“A negociação”: a empatia transformadora e combatente entre um criminoso e uma policial

Por Alessandra Scangarelli (Via Intertelas e KoreaPost)

Toda sociedade tem um número de “crenças” e regras que mesmo não sendo reais no mundo concreto, continuam por serem perpetuadas na busca de manter a fé das pessoas na humanidade. A ideia de que uma pessoa somente, uma espécie de herói, ou heroína, com um poder descomunal é capaz de reverter todo mal aquece e tranquiliza o coração de muitos.

Mais profundo ainda é quando se acredita que um ser abstrato vá um dia surgir, ou ressurgir, fazer a limpeza e o dever de casa que os humanos imperfeitos assim não conseguiram, tornando o mundo e a vida justos finalmente. São as crenças e as ilusões necessárias para que, no geral, a grande maioria continue na linha e reproduza o as regras do sistema criado pelos homens, como deve ser, sem transformá-lo, sem revolucioná-lo para algo melhor.

Um sistema que tem uma estrutura bastante complexa e que apenas existe se tanto o lado “bom”, quanto o lado “ruim” coexistirem. Como o mercado ilegal e o legal que, na realidade, dependem um do outro para seguirem com suas funções. Afinal, para que seriam necessários policiais se não existissem bandidos? Para que seriam necessários exércitos se as guerras não ocorressem? E para que produzir armas se todos respeitam a vida acima de tudo? Ao ter claro que este contexto existe, sendo realista e não pessimista, encontrando soluções concretas e não fantasiosas, é possível ter em conta que as mudanças podem ser realizadas através da atitude pouco convencional e muitas vezes corajosa dos indivíduos em conjunto.

Crédito: Pinteres/Korean Drama 24/7

Isso quando estes conseguem livrar-se da “máquina” que os conduz diariamente, deixando de serem meros sobreviventes egoístas, ou parte da engrenagem sistêmica exploradora para pensar em todos e lutar por todos, ou por alguém em específico do qual acabem criando empatia, ou um certo amor humano fraternal, que os faça querer justiça e cuidar do próximo, ainda que este lhe seja um estranho, ou digamos seja inclusive uma pessoa que não tenha feito as escolhas mais certas na vida.

“A Negociação” (The Negotiation) (2018), dirigida por Jong Suk Lee traz esta mensagem em um enredo que combina de forma bastante natural entretenimento e os males mais proeminentes na sociedade sul-coreana atual. Assim, a história gira em torno de uma negociadora chamada Ha Chae Yoon (Son Ye Jin) que faz parte da equipe de negociação de crises da Agência Metropolitana de Polícia de Seul e um traficante de armas Min Tae Gu (Hyun-Bin) que sequestrou dois coreanos em Bangkok . Ha Chae Yoon é a típica servidora pública que ao trabalhar em algo tão único faz com que dificilmente possa ter uma vida cotidiana muito turbulenta, com pouco tempo usufruir dela. Seguindo uma lógica bastante comum de ocorrer nestes casos era de se esperar que ela não fosse uma pessoa muito emotiva, que tivesse uma atitude mais endurecida sentimentalmente e que encarasse a violência como algo normal.

Contudo, a personagem foge deste clichê e supreendentemente apresenta uma personalidade bastante humana, sofrendo com as vítimas, com a perda ocasional de vidas. E mais interessante é que o traficante e sequestrador Min Tae-Gu acaba seguindo esta mesma linha.

Crédito: IMDB

À primeira vista parece um criminoso frio e calculista. Contudo, ao longo da narrativa, quando se vai descobrindo as razões que o levaram a sequestrar e fazer reféns,  percebe-se que a raiz do seu problema tem como pano de fundo uma história de teor pessoal bastante emocional. E, acima de tudo, suas intenções visam, principalmente, enfrentar um sistema extremamente corrupto, comandado por uma casta de autoridades e uma elite empresarial de grande poder, envolvidas com tráfico de armas internacional. Este mercado que tanto legal, quanto ilegal é um dos mais lucrativos do mundo.

Segundo o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), uma organização que realiza pesquisas científicas em questões sobre conflitos, localizada na Suécia, o valor total do comércio de armas em 2017 gerou algo em torno de 95 bilhões de dólares e as 100 maiores empresas do campo lucraram em torno de 398.2 bilhões de dólares apenas no ano referido. Os principais países que vendem armas são exatamente nesta ordem: Estados Unidos, Rússia, França, Alemanha e China. Os alemães têm como seu principal comprador a Coreia do Sul, totalizando 19% de suas vendas. A Coreia que tem suas próprias empresas de armas e que participa deste mercado tanto legalmente, quanto ilegalmente.

“A Negociação”, infelizmente, não trabalha em sua narrativa, os bastidores deste mundo com maior profundidade, servindo este mais como um pano de fundo e para promover uma das causas que desencadeia todos os acontecimentos da trama. Contudo, esta falta não diminui a importância, nem torna esta produção cinematográfica menos atraente, pois ela acaba focando na questão humana que se almeja debater.

Crédito: IMDB

Somado a isso, as intepretações de grandes atores, em conjunto com um roteiro que explora bem as situações de tensão deixam o espectador bastante focado e esperando pelo desfecho que este drama terá. O mais interessante talvez a se apontar é que será através de Min Tae Gu que a negociadora Ha Chae Yoon vai deixar sua posição passiva para tomar uma atitude e tonar-se uma policial real. Isso porque ele enxerga nela a capacidade humana mais evoluída para tanto, como salientando acima: o de ter empatia pelo próximo, seja ele (a) quem for.

Desta forma, “A Negociação”, além de nos fazer atentar para a estrutura do sistema e suas relações dúbias e bastante esquizofrênicas entre o mundo legal e o mundo ilegal, destaca algumas temáticas importantes: criminosos também amam e podem ter causas bastante justas para defender, apesar de suas escolhas; um bandido pode ser mais humano do que aqueles que vivem aparentemente uma vida de conduta social impecável, mas que, por baixo do tapete, são os reais monstros desprovidos de qualquer humanidade; um indivíduo comum como uma servidora pública e seus colegas estão mais inclinados a poder realizar as transformações necessárias e enfrentar o sistema do que os chamados líderes, pessoas de destaque ou seus superiores já viciados, conduzidos e engolidos pela “máquina sistêmica”. Assista “A Negociação” na Netflix.

Ficha Técnica:

País: Coreia do Sul  | Direção: Jong Suk Lee | Roteirista: Sung Hyun Choi, Park Myeong Chan (comic) | Elenco: Ye Jin Son, Hyun Bin, Sang Ho Kim | Duração: 112 min | Ano: 2018

An – O sabor da vida: Tudo neste mundo tem algo a nos contar, basta que estejamos dispostos a ouvir

Por Edylene Daniel Severiano

“Acredito que tudo neste mundo tem uma história para contar (…).” “Tentamos viver nossas vidas de forma irrepreensível, mas, às vezes somos esmagados pela ignorância do mundo.” Tokue

Não estivesse datado de 2015, o premiado filme nipo-franco-alemão, de roteiro de Tetsuya Akikawa e Naomi Kawase, trazido à vida no ecrã pelo habilidoso e sutil olhar de Kawase, An (Sabor da Vida), poderia ser datado de um futuro próximo, inspirado nas vicissitudes de nossos dias, agora mais longos pela incerteza que nos atravessa, melhor, inspirado na ausência que nos trouxe ao aqui-agora: a inapetência da escuta que nos atropela por todos os lados numa avalanche de ignorância. Nossa ignorância, nossa incapacidade de ouvir o mundo.

Baseado no romance homônimo de Durian Sukegawa, An oferece uma ode às relações familiares e à natureza, numa trama centrada nas histórias de três personagens: uma mulher idosa, um homem de meia idade e uma estudante. Um filme de cores e fotografias suaves, em que o signo que se afirma preponderante é o som, assim se inicia a película, com os sons estridentes das coisas no mundo: trem, vozes de transeuntes, arrastar de pés; mas no profundo quase silêncio de duas das personagens principais, a tímida Wakana e o introspectivo Sentarô.

Interpretada por Kyara Uchida, a adolescente Wakana se mostra deslocada no mundo, presa a uma relação distante com sua mãe, que não a estimula a continuar os estudos, e isolada dos colegas de escola. Seu centro de interação é a pequena loja de dorayaki onde Sentarô trabalha sozinho, para onde ela vai, faz um lanche e recebe dele as sobras de massa que “não deram certo”. O silêncio da jovem faz-se gritante pelo contraste com outras jovens na loja, efusivas, contentes, brincando entre si e até com Sentarô, enquanto Wakana apenas se limita a saudações e agradecimentos. Mesmo em casa, sua mãe e seu canário, Marvy, emitem mais sons do que a jovem. É sabido que a fala é uma expressão da dobra com a ausculta, elaborada por meio do silêncio, e é neste que Wakana está contida, sem conseguir fazer-se ouvir.

Crédito: IMDB, 2020

Como um contínuo dessa inércia está Sentarô, interpretado por Masatoshi Nagase, um homem na casa dos 40 anos que se dedica a uma pequena loja de dorayaki, sem ao menos gostar de doces. Indiferente aos clientes, em sua maioria jovens estudantes descontraídas, passa seus dias entre a pequena loja, seus cigarros e seu apartamento, inerte a todos, todos os sons ao redor, silente como Wakana. Uma das cenas iniciais do filme traz Sentarô arrastando os pés até o terraço de seu prédio, indo fumar antes de mais um dia de trabalho. O som de seu arrastar de pés revela o mais profundo que há no seu ser: o vazio. Como pacientes, ambos, Sentarô e Wakana, parecem esperar a aparição de Tokue para propagar e dar sentido às suas vidas.

Interpretada pela talentosa Kirin Kiki, logo nas primeiras cenas uma pequena e frágil senhora que conversa com as árvores, o Sol, a Lua, Tokue, que está em mais um de seus passeios, aparece na loja de dorayaki e indaga Sentarô quanto à cerejeira plantada em frente à loja. Ele se limita a responder que não era dali. A frágil senhora, então, mostra-seinteressada na oferta de trabalho que constava no letreiro em frente à loja, e, após, trocar algumas palavras com o doceiro, esse lhe pergunta sua idade e se surpreende, já que o trabalho seria pesado para uma senhora de 76 anos. Tokue insiste e pede para o futuro chefe pensar. Ele, não muito receptivo, oferece-lhe um dorayaki. Tokue se despede, agradece e parte, não sem antes cumprimentar a cerejeira. Wakana, que observava a cena, pergunta se, caso ele não contratasse Tokue, ela poderia trabalhar como sua ajudante. Sentarô menciona a escola e a menina afirma que a abandonará.

Essa cena inusitada poderia ser mais uma, mas é o mote para a narrativa de Kawase se desenvolver. Passados alguns dias, Tokue retorna à loja reiterando seu pedido de trabalho. Diante da negativa de Sentarô, comenta que provou o dorayaki e que a massa até estava boa, mas a pasta de feijão doce (an) não, deixando assim a an, que ela mesma preparara, para o doceiro experimentar. Sentarô, no fim do expediente, olha para o pote de doce e o joga no lixo, mas em um ímpeto recolhe e resolve experimentar. Nesse momento seu mundo se abre. A an, pasta de feijão azuki adocicada, que dá nome ao filme, era saborosa. Dias depois quando Tokue retorna, ele a contrata e tem início uma jornada pelo sabor do An, pelo sabor da vida. Tokue ensina as minúcias do preparo, que começa antes do raiar do “Senhor Sol” e exige horas de paciente escuta e apreciação. Em pouco tempo o dorayaki feito por eles fica famoso e cada vez mais clientes vêm à loja.

Crédito: IMDB, 2020

O tempo passa, as estações passam e tudo parece transcorrer bem, até que a proprietária aparece e exige que o doceiro demita sua ajudante. Tokue tinha as mãos defeituosas, sequela da lepra que a acometera ainda na adolescência. Apesar da insistência, fraca, de Sentarô, sua chefe afirma que, se as pessoas souberem, deixarão de frequentar a loja. Emerge assim uma face da sociedade japonesa a que o público mais geral está pouco afeito, a face da exclusão e do preconceito. O doceiro, sem coragem de demitir Tokue, que afirmava já estar curada, e estava, vê com o passar do tempo o estabelecimento se esvaziar. Não importava que Tokue estivesse curada, o medo e o estigma falaram mais alto. E um dia a frágil e determinada senhorinha não mais retorna.

No decorrer dos dias da ausência da doce Tokue, inconformado com a situação, Sentarô entrega-se à desolação. Até que um dia sua ajudante quebra o silêncio ao lhe escrever uma carta expressando o quanto era grata por ter estado ao lado dele e por ter novamente podido preparar a an, afinal esse tinha sido seu trabalho por 50 anos. Suas palavras, doces e suaves, como a pasta que fazia, tocam o coração de Sentarô: “Acredito que tudo neste mundo tem uma história para contar (…)”. Assim Tokue conta como ouvia os feijões, suas histórias desde os campos até a panela, acolhia-os com sua suavidade e os adoçava com ternura e paciência, respeitando seu tempo de preparo.

Ao lado de Wakana, Sentarô parte em busca de Tokue. O local é uma antiga área de isolamento de pessoas com hanseníase. A chegada até lá tem um quê de viagem bucólica, há uma pequena floresta e depois dela uma Tokue mais frágil e debilitada, que conta como chegara até ali, ainda muito jovem, e nunca mais vira sua mãe, tampouco pôde ter seu filho. Os laços de cuidado e afeto, até então discretos, evidenciam-se: uma mãe sem seu filho, um filho sem sua mãe e uma criança sem cuidados, assim estavam Tokue, Sentarô e Wakana antes de ouvirem juntos os feijões azuki. Sentarô, num gesto confessional, escreve uma carta a Tokue revelando porquê emudecera diante do mundo:  ao apartar uma briga acabou ferindo alguém e por isso ficara preso por três anos. Nesse ínterim, sua mãe veio a falecer e ele não pode mais ouvir o que ela tinha para contar, suas histórias: emudecera diante do silêncio. E intentando entregá-la guarda-a.

Crédito: IMDB, 2020

O doceiro, motivado pelas palavras de sua ajudante, retoma o trabalho, dedicando-se a fazer a an e com a ajuda de Wakana vê seu trabalho com entusiasmo, quando mais um empurrão os silencia: a proprietária tem planos de modernização da loja e impõe um novo ajudante, que virá a ser chefe de Sentarô. Desnorteados Sêntaro e Wakana partem de novo em busca de Tokue, mas são informados por Yoshiko, sua amiga do asilo, de que ela falecera. Ela, porém, lega a Sentarô seus instrumentos de cozinha e a Wakana um pedido de desculpas por não ter podido cuidar de Marvy, não pudera mantê-lo preso. Yoshiko conta-lhes, ainda, que, como eles não podem ser sepultados, é plantada uma árvore quando um deles falece e os leva à árvore de Tokue, uma cerejeira, em meio a uma pequena floresta, uma pequena floresta capaz de falar a quem quiser ouvir.

Kawase, assim, oferece ao espectador uma reflexão sobre as relações familiares e a natureza, e como essas entrelaçam-se pelas falas e auscultas, lembrando que todos têm algo a oferecer, não importando a idade. Não há seres descartáveis, o que deve ser isolado é o medo do diferente. Mais do que os feijões, Tokue se dedicava a ouvir o mundo, a ouvir o som, a voz, as narrativas que as pequenas coisas têm para contar, as minúcias daquilo que compõe o cotidiano. Impedida de ouvir seus entes queridos, restou a Tokue aprender a ouvir a natureza, os sentidos e sentimentos que essa expressa, inclusive os alimentos. A natureza, então, é o que passa a atá-la ao mundo. Kawase dá forma a uma pequena família, cujos membros conseguem se conectar a partir da escuta da natureza: Tokue que aprendera a ouvir o mundo, como mãe e avó, dedica-se a ensinar essa escuta motivadora da presença, do estar, da agência no mundo, da fala. Sentarô encontra a voz perdida de uma mãe a acolher seu filho e prepará-lo para o mundo. E  Wakana, que não conseguia ser ouvida por sua mãe, recebe de Tokue e Senterô o incentivo para encarar a vida. Desse modo, ela lega aos dois o aprendizado de ouvirem as vozes do mundo, da natureza, para que assim, ecoem e falem. Numa prática das ideias para adiar o fim do mundo, Tokue adia o fim de dois mundos, dos sonhos de Sentarô e Wakana. “Não há inverno que não seja seguido da primavera”, diz um provérbio japonês. Como tal, Sentarô e Wakana veem florescer suas vidas, ela seguindo seu sonho de estudar e ele finalmente deixando a doçura do dorayaki guiar sua vida.

O que faz do filme de Kawase um diálogo contemporâneo, pois, mais do que nunca, mas tanto quanto antes, todas as formas de humanidades são convocadas a ouvir o que as coisas do mundo têm a dizer, como afirma Tokue: “Viemos a este mundo para vê-lo e ouvi-lo” (tradução livre da autora).

Crédito: IMDB, 2020

Ficha técnica:

País: Japão; França; Alemanha | Direção: Naomi Kawase | Roteiro: Durian Sukegawa (livro), Tetsuya Akikawa, Naomi Kawase | Elenco: Kirin Kiki, Masatoshi Nagase, Kyara Uchida | Duração: 113 min | Ano: 2015.

CEA-UFF recebe pesquisadoras para um debate sobre Estudos Japoneses

No próximo sábado, dia 30/05, começando as 15:30 horas, o GT de Estudos sobre Japão do Centro de Estudos Asiáticos da Universidade Federal Fluminense (CEA-UFF) recebe as pesquisadoras Mônica Okamoto (UFPR), Junko Ota (USP), Krystal Cortez (MidiÁsia-UFF) e Mayara Araújo (MidiÁsia-UFF) para um debate sobre as possibilidades de realização de estudos sobre Japão.

Crédito: CEA-UFF.
Crédito: CEA-UFF.

Serão duas seções na quais serão discutidos: os caminhos da pesquisa em Estudos Japoneses (professoras Mônica e Junko) e o audiovisual pop como objeto (professoras Krystal e Mayara).

O evento online terá seu link disponibilizado na manhã do mesmo dia e as inscrição serão encerradas ao 12:00 do sábado.

Inscreva-se em: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSc87ZmdIi9_D-uRSuuj5vpiyZ4hSGnya_5LdCgdwcw_VJ2k7g/viewform

Academia de Estudos Japoneses do ICBJ oferece minicurso online “Pensar a cultura pop japonesa para além do animê: dramas de TV”

A Academia de Estudos Japoneses do Instituto Cultural Brasil-Japão (ICBJ) está com inscrições abertas para o minicurso online “Pensar a cultura pop japonesa para além do animê: dramas de TV”, que ocorrerá entre 9 de junho a 11 de agosto, todas as terças-feiras, no horário de 16h ás 18h. O minicurso é oferecido gratuitamente e consiste em um esforço acadêmico em disseminar os estudos sobre a cultura pop japonesa a partir de outras perspectivas, para além do tradicional eixo dos animês e mangás.

Ministrado pela professora e doutoranda em comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Mayara Araujo, a inciativa busca ainda, ao longo de 10 aulas online, discorrer sobre o conceito de cultura pop e de cultura pop asiática. Fazem ainda parte do programa do curso aprofundar a análise sobre a apresentação desse pop no Brasil e, por fim, explorar o que são os dramas de TV – popularmente conhecido como doramas – seus gêneros, formato e emulações por parte de outros países do leste asiático.

Crédito: Mayara Araujo.

Para mais informações e saber como realizar a sua inscrição mande email para: academiahistculticbj@gmail.com, incluindo os seguintes dados no corpo do texto: Nome Completo, CPF, Instituição de Origem, Curso, Titulação, Período. É também solicitado aos interessados informar se são alunos, associados ou membros de alguma associação ou instituição relacionada à cultura japonesa ou às artes marciais.

Entrevista com Iara Lee (Coreanos Pelo Mundo): “A vida resume-se em saber transformar algo negativo em positivo”

Por Alessandra Scangarelli (via Korea Post e Intertelas)

A cineasta Iara Lee. Crédito: Cultures of Resistance.

O trabalho de promover solidariedade entre as pessoas é árduo e requer muita energia, persistência e disposição. Mas isso é tudo que Iara Lee, cineasta brasileira de origem coreana, nascida em 1966 e hoje radicada em Nova Iorque, tem de sobra. Ela percorreu uma longa jornada como produtora de cinema e festivais da área. Hoje é diretora e ativista. Seu trabalho visa a cobertura de notícias e debate sobre questões de extrema importância para a sociedade mundial. O cinema para ela é uma ferramenta capaz de impactar e realizar mudanças no público que o consome, ainda que seja de forma bastante seletiva e vagarosa.

No seu objetivo de incitar provocações que façam o espectador refletir e ser mais proativo no seu dia-a-dia em realizar mudanças que visem melhoras a todos, ela, em conjunto com outros colegas, deu início ao projeto “Culturas da Resistência”. Uma série de trabalhos audiovisuais documentais que almejam propagar informação, conhecimento e acima de tudo ativismo. De 1984 e 1989, ela foi produtora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Crédito: Danilo Arenas/Cultures of Resistance.

Em 1989 mudou-se para Nova York, onde fundou a empresa multimídia Caipirinha Productions, no intuito de explorar múltiplas formas de expressão artística e cultural. Os temas de suas obras englobam diversas temáticas, entre elas: a influência da alta tecnologia sobre a cultura de massa “Synthetic Pleasures” (1995) e a música eletrônica “Modulations” (1998). O projeto mais recente da realizadora é uma série de dois documentários sobre Burkina Faso. Em “Burkinabé Rising: A Arte da Resistência em Burkina Faso”, a diretora expõe o dia-a-dia de uma comunidade de artistas e cidadãos engajados, que estão a incitar mudanças políticas importantes neste país de pequeno território, localizado na África Ocidental.

Lee é também militante pela paz e realizou diversas iniciativas neste sentido como a Campanha Internacional pela Eliminação de Bombas de Fragmentação e o primeiro concerto da Filarmônica de Nova Iorque na Coreia do Norte, em 2008. Ainda na sua biografia estão experiências únicas, a exemplo de testemunhar o bombardeio israelense contra o Líbano, em 2006. Desde então ela vem apoiando e colaborando com projetos que visam a disseminação de uma cultura de paz e colaboração entre as pessoas como a campanha “Faça filmes, não guerra”.

Gravando um de seus tantos trabalhos na África sobre a cultura de resistência dos povos locais. Crédito: O Tempo.

Em 2010, ela participou da “Flotilha da Liberdade”, organizada pelo movimento Free Gaza, que tinha o objetivo de enviar uma de carga 10.000 toneladas de ajuda humanitária à Faixa de Gaza e protestar contra o bloqueio imposto por israelenses e egípcios na época. A flotilha foi atacada pelas forças israelenses. Lee foi primeiramente dada como desaparecida, até ser encontrada pelas autoridades de Israel. Em entrevista ao Koreapost, ela conta um pouco de sua trajetória no cinema e compartilha um pouca da sua visão sobre questões importantes da agenda Internacional.

Como foi o início desta trajetória?

Passei nove anos trabalhando na Mostra Internacional de São Paulo. Preferi ter esta experiência, do que ficar na faculdade de cinema da Universidade de São Paulo. Na época, achei que o curso tinha muita teoria e pouca prática. Na Mostra consegui aplicar parte das teorias que tinha aprendido. Fazia todo o trabalho que ninguém queria fazer. Tomei conhecimento de tudo que era necessário saber para melhor compreender como funciona um festival, o que é preciso para que ele ocorra. Trabalhava pela manhã, tarde e noite. Atualmente a minha vida não é muito diferente. Muitas vezes eu estou participando dos festivais e realizando trabalhos puramente burocráticos e chatos, distribuindo flyers, preparando kits de imprensa, estas coisas. Às vezes, as pessoas confundem e acham que sou a assistente e não a diretora do filme.

Crédito: João Meirinhos/Cultures of Resistance.

Após adquirir bastante conhecimento sobre os bastidores e o mercado de cinema resolvi dirigir. Então, falei com os meus pais e fui para Nova Iorque. Estudei na Universidade de Nova Iorque, mas também não gostei. Todo mundo lá queria ser um Martin Scorsese, queria fazer parte deste mundo comercial de Hollywood. Então, resolvi focar e terminar o curso, antes do período determinado pelo programa da faculdade. Consegui fazer tudo em dois anos. Além disso, também estudei filosofia. Neste período, fiz dois curtas-metragens que foram para festivais como Sundance. Meus filmes, desde o início, sempre tiveram uma linha mais autoral e experimental, tanto do quesito propriamente técnico de fazer cinema, quanto no conteúdo, nas histórias, nas mensagens que queria passar.

Como uma cineasta independente, que não se identifica tanto com o cinema comercial, faz para passar conquistar espaço em um mercado cinematográfico mundial tão monopolizado?

Pois é, eu não me sinto parte deste mundo mercadológico do cinema mesmo. No começo, meus filmes até tinham certo apelo mais comercial e eu conseguia participar dos festivais principais. Mas, quando fui me afastando desta lógica e abordando temas políticos mais delicados, até estes festivais que dizem abraçar o trabalho mais experimental, mais autoral, disseram não estar mais interessados no meu trabalho. Então tive de recomeçar. Assim, procurei outros tipos de festivais que vivem mais à margem deste sistema monopolizado e que são eventos de nicho como mostras e festivais sobre os direitos humanos, contra o fascismo, focados em questões ecológicas e etc.

Mais uma vez a minha filosofia de vida que diz ser importante saber transformar algo negativo em positivo ajudou neste momento. Não fiquei chorando porque era rejeitada pelos grandes festivais. Fui procurar alternativas. E vasculhei tanto este mundo que acabei formando uma rede de contatos bastante significativa, com organizações, com ativistas e figuras importantes que apoiam causas. Hoje qualquer filme que eu faço passa em 100 países por ano. Há muitos festivais no mundo, realizando trabalhos importantes e dando espaço para temáticas mais sensíveis, só que não tem a visibilidade dos maiores e comerciais. Os meus filmes passam em tudo que é lugar que se possa imaginar: em uma sala de cinema, em escolas, em um porão de algum lugar, na rua, ou na casa de alguém que almeja fazer uma reunião e discutir um tema. É assim somos vistos em vários países e centenas de cidades.

Vou aproveitar algumas questões que você mencionou e perguntar sobre o seu projeto “Culturas da Resistência” que aborda muitos problemas sobre a desigualdade social, econômica, a crise do meio ambiente e também sobre a importância da cultura para realizar transformações reais na sociedade. Como um filme e a cultura podem provocar tais transformações?

Eu faço filmes para os jovens, porque o futuro está nas mãos deles. Então, tento incitar uma reflexão e torná-los cidadão ativos, engajados e que visem mudar o atual cenário. Por isso, faço filmes documentários mais dinâmicos, com bastante cultura, música, com muitos cortes na edição, no objetivo de falar sobre direitos humanos e política de forma menos teórica e moralista. Procuro usar uma linguagem mais leve para tratar de temas densos e importantes. Então, as pessoas vêm assistir o filme pela música e acabam aprendendo o que se passa no Saara Ocidental, na Palestina, na Caxemira, no Congo, e são tocadas ao tomar conhecimento daquelas situações.

Crédito: Danila Ilyushchenko/Cultures of Resistance.

Creio que o cineasta precisa ter consciência e ser humilde, pois a pessoa não vai necessariamente ver o seu filme e se tornar ativista. Mas a partir do momento que eu planto sementes, de repente, estes frutos podem ser colhidos em outras gerações futuras. É um trabalho de formiga e um pouco incerto, porque você não sabe muitas vezes como o filme impacta os jovens de forma geral. Contudo, às vezes, há um retorno de alguém que diz ter conhecido a situação do Saara Ocidental pelo filme e se apaixonar pelo povo. A pessoa em questão passou a realizar campanhas nas Nações Unidas em prol da libertação do Saara Ocidental. São casos assim que surpreendem e fazem que o trabalho continue, apesar das dificuldades.

É o famoso dizer que instigar uma pessoa já é o suficiente, correto?

Sim, mas é preciso ser humilde. Muitas vezes as pessoas ao final do filme vêm falar comigo e dizer que ficaram super inspiradas. Então eu digo: “não basta apenas ficar inspirada, precisa ter ação. Não desapareça, fique em contato, vamos conversar pela mídia social”. Assim, fico fazendo divulgação dos filmes por estes canais.

Crédito: Cultures of Resistance.

Então você diria que o principal objetivo do “Culturas da Resistência” é instigar as pessoas a tomarem inciativas, não apenas informá-las?

Exato! Porque ser informado e educado não é o suficiente. É preciso pôr o seu conhecimento na sua ação diária. Não é preciso viajar o mundo. Seja ativo na sua cidade, no seu bairro, no seu país. Veja um exemplo: é preciso saber o que se está comprando, quem está oferecendo aquele produto, que responsabilidade tem determinada empresa. Caso se saiba de problemas, uma alternativa é boicotar companhias que não têm compromisso algum com o meio ambiente ou que abusam de seus trabalhadores. Ou mobilizar as pessoas da sua cidade para atuarem contra coisas que você acha injustas. É um processo difícil, eu sei. Em especial esta coisa de confrontar governos e grandes empresas. As pessoas têm medo de morrer, de perder o emprego, de ir para a prisão.

É difícil mobilizar multidões. Contudo, pequenos passos, como o ativismo de consumo, é algo totalmente possível, pois o mundo é controlado por conglomerados econômicos. A partir do momento que você sabe que este chocolate delicioso é feito com o trabalho escravo de crianças da Costa do Marfim, pare de consumi-lo. Procure outro produto que não tem este problema. Não compre água mineral da Coca-Cola, ou da Nestlé que estão usando, praticamente roubam e lucram com a água de mananciais de países pobres que não têm como se defender. Então, são coisas pequenas que não há desculpa, as pessoas podem fazer, elas podem ser ativistas.

No campo de refugiados saharauis em Tindouf, Argélia. Crédito: Twitter Iara Lee

E o cinema é a melhor forma de promover esta conscientização?

Olha, eu não vou mentir, há momentos de muita frustração, nos quais eu penso que, de repente, valeria mais a pena fazer outra coisa, para conseguir um resultado mais imediato. Mas cada um faz o que pode. Uns escrevem, outros fazem música, outros cinema, outros agricultura. Acho que todos fazemos parte de um mosaico. Somos limitados, mas se unirmos todas estas forças, cada um, na sua área, consegue ter um impacto na sociedade.

Gostaria de perguntar sobre uma questão pessoal. Você desejou voltar a Coreia do Sul um dia?

Meus pais eram coreanos e vieram para o Brasil nos anos 1960. Teve a Guerra da Coreia nos anos 1950 e depois, quando o país estava em condições na época ainda muito pobres, iniciou uma imigração grande dos coreanos. Minha família pensou no Brasil como um país grande, de clima bom, solo bom, acolhedor e foram todos de navio da Coreia para o lá. Eu nasci no Brasil e, apesar de muito tempo fora, sou culturalmente muito brasileira.

Uma época tive também este interesse de procurar as minhas raízes e fui para a Coreia do Sul. Quando cheguei na lá fiquei muito desapontada. Aquilo parecia mais uma colônia dos Estados Unidos do que a Coreia. Muito americanizado, muito ocidentalizado. As pessoas vivendo naquele capitalismo exacerbado. Fiquei chocada. Não encontrei a Coreia que buscava. Então, comecei a ter maior interesse pela Coreia do Norte. E acabei trabalhando mais com eles do que com a Coreia do Sul.

Iara Lee, cineasta ativista brasileira, fala com o Korea Herald antes do EBS International Documentary Festival, no edifício da Samsung Electronics a sul de Seul. Crédito: Claire Lee / The Korea Herald.

Ajudei a levar a Orquestra Filarmônica de Nova Iorque para o país. Fiz parte da companha da diplomacia através da música. O Ministério da Cultura da Coreia do Norte convidou a orquestra para se apresentar e eles aceitaram. Foi algo histórico, pois pela primeira vez, a bandeira da Coreia do Norte e dos Estados Unidos estavam no mesmo palco. Foi a primeira vez também que a mídia internacional pode entrar no país. E antes deste projeto também realizei trabalhos de agricultura, onde fiz um programa de doação de sementes, em razão dos problemas relacionados à fome que os país passou.

Normalmente sempre falam que o problema da Coreia do Norte é o governo autoritário. Porém, é também verdade que países como a Coreia do Norte, com o fim da União Soviética, tiveram de se readaptar aos novos tempos. E eles ainda hoje sofrem bloqueios econômicos que têm um impacto significativo em suas economias. 

O bloqueio econômico que os países do ocidente fazem contra estas nações é grave. Para você ter uma ideia, os aviões no Irã caem muitas vezes, por eles não conseguirem importar peças que não tem como fabricar internamente para a construção de suas aeronaves. Outro exemplo é a tecnologia hospitalar para doentes, ou alguma matéria prima que precisa ser importada e o bloqueio não permite. Então, é um sofrimento muito grande e sem falar que estes países são constantemente ameaçados, por quererem seguir uma ideologia diferente.

As demais nações acabam querendo passar por cima e exterminar quem não segue a mesma linha. Washington não está preocupado com o cidadão comum norte-coreano e o quanto ele vai sofrer sem ter isso ou aquilo em razão do bloqueio econômico. Então, se você quer uma forma alternativa de viver é preciso resistir. E a tendência é o país fechar-se cada vez mais.

O cinema sul-coreano atualmente está em voga. E é um cinema que não pertence ao chamado “centro cultural do mundo”. Ele não é proveniente da Europa, nem nos Estados Unidos. Mas não apenas a Coreia, outros países como a China, a Índia, o próprio Japão, que mantem sua influência cultural, estão bastante presentes e ganhando fãs ao redor do mundo. Como você analisa a Ásia reemergindo com um polo político, econômico e cultural?

Eu acho algo incrível, pelo fato que nesta questão podemos ver claramente a importância da cultura, até da própria indústria cultural, mesmo a mais comercial, mas que está, ou estava à margem do sistema. Quando a Coreia do Sul estava em baixa e fazia filmes com temática menos internacionais, as pessoas menosprezavam muito o país. Contudo, muito mudou após esta onda cultural sul-coreana, que não traz apenas o cinema, mas a música etc. No próprio Japão, os coreanos que eram vistos como gente de segunda classe, era precisa deixar a sua digital na alfândega para entrar no país, estão recebendo os japoneses fascinados com a cultura sul-coreana e que estão indo para a Coreia como objetivo de experimentar mais.

A Coreia é um país que reemergiu através da cultura. Porém, outros estão chegando e acho que serão ainda mais fortes. Veja a China, e a Índia. O poder econômico delas hoje é indiscutível. Culturalmente ainda não trabalharam o suficiente para propagarem suas bagagens culturais, mas creio que virão com uma força gigantesca no futuro também nesta área. E quando isso correr, penso que realmente teremos uma febre pela Ásia mesmo. A cultura é assim, está em constante movimento e mudança. Vamos lembrar o passado mais recente, quando todos queriam ir para os EUA, em razão da imagem que o cinema dos EUA criou. As pessoas formam uma visão idealizada a partir desta indústria.

E como será este mundo na sua opinião?

Será um mundo bastante diferente. Vamos analisar a África como exemplo. Atualmente há países como a Nigéria que estão desenvolvendo fortes indústrias cinematográficas regionais e tornando-se polos econômicos de cinema influentes e importantes. Então, hoje os africanos já não querem ver filmes apenas com gente da Europa, ou dos EUA. Eles agora podem ver filmes que tenham os africanos como protagonistas. E filmes feitos por eles. Creio que neste novo mundo vai ocorrer o inverso, os estadunidenses é que vão começar a ver filmes com pessoas que tem outros rostos e outras cores, outras línguas e outras culturas.

Você acha então que o mundo será mais como ele é na realidade. A diversidade mundial estará mais em evidência nas telas?

Acho que sim e é algo super importante ter mais africano, mais asiático, os próprios indígenas do mundo inteiro serem mais representados neste mundo da cultura pop. E com isso também espero que outras coisas sejam possíveis como a eliminar visto, passaporte. Gostaria de poder ao menos testemunhar um mundo em que todos possam enxergá-lo como fazendo parte dele, como uma casa apenas e que todos devemos estar unidos para salvá-la.

O mundo atual está passando por uma crise generalizada tanto no campo econômico, quanto no político e social. Esta era asiática poderá construir um mundo diferente, com uma estrutura de poder diferente, menos exploradora e um pouco menos desigual?

Nós humanos ainda temos esta coisa bastante arraigada de querer ser mais que o outro e assim eliminar o próximo. Este instinto capitalista que está presente há séculos, creio que ainda vai persistir por muito tempo. Contudo, a questão ecológica e a crise climática vão fazer com que as pessoas sofram mais e, assim, tenham de obrigatoriamente rever valores e atitudes. Não será possível viver como espécie se continuarmos neste mesmo paradigma. Então é uma mudança sistêmica radical que é necessária.

Gravando na Noruega documentário dos povos indígenas da Europa, os Sami. Crédito: Twitter Iara Lee.

Os jovens precisam abrir os olhos. Não dá mais para continuar neste capitalismo exacerbado, onde se produz e se consome absurdamente. Se usa e joga fora. Tudo e descartável e só se objetiva fazer dinheiro. O capitalismo não funciona e todos sabem disso, mas insistem com ele. O ser humano só muda quando a coisa explode mesmo, onde já nos encontramos em nível de sobrevivência. É algo triste. E o meu trabalho de formiga vem neste sentido de tentar alertar e motivar as pessoas a saírem da sua zona de conforto e fazer algo mínimo que seja para evitar que as coisas fiquem insuportáveis. Parece que há algo autodestrutivo em todos nós.

Quais os seus planos futuros?

Acabei de filmar em Chernobyl, na Ucrânia. O local que depois de anos abandonado em razão do acidente nuclear está voltando à vida. As pessoas voltaram a frequentar a floresta e entrar em contato com os animais. Diversas atividades culturais e esportivas estão sendo realizada lá atualmente. Assim, aproveito esta situação de Chernobyl hoje para relembrar o desastre nuclear. Este foi o primeiro e deveria ter servido de lição, mas outros acidentes continuam ocorrendo, veja Fukushima e que o governo não tomou as mesmas providências que o ucraniano na época. Em Fukushima o material radiativo continua indo para o oceano.
Além deste trabalho, fiz outro documentário no Lesoto, um enclave da África do Sul, onde os jovens que não têm muitas oportunidades utilizam da criatividade para conseguir sobreviver.

Crédito: Cultures of Resistance.

Fiz outro filme sobre a agroecologia em Guine Bissau, onde as mulheres estão no comando da agroecologia. Este assunto, por sinal, é uma extensão do trabalho que fiz em Burkina Faso. Acabei de voltar do Malawi, em que fiz vários curtas sobre artistas que usam da arte e cultura para ajudar hospitais, orfanatos, a combater a malária e ajudar os refugiados das guerras. É o uso da arte e cultura como instrumento de ativismo humanitário.

Por fim, estou editando um documentário também sobre os indígenas da Europa, que são super desconhecidos. Fomos ao norte da Suécia, da Finlândia, da Noruega e uma parte da Rússia. Estes indígenas também estão lutando, pois os governos destes países estão tomando medidas muito prejudiciais ao meio ambiente.

São trabalhos que abordam diversas causas pelo mundo, mas que na essência têm o mesmo objetivo, questionar a forma individualista atual que levamos a vida. Não basta apenas pensar em mim e na minha família. É preciso dar sentido maior ás pessoas de que a solidariedade para com todos é a única forma de prolongarmos a nossa existência e evitarmos a nossa eliminação como espécie. E desta solidariedade que vem a esperança de fazer algo melhor, mais justo, mais igual, onde todos os seres, não apenas os humanos, estão inseridos.

Fonte: Texto originalmente publicado no site do Koreapost e também disponível no site da Revista Intertelas.

Novas normas sociais surgem na Coreia, na Era do Covid – 19

Via Koreapost/ Fonte Original Korea Herald

As mudanças podem ter chegado para ficar, exigindo que as pessoas se adaptem à nova realidade. Com a diminuição de novos casos de infecção por COVID-19 na Coreia do Sul, o governo começou a aplicar um aviso de distanciamento social relaxado a partir de 20 de abril. Apesar da orientação facilitada, muitos coreanos ainda estão seguindo “regras” que surgiram após a propagação do vírus.

“Enquanto fazemos nossa palestra usando o ‘Zoom’, temos que usar fones de ouvido”, disse Kim Ki Wook, estudante de pós-graduação. Ele explicou que, se os participantes da conferência ao vivo on-line não usarem fones de ouvido, o som do alto-falante do computador poderá causar feedback para todos que estiverem ouvindo. “No começo, as pessoas não conheciam essa ‘etiqueta’ e era difícil prosseguir com a palestra devido ao barulho”, explicou Kim.

Distanciamento social em refeitório. Crédito: Yonhap/Korea Herald

Kim também compartilhou sua experiência de encontrar os seus colegas em plataformas de transmissão ao vivo on-line para se conhecerem melhor. “O novo semestre começou, mas nunca nos conhecemos. Em nossa classe, costumamos dar feedback um ao outro sobre nossa tarefa; portanto, todos pensávamos que precisávamos de tempo para nos conhecer. Durante esta reunião, tivemos que ter certeza de ouvir a pessoa que está falando e não falar ao mesmo tempo”, afirmou.

Os funcionários de escritório que ainda precisam se deslocar para o trabalho estão aderindo a novas regras sociais. “Um aviso no elevador diz para usar máscaras e evitar conversas”, disse Cho Seo Jin, funcionário de um escritório em Mokdong, em Seul.

“Vi um homem falando ao telefone sem máscara há algumas semanas. Ninguém disse nada a ele, mas notei que todos pareciam desconfortáveis. Ao usar o desinfetante em spray na entrada do nosso escritório, também asseguro que não haja ninguém por perto antes de pulverizar em meu casaco”, acrescentou Cho. Ele disse que não havia algum tipo de penalidade para quem não seguir as regras, mas, como são consideradas boas maneiras, ele e muitos de seus colegas sentem uma obrigação social de segui-las.

O uso de máscaras tornou-se obrigatório na Coreia do Sul. Crédito: Yonhap/Korea Herald

“Nossa equipe de RH nos acompanha de perto e regularmente. Disseram-nos para usar máscaras e sentar na distância de um assento um do outro durante as reuniões. Agora, a maioria das pessoas segue. No início, muitas pessoas tiravam as máscaras durante as reuniões, mas nossa equipe de RH rapidamente mostra uma tela de smartphone com a frase ‘Por favor, use sua máscara’ na janela da sala de reuniões”, disse um funcionário da empresa de TI local sob condição de anonimato.

“Nossa equipe geralmente saía junto para jantar pelo menos uma vez a cada 2 meses. Mas desde fevereiro não fazemos isso, pois nossa empresa proibiu reuniões de grupo após o horário de trabalho”, disse Yang Ji Ae, funcionário de um escritório em Gangnam, Seul. “Ainda almoçamos juntos como uma equipe. Mas hoje em dia ninguém pergunta aos outros se eles querem compartilhar a comida.”

Yang também pede que entregadores deixem a comida que trazem na frente da porta após tocar a campainha. “Faço isso para minimizar o contato. Eu acho que isso é bom para o entregador e para mim”, disse Yang. Como a maioria das etiquetas visa minimizar o contato e manter distância, muitos especialistas as veem como eficazes na prevenção da propagação do novo coronavírus.

“Penso muito no público após a nova etiqueta. É claro que algum crédito deve ser destinado ao governo e à equipe médica, mas o papel do público também foi importante”, disse Kim Woo Joo, professor de doenças infecciosas no Hospital Guro da Universidade da Coreia“Acho que isso foi possível devido à experiência que as pessoas tiveram de passar com outros vírus como o Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS) e a gripe suína”.

Fila para testagem Covid-19. Crédito: Yonhap/Korea Herald

“A nova etiqueta, como apertar botões com as costas das mãos, é ótima, pois os dedos e as palmas das mãos podem transmitir e espalhar o vírus com mais facilidade”, disse Kim Dong Hyun, presidente da Sociedade Coreana de Epidemiologia e especialista em medicina preventiva da Hallym Medical School. Os especialistas também enfatizaram que, juntamente com os indivíduos que seguem novas normas sociais, também é crucial que a sociedade como um todo faça alguns ajustes para uma pandemia futura.

“Pode haver uma segunda onda do vírus neste inverno. Alguns especialistas ainda dizem que o padrão da pandemia pode ser repetido até 2024. Portanto, a nova maneira de viver, como as palestras ou reuniões on-line, provavelmente se tornará algo normal para muitos. Como sociedade, devemos estar prontos para isso”, disse o professor Kim Dong Hyun.

“A menos que exista uma vacina (para COVID-19), é importante se ajustar à situação e ter uma nova etiqueta. Por exemplo, acho que empresas como o Starbucks remover alguns assentos e mesas para manter as pessoas afastadas é uma ótima ideia”, disse o professor Kim Woo Joo.

“O refeitório do nosso hospital também possui placas de acrílico instaladas entre cada assento, como uma biblioteca, para impedir fisicamente que as gotículas se espalhem.” Olhando para o futuro, alguns especialistas disseram que em breve as pessoas se acostumarão às normas sociais e que isso logo tornará nossa sociedade mais individualizada.

“Por enquanto, a maioria das pessoas está no estágio em que deseja voltar ao modo como costumava viver e encontrar as pessoas pessoalmente. Mas se o vírus persistir por muito tempo, como até o final deste ano, as pessoas em breve se acostumarão com o novo estilo de vida e pensarão que sair para o trabalho ou ter uma reunião off-line é uma perda de tempo”, diz Kwak Geum Joo, professor de psicologia da Universidade Nacional de Seul. “Mas se essa mudança for inevitável, é importante se ajustar gradualmente à situação. Por exemplo, aprender a se concentrar no trabalho fora do escritório pode ser útil.”


GEHJA oferece minicurso online de introdução à cultura do Kimono

O Grupo de Estudos Japoneses da Universidade Federal Fluminense (GEHJA-UFF) está com inscrições abertas para o minicurso online sobre “Introdução à cultura do Kimono”, que terá duração de três meses. O curso inicia dia 3 de junho, das 15h às 16h.

As vagas são limitadas. O objetivo da iniciativa é “detalhar a história do traje japonês, as mudanças sofridas através das Eras, significado das cores, padronagens e estampas, além de definir os tipos de kimono e as ocasiões de uso. Para tanto, vai-se utilizar recursos como audiovisual e bibliografias complementares“.

Crédito: Facebook GEHJA-UFF.

O minicurso será ministrado pela Prof.ª Luiza Vieira, pesquisadora da área de Moda e Estética pelo Grupo de Estudos Japoneses da UFF, formada em Design de Moda pelo Centro de Tecnologia da Industria Química e Têxtil SENAI-CETIQT.

Hoje, ela assume a coordenação de área referente aos Estudos de Moda & Estética Japonesa na Academia Nipo-Brasileira de Estudos de História & Cultura Japonesa do Rio de Janeiro. Para conhecer a ementa, a forma de inscrição e outras informações, envie um e-mail para: gehja.ceia.uff@gmail.com

A Confucius Classroom na UFF convida para aula de Taiji Quan

Via Confucius Classroom na UFF

Hoje, dia 22 de maio (sexta-feira), às 18 horas, a Confucius Classroom na Univerisidade Federal Fluminense (UFF) vai realizar uma aula online através do Instagram da instituição com o artista marcial e doutorando em educação pela PUC-Rio Gabriel Guarino (@guarinowushu). Os interessados, para participar, devem acessar o perfil @confuciusuff. Taiji Quan ou Tai Chi Chuan é uma arte marcial chinesa interna, parcialmente baseada no bagua. Este estilo de arte marcial é reconhecido também como uma forma de meditação em movimento. 

Crédito: Facebook da Confucius Classroom na UFF.

Observatório dos BRICS promove evento – “Como pensar a China e a Índia no contexto de uma crise profunda do capitalismo: para onde?”

Via Observatório dos BRICS

O Observatório dos BRICS e das Relações Sul-Sul da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) convida toda comunidade interessada para a palestra “Como pensar a China e a Índia no contexto de uma crise profunda do capitalismo: para onde?”, com o professor e pesquisador Marcos Costa Lima. O evento vai ocorrer dia 2o de maio, às 15h.

Crédito: Observatória dos BRICS

A iniciativa visa tentar compreender as seguintes temáticas:

A realidade pós pandemia será outra; mas como entender dois países extremamente importantes e sua relações?

Quais serão as mudanças? 

Para onde a Índia e a China estão indo? Quais serão suas marcas?

Essas e mais outras questões serão respondidas pelo Professor Doutor Marcos Costa Lima que é docente da UFPE, possui doutorado em Ciências Sociais pela UNICAMP e pós-doutorado pela Universidade Paris XIII – Villetaneuse.

Inscreva-se pelo link para certificação: 

www.even3.com.br/obsbricschinaindia/

NC Curadorias está com inscrições abertas para o curso “Visões da Cultura Japonesa”

Via Revista Intertelas

NC Curadorias está com inscrições abertas para o curso online Visões da Cultura Japonesa, uma série de quatro encontros, com duração de 1h 30 minutos,  sobre história, sociedade, cultura, estilo de vida e literatura japonesa. Os encontros vão ocorrer todas as quartas, 1 a 3 de junho de 2020das 15h às 16h30, pelo aplicativo Zoom – uma ferramenta de videoconferência.

Basta ter um computador ou celular com acesso a internet. Você receberá o link após fazer a inscrição. O objetivo, segundo a assessoria de imprensa da NC Curadorias é “promover um espaço lúdico, terapêutico e acolhedor para leitores e interessados em cultura japonesa de todas as idades. (recomenda-se a participação de todos os interessados acima de 18 anos)“.

As aulas serão ministradas por Mateus Nascimento – mestrando do programa de pós-graduação em História da Universidade Federal Fluminense (PPGH-UFF) e graduado em História pela mesma universidade (2017). Também é idealizador e pesquisador efetivo do Centro de Estudos Asiáticos (CEA-UFF), pesquisador associado do Núcleo de Estudos Tempo Literário do Instituto Cultural Brasil-Japão e do MidiÁsia/UFF, Grupo de pesquisa em mídia e cultura asiática contemporânea, além de integrar a Red Iberoamericana de Investigadores en Anime y Manga (RIIAM) e da Academia Nipo-Brasileira de Estudos de Literatura Japonesa.

Crédito: Sympla.
Oportunidade especial com inscrições gratuitas ainda em maio

No dia 27 de maio, das 15h às 15h30, uma aula aberta será oferecida aos interessados. É uma oportunidade para já experiênciar como ocorrerão os encontros em junho. Para participar, clique na foto abaixo. 

Crédito: NC Curadoria.

Nélida Capela Curadorias  é uma iniciativa independente de curadoria para organização e produção de eventos, treinamento em desenvolvimento profissional e gerencial para o mercado editorial, produção de conteúdo, edição de livros e revistas, comercialização de livros, ensino de arte e cultura. Para realizar a sua inscrição e ter mais informações sobre o curso em junho, acesse o site do Sympla – Visões da Cultura Japonesa