocorridas ao longo desses fluxos temporais colocam em xeque a consciência de Hae Young. No entanto, a situação se complica no momento em que o detetive Hae Young se depara com situações de seu próprio passado que ficaram pendentes.

Já Cha Soo Hyun mudou muito nos últimos quinze anos. De uma policial sem experiência e que frequentemente se assustava com os acontecimentos cotidiano, se transformou em uma mulher extremamente forte, pronta para liderar uma equipe com maestria, mesmo sob desconfiança de outros policiais homens do departamento. Cha Soo Hyun desenvolve uma certa afeição por Hae Young, embora desconfie de suas ações e sabedoria que são pouco explicadas, em virtude de estranhas conversas em um walkie-talkie. Em 2015, a detetive continua em busca de seu antigo parceiro Jae Han, desaparecido em 2001. Eventualmente, com apoio de Hae Young, ela pôde reencontrar os restos mortais de Jae Han no necrotério da polícia. O que levou Jae Han à morte? Mais uma vez, interferir no passado se torna urgente para que o presente não seja um ambiente de tanto sofrimento.

Crédito: Asianwiki.com

De volta à sua juventude, Hae Young presencia a prisão de seu irmão mais velho, Park Seon Woo, acusado de participar de um estupro coletivo de uma colega de classe. Após pegar alguns meses de detenção e sendo Seon Woo o único punido pelo crime, o rapaz retorna para casa e encontra uma família desestruturada. Dias depois Hae Young encontra seu irmão desacordado, envolto de sangue. Teria Seon Woo cometido suicídio? A polícia sul-coreana teria sido incapaz de investigar o crime corretamente, levado Seon Woo a desistir de tudo agora que seu nome fora manchado? Qual a correlação entre Jae Han e Seon Woo? O que existe escondido nesse passado injusto e turbulento?

Em uma série de reviravoltas, por vezes surpreendentes, e atuações simplesmente brilhantes, Hae Young, Lee Jae Han e Cha Soo Hyun desafiam a macroestrutura policial da Coreia do Sul, ora reescrevendo o passado e lidando com as consequências no presente e ora constatando que há situações que não devem ser revertidas. Juntos, a equipe de “cold cases” garantem que o futuro/presente de Lee Jae Han seja mais brando. Ou será que nem tanto?

Crédito: viki.com

Ficha técnica:

País: Coreia do Sul | Direção: Kim Won Suk | Roteiro: Kim Eun Hee | Atores: Lee Je Hoon, Kim Hye Soo, Jo Jin Woong, Kim Won Hae, Jang Hyun Sung, Chani, Kim Hyun Bin| Episódios: 16 |  Ano: 2016. 

Os Garotos de Fengkuei: Um retrato da juventude comum

Por Júlia Garcia*

Os Garotos de Fengkuei (風櫃來的人/Feng Gui lai de ren) é um filme taiwanês de 1983 dirigido por Hou Hsiao-Hsien. A história – assim como grande parte dos trabalhos do diretor, como Millenium Mambo (2001) e Três Tempos (2005) – rejeita a estrutura narrativa clássica, baseada em personagens engajados na resolução de um conflito evidente, com início, meio e fim claramente definidos. Ao invés disso, o cineasta opta pelo realismo, valorizando, através de um pequeno recorte da vivência, o comum, o cotidiano e o corriqueiro. E são justamente essas características que fazem de Os Garotos de Fengkuei um retrato tão sutil, e ao mesmo tempo acurado, da passagem da juventude à vida adulta.

O filme acompanha quatro garotos, moradores de uma pequena vila pesqueira chamada Fengkuei, localizada nas Ilhas Penghu, um arquipélago a oeste da ilha principal de Taiwan. Os meninos frequentemente se envolvem em brigas e confusões, por diversos motivos; seja porque perderam dinheiro em apostas ou porque entraram no cinema sem comprar ingressos. O comportamento violento e rebelde leva-os, inclusive, à polícia. Insatisfeitos com a vida no vilarejo, três dos garotos resolvem, então, tentar a sorte em Kaohsiung, uma das maiores cidades de Taiwan.

Apesar das atitudes agressivas, enquanto ainda estão em Fengkuei, os meninos apresentam certa inocência e aura infantil. Eles brincam, pregam peças e se divertem, como crianças. A cena que melhor exemplifica esse comportamento pueril acontece na praia: os garotos dançam, com o mar ao fundo, na frente de uma moça que acabaram de conhecer, provocando-a alegremente.

Crédito: Eureka Entertainment Limited

No entanto, com a mudança dos garotos para a cidade grande, não somente as paisagens rurais deram lugar à agitação urbana, mas a inocência de uma juventude infantil também foi sendo substituída pela necessidade do amadurecimento. Logo ao desembarcarem em Kaohsiung, os meninos já se perdem, tendo dificuldades para se orientarem na confusa paisagem da cidade, repleta de placas, rodovias e automóveis, em contraposição aos campos, praias e vielas de Fengkuei. Mais tarde, já estabelecidos há algum tempo no local, os garotos são enganados por um homem que os vende ingressos para uma exibição de cinema que, na verdade, não existe. Esse momento é simbólico. Já não são mais os meninos que enganam e trapaceiam, invadindo o cinema de Fengkuei sem pagar pela entrada; agora, na cidade grande, eles são as presas.

A desorientação no espaço urbano e a ingenuidade em relação aos modos de vida da metrópole demonstram a enorme diferença entre o viver no campo e na cidade. Mas, além disso, as hesitações e incertezas que os garotos experienciam em Kaohsiung também representam, de certa forma, a nebulosa fase entre o final da adolescência e o início da vida adulta.

Nesse processo, enquanto Ah Ching (Doze Niu) experimenta o interesse não-correspondido em Hsiao-Hsing (Lin Hsiu-Ling) e enfrenta a morte repentina do pai, que devido a um problema neurológico há muito já não se comunicava, sua família o pressiona para que se encaixe no padrão daquilo que, socialmente, é considerado o ideal de vida e conduta. Ao mesmo tempo, seus amigos buscam alternativas ao trabalho na fábrica, almejando futuros que não teriam no emprego que ocupavam. Esse tipo de preocupação passou, portanto, a sobrepor as brigas e confusões dos garotos, sem que, contudo, houvesse uma completa disrupção da juventude do modo como experienciavam em Fengkuei.

Crédito: Eureka Entertainment Limited

Não há solidez nas situações vividas pelos meninos, assim como não há na transição para a vida adulta. Nada parece preciso ou certo. Os Garotos de Fengkuei mostra um recorte, um retrato, de jovens experimentando mudanças e dúvidas, alegrias e aflições, com todos os obstáculos e sabores que essas experiências provêm. Com uma imagem do cotidiano, que retrata o comum e o ordinário, fica fácil nos identificarmos com os garotos, tão perdidos na vivência urbana quanto qualquer um de nós, em qualquer fase da vida.

Ficha técnica:

País: Taiwan | Direção: Hou Hsiao-Hsien | Roteiro: Chu T’ien-wen | Elenco: Chun-Fang Chang, Shih Chang, Grace Chen, Doze Niu, Chao P’eng-chue, Tsung-Hua To, Li-Yin Yang | Duração: 99 min | Ano: 1983.

  • Júlia Garcia é mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e jornalista pela mesma instituição. Atua como pesquisadora no Observatório da Qualidade no Audiovisual, onde participa do projeto Ásia Pop, com foco na cultura pop asiática, em especial a japonesa e sul-coreana.

Editora Anita Garibaldi lança 2ª edição de “China: Socialismo e desenvolvimento, sete décadas depois”, de Elias Jabbour

Já está disponível o link para a pré-venda do livro “China: socialismo e desenvolvimento – sete décadas depois”, do professor Elias Jabbour, publicado pela editora Anita Garibaldi. Segundo informado pela editora, nesta segunda edição, revista e ampliada, o livro traz importantes novidades: todos os trechos e citações que estavam em inglês na primeira edição agora estão traduzidos; e foram acrescentados novos conteúdos (entrevista, artigos e análises) que abordam a China pós-pandemia e o tema central de análise do autor, a questão da Nova Economia do Projetamento. 

Jabbour é doutor e mestre em Geografia Humana pela FFLCH-USP e atualmente professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Econômicas da UERJ, Elias Jabbour vem se dedicando desde o início de sua carreira acadêmica ao estudo do que se passa no gigantesco país asiático. Neste seu terceiro livro, o autor reúne análises, artigos e depoimentos (seus e de seus colegas acadêmicos) para lançar luzes sobre o acelerado progresso chinês. Lançando mão e discutindo criticamente termos como “socialismo de mercado”, “cathing up” e “nova economia do projetamento”, Jabbour e seus parceiros de estudos ajudam a entender a dimensão do que está em tela no desenvolvimento econômico e tecnológico do país mais populoso do planeta.

Crédito: Editora Anita Garibaldi.

CEA-UFF está com inscrições abertas para o curso “Introdução à História da Índia”

O minicurso “Introdução à História da Índia”, promovido pelo Centro de Estudos Asiáticos da UFF (CEA-UFF), ocorre nos dias 27/08, 24/09 e 29/10, sempre das 18 às 20 horas. A iniciativa está sob a direção de Edelson Parnov, pesquisador do CEA, e é gratuita. As vagas são limitadas.

AULA 01 (27 de agosto, das 18h às 20h): Edgard Leite (professor do Departamento de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ) – Panorama da história da Índia até o século XIX;

AULA 02 (24 de outubro, das 18h às 20h): Emiliano Unzer (professor do Departamento de História da Universidade Federal do Espírito Santo – UFES) – Imperialismo, revoltas populares e movimento de independência da índia;

AULA 03 (29 de outubro, das 18h às 20h): Diego Pautasso (professor de Geografia do Colégio Militar de Porto Alegre – CMPA) – Índia Independente.

Crédito: Facebook CEA-UFF.

Haverá emissão de certificado para quem assistir todas as aulas. As informações serão enviadas para o e-mail cadastrado; certifique-se de que é seu e-mail mais usado e de que é acessível e estável. Confira a programação abaixo e para fazer a sua inscrição, acesse o formulário pelo link: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLScqx4vDwJBZH2nNapczFF7_bBPLIZMTMa2J-_qAXHtKzQ-P0A/viewform