8 programas coreanos de viagens para assistir nesta quarentena

Via Koreapost

Se você está morando em um país que está passando por algum tipo de bloqueio de fronteira ou mesmo sendo instruído a se isolar em casa e a se distanciar socialmente de todos (que neste momento entá acomentendo uma grande parte dos países), então você pode estar passando por alguns sinais de estresse.

Ficar preso em casa olhando as mesmas paredes, vendo a mesma vista da mesma pequena janela pode ser bastante desgastante, então é natural desejarmos sair para alguns espaços abertos. E não há maneira melhor de se experimentar isso (sem você saber, que na verdade você já está vivenciando), senão assistindo a alguns programas de variedades de viagens. Eles fornecerão um momento de distração, mostrando cenários amplos e lindos , descobertas emocionantes e muita tranquilidade!

Então, aqui estão alguns programas de variedades coreanos de viagens pelos quais você pode viajar de forma indireta:

1 – Séries “Over Flowers”

Youth Over Flowers: Africa. Crédito: MyDramaList

Entre “Grandpas Over Flowers” e os dois spin-offs “Nunas Over Flowers” e “Youth Over Flowers“, existem 11 temporadas com quase 80 episódios para maratonar. Cada série tem seu próprio apelo especial, seja a natureza adorável e descontraída dos vovôs, a beleza e a graça das “nunás” ou o espírito aventureiro dos jovens.

E, enquanto as duas séries anteriores tem “encarregados” mais jovens atuando como guias turísticos e para ajudar a cuidar dos colegas de elenco (relativamente) mais velhos, a série “Youth” é conhecida por “sequestrar” o elenco e notificá-los de sua viagem apenas horas antes da mesma, como uma maneira de forçá-los a viajar com pouca bagagem e dentro do orçamento.

O elenco anda no entorno, aprecia a cultura e a culinária oferecidas nos países de destino, e as fotos panorâmicas feitas pela equipe de “Over Flowers” ​​são sempre especialmente impressionantes, fazendo justiça à beleza encontrada em países como Islândia, Áustria, África e Europa Oriental.

Confira abaixo o trailer de “Grandpas Over Flowers”:

2 – Bon Voyage do BTS

Crédito: Bangtan Brasil

Até fãs que são mais casuais ficarão encantados com o conteúdo temático de viagem do BTS, apropriadamente intitulado “Bon Voyage“. Há quatro temporadas até agora, onde os meninos visitaram o norte da Europa, Havaí, Malta e, na viagem mais recente, a Nova Zelândia.

Cada temporada tem oito episódios que duram cerca de 30 minutos a uma hora cada, portanto, eles são perfeitos para uma mini-maratona. Você verá os meninos como eles mesmos, desfrutando de um tempo de diversão, aventura e prazer, tudo isso tendo como pano de fundo o belo cenário de qualquer cidade em que eles estejam.

Assista abaixo um teaser da quarta temporada de “Bon Voyage”:

3 – Battle Trip

Crédito: Tv Time.

Battle Trip“, como o nome sugere, é um programa de variedades que coloca dois conjuntos de convidados um contra o outro, enquanto tentam conquistar o coração do público do estúdio com seu itinerário de viagem (embora esse conceito tenha sido melhorado nos episódios finais, antes do recente cancelamento em março).

O programa enviou convidados para quase todos os lugares, de destinos locais na Coreia do Sul a pontos turísticos populares como Japão e Havaí, e também a países menos viajados, como o Cazaquistão e o Azerbaijão. Com 176 episódios, apresentando uma multidão de convidados, certamente haverá algo que vai agradar sua imaginação.

Confira a “Battle Trip” abaixo em Daegu:

4 – One Fine Day

Crédito: Banco de Séries .

Se você é alguém que gosta de assistir idols terem um descanso bem merecido, não deixe de conferir “One Fine Day“. Uma série inteira de grupos de kpop participam nesta série, incluindo B1A4VIXXGirl’s DaySHINeeSuper JuniorB.A.P, Gfriend e assim por diante.

De todos os grupos, o SEVENTEEN é o único a estrelar duas vezes na série (e a última participação foi em 2017). Para sua surpresa (e para nossa diversão), o primeiro passeio com o programa foi muito diferente de seus antecessores, onde os grupos geralmente podiam relaxar e se divertir em vários destinos turísticos.

Em vez disso, a primeira edição do SEVENTEEN teve o subtítulo de “13 Castaways“, onde os meninos, que na época tinham acabado de estrear, estavam presos em uma aldeia da ilha com apenas um punhado de pertences e eram deixados para se alimentar por conta própria.

A equipe de produção para se redimir os enviou para o Japão no ano seguinte em uma viagem revigorante, mais tematicamente alinhada com a série “One Fine Day“, mas a edição “13 Castaways” é uma que deverá com certeza entreter até quem não é fã.

Confira abaixo o teaser da participação primeira participação do SEVENTEEN:

5 – 2 Days & 1 Night

Crédito: Medium.

2 Days & 1 Night” é o programa de variedades de viagens mais popular na Coreia do Sul e se orgulha de ser o que existe há mais tempo (desde 2007!). Atualmente, está em sua quarta temporada, com o veterano Kim Jong-min para nos divertir com suas palhaçadas.

O programa tem viagens principalmente pela Coreia do Sul (embora eles tenham alguns especiais no exterior) e mostra aos espectadores muitos locais bonitos e comidas famosas que, de outra forma, poderiam passar despercebidos, além de nos divertir com sua paixão por missões e combates.

Confira um teaser do primeiro episódio da quarta temporada:

6 – Carefree Travelers

Crédito: TV Time.

Carefree Travelers” realmente se inclina para o conceito de viagem, fazendo com que os membros do elenco (e convidados) participem de pacotes turísticos e vivenciem coisas como um turista comum. Embora cada membro do elenco seja de diferentes áreas, suas personalidades combinam maravilhosamente, criando uma química e uma irmandade divertida.

Os outros viajantes da turnê também trazem uma camada extra de charme ao show. Com “Carefree Traveler”, você experimenta a emoção de viajar e descobrir enquanto desfruta dos momentos mais calmos e íntimos do vínculo humano. Está fora do ar desde o início de 2019, mas entre as duas temporadas disponíveis, há mais de 100 episódios para você aproveitar.

Assista a um teaser com os membros do elenco praticando rafting:

7 – Begin Again

Crédito: The Korea Herald .

Se você realmente quer relaxar e assistir a um programa de variedades discreto, então “Begin Again” é o seu caminho! Ele não apenas apresenta paisagens deslumbrantes de lugares como Irlanda, Suíça, Itália e Budapeste, mas você também pode mergulhar totalmente nas belas vozes de talentos como Lee So-raLee Soo-hyun da AKMUPaul KimLee Juck e Tae-yeon do Girls ‘Generation.

Este é um show que traz cantores e músicos talentosos para locais lindos e realiza eventos de busking para os locais. Seus olhos e ouvidos serão rejuvenescidos depois de assistir a esse programa, e você pode praticamente sentir seu estresse se dissipando. Existem três temporadas até agora, com cada temporada apresentando um conjunto diferente de artistas

Assista Lee Soo-hyun cantando “Because I Love You”:

8 – Traveler

Crédito: The Korea Times .

Traveler” é um dos programas de variedades mais recentes da lista, a primeira temporada foi exibida no início de 2019, com os atores Ryu Jun-yeol Lee Je-hoon como membros do elenco, enquanto a segunda temporada com Ahn Jae-hongKang Ha-neul e Ong Seong-wu apenas começou a ser exibido em fevereiro deste ano.

O programa foca no charme dos mochileiros e permite que os membros do elenco tenham livre controle sobre suas agendas de viagens. A primeira temporada foi em Cuba e explorou sua história e cultura, enquanto a segunda temporada atualmente desfruta das belezas da Argentina.

Confira o trailer da segunda temporada de “Traveler”:

Novo álbum do BTS bate recorde de vendas na história do K-POP

Via Koreapost

Map of the Soul: 7, o novo álbum da boy band BTS, vendeu mais de 4,11 milhões de cópias nos primeiros nove dias de seu lançamento no mês passado, tornando-se o álbum mais vendido na história pop coreana. Levou nove dias para o novo álbum quebrar o recorde anterior de vendas de quase 3,4 milhões estabelecido pelo próprio álbum do BTS, Map of the Soul: Persona, lançado em abril do ano passado.

Crédito: Yonhap.

As vendas totais do “7” nos primeiros nove dias alcançaram 4.114.843 cópias, de acordo com a Big Hit Entertainment. O novo número de vendas também substitui os recordes de maior venda mensal e anual em 3,23 milhões e 3,72 milhões, respectivamente, estabelecidos por “Persona”, marcando uma carreira alta para a banda nas vendas de álbuns, disse Big Hit.

O álbum “7” lidera a parada de álbuns da Billboard 200 a algumas semanas, fazendo com que a banda conquistasse seu quarto número 1 na parada de álbuns. Aproveitando os bons ventos, o canal a cabo coreano Mnet, voltado para o K-POP, lançou um vídeo de entrevista do BTS no YouTube, para marcar o 25º aniversário do canal de música.

Centro de Estudos Asiáticos (CEA) da UFF abre inscrições para novos pesquisadores

Via CEA – Centro de Estudos Asiáticos da UFF

O Centro de Estudos Asiáticos (CEA) da Universidade Federal Fluminense (UFF) retomará suas atividades em breve na modalidade ONLINE e informa que estará recebendo candidaturas de novos pesquisadores! Para os que sempre estiveram interessado em Estudos Asiáticos ou Ásia em geral (incluindo pesquisas sobre Japão, China, Rússia, índia, Oriente Médio, Coreias, etc), esta é um oportunidade única para integrar a equipe de estudiosos do CEA-UFF!

Como funcionará?
1) O formulário de inscrição para os interessados deve ser preenchido com nome, e-mail, telefone e interesse de pesquisa.

2) Uma vez cadastrado no formulário,o processo de formulação da candidatura será feito mediante comprovação de frequência e de engajamento em PELO MENOS TRÊS (3) DAS QUATRO (4) reuniões de grupo de estudo que serão realizadas online durante esse primeiro semestre de 2020. Em breve mais detalhes sobre os grupos de estudo (tema, datas, textos) serão disponibilizados pelo CEA.

3) As candidaturas serão deliberadas pelos pesquisadores-membros e o aceite dependerá dos critérios acima relacionados: preenchimento do formulário + frequência.

Para mais informações entre em contato com o centro de pesquisa pelo site do CEA, ou pela página do grupo no Facebook.

Espetáculo com sobreviventes da bomba atômica de Hiroshima tem live em tempos de covid-19

Via Revista Intertelas

O espetáculo “Os três sobreviventes de Hiroshima” terá uma live no dia 21 de abril (terça) às 20h diretamente do Canal YouTube do projeto. Na live, três sobreviventes reais do primeiro ataque nuclear da história fazem seus depoimentos de uma das piores tragédias da humanidade. São contados os momentos da explosão nuclear na cidade de Hiroshima, no Japão, em 1945, os dias seguintes e a imigração para o Brasil.

“Os Três Sobreviventes de Hiroshima” reconstrói a história do militar Takashi Morita na época com 21 anos e dos civis Kunihiko Bonkohara com 5 anos e Junko Watanabe com 2 anos, que estavam em Hiroshima no dia do bombardeio. Em cena, eles atuam no formato de teatro documental, também conhecido como biodrama. Fotos originais, vídeos e canções da época executadas pelos sobreviventes compõem o clima da apresentação.

Da esquerda para a direita: Junko Watanabe, Takashi Morita e Kunihiko Bonkohara. Crédito: Bianca Brito.

Com roteiro e direção de Rogério Nagai, o espetáculo deu origem ao projeto Sobreviventes Pela Paz. A ideia surgiu em 2012 com pesquisas sobre histórias pouco conhecidas da comunidade nipo-brasileira e a imigração japonesa no Brasil. Foram 12 meses de pesquisa e 4 meses para montagem do roteiro e ensaios com os sobreviventes.

Da esquerda para a direita: Kunihiko Bonkohara, Junko Watanabe e Rogério Nagai. Crédito: Binômio Comunicação.

Esta será a segunda vez que o espetáculo será exibido via streaming gratuitamente. O espetáculo já se apresentou em cidades como Curitiba, Rio de Janeiro, além de diversas cidades do interior do estado de São Paulo e capital. As sessões lotadas e com muitos espectadores para fora do teatro consagraram o sucesso de “Os Três Sobreviventes de Hiroshima”.

O texto, ainda que trate de uma tragédia, leva uma reflexão sobre a paz por onde passa, com uma mensagem forte de perdão, resiliência e superação. Em tempos como esses de pandemia, incerteza e medo do desconhecido, o espetáculo faz uma ponte ao passado e traz uma reflexão de como o ser humano é capaz de se recuperar e dar a volta por cima mesmo em situações limites.” salienta Nagai.

Os sobreviventes Kunihiko Bonkohara (esq.) e Takashi Morita (dir.). Crédito: Mariana S. Brites / Revista Intertelas.

Hiroshima
Em 6 de agosto de 1945, no estágio final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos lançaram uma bomba atômica na cidade de Hiroshima. Três dias depois, atingiram também Nagasaki. Foram milhares de mortos e feridos, além de sobreviventes que buscaram retomar suas vidas depois da tragédia. Os números oficiais informam entre 130 e 240 mil mortos como resultado destes que foram os primeiros e únicos ataque nuclear contra civis em toda a história.

No Brasil, há 74 sobreviventes das bombas, todos associados à Associação Hibakusha Brasil pela Paz, anteriormente chamada de Associação das Vítimas da Bomba Atômica no Brasil. Após ajuda médica e reconhecimento dado a essas pessoas, a associação passou a se dedicar também à propagação de mensagens de paz e pelo fim de armas e usinas nucleares. “Os Três Sobreviventes de Hiroshima” é uma das ações apoiadas pela Associação. O espetáculo é realizado pela NAGAI Produções Artísticas e Culturais, já passou por mais de 8 cidades sendo visto por mais de 6.000 pessoas com 24 apresentações.

Revista Intertelas entrevista Mateus Nascimento, pesquisador do MidiÁsia

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas)

A pesquisa acadêmica e o conhecimento geral que engloba diversas áreas relacionadas ao continente asiático ainda encontra barreiras no Brasil, tendo muito espaço para avançar. Conforme diversos estudiosos das relações internacionais, estamos entrando em uma nova era, onde a Ásia terá papel preponderante. Contudo, os brasileiros e os campos de estudos sobre os paises desta região enfrentam uma cultura intelectual no país ainda muito eurocentrada. Desta forma, diversas questões históricas que se acredita conhecer como a Era Meiji (1867-1912), período histórico de modernização e industrialização do Japão, acabam sendo questionadas, pois até o momento são vistas por lentes ocidentais, Desta forma, não levam em conta o trabalho de pensadores e estudiosos nacionais destes países, ou até de pesquisadores de outras regiões do mundo, que teriam também algo a dizer sobre história do Japão, talvez até mais que qualquer estadunidense, ou europeu.

Diferentemente do que se pensa, Meiji não foi um momento histórico de submissão e ocidentalização do Japão. No entanto, o que houve foi um processo de transformação conduzida e adaptada pelo japoneses, em iniciativas independentes que almejavam a construção de um projeto de nação e de um império que aspiravam na época. É certo que no século XIX, o imperialismo europeu  e norte-americano fazia-se presente na Ásia. Porém, seria errado afirmar que os japoneses para sobreviver ao braço forte europeu e dos EUA tiveram de incorporar valores totalmente ocidentais, fugindo de suas raízes e se submetendo como bons servos locais, a partir da chegada do comodoro estadunidense Matthew C. Perry, que forçou o Japão a abrir seus portos para os EUA. Na realidade, grupos políticos do Japão aproveitaram a oportunidade para dar fim à estrutura política, dominante há séculos, do Xogunato, cuja figura política maior estava na autoridade de vários xoguns, os supremos líderes militares. E estes estavam submetidos de certa forma ao Imperador.

A revolução Meiji daria fim ao poder destas figuras e implementaria o poder supremo simbólico na pessoa do Imperador. Para tanto, os japoneses usariam da mitologia nipônica e do xintoísmo para fornecer à sociedade japonesa a ideia de que seu chefe maior era descendente de deuses e que o futuro da nação, portanto, seria glorioso. Assim, anos de guerra civil chegaram ao fim. O Japão testemunhou uma coesão nacional sólida e um desenvolvimento econômico e social sem precedentes. Contudo, a sociedade antiga japonesa constituída de classes e que tinha o poder centrado no Xogum não foi eliminada, mas adaptada para os novos tempos. Seria o fim dos conflitos bélicos domésticos, mas o início da expansão imperial e da invasão a outros países. Foi o período que os nacionais do Japão creditavam-se a certeza de serem uma nação modelo a ser seguida pelos demais asiáticos que, na visão dos líderes japoneses da época, em especial os militares, eram considerados inferiores.

Quem apresenta estas informações é Mateus Nascimento. Ele é mestrando em história social pela Universidade Federal Fluminense (PPGH-UFF) e graduado em história pela mesma universidade. Colunista da Revista Intertelas, é também pesquisador efetivo do Centro de Estudos Asiáticos (CEA) da UFF, do Núcleo de Estudos Tempo Literário do Instituto Cultural Brasil-Japão, do MidiÁsia/UFF e do Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática Contemporânea. Ainda é membro da Red Iberoamericana de Investigadores en Anime y Manga (RIIAM) e da Academia Nipo-Brasileira de Estudos de Literatura Japonesa, tendo passado pelo Grupo de Estudos Japoneses (GEHJA) da UFF. Aqui ele responde algumas questões sobre este tema, ainda tão pouco conhecido do público em geral no Brasil, e fala da trajetória de sua pesquisa, indicando material de estudo para quem se interessa pelo assunto. Acompanhe abaixo!

Quando o imperador Mutsuhito trocou seu quimono por roupas ocidentais. Apesar destas adaptações, muito da Era do Xogunato permaneceria mesmo após a restauração. Crédito: Ozy Modern Media Company.

Por que, na sua visão, a Era Meiji é descrita por muitos outros especialistas ocidentais de forma equivocada? A exemplo, há a constante explicação de que a esquadra naval de Matthew C. Perry teria sido a causa principal das transformações profundas pelas quais passou o Japão na época.

Meiji aparece no imaginário das pessoas através de um conceito que sempre me causou certo desconforto: ocidentalização. Meiji é para muitas pessoas a ocidentalização do Japão. Eu não concordo com isso por dois motivos principais. O primeiro é que nenhuma sociedade ou cultura é uma ilha, homogênea e estanque. Essa é uma das críticas àquela noção de estrutura. Toda a pactuação da cultura, que envolve a vida das pessoas, é sempre uma negociação entre o macro e o micro. Todas as pessoas só se entendem no mundo através de grupos, nos quais as diferenciações acontecem. Cultura então é ao mesmo tempo essa teia de conceitos e de prática destes conceitos, o que supõe haver improvisações eventuais na vida em sociedade que subvertem um dado cultural. Gosto muito do Clifford Geertz para pensar sobre isso, principalmente quando ele fala que um piscar de olhos pode ter vários significados, que só serão descobertos no decorrer da observação acurada do pesquisador.

O segundo é o fato de uma potência americana ter agido violentamente, abrindo portos e bombardeando uma baia japonesa e ter promovido uma submissão do Japão. Isso não significou uma postura passiva dos próprios japoneses diante daquele mundo que estava sendo desenhado. Ao contrário! A chegada inicialmente abrupta dos EUA permitiu ao Japão repensar o seu papel nas relações internacionais do séc. XIX, o que proporcionou ocorrer um dos mais amplos projetos de modernização da época. Além do fator externo, o próprio governo do Xogunato Tokugawa estava em crise desde pelo menos 1840, pois a diminuição do número de guerras e batalhas deu origem a um sistema cortesão mais desenvolvido em termos culturais.

O último Xogum, Tokugawa Yoshinobu (1837-1913), de 1866 a 1867, o 15º e último líder do Xogunato de Tokugawa no Japão. Crédito: National Diet Library, Japan.

Por outro lado, as negociações intensas com potências europeias, por exemplo, como a Holanda, auxiliaram na queda desse edifício de paz e luxo. Comerciantes desde sempre vistos como aqueles que deveriam estar fora da ritualística de poder da época, passaram a financiar as elites em troca de influência simbólica e nisso consiste a crise do poder do Xogum. Não sem razão, grupos surgem criticando esta situação e pedindo a restauração do estado anterior das coisas, do sistema passado. Portanto, “nunca foi só o Perry e sua esquadra”, como explicam os livros didáticos. Eu prefiro pensar que a crise interna somou-se à intervenção ocidental. E a resposta japonesa a isso é original e digna de lugar no estudo da história. Aqui nasceu meu objeto de pesquisa!

E como foi a sua trajetória nesta pesquisa?

Eu defendo que não houve uma ocidentalização do Japão no séc. XIX. Obviamente, que para embasar teoricamente e historicamente esta afirmação precisava antes desenvolver toda uma compreensão com mais profundidade sobre a análise destes conceitos ocidentais. Na minha busca bibliográfica encontrei vários livros sobre Meiji que abordavam o período nessa perspectiva da ocidentalização. Existem muitos livros escritos pelo José Yamashiro que reforçam essa tendência, outros mais acadêmicos como o texto de Barbosa Lima SobrinhoJapão: o capital se faz em casa” (1990), que acompanham esta linha também.

O livro  de Barrington Moore Jr, “As origens sociais da ditadura e da democracia” (1983), que no famoso capítulo nove fala do “Fascismo Asiático” e aborda as mudanças que ocorreram nos tempos finais do Xogunato aos anos iniciais do período Meiji. Também encontrei livros menos conhecidos com uma perspectiva mais crítica, os quais fundamentaram um pouco mais a minha pesquisa. Refiro-me aqui ao livro de Renato Ortiz, “O próximo e o distante: Japão e modernidade-mundo” (2000), que se tornou um ponto de partida incontornável para os interessados em estudar Japão. Também há o texto clássico de Ruth Benedict, “O crisântemo e a espada” (2009), que mesmo com todos os seus problemas, é um bom início para qualquer estudo da área. Ambos falam de Meiji como se estivessem comentando os significados da época e isso me ajudou muito a pensar que deveria escolher algum elemento social deste período para pensar.

Nesse ínterim, encontrei outros textos e fui descobrindo que, na verdade, existem muitos autores renomados que já escreveram sobre o Japão. O que acontece é que seus textos não receberam a audiência adequada em meio a um conjunto de pesquisas pouco preocupadas com a Ásia. Lévi-Strauss por exemplo, dedicou um livro inteiro ao Japão. Enfim, existem outras obras para dizer com muita propriedade que a história do Japão não se resume aos momentos em que a nação aparece no mundo contemporâneo e nem a uma ocidentalização que não dá conta da riquíssima estratégia japonesa de comentar a tradição ocidental.

Cenas da vida laboral e de comerciantes japoneses na Era Meiji. Crédito: Resobox Exibition.

A ideia do Japão imperial visava uma coesão nacional e a criação de uma nova identidade nacional. Qual a importância do xintoísmo e da mitologia nipônica, presentes na constituição da época, para a formulação desta ideia de Japão no pós-Xogunato?

Mapeados os dados cronológicos, parti em busca fontes. Para minha surpresa, fui encontrando algumas que refletiam os interesses do próprio governo em tornar o Japão conhecido. Encontrei textos da promulgação do Estado Meiji, éditos (como o édito de educação) e a própria Constituição do Império do Japão, promulgada em 1889 e lançada para o mundo todo, no ano seguinte em versão traduzida e bilíngue. Uma grande maioria já se encontra disponível na internet e eu penso que ainda há muito a ser dito cientificamente sobre esses textos.

Neles vemos um ministro muito influente, chamado Ito Hirobumi, conduzir as pesquisas e o projeto político Meiji, ancorando-o sobre a figura Imperial. De todos os símbolos, o império aparece como o mais revisitado e repaginado. Aliás, o Imperador foi posto no trono com idade juvenil justamente para autorizar esse projeto dos ministros comandados por Hirobumi. Quando notei este fato, optei por pesquisar como esse governo reformulou e reposicionou politicamente a presença simbólica do império. Fui ao texto jurídico para entender quem era esse Imperador e quais os seus poderes legais e me deparei com uma sequência de comentários do próprio ministro sobre seus pensamentos! Estava aí a minha fonte: os comentários de Hirobumi e os textos jurídicos de Meiji.

Ito Hirobumi, primeiro-ministro do Japão de 1883 a 1885. Crédito: Enciclopedia Britannica.

Basicamente, Hirobumi começou traçando um lugar mítico que justificou o império e o seu discurso. “Desde os tempos antigos” ou “herança de nossos antepassados” são duas formulações que aparecem corriqueiramente nos textos. Afinal, os políticos precisam justificar o seu projeto de modo a ter comprometimento dos novos cidadãos japoneses. Muitos desses líderes foram membros de clãs opressores e exploradores durante o governo Tokugawa, mas precisavam tirar o foco deles, enquanto ocorresse a implantação do projeto. A saída mais prática seria revisitar os textos antigos e inventar a sua autoridade perante a nação. Assim, fez-se: os pensadores retomaram textos e ideias dos textos mais antigos do Japão, sobretudo, o relato das coisas antigas, do Kojiki (o livro mais antigo sobre a história do país, nos seus primórdios como nação. As canções incluídas no texto são em japonês arcaico). Esta publicação serviu de baliza para o que se estava dizendo sobre as origens do Japão e do poder imperial. O Kojiki possui uma versão em português que é fruto de um trabalho de mestrado.

Na sua pesquisa, você afirma que os pensadores chineses tiveram certa influência nesta reformulação do que viria a ser o Japão do século XX.

Nessa retomada, um pouco do pensamento chinês também reaparece sim, com a noção de ordem (tao) e mandato do céu, os quais justificam o poder e o lugar moral dos indivíduos na China. Havia só uma diferença em sua aplicação no Japão: não havia uma formulação de meritocracia como a chinesa (a questão dos concursos públicos de admissão). Os políticos Meiji repaginaram a hierarquia, sem a abolir completamente. Novos grupos sociais surgiram e outros antigos foram desfeitos ou desmembrados.

Os samurais, por exemplo, perderam o seu papel de autoridade punitiva local. O império precisa seguir um pouco das novidades ocidentais, sem perder a originalidade japonesa. Isso significou o estabelecimento de novos conceitos para a ordem pública: honne, verdadeiro pensamento; tatemae, pensamento que segue o que está posto para manter a ordem; uchi, ser de dentro, ser aceito, insider; e soto, em síntese, outsider. Este talvez seja o maior legado dessa formulação oitocentista, visto que ainda existem muitas situações em que esses conceitos aplicam-se em espaços japoneses ou nipo-brasileiros.

Esta visão de um Japão destinado pelos deuses a ser uma raça e um povo eleito e predestinado teria contribuído para a expansão imperial a outros países e desencadeado o período de colonização, além dos genocídios durante a Segunda Guerra Mundial?

Lendo os documentos e vendo o nascimento dessa ordem pública, parece-me lógico dizer que o Japão não foi ocidentalizado. Vale considerar que esse caminho de investigação aplica-se também a outros campos. A tecnologia por exemplo. Muitos autores entendem que o desenvolvimento econômico de finais do período Meiji tem semelhança com os casos ocidentais, mas, destacamos, os grupos financeiros, zaibatsu, que financiaram e foram influenciados pelo Estado mesmo depois de Meiji.

Muitos deles tiveram suporte econômico em suas ações de expansão comercial. O Japão começa a entrar em terras de seus vizinhos com isso, e se torna uma presença na região, defendendo a especificidade japonesa. O discurso étnico¸ conhecido como nihonjinron (textos que abordam questões de identidade nacional e cultural japonesa, e compartilham a crença geral do Japão como uma nação singular), que na verdade é um campo vasto de estudos e publicações em diversas áreas que se juntam sob esta lógica, orienta a formação dos primeiros ataques e a realização das guerras. Com a vitória sobre a Rússia, o Japão tornou-se reconhecido no cenário internacional.

E como a franquia Rurouni Kenshin, Samura X como é conhecido no ocidente, ajudou a trazer conhecimento e instigar interesse em um público geral não conhecedor destes fatos históricos?

O Japão Meiji, curiosamente, está presente no imaginário da juventude, por conta do grande número de expectadores do anime Samurai X. Ele alcança o público não somente no espaço do virtual, informal, mas também do televisivo. Os episódios da franquia foram exibidos em dois momentos: de inícios de 1999 até inícios de 2000 pelo programa TV Globinho (Rede Globo) e entre 2001 e 2002 pelo bloco de animes do canal Cartoon Network.

Nobuhiro Watsuki criador de Samurai X. Crédito: geekdama.

Como já foi dito, a era Imperial japonesa objetivou pôr fim ao período violento do Xogunato, regido por matadores, e promover a coesão do país. Contudo, a violência seria transportada para o exterior com a invasão e a agressão a outras nações. Muitas das estruturas do Xogunato permaneceram e não foram transformadas realmente para melhor. Todas estas questões são claramente exibidas no anime e no manga. Como esta questão é construída no personagem Kenshin? Seria ele a personificação fictícia de um Japão, ainda visto de forma negativa e desconfiada pelos vizinho, em busca redenção? 

Eu fico pensando que realmente existe uma curiosa semelhança entre os elementos narrativos da obra e os fatos deste período histórico, pois, ficamos sabendo que em função da sua habilidade, tornada famosa por setores relacionados ao governo militar, Kenshin, recebe o título de Retalhador no período do Bakumatsu. Com a vitória do projeto imperial, seus pensamentos o fazem iniciar uma peregrinação pelo novo Japão que nascia, tendo como objetivo o apagamento desse passado. Na história do anime, conhecemos Hitokiri no Battousai, foi assim que Kenshin Himura ficou conhecido no período imediatamente anterior as intensas transformações da modernização. Durante o período de desordem que antecede a renovação da figura imperial, nosso herói vivia de vender seus serviços de espadachim.

A figura do samurai como um asceta foi dando lugar a uma progressiva capitalização do caminho da espada, pois mais e mais senhores desejavam manter o seu poder local e alcançar postos junto ao poder nacional, momentos antes do colapso do sistema. O autor Nobuhiro pensou em demonstrar uma espécie de desumanização daqueles que são vistos como símbolo da cultura japonesa justamente quando passam a desejar o poder e a autopreservação.

Crédito: fonte desconhecida.

Não há datações tão específicas na obra, mas sabemos que o contexto de 1847-1867 é decisivo para a derrota do projeto tradicionalista e Himura e outros percebem o destino eminente da figura samurai, detentora do signo da violência desde meados do séc. XI. Eles ou abandonam o caminho da espada em prol do novo governo, sendo alguns de fato reaproveitados para fins de segurança pública, ou escolhem a errância e a peregrinação ensinadas pelo budismo, em busca de iluminação em um novo contexto. Após essa sua vida militarizada e desumanizada, o protagonista começa a peregrinar. Peregrina para tentar conviver com seus atos passados. Talvez, Nobuhiro, com todos os seus próprios problemas, tenha tentado mostrar o Japão em Kenshin.

Vozes de Hiroshima

Por Mateus Nascimento

Inicialmente, gostaria de sugerir aqui que quando memória e discurso se fundem ao engajamento, nasce o testemunho – que, no nosso caso, é esse ato (estilo de vida) de contar para que não se repita. Primo Levi (1919-1987) caminhou nessa direção, narrando a sua experiência em Auschwitz; há inúmeras versões do diário de Anne Frank (1929-1945), e até alguns teóricos atualmente conhecidos que escreveram ou na cadeia ou em fuga do terror nazista (Erwin Panofsky, produzindo em história da arte, por exemplo). Também há variados livros que tratam do nazismo e seu funcionamento.

O expansionismo, o holocausto, a violência política, as batalhas… Tudo isso já é de conhecimento do público amplo. Poderíamos ainda lembrar dos extermínios, da loucura nazista, dos campos de concentração, da inauguração dos fronts asiáticos, dos crimes de guerra cometidos por tantos dos países envolvidos… Muitos dados traumáticos para uma humanidade que conhecia no séc. XX um dos maiores desenvolvimentos técnico-científicos, os quais foram utilizados nesse evento de maneira traumática.

No entanto, o que poderíamos utilizar cientificamente para divergir desse quadro mais conhecido? Primeiramente, é necessário assumir que a pesquisa é uma militância, na qual os pesquisadores assumem como objetivo influenciar o meio que vivem e a humanidade com suas comprovações e explicações. Isso se chama engajamento. Segundamente, com relação ao tema específico da Segunda Guerra Mundial é possível encontrar nestas memórias e discursos ricos,  dados e conceitos possivelmente analisáveis para uma crítica qualificada. Às vezes podem ser encontradas direções inéditas que dão novo fôlego a pesquisa e a reflexão.

Me refiro a trajetória dos Sobreviventes de Hiroshima, após a bomba. Sim, homens e mulheres que testemunharam o horror daquele dia – 6 de agosto – e apesar de todo o sentimento que poderia brotar, decidiram viver militando pela paz, alertando ao mundo sobre os horrores da guerra em tempos tão conturbados.

Junko Watanabe, 76 anos. Takashi Morita, 96 anos. Kunihiko Bonkohara, 78 anos.
Créditos: divulgação do projeto Sobreviventes pela Paz

Eis, os três são sobreviventes de Hiroshima. Seus testemunhos daquele contexto se encontram no livro organizado por Cristiane Izumi e Paulo Endo, os quais tendo a psicologia como campo de especialização, organizaram um evento sobre Hiroshima e Nagasaki no Instituto de Psicologia da USP em setembro de 2012. Deste encontro, nasceu o livro Hiroshima e Nagasaki: testemunho, inscrição e memória das catástrofes. Takashi Morita, por sua vez, tem seu testemunho publicado em livro a parte, A última mensagem de Hiroshima: o que vi e como sobrevivi à bomba atômica, lançado em 2017…

Capa do livro Hiroshima e Nagasaki. Créditos: foto do autor.

O primeiro livro conta com artigos de variados autores, com destaque para os textos de Ecléa Bosi e Sedi Hirano que apresentam um rico panorama dos fatos e uma análise tanto da guerra quanto das implicações dela partindo da metodologia da psicologia social para se compreender essa inscrição da memória tanto individual quanto coletiva das catástrofes. O conceito remete a psicanálise, aquele exercício de interpretação dos simbolismos e suas aparições subjetivas, que afetam o social e a socialização. Não possui só artigos, também está recheado com os testemunhos transcritos dos idosos e alguns de seus desenhos, criados como um escape ao que viam – ricos materiais para um estudo de arte que seria inédito, o testemunho em desenho.

Foto: Pessoas queimadas vagando em meio a Hiroshima em chamas. Desenho do senhor Takashi Morita, que autografou o exemplar do autor em agosto de 2018. Créditos: foto do autor.

Quanto ao livro dedicado ao testemunho do senhor Morita, parece-nos que Hiroshima se faz como uma cidade completamente incendiada, com pessoas carbonizadas, feridas em pústulas vivas, e os cadáveres quase informes, todos protestando silenciosamente contra a guerra. Ficamos sabendo de todo o dia 6, desde antes do bombardeio até as medidas adotadas pelo governo japonês que se encontrava prostrado.

Vemos isso através de sua palavras vívidas que se insurgem contra a guerra. De fato os eventos que acontecem entre 1939 e 1945 mexem com o mundo todo e alguns dos acontecimentos ainda encontram espaço na memória popular. Trata-se de um dos momentos mais importantes da história da humanidade: a Segunda Guerra Mundial.

Capa do Livro com o testemunho do senhor Takashi Morita. Crédito: foto do autor.

Talvez, voltar os ouvidos para a paz e para os seus defensores seja um caminho para refletirmos e mudarmos a direção em tempos pandêmicos em que a humanidade encontra-se mais uma vez contestada e poderosos roubam insumos entre si. Pela vida, pela paz: Hiroshima nunca mais.

Rogério Nagai, diretor e idealizador do “Sobreviventes pela paz” fala sobre o projeto exclusivamente para o MidiÁsia.

Ficha técnica:  
Título: Hiroshima e Nagasaki: testemunho, inscrição e memória das catástrofes.
Organizadores: Cristina izumi e Paulo Endo
Editora: Benjamin Editorial
Ano: 2015.

Ficha técnica:  
Título: A última mensagem de Hiroshima: o que vi e como sobrevivi à bomba atômica.
Autores: Takashi Morita
Editora: Universo dos livros
Ano: 2017

MidiÁsia entrevista Hugo Katsuo, diretor de “O Perigo Amarelo nos Dias Atuais” e “Batchan”

Por Daniela Mazur

Em meio ao debate sobre a população amarela brasileira nesse momento em que o coronavírus está em voga, é necessário, mais do que nunca, abordar representações e ideias concretas sobre a pauta brasileiro-asiática aqui. Em entrevista concedida ao MidiÁsia, o graduando em Cinema&Audiovisual da UFF e diretor e criador dos documentários “O Perigo Amarelo nos Dias Atuais” (2018) e “Batchan” (2020), Hugo Katsuo fala sobre questões relacionadas ao universo de discriminação contra amarelos no Brasil, a concepção da ideia de “minoria modelo” e a construção do perigo amarelo como parte essencial para entendermos as conotações racistas sofridas por essa parcela de brasileiros, especialmente dentro do contexto atual em que há a tentativa de racializar o Covid-19 como um “vírus chinês”.

Hugo Katsuo, diretor de O Perigo Amarelo nos Dias Atuais e Batchan. Crédito: Mariana de Lima.

“O Perigo Amarelo nos Dias Atuais” e “Batchan” falam muito sobre a experiência do amarelo no Brasil, mas também apresentam nuances de diferentes perspectivas de brasilidade. Como essas duas obras dialogam? O que você acredita que elas apontam na nossa sociedade?

Hugo Katsuo: Ambos falam sobre a vivência amarela no Brasil, mas trilham caminhos bastante diferentes. Acredito ser mais fácil descrever as diferenças entre eles do que as semelhanças. Quando dirigi “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais”, eu estava pensando em um documentário que fosse quase como um guia didático sobre o que seria essa tal de “militância amarela” e, portanto, a linguagem dele foi feita somente a partir de entrevistas que abarcavam desde reflexões teóricas, acadêmicas, até o relato de experiências individuais. Em outras palavras, este filme foi feito para auxiliar a divulgação do movimento amarelo e servir de material para pesquisas, auxiliando pesquisadores dos estudos asiáticos e/ou asiático-brasileiros. “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais” foi idealizado como um documentário explicitamente militante.

Cartaz oficial de “O Perigo Amarelo nos dias atuais” (2018). Crédito: Ing Lee.

O “Batchan”, por outro lado, não teve essa pretensão. Eu pensei no filme, inicialmente, como uma forma de me aproximar da minha avó, que é a minha principal referência de ancestralidade, e, sobretudo, como forma de preservar a sua memória. É claro que acredito na preservação da memória como uma forma de militância, mas não foi no intuito de fazer um cinema com uma militância explícita que eu dirigi este curta-metragem. E isso influenciou muito a linguagem que eu utilizei nele. “Batchan” é um filme muito mais pessoal e fala não somente sobre o percurso da minha avó em relação à sua espiritualidade, mas também o meu percurso em busca de uma ancestralidade. Ambos os filmes, entretanto, buscam um pertencimento, ainda que partindo de percursos bem distintos.

Cartaz oficial de “Batchan”. Crédito: Mariana de Lima.

Mesmo sendo ainda graduando, você já produziu obras de destaque que estão circulando nos circuitos de debates raciais, especialmente dentro dos espaços asiáticos-brasileiros. Como foi a construção da sua maturidade profissional e de indivíduo para chegar a produção desses conteúdos?

HK: Comecei a estudar sobre questões amarelas um pouco antes de entrar para a graduação e já ingressei no curso de Cinema & Audiovisual com a pretensão de dirigir “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais”, mesmo que, na época, eu pensasse esse documentário de outra forma. Inicialmente, queria que o filme fosse sobre imigração japonesa e, depois de entrar em contato com o tema da representatividade, queria que fosse feito a partir de relatos de artistas amarelos no Brasil. Em 2017, entretanto, fui a São Paulo e participei de uma reunião entre os membros do Perigo Amarelo, do Asiáticos Pela Diversidade e da Plataforma Lótus. Conversamos sobre diversas questões, entre elas, sobre como havia um entendimento muito superficial do que essa militância propunha e reivindicava. Foi nesse momento que mudei radicalmente a proposta do documentário e ele se tornou um filme sobre a militância amarela no Brasil.

Trecho da entrevista de Felipe Higa no filme “O Perigo Amarelo nos dias atuais”.

Dirigi “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais” no começo de 2018, eu tinha 18 anos na época. Tenho 20 anos agora e estou para fazer 21 no final do mês. E muita coisa mudou. Atualmente, eu delimitaria outros recortes temáticos e talvez focasse menos em questões como representatividades, mas sem excluí-las. Amadureci muito ao mesmo tempo em que a própria militância amarela também amadureceu. No final de 2018, quando exibi pela primeira vez o filme, ele já estava, de certa forma, datado. Em termos de amadurecimento profissional, acho que estou no processo de encontrar minha própria linguagem cinematográfica e acredito que “Batchan” foi um filme que me proporcionou muito aprendizado nesse sentido. Com uma equipe muito reduzida e querida, tive a oportunidade de brincar esteticamente com o documentário, apesar de já achar que eu poderia ter arriscado mais.

Dentro da perspectiva de raça, como foi a sua trajetória de compreensão pessoal como brasileiro amarelo? Como o racismo se apresentou para você nesse processo?

HK: Lembro até hoje que estava conversando com a minha avó materna, que não é nipo-brasileira, sobre o meu avô (nipo-brasileiro) que faleceu antes de eu nascer. Ela comentou comigo sobre algumas perseguições que ele sofreu durante a infância e adolescência. Não entendi muito bem quando ela disse que o Estado confiscou os bens da família do meu avô e, por isso, comecei a estudar sobre imigração japonesa. Descobri, então, sobre as perseguições que esses imigrantes e filhos de imigrantes passaram e sobre o debate em torno da entrada ou não dos asiáticos amarelos no país. Mas, até então, eu ainda não tinha adentrado na dimensão racial e acreditava que, por eu não ser negro, eu era branco.

Frame de “Batchan” (2020), documentário de Hugo Katsuo.

Em uma aula de História, no ensino médio, estávamos estudando as políticas imigratórias no governo Vargas e o professor comentou que elas eram contra a entrada de imigrantes “não-brancos” no país. Lembro de ter levantado a mão e falado: “e contra a dos japoneses também”. O professor, então, respondeu: “todos os não-brancos”. Foi ali que comecei a pesquisar sobre racismo contra amarelos no Brasil e achei pouquíssimo material. Posteriormente, conheci, através do Hugo Noguchi, a página do Perigo Amarelo e descobri que tinham outras pessoas pautando essas questões também. Acho que vale ressaltar que, por mais que eu achasse que era branco, eu já tinha consciência de que eu era diferente e que não me tratavam da mesma forma que os meus amigos que eram, de fato, brancos. As piadas e os estereótipos raciais sempre me incomodaram, mas até então eu não sabia dar nome a esse incômodo. Lembro que durante a minha infância e adolescência essas piadas racistas vinham não só de outros alunos como também de alguns professores. Entender os processos pelos quais passei e ainda passo foi muito importante para aprender a me impor em situações como essas.

O fato de ser asiático-brasileiro tá inscrito nos seus trabalhos, como você define hoje a presença dos corpos amarelos na mídia brasileira? Como a representação é importante para essa parcela da sociedade?

HK: Acredito que há escassez de representações amarelas no audiovisual brasileiro. Admito que tenho, atualmente, um pouco de preguiça dos debates em torno de representatividade porque acho que eles tomam um viés muito superficial e, por vezes, flertando com o neoliberalismo. Não acho que a representatividade por si só mude as coisas. Mas acho que pensar em novas práticas representacionais é extremamente importante no processo de humanizar corpos racializados. Precisamos urgentemente criar novos repertórios imagéticos, novas narrativas, que tirem grupos não-hegemônicos do lugar que foi imposto a eles. Acredito que trazer à tona novas representações, mais humanas e menos estereotipadas, potencializa mudanças. Temos, entretanto, que tomar cuidado em achar que a mudança termina aí. Meu trabalho parte muito de tentar afastar essas narrativas racializadas de contextos brancos, despir elas de estereótipos, criar espaços de pertencimento e preservar memórias.

Captura de “Batchan” (2020) com foco em Luiza Okabayashi, avó de Hugo.

O que é ser amarelo no Brasil nos dias de hoje? Quais elementos da sua realidade como homem racializado mudaram ou se mantiveram nos últimos anos no nosso país?

HK: A minha perspectiva em relação às mudanças que ocorreram nos últimos anos em relação a ser um homem amarelo no Brasil está muito relacionada às minhas pesquisas acadêmicas nas quais estou procurando investigar de que forma a entrada do soft-power sul-coreano mudou a percepção, em relação às dinâmicas de desejo e desejabilidade, sobre nossos corpos. Até pouco tempo atrás, eu era visto como indesejável e, de uma hora para outra, comecei a perceber pessoas me fetichizando racialmente. Não sei ainda se os estereótipos em torno do corpo do homem amarelo mudaram, mas, se não mudaram, com certeza o olhar sobre eles mudou. Inicialmente, isso parece inofensivo ou, até mesmo, uma mudança positiva. Mas, se entendermos o fetiche racial como um desejo baseado na objetificação da raça, ele causa danos aos corpos que são fetichizados porque desumaniza eles.

Existe certa invisibilidade da presença amarela no Brasil? Pela sua perspectiva, como os debates sobre raça, racismo e xenofobia estão se apresentando hoje dentro da comunidade asiática-brasileira e na mídia?

HK: Até pouco tempo atrás, acredito que existia uma grande invisibilidade dessa parcela da população brasileira. Atualmente, por mais que o debate ainda esteja muito centralizado em São Paulo e em certas bolhas da internet, percebo que a temática da discriminação contra amarelos cresceu bastante. Isso diz muito, a meu ver, sobre privilégios de classe também. O movimento asiático-brasileiro se configura, até onde eu sei, em 2015, com a criação da página do Perigo Amarelo. Em cinco anos já conseguimos trazer esse debate para muitos espaços midiáticos. Isso se dá, sobretudo, porque foi permitido que nós ocupássemos esses espaços, graças à nossa rápida ascensão social e econômica – que é um privilégio da minoria modelo.

Ilustração de Ing Lee para o filme “O Perigo Amarelo nos dias atuais”.

O asiático-brasileiro considerado como “minoria modelo” é percebido também como perigo amarelo ou isso muda dentro da perspectiva do contexto político-social? Quais são as peças que ditam esse jogo?

HK: Podemos ser percebidos como a minoria modelo, mas, às vezes, somos lidos como o Perigo Amarelo. Isso está muito em evidência nos últimos dias, com a racialização do coronavírus enquanto um “vírus chinês”. Mas antes disso já podíamos perceber um pouco dessa dinâmica. Por mais que sejamos vistos como uma minoria inteligente, esforçada e trabalhadora, também somos vistos como perigosa. Por exemplo, justamente pelo estereótipo da minoria modelo somos entendidos como uma ameaça em relação a “roubar” empregos ou vagas nas universidades. Se vamos ser lidos como o perigo amarelo ou como a minoria modelo, depende muito do contexto em que estamos inseridos e isso vai ditar as violências que vamos sofrer. Mariana Akemi, no documentário “O Perigo Amarelo Nos Dias Atuais”, comenta que ela é tratada de uma forma quando está na faculdade e de outra completamente diferente quando está na barraca de pastel dos pais. Acredito que haja aí também uma dimensão de classe.

Trecho da entrevista de Mariana Akemi no filme “O Perigo Amarelo nos dias atuais”.

É óbvio, por exemplo, que, na maior parte do tempo, serei tratado como a minoria modelo por ser um nipo-brasileiro de classe média alta inserido num contexto artístico e acadêmico. Em contrapartida, um imigrante chinês que trabalha numa lanchonete vai ser tratado como o perigo amarelo e sofrer muito mais agressões do que eu. É importante, portanto, que a gente comece a olhar cada vez menos para o próprio umbigo e começarmos a construir, de fato, pontes de solidariedade antirracista. Isso, entretanto, só vai acontecer se nos dispusermos a perder alguns privilégios que nos foram concedidos. Só vai acontecer se abandonarmos a minoria modelo e assumirmos o papel de perigo amarelo.

Quais são os seus planos para próximos trabalhos? Quais perspectivas da presença amarela no Brasil você ainda tem interesse de abordar e colocar em voga nos debates de raça no país?

HK: Estou com dois projetos audiovisuais para serem feitos. O primeiro é uma ficção LGBTQ, que será protagonizada por Nícolas Tadashi e Ciana Lopes. Nele, não entro muito nas dimensões raciais, penso mais a partir de questões de sexualidade e gênero. A minha ideia é mostrar esses corpos LGBTQ+ a partir da dor de um término, deixando a dor das violências cotidianas causadas pela LGBTQfobia em segundo plano. Os dois personagens que acabaram de terminar seus respectivos namoros começam um extenso diálogo sobre a experiência amorosa, a morte e a linguagem. A morte tem um viés mais simbólico, mas ganha também, por vezes, uma dimensão literal a partir do momento em que dialogam também com a morte das vítimas de LGBTQfobia. Mesmo este não sendo o foco do roteiro, resolvi não ignorar essa realidade. O meu outro projeto, que acredito que vá demorar mais tempo para ser feito por motivos financeiros, também é LGBTQ, mas é um documentário experimental, muito influenciado pelo filme “NEGRUM3”, de Diego Paulino, que vai trazer à tona o debate sobre LGBTQs amarelos no Brasil. Já no âmbito acadêmico, pretendo continuar minha pesquisa sobre pornografia e relações raciais no mestrado.

Para encerrar, quais canais, páginas, coletivos você recomenda para aqueles que se interessam em aprofundar seu entendimento sobre questões amarelas no Brasil?

HK: Recomendo muito o blog OutraColuna no qual são postados vários textos produzidos pela militância asiático-brasileira. No youtube, não tenho como não citar o canal do Leo Hwan. Para além disso, recomendo a leitura de pesquisadoras como Lais Miwa Higa e Marcia Yumi Takeuchi. 

Vídeo do canal Leo Hwan. Crédito: Leo Hwan.

Our Shining Days: quando Ocidente e Oriente se encontram numa batalha muito mais do que musical

Por Mayara Araujo

Ao se falar sobre a China no Ocidente, os discursos e narrativas tendem a ser pejorativos, com um tom ameaçador e repleto de uma profunda falta de conhecimento sobre o gigante asiático. A verdade é que, para além de estereótipos envolvendo comidas exóticas, artes marciais e preconceitos associados a sua cultura e sistema político, a China permanece sendo um território pouco explorado no senso comum do cidadão brasileiro. Por sorte, com o apoio das facilidades promovidas pelas novas tecnologias da comunicação, nos encontramos em uma posição privilegiada para investigar um pouco melhor tal país, através de seus produtos midiáticos que podem ser encontrados em plataformas de streaming como a Netflix e outras vias não oficiais. É nesse contexto que nos deparamos com Our Shining Days, um filme musical de temática adolescente que aborda uma emocionante batalha entre instrumentos musicais tradicionais chineses e os instrumentos clássicos ocidentais. Embora muitos possam torcer o nariz para filmes teen, saiba de antemão que de bobo, Our Shining Days não tem nada.

A história acompanha dois grupos de estudantes de uma escola de música – um da orquestra chinesa e o outro da orquestra clássica – que vivem uma atmosfera de constante rivalidade, competindo sobre quais instrumentos musicais são melhores. O primeiro grupo é composto por estudantes focados em tocar os instrumentos que conhecemos no ocidente, como o piano e o violino, enquanto a orquestra chinesa é especializada em instrumentos musicais tipicamente chineses, como o yangqin e o guzheng, sobre os quais dificilmente os espectadores ocidentais detém conhecimento a respeito. Evidentemente, como todo bom filme de temática adolescente, ele trabalha com clichês do gênero e, com isso, existe uma disputa de poder entre o grupo “popular” e o grupo minoritário, que é constantemente perseguido pelos populares e pela administração da escola. Nisso, os estudantes da orquestra chinesa precisam se reafirmar e reafirmar a importância de seus instrumentos, diante de um cenário de zoações e ameaças de perda de espaço físico, o que os impediriam de praticar.

Em um primeiro momento, a protagonista Chen Jiang (Xu Lu) não se vê envolvida com essas dinâmicas conturbadas entre os grupos rivais, pois está concentrada em seu próprio cotidiano. No entanto, esse cenário rapidamente se transforma, ao se apaixonar pelo pianista Wang Wen (Luo Mingjie). Ao se declarar para Wang Wen, ele não somente a rejeita, como também exalta publicamente o seu desapreço pelos instrumentos musicais chineses, fazendo-a se sentir humilhada. Assim, Chen Jiang rapidamente assume a liderança da disputa musical e se vê determinada em provar tanto para Wang Wen quanto para a orquestra clássica – e a própria escola – o valor e a importância dos instrumentos musicais chineses.

Yangqin, erhu, guzheng, pipa, cello/violin/viola/double bass ...
Instrumentos musicais chineses. Crédito: kijiji.ca

Através da metáforada rivalidade entre dois grupos que preferem instrumentos musicais diferentes, traça-se nas entrelinhas a atual narrativa da recorrente competição por protagonismo e liderança global entre a China e o Ocidente, representado principalmente pelos Estados Unidos. De fato, a importância da China no cenário internacional tem se apresentado de forma cada vez mais proeminente, seja por conta de sua pujança econômica ou seu desenvolvimento tecnológico que vem chamando a atenção ao redor do mundo. Além disso, é perceptível os recentes e crescentes investimentos chineses em propagar a sua cultura ao redor do mundo, através de institutos culturais como o Instituto Confúcio (ICs), inserção da mídia chinesa em diversos idiomas (como a Xinhua News e o China Daily) e a busca em aperfeiçoamento de linguagem para a criação de um cinema com forte apelo internacional. O avanço da China, sem dúvida, contribui para colocar em xeque as pressuposições sobre essa nação diante do mundo ocidental.

Para desafiar a orquestra clássica de forma oficial, Chen Jiang se une com outros cinco estudantes da orquestra chinesa: Li You (Peng Yu Chang), seu melhor amigo que toca o tambor chinês; Xiao Mai (Liu Yongxi), também conhecida como “senhor dos mil dedos”, por conta de suas performances super populares nas comunidades otakus da internet; Ying Zi (Li Nuo), que toca erthu (uma espécie de flauta) e sofreu tanto bullying na escola que parou de falar; Beibei (Lu Zhaohua) e Tata (Han Zhongyu), duas meninas que se vestem no estilo lolita e que tocam ruan e pipa. Juntos, eles formam a banda 2.5 Dimension. No entanto, a falta de popularidade de Chen Jiang é tão expressa que para conseguir formar a banda, ela se compromete a comprar action figures de preço elevado para as participantes não a deixarem na mão e usarem seus talentos em conjunto, para o bem da banda.

Em uma explícita referência a cultura pop japonesa, o 2.5 Dimension é convidado para fazer uma performance ao vivo em uma convenção de animê, na qual também se deparam com olhares desconfiados do público que estava animado com apresentações musicais anteriores de grupos de C-Pop. No entanto, ao começarem a deixar o som de seus instrumentos musicais transparecer, o público geek do evento acaba se aglomerando e ampliando a audiência, aplaudindo ativamente os músicos e disponibilizando a apresentação em plataformas digitais.

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Poster promocional do filme. Crédito: Edko Films Ltd. 

Com a popularidade recém obtida, Chen Jiang, diante de uma plateia de estudantes, novamente se declara para Wang Wen, mas recebe mais um não como resposta. Em mais uma metáfora, Wang Wen, pianista clássico, rejeita a protagonista ao dizer que eles são muito diferentes e que têm objetivos distintos e pede, portanto, para que ela pare de atrapalhar a vida dele. No entanto, inesperadamente, os espectadores da cena compram o lado de nossa protagonista e a defende das humilhações recebidas. Nesse momento, Li You assume a cena, em uma brilhante atuação do jovem ator Peng Yu Chang, que ensina Wang Wen e a nós, os espectadores, as origens do yangqin, que é tocado na China há mais de 400 anos. Nessa alegoria, o roteiro ressalta o valor das tradições chinesas e exige o respeito merecido por sua História e sua cultura.

No retorno das férias de verão, a orquestra chinesa é surpreendida com o anúncio do encerramento das atividades do departamento devido a pouca popularidade obtida ao longo dos anos. Nisso, os estudantes se propõem a defender a permanência do departamento e embarcam em uma disputa musical contra os alunos da orquestra clássica. Em uma emocionante disputa sonora, a orquestra chinesa se faz vitoriosa, obrigando a orquestra clássica a reconhecer a qualidade e o valor dos instrumentos tradicionais chineses. No mais, as apresentações da orquestra chinesa em eventos oficiais e de prestígio para além do ambiente escolar, acabam por influenciar uma nova geração de estudantes de música que, inspirados nesse grupo, vão optando por aprender mais sobre os instrumentos tradicionais.

Por fim, Our Shining Days traduz uma celebração da China de uma maneira leve e ambiciosa, na qual dialoga com o público jovem ao mesmo tempo em que consegue transpor a importância de suas tradições e o orgulho pelo passado através de uma repaginada. Com o pano de fundo musical, a batalha entre oriente e ocidente se torna a veia condutora dos acontecimentos. No mais, independentemente de vitórias ou derrotas musicais, o filme traz uma abordagem revigorada sobre sua própria sociedade, quebrando estereótipos do gigante asiático e revelando uma profunda autoestima. Nisso, a China nos brinda com sua tradição musical, jamais contemplada no Ocidente, e nos apresenta uma trilha sonora repleta do empolgante som do C-Pop.

Our Shining Days - Part 1: Movie Analysis - Ignite Chinese
Crédito: ignite chinese

Ficha Técnica: 

País: China  | Direção: Wang Ran | Roteirista: Bao JingJing | Elenco: Xu Lu; Peng Yuchang; Liu Yongxi; Li Nuo; Lu Zhaohua; Luo Mingjie; Han Zhongyu | Duração: 100min | Ano: 2017

O Japão desde o Brasil: O próximo e o distante de Renato Ortiz

Por Mateus Nascimento

O próximo e o distante: Japão e modernidade-mundo, escrito por Renato Ortiz, inova ao propor uma espécie de explicação sociológica da aventura da modernidade para além dos referenciais eurocentrados que conhecemos, tendo como objeto heurístico o Japão e a sociedade japonesa.

O livro foi publicado no ano 2000 (editora Brasiliense) e é fruto da elaboração teórica deste autor que desejou problematizar a modernidade e a leitura tradicional que se faz sobre ela. Muitos pesquisadores mais clássicos a pensam como um programa que se expande de um centro europeu para o restante do mundo.

Capa do livro. Créditos: foto do autor.

Por sua vez, Ortiz, após uma estada de aproximadamente 3 meses no Japão, visitando bibliotecas e espaços culturais consagrados em Tóquio, mergulha na história e na cultura dos hábitos para refletir sobre os marcos da modernidade para além das origens europeias do programa, partindo de uma análise das especificidades do trato social japonês.

O estudo dos temas sociais como gosto, modos e cultura tradicional que são pontuados no livro como integrantes da constelação de símbolos do Japão, revela uma concordância (não explícita) de Ortiz com o conceito de intuição poética de Roger Bastide, que dizia que a sociologia só poderia ser renovada e útil se se detivesse no estudo do imaginário do poder e da cultura – as imagens e formas sociais do discurso institucional sobre a tradição – e o inconsciente coletivo, os quais são usados para se compreender sociologicamente um todo articulado de relações e ações. 

Nesse sentido, o trabalho pioneiro de Ortiz se utiliza da história japonesa como a base para compreender a relação da modernidade com a modernização não só no campo econômico, mas também, e sobretudo, no campo cultural. Sociólogo de formação, busca uma explicação da realidade japonesa, e como ele mesmo diz, a toma como “um espaço possível para a leitura do movimento de mundialização da cultura”.

Seu conceito de mundialização é importantíssimo, pois significa a compreensão dos novos alcances da esfera cultural, que se tornou um poder na era das relações globalizadas. A própria questão da identidade como construção segue a lógica dessa sociedade global, na qual existe um fluxo (e, eventualmente, contrafluxos, não-hegemônicos) que atravessa essa construção em si. A partir dessas relações sociais planetárias forma-se um conjunto articulado de comunicação que vai influenciar as formações identitárias e vice-versa.

Aplicando tal perspectiva, o autor comprova a existência de uma manifestação da globalização nas formas pelas quais os hábitos sociais acontecem. Ele se refere aos mesmos hábitos antes de 1868 e após 1945, momentos em que o Japão se encontrou com países-potências. Através desses contatos é possível ver mudanças na realidade japonesa orientadas pela preocupação com o restante do mundo ao mesmo tempo que a permanência de elementos tradicionais no espaço público no séc. XIX e  uma mudança das relações de força, quando o Japão assume o campo da exportação da cultura pop no séc. XX e XXI. Para Ortiz, são movimentos de mundialização da cultura japonesa.

A aplicabilidade do conceito se materializa quando, por exemplo, pensamos o período Meiji, momento crucial para a política japonesa: ali nascia um Japão que precisava se modernizar e se atualizar de acordo com as práticas institucionais existentes no jogo das relações entre potências. Portanto, se pensarmos sobre as continuidades desde o período Meiji até a novíssima era Reiwa – a contemporaneidade – em que o Japão se renova na cena pública global, a leitura de Ortiz é indispensável.   

Ficha técnica:  
Título: O próximo e o distante: Japão e modernidade-mundo.
Autor: Renato Ortiz.
Editora: Brasiliense.
Ano: 2000.  

Revista Intertelas entrevista Mayara Araujo, pesquisadora do MidiÁsia

Por Alessandra Scangarelli (Via Revista Intertelas)

Nesta entrevista concedida à Revista Intertelas, nossa pesquisadora Mayara Araujo, também doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (PPGCOM-UFF) e Mestre em Comunicação e Cultura pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro analisa a produção audiovisual japonesa e, em específico, o impacto e os problemas atuais dos chamados doramas para a promoção do país no exterior e no Brasil.

Como a cultura japonesa entrou na sua vida e o que ela transformou?

Eu tive meu primeiro contato com a cultura japonesa a partir de Pokémon, quando foi transmitido na TV em 1999. Desde então, passei a me interessar por outros animês e, eventualmente, esse meu interesse de infância foi se transformando e amadurecendo: acabei procurando um curso de japonês, culinária, turismo e, por fim, utilizar essa afinidade como objeto de estudo no mestrado. A meu ver, ter a possibilidade de pesquisar elementos da cultura japonesa academicamente foi a maior transformação que essa preferência me proporcionou, visto que eu consegui fazer disso um trabalho.

O dorama “Long vacation”. Crédito: https://dramaswithasideofkimchi.com

Como você avalia o mercado de doramas dentro e fora do Japão?

Fora do Japão e da Ásia, o mercado é praticamente inexistente. A maior forma de consumo é através da comunidade de fãs da cultura pop japonesa que legendam e distribuem esse conteúdo por conta própria. Há algumas iniciativas de parcerias entre as redes televisivas japonesas e plataformas de streaming, como é o caso da TV Fuji com a Netflix. Além de licenciar animês, agora também é possível assistir dramas de TV japoneses pela plataforma. Mas o mais interessante, a meu ver, são os doramas co-produzidos pelas duas companhias, que gerou conteúdo de sucesso como “Good Morning Call” e “Erased”. Talvez um dos motivos de certo “apagamento” dos doramas frente aos K-dramas (dramas de TV sul-coreanos) seja uma possível necessidade japonesa em dialogar somente entre seus pares.

Enquanto a estratégia da Coreia do Sul em relação a sua indústria midiática consistiu em buscar elementos em comum entre os países de seu entorno regional ou com o ocidente, o Japão insiste em produzir conteúdo visando especificamente o mercado doméstico. O próprio Ota Toru, produtor da Fuji TV e um dos criadores dos “trendy dramas” (o formato que consumimos atualmente e que foi emulado pela Coreia do Sul, por exemplo) chegou a afirmar que a estratégia consistia em atingir o mercado interno.

O dorama “Good Morning Call”. Crédito: Amino Apps.

Qual o impacto dos doramas japoneses no Brasil, levando em conta que é o país com maior comunidade de japoneses fora do Japão?

Eu diria que bastante incipiente. Apesar de termos a maior colônia japonesa do mundo, a circulação dos doramas no Brasil acabou sendo ofuscada pelos animês e tokusatsus (filmes ou séries live-action que fazem um uso forte de efeitos especiais) que vêm preenchendo horários de nossas grades televisivas desde a década de 1970, mais ou menos. Inicialmente, os doramas acabaram ficando restritos ao circuito dos fãs dos animês, que acabavam se interessando por outros conteúdos japoneses e legendavam e distribuíam na Internet.

No início dos anos 2000 também havia o comércio pirata de doramas em alguns bairros em São Paulo (onde se concentra uma grande quantidade de descendentes de japoneses), mas, de forma geral, o circuito ficou vinculado às plataformas digitais. No Brasil, tivemos pouquíssimas oportunidades nas quais os doramas foram exibidos em nossas redes de televisão, sendo que o mais recente foi o dorama “Dear Sister”, que foi transmitido em 2017 na TV local E-Paraná. Sem dúvida, não houve esforços para popularizar o formato.

O dorama “Dear Sisters”. Crédito: Animo Apps.

Acredita que os doramas promovem ou instigam debates e transformações sociais?

Sem dúvida. Muitos dos dramas japoneses que circulam dialogam com questões delicadas, como xenofobia no Japão, a questão do trabalho x maternidade e excesso de horas extras trabalhadas. É claro que precisaria de mais pesquisas e aprofundamento nesse ponto para afirmar que essas temáticas acarretam em transformações sociais, mas me parece evidente que certos questionamentos são lançados.

O dorama “Erased”. Crédito: Netflix.

Acha que os doramas são uma ferramenta que o Japão usa para promover a cultura e a economia do país no exterior?

Quando a gente pensa na realidade brasileira ou latino-americana é perceptível o quanto sabemos poucos sobre esse formato televisivo. As estratégias de difusão de cultura e desenvolvimento do soft power japonês são completamente ancoradas nas animações e em elementos mais tradicionais de sua cultura. Há autores que afirmam que a entrada de animês em países do leste e sudeste asiático é menos problemática, pois são “inodoros”, ou seja, não são etnicamente japoneses. Como o Japão tem um passado conturbado por conta de seu imperialismo, muitos países da região restringiram a entrada de conteúdo japonês por muitos anos. No entanto, desde a década de 1990, os trendy dramas obtiveram sucesso em alguns países e se tornaram referenciais de modernidade e estilo de vida para a juventude asiática. Eu diria, então, que não são os protagonistas, mas cumprem um papel.

O que acha que precisaria melhorar neste ramo?

A experiência sul-coreana em relação a difusão dos K-dramas globalmente é digna de nota. Até pouco tempo atrás, aqui no Brasil, nós mal ouvíamos falar da Coreia do Sul e hoje ela parece perpetuar no imaginário da camada jovem da sociedade. Alguns falam de hibridização do conteúdo, ou seja, tornar os K-dramas palatáveis para qualquer audiência. Talvez tenha sido um modelo de sucesso. Os doramas acabam sendo muito centrados na lógica japonesa, na realidade japonesa e em uma suposta forma de “ser japonês”. Me parece uma espécie de criação (involuntária) de soft power a partir da exclusão, de vender a ideia do exótico, do diferente e do “venha me decifrar” para atrair o público. Não sei até que ponto isso funciona.

E o Brasil como poderia refletir a presença dos doramas em seu mercado para seus objetivos de propagação da cultura brasileira e cooperação com o Japão?

O formato dos dramas de TV tem características que lembram as telenovelas brasileiras como, por exemplo, a presença do melodrama. De certa forma, são linguagens que dialogam. Em 2005, a Rede Bandeirantes e a NHK coproduziram “Haru e Natsu”: as cartas que não chegaram, uma minissérie que conta a história da imigração japonesa para o Brasil. Ela foi transmitida em 2008 no Brasil, no ano em que se comemorou o centenário da imigração japonesa, mas não houve grande visibilidade para essa coprodução.

Ainda assim, partindo do princípio de que caminhos alternativos à maciça presença estadunidense/ocidental  vivem um momento de plena efervescência, as redes de televisão brasileiras poderiam dar mais atenção a conteúdos fora desse eixo para pensar as próprias produções televisivas e incentivar à busca por novos conteúdos. Os brasileiros são poucos representados nos doramas e são uma grande comunidade de estrangeiros no Japão. O mesmo ocorre com os japoneses e seus descendentes no Brasil.

O dorama “Haru e Natsu”. Créditos: YouTube.

É possível modificar está situação? Se sim, o que é preciso para modificar e como fazer?

De forma geral, os doramas não costumam apresentar muitos personagens estrangeiros. De fato, eu nunca assisti um dorama com um personagem brasileiro, apesar de já ter visto menções a brasileiros famosos. Em “Long Vacation”, por exemplo, o protagonista chama-se “Sena” e há diálogos em que ele é chamado de “Ayrton”. No caso das telenovelas brasileiras, há um enorme apagamento em relação aos japoneses e, quando são representados costumam ser interpretados por brasileiros sem parentesco com japoneses. Há iniciativas para promover a presença de artistas asiáticos na TV brasileira, como o coletivo Oriente-se, que pode ser uma ponte para diminuir esse apagamento. No caso japonês, desconheço iniciativas.