Representatividade e eurocentrismo foram temas centrais no debate sobre audiovisual amarelo, promovido por MidiÁsia e CEA-UFF

A mesa de debate sobre audiovisual amarelo brasileiro, realizada neste último sábado, 27 de junho, pelo Grupo de Estudos MidiÁsia e o Centro de Estudos Asiáticos da Universidade Federal Fluminense (CEA -UFF), teve como temas de destaque: a representatividade e o eurocentrismo. Participaram do evento Leo Hwan, produtor de conteúdo relacionado ao tema, e Hugo Katsuo, estudante de cinema pela UFF, diretor e idealizador do documentário “O Perigo Amarelo nos dias atuais”. A iniciativa ainda contou com as pesquisadoras do MidiÁsia-UFF Krystal UrbanoDaniela Mazur e o pesquisador do CEA-UFF Mateus Nascimento que foi mediador do evento.

Entre os principais pontos de destaque pode-se salientar: a grande amplitude do conceito de audiovisual amarelo brasileiro que, conforme Leo Hwan, pode ser qualquer produção audiovisual asiática, mesmo em redes sociais, que envolva criação de conteúdo de imagem e som; já para Hugo Katsuo, o termo não tem lugar se não forem discutidos os problemas de representatividade nos espaços do audiovisual brasileiro mais consagrados: televisão e cinema.

Krystal Urbano ainda enfatizou a importância de analisar e refletir o audiovisual amarelo brasileiro para além da grade dos estudos, que é eurocentrista. Por fim, Daniela Mazur afirmou que questionar o eurocentrismo e a experiência produtiva audiovisual amarela no Brasil já é uma forma de promover um novo olhar da pesquisa no Brasil, menos ocidental e com uma visão própria. Para assistir ao debate na íntegra, acesse o link abaixo.

Mesa O audiovisual amarelo brasileiro

Daniela Mazur, Krystal Urbano, Leo Hwan e Hugo Katsuo

Posted by Centro de Estudos Asiáticos – CEA on Saturday, 27 June 2020

ANBEHCJA – ICBJ oferece minicurso sobre a “História do Japão Contemporâneo”

A Academia Nipo Brasileira de Estudos sobre História & Cultura Japonesa do Instituto Cultural Brasil Japão (ANBEHCJAICBJ) oferece minicurso de cinco meses de duração, sobre a “História do Japão Contemporâneo”. A iniciativa conta com o apoio do Grupo de Estudos Japoneses da Universidade Federal Fluminense (GEHJA) e as aulas começam dia 1 de julho, das 18:30 às 19:30 .

Crédito: GEHJA.

O cronograma inclui os primeiros passos da modernização japonesa no declínio do Shogunato Tokugawa ante a Restauração Imperial Meiji até os adventos contemporâneos da Era Reiwa que teve seu início em 2019, trazendo novos desafios ligados a projetos de sustentabilidade e internacionalização. Serão ainda abordados: o período de industrialização japonesa, as guerras contra China, Rússia, o papel do Japão nas guerras mundiais, os desdobramentos internacionais da Democracia Taishô e a construção de seu softpower a partir da Paz Heisei. Para realizar a sua inscrição e obter outras informações, entre em contato pelo endereço:
gehja.ceia.uff@gmail.com

Usagi Drop (うさぎドロップ): A vida é feita de escolhas

Por Edylene Severiano

Baseado no mangá homônimo, escrito por Yumi Unita e publicado mensalmente pela editora Shodensha, de 2005 a 2011, contado com 10 volumes, e transformado em animê em 2011, Usagi Drop (うさぎドロップ) é um longa live-action de 2011, que oferece uma narrativa sobre as vicissitudes da vida num universo em que existem crianças.

Dirigido por SABU (Hiroyuki Tanaka), com roteiro escrito por esse e pelo roteirista Tamio Hayashi, o filme poderia ser descrito por esta sentença, que, de tão clichê, chega a ser irritante: A vida é feita de escolhas. No entanto, o diretor a reinventa de maneira tão simples e suave quanto profunda, de modo a provocar um turbilhão de ressiginificações, possibilitando uma percepção mais sensível acerca da temática. Assim se desenvolve Usagi Drop, um filme sobre as dificuldades da vida diária, que traz o peso das escolhas e a descoberta da possibilidade da vida a partir da realidade da paternidade.

O filme conta a história de Daikichi (Ken’ichi Matsuyama), um trabalhador de escritório, de 30 anos, solteiro, que ao chegar no velório de seu avô se depara com uma garotinha, Rin (Mana Ashida), a quem se afeiçoa à primeira vista. Ao conversar com seus familiares, Daikichi descobre que a menina é filha ilegítima de seu avô. A interação entre eles se dá no momento de encerramento da cerimônia, quando então a Rin confirma com Daikichi que o vovô não acordará mais. Sensibilizado com a menina e a ideia de que sua família pretende enviá-la para um orfanato, Daikichi, então, vê sua vida mudar ao decidir tomar conta dela, contrariando o desejo de todos.

Crédito: 映画.com

O background de filmes yakuza de SABU parece querer evidenciar-se quando ele introduz uma pitada de humor, muito caricatural aos devaneios de Daikichi com uma modelo famosa. O drama segue assim um tom leve, com uma sutileza mantida não só pela paleta de cores como também pela trilha sonora delicada (com músicas de Takashi Mori e Shoko Suzuki).

Na reunião após o funeral de seu avô, Daikichi é confrontado por sentimentos que até aquele momento não poderia imaginar que seus familiares carregavam. Além de terem vergonha de Rin, pela idade do avô de Daikichi, mais de setenta anos, apontavam a menina como um fardo para a vida de todos; nem mesmo sua mãe, irmã da menina, dispusera-se a ficar com ela. Todos se mostravam incapazes de pensar em tomar a criança para si, num gesto de afeto para com um membro da família ou respeito pela memória do avô, inclusive sua irmã, uma professora primária, esboçava aversão a crianças, rejeitando Rin.

Na manhã seguinte à sua decisão Daikichi já sente o primeiro impacto: crianças precisam se alimentar, vestir, estudar, ter uma rotina. E com o passar dos dias manter o trabalho no escritório e Rin na creche se tornam incompatíveis. Daikichi segue fazendo ajustes, troca Rin de creche, acorda mais cedo, passa a usar tênis, para poder correr melhor durante o trajeto casa-creche-trabalho, mas a dificuldade e cansaço persistem, e as palavras de sua mãe quanto ao sacrifício que é necessário ao se escolher ter um filho continuam ecoando nele, fazendo-o questionar-se sobre sua decisão.

Crédito: 映画.com

Entretanto, certo de sua escolha, Daikichi opta por um rebaixamento de cargo, saindo do escritório de empresa e passando para o chão de fábrica. É, pois, aí que um universo novo é ofertado para Daikichi: o chão de fábrica é o lugar dos pais e mães que persistem em manter a vida profissional. Assim, SABU aprofunda-se no universo pais e filhos versus sociedade, revelando as dificuldades de adaptação dos pais em um mundo regrado para aqueles que não têm filhos; a isso soma-se o fato de Daikichi ser um pai solo.

A trama ganha mais emoção quando Yukari Nitani (Karina), a modelo por quem Daikichi delira sai de seus sonhos e entra em cena. Ela é mãe de Kōki (Ruiki Sato), de quem Rin é a amiga. As duas crianças dividem não apenas a não presença dos pais, mas também a consciência da ausência pela morte. A relação entre os pais vai sendo tecida pela dos filhos, Yukari auxilia Daikichi quando Rin fica doente e isso vai os aproximando até que os momentos a quatro, no retorno para casa, tornam-se rotina.

Enquanto tenta equilibrar suas vidas, entendendo as necessidades e sentimentos de Rin, Daikichi busca pela mãe de Rin e é confrontado por uma realidade que ele não cogitava: se ele, que não tinha nenhuma responsabilidade direta, para além dos laços sanguíneos, com Rin, decidiu abrir mão de sua vida para ficar com ela, como a própria mãe não estava disposta a fazê-lo? Masako Yoshii, essa é a única informação sobre a mãe de Rin. Daikichi então resolve procurá-la e, após contatá-la por e-mail, marca um encontro. Masako se apresenta como uma mangacá e afirma que, pensando em sua carreira, decidiu não ver Rin como sua filha e procurou não se afeiçoar à menina (o que justifica Rin ter dito a Daikichi que conhecia a Masako, mas não gostava dela, já que Masako parecia não gostar de si). Masako, por fim, pede a Daikichi que ele adote Rin, para que ela tenha o nome dele e não tenha problemas na escola, quando ficar mais velha.

Crédito: 映画.com

O pai de primeira viagem aos poucos compreende as palavras de sua mãe e segue com Rin aproximando-o de sua família, e de Yukari. No entanto, é a fuga das crianças da escola que sela o companheirismo entre quase casal, ambos recebem uma ligação da escola, em seus respectivos trabalhos, a respeito do desaparecimento de Rin e Kōki. Família e amigos partem à procura das crianças, sem sucesso. Desesperados os dois seguem para a casa de Daikichi, na esperança de que as crianças tenham ido para lá, mas, ao encontrarem a casa vazia, esmorecem diante do desespero.

Nesse ínterim, as crianças atingem seu objetivo, chegar ao túmulo do pai de Kōki. E ambos choram e se despedem de seus pais. Dor, tristeza, saudade, mas alívio. Todas essas emoções são lançadas por duas crianças de 6 anos. Ambas sentem a dor da compreensão de que um ente querido não vai mais voltar. Então as palavras do colega de chão de fábrica de Daikichi assumem o lugar central na narrativa: “Crianças são surpreendentemente sofisticadas por dentro. Elas só não têm palavras para expressar tudo que têm no coração”.

Rin e Kōki retornam, sãos e salvos. Alguns problemas são superados, outros passarão a existir, mas Daikichi segue firme em seu propósito de ter Rin em sua vida. O mundo de Daikichi parece ser dotado de vida apenas através de Rin. A própria relação de Daikichi com o pais e a irmã é avivada pela entrada de Rin em suas vidas. Usagi Drop pode, assim, ser visto como um filme que busca quebrar a esterelidade de um mundo que relega as crianças ao “punir” seus pais por elas existirem. As crianças não são uma imposição, mas sim um propósito para aqueles que as desejam em suas vidas.

Imagem 1
Crédito: 映画.com

Ficha técnica:

País: Japão | Direção: SABU | Roteiro: SABU e Tamio Hayashi | Elenco: Ken’ichi Matsuyama; Karina; Mana Ashida | Duração: 114 min. | Ano: 2011

REBELS OF THE NEON GOD: Juventude, divindades e chuva, muita chuva

Por Guilherme Gooda*

Tsai Ming-Liang debuta no cinema lançando o espectador dentro de uma Taipei em pleno movimento e recorta a vida de quatro jovens. O filme de 1992 Rebels of the Neon God, nome em inglês para o título 青少年哪吒 (ou Jovem Nezha em tradução literal), retrata a camada média da juventude de Taipei a partir de três personagens, vazios de objetivos e desejos enquanto vagam pelas ruas de uma noturna e chuvosa Taipei, iluminada pelo farol das motocicletas, letreiros de neon e gigantescos fliperamas. Para eles, Taipei é o começo e fim. Para onde mais iriam? O que mais eles conhecem? Sem carreiras, conexões, futuro, amor ou esperança. O filme retrata a irônica alienação e solidão que as mega-cidades proporcionam.

A começar pelo título, o nome original chinês sendo alterado para o Ocidente faz referência direta à uma divindade de cultura chinesa que por vezes é mencionada no filme. A história mitológica de Nezha (or Norzha na pronúncia taiwanesa) que é rejeitado por seu pai e se envolve em grandes problemas com outras divindades ao matar por acidente o filho de Ao Kuang, o general dragão condenando a China com chuvas e inundações, até decidir se oferecer em sacrifício para que o castigo fosse aliviado.

A narrativa do filme segue e atualiza em várias medidas o conto mitológico. Hsiao Kang (Lee Kang-sheng) estuda para as provas de vestibular mesmo sem ter muita ideia de para onde aquilo o levaria e sua falta de interesse pelos estudos gera conflito com o pai. Hsiao Kang planeja então abandonar o curso e pegar o dinheiro da rescisão sem comunicar aos pais. Enquanto isso Ah Tze (Chen Chao-jung) rouba moedas de cabines telefônicas para passar a madrugada em um fliperama junto com um amigo. 

Crédito: qelle.tumblr.com

Ah-Kuei (Wang Yu-wen), uma garota que trabalha um ringue de patinação, pede uma carona para Ah-Tze e então os dois personagens iniciam uma conversa e um relacionamento. Na primeira cena de contato entre três dos personagens centrais:  Hsiao Kang dentro de um táxi guiado por seu pai, acompanha com o olhar Ah-Tze e Ah-Kuei, passeando pelas ruas de Taipei em uma motocicleta. Hsiao Kang sente um misto de inveja e admiração por Ah Tze. 

Os dois personagens são bastante diferentes, enquanto o primeiro é mais reservado e introspectivo e mesmo infantil o segundo parece mais aventuresco, destemido e rebelde. Tais características são refletida na diferença do veículo dos dois: enquanto Hsiao Kang anda em uma scooter, Ah Tze tem um moto esportiva e uma garota na garupa,  não esconde a inspiração do diretor Tsai Ming-Liang no clássico “Rebel without a cause” (1955, Nicholas Ray), compartilhando a mesma temática de conflito de gerações e referências mais óbvias como um pôster do filme na parede da casa do protagonista, Ah Tze é um novo tipo de James Jean agora atualizado aos anos 90. 

Hsiao-Kang fica então obcecado pela vida de Ah Tze e começa a seguí-lo em toda parte sem o outro note, gerando certa atmosfera de suspense que é agravada pela sempre noturna Taipei. Os poucos diálogos do filme e a discrição de Hsiao-Kang em revelar sua motivação instigam o espectador, existe certa melancolia no personagem uma vez que Hsiao-Kang persegue os outros personagens (sentando bem em frente deles em uma cena), mas completamente invisível, mescla-se a isso um sentimento de repulsa por um personagem um tanto bizarro, que como o voyeur acompanha a vida alheia.

Crédito: http://moviemezzanine.com/rebels-of-the-neon-god

Acompanhando o personagem central, mergulhamos em regiões ocultas da cidade: vemos o interior de um shopping, restaurantes e  arcades, mas também corredores, quartos de hotel e banheiros públicos. Rebels of the Neon God é também um filme sobre a cidade de Taipei, não observando apenas a superfície, tal característica do diretor Tsai Ming-Liang se repete em outras obras familiarizando o espectador com cada canto de uma sempre viva e mutável cidade. 

 O filme é um recorte de realidade onde os personagens são  apresentados ao espectador sem que haja julgamento prévio de suas ações, abrindo a interpretação alguns podem pensar como o pai de Hsiao Kang que  pertencendo a uma geração anterior julga que o filho seja um inútil por se negar a estudar; outros podem levar a interpretação para certo fatalismo entendendo que o desfecho dos personagens não poderia ser diferente. Como Ah Tze, alguns podem ainda ter a esperança de saírem em suas motocicletas e buscarem uma vida ideal fora da cidade, um sentido de fuga jovem de quem experimenta o fracasso talvez pela primeira vez. 

As reações e os dramas da juventude são abordados na obra porém sem a alegria, o otimismo e a leve ingenuidade com a qual ela costuma ser abordada no cinema. Rebels of the Neon God é um filme cru que dialoga justamente com a ânsia do jovem que ao se perceber “inútil e fora do lugar” abraça o entretenimento como forma de rebeldia e mesmo como escape.

“Jovens sendo jovens” alguém poderia dizer, mas se tratando de uma obra oriental usaremos uma parábola oriental para descrevê-lo: “Lá estão os cavalos, com seus cascos para pisotear a neve e gelo, e sua pelagem para que se mantenham aquecidos do vento frio. Comendo grama e bebendo, saltitando e correndo – esta é a natureza dos cavalos. Mesmo grandes salões, ou elegantes terraços nada disso tem uso para eles.” 

Ficha técnica: 

País: China  | Direção: Tsai Ming-Liang | Roteirista: Tsai Ming-Liang | Elenco: Chen Chao-jung,  Jen Chang-Bin,  Lee Kang-sheng  | Duração: 106min | Ano: 1992

* Guilherme Gooda é doutorando em Comunicação pela UNESP-Bauru (2019-), onde pesquisa produções midiáticas do leste asiático em especial as chinesas, e mestre pela mesma instituição (2016-2018). Graduado em Letras (português-mandarim) na FFLCH-USP. Suas pesquisas envolvem a atualização do imaginário popular e a sobrevivências das imagens, bem como as relações Brasil-China em diversas esferas.

ÜBERSEEZUNGEN: Retrato de uma língua e outras criações de Yoko Tawada

Por Roberto Schmitt-Prym (Editora Bestiário)

Um livro ousado, repleto de graça e inspiração.

Lê-se no título de “Überseezungen” – entre outros significados – as “traduções” que levam a protagonista a viajar ao sul da África, aos Estados Unidos, ao Canadá e de volta ao Japão e à Alemanha (Tawada, nascida e criada no Japão, mora desde 1979 na Alemanha).

O leitor aprende muito sobre países, sobre povos e sobre os traços das palavras quando a escritora, em sua perspicácia benjaminiana, expressa a perplexidade e o maravilhamento proporcionados pelas diferentes formas e barreiras linguísticas, as quais investiga espirituosamente em frases simples, ao mesmo tempo vivazes e despreocupadas, que respiram os ares da poesia e da filosofia.

Überseezungen é, ao mesmo tempo, uma palavra, uma criação; uma tradução, uma transcriação.

O título de Tawada é um entrelaçamento de formas e significados. Em um primeiro momento, sua fisionomia mostra a expressão central do livro: Übersetzungen, em alemão, significa “traduções”.

Um segundo olhar traz ao leitor os desdobramentos atribuídos ao conceito: See é traduzível por “mar”; Übersee, por sua vez, pode ser traduzido em português como “além-mar”, aquilo que cruza os oceanos, que está para além do horizonte marítimo; Zungen traz o significado de “línguas”, as línguas que falam, a língua física; e Seezunge é a tradução de “linguado”, peixe cujo aspecto morfológico oval e achatado lembra o formato de uma língua.

O linguado caracteriza-se, ainda, por sofrer uma metamorfose ao longo de seu ciclo de vida: seus olhos migram e seu rosto se transforma, literalmente, no momento em que passa a viver a maior parte do tempo no fundo de seu ambiente aquático. O título evoca os aspectos relativos à língua e à tradução e os associa intrinsecamente ao aspecto físico do órgão responsável pela articulação da fala. Mostra ainda a fisicalidade do movimento, mesmo que muitas vezes não seja necessário um efetivo deslocamento para que esse movimento ocorra.

A partir de tais leituras, pode-se observar a relação da tradução com a linguagem e com o corpo, a metáfora do viajar por entre continentes, do assumir metafisicamente a forma e a essência de ser uma língua — do sentir-se como língua em constante transformação.

Em Überseezungen, Tawada explora o viajar pelos idiomas, de modo que o trânsito linguístico se sobrepõe ao deslocamento físico e geográfico. Do duplo foco nos movimentos linguísticos e geográficos emergem amplas interpretações sobre a natureza da comunicação e do ato de viajar, resultando em uma fascinante reflexão que integra mobilidade, geografia, linguagem e identidade.

A ideia de movimento já se apresenta ao leitor desde o título, cuja marcação em itálico evoca o ondular da água em sua visualidade gráfica dentro da palavra. Ao lado das considerações sobre o deslocamento linguístico, a autora oferece reflexões sobre as muitas formas de tradução que se implicam e se revelam em cada uma das aventuras. Em alemão, o verbo übersetzen, além de significar “traduzir”, possui ainda o significado de transpor, passar para outro lado. Esse duplo sentido também aparece no seu jogo de significados, posto que traduzir envolve muito mais do que passar palavras de um idioma para outro — envolve um deslocamento efetivo de quem fala e transita entre margens linguísticas.

Entre essas margens, Tawada imagina um espaço fluido, no qual se dissolvem as palavras e as letras, e onde a comunicação volta a fazer parte de um todo cósmico e transcendental ao qual pertenceriam originalmente. A fluidez associada a esse espaço de formas livres que não pertencem a nenhum lugar é simbolizada pela água e, por isso, a imagem da água encontra grande relevância no trabalho da autora.

Sobre a autora:
Yoko Tawada nasceu em Tóquio em 1960. Em 1979 fez sua primeira viagem à Alemanha pela ferrovia Transiberiana. De 1982 até 2006 morou em Hamburgo; desde então, vive em Berlim. Tawada é autora de contos, romances, ensaios, poesias e peças de teatro, obras que escreve tanto em japonês como em alemão. Seus trabalhos recebem grande atenção e reconhecimento nos círculos literários e acadêmicos de todo o mundo devido ao grande valor literário que possuem bem como de suas características multilíngues e interculturais. Dentre inúmeros prêmios de literatura recebidos pela autora, destacam-se o Prêmio Kleist, recebido na Alemanha em 2016 e o Prêmio Fundação Japão, recebido no Japão em 2018.

Ficha técnica:

Título: ÜBERSEEZUNGEN: Retrato de uma língua e outras criações de Yoko Tawada – Tradução: Marianna Ilgenfritz Daudt e Gerson Roberto NeumannPublicação: Bestiário/Class, 2019.

Entre a distopia e a realidade brasileira: a música do artista afro asiático Yannick Hara

Por Mateus Nascimento

A sugestão de obra de hoje sai do cenário literário e adentra o âmbito musical! Estamos nos referindo a música do artista afro asiático Yannick Hara.

De acordo com a suas falas registradas na página O inimigo do no médium, ficamos sabendo que ele é filho de pai negro e mãe japonesa, a primeira mistura. Yannick mescla a cultura oriental e ocidental, fundindo o universo dos mangás e animes com o do hip hop. Sempre em busca de quebrar paradigmas, agora o rapper volta imerso na cultura do cyberpunk e da ficção científica.

Ficamos na torcida para que seja um som novo e provocante na quarentena para os leitores do MidiÁsia, pois o artista conversou com nossa equipe e topou dar uma palavra mais autoral sobre seus novos projetos:

Com capa de Thiago Hara e foto de Tiago Santana, eis o disco O caçador de andróides. *Todas as fotos deste texto são de Tiago Santana.*

Mateus Nascimento: Quem é Yannick Hara?

Yannick Hara: Sou um artista afro-asiático filho de mãe japonesa e pai negro. Desde do berço fui fortemente influenciado pelas culturas asiática e africana. Exemplo disso foi o hábito de ler mangás e assistir animes, além de ouvir muita música negra como o jazz, o blues, o soul, o rock e o rap. O sobrenome Hara vem da mãe, a Dona Nair, Yannick também tem um nome japonês que é Seiji, Dias é meu sobrenome paterno, meu pai Seu Francisco.

MN: Quando e porque nasceu O Caçador de Andróides?

YH: O Caçador de Andróides nasceu da influência musical herdada do meu pai, pois quando pequeno, me mostrou a trilha sonora de Vangelis[1]. Me apaixonei por aquela estética sonora, em seguida assisti ao filme Blade Runner (filme de 1982, dirigido por Ridley Scott) e fiquei impressionado como na década de 90 (nasci em 1984 e tive essa experiência 7 anos depois em 91) alguém poderia imaginar como seria o ano de 2019. Na adolescência fui conhecendo mais sobre ficção científica e na vida adulta sobre a cultura cyberpunk, em 2018 iniciei a produção deste disco. Foi como se eu voltasse a infância e realizasse uma idéia que ficou fixa em meu subconsciente, além de ser uma ótima oportunidade em falar tudo aquilo que eu gostaria de dizer, politicamente, socialmente e espiritualmente. 

MN: Quais os elementos dessa estética? Ele é cyberpunk, distópico, mas o que é isso para você?

YH: Sim, o disco é cyberpunk e sim, é distópico. Cyberpunk para mim é a valorização da tecnologia em detrimento da qualidade de vida. Distopia é o mundo em que vivemos, corrupto, desigual, alienado, manipulado, sociopata, escravizado, controlado, enfim nada mais que o hoje, nada mais que a atualidade em que vivemos no Brasil e no mundo. A distopia é real.

MN: O que ou quem Yannick Hara quer ser?

YH: Como artista eu busco viver plenamente da arte e o que a arte possa me proporcionar em sua totalidade e completude. Como ser humano busco o amor e ser livre.

MN: O que você espera que as pessoas que ouçam sintam e vejam em suas mentes?

YH: Espero que elas sintam, vejam o que elas quiserem em suas mentes. Ao ouvir a obra, essa obra não me pertence mais, proponho sempre aos ouvintes que se apropriem do trabalho e realizem suas próprias conclusões, reflexões, narrativas e conceitos . Para mim isso é arte, entregar e compartilhar o todo.

MN: O disco está em um canal, mas ele se pretende algo maior? Tem em mente ser produzido e distribuído como normalmente é feito – gravadora e tal – ou ele é militante nesse sentido de estar acessível de cara?

YH: O disco é totalmente acessível está disponível hoje no que o mercado dispõe, porém ele será também distribuído na forma de CD físico e em breve em vinil pela Unleashed Noise Records, selo e gravadora punk de São Paulo.

Link para ouvir o disco:


[1] Vangelis é um músico grego dos estilos neoclássico, progressivo, música eletrônica e ambiente. Suas composições mais conhecidas são o tema vencedor do Oscar de 1981, com o filme Chariots of Fire (Carruagens de Fogo no Brasil). Dados da Wikipedia. 

CEA-UFF e MidiÁsia debatem “O audiovisual amarelo brasileiro”

O Centro de Estudos Asiáticos da Universidade Federal Fluminense (CEA-UFF) e o Grupo de Estudos MidiÁsia da UFF convidam para a mesa “O audiovisual amarelo brasileiro”, a ser realizada no próximo sábado, 27/06, das 15:30 às 17:00 horas. O evento online será transmitido pela plataforma Google Meet e abordará questões sobre as relações étnico-raciais no audiovisual amarelo produzido no Brasil. As vagas são limitadas.

Crédito: CEA-UFF e MidiÁsia.

A iniciativa terá a presença de Leo Hwan, produtor de conteúdo relacionado ao tema, e de Hugo Katsuo, estudante de cinema pela UFF, diretor e idealizador do documentário “O Perigo Amarelo nos dias atuais”. Participam conosco as pesquisadoras MidiÁsia-UFF Krystal Urbano, Daniela Mazur e o pesquisador do CEA-UFF Mateus Nascimento. Para participar, faça a inscrição no formulário (clique aqui) disponível na internet.

Covid-19 e capacidade cultural: a lição sul-coreana

Por Yun Jung Im (professora e coordenadora do curso de Língua e Literatura Coreana do Departamento de Letras Orientais da USP – Universidade de São Paulo)

Cidade que foi epicentro de Covid-19 na Coreia do Sul não tem ...
Profissionais do hospital Dongsang, de Daegu, em abril de 2020. Foto: Yonhap News.

Cronologia da pandemia na Coreia do Sul

No último dia 30 de abril, a Coreia do Sul anunciou ter zerado o número de novos infectados locais de Covid-19 ao cabo de 72 dias, excluídos os quatro detectados no aeroporto. O feito foi noticiado com entusiasmo na primeira página do BBC.com com o título “South Korea records no new local vírus cases”, e também na BBC World News em primeira manchete.

Ainda que no dia seguinte o número já não fosse mais zero, o número total de infectados vinha se mantendo em um dígito por duas semanas, e os coreanos começaram a retomar seu cotidiano com “medidas de rotina anti-pandemia” a partir de 03 de maio. Já com as escolas funcionando, mas também enfrentando a segunda onda de contaminação, os coreanos agora são alvo dos olhares do mundo todo, devidamente alçados ao posto de referência mundial em vigilância epidêmica: em 18 de maio último, o presidente Moon foi convidado para fazer o discurso de abertura da Assembleia Mundial da Saúde da OMS, e a Coreia do Sul foi convidada por Trump a participar da próxima conferência do G-7.

Até 14 de junho, a Coreia do Sul registrou um total de 12.085 infectados (incluindo cerca de 10% daqueles detectados no aeroporto) e 277 mortos. Se excluirmos Daegu, a terceira maior cidade coreana, epicentro secundário e considerada ponto fora da curva, com 6.892 infectados (57%) e 189 mortos (68%) até essa data, os números sul-coreanos causam espanto, diante da situação que temos presenciado em vários países pelo mundo, incluindo o Brasil.  

안철수, 의료복은 땀으로
Ahn Chul-soo, membro da Assembleia Nacional, trabalhando voluntariamente no combate à Covid-19 em Daegu no mês de março de 2020. Foto: Yonhap News.

Explico: o paciente número 31 (reportado em 18 de fevereiro), seguidor de uma seita nada ordinária chamada Sincheonji (Novo Céu e Nova Terra), teria participado de um culto, visitado uma sauna e ainda encontrado vários outros seguidores que estavam reunidos na cidade para o velório de três dias (31 de janeiro a 02 de fevereiro) do irmão do fundador da seita. O caráter “aglomeratório extremo” da seita, com quase 250 mil fiéis no país, teria puxado o gatilho para a propagação fulminante em Daegu a partir de 15 de fevereiro. Até 31 de janeiro eram apenas sete infectados (acumulados), mas um mês depois, em 1º de março, atingia o pico de 1.063 novos infectados.

Eleições em meio a pandemia e louros para o presidente

O zero do dia 30 de abril foi especialmente caro aos sul-coreanos, que haviam ido às urnas 15 dias antes para eleger seus 300 parlamentares. Alívio a todos que acompanhavam a evolução dos números receosos de que a eleição pudesse puxar um novo gatilho, a despeito dos cuidados: uso obrigatório de máscaras, filas com distanciamento, temperatura medida e luvas descartáveis fornecidas na entrada, além da hora final destinada somente para os que estavam em isolamento.

Eleitora vota em eleições legislativas na Coreia do Sul com máscaras e luvas nesta quarta-feira (15) — Foto: Ahn Young-joon/AP Photo
Eleitores precisaram, obrigatoriamente, usar luvas e máscaras para as eleições legislativas na Coreia do Sul. Foto: Ahn Youngjoon/AP Photo.

O bom desempenho do executivo em gerir a pandemia rendeu 180 assentos para o Partido Democrático, feito inédito num cenário político que foi sempre sentido como um “campo inclinado” pendendo para a ala conservadora. A vitória foi obviamente atribuída ao presidente Moon, e a superlua do dia 7 de abril lhe valeu o título de Super Moon.

A pandemia não impediu que se registrasse o recorde de 66,2% de eleitores (o voto não é obrigatório) votantes, quase 30 milhões, que deram um enorme voto de confiança ao presidente, garantindo-lhe os dois anos finais do mandato sem empecilhos políticos. A perspectiva agora é de que as reformas pretendidas pela situação, e que vinham patinando no congresso, desencalhem.

A luta de resistência da situação

Uma das reformas apregoadas pela situação é, certamente, a reforma da mídia. No dia 30 de abril, nenhum dos três jornais mais importantes sul-coreanos, ou até cinco numa lista estendida, haviam dado a notícia do zero com destaque em primeira página. Apenas um deles deu uma nota, em uma posição desprivilegiada. A principal agência de notícias Yonhap, que noticiou o fato com destaque, preferiu o título de “Não houve transmissão do Corona durante as eleições com 29 milhões de votantes”, em vez do “Zero”. Mesmo quando Trump telefonou para o presidente pedindo kits de teste com a promessa de aprovação emergencial pelo FDA (24 de março), ou quando Bill Gates telefonou convidando-o para pesquisas conjuntas em vacina contra o vírus (10 de abril), a imprensa fez pouco caso. Quando a ministra das Relações Exteriores deu entrevista ao vivo no programa Andrew Marr da BBC (15 de março) deixando o mundo de olhos arregalados, a imprensa acusou o governo de “jogar confetes em si próprio”, e finalmente quando o governador do estado de Maryland conseguiu importar kits para 500 mil testes (18 de abril), uma das emissoras coreanas propagou a notícia falsa de que 70-80% dos kits coreanos seriam defeituosos e que os americanos não estavam conseguindo usá-los. No momento, essa mesma agência está sendo investigada por tentar fabricar uma notícia falsa mediante ameaça a um suposto informante, além de conluio com um procurador, com o objetivo de denigrir a imagem da situação e do presidente. A tentativa de busca e apreensão impetrada pelo Ministério Público em 30 de abril à emissora resultou numa barricada humana de dois dias alegando perseguição à imprensa livre.

Seoul National University students hold a rally on their campus, Aug. 23, to urge justice minister nominee Cho Kuk to step down due to multiple allegations surrounding his family. / Yonhap
Estudantes da Seoul National University se manifestam contra Jo Guk em 23 de agosto de 2019. Foto: Yonhap News.

Entretanto, outra reforma ainda mais grave é a do próprio Ministério Público, com poderes para investigar e indiciar, além de abrir investigações sem que haja denúncia. O homem indicado pelo presidente no ano passado para conduzir a reforma do judiciário, o professor de Direito da Universidade Seul, Jo Guk (uma combinação rara em que o sobrenome Jo e o nome Guk formam a palavra homófona de Pátria), entregou o cargo em 45 dias, com sua filha e esposa sendo implacavelmente investigadas pelo Ministério Público, por um suposto Certificado de Honra ao Mérito do ensino médio supostamente falsificado(!). A esposa, presa preventivamente, está sendo julgada, acusada ainda por um empréstimo dado a um primo investidor financeiro. Segundo o Ministério Público, aquilo teria sido na verdade um investimento financeiro travestido, ato proibido para Jo Guk que ocupava o cargo de chefe da Casa Civil – ainda que, rigorosamente falando, Jo Guk era ainda professor universitário à época.

E a economia vai mal, só que não

O crescimento econômico sul-coreano previsto para 2020, que era de 2,2%, foi ajustado para 0,2% pelo Korea Development Institute (20 de maio). A previsão do FMI foi um pouco mais pessimista: 3,2% negativos para a Coreia (14 de abril). Mas o mesmo FMI previu um crescimento de 6,1% negativos para os países desenvolvidos, G7+Eurozone, o que coloca a Coreia com o “maior” crescimento entre os países do OCDE em 2020.

Moon Jaein, presidente da Coreia do Sul, fala à mídia sobre medidas de combate ao impacto econômico do surto de coronavírus no dia 30 de março, anunciando verba direcionada à população mais necessitada. Foto: TheStar.

Até início de maio, os Estados Unidos haviam liberado recursos correspondentes a 13,3% do seu PIB para socorrer a população e as empresas – sem contar a emissão de dólares –, enquanto que o governo coreano havia conseguido liberar apenas 0,7% do PIB em verba emergencial, sob protesto da ala conservadora – coro engrossado pelo próprio Ministério da Economia – que exige salvaguardar a saúde financeira do Estado. Um dos pontos acirradamente discutidos foi a distribuição da verba emergencial excluindo os 30% da população mais abastada, medida que causaria inclusive atraso nos pagamentos. A solução sugerida pela presidência foi de conclamar o povo “mais abastado” a doar o valor recebido, o que poderia diminuir o montante de títulos públicos a serem emitidos, com resposta calorosa e participativa dos internautas.

Se tal discussão colaborou para atrasar a ajuda do governo central, algumas administrações regionais (províncias e municípios) agiram mais rápido, na maioria com cartão de vale-compras que só pode ser usado localmente, com o intuito de salvar os comerciantes do bairro. Com uma dívida pública baixa (38% do PIB), mas também com alto endividamento familiar (94%) e baixo índice de poupança, abaixo dos 40%, a conclusão era clara, nas palavras do governador da Província de Gyeongnam (Kim Gyeongsu): “Se o governo não se endividar, a população irá”.

Cultura a serviço do combate ao Covid-19

 23일 대구시 달성군 구지면 중앙119구조본부에서 119 구급대 앰뷸런스들이 신종 코로나바이러스 감염증(코로나19) 확진자 이송을 위해 확진자가 있는 대구 시내 각 지역으로 출동하고 있다. 중앙119구조본부는 대구에서 확진자가 무더기로 늘어남에 따라 전날부터 전국 시·도에서 18대의 앰뷸런스를 차출해 환자이송에 나서고 있다. 대구 시내 확진자들은 중구 계명대학교 대구동산병원과 서구 평리동 대구의료원으로 이송된다.
Ambulâncias de diferentes lugares da Coreia do Sul se direcionam à Daegu. Foto: Ohmynews.

Segundo o professor de economia Choi Pae Kun, da Universidade Geonguk, o sucesso coreano no combate contra o Covid-19 é resultado de uma “capacidade cultural” coletiva dos coreanos pela mobilização civil, espontânea e desperta, permitindo o governo a manter as fronteiras abertas para China – sob insistentes protestos da ala conservadora –, de onde vem, entre outras coisas, o MB (Melt-Blown), matéria prima para produção das máscaras. De fato, ficaram famosas as fotos do comboio de ambulâncias do país todo se dirigindo para Daegu, das máscaras costuradas à mão por uma senhora idosa entregues no PS do principal hospital de Daegu, milhares de marmitas e guloseimas doadas por empresas para as equipes médicas, além de centenas de voluntários que se dirigiram para a cidade, incluindo o presidente do Partido do Povo, ex-médico, e também as barracas de teste drive-thru, invenção coreana em meio à pandemia.

É verdade que a mobilização civil dos coreanos sempre foi merecedora de atenção dos olhares internacionais: na Crise Financeira Coreana de 1997, três e meio milhões de coreanos participaram da campanha civil para arrecadar ouro guardado nos armários com o fim de pagar a dívida do Estado para com o FMI, sendo arrecadadas 227 toneladas de ouro. Em 2007, uma colisão entre um navio da Samsung e um de Hong Kong provocou o vazamento de quase 80 mil barris de óleo, quando foram registrados um total de 1 milhão e 230 mil voluntários para limpar o óleo impregnado nas pedras em pleno inverno.

Sul-coreanos participam da campanha de arrecadação de ouro no início do 1998 para ajudar o Estado a pagar o FMI. Foto: JoongAng Ilbo.

Mas foi em 2016 que a mobilização civil ganhou definitivamente a política – isto é, os rumos do país – quando milhões de sul-coreanos empreenderam o que ficou conhecido como a Revolução das Velas. Com a então presidente Park Geunhye envolvida em escândalos, o povo foi às ruas segurando velas exigindo seu afastamento. De 26 de outubro de 2016 a 29 de abril de 2017, foram 23 passeatas de velas enfrentando os 15 graus negativos do rigoroso inverno de Seul. A maior delas, em 3 de dezembro, teria reunido 2,3 milhões de manifestantes, segundo os organizadores. Ainda segundo eles, um total de 17 milhões de cidadãos participaram das 23 passeatas, resultando no primeiro impeachment presidencial da história da Coreia do Sul. Sucessor de Geunhye, o presidente Moon é chamado, por esse motivo, de Presidente das Velas.

Vídeo do canal Choi Baegeun TV sobre a Revolução das Velas.

O professor Choi vê na Revolução das Velas o início de uma nova era para os coreanos, em que a sua capacidade cultural se traduz numa democracia popular ativa: em nenhuma das passeatas foi reportado qualquer incidente como roubo ou furto, os prédios liberaram seus banheiros, voluntários distribuíam cafés e lanches, e, ao final, limparam todo o lixo deixado. O economista vai além, afirmando que agora a Coreia estaria prestes a se tornar uma líder global, exercendo um soft leadership – e não soft power, bem entendido, pois nessa nova era o mundo não mais giraria em torno de forças hegemônicas de qualquer tipo.

Para ele, essa consciência democrática ativa da população civil e a liderança transparente do presidente Moon foram a chave do sucesso no combate do Covid-19. Afinal, não houve na Coreia do Sul uma corrida para estocar alimentos ou inflação no preço das máscaras. Além, é claro, da cooperação cívica massiva no distanciamento social, um marco no combate à Covid-19 no país. 

A Revolução das Velas, em 3 de dezembro de 2016, na Praça Gwanghwamun, Seul. Foto: Hankyoreh.

K-culture, K-nóias

Já há pelo menos duas décadas que a Coreia vem ensaiando passos de um emergente soft power, como não deixam dúvidas o K-pop, os K-dramas, o K-cinema, o K-food etc., mas a somatória desses fenômenos não redunda no que chamaríamos de K-culture, pois a verdadeira força desta está no ethos coreano, da corrente pró-ativa pela coletividade, conhecido apagadamente por nacionalismo.

Aproveitando o alcance global do K-pop, os grupos Dreamcatcher, AleXa e IN2IT divulgam os cuidados contra o Covid-19 em um clipe musical.

Enquanto os coreanos assistem estatelados ao que acontece na Itália, França, Inglaterra e Estados Unidos, e se perguntam o que há de errado com esses países que sempre foram fonte de admiração, inveja e sentimento de inferioridade para os coreanos, o professor Choi aponta para o paradoxo em que a civilização ocidental se funda na demarcação e liberdade individuais, e assim busca se manter, mesmo após todas as provas, por diversos meios e experiências, de que tudo está interligado até a garganta. Segundo ele, a fulminante interconectividade do Covid-19, que não distingue pobres e ricos, raças e fronteiras, animais e seres humanos, é uma afronta a uma ordem mundial estabelecida pela civilização ocidental que gira em torno das distinções eu/outro, centro/periferia etc., e tem como premissa básica a liberdade individual. Por outro lado, essa interconectividade letal do vírus rompe a corrente econômica humanamente construída da produção-comércio-consumo.

Se o nacionalismo tem como outro lado a xenofobia, o individualismo tem como efeito colateral a maldosa indiferença quando desprovido de forte lastro religioso. A falência da civilização ocidental decretada pelo professor Choi, por exagerado que possa parecer, busca resposta no colapso da cultura individualista e não invalida o seu raciocínio de que é preciso uma conscientização de uma oni-interconectividade (e por que não oninterconectividade?) necessária em nível global. Seria então a hora de negociar os limites da solidariedade/individualismo, vigilância/liberdade, governantes/governados, pois agora, todos são elos de uma rede interconectada, e cada um tem que segurar sua bola para que toda a corrente não se rompa.

Se o K-qualquer coisa tem assolado o mundo nos últimos vinte anos, o episódio do Covid-19 fez aparecer uma outra onda, desta vez interna, de coreanos inebriados e orgulhosos de seu próprio país. Muitos, incluindo o professor Choi, engrossam a massa dos chamados Gukppong, que ora traduzo, com licença nada poética por K-nóias, e apresento mais um incorporado à massa, o Joseh Juhn, advogado novaiorquino coreano-americano, que chegou à Coreia no último dia 30 de abril e publicou um depoimento no Facebook (nota: Joseh Juhn dirigiu e produziu o aclamado documentário Jeronimo, lançado em novembro do ano passado, sobre filho de um imigrante coreano em Cuba que lutou ao lado de Fidel Castro pela revolução, tornando-se seu ministro):

Cheguei na Coreia. Sabia que teria de cumprir 14 dias de isolamento. Tinha tido sintomas em Nova Iorque desde meados de março. Não eram graves, mas me castigou por semanas deixando-me emocionalmente abalado. Busquei ajuda governamental, mas meus sintomas não eram graves o suficiente para merecer atenção, e deixei meu nome na lista de espera do teste. Seis semanas depois, continuava sem contato. Não pude esconder o meu choque e desapontamento perante a impotência geral do país mais rico e da cidade mais rica do mundo. Com todo o sistema colapsado e lideranças apagadas, a consciência civil também deixou a desejar. O direito soberano da liberdade individual havia sido deturpado, lesando o bem público, produzindo um fenômeno irracional (grifos meus).

1. Passamos por consulta médica e fomos testados ali mesmo. Soltei uma risadinha vazia, sentindo-me bobo. Seis semanas angustiantes de espera em Nova Iorque dissolviam-se de forma absolutamente trivial;

2. Durante a espera, nos deram uma marmita. Aquilo me emocionou profundamente. Como o resultado sairia na madrugada, fomos levados a um hotel próximo e tudo isso nas mãos diligentes de bombeiros, policiais e funcionários do aeroporto e sem qualquer custo;

3. Na manhã seguinte, recebemos a marmita da manhã e cada um foi levado para o seu destino final, por veículos destinados para esse fim. Senti-me como um VIP;

4. Já em isolamento, recebi telefonemas do agente que ficaria responsável por me rastrear por duas semanas e recebi instruções de como utilizar o aplicativo de rastreio;

5. No dia seguinte, recebi uma caixa grande, contendo álcool em gel, termômetro, spray antisséptico, várias máscaras, sacos de lixo, além de alimentos prontos para duas semanas e produtos de higiene;

6.  Alguns chamam isso de “vigilância estatal”, mas me senti tão bem cuidado nos mínimos detalhes, a ponto de pensar se eu merecia aquilo. Na verdade, ainda não consigo acreditar que todos que chegam do exterior recebem esse tipo de “gerenciamento”. A capacidade de gestão pormenorizada e sistemática sul-coreana contrasta gritantemente com os países que chamamos de desenvolvidos, onde até os mais graves são barrados na porta do hospital. Não é simplesmente uma questão de aparelhamento, mas é possível sentir “o interesse humanizado” permeado em todas as etapas, ao qual só posso expressar gratidão (grifos meus).

Os cuidados e os procedimentos aos quais fui submetido ultrapassam qualquer imaginação. Sempre tive alguma ressalva contra iniciativas estatais, mas desta vez gritei várias vezes ‘Viva Coreia!’ por dentro. Tenho inveja daqueles que leem isso que escrevo em coreano. Experiencio o que podemos chamar de padrão global que ainda inexiste em qualquer lugar do mundo, aqui na Coreia.

Remova o óleo colando nas rochas
Voluntários se unem em Mohang-ri para retirar o óleo derramado no Mar Ocidental que ficou preso em pedras do litoral. Foto: Yonhap News.

Conectados, venceremos

Se o senso de coletividade dos coreanos tem como seu lado negativo a xenofobia, talvez essa seja uma oportunidade de, ao exercer tal soft leadership, expandir as fronteiras do “nós” coreano. E, por outro lado, talvez essa seja uma oportunidade para a civilização ocidental olhar com outros olhos para as bases fundantes do seu modo de organizar o mundo e seus possíveis efeitos nefastos. Isso seria mais urgente do que exigir indenização à China, fechar fronteiras e buscar salvar seus lucros em detrimento de quem quer que seja. O momento seria de não deixar cair nenhum elo, civil e global.

Segundo Choi, K-democracia é uma democracia fundada não sobre a liberdade individual, mas sobre a consciência de que ela é construída coletivamente e assim mantida quando cada um desempenha o seu papel de forma auto-regulada. Alguns atribuem o sucesso coreano à uma alegada obediência natural dos coreanos, fruto de uma cultura confucionista, ou ainda, a uma longa experiência por ditaduras militares. Outros ainda podem dizer que Choi generaliza apressadamente um sucesso pontual. Entretanto, a resposta pode ser encontrada mais no sistema público de saúde (não necessariamente gratuito) sul-coreano invejado por Obama, quem idealizou o Obama Care nos moldes coreanos, abortado por Trump, no parque industrial célere e flexível e uma coletividade desperta.

Samguk Yusa, um dos dois livros que formam o cânone do registro histórico da Coreia antiga, compilado em 1281 por um monge budista, traz a lenda do fundador do primeiro reino coreano Dangun. Nela, Dangun teria fundado o primeiro reino coreano sob o lema de “Trazer o bem amplo e geral a todos”, que numa tradução mais livre e oportuna, diria “Promover o ganha-ganha a todos”, devidamente conectados.

Samguk Yusa: Yonsei's First National Treasure
Livro “Samguk Yusa”, onde se encontra o trecho original da tradução “Promover o ganha-ganha a todos” . Foto: site da Yonsei University.

Yun Jung Im

JORNADA AO OESTE: A queda e ascensão do Macaco Dourado.

Por Guilherme Gooda*

Qual o preço e qual o caminho para se tornar um imortal? E qual a finalidade de se tornar eterno? Essas são as perguntas que permeiam a narrativa de “Jornada ao Oeste”.

A lenda de Sun Wukong, ou o Rei Macaco, é um patrimônio cultural chinês. Publicado como obra escrita pela primeira vez em 1592 e escrito por Wu Cheng’en por volta de 1570, a história retrata a viagem e a interação entre pelo menos três personagens – Tripitaka, Macaco e Porco. Estes dois últimos personagens são tão memoráveis quanto seus pares na literatura mundial Don Quixote e Sancho Panza. As comparações com Don Quixote, como fantasia satírica pautada em observação realista e sabedoria filosófica, são apontadas por diversos críticos considerando a importância das duas obras para o desenvolvimento da literatura Europeia e Chinesa. 

A obra se baseia em um acontecimento histórico ocorrido na China entre 629-645, em que um monge Budista conhecido como Tripitaka viajou até a Índia para recuperar textos budistas e após sua volta dedicou o restante da vida a traduzi-los.

Crédito: Journey to the West, Ilustração: Jamie Hewlett, 2004

A história factual de Tripitaka se tornou uma lenda e elementos ficcionais foram adicionados como narrativa oral, culminando na versão lendária e fantasiosa representada em “Jornada ao Oeste”.

Como obra de fantasia, “Jornada  para  o  Oeste” (西|游|记 – Xī Yóu Jì)  é prontamente  acessada  pela  imaginação  ocidental  através  da  obra  adaptada  de  Arthur  Waley, “Macaco”, sendo a adaptação preferida do grande público e principalmente do meio acadêmico. Waley escolheu apresentar apenas quarenta dos cem capítulos da obra original, visto que a tradução completa se provaria cansativa para os leitores Ocidentais, já que muitos episódios parecem repetitivos e procedurais. 

A narrativa completa de “Jornada para o Oeste” possui em sua completude cem capítulos, que podem ser divididos em 4 partes distintas. A primeira destas quatro partes, que inclui os capítulos do primeiro ao sétimo, contém a introdução a história e a apresentação do personagem Macaco, o protagonista da narrativa de viagens mais famosa no oriente. Por este ângulo, Jornada ao o Oeste já foi comparado pela crítica com a Odisséia de Homero, aproximando as soluções engenhosas de Wukong com a astúcia de Ulisses. 

Crédito: Jornada ao Oeste, 2008 pg. 141

Certamente os traços principais de Sun Wukong (孙悟空- Macaco) são sua bravura e prontidão, seu destacamento espiritual, seu humor travesso e sua grande energia, definiam seu caráter heroico. A postura desafiadora, principalmente durante a primeira fase da história, deve-se ao fato do personagem parecer invencível e imensamente poderoso. Seu único medo é a morte, o que explica toda sua jornada em busca da imortalidade.

Já na segunda metade Wukong percebe que a imortalidade só poderia ser alcançada com o cumprimento  de sua jornada através do serviço, dando início ao trajeto de viagens da China para a Índia, acompanhando o monge Tripitaka. Alegoricamente, a jornada de Wukong é uma busca por compreensão e entendimento dialogando diretamente com o Budismo chinês, enquanto o pano de fundo místico ajusta-se com um Taoísmo já de certa forma influenciado pelo Budismo que expandia na China durante a Dinastia Ming. 

A adaptação em quadrinhos do Jornada ao Oeste é classificado como um lianhuan hua, ou livro de imagens conectadas. Essa forma de quadrinho existe desde o início do século XX, quando a tecnologia de impressão barata tornou possível para as editoras a produção em massa de imagens com alta fidelidade e texto com baixíssimo custo, oferecendo uma nova forma de entretenimento para o número crescente de leitores nas cidades. Uma das características deste quadrinho é a representação de apenas um ou dois quadros por página – riquíssimos em detalhes – trazendo uma legenda que explica a cena representada.

Crédito: Jornada ao Oeste, 2008 pg. 121

Com o advento do mangá no Japão, principalmente após as obras de Osamu Tezuka, o lianhuan hua perdeu espaço para o novo quadrinho chinês, num estilo muito mais influenciado pelos quadrinhos japoneses e ocidentais, adotando o nome de manhua, para se aproximar dos mangás japoneses.

Diferente do quadrinho ocidental moderno e do mangá, onde existem, os “balões” para darem fala e indicarem os pensamentos dos personagens, aqui a legenda funciona como parte integrante da cena, sem ela a compreensão de certos quadros ficaria impossível. Hoje, o lianhuan hua é uma mídia essencialmente renegada, com sua distribuição e negociação atendendo a nichos específicos de colecionadores e adultos mais nostálgicos.

No princípio da narrativa, a personalidade quase infantil do Macaco faz com que ele pregue peças, zombe e discuta com seus opositores como uma criança que desafia os pais em frente ao castigo.

Crédito: Jornada ao Oeste, 2008 pg. 27

Nesse sentido, Wukong poderia representar o caos que perturbar a ordem celestial, principalmente por não respeitar o “protocolo e a hierarquia” estabelecida pelas divindades. Wukong é a representação de uma força da natureza, de um poder e força bruta que se mostram desapegado das convenções sociais do Céu exigindo o que acha ser o certo.

Wukong acredita que sua força era seu direito de governar e foi por sua arrogância que foi punido finalmente pelo Buda.  Sua força física é demonstrada durante as passagens de combate e de treinamento e  sua ânsia para tornar-se imortal o levou até o Céu, mas por ser insubmisso caiu novamente à Terra, onde ficou aprisionado. 

 Somente na segunda parte da narrativa, Wukong aprende que a imortalidade e iluminação não são atingidos através de força bruta, mas sim através do serviço, humildade e amizade onde o Macaco, agora na companhia de seus novos amigos finalmente  encontra ao longo de sua jornada. Parece algum shonen q você conhece? A narrativa Jornada ao Oeste serviu como inspiração para várias obras da cultura pop, adaptando o personagem Wukong e outros aspectos da narrativa, sempre atualizando os conceitos tratados na obra.

Ficha técnica: CHENG’EN, Wu – Jornada ao Oeste: o nascimento do rei dos macacos / Wu Cheng’en tradução Adam Sun. Ilustração: Ma Cheng, Wang Zhi-Xue e Hou Xi – São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2008.

 * Guilherme Gooda é doutorando em Comunicação pela UNESP-Bauru (2019-), onde pesquisa produções midiáticas do leste asiático em especial as chinesas, e mestre pela mesma instituição (2016-2018). Graduado em Letras (português-mandarim) na FFLCH-USP. Suas pesquisas envolvem a atualização do imaginário popular e a sobrevivências das imagens, bem como as relações Brasil-China em diversas esferas.